O prazer de reler grandes livros

Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa na feira do livro de Gotemburgo, Suécia, em 2011

A transmissão da partida entre Boca Juniors e Palmeiras (25/04) me surpreendeu ao destacar a elegante figura de Mario Vargas Llosa na tribuna de honra do estádio. Como tudo que não pertença ao mundo da bola era alheio a eles, narrador e comentaristas da Fox Sports ignoraram a presença de um Prêmio Nobel na Bombonera. Para mim, vê-lo no campo aquela noite foi motivo de júbilo.

Poucas horas antes do jogo havia terminado de reler, agora em espanhol, “El Pez En El Agua” (Alfaguara, 1993; a tradução brasileira [“O Peixe na Água, Companhia das Letras, 1994] descansa nos sebos). A releitura só fez aumentar meu apreço pelo autor de “Conversa na Catedral”, “A Festa do Bode” e outras tantas grandes obras, incluindo o ensaio “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva, 2013), que nos ajuda a entender boa parte dos desatinos de um mundo banalizado pela imagem, pela tecnologia e pelo ditame das redes algorítmicas.

Peixe na águaO livro é magistral na profundidade e clareza do estilo belo e corrente com que narra a frustrada e agônica tentativa de Vargas Llosa de aplicar ideias e dignificar a política peruana. Como é sabido, ele constituiu o Movimiento Libertad e concorreu à Presidência do Peru, em 1990, sendo derrotado por Alberto Fujimori. É referencial ao retratar a formação da sociedade peruana e distingui-la na América Latina, em suas divisões e tensões étnicas e na pobreza e desigualdade abissais. É obra prima por alternar com fluidez os planos da experiência política e da autobiografia, desde a infância à formação literária, com o andamento de um grande romance. Os capítulos propriamente autobiográficos relatam o trauma da relação com o pai ausente e abusivo e os anos de formação do escritor. Muitos dos episódios, para o leitor de sua obra, se confundem com a ficção, na qual foram recriados.

Llosa ensina como a política pode ser concebida com fins civilizatórios e para o resgate da cidadania, o que é impensável fora da democracia, mas também como o populismo fez da América Latina um manguezal putrefato, onde só podem sobreviver e sobressair criaturas que se adaptam de corpo e alma, moral e intelectualmente, à vida que tal ecossistema degradado permite.

A propósito do lançamento do novo livro do autor, “La Llamada de La Tribu”, o premiado jornalista Juan Cruz, do “El País”, encabeça com “El Pez En El Agua” uma eleição dos cinco livros mais importantes de Llosa. “Este é um livro essencial”, ele diz. “É a melhor autobiografia que li de um escritor hispano”, ajunta, ao enaltecer o texto que “combina duas vocações que se vão encontrando: uma termina em êxito, a literária, e outra em fracasso, a política”. Cruz ainda comenta que os dois marcos que se entrecruzam no livro, a gestação do escritor e o fracasso na política, são definidos por chegadas a Paris, “acreditando que [a cidade] seguia sendo uma festa”.

Penso que não pode haver leitura mais recomendável a quem se interesse pela política, por suas bases, valores e práticas, em um universo muito familiar ao leitor brasileiro, e também pelo trabalho necessário à confirmação de uma verdadeira vocação literária  em uma vida dedicada à leitura e à escrita.

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Zuckerman Safadão & Roth Safadinho

[Ensaio publicado na Inclusive.com número 8, setembro_2017]

Philip Roth

Philip Roth, o artista quando mais ou menos jovem, num momento Nathan Zuckerman

I

O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman.

Nathan “torna-se” Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro. Imagino o escritor lendo este texto com a cara se abrindo em seu típico meio sorriso sarcástico. Ele podia exclamar, diante da diversidade de seus críticos: pois é, ganhei, papudos!

O leitor fervoroso de Roth, como o idealizo, é alguém educado na arte da ficção. Alguém que não deixa se abater pelo desamor à graça e à beleza do pós-modernismo e desdenha as atribuladas discussões sobre coincidências entre a ficção de um autor e sua biografia. Desdenha ainda mais o histerismo das cobranças identitárias que, à sua maneira, queimam livros e ideias. Mas, cá entre nós, leitor, Roth e Zuckerman não nos dão paz, e vamos virando página após página, e depois relendo as histórias, obstinadamente.

Zuckerman, a quem Roth significativamente não matou (matar, até que matou, provisoriamente), antes de, em outubro de 2012, anunciar sua aposentadoria como romancista, é narrador ou protagonista da parte mais substantiva da obra do autor.

O jogo de esconde-esconde autobiográfico Zuckerman/Roth, ou o jogo de luz e sombras entre criador e criatura — matéria-prima literária essencial de sua ficção — é mitológico e decisivo, com o perdão do trocadilho (talvez com algum eco significante) com o ensaio clássico de Albert Camus[1].

O Avesso da Vida (1986)[2] me parece o ponto alto desse espelhamento entre ficção e realidade. Esse romance polissêmico pode ser lido em duas vertentes principais: como crítica imaginosa à tentativa do público menos dócil e menos afeito à ficção de gabaritar uma na outra, e a um tempo como a autoanálise de um escritor judeu sobre os limites que esta condição deve ou não impor à liberdade artística.

O livro, que me parece subestimado no conjunto da obra, revela uma grande violência verbal, à la Roth, por óbvio. O autor-narrador nos dá a sensação de lutar obsessivamente contra a própria sombra e de ajustar contas de vida ou morte com a ficção e o judaísmo — de fato, depois desse romance, Zuckerman reaparecerá apaziguado como narrador em Pastoral Americana (1997)[3], e só o reconheceremos como “persona” atormentada, e por outras razões, é verdade, vinte anos mais tarde, do que falo à frente. O Avesso da Vida é, enfim, uma obra densa, febril e aflitiva. Como diz o próprio Roth em um de seus relatos autobiográficos, o livro expõe, no sentido de “entregar” ao leitor, a ossatura do romance que ele está a ler.

Pelas tantas da narrativa, seguimos o pensamento de Nathan:

“Enquanto ele [Henry, irmão de Zuckerman, que, como o próprio, morre num capítulo para reviver no seguinte] falava, eu ia pensando, as histórias em que as pessoas transformam a vida, as vidas em que as pessoas transformam as histórias”.

Ocorreu-me, então, esta paráfrase tonta de Pessoa: Roth ficcionista é um fingidor que chega a fingir que é ficção a ficção que deveras cria. Isso será arte?

Pois não é que reencontrei a mesma frase grifada ao abrir Os Fatos – A Autobiografia de um Romancista (1988)[4], obra só lançada no Brasil no ano passado e que é complementar ao romance. E, nada menos, como a epígrafe do relato, que, ora pois, começa e termina com a correspondência meio azeda entre Roth e Zuckerman.

O que mais gosto em O Avesso da Vida é da passagem na qual, depois do enterro de Nathan, com Roth assumindo o volante da narrativa, agora em terceira pessoa, um Henry indignado suborna a zeladora do edifício para entrar no apartamento do irmão, antes dos responsáveis por seu espólio, e surrupiar as anotações e “minutas” que lhe dizem respeito e converteriam sua vida na típica ficção falocêntrica: a ficção que já conhecemos. Aí está uma arrojada e precisa cambalhota narrativa, Mr. Roth, pensei com meus botões.

II

No início deste inverno, depois de mantê-lo à cabeceira a se empoeirar por quase dois anos, pus fim ao descanso imerecido de Zuckerman Acorrentado [5], o grosso volume com os relatos iniciais do personagem de Roth (escritos entre os anos 1970 e o começo da década seguinte).

Em O Escritor Fantasma, a primeira das quatro histórias reunidas, Nathan é um ficcionista que engatinha, ainda no final dos anos cinquenta. Para júbilo seu, é recebido pelo mestre com quem sonha como pai intelectual adotivo e por quem almeja ser ungido e abençoado.

Zuckerman chega à propriedade rural de Emanuel Isidore Lenoff, nos montes Berkshires, Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A visita será retomada mais tarde em “Fantasma Sai de Cena” (2007)[6]. Nathan então será um sexagenário à beira de um colapso mental, incontinente e impotente — sequelas da extração da próstata — e ainda assim vítima da tormentosa sedução de uma moça linda, culta, inteligente… e casada.

O leitor de Roth idealizado dá boas risadas com o Zuckerman escritor saindo das fraldas. Algumas frases guardam o melhor do humor corrosivo do personagem:

“Lenoff pronunciou ‘ficção’ como se tratasse de um cereal matinal”. 

Ou sobre a primeira visão de Nathan diante da linda Amy Bellette, personagem que ressurgirá quase 30 anos mais tarde:

“Com aquele rosto, cujos ossos fortes me pareciam ter sido alinhados por um escultor menos inocente que a natureza — com aquele rosto, ela devia ter mais que doze anos. Se bem que, se não tivesse, eu podia esperar”.

Há em O Escritor Fantasma — a par da centralidade do sexo e da crítica habitual à intelectualidade norte-americana, à academia, à crítica literária, à imprensa etc. — achados como este, a lembrar (por fora) as “tríades conradianas” mencionadas na prosa sexy entre Zuckerman e Jamie Logan em Fantasma Sai de Cena:

“A batedeira zumbia, a lenha estalava, o vento soprava e as árvores gemiam enquanto eu, aos vinte e três anos de idade, tentava pensar num modo de aplacar a melancolia daquele homem”.

Em Zuckerman Libertado e O Professor de Anatomia, que completam com A Orgia de Praga (chamado “um epílogo”) a edição compilada, nosso anti-herói, paranoico e enroscado com seu “harém” e suas dores excruciantes nas costas, paga o pato por ter lançado o muito bem-sucedido “Carnovsky”. A amoralidade, a salacidade e a liberalidade do livro com o judaísmo fazem de Zuckerman persona non grata entre nacionalistas israelenses e guardiães da Torá e do Talmude.

“Carnovsky”, por óbvio, é o simétrico irônico-cômico do padecimento que o próprio Roth sofreu com a publicação de O Complexo de Portnoy (1969), saga de um rapaz judeu campeão no que já se chamou nos manuais cristãos de “vício solitário” ou “autoviolação” — obra que ainda impõe um desafio ao leitor para controlar o riso.

Por essas e outras, trato intimamente o autor de “Carnovsky” de Zuckerman Safadão, fruto da verve de um Philip Roth que, por tê-lo imaginado, o homem e suas circunstâncias — por certo modeladas em experiências reais exageradas e distorcidas — merece formar com seu rebento uma dupla nada caipira. Agora com vocês, Zuckerman Safadão & Roth Safadinho.

III

Sigo lendo e relendo Roth, como deixei antever até aqui. Minha principal motivação foi ter assistido umas seis vezes ao ótimo documentário Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra, de Adrien Soland e François Busnel, lançado na França em 2015 e exibido este ano no canal Curta!.

O filme reúne trechos de entrevistas gravadas em ocasiões diversas, incluindo o período posterior à aposentadoria do autor. O roteiro apõe falas de Roth à leitura de passagens da obra e imagens de ruas e esquinas de Nova York nela retratadas e fixadas no mapa literário da cidade, bem como no GPS amoroso de seus leitores.

Retenho a última sequência, gravada na casa rural do escritor no estado norte-americano de Connecticut. A câmara se alterna entre o entrevistado, no seu jardim e na sala de estar, onde ouve um vinil clássico, e a fachada grafite da casa, que avistamos no contracampo desde os limites da área verde e de árvores seculares que há muito preservavam a paz do autor octogenário. Ao anoitecer, as luzes dessa fachada se apagam, uma após outra, uma persiana de tecido é abaixada; então o fade-out e os créditos finais.

O assunto da entrevista nessa parte são as duas derradeiras obras de ficção e a expectativa da morte que ronda quem dependurou as chuteiras. O escritor, aos 82 anos à época, refere-se à “perda da magia” de muitos artistas depois dos 65 anos, tema de A Humilhação (2009) — a história de um ator abandonado pelo talento — e da sombra da Indesejada das gentes[7] que ressurge em Nêmesis (2010) — o relato da juventude feliz de um atleta sugada pela poliomielite. Resignado, o escritor diz, num meio sorriso, ao abordar sua retirada de cena: “a Nêmesis está mesmo ali na esquina. Então me aposentei e comecei a curtir a vida”.

Ouvimos na sequência alguns compassos das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss, obra que merece um suspiro de Roth. Ele pergunta ao entrevistador se conhece as obras e exclama, risonho: “São uma maravilha”.

O leitor idealizado de Roth[8] vai se lembrar da referência de Zuckerman à música em um trecho de Fantasma Sai de Cena, onde Nathan justifica dessa forma a escolha desses lieder como trilha do diálogo teatral que ele tenta esboçar em seu tormentoso regresso a Nova York, depois de um longo autoexílio no campo:

“Pela profundidade obtida não através da complexidade, e sim da clareza e simplicidade. Pela pureza do sentimento sobre a morte, o adeus, a perda. Pela longa linha melódica que se estende e a voz feminina que ascende mais e mais. Pelo equilíbrio e tranquilidade, a graça, a beleza e a intensa ascensão. Pela maneira como o ouvinte é atraído para dentro do tremendo arco de dor. O compositor tira todas as máscaras e, aos oitenta e dois anos de idade, se expõe ao ouvinte nu. E o ouvinte se dissolve.”

Os documentaristas não quiseram tirar o prazer do espectador e leitor atento de Roth, ao evitarem frisar o paralelismo do desfecho. Não enfatizaram no roteiro a força simbólica de vermos o escritor — retirado da cena literária, com a obra muito bem-sucedida — a ouvir, arrebatado, o último e iluminado trabalho do velho Strauss.

O ciclo da vida e a plácida aceitação do seu fim ressoam melancolicamente nas quatro canções, compostas sobre poemas de Herman Hesse e Joseph von Eichendorff.  Transcrevo o verso final de In Abendrot (crepúsculo), a última delas:

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot.
Wie sind wir wandermüde —
Ist dies etwa der Tod?

(Na tradução da Wikipédia:)

Ó paz imensa e tranquila
tão profunda no crepúsculo!
Como nós estamos cansados dessa jornada —
Seria talvez isso já a morte?

O escritor I. E. Lenoff, cuja memória é recuperada em Fantasma Sai de Cena, é citado no reencontro entre Nathan e Amy Bellette, quando o mentor de Zuckerman é lembrado em suas palavras finais: “O fim é imenso, é sua própria poesia. Quase não pede retórica. É só enunciá-lo tal como ele é.”

O que atrai o idealizado leitor de Philip Roth, em boa medida, é o que molda o leitor ideal per se.

No fim de um capítulo de Fantasma Sai de Cena, Zuckerman se pergunta se, para uns poucos, o sofrimento real, por maior que seja, não dispensa “uma amplificação ficcional que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida. Ao que responde:

“Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

Mas o que é isso senão uma manifestação do espírito proustiano, como o sentimos encarnado já no final do longo curso de Em Busca do Tempo Perdido[9]:

“A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura”.

No ensaio Alfabetização Humanista[10], George Steiner se refere à mesma substância da intersecção entre vida e arte, ao formular, de modo inesquecível:

“Quando é mais que devaneio de um apetite indiferente nascido do tédio, a leitura é uma forma de atuação. Atraímos a presença, a voz do livro. Permitimos que entre, ainda que não sem reservas, em nosso íntimo. Um poema magnífico, um romance clássico, entram à força em nosso interior; tomam de assalto e ocupam as praças fortes de nossa consciência. Exercem sobre nossa imaginação e desejos, sobre nossas ambições e sonhos mais secretos, um domínio estranho e contundente. Quem queima livros sabe o que está fazendo. O artista é a força incontrolável: depois de Van Gogh, nenhum olhar ocidental pode contemplar um cipreste sem notar nele o princípio de uma chama”.

IV

Fiz uma árdua releitura de Pastoral Americana. Árdua, talvez porque a vida do Sueco — uma pequena estrela no céu onírico americano à mercê da atração gravitacional do buraco negro da Guerra do Vietnã — tenha se tornado tão familiar como um episódio que muitas vezes recobramos, ou tentamos recobrar, e cuja memória não traz qualquer escape de redenção. Mas é o que costuma ocorrer com grandes romances.

Três passagens de que não me lembrava valeram especialmente o esforço. O devaneio do Sueco ao revelar seu ideal mais profundo: ter sido um Johnny Semente de Maçã (Johnny Appleseed), o herói do folclore norte-americano, e podido vagar pelos campos do mundo a espalhar árvores frutíferas e bondade. É uma imagem que nos fere como um verso de Lorca, pois se choca contra o infortúnio do personagem como uma onda gigante a engolir um bote à deriva.

Reli e senti ainda mais intensamente a força tremenda contida na narração do reencontro do Sueco com sua filha Merry, então um trapo humano convertido ao jainismo, em um quarto sórdido de um beco miserável de sua cidade natal. Que leitor dedicado consegue mergulhar nessa longa passagem e emergir, ao atravessá-la, sendo o mesmo leitor de antes?

Nathan Zuckerman, o narrador, em outro episódio memorável, leva o Sueco — depois de ele ter saboreado todos os círculos do inferno abertos pelo Vietnã e pelos conflitos familiares entre judeus e góis — a considerar que o Dia de Ação de Graças é a “pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”. Porque nesse feriado, quando “um peru colossal alimenta todo mundo”, vigora uma “moratória” das barreiras raciais e religiosas, “uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória da nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos”.

Não esperava, mas afinal obtive mais prazer — não recordava quase nada do livro — ao ter relido, antes, Casei com um Comunista (1998)[11], romance que termina com a frase “as estrelas são indispensáveis”, num raro laivo lírico na obra do Roth.

Ao retomarmos os anos do Macarthismo e sua mancha na civilização norte-americana, nosso interesse recai no misto de graça e tragédia na representação da doença do fanatismo e seus efeitos perversos em Ira Ringold, ou Iron Rinn, o personagem central que tentou ser uma espécie de pai substituto para o adolescente Nathan Zuckerman.

Casei com um Comunista retrata de maneira implacável e, por assim dizer, demasiadamente humana, o socialista pró-soviético Ringold, como também toda a adesão a posições extremas, seja na literatura, na estética ou na política.

A narrativa disseca a gênese da cooptação de um espírito frágil e desamparado pela ideologia, a dizer muito sobre nosso próprio mundo[12]:

“O léxico pseudocientífico do marxismo, o jargão utópico que o acompanhava — despeje essa conversa em cima de alguém tão sem instrução e sem cultura como Ira, doutrine com o glamour intelectual das Grandes Ideias Radicais um adulto que não é lá muito desembaraçado no que diz respeito a usar a cabeça, catequize um homem de inteligência limitada, um tipo suscetível que seja tão inflamado quanto Ira… Mas esse um assunto bem distinto, o nexo da exasperação e não pensar”.

O livro inteiro é rico em sínteses como essa, que trazem a beleza da verdade revelada. Quando Zuckerman e seu querido professor Murray, o irmão de Ira, estão ouvindo a canção soviética Dubinuchka, cujo refrão diz “Eia! Avante”, de um LP regalado a Nathan pelo grande homem (Ira lembrava Abraham Lincoln fisicamente e o representou como ator amador), ele, Nathan, reflete:

“‘Eia! Avante!’ vinha de um local remoto no tempo e no espaço, um resíduo espectral daqueles arrebatadores tempos revolucionários quando todo mundo que almejava mudanças, de forma programática, ingênua — louca e imperdoável — subestimou a capacidade humana para mutilar suas ideias mais elevadas e convertê-las numa farsa trágica. Eia! Avante! Como se a malícia, a fraqueza, a burrice a corrupção humanas não tivessem a mínima chance ao enfrentar o coletivo, a força do povo que, unido, empurrava para a frente, a fim de transformar suas vidas e abolir a injustiça”.

Vou ao YouTube buscar Dubinuchka, música executada no romance em um disco do Coro e Banda do Exército Soviético. Vale a pena o leitor ouvi-la para ampliar a sintonia com o teor emocional suscitado pelo trecho transcrito.

É uma canção de melodia tocante, cheia de pathos. Na tradução do livro, diz a letra:

“Vamos, levante e lute,
Eia! Avante!
Força, todo mundo junto,
Eia! Avante!”

 

Minhas leituras de Philip Roth têm proporcionado, como inesperado desdobramento, outras descobertas musicais. Além desse LP de 78 rotações da Rússia stalinista — e das citadas Quatro Últimas Canções de Strauss, há nessa história o repertório de um recital privado na mansão de Ira e Eve Frame (ex-celebridade do cinema mudo com quem o homem de ferro se casa e enseja sua desgraça) com o trio formado pela filha de Eve, a harpista Sylphid (“com seu tronco quadrado, pernas troncudas e aquele esquisito excesso de carne que a estufava, um pouco com um bisonte, na parte de cima das costas…”) e duas amigas instrumentistas: duos para harpa e flauta de Fauré (Berceuse) e Franz Doppler (Fantasie de Casilda) e o Interlúdio da Sonata para Flauta, Viola e Harpa, de Debussy.

O leitor idealizado de Roth, por certo, também procurará escutar o repertório do recital, levado pela graça da descrição e do enlevo do seu narrador, o velho conhecido Nathan. A audição será recompensada se você, como o autor dessas notas, é alguém que alimentava preconceitos contra a sonoridade da harpa.

Convidado para a festa de gala, Zuckerman se manda de ônibus de Newark para Manhattan, cheio da tensão da expectativa que um adolescente pode ter diante da ventura de frequentar outro mundo social, pleno de políticos, intelectuais e mulheres sedutoras. O relato do narrador é saboroso desde o início:

“E, num sábado à noite bem cedo, joguei uma balinha aromática na boca e, com o coração batendo como se eu fosse cruzar a fronteira do estado para cometer um assassinato, fui até a avenida Chancellor e peguei um ônibus para Nova York”.

 

Quero, de passagem, como que entre parênteses, fazer um registro nesses apontamentos, sabendo que talvez me exceda como leitor obcecado do criador de Alexander Portnoy a adentrar no terreno espinhoso da crítica literária stricto senso. Paciência. Mas vejo Roth como um “ironista trágico”, a categoria na qual Harold Bloom[13] inscreve Flaubert, Eça, Calvino, Borges e Machado de Assis.

Talvez ainda — conforme o estado de arte da crítica literária — um tanto longe da grandeza perene de todos esses grandes, o que apenas a posteridade, creio, poderá avaliar, Roth é o contemporâneo que conheço cuja obra destila a ironia mais elevada, aguda e excitante à inteligência.

 

Mas, e agora José, para onde? O que reler — indago à minha estante, já que o homem já se retirou da ficção e, ao se aproximar da nona década de vida, não deve mesmo voltar atrás — vale dizer, teremos nós próprios de imaginar um final de vida para Nathan Zuckerman?

Olho então para a subseção Roth entre a literatura norte-americana e, em resposta, como dentro do foco de um tambor de luz, reencontro lombadas que nos últimos vinte anos se tornam íntimas a ponto de dispensarem todo tipo de formalidade. O Teatro de Sabbath? A Mancha Humana? Operação Shylock? Homem Comum…? Uni, duni, tê…


 

[1] Refiro-me ao ensaio de Alberto Camus Mito de Sísifo (Editora Guanabara, 1989). A pronúncia do título original em francês (Le Mythe de Sisyphe), remete ao mito grego, mas também a “o mito decisivo” (le mythe décisif). É dessa obra a célebre afirmação de Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”.

[2] O Avesso da Vida, como os outros livros citados de Philip Roth, são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Tradução de Beth Vieira, neste caso.

[3] Traduzido por Rubens Figueiredo.

[4] Traduzido por Jorio Dauster.

[5] Traduzido por Alexandre Hubner.

[6] Traduzido por Paulo Henrique Britto.

[7] De Consoada, poema de Manoel Bandeira: “…quanto ela chegar (…) talvez sorria, ou diga:/ — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer…”.

[8] Sugiro como informação complementar, que pode ou não revelar algo mais sobre um leitor particular de Philip Roth, a leitura de Inferno em Florença, no blog do autor https://goo.gl/oQA751

[9] Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, tradução de Fernando Py, Ediouro, 2001.

[10] Linguagem e Silêncio, Companhia das Letras, 1988, tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally.

[11] Tradução de Rubens Figueiredo.

[12] Nestes dois textos, disponíveis no blog do autor, discute-se a singela e prosaica constituição de um espírito radical no ambiente das faculdades de humanas no Brasil, em “Lobotomias” (https://goo.gl/pZ6jkq) e “Chaui não é mais pícara que outros luminares do lulopetismo” (https://goo.gl/CqK9LN).

[13] A classificação dos “ironistas trágicos” está em Yesod (“fundação”) no livro Gênio, de Harold Bloom, Objetiva, 2003, tradução de José Roberto O’Shea.

Ian McEwan e a ostentação narrativa (1)

McEwan

O escritor britânico Ian McEwan. Foto: Creative Commons

Ian McEwan me faz pensar num campeão de fisiculturismo narrativo, num Schwarzenegger do romance.

Cada vez mais o vejo como um escritor dado a exibir sua fabulosa musculatura literária num palco onde, sem querer, olimpicamente se distancia do leitor, seja ele ou não ignaro.

Em tantas páginas, saltam-lhe dos bíceps e peitorais inflados a grossa trama venosa da inteligência ficcional e estupenda cultura capaz de dominar da física de partículas à vitivinicultura, passando pelo contraponto musical e o que mais desejar.

A ostentação e o esbanjamento, creio, frequentemente tornam nebulosos personagens frágeis e descartáveis. Não consigo me imaginar relendo sua obra.

Agora, referenciar este seu último livro com o Memória Póstumas de Brás Cubas, como escreveram na orelha de Enclausurado, é o fim da picada. Machado não merece.

Não é justo exigir demasiado do drama cômico de fôlego curto sobre o feto filosófico e gourmet entrado no nono mês de gestação, a refletir sobre a picaretagem da mãe com seu amante e todos os enroscos que herdará fora do útero.

Noveleta original e de leitura agradável, Enclausurado me soa o equivalente a um divertimento musical, um scherzo, para usar uma metáfora que McEwan aprovaria. Apenas isso.

Penso que falta ao autor de ótimos livros (Reparação, Sábado, Na Praia) algo do prodígio e da ousadia de titãs da ficção com os quais alguns críticos o comparam.

McEwan carece da generosidade de autores que pudessem retratar — no século 21, no estágio atual ciência etc. — nossa espécie não apenas como primatas altamente complexos e encalacrados na vida, mas, também, como as almas cariadas que continuamos ser.

Um tipo de escritor que desgraçadamente anda em falta.

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Ian McEwan e a ostentação narrativa (2)

Na madruga seguinte à leitura de Enclausurado terminei A Balada de Adam Henry, livro anterior de Ian McEwan.

Essa novela é mais interessante, ainda que termine um tanto chocha.

A juíza Fiona Maye e o rapaz testemunha de Jeová são personagens (ficcionais) de carne e osso, ela mais sólida que o herói, diga-se.

O próprio enredo e as lições de direito familiar são verossímeis.

Ok, mas McEwan é recorrentemente chato na ambientação.

Na Balada ele poupa o leitor de seu cabedal enófilo, destilado no Enclausurado com a verve de um Robert Parker.

Já para o fim da narrativa, cede ao vezo e prende-se à própria sabedoria de técnica musical, quase que a se esquecer da trama, e do pobre leitor analfabeto em contraponto.

E tome frivolidades como o desjejum do casal Fiona e Jack, no qual o café há muito era preparado “com grãos da  Colômbia de alta qualidade”, com o leite saído da máquina poderosa e derramado morno em suas canecas finas.

Mas, aos diabos, me ocorre que estou saindo aos meus antepassados ao envelhecer. Um rabugento cada dia menos tolerante com manias alheias.

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Um brinde ao Bloomsday

O aniversário do dia no qual se passa a epopeia popular de Leopold Bloom deve ser festejado publicamente ou com alguma leitura e um bom trago de uísque


Festejar o Bloomsday é reverenciar a obra de Joyce,
a literatura, a beleza, os vivos e os mortos


 

“Naquele dia, você fez de mim um homem”, o escritor irlandês James Joyce (1882-1941) disse à mulher, Nora Barnacle, lembrando o primeiro encontro do casal.

Bloomsday

Foto: reprodução da internet

Em 16 de junho de 1904, tal era o dia, transcorre o romance Ulisses, que, como todo mundo sabe, é um pináculo do modernismo literário e da história da literatura.

Tal é o Dia de Bloom, o Bloomsday, ou de Leopoldo Bloom, judeu remediado de classe média, captador de anúncios, inteligente, sensível, imaginoso, xará do herói grego da epopeia de Homero, em cuja estrutura Joyce arquitetou sua própria história, pau a pau, transformando a literatura, revirando as artes e convertendo a vida de qualquer leitor que tenha enveredado por suas páginas.

O Bloomsday, hoje, deve ser festejado publicamente, em um dos eventos programados em Dublin, a cidade onde o Ulisses acontece, refundada por Joyce, e no mundo inteiro, ou simplesmente com alguma leitura do livro e um bom trago de uísque.

Festejar o Bloomsday é reverenciar a obra de Joyce, a literatura, a beleza, os vivos e os mortos.

 

 

“Serena”, bola fora de Ian McEwan

Acabei Serena, romance de Ian McEwan lançado “mundialmente” entre nós pela Companhia das Letras, como diz o selo colado à capa.

Ainda não saiu no inglês original no país do autor, certamente porque nós, emergentes dos BRICs, já temos muito mais livrarias do que a grande Buenos Aires; trocadilhando, imbricamos de vez no primeiro mundo da literatura; estamos lendo mais e melhor, não apenas os fenomenais Paulo Coelho com sua coalhada esotérica ou as aventuras de Harry Potter.

Serena é um livro menor diante de Reparação, Sábado ou mesmo do nada memorável Solar.

A corrida desembestada e, digamos, epistolar, que pega o leitor no final, depois de 200 e tantas páginas do mais fino tédio, não vale o ingresso.

A heroína, Serena Frome, é um personagem um tanto quadrado e irreal, uma mulher comum sem as dimensões que podem tornar a existência de um ser humano comum algo fascinante. Ela não é uma mulher (ficcional) de verdade.

E os namorados da moça, ainda mais, parecem figuras de papel ameaçadas por um banho de solvente, como em Uma Cilada para Roger Rabbit.

McEwan produziu um romance laboratorial, insensível e impotente sobre o espírito de qualquer época.

É uma história ensimesmada, por tratar da própria literatura e da carpintaria literária, como tantas tentativas mais ou menos iguais por aí.

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