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Uma missa para a imprensa

alma da imprensa3

[Coluna da Inclusive.com número 9, novembro_2017]

A imprensa morreu e não descansa em paz.

Nasceu o jornal online sem caráter e dispensável. O antigo leitor acordou metamorfoseado em cascudo clicador, condenado às galés do ciberespaço.

É quase um ET semeador de tráfego na internet, presa do Google e do Facebook. Pois o clique é o critério absoluto da notícia na era digital, a teia sem escape.

O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.

Cliques dão dinheiro. A aposta barata no populismo midiático (como as “fake news”) dá dinheiro.

Isso talvez explique a falta de sintonia dos editores e o confuso alinhamento das matérias (conteúdos) nos portais.

Quando mais vulgar, mais cliques no papo. Quanto mais reles o humor, mais suja a fofoca, mais pornô a controvérsia e mais enviesada a manchete, maior a chance de um troço viralizar.

E aonde a vaca da internet vai, os jornais digitais vão atrás.

Entre o atentado terrorista e as malas do Geddel, você pode se informar sobre as aulas de furadeira da Lolita para atuar na novela das sete, desfrutar a sabedoria humanística do “artista de gênero” em voga, se iluminar com o pensamento mágico engagé de Wagner Moura e Cássia Kiss.

Um jornal deve se adaptar aos tempos. Não há nada de novo nisso. Novas editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa ao salve as baleias, do xadrez ao Pokémon, da crítica literária à culinária.

O negócio é o meio, seu McLuhan, que agora ultrapassou a mensagem.

O que exigia perícia dos editores para hierarquizar os fatos com senso e sensibilidade, no portal online virou uma terra de leiloeiros na bolsa de cliques.

A ordenação dos “conteúdos”, isto é, qualquer merreca, é um desafio que editores, desenhistas de web e programadores em geral estão perdendo.

O leitor em papel conferia uma espécie de procuração aos editores para filtrar e ordenar o que valia a pena se saber do turbilhão do mundo.

Toda manhã, confiante nesse contrato tácito, repassava as manchetes, os editoriais, as seções e separava o caderno ou a página a que mais se habituara. O resto ia para o serviço do gato. Assim se começava a ganhar o dia.

O jornal, dizia Hegel, era a “oração matinal do homem moderno”, pois havia algo de ritualístico na prática cidadã de se ler um periódico.

Agora é esse deus nos acuda. Se o jornal analógico era um veículo aristotélico, o digital está essa choldra mefistofélica.

Os anúncios viabilizavam o impresso de qualidade, mas não concorriam com a informação. Hoje travam com a matéria uma luta pixel a pixel na tela em transe.

Os donos de jornal podiam distinguir seu negócio: para o público letrado, com certa sofisticação intelectual, iam as folhas de primeira linha, e para as massas indistintas os tabloides com a pletora de sangue, suor e bundalelê. Agora, eis o busílis, os dois apelos convivem promiscuamente na mesma telinha.

O online precisa garantir milhões de cliques por milissegundo. Não tem procuração alguma de leitorados específicos, mas a imposição de publicar tudo que possa fisgar a atenção do internauta cigano.

O clicador — conforme o tipo que os digitais mais parecem perseguir — é iletrado tendente a babar na gravata, com menos de 30 anos e algum poder de compra, politicamente coxinha ou mortadela e incapaz de se deter por dois minutos numa leitura, que abandonará se não tiver carne fresca, isto é, algo que o faça estacionar e clicar mais num mesmo sítio.

As velhas gazetas, em geral, não estão conseguindo reafirmar suas identidades e põem a perder marcas e reputações, esmagadas pelo império do Facebook e do YouTube.

Jornalões e jornaizinhos estão numa cilada. Creem, falo do Brasil, que vai se safar quem mais despudoradamente representar um mundo infantilizado e hostil à inteligência e ao compromisso moderno do bom jornal de se aproximar o mais possível da verdade.

A imprensa morreu e vaga como alma penada.

É preciso que alguém mande celebrar uma missa para que pare de nos assombrar e descanse no silêncio eterno. Amém.

 

Ian McEwan e a ostentação narrativa (1)

McEwan

O escritor britânico Ian McEwan. Foto: Creative Commons

Ian McEwan me faz pensar num campeão de fisiculturismo narrativo, num Schwarzenegger do romance.

Cada vez mais o vejo como um escritor dado a exibir sua fabulosa musculatura literária num palco onde, sem querer, olimpicamente se distancia do leitor, seja ele ou não ignaro.

Em tantas páginas, saltam-lhe dos bíceps e peitorais inflados a grossa trama venosa da inteligência ficcional e estupenda cultura capaz de dominar da física de partículas à vitivinicultura, passando pelo contraponto musical e o que mais desejar.

A ostentação e o esbanjamento, creio, frequentemente tornam nebulosos personagens frágeis e descartáveis. Não consigo me imaginar relendo sua obra.

Agora, referenciar este seu último livro com o Memória Póstumas de Brás Cubas, como escreveram na orelha de Enclausurado, é o fim da picada. Machado não merece.

Não é justo exigir demasiado do drama cômico de fôlego curto sobre o feto filosófico e gourmet entrado no nono mês de gestação, a refletir sobre a picaretagem da mãe com seu amante e todos os enroscos que herdará fora do útero.

Noveleta original e de leitura agradável, Enclausurado me soa o equivalente a um divertimento musical, um scherzo, para usar uma metáfora que McEwan aprovaria. Apenas isso.

Penso que falta ao autor de ótimos livros (Reparação, Sábado, Na Praia) algo do prodígio e da ousadia de titãs da ficção com os quais alguns críticos o comparam.

McEwan carece da generosidade de autores que pudessem retratar — no século 21, no estágio atual ciência etc. — nossa espécie não apenas como primatas altamente complexos e encalacrados na vida, mas, também, como as almas cariadas que continuamos ser.

Um tipo de escritor que desgraçadamente anda em falta.

Leia também:

 

Ian McEwan e a ostentação narrativa (2)

Na madruga seguinte à leitura de Enclausurado terminei A Balada de Adam Henry, livro anterior de Ian McEwan.

Essa novela é mais interessante, ainda que termine um tanto chocha.

A juíza Fiona Maye e o rapaz testemunha de Jeová são personagens (ficcionais) de carne e osso, ela mais sólida que o herói, diga-se.

O próprio enredo e as lições de direito familiar são verossímeis.

Ok, mas McEwan é recorrentemente chato na ambientação.

Na Balada ele poupa o leitor de seu cabedal enófilo, destilado no Enclausurado com a verve de um Robert Parker.

Já para o fim da narrativa, cede ao vezo e prende-se à própria sabedoria de técnica musical, quase que a se esquecer da trama, e do pobre leitor analfabeto em contraponto.

E tome frivolidades como o desjejum do casal Fiona e Jack, no qual o café há muito era preparado “com grãos da  Colômbia de alta qualidade”, com o leite saído da máquina poderosa e derramado morno em suas canecas finas.

Mas, aos diabos, me ocorre que estou saindo aos meus antepassados ao envelhecer. Um rabugento cada dia menos tolerante com manias alheias.

Leia também:

 

Tempo morto para o compositor

Carmem Miranda gravou Tempo Perdido, de Ataulfo Alves (1909-1969), depois de reencontrar o compositor mineiro — a quem já conhecia como prático de farmácia — no escritório de Mr. Evans, diretor da RCA Victor, no Rio de Janeiro. Corria o ano de 1933. A história é contada no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

O samba-rumba entrou no repertório de Hey Eugenia!, terceiro álbum da banda norte-americana de Portland Pink Martini, de 2007, mais de sete décadas depois.

Eis um registro típico, autoral, biográfico, sepultado pela era do download, do YouTube e do streaming.

Alguém levado a ouvir Tempo Perdido com o Pink Martini pelos algoritmos do Spotify, onde o que conta é a massa sonora digitalizada, poderá acreditar que a banda poliglota do Oregon detém poderes mediúnicos.

Não fará ideia de onde vieram letra e música ou de um episódio como esse e seu alcance na história de nossa música popular.

Também vai boiar sobre a participação de instrumentistas, arranjadores etc., mas isso são velharias superadas pela tecnologia, ai de nós.

Leia também Réquiem para um mundo moribundo, onde escrevi:

A nova música é utilitária e funcional, como disposta nos cardápios do Spotify. O negócio não é mais ouvir com reverência e compartir com amigos um disco de Coltrane. É acumular terabytes de música nas nuvens.

Nas pilhas digitais, pouco importa quem canta, toca ou compõe. O negócio é o benefício, a “entrega”, por assim dizer, dos aplicativos de streaming.

Entre nós, a MPB e seus antecessores foram destronados pelo chorume das ideologias do politicamente correto, onde qualquer “punqui” ou “funqui” (a bênção, Ariano Suassuna) vale tanto quanto o legado de PixinguinhaCaymmi ou Chico Buarque.

Quiz: De quem é Diz que Fui Por Aí?

Em A morte do compositor, na Folha de S.Paulo de 12/08, Ruy Castro diz que ninguém mais dá a mínima para o autor. Eis uma passagem:

Para 99% das pessoas, o imortal “Você só dança com ele/ E diz que é sem compromisso/ É bom acabar com isso/ Não sou nenhum pai-João…” é um samba de Chico Buarque, não de Geraldo Pereira.

Na semana passada, ao ouvir no rádio sobre a morte de Luiz Melodia, o motorista do táxi começou a cantarolar Diz Que Fui Por Aí —”Se alguém perguntar por mim/ Diz que fui por aí…”— e acrescentou: “Esta era dele, com Seu Jorge”. Corrigi-o: “Não. Este samba é do Zé Kéti”. Ele teimou. E acrescentei: “Em parceria com Hortêncio Rocha”.


Este texto sofreu correções e o título do post foi alterado na manhã seguinte à publicação.

 

 

Amém para a 3ª temporada de Hinterland e um rápido balanço da série

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Mathias (Richard Harrington), Mared Rhys (Mali Harris) e Brian Prosser (Aneirin Hughes), da série Hinterland, exibida no Brasil pela Netflix

 

A terceira temporada de Hinterland (Netflix) tem sabor de aurora, ainda que de um alvorecer trágico, a lembrar o que o ocorre no poema de Drummond Morte do Leiteiro.

Quem gosta dessa série crepuscular (o título em galês, Y Gwyll, tem a ver com ocaso), cuja atmosfera é comparada ao “noir” nórdico de produções como The Killing, A Ponte e Borgen, diz amém.

Não há sobressalto novelesco no final, sequer o que seria a única celebração de toda a trama. Mas justiça é feita e o desespero, para citar o poema de Tomas Tranströmer que encerra Wallander, rompe seu curso.

Nessa altura se pode considerar o que torna este seriado um entretenimento adulto entre o melhor que o gênero — hoje um tanto inflacionado — produziu.

1 — O hábil trabalho de câmara e montagem faz do espectador de Hinterland alguém íntimo da paisagem do oeste do País da Gales, na área rural de Aberystwyth, com emprego original do velho efeito do suspense cinematográfico.

1.1 — A cada sequência, por meio de “janelas” que se abrem, temos o privilégio de chegar um pouco antes e antecipar as sensações que aguardam os personagens no interior de casarões de pedra e celeiros centenários espalhados por vilarejos escarpados que dão em praias banhadas pelo mar cinzento de Gales.

Leia também: 

2 — Os episódios, com duração e ritmo de longa-metragem, trazem uma coleção verossímil de criaturas destruídas pela herança familiar ou que tiveram a inocência corrompida pelo mal. A direção é sempre segura e o elenco de primeira ordem.

3 — A total ausência de humor, a solidão e a carga de conflitos dos protagonistas são como um reflexo natural do ambiente e das condições de frio, umidade e escuridão onde atuam.

4 — O silêncio e o não dito teatral formam o elemento comum das cenas da investigação policial conduzida pelo inspetor Mathias (Richard Harrington) e a sub Mared Rhys (Mali Harris), ambos afeitos e bem talhados para seus papéis.

5 — A integridade de Mathias e Mared sustenta a moral da audiência. Se Mathias busca a redenção de um passado familiar infausto na metrópole, a mãe solteira Mared tenta apenas dar conta com firmeza do que a vida lhe deu.

6 — O superintendente local Brian Prosser (Aneirin Hughes) atrai nosso interesse na outra ponta da história criminosa de fundo que amarra as três temporadas e aqui se fecha com maestria.