Categoria: jurupoca

JU_107 | Um país desNorteado e tremebundo

O Brasil perdeu a Amazônia para uma vasta súcia que só falta portar crachá oficial. Somos um país insultado, insulado, descentrado, desNorteado e tremebundo. Quem ainda bate bem do coco se borra de medo do Vibrião Colérico, enquanto o cinismo e a perversão livram muitos da falta de ar do absurdo. Num artigo outro dia, Muniz Sodré lembrou a navalha de Carlos Lacerda. A um adversário que lhe disse: “Suas palavras entram por um ouvido e logo saem por outro”, o polemista contestou: “Impossível, o som não se propaga no vácuo”. Vácuo! Vivemos no vácuo do pântano mental do Vibrião — criatura preservada no formol da ditadura nos ricos subsolos secretos banhados por esgoto a céu aberto do Planalto Centrão.

JU_106 | Um samba da sinestesia, que tal?

Venho de viagem amiga à irmã em Itaipava. Volto tingido do verde e do gris reluzente dos gigantes pétreos da serra do mar, do violáceo e branco dum manacá resiliente e do rosado estradeiro do capim-meloso. Ouço ao chegar um samba elegante e furta-cor do Chico terçado ton sur ton com o bandolim do Hamilton de Holanda. No laranja-fogo da tarde de terça baixo à estação de mim, enfim. Penso que quase somos — tem hora e cor — seres-estrelas. Não? Seres-pirilampos? Não? Buracos negros a guardar tudo que é onda e luz? Se pá?

JU_105 | Óbolos para o oblívio no matulão

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdeste o senso!” Sim, na brumosa-vertiginosa voragem da Via Láctea — sinal de folia. E pensar que há pequenez humana no mundo que não contrasta o céu — sinal de psicopatia — nem encara as ilusões perdidas — sinal de putaria. E há quem, até, por ver em tudo ninharia, diz não ao Bloomsday neste dia, 16, por não querer festejar os cem anos do Ulisses, tal maravilha, o que é sinal de mixaria.

JU_104 | Anitta, padroeira do Brasil

Não se vá culpar um gambá por feder. Ou por que o público quer lixo, segundo Orwell. | O chulé do populismo. | A estátua de Anitta, a nova padroeira do Brasil, e o museu de cera da televisão brasileira. | A Globo, a monetização sertaneja e o império do chorume. | Shows sertanejos milionários em cafundós banhados por esgoto a céu aberto, e a propagação do evangelho de JC segundo JMB (vulgo Vibrião Colérico, agente transmissor da cólera contra a imprensa e a democracia).