“Serena”, bola fora de Ian McEwan

Acabei Serena, romance de Ian McEwan lançado “mundialmente” entre nós pela Companhia das Letras, como diz o selo colado à capa.

Ainda não saiu no inglês original no país do autor, certamente porque nós, emergentes dos BRICs, já temos muito mais livrarias do que a grande Buenos Aires; trocadilhando, imbricamos de vez no primeiro mundo da literatura; estamos lendo mais e melhor, não apenas os fenomenais Paulo Coelho com sua coalhada esotérica ou as aventuras de Harry Potter.

Serena é um livro menor diante de Reparação, Sábado ou mesmo do nada memorável Solar.

A corrida desembestada e, digamos, epistolar, que pega o leitor no final, depois de 200 e tantas páginas do mais fino tédio, não vale o ingresso.

A heroína, Serena Frome, é um personagem um tanto quadrado e irreal, uma mulher comum sem as dimensões que podem tornar a existência de um ser humano comum algo fascinante. Ela não é uma mulher (ficcional) de verdade.

E os namorados da moça, ainda mais, parecem figuras de papel ameaçadas por um banho de solvente, como em Uma Cilada para Roger Rabbit.

McEwan produziu um romance laboratorial, insensível e impotente sobre o espírito de qualquer época.

É uma história ensimesmada, por tratar da própria literatura e da carpintaria literária, como tantas tentativas mais ou menos iguais por aí.

Leia também:

 

 

Lobotomias

Capa do flit. O que é ideologia, opúsculo de madame Marilena Chaui, é a literatura mais deformante que pode haver. Algumas vítimas desse flit paralisante mental babam até a hora da morte, incapazes de procurar o conhecimento de forma autônoma e pensar por conta própria.

Os meninos o leem e, Shazan!, desvelam o mundo real encoberto pela aparência forjada na luta de classes. Salve o velho barbudo!, a burguesia fede!, começam a bradar.

Excitados pela sabedoria que se evidencia diante do espelho, sentem-se uns iniciados, distanciam-se da família e de todas as ilusões sobre o trabalho, o capital e a civilização.

Claro, acabaram de se tornar cordeirinhos tenros espetados pelo guru que observam à frente do quadro negro, ou melhor, do PowerPoint, como Prometeu a lhes soprar o fogo sagrado.

A vida se aplaina. A verdade é o devir, o poder para o povo, apesar de “tudo isto que está aí” (sic).  O desconhecimento da História? Irrelevante. A ignorância dos fatos discutidos por pensadores livres? Não vem mais ao caso essa armação da imprensa patronal e da indústria cultural imperialista.

A democracia é uma enganação, os partidos políticos, farinha do mesmo saco. Pronto. Secou o cimento da convicção dentro das cabecinhas.

Uma nova série de  idiotas se produziu e foi às ruas, aos bares e às redes sociais se confraternizar com seus camaradas.