Brasil 70: além da Tropicália

Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, Paêbirú (Zé Ramalho e Lula Côrtes), Walter Franco, Milton Nascimento e Naná Vasconcelos entraram no radar de Daniel Salgado no artigo Brasil 70: más allá de Tropicália, na revista cultural espanhola Jot Down.

Salgado faz jornalismo cultural de primeira e parece conhecer nossa música popular em profundidade.

Eis o primeiro parágrafo

“Una clásica operación de retromanía con leves rasgos de colonialismo cultural rescató el movimiento tropicalista brasileño para la industria musical de Occidente. Corrían los años noventa, segunda mitad, cuando Beck explicaba a quien quisiera escucharlo lo mucho que adoraba a Os Mutantes, una banda psico-pop del Brasil sesentero entonces olvidada. La moda se extendía. Incluso la industria publicitaria tomaba nota. A Os Mutantes los había rescatado de las arcas del rock no anglosajón David Byrne, a través de su sello Luaka Bop. Everything is possible se tituló el recopilatorio con que ascendieron al trono del trending topic antes de que existiesen los trending topics. Y sí, era cierto: en la música tropicalista todo parecía posible.”

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Guinga é para poucos

Guinga

Foto: Manfred Pollert/Divulgação

Guinga, como quase ninguém sabe, é para poucos. Segue assim.

Surgiu agora no Spotify este disco que parece assombração, do mesmo jeito que falo em fantasmagoria ao comentar o álbum novo de Edu Lobo.

Não se consegue parar de ouvir. Esse lugar-comum tornou-se extremamente incomum, não é verdade?

Canção da impermanência lembra um caleidoscópio da escola de violão brasileiro.

Mauro Ferreira escreveu no G1 sobre o CD. Eis um trecho:

“Gravado em Osnabruck, no estúdio da gravadora alemã, e também conduzido pelo violão de Guinga,o álbum Canção da impermanência apresenta repertório de músicas inéditas e autorais, quase todas sem letras, mas a maioria com belos vocais que remetem a tempos idos. É um álbum em que Guinga reverencia mestres que o influenciaram na construção de obra pavimentada com harmonias modernas, mas, paradoxalmente, enraizada em glorioso passado da música brasileira. O repertório é formado por temas compostos solitariamente por Guinga. A exceção, dentre as 13 faixas do disco, é Doido de Deus, parceria com Thiago Amud, compositor que bebe da fonte límpida de Guinga e Francis Hime, entre outros compositores da mesma nobre estirpe.”

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A utopia presente de Roger Scruton

Scruton
O filósofo conservador e escritor britânico Roger Scruton era tipicamente tachado de fascista nos anos 1980, por enfrentar a esquerdofrenia acadêmica, um mal ainda crônico e prevalente. A virulenta reação de seus pares o obrigou, aliás, a abandonar o ensino universitário.

Em um livro que está saindo no Brasil pela Cia das Letras, O que é fascismo, George Orwell demonstra que a acusação “fascista” há muito é usada por todo tipo de embusteiro ideológico de esquerda, direita, lado, meio, diagonal, donde se queira. Na Piauí do mês passado há um trecho revelador do livro, que assinantes leem aqui.

O poder intelectual e A desenvoltura de Scruton como escritor o colocam hoje numa posição acima da manada das patotas clientelistas do pensamento mágico. É um intelectual cada dia mais respeitado e influente na Europa.

Já fez crítica de vinhos, escreve novelas, óperas, peças musicais, crítica literária e de arte. Considera-se um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável onde cultiva a terra e a boa vida.

A revista The New Criterion traz um artigo (Dialogues in Scrutopia, por Daniel J. Mahoney) que, a despeito de tratar de um livro recente, traça um perfil mais que adequado de Scruton.

 


 

Segue o primeiro parágrafo

“How does one begin to classify the prodigious activities of Roger Scruton? He publishes a couple of books a year, one as good as the next. He is a philosopher (in the classical as well as the academic sense of the term), a man of letters, an astute political thinker, and a student of high culture in all its diverse manifestations. He has written successful operas as well as fine novels. “Public intellectual” doesn’t begin to describe the breadth and depth of his activities and reflection. He is the opposite of the “specialists without spirit” lamented by Max Weber in his famous 1919 essay “Science as a Vocation.” The academy has trouble finding a place for someone who wishes to think and speak authoritatively about the human world and its relationship to the whole of things. It is not surprising then that Scruton left the academic world in 1993 (after twenty years at London’s Birkbeck College and a stint at Boston University) to become a full-time writer and “man of letters” (his preferred self-description). As this volume well attests, he did so with few regrets.”

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Na área de pesquisa do blog o leitor interessado encontrará outros registros sobre Scruton.

Uma pequena grande série

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Celeste (Nicole Kidman), Jane (Shailene Woodley) e Madeline (Reese Witherspoon) em Big Little Lies. Imagem da HBO

  • Os homens de Big Little Lies (HBO) oscilam entre a imbecilidade e a psicopatia. Já as crianças estão perfeitas. A minissérie é coisa de mulher. Mas o viés feminista não lhe tira a força, a graça e o frescor, ao contrário.
  • A adaptação para a TV do livro homônimo de Liane Moriarty, por David E. Kelley, tem sete episódios muito bem rodados e resolvidos.
  • Pequenas Grandes Mentiras foi lançado no Brasil pela Intrínseca.
  • A história sobre abuso sexual e neuras, que neuras!, de famílias ricas com seus casamentos e filhos é levada em luminosas locações de Monterey (Califórnia), com realismo comedido. A trilha musical faz bem seu papel.
  • Fim. O sucesso trouxe a conversa de uma segunda temporada. Seria um fracasso óbvio.
  • A mulherada dá um banho, tanto mais o núcleo formado por Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman) e Jane (Shailene Woodley).
  • O último capítulo mostra a que vieram as senhoras, com andamento, montagem e tomadas do melhor cinema americano.
  • O aparato tecnológico de Hollywood, seus melhores roteiristas e elencos migraram para a TV, não custa redizer.
  • Big Little Lies é uma pequena grande série, ou minissérie, entre as melhores já feitas.
  • Como adaptação literária, é quase tão boa quanto Olive Kitteridge. Para dar uma nota, 7,5/10.

 

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“Hineni, Hineni / Estou pronto, Senhor”, canta Leonard Cohen

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Rama/Creative Commons

So Long, Marianne

Em julho deste ano Leonard Cohen soube por uma amiga íntima da ex-mulher que Marianne estava à beira da morte, com câncer. Ela não havia falado da doença quando os dois conversaram pela última vez. Cohen então lhe escreve uma carta que começa assim (traduzo livremente): “Bem, Marianne, eis o tempo em que nossos corpos de tão velhos começam a cair aos pedaços. Creio que vou segui-la muito em breve. Agora saiba que estou tão perto que você pode segurar minha mão se me estender a sua”. Marianne viveu o bastante para ouvir a leitura da carta. A história é contada na revista americana The New Yorker.

“Seu dom ou gênio está em conexão com a música das esferas”, diz Bob Dylan sobre o amigo. Dylan deu uma rara entrevista, extensa e clara sobre a música de Cohen para o perfil de David Remnick. “Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim são tão geniais quanto suas letras”, comenta o Nobel de Literatura. “Mesmo as linhas de contraponto dão um caráter celestial e de elevação melódica a cada uma de suas canções. Até onde eu sei, ninguém fez nada parecido na música moderna. Inclusive uma de suas canções mais simples, como The Law, estruturada em dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais (…)”.

Cohen tem 82 anos e acaba de lançar um novo álbum, You Want It Darker. Tudo faz crer que o grande compositor canadense se despede. “Hineni, Hineni [aqui estou, em hebraico]/ Estou pronto, Senhor”, diz a canção-título.

Cohen merece um Nobel de Literatura.

Cohen tem razão sobre o que disse sobre Dylan na entrevista concedida ao El País. Sua obra é maior que o Nobel: “É como pôr uma medalha no Everest”. Não é que não mereça o prêmio. A academia sueca faz política, ignora a literatura e se apequena diante de uma estrela.



Um Nobel para João Gilberto

João mudou o mundo com seu jeito de cantar. Se não compôs muita nem grande poesia, além de Bim Bom, recria tudo que canta com seu violão revolucionário. A academia sueca premiou uma jornalista, um compositor, por que não reconhecer um inventor como João?



You Want It Darker

Leonard Cohen

If you are the dealer, I’m out of the game
If you are the healer, it means I’m broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, hineni
I’m ready, my lord

There’s a lover in the story
But the story’s still the same
There’s a lullaby for suffering
And a paradox to blame

But it’s written in the scriptures
And it’s not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They’re lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn’t know I had permission to murder and to maim
You want…


Publicação atualizada com a foto acima e a letra de You Want It Darker em 10/03/2017. A matéria referida de David Remnick pode ser lida em português na revista Piauí deste mês. Assinantes encontram aqui.

Dylan, Nobel de Literatura, e um mundo que acabou

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Nunca perdi o interesse por Bob Dylan. Quando minha geração, desde a quarta década de vida, começou a sepultar precocemente seus velhos ídolos entrados no outono, não os perdi, não os perco de vista.

Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Leonard Cohen, muita gente. Poucos mantiveram a vitalidade criativa como Dylan. Para sentir isso basta ouvir seus álbuns mais recentes, a exemplo de Modern Times (2006) ou Time out of Mind (1997), que trouxeram canções da riqueza de Not Dark Yet e Workin’ Man Blues II.

Luis Antonio Giron tascou a escolha do cantautor, como dizem em espanhol, como Prêmio Nobel de Literatura. “Depois de a Academia Sueca premiar uma jornalista no ano passado, chegou a hora de um músico. Eu sempre digo que o Nobel é o Oscar sueco. Agora o Nobel parece o Grammy da Suécia. Salvo se, de acordo com os boatos, Bob Dylan é Thomas Pynchon. E que tal um Grammy para Philip Roth?”,comentou no Facebook.

Tipicamente, a Folha de S.Paulo, que encomendou a Giron uma análise, publicada mais tarde, apontou em outro texto mais uma razão estaparfúdia para a glória de Dylan como Nobel de Literatura: “Artista é agora o único com Nobel, Oscar, Grammy e Globo de Ouro”. Qual o sentido disso, dizer que um criador acumula prêmios como um tenista conquista o Grand Slam? Informação pop, entretenimento oco, cultura gasosa, tudo que se identifica com o laurel anunciado nesta quinta-feira.

Ano após ano, aguardamos feito bobos o prêmio para Philip Roth. Não veio e não virá.

A literatura e a própria arte perderam a centralidade na vida humana, agora pautada pelo ordenamento dos dispositivos tecnológicos, do consumo e das redes sociais. Por certo ainda há no mundo uma miríade de bons autores e uma indústria editorial próspera. Mas, pense, qual foi a última vez que você conversou com alguém sobre a obra de um grande romancista?, ou misturou cinema, música e literatura num papo enebriante através da noite.

Não creio que a academia de doutores suecos tenha se rendido a isso. Bobagem. Mas, há décadas seu galardão literário deixou de fazer sentido. O que importa é a novidade, o episódico, a conversa frouxa e irrelevante que será esquecida ainda esta tarde.

Um mundo acabou, pode crer, amizade. A lembrança de Roth é exemplar. A literatura de Roth, como toda grande literatura, é capaz de transformar nossa compreensão de nós mesmos e do nosso semelhante. Dificilmente alguém poderá dizer o mesmo da lírica de Dylan. Mas quem sabe nos próximos anos não dão o Nobel a Chico Buarque? Estaríamos onde chegamos.