Um papo “transante” com Caetano Veloso, ou como não entrevistar um ídolo

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Caetano Veloso é um doce de entrevistado, eu pude ver nas vezes que conversei com ele como repórter dos jornais Hoje em Dia e O Tempo. É capaz de abordar qualquer assunto e adora uma provocação. Todo mundo sabe disso.

Todo mundo também sabe que a Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, na última década ou mais anda como a mendigar o prestígio que tivera, a erguer o chapéu para os cliques da onda homogênea das redes sociais, mas só faz afundar, dia após dia, na areia movediça da falta de caráter editorial.

O JS deteve-se em alguns pontos culminantes dessa trajetória engolfante, como a capa dedicada a fritar Noel Rosa, Caymmi e Valesca Popozuda na mesma frigideira da “cultura do estupro”. The horror.

Agora, publica com o igual estrondo uma entrevista de Caetano a Anna Virginia Balloussier, que lhe levanta a bola em todas as perguntas, como fã incapaz de propor uma perguntinha que seja que tenha cheiro de autêntico e irrevelado. Caetano corta como sabe e pode e a moça quer, inclusive no título idiota já colocado na pergunta: “Avesso à polarização simplificadora, Caetano elogia a direita transante”.

A menina Ballousier poderia ter ser esforçado para ler a coluna de Demétrio Magnoli com uma crítica precisa como bisturi de neurocirurgião às ideias de seu ídolo, e dali tirar uma questão decente com teor para capa de jornal de grande circulação. O próprio Caetano se refere ao texto de Magnoli no papo de aranha “transante” com a entrevistadora, assim como quem sorve uma água de coco na praia. Anna Virginia, com tantas letras dobradas no nome, claro, não entende nada!, e come a mosca com gosto de bombom.

 

 

Quase 30 anos esta noite, no Sempre um Papo

Dou um golpe no google-acaso de manhã e me saio com este recuerdo-regalo de Afonso Borges. Faz 30 anos esta noite, quase, quase. Eram minhas primeiras braçadas no jornalismo, ainda a concluir, no ano seguinte, meu bacharelado tardio, depois do papo de química e empregos na indústria cimenteira.

O Sempre um Papo marcou essa era e por meio do programa de Afonsinho conheci Décio Pignatari, um farol do JS.

A coluna Solo era sim o que parece ser, um espaço próprio, prematuro, entregue temerariamente a um foca por um amalucado chefe Kao Martins, no Diário de Minas, jornal extinto cujo fantasma insiste em orbitar a praça Raul Soares, vigiado por Dinho Araújo e outras almas apenadas.

A época permitia ou, mais que isso, demandava certo descompromisso, a correção política ainda era um fantasma do outro lado do oceano e o jornalismo, o jornalismo era outra história.

 

“Sting volta ao rock, reflete sobre a morte e chora por Tom Jobim”

Jobim Sting

Deu em O Globo esta entrevista do ex-Police a Eduardo Graça. Aqui vai o trecho em questão: 

(…)
Inclusive a namorar a música brasileira, com sua versão de “Insensatez”…

Que aconteceu com Tom (Jobim) sentado ao meu lado, no piano. Foi das últimas coisas que ele gravou. Ah, agora você me deixou emotivo (enxuga lágrimas). Que honra para mim! Tom sabia tudo de Villa-Lobos, de Chopin, do samba, da bossa nova. Mil desculpas pelo choro. É que me deu saudade do Tom. Ah, o tempo…

Há um pokémon no comentário da “Folha” à seleção de música brasileira do “NYT”

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O JS não vai debater os critérios do The New York Times na eleição do “essencial da música brasileira para os jogos olímpicos” — podem-se ouvi-las abaixo. Discutir listas de músicas e filmes é diversão infantil de aprisionados mentais ao universo do pop.

Este jornal descobriu um pokémon na peculiar apresentação da Folha de S.Paulo à iniciativa de quatro críticos do mais importante jornal do mundo, entre eles os ótimos veteranos Jon Pareles e Ben  Ratliff, estudiosos interessados e dedicados à nossa música há décadas.

É de intrigar este comentário do redator da Folha:

“A seleção não foge do óbvio ao contemplar obras de músicos como como João Gilberto, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim, mas se atualiza ao ladeá-las com canções de Ava Rocha, Sepultura e MC Bin Laden.”

Capturei o pokémon na expressão “não fugir” anteposta ao adjetivo “óbvio” seguido pela conjunção adversativa redentora “mas”, que equivale a uma celebração da imprescindível “atualização” do rol de músicas brasileiras essenciais. Ousasse escapar da obviedade, a seleção do NYT mereceria — quem sabe? — a capa da Ilustrada (seção de cultura da Folha).

O mesmo jornal que apedreja o leitor ao investigar a “cultura do estupro” na história da MPB, considera-se perfeitamente atualizado com a “evolução” incorporada ao novíssimo jornalismo cultural e, por óbvio, também em sintonia com a “evolução” dos gêneros atuais derivados do “espírito da época”, a exemplo do repi e do funqui . O resto é reação.


Breve diário da manhã de ontem

Piemonte

Langue, Piemonte, maio de 2010. Foto: Antônio Siúves

 

7h50 — Nem só de Zica e pestilência do mar vive a imprensa internacional no Rio. Termino no El País a leitura de uma longa matéria, fruto da mais antiga das pautas jornalísticas. A história de mulheres que estão no rio para se prostituírem durante a Olimpíada e, com o suor da labuta, juntarem algum para a realização de um “sonho agridoce”, como diz o título da edição brasileira do diário espanhol.

Uma mulher tem filho para criar, outra não tira o bastante no emprego, uma terceira diz que o mais vetusto dos ofícios é um vício. Ela não conhece ex-puta, observa; cedo ou tarde a maioria volta ao mercado. O final é de chorar:

Una semana después de encontrarlas por primera vez, la convivencia y las conversaciones con el grupo revelaron algo más en común entre ellas: cuando el ruido de los clubes se apaga y el rastro de alcohol y el sexo se pierde por el desagüe de la ducha, lloran en silencio bajo el edredón.

Para ler o texto em português, vá por aqui.


8h — A Folha de S.Paulo segue a fazer seu marketing, a que chama “pluralismo” —no qual a qualidade dos colaboradores nem sempre é decisiva— e a cabalar com seus leitores da esquerda. Estreia a colunista Vanessa Grazziotin, que soube aproveitar como uma Beth Davis em A Malvada seus dias de estrelato no julgamento do impeachment.

A senadora veio se juntar ao escrete de bombordo do jornal: André Singer, Vladimir Safatle, uma economista ilegível de Campinas, um humorista sem graça, todos, intelectualmente, meia-tigela, além daqueles, vários, que não ousam sair do armário ideológico, ou seja, assumir sua óbvia simpatia pelo lulopetismo.

A direita está muito melhor representada no jornal, em cérebro e estilo. Grazziotin carece dois dois. Eis um parágrafo do seu debute, que fala por si:

Preliminarmente, registro minha satisfação em colaborar com um dos mais tradicionais jornais do país que, tal qual o meu partido, o PCdoB, se aproxima de um século de existência. Ninguém sobrevive tanto tempo sem méritos.


8h50 – Saio para andar e cruzo com um bem-te-vi com um grande tufo de folhinhas de trevo no bico. É antes de tudo um forte, reflito. Os pardais desapareceram da minha vizinhança e ninguém deu pela notícia.

Sigo para sacar algum no meu banco. Na porta da agência vejo o mesmo ambulante de há várias semanas, com exemplares do diário do qual vende assinaturas e uma pilha de panelas fajutas ainda em caixas. Acaba de achacar mais um velhinho às voltas com a pensão e, muitas vezes, com os primeiros sintomas do Alzheimer — quando se tornam vítimas preferenciais de certos mascates e gerentes de banco.


9h30 – Primeiro expresso na Savassi, depois do café que eu meu mesmo coei. O Globo discute em editorial o legado dos Jogos para o Rio e conclui que a cidade está mais para Barcelona —modelo virtuoso na história olímpica de proveito para as cidades-sede— que Montreal —referência negativa.

A despeito dos erros, diz o jornal, a nova linha de metrô, a malha de BRTs, o VLT no Centro e a revitalização da área do Porto são obras positivas e transformadoras. Cita também um estudo da Fundação Getúlio Vargas que aponta não sei que ganhos sociais para a cidade durante a execução do projeto olímpico.

Nem uma palavra sobre a malograda despoluição da baia. O Rio e o país se acostumaram à merda.

É fácil prever que o Brasil chegará aos primeiros lugares no quadro de medalhas olímpicas muito antes de poder celebrar a universalização do saneamento básico — um bem fundamental da civilização a que, hoje, menos da metade dos brasileiros têm acesso.


10h20 – Chego à Casa Fiat e conheço a nova Piccola Galleria, onde há uma exposição de fotógrafos italianos do Piemonte. Detenho-me nas obras de Sérgio Fea e seus enquadramentos de vinhedos em La Morra, na província de Cuneo, e de Marco Villa, que mostram a região do Langue diante dos Alpes italianos.

Retomo os dias que percorri aquela terra na primavera, com amigos. Sinto o ar puro, diviso as ondulações suaves do relevo e me integro à calma sob a luz que imprime na memória uma espécie de devaneio, como o sabor do excelente vinho rosado da terra. A foto acima é um registro de minha viagem.


10h40 – No café da Casa Fiat, o segundo expresso e a sexta xícara da manhã. E ainda há quem fale mal da rubiácea.

Releio páginas finais de Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, do diário de Stephen Dedalus. “O passado é consumido no presente e o presente é vivido somente porque trás consigo o futuro”, anota o artista, pouco antes de lançar-se no mundo, com o célebre registro: “Sê bem-vinda, ó, vida! Eu vou ao encontro, pela milionésima vez, da realidade da experiência, a fim de moldar, na forja da minha alma, a consciência ainda não criada da minha raça”.

Retomo a leitura de O Globo, que, ousadamente para um diário no Brasil de hoje, dá a capa do seu Segundo Caderno ao lançamento de um livro de poesia, ainda mais em uma semana na qual o jornalismo cultural brasileiro comemora um novo produto Harry Potter, agora uma peça de teatro. Ou nem tanto ousado assim, afinal, o moçambicano Mia Couto tornou-se uma estrela da Companhia das Letras. O jornal pinçou dois poemas da coletânea, um deles é

A ADIADA ENCHENTE

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.


O SOM DE ONTEM, ANTES DO ALMOÇO

De volta ao escritório, navego pelo Spotify e descubro esta grata gravação da tradicional canção Dream a Little Dream of Me, dos anos 1930, com o grupo americano Pink Martini em seu disco de 2014 com os cantores von Trapps, e me lembro do bem-te-vi valentão meu vizinho.

Diário do fim de semana

Diário fim de semana

SALVE UM JOVEM

Se você é próximo de quem começa a fazer Humanas, corra a lhe comprar a nova tradução de O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron, lançado pela editora Três Estrelas. Há uma ótima apresentação de Vinicius Mota na Folha de S.Paulo.

Corra e insista para que seu afeto o leia de verdade e com coragem. O livro vai vaciná-lo contra a mistificação, contra a doutrinação pela religião secular do marxismo (e suas derivações) e do esquerdismo; vai libertá-lo. Se não for agora, babau. A moça ou o rapaz cairá para sempre nas graças do primeiro professor charmoso e diligente que lhe der a ler, por exemplo, o gosmento O Que É Ideologia, de Marilena Chaui. Sem falar que a obra de Aron, pode apostar, sequer será mencionada pelo guru.

OS ROBÔS CHEGARAM

Conferentes de estoque de supermercado e motoristas começam a ser desempregados por robôs nos EUA. IA, Inteligência Artificial, é a nova fronteira do Vale do Silício, sem botão de “curtir”, informa esta matéria do The New York Times traduzida na Folha. Jornalistas que coletam dados econômicos, radiologistas e outras frentes de trabalho ganham ou ganharão competidores robóticos. Profetas como Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google, há muito pregam o advento da “vida” eterna por meio de IA. Tudo caminha para que seus discípulos perenizem nosso tédio, nossa miséria e nossa vergonha.

DEU BRASIL NO BABELIA

O Babelia, um “suplemento” cultural, como dizíamos nos século passado, digno desse nome —os brasileiros foram extintos—, tantas vezes citado pelo JS, aproveita a Olimpíada do Rio com a pretensão de mapear a literatura brasileira hoje. O resultado dos dois despachos é morno e triste. O correspondente anda com segurança pelo riscado, chove no molhado e foge de qualquer juízo, de uma investigação mais profunda com críticos e leitores referendados, sem falar de leituras próprias. Tive pena esta manhã dos espanhóis que leram o excelente caderno do El País.

 PAPAS EM AUSCHWITZ

Simples e boa a cobertura do El País, com um ótimo vídeo, da visita do papa Francisco I ao campo de concentração Auschwitz-Birkenau, na Polônia, onde os nazistas exterminaram um milhão de pessoas, quase todos judeus.

Francisco, terceiro papa a visitar o campo, após João Paulo II, em 1979, e Bento XVI, há 10 anos, permaneceu calado durante o percurso. Ele disse, “Senhor, tem piedade do seu povo. Senhor, perdão por tanta crueldade”. A palavra de Bento em 2006 era mais terrena, ao questionar o silêncio e a omissão do criador: “Senhor, como pudeste tolerar isto?”.

DERRETIDAS POR OBAMA

O deslumbramento com o discurso de Obama na convenção democrata tirou do sério algumas jornalistas. Contei as ótimas Ana Paula Araújo, no Bom Dia Brasil; Leilane Neubarth, na GloboNews, e Cora Rónai, no Facebook. O faniquito de encanto feminil pelo grande entertainer que é Obama —estou entre seus admiradores— foi mais um atestado do péssimo jornalismo que é feito hoje no país, rendido à banalidade, ao espetáculo e à preguiça.

SONS DO FIM DE SEMANA

Do CD Piano e Voz, um dos melhores discos de música brasileira lançados neste século. Duvido de que alguém se canse de ouvi-lo.

 

Tenho escutado muito as obras de Villa-Lobos para violão, no Spotify. Fisguei esta gravação no YouTube, mais ou menos ao acaso.