Em um quarto da Fazenda Cachoeira


Na moldura azul do janelão, à hora da sesta,
reenquadro os altos ramos da capoeira
e sua paleta de verdes que me acenam
do lado de lá do riacho, no pas de deux
com o sol, enquanto me arde a memória.

A brisa e o rumor lapidário do rio  
me fazem deitar o livro de Amós Oz
e adormecer, adormecer de mim.
Às vezes, deixo-me ninar no casarão,
onde sonharam minha avó e minha mãe.

A hora grávida


Abri o ventre da hora, e nada.
Por o abrir, adivinhava o vazio:
A hora que frutifica já frutificou.

Então, salvava o silêncio infértil
E os encontros vãos. Era a hora
Trabalhada, mais que memória:

O pulso da lucidez na carne.
Sem nova florada, intoxicados
De desesperança, caminhamos.

Um país cinza e ocre

Meu país acorda cinza e dorme marrom.
O filme nacional passa no Circo Trágico:
Álacre coliseu povoado por carpideiras

Leva carnavais evangélicos. Nas sociais,
Sobreviventes rolam posts angelicais,
E galeras distribuem flores sem perfume.

É o gozar de coração. No país de meus pais
Vivem espécies híbridas — em vão, sociólogos
tentaram catalogá-las. Deslizam e voam

Em ternos e tailleurs imaculados. Às vezes,
Alguma escama ou coro atávico escapam
De nossas mãos hígidas lavadas à pedra.