Delícias da pindaíba

Num gesto largo, liberal e moscovita do autor da Ju, os diários de viagem de 2019 estão de volta ao blog

Jurupoca_49. Belo. 27/11 a 3/12/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Altruísta como só ele, o autor da Ju reabriu aqui seus diários de viagem de 2019, num gesto largo, liberal e moscovita, para citar o Álvaro de Campos.

Os diários integram o livro divulgado ao pé dá carta, Turismo cultural e literário na Europa. Reaparece também por aqui o Inferno em Florença, outra crônica de viagem, anterior, depois reescrita e incluída no livro. Debalde, esse texto foi oferecido à Piauí, na honesta tentativa de um jornalista desocupado cavar uns caraminguás, alguém que poderia estar por aí, afanando, trucidando, currando etc.

A revista do Moreira Salles por sinal anda embirrada com a The New Yorker, na qual se decalca na origem, e de onde tirava o suprimento de suas melhores páginas, sempre muito bem traduzidas.

Vai ver que é isso. O Alcino Leite Neto e o José Roberto de Toledo, editores executivos da publicação criada e servida por João Moreira Salles, não dão bola para a marginália fora do “Eixo Rio-Sumpa”, logo um mineiro, residente a menos de 600 quilômetros de Poços de Caldas!, onde os Moreira Salles se estabeleceram.

Mas deixemos de prosa. Aos enlaces, a quem interessar possam:

Diário embriagado de Berlim

Diário congelado de Copenhague e Milão

Diário apaixonado de Trieste

Inferno em Florença

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Das delícias da pindaíba

Um alma poética consegue achar uma ou outra vantagem na dureza, acredite. Duro é quem vive de brisa, sem um puto para beliscar uns profiteroles na padaria da esquina. Se você não pode viajar, viaje ao redor de seu quarto. Não pode se dar ao luxo de novas aquisições de livros? Não morra por isso. Um leitor na pinda sempre tem a redescobrir delícias empoeiradas em suas estantes. Quem sabe ele não terá à mão (e nos braços fortes), e nem se lembra disso, as 1274 páginas (fonte Haarlemmer, corpo 9.5, 1,2 kg) de O homem sem qualidades, o romance inacabado! de Robert Musil, genial romancista austríaco do século 20 comparado a Joyce, Kafka e Proust, hoje desconhecido até dos corretores ortográficos. É leitura para mais de mês. Ou o humor fino e diabólico de Evelyn Waugh no breve (154 págs.) O ente querido. A maior graça de Waugh é fazer seu leitor se sentir mais vivo e inteligente do que é e está.

Abanando o rabo no céu

Em O ente querido, Dennis Barlow é um poeta inglês pilantra, desempregado como roteirista de Hollywood. Ele insiste em ficar nos EUA, e para pagar as contas e o uísque com soda no Clube de Críquete, trabalha numa funerária de pets. Aqui, ainda no início da novela, Barlow atende à chamada de uma senhora milionária, devastada pela perda de seu cachorro, Arthurzinho, atropelado por um caminhão de entregas. Barlow dirige a van preta da empresa rumo à mansão da Via Dolorosa, 270, onde é recebido pelo marido da grã-fina, o sr. Heinkel. Logo desfia o rosário de um papa-defunto de escol para empurrar na freguesia o que a Campo de Caça Mais Feliz tem do bom e do melhor, e mais caro, a oferecer. Nesse caso, os cuidados póstumos de Arthurzinho, um membro da família:

— Com disse?

— Enterrar ou queimar?

— Queimar, eu acho.(…)

— E os ritos religiosos? Temos um pastor que está sempre disponível para ajudar.

— Bem, senhor…?

— Barlow.

— .Senhor  Barlow, nenhum de nós é o que o senhor poderia chamar de pessoas muito devotas, mas acho que numa ocasião como esta a senhora Heinkel desejaria todo o conforto que vocês puderem oferecer.

— Nosso serviço classe A inclui vários itens exclusivos. No momento da cremação, uma pomba branca, simbolizando a alma do falecido, é solta acima do crematório.

— Sim, disse o sr. Heinkel —, calculo que a senhora Heinkel gostaria da pomba.

— E todo aniversário é enviado um cartão de cumprimento sem taxas adicionais. O cartão diz: Seu Arthurzinho está pensando em você no céu hoje e abanando o rabo.

— É um pensamento muito bonito, senhor Barlow.

— Então, basta o senhor assinar o pedido…

Bodes não abanam o rabo

Mais à frente em O ente querido, um Barlow assoberbado pelo trato crematório de canários, cães e gatos, vítimas de uma onda de envenenamento no sul da Califórnia, delibera com o sr. Schultz, seu empregador, sobre o caso excepcional de um bode despachado para o além aos cuidados da Campo de Caça Mais Feliz.

— Agora estou indo embora — disse o sr. Schultz. — Você poderia, por favor, esperar até que [as cinzas] estejam frias o bastante para embalar? São todas para entrega domiciliar, menos a gata. Ela vai para o columbário.

— Certo, senhor Schultz. E quanto ao cartão do bode? Não podemos propriamente dizer que ele está abanando o rabo no céu. Bodes não abanam o rabo.

— Eles abanam quando vão ao banheiro.

— Sim, mas isto não ficaria bem no cartão de cumprimentos. Eles não ronronam como gato. Não cantam uma oração como os pássaros.

— Imagino que eles apenas se lembrem.

    Dennis escreveu: Seu Billy está se lembrando de você esta noite no céu.

Entes Queridos e Entes à Espera

O venenoso Waugh compara o Campo de Caça Mais Feliz aos serviços funerários do verdadeiro Éden higiênico e poético das Clareiras Sussurrantes, luxurioso campo santo hollywoodiano onde não se fala absolutamente em defunto ou cadáver, nem se pronuncia o nome do de cujus. São aos “Entes Queridos”, em vez disso, a quem se destinam os serviços classe AAA daquela MGM das necrópoles. Já para os vivos, isto é, “Entes à Espera”,  existe a previdente Reserva Antes da Necessidade.

Negar o negacionismo (1)

Um crime filmado comove e move mundos e fundos compensatórios. Pois é. Os Entes Queridos brasileiros levados pelo Corona que podiam ainda estar por aí, como Entes à Espera, houvesse governo em Brasília, desgraçadamente não puderam ser filmados ao expirar. Sequer podem ser computados entre as mais de 170 mil almas da contagem oficial do consórcio de imprensa. Mas que existem, existem, ou existiam, tais almas. Ocorre que, como o sangue de Cristo, a negação do negacionismo tem poder. No pau de arara, as estatísticas da pandemia vão mostrar que nunca uma praga fez tão poucas vítimas na história deste mundo. E nada como um dia após o outro até o próximo Carnaval da Democracia.

Negar o negacionismo (2)

O negacionismo de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, eleito no Carnaval da Democracia de 2018, é negado impunemente no Planalto-Centrão. Negar à “nação”, como se diz no New York Times, o impeachment é nosso modo institucional de negar o negacionismo. Ou estamos aqui nesta Ju a menoscabar nossas operantes instituições?

A tecnologia da indignação

O mundo do espetáculo vai ao paraíso com os telefones inteligentes. No mundo do espetáculo, a indignação é seletiva e intempestiva. Uma boa tragédia, injustiça ou covardia não existe sem um vídeo quente como uma hemorragia. Espancamentos, assassinatos, operações policiais, atropelamentos, avalanches, enchentes. Eis o menu do jornal da noite; eis o tempero amaro na boca e no semblante indignados de um Reinaldo Azevedo (note suas pausas dramáticas) ou de um comentaristas da “família Globonews”.

Equivalências trágico-midiáticas

Segue válida a “lei de McLurg” , formulada há mais de 50 anos por um eminente jornalista para estabelecer o valor relativo da notícia: um europeu equivalia a 28 chineses, e 2 mineiros galeses a 100 paquistaneses. Considerada a inflação do período, pode-se verificar no câmbio das agências noticiosas que um europeu sai hoje por 180 iraquianos, e 2 americanos por uns 350 afegãos.

McLurg por aí

Na mesma segunda-feira, 2 de novembro, quando se foram 4 almas em Viena, incluindo a de um terrorista, supostos atiradores talibãs fizeram 32 vítimas fatalíssimas na universidade de Cabul, no Afeganistão. Numa homenagem velada a McLurg, essa última notícia não coube no Jornal Nacional e em outros telejornais.

À sombra da indignação

O antirracismo é uma unanimidade no país, ao menos na mídia e sempre que um crime é filmado. A violência policial é coisa nossa, ou talvez o racismo possa mesmo explicar por si só por que se mata tanta gente todo santo ano. Além do racismo policial, haverá o racismo do tráfico, o racismo da milícia e o racismo puro. Uma certeza sucede outra e a indignação de ontem será amanhã uma sombra fugidia.

A viúva de Marielle

Já estamos na eleição da viúva de Marielle no noticiário, e ninguém sabe quem mandou matar a vereadora e seu motorista. Hoje, a morte do menino João Pedro, de 14 anos, uma entre tantas crianças pretas mortas por “bala perdida”, prova que essa forma de morrer incorporou-se à natureza majestosa do Rio; como o raio, o trovão e a roda de samba, não pode ser evitada. O caso de João Freitas segue a toada. Servirá para acordar o Carrefour para os benefícios da renovação publicitário-corporativa. Nas hostes de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, disfarçaram mal sua excitação com as cenas do estacionamento do macabro supermercado francês; para essa turma, melhor pornô não há, a não ser, claro, as sessões oferecidas pelas milícias que regem a Zona Oeste do Rio.

Um país jovem

O Brasil é um país em permanente renovação. Como um idiota, nunca envelhece.

Dominguinhos & Chico

Chico Buarque é parceiro de Dominguinhos em duas canções: Tantas palavras, 3ª faixa de Chico Buarque (1984) e Xote de navegação, 5ª faixa de As cidades (1998). Ambas estão no núcleo das obras primas do nosso artista maior.

A letra da primeira tem duas versões, uma que é indigna da melodia de Dominguinhos e do próprio Chico, cantada por ele, Chico, na trilha da novela Sabor de mel (Ariola, 1983) e a versão definitiva, gravada no LP autoral do ano seguinte. Aí sim Chico se houve com a própria arte e com a música do grande parceiro.

A segunda letra é a que tem versos como “Trocamos confissões, sons/ No cinema,/ dublando as paixões/ Movendo as bocas/ Com palavras ocas/ Ou fora de si/ Minha boca/ Sem que eu compreendesse Falou c’est fini/ C’est fini”.

Tantas palavras foi arranjada por Cristóvão Bastos, e bastou (me permita, leitora amiga) para o resultado, mais que justo, agregar o acordeom de Dominguinhos aos teclados de Hugo Fattoruso, músico que há décadas acompanha Chico em shows e gravações.

Quinze anos mais tarde — contou Chico em entrevista recomenda na Ju#48 — ele teve a ideia de uma canção, um mote poético, e se lembrou de um dos temas que recebera do amigo e guardava numa fitinha K-7 durante todo esse tempo.

Era o Xote de Navegação, um rubi luminoso incrustado na tiara mais preciosa da canção brasileira.

Na mesma entrevista, Chico lembra que ao ouvir a letra cantada, já no estúdio, Dominguinhos não conseguia parar de chorar. Nos ensaios da gravação, tirava uma introdução atrás da outra na sanfona, cada uma mais bela que a outra, para não se lembrar depois do que havia criado, quando lhe pediam para tocar de novo, agora para valer.

O resultado é desses que revelam ou traduzem o poder da música. O acordeom dá o tom da melodia, arranjada por Dominguinhos e Luiz Claudio Ramos, que faz o violão. Entram Jorge Helder (contrabaixo), Ricardo Amado (violino) e Zé Menezes (José Menezes França), bandolim.

Se Tantas palavras é o romantismo levado à quintessência literária de uma letra de música, esse Xote de navegação é de salvar uma alma sem eira nem beira, ao fazê-la reencontrar o curso franco da existência ao navegar na barcaça onde ‘tudo, tudo passa/ só o tempo não”.

O tempo passa mas agora o vemos, ou flagramos, pois “passam paisagens furta-cor/ Passa e repassa o mesmo cais/ Num mesmo instante eu vejo a flor/ Que desabrocha e se desfaz”. É o tempo da “tua música”, da “tua respiração”.

Dominguinhos (José Domingos de Morais) tinha mesmo que, como se dizia antanho, prorromper em pranto ao ver sua criação ganhar uma nova espécie de vida, por meio da palavra.

TANTAS PALAVRAS – Dominguinhos e Chico Buarque (2ª versão da letra)

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

XOTE DE NAVEGAÇÃO – Dominguinhos e Chico Buarque

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo
O afazer
Me pego em sonho
A navegar

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais




Liberadas para adultos

Adultos podem se entreter sem susto e sem surtos de acne com estas novas séries: Speakerine (Film & Arts) ambienta nos estúdios da TV francesa uma trama de crime e luxúria durante o mandarinato do general De Gaulle e a perigosa diplomacia na Guerra Fria. A britânica Gangs of London (Starzplay) reúne um elenco de primeira, tem excelente roteiristas e, para os chegados, a Ju está fora, esbanja violência. Já No man’s Land  (Starzplay) é um thriller sobre a Guerra Civil na Síria, na qual se mete um engenheiro francês, Antoine, em busca da irmã supostamente desaparecida. Esta classificação se baseia em um ou dois capítulos e poderá ser alterada sem aviso prévio, na próxima Ju.

Das delícias da pindaíba

Ver séries à vontade, para uma alma serena, é outro benefício da desocupação, enquanto se pode pagar a TV a cabo e a conta de luz.

Glórias que não dão cliques

Toninho Horta faturou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB. Belo Horizonte foi lançado em maio do ano passado. Aqui e ali deram notas sobre o prêmio. Prêmio e glória, por festivos, dão cliques. Você não encontrará muito além disso. Nada de velharias como entrevista, crítica ou reportagem sobre o disco. Um artista da envergadura de Horta, cuja arte é celebrada há mais de 50 anos da Savassi, no Belo, a Asakusa, em Tóquio, com parada certa em Manhattan, já não passa no crivo dos ex-cadernos de ex-cultura de certos ex-jornais brasileiros. Os ex-cadernos favorecem antes games, influencers e, se você me permite, funkers com causa. Escute ao menos Aqui Ó!  Ficou um primor com a participação de João Bosco, ou Pedra da Lua, com Joyce Moreno.

E o que é diverso à diversidade?

Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

Atualizo e resumo um post de cinco anos trás, hoje ainda mais válido:

[1] Acossado pelo infantilismo,  patrulhado pelas milícias do pensamento, tangido pelo advento das redes sociais e das recompensas do caça-clique, o jornalismo cultural perdeu o norte, além do caráter. A geleia geral sem osso ou tutano um dia apontada por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos empacotado com design exclusivo para cada tribo consumidora.

[2] Literatura, teatro e outras artes moribundas doravante só têm o que comunicar com seres errantes, como ursos brancos pendentes em blocos de gelos nos mares glaciais.

[3] Pepe Escobar, velho herói do jornalismo cultural brasileiro, tascava o “juvenilíssimo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que hipsters de academia, fofoqueiros multimídia, fãs de livros para colorir, Mondrians da cozinha e Rosas do vinho tomariam todas as posições.

[4] O próximo passo do jornalismo cultural será operar em modo algoritmo. O usuário terá o serviço completo em apps de entretenimento com menu de engajamento enviesado ao máximo: “gostei”, “não gostei”, “é demais”, “ri”, “rachei os bicos”, “fiz pipi”, “fiz cocô” etc. Vai assistir a vídeos, interagir com o editor, pautar a redação, contratar e demitir jornalistas. Toda a diversidade será contemplada, exceto o que for diverso à diversidade.

[5] A memória na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[6] O jornalismo cultural logo vai incorporar como subgêneros, além dos games e do colunismo de rede social, a jardinagem e os cuidados com pets. Mas já incorporaram, não?

[7] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers ou, pior ainda, influencers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, e da capacidade de seus poemas emocionar no Instagram, além da correção política. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce por aí, isto é, nas redes sociais.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável há 40 anos.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente, enxerga apenas as listas de mais clicados ؙ— e, satisfeito, se dá por informado.

[10] Está tudo dominado pelo Homo facebookensis.

El pibe de oro

Até a bola se entristece com o destino de Maradona

O fim de Diego Maradona me lembrou a velha frase atribuída a Eurípedes: Os deuses primeiro enlouquecem a quem querem destruir. Podem, os deuses, terem sido uns invejosos, e feito dele “o mais humano dos imortais”, no título lapidar do New York Times. Para quem ama o futebol e o viu em campo, fica o bailarino e coreógrafo e o compositor de trilhas silenciosas que ainda ouvimos quando ele parte com a bola e acende o fogo perpétuo do lance.

«Até dia 30 você pode ver o especial de Monica Salmaso e André Mehmari no Youtube, e quem sabe contribuir pagando um “ingresso consciente”. É o melhor produto cultural de 2020, uma produção impecável em arte e técnica. No piano de Mehmari, a música popular brasileira se faz intemporal, altiva e universal, e Salmaso, vem cá, canta como pouquíssimas estão cantando. A Mônica amou o comentário do primo Franquilim da Silva entre os youtubeiros: “Aplauso, aplauso, aplauso, aplauso, aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso… de pé… continua…”.

«Leila Pinheiro e GuingaCanibaile (Guinga e Aldir Blanc)»

«Se você ainda não ouviu o pianista islandês Vikingur Ólafsson, pode ser que ainda não tenha ouvido esse instrumento em tão boas mãos.»

JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas.

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/sobre/&quot; target="_blank"><strong>Antônio Siúves</strong> </a>(maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-siuves/moral-das-horas/570242892?q=moral+das+horas&quot; target="_blank"><strong><em>Moral das horas</em></strong></a><strong><em>, </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/21-poemas/&quot; target="_blank"><strong><em>21 poemas</em></strong></a><strong><em> e </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/TURISMO-CULTURAL-LITER%C3%81RIO-EUROPA-Propostas-ebook/dp/B082RBGXDB/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=turismo+cultural+e+liter%C3%A1rio+na+europa&qid=1586348439&sr=8-1&quot; target="_blank"><strong><em>Turismo cultural e literário na Europa.</em></strong></a>Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju Extra — Carta de Quarentena #06

Uma imagem contendo relógio, placar

Descrição gerada automaticamenteEdição de Quarentena N° 6 — Belo Horizonte, Minas dos Matos Gerais, 22/05/2020


Deu no New York Times (versão em português): Licença para matar’: por trás do ano recorde de homicídios cometidos pela política no Rio /  Uma análise do Times constata que policiais disparam sem restrições, sob proteção de superiores e políticos, certos de que não haverá consequências para homicídios legais. A reportagem do jornal norte-americano saiu na segunda-feira (19). Como para ilustrá-la ou reiterá-la, no dia seguinte mataram o menino João Pedro Matos Pinto, de 14 anos. João foi baleado e morto em uma operação das polícias Civil e Federal em São Gonçalo, região Metropolitana do Rio. O governador Witzel é da mesma cepa homicida de onde brotou o chefe do Executivo. “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, já pregava este nos anos 1990; “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo, anunciava aquele na campanha eleitoral. Tiveram milhões de votos por defenderem o bafo do “excludente de ilicitude”, essa permissão aos crimes policiais contra pobres moradores de favelas. Então, veja-se quem pode e quem não pode chorar por Joãozinho, ou, por um segundo, sentir-se na pele de seus familiares.


Opa! Vamos apear?

Quem lê a Jurupoca desde seu número inaugural, de quase um ano atrás, sabe que esta carta é um work in progress em busca de clareza, direção e utilidade, sem corromper seus propósitos.

Aceito e aprendo com as críticas que recebo, ao perseguir um caminho novo e próprio.

Ganho leitores e isso me anima. E me alegram os primeiros apoios que recebo de quem pode contribuir para a continuidade do trabalho.

Agradeço cada doação enviada e lastreio essa ajuda no compromisso de tornar este trabalho mais e mais relevante. O missivista não tem outra atividade como jornalista. Desde março, é jurupoco em tempo integral.

A ideia da carta surgiu durante uma caminhada no Parque Municipal, cá no Belo, numa manhã de junho passado.

Entendo que me preparei para escrevê-la em mais de três décadas de exercício profissional. Seu projeto, portanto, se confunde com um ideal de vida.

A pedra de toque da Jurupoca é criar uma microfissura num mundo marcado pela banalização e a superficialidade, no qual a imprensa cultural não mais se distingue na era do jornalismo online.

A atenção do leitor interessado em informação e crítica qualificadas sobre grandes livros, filmes, séries, gravações ou no debate de ideias é disputada por fofoca e pornografia caça-cliques — de que vive a quase totalidade das publicações na internet.

É o espólio do apresentador Gugu, é o reality show, é a rusga entre celebridades, é a receita de abobrinha, é não sei mais quê.

Valorizar a criação artística é uma pedagogia civilizatória. Representa uma ética, por certo. Não se destina a salvar o mundo, claro, mas, pode tornar a vida mais plena.

O projeto é tornar o envio da carta semanal, como  já é na prática, com as edições extras de quarentena, e lançar novos produtos.

Helahoho! helahoho!

Uma imagem contendo desenho

Descrição gerada automaticamente
Tenho acompanhado com interesse as profecias, como prefiro chamar certas previsões sobre o mundo pós-pandemia.

Consultores, empresários, especialistas de vários naipes anteveem à vontade o mundo novo, a “nova normalidade”.

Uma matéria de O Globo dá como certo que teremos mais “austeridade e senso de prioridade”; que o turismo vai se danar; que garçons vão nos servir vestidos como enfermeiros; que a globalização vai mesmo pro saco etc.  

O mundo que conhecemos, antecipa-se, vai acabar.

O que me parece certo e fácil de antever é que o fosso da desigualdade realmente vai se aprofundar. (Quanto ao Brasil, com seu combo de vírus e fanatismo que nos é servido, melhor calar.)

Sabemos que novas tecnologias transformam nossos hábitos, e a nós próprios, assim como a facilidade econômica de comer e consumir produtos e serviço nos engorda e afeta nosso caráter.

E que nos adaptamos às circunstâncias, venha a barra que  vier, ao conseguir sobreviver.

Mas em termos evolutivos nossa capacidade cognitiva é a mesma há milênios, e bota milênios nisso; seguiremos os mesmos até que os laboratórios do Vale do Silício concluam seu projeto do Humano 2.0.

Por enquanto, é seguro afirmar que a força de gravitação da desigualdade permanecerá constante. Continuará a atrair injustiça, indiferença, hipocrisia e perversidade.

Creio que a sociedade que não conquistar a igualdade de oportunidades para os que vão nascer será sempre o inferno na terra regido pela clave da miséria e pelo disfarce esperançoso dos mais privilegiados.

Ademais, estou com o detetivesco e filósofo Dr. House sobre a humanidade: People don’t change. Numa tradução bastante livre, gente é gente.

Helahoho! helahoho!

Além disso, tuta e meia. Nonada.


Guerra às fake news
Um estudante, que por segurança não revela sua identidade, abriu no Twitter no último domingo (17) uma conta brasileira do movimento Sleeping Giants. A iniciativa nasceu nos EUA pra combater o financiamento dos sites da extrema direita que propagam notícias fraudulentas e mensagens de ódio. O objetivo é impedir que recebam dinheiro com publicidade. Sleeping Giants aponta empresas com anúncios no sistema Google veiculados em sites porcaria, a exemplo do bolsonarista Jornal da Cidade Online. Em poucos dias, a conta brasileira alcançou 20 mil seguidores. Grandes empresas que indiretamente contribuem com a desinformação se comprometem a bloquear seus anúncios nas cloacas da internet. Banco do Brasil, Dell, O Boticário, Submarino e Telecine estão entre elas.  

Leituras ilustríssimas
A centenária livraria de língua inglesa Shakespeare and Company é uma das dádivas de Paris. Nos anos 1920/30 o lugar se tornou um porto seguro de escritores e intelectuais de várias nacionalidades. Alguns pertenciam à chamada Geração Perdida, na expressão da escritora norte-americana Gertrude Stein. Eram jovens que tiveram a má sorte de amadurecer durante a I Guerra Mundial. A casa lendária, fundada pela norte-americana Sylvia Beach, responsável pela primeira edição do Ulisses, de James Joyce, além de vender, emprestava livros mediante inscrição e cobrança de taxa. Entre os fregueses ilustres desse serviço estiveram Stein, Joyce, Hemingway,  Aimé Césaire,  Simone de Beauvoir, Jacques Lacan, e Walter Benjamin. Com o fascinante Shakespeare and Company Project, organizado pela Universidade de Princeton, nos EUA, podemos saber agora o que esses e outros clientes da livraria liam e por quais autores mais se interessavam. O acervo do projeto, excelentemente bem organizado e documentado, pode ser consultado em buscas por autor, obras ou fichas de empréstimo.

Livro e música
Sinta o clima que reina hoje na Shakespeare and Company neste charmoso vídeo da banda Moriarty, gravado na livraria no lançamento de seu álbum The Missing Room (2011).

“Lives fabulosas”
O pensamento mágico, o otimismo iluminado e, óbvio, genial, do publicitário Nizan Guanaes pode te tirar do mais fundo desespero, e quem sabe, melhor até do que a cloroquina, de livrar do próprio Corona. Mas, cuidado, experimente com moderação. O alumbramento açucarado e brega pode fazer do remédio um veneno. Nesta coluna da Folha ele nos ensina, citando a filósofa Regina Casé, que “ser pop é gostar das coisas”. Já a antevisão de outro sábio, o financista Ray Dalio, nos consola ao garantir que “a saída desta crise é a criatividade humana”. Nizan explica que está “estagiando nas lives aos domingos” e que tem “visto lives fabulosas”, onde “transborda a inteligência” de padres, influenciadores digitais, duplas sertanejas e políticos. Maravilha pura. O Nizan certa vez paparicou seus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil com o epíteto “patrimônios intombáveis” da humanidade. Isso em 2015. Fiquei tão comovido que compus um pequeno suelto (como Delfim Neto ainda chama o comentário breve) a respeito. Agora o Midas publicitário e bilionário genial compartilha com seu leitorado outro achado. “Não tem só coisas horrorosas nessa pandemia. Tem dignidade, tem altruísmo, tem solidariedade, tem gente que vai morrer no front para que as pessoas sobrevivam”, recita, destacando de passagem a maravilha que é o eterno reality show BBB, que, ele informa, agregou 1 milhão de votos! na sua última versão, ao trazer pra “famosa casa” alguns influenciadores digitais, se entendi bem a coisa.

Desacertos cerebrais
A doutora Suzana Herculano-Houzel explica neste artigo da Folha como a tal da hipóxia silenciosa — o comprometimento da oxigenação do sangue pela Covid-19 sem que a vítima se aperceba — passa batida no cérebro.

Impeachment já!
Hélio Schwartsman está com a Jurupoca na defesa do impeachment como questão de honra ou, em suas palavras mais exatas, “obrigação moral”. Diz o colunista da Folha:

“Os crimes de responsabilidade cometidos pelo atual mandatário são tantos, tão ostensivos e tão graves que deixar de acusá-lo equivaleria a coonestar suas atitudes”.

Brasil x Suécia
O papo sobre a pandemia entre nós segue torto e retorcido. Além da tentativa de impor a cloroquina goela abaixo dos brasileiros mais pobres, persiste a comparação maluca entre a estratégia adotada pelos suecos e as iniciativas em curso no Brasil, sempre aos trancos e barrancos. E não podia ser diferente num país tão desigual. Mesmo um colunista de primeira ordem como o sociólogo Demétrio Magnoli, entre os melhores da nossa imprensa no emprego da inteligência aplicada à análise da informação, comete suas putadas, como se diz na Espanha. Num bom artigo em O Globo em que faz críticas mais ou menos justas aos secretários estaduais de Saúde, Magnoli conseguiu ver um polo simétrico à extrema direita bolsonarista (de viés psicopata), que batizou “fundamentalismo epidemiológico”. Deveras, Magnoli? Será justo contrastar esses dois “fundamentalismos”, sugerindo que ambos padecem da doença do fanatismo? Magnoli é um bom e bravo escudeiro das “liberdades civis” ameaçadas em governos ditatoriais, como o chinês, ou semiditatoriais, caso do húngaro. Leitor fiel de seus textos, sinto que sobre a pandemia ele tem hesitado ao escrever exatamente o que pensa. E me arrisco a dizer que tem lhe faltado alguma clareza e coragem ao opinar, como nunca antes. Nas entrelinhas, elogia o modelo sueco de controle da propagação do vírus, mas nem imagina ou não nos revela como tal modelo poderia ser aplicado no Bananão. Mirar democracias europeias, como a italiana, ou mesmo a cacofonia brasileira regida por Sua Excrescência, responsável por muitas das dificuldades enfrentadas nos Estados, é equilibrismo retórico em corda bamba. Fora uma ou outro exorbitância, logo contestada pela Justiça, as medidas de isolamento social em curso são rigorosamente legais, a despeito da oposição cerrada e hedionda do governo federal. Também é preciso não confundir o sentido dicionarizado de “confinamento”, a pena aplicada por governos autoritários a dissidentes políticos, com “confinamento” como palavra de ordem surgida nesta crise. É o que o Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa discute nesta coluna do El País Brasil.

A Suécia é aqui?
“Vamos falar da Suécia? Pronto! A Suécia não fechou!”. A frase escrota, típica da ventosidade verbal de Sua Excrescência, cheia mal e intoxica incautos e fanáticos. O sucesso do modelo sueco de controle da Covid-19 será mais bem avaliado no final desta triste história. Mas a Suécia está longe de ter dado as costas à ciência, e muito mais longe de ser governada por lunáticos. Aliás, os hospitais do país suspenderam o uso da cloroquina, diante dos efeitos colaterais verificados. Nesta ótima reportagem da Folha, Ana Estela de Sousa Pinto traça um panorama realista e pormenorizado da realidade no país escandinavo, cuja população, pra citar apenas um dado referido na matéria, equivale à de São Paulo, com uma densidade demográfica oito vezes menor.

Cenas brasileiras
Miguel Scrougi
, professor titular de Urologia da Faculdade de Medicina da USP, diz de maneira direta o essencial. Agorinha, o que é mais importante? Scrougi lembra de saída que os melhores resultados no combate à doença estão sendo obtidos em países governados por líderes eficientes, nos exemplos de Alemanha, Japão e Austrália, entre outros. “Revendo essas estratégias, confesso que fui tomado por um certo incômodo”, diz o médico. “Seria possível mitigar a catástrofe emergente no Brasil, país esfrangalhado pela desigualdade, com uma rede sanitária arruinada e, pior, dirigido por um presidente mais preocupado em salvar a família do que proteger os filhos da nação?”, ele se pergunta neste artigo da Folha. “Nem tentei responder”, continua o doutor, “logo me lembrei das imagens impiedosas que hoje desfilam nas nossas telinhas, expondo o sofrimento do povo brasileiro na sua forma mais cruel, a mistura do pavor pelo ataque temido, a dor pelas perdas extemporâneas e a impossibilidade de poder expressar indignação.”



Guia para o Netflix
O The New York Times selecionou os 50 melhores filmes do catálogo da Netflix, num trabalho bacana de seu time de críticos.

The Americans
Por falar no Vargas Llosa, o autor de Conversa na catedral também é fã de The Americans, a série criada por Joe Weisberg. Em sua última coluna no El País Brasil ele louva a história do casal de espiões da KGB infiltrado como americanos típicos no subúrbio de Washington, já nos anos finais da Guerra Fria. Llosa diz que se “atreve efusivamente a recomendar” o seriado por seu nível intelectual. As seis temporadas (2013-2018) seguem coerentemente o fio da narrativa e se aprofundam aos poucos nos dilemas morais que afligem o casal Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) Jennings. Eles têm de se rebolar pra manter as aparências. Além da fachada de empresários donos de uma agência de turismo, precisam criar os dois filhos americanos, que acompanhamos até entrarem na adolescência, e atender prontamente às demandas do serviço secreto soviético. Sem falar dos dribles na vigilância do FBI! Por acaso, um agente da contraespionagem do Bureau vai morar em frente aos Jennings! Roteiristas, diretores e atores precisam ser muito bons pra enfrentar as cambalhotas e surpresas do cotidiano em uma trama dessas sem escorregar no lugar-comum ou no simples besteirol. Philip e Elizabeth, agentes inteligentes e bem treinados, não são espiões soviéticos caricatos. The Americans esteve entre minhas séries favoritas mencionadas neste artigo. Os episódios podem ser alugados na Amazon Prime.


Visita ao D’Orsay
Tenho tremenda simpatia pelo lugar e aproveitei este programa do Google Arts and Culture para revisitar a história e o acervo do delicioso museu parisiense — Da estação ferroviária ao Museu de Orsay renovado.

Aeon + Psyche
O já excelente site em língua inglesa Aeon, dedicado à publicação de ensaios e vídeos no campo das ciências, ideias, filosofia e cultura, acaba de lançar a revista online Psyche, espécie de filhote cujo propósito é explorar as conexões entre a investigação filosófica, os conhecimentos práticos e as artes. Por ali cheguei ao curta de animação franco-dinamarquesa Nothing Happens (nada acontece), uma instigante história sobre nossa capacidade de gerar expectativas e observar a natureza.

Pra sair do tempo
O álbum Debussy – Rameau do jovem pianista islandês Vikingur Ólafsson é encantador, e o que mais tenho ouvido nestes dias. Lançada há pouco pelo selo Deutsche Grammophon, a gravação tem uma beleza inequívoca. A música nos abre um intervalo de irrealidade e gratidão à beleza. As peças de Claude Debussy (1862-1918) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositores franceses que viveram períodos de transição na história da música, soam com inacreditável atualidade. Para uma análise técnica, veja-se Alex Ross, crítico titular da revista The New Yorker. Ele escreve que a técnica de Ólafsson é “assombrosamente exata e clara, quase translúcida”. Você não precisa ler partitura pra perceber isso.


Duas listas
Pra variar, vou recomendar mais uma lista do cineasta e produtor musical Fernando Trueba no Spotify, na série Música para estes dias. Ele reuniu aí no enlace coisas lindas de João Donato. Para Trueba, Donato é um “gênio do piano brasileiro”, um louco amável, douce folie.  Na apresentação do El País, ele comenta brevemente a biografia do músico acreano octogenário. Lembra que, quando viveu nos EUA, Donato foi pianista de Bud Shank, Mongo Santamaría, Cal Tjader e Tito Puente, entre outros bambas do jazz. A outra lista é de Gilberto Gil. Tem um recadinho do artista no início. Ele juntou canções que evocam sentimentos alusivos à pandemia, amor, devoção e divertimento entre eles. De quebra Gil me reconduziu a um belo álbum da Biscoito Fino de 1999 com versões brasileiras, adaptadas quase todas com maestria por Carlos Rennó, de clássicos de Cole Porter e George Gershwin. Tem Tom Zé com Você é mel (You’re The Top, de Porter, em tradução do poeta Augusto de Campos) e o delicioso registro de Monica Salmaso, incluído na lista de Gil, de Lorerai (Gershwin). A versão disponível do álbum no streaming é uma compilação do disco original.

 

Vírus de visão
“Deveríamos ter uma visão global sobre este tema [pandemia], mas não temos. O vírus é que tem. Os vírus são mais espertos e mais antigos que nós… e mais democratas”, comenta o artista espanhol Miquel Barceló nesta ótima entrevista a Borja Hermoso, editor de cultura do El País.

Greene x sono
Varei uma madrugada esta semana por não conseguir largar O fator humano, romance de espionagem de Graham Greene (1904-1991), meu autor preferido no gênero, de quem falei na Ju#05. Quando tenho dificuldade de me concentrar em outras leituras, Greene é tiro certo. O autor é um contador de história magistral, e sua narrativa é arguta, cortante, de uma profunda e arraigada humanidade, marcada por irresistível senso de humor. Como diz o escritor irlandês Colm Tóibín no prefácio da obra, Greene é “um mestre da frase única que obriga o leitor a parar, [e] que funciona como uma carga de profundidade”. Ao ler seus livro sublinho trechos de pura revelação, ou epifanias se você quiser, como “os táxis começaram a despejar convidados como embrulhos vistosos”, ao descrever as cenas de um casamento, ou “ficou sentado durante um momento com o motor ligado, a observar as gotas de chuva a perseguirem-se umas às outras no para-brisas”. Maurice Castle, o herói desse relato, é uma agente duplo movido pela gratidão e pelo amor à mulher negra que conheceu na África do Sul do Apartheid e ao filho dela. Tóibín diz, na batata, que Castle é o espião menos glamoroso já criado, e por isso é de grande interesse. Temos no Brasil uma tradução da L&PM, mas li a edição eletrônica de uma editora portuguesa, o que é sempre divertido. Em Portugal, moça é sempre rapariga, a criança é sempre um miúdo, uma isca de anzol é um isco…  

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Diário embriagado de Berlim

Numa quarta-feira à noite do mês passado, a cantora Veronika Harcsa e o violonista Bálint Gyémánt, ambos húngaros, lançavam seu novo disco (“Shapeshifter”) no A-Trane, em Charlottenburg.

A casa estava cheia e o público bebericava cervejas e coquetéis. Curtia-se uma noite de jazz, típico programa berlinense.

No terceiro número, convidaram ao palco o baixista Nicolas Thys e o baterista Antoine Pierre, ambos belgas, e seguiram em quarteto.

A vibração dos músicos logo se refletiu na concentração da audiência e na inconfundível alegria que a música proporciona.

Atrás de nossa mesa sentava-se um grupo encabeçado por Stefanie Marcus, diretora do selo alemão Traumton Records, gravadora de Harcsa.

Cantora inventiva, de técnica virtuosa e grande alcance, Harcsa se dirigiu várias vezes a Stefanie, a quem, compreensivelmente, se mostrava grata.

Na era do streaming, produzir um novo disco de jazz autoral não é para os fracos.

Sim, Harcsa, como é praxe, anunciou que o CD estaria à venda na casa, ao fim do concerto. Suponho que seja assim, com apresentações e divulgação direta, que músicos de grande valor como ela estejam ganhando a vida.

Veronika Harcsa se apresenta no clube A-Trane, em Berlim

Nos intervalos entre os números, ela fez graça com os músicos — contando um atropelo na chegada da banda a Berlim — e até da desgraça do seu país, o que levou a plateia a uma espécie catarse.

A Hungria é governada por Viktor Orbán, um populista e nacionalista alinhado a Putin, Trump e “Bibi” Netanyahu que busca minar a democracia de seu país e os alicerces da União Europeia.

Orbán e a Hungria estão entalados na garganta de quem teme a degeneração fascista que se espelha pelo planeta. Por isso rimos.

A audição confortável de jazz, em qualquer época do ano, é uma dádiva que poucas cidades no mundo repartem com Berlim.

Na noite anterior, no B-Flat, assistimos à performance do saxofonista e compositor Peter Van Huffel e seu octeto berlinense, incluindo a cantora Sophie Tassignon.

A música de Van Huffel, nascido no Canadá e dono de uma celebrada carreira internacional, foi uma surpresa na sua desconcertante “proposta pós-tudo”, como a definiu um crítico.

Cada set, em que até o baterista Christian Marien seguia partituras, moldava e ordenava um bem-humorado caos de dissonância, atonalidade, ruídos eletrônicos e formas sonoras iteradas.


Peter Van Huffel com octeto mandam brasa no B-Flat, Berlim

Alguns improvisos, como os do trombonista Matthias Müller, eram de arrepiar, talvez nos limites da música contemporânea, hoje, ou a expressão de um jazz genuinamente europeu. A-odo, onde estive em viagem anterior, compõem meia dúzia de deliciosos clubes de jazz em Berlim.Oferecem programação diária, ótimas atrações, bons preços e ambientação charmosa e reverente à tradição das casas do gênero.

CIDADE VESTIDA DE CINZA

Dois dias antes de Harcsa subir ao palco, no início de uma tarde de segunda-feira, descíamos em Tegel, vindo de Copenhague (ver continuação deste diário no próximo post).

Berlim nos recebia ensopada e metida num manto gris que não mudaria até o final da semana, quando tomaríamos um trem na relativamente ainda nova e grandiosa Hauptbahnhof (Estação Central, em plena operação desde 2006) só para dar um pulo em Munique e, na manhã seguinte, voar para Trieste.

O inverno europeu de 2019 ainda em fevereiro começou a labutar com apressada primavera, mas mal podia-se perceber o fenômeno em Berlim.

Ainda assim eu pude vê-la, a primavera, nas árvores do Tiergarten, bem em frente ao Reischtag, caminhando por ali deste os fundos da Hauptbahnhof.

Os primeiros sinais dessa imensa e poderosa capital, observada da janela do táxi, foram de uma cidade próspera que não para de se reinventar.  

Há construções por toda parte, quarteirões inteiros de prédios residenciais sendo erguidos e uma infinidade de intervenções urbanas.

Veem-se surgir novas estações de metrô e museus, monumentos e sítios históricos, novos ou em reforma.

Berlim definitivamente não é didática sobre as baixas taxas de crescimento da Alemanha.

Havia reservado outra vez o The Circus, na Rosenthaler Platz, na área da antiga Berlin oriental, entre as áreas de Scheunenviertel e Prenzlauer Berg.

O hotel, que mantém um albergue qualificado na mesma praça, perdeu jovialidade e exuberância; seu lobby e bar como que murcharam, e a qualidade do atendimento decaiu um pouco.

Tivemos um problema inusitado com a reposição de toalhas e o cofre do quarto, pifado na segunda noite, pifado permaneceu até nossa saída.

Mas estávamos famintos ao chegar. Encaminhado o check-in tardio, como da primeira vez em Berlim, procuramos o Sophieneck, a cinco minutos a pé do Circus, para restaurar nossas forças.

O pub de comida alemã tradicional também já não era aquele.

Uma única e resfolegante garçonete, coitada, rodopiava pelo salão feito bailarina, a fazer o que podia para atender dez ou doze mesas cheias de comensais.

Não está fácil ganhar a vida em nenhuma parte.

ACERTANDO A HORA

O chucrute, a salsicha com batatas e a cerveja escura sem graça do Sophieneck não me nocautearam nem desanimaram.

Nada me faria perder o último dia e as últimas horas da exposição comemorativa de cem anos do Grupo de Novembro (“Freiheit – Die Kunst der Novembergruppe – 1918-1935”), na Berlinische Galerie, inaugurada em novembro de 2018.

Para lá eu e minha mulher nos mandamos, de Uber.

Aliás, esse aplicativo em Berlim nos permite chamar igualmente táxi com taxímetro ou van. Os preços, como pude constatar, são próximos e razoáveis.

O Grupo de Novembro, nome calcado na revolução alemã de 1918, era um desaguadouro de tendências modernas (Nova Objetividade, O Cavaleiro Azul, Bauhaus, Expressionismo, Modernismo ou Estilo Internacional, O Círculo) e artistas radicais.

Participaram da onda pintores e escultores (Vassili Kandinski, Lyonel Feininger, Käthe Kollwitz); arquitetos como Walter Gropius e Ludwig Mies van der Rohe; compositores (Alan Berg, Kurt Weill) e Bertold Brecht, dramaturgo e poeta.

A mostra e a galeria me proporcionaram prazer e descontração e me repuseram no clima.

Tão logo deparei um George Grosz, o icônico, como crítica social, e de humor ainda selvagem “Os Pilares da Sociedade”, acertei meus ponteiros com a viagem, a arte e uma cidade absurda e culturalmente rica e cosmopolita.

TESOUROS DA ILHA DOS MUSEUS

Na manhã seguinte, dedicamos quase quatro horas à Museumsinsel.

Como ocorre sempre que me dedico a observar seguidamente centenas de obras de arte em um museu, como ao acordarmos de um sono tecido de sonhos, consigo fixar apenas o que, na algaravia, me pareceu mais vivo e intrigante naquela hora.

Ou fixo o que me embriaga.

Posso dizer, parafraseando o crítico da revista “The New Yorker” Peter Schjeldahl, a propósito dos Tintoretto que ele viu na National Gallery de Washington: as obras que guardo são as que mais realimentam minha fé na arte como meio de revigorar o mundo. “Estou mais sóbrio deste então”, diz Schjeldahl, “mas o efeito permanece”.

Assim, ainda trago comigo, em semissobriedade, quadros como os de Adolph Menzel (1815-1905), entre eles “Der Fuß des Künstlers” (O Pé do Artista, de 1876, ou o retrato do seu pé direito doente), uma “antisself”, por assim dizer, algo chocante, pintado por um Menzel já envelhecido.

Trago uma pintura singela de Otto Nagel (1984-1987), “Weddinger Jungen”, de 1928, compadecido das figuras desoladas de dois jovens do distrito berlinense de Weddinger em uniforme militar, como que saídos do alistamento.

Trago a beleza tantalizante de uma escultura de Rudolf Belling (1886-1972), “Kopf in Messing” (Cabeça em Latão) que me faz pensar uma mulher de olhos fundos e penetrantes.

No Altes Museum namorei o retrato de Lise Tréhot, de 1864, amante de Renoir, pintado pelo artista em 1864 (ver foto no slide show, no alto desta página).

Afirma-se que a moça contava 20 anos quando foi retratada.

Lise se assemelha mais a uma Lolita no esplendor dos 16, meio entediada ao pousar longamente para um pintor obsessivo.

Por aquela época Renoir, aos 23 anos, buscava se acertar entre os velhos caminhos da tradição e os novos rumos da revolução estética.

Ler depois na revista “Piauí”, ao chegar em casa, o incrivelmente instrutivo artigo de Lorenzo Mammi sobre o “Rosa e Azul” do Masp, me ajudou a entender melhor o quadro de Berlim.

Olhei e espiei muito mais nos museus da Ilha berlinense, pinturas, relíquias, esquifes, múmias, pergaminhos e registros arqueológico — me fascinam as pequenas cadernetas com anotações a lápis reproduzindo hieróglifos em letra miúda, bonita e precisa. Me recordaram certas iluminuras em livros de horas.

A MAIS BELA CHEGOU

Mas devo registrar aqui uma notícia: 3.359 anos dois da aparição desta obra, alguém, alumbrado, se deteve mais de meia hora à frente e à volta do busto da rainha egípcia Nefertiti, e ali não permaneceu mais tempo pois sabia que o esperavam alhures.  

Senhores, a eterna beleza ainda encanta e seduz, como seduziu gregos, quiçá, troianos — e tantas outras multidões, desde então, se derramaram por ela.  

— E peço licença poética para fazer meus, rapidamente, por empréstimo, a ode de Keats à Urna Grega (“Inviolada noiva de quietude e paz,/ Filha do tempo lento e da muda harmonia…”—

Não me parece justo que um terráqueo nasça e morra sem o gozo de percorrer a pinacoteca vaticana rumo à Capela Sistina, ou a Alhambra dos Nazaries em Sevilha, ou andar por Paris, Veneza, Florença e Roma ou, acrescento, ver-se diante da Nefertiti, uma vez que seja, ao menos para perceber que a simetria apurada pela arte parece estar inscrita em nosso DNA.

HELLO KÄTHE

Depois de fatigar minhas retinas diante de tanta tentativa besta de artistas contemporâneos ao expressar a dor ou a esquisitice humanas, ou dizer algo sobre os esquecidos, desvalidos e deserdados da terra — questões eternas — em mirabolantes e escalafobéticas instalações, ver as gravuras e esculturas de Käthe Kollwitz (1867-19450) é uma redenção e, por certo, uma (re)educação artística.

O museu dedicado à artista, em Charlottenburg, é um primor de síntese e adequaçã=Além da técnica e do vigor das águas-fortes, litografias e esculturas, do traço expressionista a um tempo austero e ressaído, suas obras expressam um teor documental — desespero materno na guerra e na fome foi seu quase seu único Leitmotiv —, que ao mesmo tempo é atemporal e alusivo e cuja tensão apenas a grande arte é capaz de conter.

Uma litografia, “Brot!” (Pão!, 1924) estampa uma mulher de costas e recurvada com duas crianças famintas a lhe agarrar a saia.

O foco do quadro não é o contingente, o social, ou é menos isso, mas antes a transcendência do ser dilacerado da mãe de quem não vemos o rosto, e nem é preciso, pois alcançamos seu coração dilacerado.

Em outra obra — sua primeira xilogravura, de 1921 — vemos a figura de Karl Liebknecht no leito de morte e as distintas expressões de uma dúzia de pessoas que assistem ao funeral.

“Brot!” (Pão), litogravura de Käthe Kollwitz, no museu dedicado à artista em Berlim – Foto: A. Siúves

Ela havia desenhado a cena dois anos antes, após o assassinado do líder socialista parceiro de Rosa Luxemburgo.

O traço expressionista destaca o rigor mortis e a reverência de um amigo ou simpatizante sobre o corpo, mas, do conjunto exala a solenidade de uma pintura clássica.

Käthe e seu grupo, a Nova Objetividade (Neue Sachlichkeit), quiseram ir além da desilusão com a nova República Alemã, diante do crescente extremismo de direita, e com os ideais do expressionismo.

Buscaram exprimir um realismo mais engajado. Käthe foi uma artista engajada, por certo, mas do tipo de engajamento que percorre a história da arte e jamais sairá de moda.

Pelo menos enquanto o Vale do Silício não emplaca a Humanidade 2.0 e a vida eterna, nos quais derrama tantos bilhões.

Saindo pelos fundos do museu Käthe Kollwitz, você pode se sentar para refletir sobre tais questões e, sugiro, também sobre a riquíssima história da arte alemã, no retirado e elegante café da vizinha Literaturhaus Berlin, cujo teto transparente nos enseja o céu invernal e os altos ramos das árvores do jardim.

Depois disso, seu dia em Berlim haverá de estar ganho.

ESTAÇÕES DA HISTÓRIA

Não tive tempo de visitar as exposições que celebram o centenário da Bauhaus ou conhecer o memorial Topografie des Terrors, como planejara.

Mas revistei o Denkmal für die ermordeten Juden Europas (Memorial aos judeus mortos da Europa) e o Jüdisches Museum (Museu Judaico), com sua arquitetura em pedra negra, enviesada e marcante, e registros comoventes de como era a vida socialmente integrada dos judeus em Berlim, antes da aparição da Besta. O museu também apresenta, até o próximo 1° de maio, uma extraordinária exposição sobre Jerusalém.

Para além das controvérsias sobre forma, oportunidade e sentido, esses monumentos são duas entre muitas estações ou passagens de Berlim, assim me parece, indispensáveis para nos pôr a par da história da cidade, da Shoah, da Europa e, silenciosamente, nos levar a meditar sobre a vergonha toda que nos enxovalha a condição humana.  

PASSAGEM PELO SHOPPING

Minha caderneta de viagem aponta uma sessão de compras no shopping Karstadt de Kreuzberg, cuja freguesia é quase exclusivamente turca e árabe.

Esperei longamente os amigos em um bar na cobertura da loja, recostado numa poltrona com uma taça de vinho e a boa vontade da moça que atendia os pouquíssimos clientes naquele início de tarde, a me oferecer petiscos.

Tentava tratar um achaque de dor nas costas apanhada nas andanças sob chuva e friagem.

Numa mesa a dois metros da minha, um casal discutia rispidamente, em turco, supus — depois de ver na Netflix algumas séries no idioma.

Creio que pude imaginar a essência da cena.

Primeiro, trocaram palavras cheias de fagulhas. Ela a lhe cobrar promessas e desfeitas.

Mas, Allahu Akbar, chegam a um entendimento. Reinaria a paz, ou não.

Em quase uma hora que ainda passei ali depois do entrevero, o sujeito derramou uma arenga sem fim nos ouvidinhos da mulher, cobertos por um hijab.

Ele falava, ela escutava.

Pobre dela, pensei, e mais pobre de mim, saindo dali para tomar o metrô de volta ao hotel, me preparar para jantar e, bem cedo na manhã seguinte, dizer mais uma vez auf wiedersehen a Berlim .

Uma missa para a imprensa

alma da imprensa3

[Coluna da Inclusive.com número 9, novembro_2017]

A imprensa morreu e não descansa em paz.

Nasceu o jornal online sem caráter e dispensável. O antigo leitor acordou metamorfoseado em cascudo clicador, condenado às galés do ciberespaço.

É quase um ET semeador de tráfego na internet, presa do Google e do Facebook. Pois o clique é o critério absoluto da notícia na era digital, a teia sem escape.

O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.

Cliques dão dinheiro. A aposta barata no populismo midiático (como as “fake news”) dá dinheiro.

Isso talvez explique a falta de sintonia dos editores e o confuso alinhamento das matérias (conteúdos) nos portais.

Quando mais vulgar, mais cliques no papo. Quanto mais reles o humor, mais suja a fofoca, mais pornô a controvérsia e mais enviesada a manchete, maior a chance de um troço viralizar.

E aonde a vaca da internet vai, os jornais digitais vão atrás.

Entre o atentado terrorista e as malas do Geddel, você pode se informar sobre as aulas de furadeira da Lolita para atuar na novela das sete, desfrutar a sabedoria humanística do “artista de gênero” em voga, se iluminar com o pensamento mágico engagé de Wagner Moura e Cássia Kiss.

Um jornal deve se adaptar aos tempos. Não há nada de novo nisso. Novas editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa ao salve as baleias, do xadrez ao Pokémon, da crítica literária à culinária.

O negócio é o meio, seu McLuhan, que agora ultrapassou a mensagem.

O que exigia perícia dos editores para hierarquizar os fatos com senso e sensibilidade, no portal online virou uma terra de leiloeiros na bolsa de cliques.

A ordenação dos “conteúdos”, isto é, qualquer merreca, é um desafio que editores, desenhistas de web e programadores em geral estão perdendo.

O leitor em papel conferia uma espécie de procuração aos editores para filtrar e ordenar o que valia a pena se saber do turbilhão do mundo.

Toda manhã, confiante nesse contrato tácito, repassava as manchetes, os editoriais, as seções e separava o caderno ou a página a que mais se habituara. O resto ia para o serviço do gato. Assim se começava a ganhar o dia.

O jornal, dizia Hegel, era a “oração matinal do homem moderno”, pois havia algo de ritualístico na prática cidadã de se ler um periódico.

Agora é esse deus nos acuda. Se o jornal analógico era um veículo aristotélico, o digital está essa choldra mefistofélica.

Os anúncios viabilizavam o impresso de qualidade, mas não concorriam com a informação. Hoje travam com a matéria uma luta pixel a pixel na tela em transe.

Os donos de jornal podiam distinguir seu negócio: para o público letrado, com certa sofisticação intelectual, iam as folhas de primeira linha, e para as massas indistintas os tabloides com a pletora de sangue, suor e bundalelê. Agora, eis o busílis, os dois apelos convivem promiscuamente na mesma telinha.

O online precisa garantir milhões de cliques por milissegundo. Não tem procuração alguma de leitorados específicos, mas a imposição de publicar tudo que possa fisgar a atenção do internauta cigano.

O clicador — conforme o tipo que os digitais mais parecem perseguir — é iletrado tendente a babar na gravata, com menos de 30 anos e algum poder de compra, politicamente coxinha ou mortadela e incapaz de se deter por dois minutos numa leitura, que abandonará se não tiver carne fresca, isto é, algo que o faça estacionar e clicar mais num mesmo sítio.

As velhas gazetas, em geral, não estão conseguindo reafirmar suas identidades e põem a perder marcas e reputações, esmagadas pelo império do Facebook e do YouTube.

Jornalões e jornaizinhos estão numa cilada. Creem, falo do Brasil, que vai se safar quem mais despudoradamente representar um mundo infantilizado e hostil à inteligência e ao compromisso moderno do bom jornal de se aproximar o mais possível da verdade.

A imprensa morreu e vaga como alma penada.

É preciso que alguém mande celebrar uma missa para que pare de nos assombrar e descanse no silêncio eterno. Amém.