E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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Perdidos no espaço analógico

Jurupoca #46. Desde o Belo, 6 a 12/11/2020. Ano 2

Soneto 178 – Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Era uma vez uma cartinha analógica que explorava galáxias na mandatória nave Júpiter II em busca de um atalho, um “buraco de minhoca”, para alcançar o mundo digital.

O missivista sabia que perseguir tal atalho era pretexto vão de um navegador extraviado, epa, fadado, debalde, o mesmo que embalde, a navegar e navegar sem rumo por aí, isto é, pelas galáxias.

Ainda que chegasse à pretendida dimensão espaço-temporal, lá não haveria ninguém capaz de decifrar a escritura analógica, nascida do ser analógico arredio, o mesmo que dévio, assegura o Houaiss, do missivista.

Os seres daquele mundo, daquele tempo, não tinham tempo nem (acima de tudo) proveito, aqui o mesmo que interesse, no sentido de pecúnia, com quimeras analógicas: analogias, metáforas, ironias.

Dicho sea de paso que a palavra “quimera” se necrosara no corpo do idioma, aliás, também a própria colocação pronominal, além dos vocábulos implícitos: “carta”, “missivista” o “escambau”.

Naquele mundo a palavra desencantada sepultara de vez a moribunda e patética poesia, ao menos o moribundo e patético poema analógico.

É que a lavra poética havia muito fora assumida pela inteligência artificial robótica no mercado digital de cliques.

Aplicativos abertos tornaram acessível, inclusive aos mais patetas, mesmo que parvos, a fatura poética como, acima de todos os propósitos, a inteira gama da criação literária e musical.

Robôs poetas sugeriam os versos dos putativos, no sentido de supostos, poetas compartilhadores (sic), desde a pré-história dadivosa e virtuosa, como também lacrimosa, do Instagram, naquele multitudinário mundo da criação instantânea.

Naquele mundo intenso, a publicidade conseguira de vez recriar-se no ativismo exclusivo dos mais ativos, verdadeira revolução no vender o peixe antediluviano dos criativos.

Era capaz, a publicidade, de fixar na imagem de uma empresa suja como pau de galinheiro a benévola aura duma Santa Dulce dos Pobres, ou de converter o capital supremacista num baluarte da luta antirracista.

Bastava, em suma, deslanchar uma onda de hashtags em inglês engajadas e virtuosas formuladas por criativos tecnicamente multitalentosos.

Mas isso e o resto são detalhes.

Significativo é narrar que, ainda assim, careca de saber de tudo isso e aquilo, nosso pugnaz missivista seguia a alçar tamancas e bater cabeça pelas galáxias, atrás de unzinho “buraco de verme”, assim traduzido do inglês “wormhole”, para contrabandear suas cartinhas para o mundo digital, mundo que punha no chinelo aquele outro, admirável, de um tal de Aldous.

Cuá, dizia o missivista para si próprio, resignando-se num remordimento de intra-imo, como o Dedalus do Joyce, isto é, do Houaiss, e salvando-se com a prima Naná com esse peculiar “cuá” familiar.

Pois, cuá, dizia, que ficassem por lá, transviadas, aquelas cartas analógicas, expressão de um ser analógico perdido no espaço, caso, claro, um dia ou uma noite, tais cartinhas deparassem um “buraco de minhoca” e pulassem a cerca espaço-temporal inteirinhas da Silva.

Cuá, que se acumulassem na posta-restante que não haveria, a espera de civilizações superinteligentes, faladoras de todas as formas do inglês do universo, como aprendeu quem viu muito Jornada na estrelas.

Fantasiava que tais exegetas, no caso comentaristas, lograriam ler, interpretar e, finalmente, despachar suas cartinhas, no sentido de, pelo amor de deus, nos livrar a todos de tais escritos até, inclusive e pelo menos, o fim do mundo.

Moral da história? Tuta e meia, nonada, equivalentes a ninharia.

Ou antes esta: Era uma vez um pinto pedrês, quer que eu te conte outra vez?

O BREVE RETORNO DE UM ALIEN AO FACEBOOK

Jonathan Harris como o
inesquecível Dr. Zachary Smith

Durou uma semana contada nos dedos de uma única mão o regresso do missivista às entranhas da rede social mais popular da Terra, o tóxico Facebook. Que aventura rosicler desfrutou nosso anti-herói! De cara, imbuído de profunda sinceridade desinteressada, disse um alô para colegas de faculdade com quem não parolava há meio século, com quem, é certo, continuou sem parolar. Contatou um familiar e obteve ansiadas notícias da amada madrinha! Solicitou (sic) a outro amizade na rede, que de pronto lha concedeu (eta nós!). Que viagem, hein, meu chapa? Mas não. Como dantes, sentiu-se, transcorrida aquela fase lunar, e era previsível que transcorresse assim, sentiu-se fantasmagórico, enjoado como uma grávida sem feto nos primeiros meses, talvez com um que outro desafeto, isto sim, sentiu-se a flutuar na estratosfera algorítmica do Zuckerberg como um Dr. Zachary Smith na abertura do seriado Perdidos no espaço, de priscas eras analógicas, mas que se pode recordar nesta página, graças a algum caridoso youtubeiro. Sentiu nosso macunaímico anti-herói, caso permanecesse mais dois segundos naquela dimensão social, que perderia o que lhe restava de carnação, sopro e véu da palavra, além da afanada lucidez. 

O samba-choro E o mundo não se acabou é um dos mais populares na obra de Assis Valente. A maestria do autor pipoca nos versos iniciais: “Anunciaram e garantiram/ Que o mundo ia se acabar…”.

Lançado por Carmem Miranda em 1938, a composição fazia “uma perfeita crônica sobre o fim do mundo, devido à possível colisão do cometa Halley com a Terra”, lemos no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

No segundo semestre de 1999, quando o fim do mundo fez uma de suas rentrées, com o Bug do Milênio, o velho sucesso de Valente foi muito lembrado por rádios e programas de TV.

Um ano antes Paula Toller havia incluído sua versão do samba no álbum da WEA com seu nome.

Ouvíamos uma cantora amadurecida e autoconfiante. Como disse à época um crítico de Veja a brincar com um sucesso do Kid Abelha, a artista conseguira transformar seu rascunho em arte final.

O arranjo de Graham Preskett honra o fonograma de Carmem, mas é ao mesmo tempo moderníssimo.

O colorido é obtido pelo amálgama sonoro de violão, guitarra, baixo elétrico, teclados, bateria programada e sampler. Ritmo e melodia soam ainda mais provocativos, uma autêntica transcriação e adaptação aos modos e recursos da época.

Embora muita gente boa tenha gravado este samba-choro, e entre os mais afamados constem Marlene, Isaurinha Garcia, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, a interpretação de Toller é a que me parece mais vital e pulsante, a que mais se sintoniza com a própria Carmem Miranda, erguendo uma ponte de meio século com inventividade e elegância.

A Toller introduziu um grão de pimenta e liberação feminina, com “cacos” teatrais que atualizam a letra aos costumes, além de uma introdução sacaninha sobre a frase instrumental da abertura. Assis Valente, estou certo, se sentiria honrado com a saudável e ousada e loura intérprete de seu hit.

E o mundo não se acabou – Assis Valente, com “cacos” de Paula Toller

Aracaju, maracujá, pega daqui, taca de lá
Maricota, Mariquinha e Mariquita soltam a periquita lá em
Guaratiba e Guarujá
Maracatu, jacarandá, Jeca tatu, Paranaguá
Papacu rasteiro vem correndo bem ligeiro
Vem querendo um bocadin’ de guaraná

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá
No morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei no pau de quem não conhecia
Dancei pelada na televisão
E o tal do mundo não se acabou

Chamei um cara com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão/um milhão
Agora eu soube que esse cara anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

O INSTA REDIMIDO

Depois de vilipendiada por pesquisas que comprovaram, decerto levianamente, que a rede faz mal à saúde, causa ansiedade e o diabo a quatro, o Instagram se viu sem querer redimido pelo, sempre quando quer, acrítico ex-caderno de ex-cultura da Folha. Imperativa, que é o modo mais sábio de induzir pavlovianamente o ato de clicar, a Ilustrada manchetou garrafal o título acima. A descolada repórter ouviu uma publicitária e uma doutora em semiótica, ou algo assim. Claro, também ouviu uma virtuosa ativista exclusivista. O leitor do relato acreditará se quiser que, enquanto o Facebook e o Twitter são puro veneno, é do Insta que virá a revolução social ensejada pelos ultraprogressistas do ex-jornalismo, ou, no vocabulário dos redatores do ex-caderno: “Saiba como o Insta está mudando o mundo para melhor”.

NÚMEROS “ATRASADOS” DA JU NO BLOG

A Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa é o mais recente dos números “atrasados” desta carta trazidos para este Livro de Viagem. Faltam, creio, transpor outras sete edições do acervo da plataforma TinyLetter para que tal trâmite seja dado por findo.

«La gota de rocío, com o cubano Silvio Rodríguez.175

«125 – Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Ney Matogrosso e Webster Santos.»

«Não há cena de seus sete filmes como James Bond, por mais memoráveis que sejam, que me façam recordar Sean Connery como este Robin e Mary, o filme dirigido por Richard Lester e lançado em 1976, estrelado por ele e também encantadoramente por Audrey Hepburn. Só achei no YouTube a cena final completa com legenda em francês.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #45

Desde o Belo. 30/10 a 5/11/2020. Nº 45. Ano 2

America (2016), do artista italiano Maurizio Cattelan, no Museu Guggenheim. Cattelan convida o público a experimentar seu vaso revestido em ouro 18 quilates, pública e privadamente. Um século depois do urinol de boteco de Duchamp, era a vez de o bilionário mercado de arte oferecer um mimo ao sonho de consumo inconfesso da nossa civilização, aí tão bem representado. Não é o posto ideal para uma selfie?

X
L’ennemi 

 Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,
 Travesé çà et là par de brillants soleils;
 Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,
 Qu’il reste en mon jardim bien peu de fruits vermeils. 
  
 Voilà que j’ai touché l’automne des idées,
 Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux
 Pour rassembler à neuf les terres inondées,
 Où l’on creuse des trous grands comme des tombeaux. 
  
 Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve 
 Trouveront dans ce sol lavé comme une greve
 Le mystique aliment qui ferait leur vigueur?  
 
 — O douleur! ô douleur! Le Temps mange la vie,
 Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le cœur 
 Du sang que nous perdons croît et se fortifie! 
  
 X 
 O inimigo  
  
 A juventude não foi mais que um temporal,
 Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;
 As chuvas e os trovões causaram dano tal
 Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.  
 
 Eis que alcancei o outono de meu pensamento,
 E agora o ancinho e a pá se fazem necessários
 Para outra vez compor o solo lamacento,
 Onde profundas covas se abrem como ossários.
  
 E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia
 Não achem nessa gleba aguada como praia
 O místico alimento que as fará radiosas?

 Ó dor! O Tempo faz da vida uma carniça,
 E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas 
 No sangue que perdemos se enraíza e viça!
  
Charles Baudelaire, As flores do mal. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Nova Fronteira, 2006. 

Opa! Vamos apear?

Apraz-lhe, leitora amiga, um vermute com gildas, este excelso pintxo basco? Não?

Quem sabe uma paródia distópica nada edificante?


Agora eu era um drone comprado na Amazon,
E meu brinquedo só falava mandarim

A noiva do Wolverine era na verdade uma robô,
Além de outras três mutantes lilases

Eu enfrentava terroristas uigures e milicianos
Cariocas, guardava meu AR-15 e ensaiava um funk para as raves

Agora eu era um cantor sertanejo, um senador da República
E era também um ministro insuspeito do STF

E perante a minha lei,
A gente era conduzido sob vara e remédios à felicidade

E você era a androide que eu fiz labutar, era tão linda de se programar,
E já se despia com um comando do olhar

Mas você saiu de órbita sem dizer bye, bye,
E agora eu era um seresteiro a perguntar,

O que é que o destemperado
Tempo vai fazer de mim.

Tá bom por aqui, né, de paródia distópica?

Pois é, confesso ou não confesso?

— Sim, deve.

Então confesso:

Passo os dias soluçando com pinho,
Carpindo minha dor, sozinho,

Sem esperanças de voltar a ver
Minha androide lilás.

Deus tem compaixão deste infeliz,
Por que sofrer assim?

Compadecei-vos de meus achaques, ora essa.

Sem falar que sou, devo confessar?

— Sim, é o jeito.

Sou cruzeirense, decerto sou,

Desde pai e irmão mais velho.

Desde Tostão, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo, Piazza, Procópio, Neto…

E agora eu era um louco a me matar,

A um passo da Série C do Brasileirinho.

Isto sim é que sofrer!

Ó Deus tem compaixão deste infeliz.

E você também, leitora,

Compadecei-vos dos meus ais!

O Cruzeiro que entrou para a História. E agora eu era um louco a perguntar o que vamos fazer na Série C

NÚMEROS ‘ATRASADOS’ DA JU:

São estes os números anteriores da Ju (#0 a #39), enviados exclusivamente por e-mail para os assinantes da Tinyletter, agora já disponíveis neste Livro de
Viagem: #0#01#02#03#04#05#06#07#08#09#10#11#12» — #13#14 #15#16#17#18#19Carta Extra de Quarentena #01#20 Carta Extra de Quarentena #03 #21Extra de Quarentena #04#22Extra de Qurentena #05# 23 Extra de Quarentena #06#24 #25#26#27. As edições que faltam (#28 a #39) serão publicadas nos próximos dias.

QUANDO O REALITY SHOW
SE TORNA O SHOW DA VIDA

É significativo que “almas” gêmeas como Trump & Bolsonaro, ou seja, Agente Laranja & ¡Caveirão.105mm!, tenham sido encubadas no auge da Orgia da Frivolidade, que é outra forma, encontra pela Ju, de definir nossa era. Em A civilização do espetáculo (2012), Mario Vargas Llosa refaz o percurso em que a informação se transforma em “instrumento de diversão”. O escândalo, a infidelidade, a fofoca, a violação da privacidade, a calúnia e a mentira alimentaram, primeiro, a imprensa popular, os tabloides, depois a audiência televisiva e agora as redes sociais e a internet. “Não existe forma mais eficaz de entreter e divertir que alimentar as baixas paixões do comum dos mortais”, diz Llosa. O entretenimento passageiro, lemos mais à frente, se converteu na “aspiração suprema da vida humana”, e os valores, as ideias, os livros, a arte e a literatura depararam o “direito de contemplar com cinismo e desdém tudo que é chato, preocupa e nos lembra que a vida não é apenas diversão, também drama, dor, mistério e frustração”. Isso me ocorreu ao ler uma entrevista do jornalista e escritor David Remnick, editor da consagrada revista The New Yorker há mais de duas décadas. Remnick frisa que Trump é um herói televisivo, campeão do reality show, o entretenimento por excelência de nossa era, a era da “razão cínica”. “Trump tem, como demagogo, muitos talentos. Pode ser divertido, de forma demoníaca, mas tem um elemento que vem de uma origem óbvia: seu passado na indústria da televisão”, diz. “Tem um passado no mundo do entretenimento. Ele está sintonizado. Basta ver como dominou a televisão a cabo em 2016. Por quê? Porque aumentava os índices de audiência. Agora vemos a CNN como um canal crítico, mas a CNN lhe dava horas e horas de tempo grátis no ar porque a audiência subia quando ele falava”, lembra Remnick. Ele comenta o que Barack Obama lhe disse em um dos encontros que tiveram: “Trump entende o novo ecossistema, no que a verdade e os fatos não importam. Ele atrai a atenção, mobiliza emoções e segue em frente.” Nesse “ecossistema” prosperaram o negacionismo e canais como Fox News, Breibart, InfoWars e QAnon. O Caveirão, um campeão do Facebook, também entende o novo “ecossistema” do Bananão (com a licença de Ivan Lessa). Ao se lançar à presidência, intuía seu lugar ao sol na configuração social do país e seu arco que cobre templos evangélicos, templos de consumo, searas milicianas e o Planalto-Centrão, com seus braços nos Três Poderes. Em nosso caso, as redes de TV evangélicas e venais e os canais pagos ou abertos se tornaram indiferenciáveis, em substância. No mesmo passo o jornalismo foi se fazendo mais e mais anêmico, e menos e menos influente, acossado pela imposição do caça-clique. Enquanto isso, o BBB da Globo, que alguns julgavam em fim de linha, na edição 2020, a 20ª, atingiu um milhão de votos!, o que maravilhou o Midas do Marketing e Profeta da Genialidade Baiana, Nizan Guanaes.   

O MARECHAL DA CRÔNICA
NÃO DESPERDIÇA MUNIÇÃO

Álvaro Costa e Silva, o marechal, que reparte um minifúndio na Folha com Ruy Castro, é um bamba da crônica e não perde o fio da hora. Em sintonia com a Ju # 44, lembra que ¡Caveirão.105mm! e milícias são do mesmo campo semântico, por assim dizer. “Nos quase dois anos de Bolsonaro em Brasília, o Rio teve plenos poderes para cumprir seu ideal: tornar-se terra de miliciano”, apontou no último sábado, armado apenas com seu teclado. “Sede do poder no Brasil Colônia, Vice-Reino, Império e República, a cidade hoje tem dois milhões de moradores e mais da metade de seu território sob o domínio de grupos paramilitares”. O marechal mantém a mira e manda na mosca: “Velho amigo do Queiroz e vizinho de um acusado de matar Marielle Franco, Bolsonaro, mais do que ninguém, tem conhecimento do que se passa no Rio”. Ele, marechal, atira suavemente com as letras, mas já vemos os destroços: “A pergunta a ser feita é se ele se importa. Deu alguma ordem ao ministro da Justiça? Ou André Mendonça só ocupa a pasta para invocar a Lei de Segurança Nacional contra jornalistas e cartunistas?”. O marechal gosta de samba, graças a Deus. Sem nunca se derramar, não renuncia a uma pitada de emoção, como no texto desta terça-feira (27), onde decanta as velhas guardas das escolas de samba e a pessoa de Hildemar Diniz, o cantautor Monarco, que ele viu em live recente, aos 87 anos, com “a mesma voz altaneira, metálica, dolente” registrada no LP Portela, passado de glória, de 1970, produzido por Paulinho da Viola para honrar uma tradição ameaçada.

INTERVALO

“Nosso amor resplandecia sobre as águas que se movem”

Itapuã — faixa A3 do álbum quase épico Circuladô, de 1991 — é uma das composições mais francas, emocionais e belas da obra de Caetano Veloso.

“É sobre mim e Dedé [primeira mulher do artista], por isso eu chamei Moreno [seu filho soteropolitano, nascido em 1972] pra cantar comigo. Essa música me emociona, muitas vezes eu cantava e chorava”, contou a Eucanaã Ferraz, organizador do livro Letra só (Companhia das Letras, 2003).

A mim também emociona. Melodia e poesia guiam minhas sensações quando revisito Itapuã e Abaeté.

A canção é aberta na escala maior para modular em versos como “Itapuã, tuas lamas algas, almas que amalgamas”, que, além do cancioneiro, enriquecem nosso moribundo [que filólogos não me ouçam] idioma.

A canção termina com a repetição do segundo verso, agora numa inflexão propriamente confessional, entre o canto e a recitação: “Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem”, que é de uma força atroz.

Itapuã – Caetano Veloso

 Nosso amor resplandecia sobre as águas que se movem
 Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem
 Nosso ritmo, nosso brilho, nosso fruto do futuro
 Tudo estava de manhã
 Nosso sexo, nosso estilo, nosso reflexo do mundo
 Tudo esteve Itapuã

 Itapuã, tuas luas cheias, tuas casas feias
 Viram tudo, tudo, o inteiro de nós
 Itapuã, tuas lamas algas, almas que amalgamas
 Guardam todo, todo, o cheiro de nós
 Abaeté, essa areia branca, ninguém nos arranca
 É o que em Deus nos fiz
 Nada estanca Itapuã
 Ainda sou feliz

 Itapuã, quando tu me faltas, tuas palmas altas
 Mandam um vento a mim, assim: Caymmi
 Itapuã, o teu sol me queima e o meu verso teima
 Em cantar teu nome, teu nome sem fim
 Abaeté, tudo meu e dela
 A lagoa bela, sabe, cala e diz
 Eu cantar-te nos constela em ti
 E eu sou feliz

 Ela foi a minha guia quando eu era alegre e jovem 
Recorte de edições online de “ex-cultura”

“FALO DO QUE ESTAIS
A LER, SENHOR.”

“[…] O que estais a ler?”, Polônio pergunta a Hamlet (ato 2, cena 2), que diz: “Palavras, palavras, palavras”. Hoje, um Hamlet leitor dos cadernos brasileiros de ex-cultura responderia: “Fofocas, fofocas, fofocas”.

MAS O QUE É EX-CULTURA?
NÃO CUSTA VOLTAR AO PONTO

A Ju cunhou o termo “ex-cultura” para qualificar a revolução (e involução) sofrida pelo gênero de jornalismo que se entendia por “cultura”. Tal gênero valorizava as artes, a música de qualidade, os lançamentos literários e o cinema, pelo menos. O jornalismo cultural era o campo da crítica, que informava e orientava os leitores, e tivemos uma grande escola. Isso já era. A crítica foi vencida pelo algoritmo e a avaliação mediana dos usuários. O que restou como crítica se apequenou, escorraçado pelas milícias ideológicas. Os espaços dedicados à velha e empobrecida “cultura”, presentemente “ex-cultura”, perderam inteiramente o caráter, desde que começaram a refletir a moda gastronômicas que há década apaixona nossas classe médias. Passaram, demagogicamente, e, claro, desesperadamente, a tentar sobreviver, e obedecer aos imperativos do clique: o humor barato, o entretenimento fuleiro, o culto à celebridade, à fofoca e às demandas do radicalismo étnico-identitário. Esse fenômeno acometeu a imprensa em toda parte, mas é especialmente feroz no Brasil.

A ÚLTIMA SELFIE,
AINDA É TEMPO!

Anotei na Ju #24: Quando um indizível meteoro se agigantar ao se aproximar da Terra, veremos no Instagram um festival de selfies contra as chamas do astro ao fundo, até um segundo antes.

TOM JOBIM INÉDITO (E ETERNO),
AGORA TAMBÉM NO YOUTUBE

Estas gravações em estúdio, de 1987, são a plena realização de um plano ideal na carreira de Tom Jobim. Tocam um mundo perfeito e nos permite alcançá-lo. Cercado pela família e músicos agregados, como Jacques Morelenbaum e Danilo Caymmi, da Banda Nova, Tom garantiu o tempo, a paz, o conforto e a verba necessários. Os primeiros ouvintes foram sortudos destinatários de um luxuoso presente natalino da Odebrecht, patrocinadora do projeto. Quem não tem a caixa Tom Jobim Inédito (1995) com os seus dois CDs e livreto de letras, fotos e ilustrações, e já há algum tempo dispunha dos 24 fonogramas no streaming, agora pode ouvi-los também no YouTube, sob os auspícios da Biscoito Fino.

Um mundo perfeito ao nosso alcance

«A volta de The americans, uma das melhores séries da década. Por Patrícia Kogut, em O Globo. Alvíssaras. A série é uma das preferidas desta Ju

«Paulinho da Viola volta com álbum ao vivo gravado há 14 anos, e faz novos choros. Por Sérgio Essinger, no Globo

«124- Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Dori Caymmi e Teco Cardoso Correnteza»

«Como o New York Times ajudou a ocultar os assassinatos em massa de Stálin na Ucrânia. Por Izabella Tabarovsky, no Tablet.»

«Um presidente relembra sua luta mais dura. Excerto exclusivo do livro de Barack Obama A Promised Land, que logo estará nas livrarias. É o primeiro volume de suas memórias na presidência dos EUA. Na The New Yorker

«Em defesa do CD. Por Diego A. Manrique, no El País

«A voz de um cantador: ‘20 Super Sucessos’ de Zé Ramalho. A coletânea do artista é comentada, com vídeos, no site do IMMuB (Instituto Memória Musical Brasileira).»

«No mesmo IMMuB, Leonardo Malcher comenta a parceria entre Chico Anysio e Arnaud Rodrigues em discos e no programa Chico City: Quando o humor é coisa muito séria

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #44

Desde o Belo. 23 a 29/10/2020. Nº 44. Ano 2

Opa! Vamos apear?

Apraz-lhe, leitor amigo, uma cidade invernal, bela, ainda que feia, com jeitin nórdico, ainda que austral, só que em plena primavera, depois de um calor setembrino, seco e feroz, caçar nossos escalpos?

Assim está o Belo, dei gratia, enquanto batuco este número da Ju, mais um texto a acenar para a “abundância superficial” da internet…

Pres’tenção, moça, é tomado pelo altruísmo que tenho me dedicado ao serviço de trazer pra cá, para o blog, todo o acervo da Jurupoca.

Até esta quinta-feira (22), foram postadas as edições de 0 a 12, nas respectivas datas de envio da newsletter. Os links vão ao pé desta carta.

Oportunamente, todo o acervo estará neste Livro de Viagem, ainda que, graças ao Corona, nos últimos tempos, a viagem, a viagem mesmo, realmente, mas realmente, só ao redor do meu quarto, como o Maistre.


A MILÍCIA É A GLÓRIA
DO BRASIL DO CAVEIRÃO

A HORA DO ATRASO — A milícia avança, a civilização recua. A milícia prospera e a democracia empaca. A moralidade que pariu o esquadrão da morte e cresceu nos aparatos de tortura e assassinato da ditadura subsiste no incontestável sucesso das organizações milicianas, ora com desinibida torcida no Congresso Nacional.

A PREMIAÇÃO — A recompensa da extorsão e outros crimes é conhecida. Se materializa nos carrões zero quilômetro, nas lanchas, nas moradias nos condomínios fechados (o céu fica na Barra da Tijuca, essa nossa Miami com esgoto a céu aberto), nos relógios de grife e nas pesadas joias de ouro. A ascensão na vida — riqueza, sucesso, status e “respeitabilidade” mantida pelo medo — é celebrada em churrascadas com bebidas caras e prostitutas, ao som do funk no último furo. Revólveres e fuzis à mancheia asseguram a virilidade de tais cabras, que, por certo, honram suas mulheres e filhos, além do Brasil que venceu as eleições de 2018.

A HORA DO CAPITÃO — “Bolsonaro e sua família são representantes ideológicos de uma cultura miliciana que se fortaleceu no Rio e chegou à presidência do Brasil”, resume Bruno Paes Manso, já para o fim de A República das milícias (Todavia).

A GRANDE ALIANÇA — Mancomunados com bicheiros, paramilitares se aliam, por fim, a traficantes contra uma facção rival de ambos. Chegam a alugar ao tráfico os caveirões — veículos blindados usados pela polícia para entrar nos morros — comprados com dinheiro público, como seus próprios serviços, além de se servir de informações privilegiadas da inteligência militar.

A SANTA ALIANÇA — Paramilitares podem se converter em narcomilícias e bancar excrescências como o bando “traficantes de cristo”. O “Bonde de Jesus”, nomeado assim na imprensa carioca, mata, tortura e persegue praticantes do candomblé e da umbanda.

Ô DE CASA — O sindicato de assassinos, vulgo “Escritório do Crime”, bueiro de onde emergiram os matadores de Marielle e Anderson, é íntimo do comando de batalhões nas zonas de domínio miliciano. E seus próceres mijam de porta aberta nas secretarias de segurança e gabinetes de deputados e vereadores, agora também no Congresso Nacional. Os crimes dessa gente vão para uma conta corporativa, onde é dando, e encobrindo, que se recebe, sempre em cash. Como diz Paes Manso, esqueça os filmes americanos, a investigação criminal, no Rio e por aí afora, não é muito diferente da que era feita nos dias de Lampião.

ESPÍRITO DA ÉPOCA — Este é o mundo favorecido pela facilitação da venda de armas e pela redução do controle da matança policial, modalidade em que somos campeões em tudo.

QUEBRA DE TABU — Na Globo, inimiga número 1 do “capitão da República das Milícias” (Paes Manso), criminoso ou suspeitoso é “bandido”, não importa quantas vítimas de “balas perdidas” rendam comoção no Jornal Nacional. Aliás, livros como o de Bruno Paes Manso ensinam algo sobre a qualidade da nossa imprensa. Foi Bruno, em 2007, enviado pelo Estadão, que quebrou o tabu que proíbe jornalista de entrar em favela. Ele foi o único repórter a subir o Morro do Alemão, depois da cinematográfica operação militar realizada no complexo de favelas, cuja cobertura, por sinal, rendeu um prêmio Emmy à Globo. Subiu o morro e mostrou desmandos de policiais. Ouviu moradores e anotou denúncias de roubo, invasões arbitrárias a moradias e brutalidade incontida da tropa liberada.  

NOVO PARADIGMA — “O entusiasmo que tinha vindo com a Nova República, com a adoção de políticas educacionais, a formação de cidadãos nas favelas e de uma polícia legalista, perdeu espaço para outro paradigma, o da guerra ao crime”, comenta Paes Manso.

PLACAS DE ALERTA — Todas as entradas que dão acesso ao Rio e à Baixada Fluminense deveriam ter placas florescentes para prevenir os mais crédulos, como o Inferno de Dante Alighieri: Deixai toda esperança, vós que entrai.

CAETANOS E CHICOS
NÃO CANTAM NA ZONA OESTE

Inferno à parte, a elite carioca descolada vive bem nos frescor de seus triplex. Caetanos, em eterna crise de identidade-ideológico-existencial entre

o liberalismo e a esquerda que não tem vergonha, nesta altura do campeonato da barbárie, de catar feijões bizantinos entre Hitler e Stalin, e chicos, sempre fiéis a seu castrismo, lançam brados, entoam canções e escrevem romances que espantam, maravilham, chocam, indignam, e, merecidamente, vendem bem. As Caravelas retrata, em versos magistrais, uma guerra de brancos ricos da Zona Sul (vai aí um trechinho da letra) contra jovens pretos que descem das comunidades para ir à praia, os mesmos que, na prisão, remetem aos “crioulos empilhados no porão/ de Caravelas no alto mar”. Já o leitmotiv das milícias e da ordem brutal que governa o cotidiano de um em cada três habitantes da cidade, esse não parece muito inspirador, pois sequer é compreensível, ou midiático. Novo é que não é, já que prospera desde o ano 2000. Até pensei um dia que não existia a tirania do Comando Vermelho e das facções aliadas dos milicianos — Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA). A culpa deve ser do sol.

[...]
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar

O MELHOR HUMOR
 DO PAÍS AINDA RI!

Cronistas, artistas, celebridades, boa parte deles ao menos, conservam a relaxação e o humor incomparável, o melhor do país. O humor que evola da brisa marinha e do suor, dos bares, das rodas de samba e do Carnaval. O humor que se espelha na leveza dos cronistas, os melhores do país. Alguns, como o grande Ruy Castro, ainda podem ostentar seu orgulho desinibido para relativizar a desgraça, com toda graça. Não troca o Rio por nada. A reca de governadores, parlamentares e conselheiros do Tribunal de Contas na carceragem de Bangu, sem falar no criatório insalubre onde prosperou !Caveirão.105mm! pode ser um detalhe, conforme se favorece este ou aquele ponto de vista com ou sem janela para o mar, ou até uma vantagem comparativa, como sugere Ruy, sobre Minas e São Paulo, quando ele cobra, com absoluta, profunda e rotunda razão, tratamento equânime da Justiça para políticos bem relacionados na nossa insuspeita mais alta corte.

A PINDAÍBA UNIVERSAL
DO ARTISTA NA ERA
DA AMAZON E DO SPOTIFY

Como disse Karl Kraus, o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito. Pode que o mundo esteja acabando. O artista morre, ou se arrasta, tecnicamente morto, perdido na “abundância supérflua” da internet. A ironia, a complexidade e a sutileza perderam o jogo para o que é breve, brilhante, barulhento e fácil de entender. Leio no Los Angeles Review of Books uma crítica de Robert Diab ao livro de  William Deresiewicz: The Death of the Artist: How Creators Are Struggling to Survive in the Age of Billionaires and Big Tech (A morte do artista: como os criadores estão lutando para sobreviver na era dos bilionários e das Big Tech). Spotify, Amazon etc. prometeram um lugar ao sol para todo mundo. Pura propaganda enganosa, acusa Deresiewicz. Músicos e escritores estão à míngua e sem proteção institucional num mercado pulverizado e espumoso. A imensa maioria não consegue viver decentemente do que escreve ou compõe, conclui o autor, depois de entrevistar uma centena de artistas. Há 6 milhões de livros na plataforma Kindle, da Amazon, nos EUA, quase só autopublicação; 68% das obras não vendem mais de duas cópias por mês. Apenas 2 mil autores da loja Kindle conseguem ganhar mais de 25 mil dólares por ano, uma merreca nos EUA. No Spotify, menos de 4% dos 2 milhões de artistas inscritos na plataforma levam 95% do bolo arrecadado com “streams” (cada música tocada por mais de 30 segundos). “A torta foi pulverizada em um milhão de pequenas migalhas. Podemos agora ter acesso universal ao público, mas ao preço do empobrecimento universal”, anota Diab, citando Deresiewicz.  

SE TRUMP VENCE,
SUBIMOS PARA MARTE, TÁ OK?

Novembro, 3, vamos todos votar em Joe Biden, falou? Já enviei meu voto translato pelos correios. O escritor David Eggers, que escreve com o martelete, tem o que falar. Seu artigo é o mais destacado da edição “monográfica” do Babelia, caderno cultural do El País, sobre as eleições americanas. Conta que muita gente de seu círculo californiano tem a mochila feita para cair fora, numa reeleição de Trump. Canadá, Austrália, Nova Zelândia são destinos mais prováveis. Ele próprio pensa em voltar para um refúgio na Canárias onde passou três meses com a família no ano passado, num folga da insana América. E quanto ao resto dos terráqueos, o que fazer? Subir para Marte? Já podíamos ter subido. “Os Estados Unidos são uma mistura aterrorizante de reality show televisivo, república bananeira e estado fracassado”, define Eggers no artigo cujo título é À beira do abismo. Compara o quadriênio Trump a uma acidente de carro do qual ninguém conseguiu desviar o olhar todo esse tempo. Constata que desapareceu entre os partidos o consenso sobre honra e decência. “Os republicanos foram espectadores silenciosos enquanto Trump convertia nosso país numa piada cleptocrática”, martela.

O QUE É UM “AMERICANO
 NUMA HORA ABISMAL?

O que é ser americano pra mim?, esta terra dos bravos e livres, indaga melancolicamente Madeleine Peyroux no novo single American, bem no estilo no qual se definiu entre o jazz e pop. O país se meteu numa sinuca com o Agente Laranja. Quem pensa e sente vai pelo fundo do poço, como nós também. O vídeo com a letra está aí.

CORAGEM PARA ELOGIAR
WOODY ALLEN?
SÓ SE FOR NA ESPANHA

Com a propriedade de sempre prosa certeira, Javier Cercas tece loas à autobiografia de Woody Allen, A propósito de nada, que deve sair em português ainda este ano, não se sabe se com esse título, uma tradução direta de Apropos of Nothing. Doravante, ele anuncia que indicará o livro a escritores iniciantes — sempre que responder a pergunta que tanto lhe fazem, como professor e escritor bem-sucedido que é — além da Correspondência de Flaubert. Depois de matizar o fracasso da “fase bergmaniana” de Allen, de filmes como Setembro, o espanhol anota: “[…] um escritor (ou um cineasta que não tem a coragem de se arriscar a fracassar não é um escritor (ou um cineasta): é um escrivão; quer dizer: um mascate”. Cercas termina seu texto, em uma referência ao #MeToo, organização feminista que transformou o diretor, nos EUA, em menos que um zumbi, a ponderar: “E quanto ao filme de terror que ainda vive Allen, me resignarei ao óbvio: a este homem está crucificando um movimento necessário, que, ao crucificá-lo, perde a razão. Além de uma injustiça monstruosa, é um erro monumental”.

FAGNER VOLTA À SERESTA
E ACHA UM BRASIL PERDIDO

Raimundo Fagner Cândido Lopes seresteiro? É. Entre o chamado “pessoal do Nordeste” (Belchior, Ednardo, Alceu Valença, Zé Ramalho e companhia) nosso cantautor, hoje aos 71 anos, é o que mais influências traz nas veias. Filho de um libanês cantor de rádio, carrega ressonâncias árabes e ibéricas que se misturam ao onipresente legado do Rei do Baião. Traduzir-se, icônico LP de 1981 gravado na Espanha, deixa isso bem assentado. “A voz de um árabe tem modos e intervalos de semitons que o baião criado por Seu Luiz, Luiz Gonzaga, tem também”, observa Julio Maria no Estadão. Fagner guardava a seresta da meninice, da vizinhança em Orós do menestrel compositor Evaldo Gouveia e do irmão seresteiro, Fares Cândido Lopes. Serenata, álbum a sair pela Biscoito Fino em novembro, é um acerto de contas com a memória afetiva, comenta Mauro Ferreira em seu blog. O single Lábios que beijei, linda valsa de J. Cascata e Leonel Azevedo,  lançada em 1937 por Orlando Silva, é uma aperitivo fino. Revela um sofisticado trabalho de resgate, renovação e fidelidade ao gênero. O arranjo incorpora a delicadeza do piano de Cristóvão Bastos, o violão de João Lyra e as deliciosas “baixarias” — uma marca do seresteiro — de João Camarero, no sete cordas. Fagner se contém no canto e abre mão dos agônicos vibratos, valorizando a beleza da letra e o tecido instrumental. As 11 faixas do disco, no apontamento de Ferreira, incluem “Rosa (Pixinguinha com letra posterior de Otávio de Souza, 1917 / 1937), Malandrinha (Freire Júnior, 1927), Maringá (Joubert de Carvalho, 1931), Noite cheia de estrelas (Cândido das Neves, 1932), Serenata (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1935), Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), Deusa da minha rua (Newton Teixeira e Jorge Faraj, 1939), Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958), Valsinha(Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1970) e As rosas não falam (Cartola, 1976)”, além de Mucuripe, do próprio Fagner em parceria com Belchior, 1972.

EM OS 7 DE CHICAGO
A ARTE DO ROTEIRO

“O final de Os 7 de Chicago é Hollywood puro”, diz Bruno Tomé, citando Tom Nicholson, da revista Esquire, em artigo sobre o que é fato e ficção na fita. Fiel ou mais ou menos fiel à história, o filme na Netflix é entretenimento qualificado. Seu tema são os protestos em Chicago contra o sumidouro do Vietnã, em 1968, que desbordaram em violência policial e levaram aos tribunais sete líderes líderes do movimento pacifista, entre eles os célebres ativista Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong). O roteiro de Aaron Sorkin (Oscar pelo roteiro adaptado por A rede social), que também dirige Os 7 de Chicago, aqui, mais uma vez, é a grande atração. Seus diálogos são vibrantes e rápidos — muitas vezes excessivamente, como na série The Newsroom. A ambientação é pontuada de lances que colorem a narrativa, imitando a vida. Um filme não acontece se, ao nos pôr dentro de nós, não nos põe também dentro dele próprio, filme, e não nos faz esquecer de nós e do tempo, por algum tempo. E tal efeito não acontece sem um bom roteiro.

PÁTRIA, AFINAL,
GRANDE MINISSÉRIE

Esqueça a lenga-lenga desta Ju sobre o primeiro episódio de Pátria, minissérie da HBO baseada romance de Fernando Aramburu, que eu havia comentado e recomendado desde Ju #08, muito antes da transposição para a telinha ser cogitada por aqui. Desdigo-me, pois. A série é estupenda. A adaptação de Aitor Gabilondo, direção, elenco, fotografia são dignos do livro, minha melhor leitura em 2019. A história se consolida no terceiro episódio, quanto a trama se encarna e o drama se enquadra. Se você tem algum interesse ou curiosidade pela existência do ETA e pelo País Basco, é pedida obrigatória. No El País, Luis R. Aizpeolea aponta o fosso em que recaíram ataques à série da parte de dirigentes do Bildu, agremiação da esquerda nacionalista. Na raiz da insânia terrorista, com seus ecos, seria possível equiparar e o terror e a sangueira “patriótica”, de inspiração marxista, a seu combate pelo estado espanhol. Os ataques politizam a minissérie, acusa Aizpeolea, sob o risco de deter a saudável revisão autocrítica do passado, que vem se dando aos trancos e barrancos.

INTERVALO

O sentido último da lírica, em seu intrincado e elusivo tema, ou temas, é impenetrável. Mas se trata de uma obra prima, e das maiores. Qual?

A canção três em uma é O que será, em suas variações, Abertura, À flor da pele e À flor da terra, de Chico Buarque de Hollanda.

Foi composta para Dona Flor e seus dois maridos, filme de Bruno Barreto lançado em novembro de 1976 e recordista de público no país por mais de 30 anos, só quebrado em 2010, por Tropa de Elite 2. No cinema, ouvimos a música na penetrante voz de Simone.

Este Intervalo propõe as gravações de Chico e Milton Nascimento dos LPs Meus caros amigos (Phonogram / Philips), de Chico, em ritmo mais alentado, e Geraes (EMI-Odeon), de Milton, em andamento lento. Ambas as bolachas saíram em 1976, com arranjos de Francis Hime, divididos com Bituca no Geraes.

Wagner Homem narra em História de canções – Chico Buarque (Leya, 2009) que o compositor viu diversas vezes o copião de Dona Flor, mas acabou se inspirando para escrever numas fotografias de Cuba que o jornalista Fernando Moraes lhe havia mostrado. Daí Chico ter batizado a música de “cubaião”, baião cubano, mix de ritmos afro-cubanos com o nordestino. Homem continua:

“Entretanto, as três letras nada têm a ver com Cuba, ele garante. Quando, em 1992, Chico teve acesso à sua ficha no Dops, deu de cara com a interpretação que os censores fizeram da letra e achou graça, já que nem ele mesmo sabe ‘o que será’, e se soubesse não haveria sentido em explicar, uma vez que a letra em si é uma pergunta. O dueto com Milton Nascimento surgiu de maneira absolutamente casual. Francis Hime tocava a canção ao piano na gravadora quando Milton, que estava no estúdio ao lado, ouviu, encantou-se com a música e sugeriu que fosse cantada em dueto pela dupla. Chico e Francis gostaram da ideia determinaram os arranjos já considerando a voz do cantor mineiro.”  

Um paper do mestre de comunicação Emerson Ike Coan recorre a José Miguel Wisnik ao abordar essa canção. Para Wisnik, a MPB durante a ditadura exerceu o papel de “uma rede de recados”. E não faltam recados aqui.

O bordão das adivinhas, “o que será, que será”, empregado por Chico nas variantes que retratam o amor carnal desmedido e o clamor libertário, abre uma série de ambivalências onde oscilam pulsões reprimidas a ponto de eclodir, que desacatam a gente, que salta aos olhos, que não tem mais jeito de dissimular… 

História cultural e exegese à parte, não me parece que se possa subestimar a força e beleza da melodia e a maravilha dos duetos Chico & Milton, nos quais, por certo, sobressai a potência e o verdadeiro milagre da voz de Bituca em seu esplendor. Sua introdução ao canto, em vocalize no Geraes é toda uma primeira missa, todo um lamento anterior ao Big Bang, ou uma mensagem aos anjos e ao Redentor em nome da humanidade ferida que, a um tempo, se redime no próprio canto. A voz e Milton é um luxo absurdo!

O QUE SERÁ – Chico Buarque. Três versões

Abertura

O que será que lhe dá
O que será meu nego, será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas de ele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda Bahia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo…

À flor da terra

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

À flor da pele

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo.

E DAÍ? (¿QUÉ MÁS DA?)

“E daí?”, diz o escritor espanhol Manuel Vicent, “que exista um ou mil universo, com um número de galáxias e estrelas além da imaginação, se no fundo não passam de pedras incandescentes ou mortas que dão voltas e voltas cegamente, sem sentido algum”. Ele segue nessa batida, “qué más dá” (expressão que pode ser traduzida como “que diferença faz?” ou “que importa?”) e já próximo do final, reflete: “E daí? que digam os cientistas que a vida não passa de um conjunto de carbono, hidrogênio e nitrogênio, com uma pitada de enxofre combinados ao acaso, se, depois de tudo, esses elementos químicos te conduzem ao sorriso da Gioconda, aos versos de Walt Whitman ou à luz de Matisse”. Vicent fecha a crônica, como chamaríamos esse gênero de texto no Brasil, com maestria: “E se ao final aqueles sonhos que você teve na juventude se reduzem a jogar uma partida de tute na casa de um aposentado e a confundir a felicidade com o bom resultado do exame de urina, e daí?

 

«Em 26 de setembro fez 20 anos da morte de Baden Powell (1937-2000). A Jurupoca celebra, em tempo, a grande arte e a memória do violinista, compositor. Reinaldo Figueiredo, na Rádio Batuta, dedica-lhe um programa especial. O Instituto Moreira Salles guarda o acervo do artista, que é cheio de raridades.»

«Nem bossa nova, nem afro-samba: Vinicius de Moraes estreou em ritmo de fox. Por Pedro Paulo Malta no site Discografia Brasileira, do IMS.»

«The Day the Music Died ou as celebrações aos 50 anos de American Pie, além de um entrevista com seu autor, Don McLean. No The Guardian.»

«Keith Jarrett encara o futuro sem piano. No New York Times.»

«Pedro Almodóvar: “O algoritmo me apavora e horroriza”. Por Elsa Fernández-Santos, no El País Brasil.»

«Estados Unidos: à beira do abismo: Guia cultural para entender uma sociedade partida. Os livros sobre Trump, o feminismo, as armas, os opiáceios ou o Vale do Silício dominaram os quatro anos de mandato do presidente. Edição especial do Babelia, no El País, em espanhol, ou no El País Brasil

«Corrupção, Raiva, Caos, Incompetência, Mentiras, Decadência. O Caso contra Donald Trump, pelo conselho editorial do The New York Times.»

«Duelo à distância — Sabatinas conferiram a Trump derrota no quesito pelo qual é obcecado: a audiência. Por Dorrit Harazin, no Globo.»

«Backer faz festa e relança cerveja dez meses após casos de intoxicação. Por Izabela Ferreira Alves, em O Tempo.»

NÚMEROS ‘ATRASADOS’ DA JU:
«São estes os números anteriores da Ju, enviados exclusivamente por e-mail para os assinantes da Tinyletter, já disponíveis no blog: #0#01#02#03#04#05#06#07#08#09#10#11#12»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2

Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal   [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando Brandt e Marcio Borges]

E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês   [A palo seco, Belchior]

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo?

MEMÓRIAS QUASE PÓSTUMAS — Não sou defunto autor, como o Brás Cubas, ainda que, óbvio, Machado siga muito mais vivo que eu. Mas estas anotações não deixam de ser memórias mais ou menos póstumas, ou quase póstumas, de um jornalista tecnicamente morto, na afiada expressão de Paulo Francis

MORTE WAGNERIANA — Pode-se dizer que o Francis tecnicamente morto não aguentaria cinco minutos em 2020, e o Corona seria o menor dos problemas. Sua morte precoce, em 1997, teria, quem sabe, sido obra da graça, decerto de algum dos deuses que povoam as óperas de Wagner, que ele tanto amava. Francis já estaria frito, cancelado e sepultado pela censura politicamente correta, pela cafonice e pela imposição final do gosto rebaixado pelas massas.

EFEITOS COLATERAIS — O colapso da cultura letrada, tema caro ao filósofo alemão Peter Sloterdijk em Las epidemias políticas (edição hispânica) foi, por assim dizer, parasitado pelos populismos no mundo digital. Os estragos na política são mais visíveis. O Brexit, Trump e Caveirão são frutos desse contínuo. A epidemias de ignorância, estupidez e arrogância são seus corolários, e vieram para ficar, mas a grande euforia com essa degradação parece renovar suas energias em moto-contínuo.

DESEJO DE INCOMPETÊNCIA — “Ou não é o populismo a nova forma do cinismo, aquela que expressa o ‘desejo generalizado de incompetência no poder’ — pergunta a cientista social argentina Margarita Martínez no Clarim.com — ou seja, agrega a pesquisadora, ao comentar o livro de Sloterdijk, “a possibilidade mental de que qualquer um de nós alcance a possibilidade de decisão coletiva?”

POESIA E NEUROLOGIA — Memórias quase póstumas jamais terão o brilho da verdade que ostentam as memórias de um defunto autor. E nem se pode dizer que toda memória seja póstumas, já que, vivos, refazemos e adaptamos o passado sem parar, e isso não é poesia, é neurologia.

AI QUE PREGUIÇA — Quase tudo que é novo e encanta meninos e meninas de hoje, ou seja, jovens à beira dos 40 anos — hábitos, moral, ideias, ideologia, diversão, tecnologia, gadgets — me mata de preguiça. Sou o Grande Otelo aí. Sou Macunaíma.

UMA TEORIA DA RELATIVIDADE — A vida de quem tem mais de 50 anos e não enfrentou um lifting radical para namorar nos aplicativos, ou faz isso no sentido figurado, é uma vida relativa, mas ao menos não alimenta a fantasia de passar o bico no tempo, o que é viver menos ainda.

SINCERIDADE, SIM, MAS DEVAGAR — “A franqueza é a primeira virtude de um defunto, diz o finado narrador das Memórias Póstumas. Já as memórias quase póstumas de certos escribas não podem, por certo, alcançar plenamente tal virtude, ou ele seria um suicida, apenas a persegue, isto sim.

VELHARIAS — Afinal o que é o colapso da cultura letrada? Costumes como a leitura de grandes livros e a conversação educada entraram, e não de agora, em franca obsolescência. Ou experimente compartilhar a alegria de ler ou reler Grande sertão: veredas com amigos que não descuidam do celular por cinco minutos.

FORA DE ÓRBITA — O que não viraliza está fora do radar da vida coletiva, que é ególatra por excelência, helahoho! helahoho!

IMPÉRIO DO PORNÔ — Buscam-se as sensações, na política e no debate público virtual, como quem se apega à pornografia para se autossatisfazer, sem muito trabalho, instantaneamente.

O TEMPO QUE DILACERA — “Quem não conhece o tédio, encontra-se ainda na infância do mundo,” — reflete Cioran no Breviário da decomposição — “quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio… porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta — ou inventa — a vida…”.

QUE PASSEM OS DIAS… — Cioran fala do “vazio do coração ante o vazio do tempo…”. Prefiro a poesia do Pessoa, aqui em fase Álvaro de Campos, para quem “ser vadio e pedinte” é “ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem.”

“MONSTRO DELICADO” — O spleen dos ingleses, que acreditavam que a melancolia era destilada no baço, o ennui dos poetas franceses — o horror das mentes criativas do século 19, o velho tédio. O tédio fora o “mal do século”, de mãos dadas com a tísica, é certo. “O que é o corvo de Edgar Poe senão outra encarnação do monstro baudelairiano?”, indagava Antonio Callado num texto sobre o suicídio de Kurt Cobain, estrela do Nirvana, aos 27 anos. O “monstro delicado” de Charles Baudelaire é descrito no poema que abre As flores do mal, dedicado ao leitor. Repito um trecho na Jurupoca, um pouco estendido desta vez:

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, 
Em nosso crânio um povo de demônios cresce, 
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, 
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada 
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos, 
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, 
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo! 
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo; 

É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção, 
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Extrato de Ao leitor, abertura de As flores do mal, Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2015.

O MONSTRO POR AÍ — Baudelaire tinha razão, sabemos o que é o tédio, mas fingimos que não sabemos. Callado indagava, em 1994, se o monstro havia sido derrotado. Os franceses não usavam mais “ennui” no antigo sentido baudelairiano, ele diz, e os ingleses há muito haviam deixado de atribuir o spleen a uma secreção visceral. Mas diante da morte Cobain, ponderava o autor de Quarup, era o momento de reconhecer que o monstro havia mudado de nome, trocara a doença que outrora disseminava e as drogas que ministrava, mas continuava vivo e feroz.

SAI HAXIXE ENTRA PROZAC — Em 1994, Callado mal podia intuir o debate sobre o monstro que ocorreria nas décadas seguintes, e o protagonismo da psiquiatria sobre a variegada psicanálise. Já havia certa festa em torno do Prozac, é verdade. O haxixe, o absinto, a cocaína, verdadeiros remédios no século 19, para os criativos, há muito não serviam. Uma revolução estava em curso desde meados do século passado. A nova farmacopeia, ansiolíticos e reguladores do humor, ganhava os rótulos de potências farmacêuticas e passava a ser aviada em formulários médicos de cor azul. Logo o azul?

O MONSTRO SEGUE EM CAMPO — Mas o monstro está por aí. O antideprê salva vidas. Também anestesia vontades e esteriliza a criação. “Há anos que não me emociono com nada”, dizia Cobain na sua carta de despedida.

ABRAÇAÇO NO PLANALTO-CENTRÃO

O procurador Aras e o advogado Kakay, desperdiçado astro de filmes de terror, foram algumas das excelências prestigiadas no rega-bofe do ministro Toffoli em Brasília, no último sábado (02), oferecido para saudar (e soldar) o mais novo indicado ao STF — indicação tramada no breu das tocas pelo advogado Frederick Wassef e o filho senador filho do !Caveirão.105mm!. “O almoço, que em qualquer país civilizado provocaria escândalo, começou às 14 horas e foi até a noite, com futebol e pizza”, anotou Merval Pereira. “A fauna brasiliense presente ia de advogados que atuam no Supremo, políticos de vários matizes, presidente do TCU e, por último, mas não menos importante, o presidente da República em pessoa, que está sendo investigado pelo STF”, comentou o colunista de O Globo. A festa deu as bênçãos (e a solda) de Brasília — esta puta velha niemeyeriana do Planalto-Centrão — ao  desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Kassio Nunes. Entrou para os anais e, agregaria Odorico Paraguaçu, para os menstruais da República o abraço de Dias Toffoli, o jurista que sabia Javanês, em ¡Caveirão.105mm!. Só faltaram se beijar na boca, à moda russa, como Brejnev e Erich Honecker em 1979. No ajantarado sagrou-se a República da Tubaína, que ora se apodera da vetusta rameira supracitada.

Fraternos amigos de infância no Planalto-Centrão. Reprodução CNN/O Globo

UMA SUADEIRA EM ZUCKERBERG
OU ALÉM DO DILEMA DAS REDES

Kara Swisher, editora executiva do Recode Media, do site Vox, dá uma suadeira literal em Mark Zuckerberg, durante uma entrevista. A cena é das mais emulsificantes em The Facebook Dilemma, documentário em duas partes do canal de televisão pública norte-americano PBS, lançado outubro de 2018. Pelas tantas, Zuck pretexta estar resfriado para tirar o casaco empapado. Temos a impressão, e Swisher sugere isso, de que o eterno nerd angelical fora flagrado pela mãe no auge uma travessura. Resultado de um ano de trabalho, a produção tem alcance maior e mais foco que O Dilema das redes, e não precisou recorrer à dramatização para oferecer um quê de emoção extra. A decupagem dos fatos imprime o ritmo da narrativa. As entrevistas com representantes da rede social e ex-mandachuvas das Big Tec são conduzidas por jornalistas pra lá de tarimbados. Genocídio, manipulação eleitoral e campanhas massivas de notícias fraudulentas contra adversários políticos ou inimigos, perpetrados por meio da plataforma, estão bem documentados e analisados. “Conectar o mundo”, o mantra de Zuckerberg, soa mais falacioso e ridículo a cada nova papagaiada, à medida que se expõe a conivência do Facebook com um nefasto legado de crimes. Confrontada por documentos e provas, a rede alega que nada pode fazer além do que já faz, ou seja, um inócuo monitoramento de ilicitudes. O documentário mostra a explosiva divisão social no Egito, na ressaca da “Primavera Árabe”, e as manobras de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra opositores. Detalha a perseguição à minoria islâmica rohingya, em Mianmar, por extremistas da maioria budista. E ainda se detém na fábrica russa de fake news que opera em São Petersburgo, usada por Putin para enfraquecer a resistência ucraniana, e no escândalo da empresa britânica Cambridge Analytica e a interferência russa nas eleições norte-americanas. Não tiveram tempo de incluir no roteiro o Brasil que elegia ¡Caveirão.105 mm!. Tudo isso já é história contemporânea, e quase metade do planeta segue fascinada, conectada ao Face, ajudando a realizar o sonho de Zuckerberg de cedo ou tarde ligar todos os habitantes da Terra à plataforma. Afinal, afora os trilhões, ele se acha um demiurgo, cuja criação está acima de todos os males que venha causar à humanidade.

NO CADERNO DE EX-CULTURA
DE O GLOBO É CHOPRA NO MEL

O Globo extinguiu há tempos o suplemento Prosa & Verso. De quebra, os Marinho sepultaram o jornalismo cultural. O jornal dobrou-se à realidade do caça-clique, e com isso se tornou ainda mais irrelevante, à parte ainda manter competentes editorias de política e opinião. Na seção online chamada, como pode, e como grande boa vontade, de “Cultura”, destila-se o suprassumo do entretenimento rasteiro. Sábado passado (2), dia em que circulava o Prosa & Verso, a página destacava a matéria recortada acima. Com o guru de Lady Gaga, soubemos, estaríamos todos salvos da polarização. Atenção chacretes de Olavo de Carvalho, ditas olavates; acorde, miliciano constrangido (@!#%) do ¡Caveirão.105 mm!; olha aí você, pseudo-neo-estalinista ou quase lá, mire-se no exemplo da papisa do pop,socos, ainda que simbólicos, com o adversário. Chopra é a solução. Contra a polarização, é Chopra no mel.

TRUMP BATENDO UM BOLÃO
(OU QUE VEXAME, CORONA!)

Mr. President Donald Trump, conhecido como Agente Laranja e ou Topete Atômico, pegou o Corona e logo saiu do hospital batendo um bolão. Eta medicina da moléstia! De volta à Casa Branca, arrancou sua máscara como Wild Bill Hickok sacava o Colt em Dakota. “Trump retorna à Casa Branca minimizando o vírus que o hospitalizou”, manchetava o Washington Post na terça-feira. No Twitter, o cowboy de araque dava uma banana simbólica para o vírus, e menoscabava a pobre microcriatura também num post retirado pelo Facebook. O Corona só mata os fracos, os derrotados oprimidos, sugeria, não importam quantos sejam — e já passavam dos 220 mil no país, ou mais de quatro Vietnãs (baixas norte-americanas). “É possível que Trump emerja de sua batalha contra a Covid-19 com um novo respeito pela enfermidade”, especulava o jornalista e escritor León Krauze na mexicana Letras Libres, logo após a notícia da internação. Coitado. No título do artigo, “No final, o vírus riu por último”, outra barrigada opiniática de Krauze. Quem saiu humilhado do embate foi o Corona; 7 x 1 para Topete Atômico. Que vexame. 

ECO SABIA DAS COISAS

Políticos, governadores e legiões de especialistas, desde o Twitter e o Facebook, como se esperava, prescreveram hidroxicloroquina a rodo para salvar Topete Atômico. Nem sonhava essa malta com as mezinhas hi-tech e milagrosas que os doutores do hospital militar de Washington escondiam da plebe. “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade” — ponderou Umberto Eco, ainda em 2005, não custa lembrar — “Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

CORVOS SÃO MAIS INTELIGENTES
QUE ESTE JURUPOCO: “ERRAMOS”

Diferentemente do que sugeriu a nota da Ju passada, redigida por este pascácio, a descoberta sobre a inteligência superior dos corvídeos, cujos cérebros possuem alguma forma de autorrepresentação, não deve nada à ornitologia. A pesquisa publicada na revista Science, esclareceu na Folha a doutora Suzana Herculano-Houzel, é de um neurocientista, seu colega, o alemão Andreas Nieder, da Universidade de Tübingen.

DEUS, ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

“A estranha formulação ‘Deus é fiel’, tão brasileira, invertendo a lógica que pede fidelidade ao crente, introduz o negacionismo no próprio fundamento da fé”, falou e disse Bernardo Carvalho. “Deus deixa de ser representante da vida e da morte, para corresponder, como um animal de estimação, às expectativas do dono.” 

INTERVALO MUSICAL

BEBADOSAMBA com PAULINHO DA VIOLA, do disco de 1996, o último de inéditas do artista. Embora haja a promessa de um álbum com novidades na bica, como ele anunciou no Valor Econômico, pode-se dizer que Bebadosamba — trabalho de criação tão magistral e depurada, e de arte tão elevada — estabeleceu um padrão difícil de transpor, o que explicaria a longa seca. Se bem que Paulinho da Viola não precisa acrescentar um ré à sua discografia, um dos capítulos mais ricos de nossa história musical e cultural.

Premiadíssimo, eleito “disco da década”, nada é demais para dar Bebadosamba o lugar que o disco merece. O CD é todo ele pura excelência. Já a faixa comentada neste intervalo é um poema sobre o samba e também uma espécie de oração — rezada no comovente Chamamento, na segunda parte — aos grandes mestres e criadores da nossa música. Quem tenha um mínimo de juízo, de ouvido e gosto musical, reza junto, e, se não for de sambar, que se ajoelhe.

Bebadosamba ademais é uma aula sobre a história do gênero, na letra, no canto e no arranjo. Paulinho define seu “choro” [de verter lágrimas], na introdução recitada, como “chula” [forma originária do samba de roda surgida no Recôncavo Baiano] “quase raiada” [chula raiada, samba raiado ou partido-alto, um dos primeiros estilos do gênero]” e com essa expressão remete aos primeiros batuques, aos primeiros movimentos do ritmo de matriz africana, desde os terreiros, desde o Recôncavo, desde os saraus de Tia Ciata no Rio de Janeiro, no início do século passado.

A propósito, o referido Boca, com que nosso cantautor dialoga no samba-falado da primeira parte, é um “personagem dos antigos carnavais cariocas, que, no fim do cortejo, encadeava sambas de maneira contínua, ininterrupta, conduzido pelo fluxo da memória”, como explica o professor da USP Zebba Dal Farra neste artigo (PDF). É este Boca-rapsodo que transparece em Bebadosamba, quando nosso vate da Viola alude a “Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo,/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra.”

O arranjo e o cavaco são de Paulinho, e, à parte o piano refinado de Cristóvão Bastos, a instrumentação é a mais essencial ao ritmo, a começar do prato e faca, que apontam para o Recôncavo, onde essa história teve um início, além de ganzá, agogô, pandeiro e tamborim.

Pode-se dizer que Bebadosamba é um “samba essencial”. Repare no lindo violão de César Faria, pai do artista, repare na baixaria que abre o canto, depois da recitação, levada apenas com o fundo de um batuque que ecoa a gênese de todas as umbigadas e batucadas.

BEBADOSAMBA, Paulinho da Viola

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
E eu eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram

Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente por questão de estilo
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado

Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra.

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

Boca negra e rosa
Debochada e torta
Riso de cabrocha
Generosa
Beijo de paixão

Coração partido
Verso de improviso
Beba do martírio
Desta vida
Pelo coração

BEBADACHAMA (chamamento)

Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama,
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama
Ismael, Noel e Sinhô
Chama Pixinguinha, chama,
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô
Chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho
Chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal
Chama, chama, chama
Buci, Raul e Arnô Canegal
Chama por mestre Marçal
Silas, Osório e Aniceto
Chama mano Décio 
Chama meu compadre Mauro Duarte
Jorge Mexeu e Geraldo Babão
Chama Alvaiade, Manacéa
E Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

ACENDO UMA VELA E BRINDO
 À MEMÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELO

Zuza Homem de Mello morreu no domingo (4), em casa, de infarto, durante o sono. Contava 87 anos e acabara de concluir seu próximo livro, uma biografia de João Gilberto. É preciso dizer que a música brasileira e o jazz perderam uma de suas mais altas referências. Era escritor musicólogo, crítico, produtor, divulgador, entra tantas atividades que exerceu na extensa carreira. Sua elegância, generosidade e humor foram bem destacados pelos obituários. A rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, compilou os 157 episódios do Playlist do Zuza, programa só interrompido pela pandemia. Arthur Dapieve e Reinaldo Figueiredo, apresentadores da casa, falam do colega. Se você não sabe quem é o personagem ou quer se aprofundar, assista ao documentário Zuza Homem de Jazz, produzido pelo Canal Curta. É um ótimo retrato. Fui e sou freguês da educação, da arte e do conhecimento de Zuza, e guardarei minha gratidão por sua nobreza com muito carinho. A SescTV publicou o programa Todas as Notas: Zuza Homem de Mello, onde Zuza comenta gravações instrumentais brasileiras.

Em podcast na CBN, João Marcelo Boscoli fala do peso de Zuza na cena musical paulistana.

O amigo Wilton Marsalis, trompetista, compositor e diretor artísticos do Lincoln Center, em Nova York, o homenageou em postagem numa rede social. “Ele foi justificadamente o mais respeitado jornalista e musicólogo brasileiro especializado em Música Brasileira e Jazz. Ele era um homem de espírito e graça incomuns, de alma e de engajamento com as possibilidades humanas através da arte da música. A curiosidade de Zuza transcendeu todas as fronteiras. Ele era a própria excelência”, escreveu Marsalis, na tradução do Estadão.

SÓ ELLA

Quando toco no assunto, e faço isso amiúde na Ju, do papel e importância da grande crítica, e da falta que ela nos faz, depois de sumir, ao menos em substância, dos jornais e revistas brasileiros, falo da capacidade do crítico de nos aproximar do seu objeto, intimamente, de nos ensinar a ler melhor um romance ou aproveitar melhor a audição de um disco, além de orientar nossa seleção artística e cultural. É uma função essencial em qualquer “cultura letrada”, e o que faz Giovanni Russonello, do New York Times, em texto muito bem pinçado e traduzido pelo Estadão, sobre gravações inéditas de Ella Fitzgerald lançadas agora pelo selo Verve: Mack the Knife: Ella in Berlin e Ella: The Lost Berlin Tapes. “Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção”, observa Russonelo. “Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável — você fica desarmado”, acrescenta. Os vídeos, legendados, que ilustram esta nota têm animação criada pela cantora Cécile McLorin Salvant. Agora, se você se interessou pelo assunto, ouça o especial que a Rádio Batuta estreou no centenário da cantora, em 2017, produzido e apresentado por quem?, Zuza Homem de Melo, claro. A seleção musical é de um dos maiores conhecedores do gênero no Brasil, que nos anos 1950, durante o curso de musicologia na escola Julliard, em Nova York, pôde vê-la de perto, no auge artístico, e logo ser seu intérprete no Brasil.


BACK IN BAHIA, OU GIL É TÃO
 MILAGREIRO QUANTO DORIVAL CAYMMI

Gilberto Gil regravou Back in Bahia, em versão para a série Amor e Sorte, da TV Globo. Como tanta coisa na obra de Gil, esta canção, composta nos anos 1970, quando ele voltava de Londres, faz da dor do exílio na memória recente um manifesto de alegria, e tem o dom de levantar deprimidos com um pé na Cova. Gil domina essa arte característica de Dorival Caymmi, nosso Buda Nagô, segundo ele. Hoje eu me sinto/  Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá , diz a letra. Vai aí o videoclipe.

 BOM DIA, VERÔNICA, E TCHAU!

Aturei, em honra do meu leitor, exatos 22 minutos de Bom dia, Verônica (Netflix), série aprovada pela imprensa paulista. Que a crítica acabou é notório, repito. Mas o universo mental dos incumbentes (os vivos, vivinhos, vivaldinos ou não) não ultrapassa os trinta e cinco anos, que agora equivalem aos quarenta e poucos. O roteiro claudica em cada tomada, há interpretações ruins e a direção parece ter entregue seu trabalho a deus. Mas não. Conforme os críticos de Sampa, devemos achar tudo lindo em nossa época regida pela hipocrisia, é quase um imperativo categórico, afinal, Bom dia, Verônica tem uma valiosa pegada feminista contra o macho predador, e a boa intenção é moeda cujo valor não para de subir. Ninguém pode falar mal sem ocupar o lugar da fala. É preciso ser latino para falar da latinidade, negro para criticar qualquer obra que expresse a negritude, LGBTQIA+Ypisilone para falar do que tudo que envolve o acrônimo LGBTQIA+Ypisilone. E, claro, estamos no domínio da ficção. Talvez seja necessário ser um artista profundamente comovido com a arte nacional para comentar verdadeiramente a teledramaturgia brasileira.

«Ao comparar nazismo com bolchevismo, Hannah Arendt pensa a liberdade além das polarizações”, por Eduardo Jardim, na Folha de S.Paulo.»

«Hannah Arendt e o ‘melhor homem na França’: honestidade e liberdade intelectual”, por Adriana Novaes, no Estadão da Arte.»

«“São Lucas e Brás Cubas dão exemplos opostos do embate da ética com a desonestidade”, por Eduardo Giannetti, trecho adiantado do novo livro do autor O anel de Giges, a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras.»

«Esqueça o que os ativistas de gênero dizem a você. É assim que se parece a transição médica”, artigo de Scott Newgente, um homem transgênero de 47 anos fundador do TReVoices, um grupo de transeducadores que se opõem ao ativismo radical de gênero. Na Quillette.»

«Marco Pereira no Dia de Instrumental do Música #EmCasaComSesc»

JURUPOCA?

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O AUTOR?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.