A pantera de Rilke e a onça extraviada

 

A voz lenta de baixo cavernoso no fim do vídeo alude ao poema A Pantera, de Rainer Maria Rilke.
O de Rilke vale para você, Sá Onça, onça, jaguar, onça amazônica extraviada.
Parque Goeldi, Belém do Grão Pará, manhã ensolarada de sexta-feira, 18.05.2018.


Aí estão o poema no alemão original e um apanhado de traduções para o português, espanhol, francês e inglês que há muito tomei de um site cujo link era frágil e se quebrou, ao qual, infelizmente, não posso mais agradecer. 


 

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

Der Panther
Im Jardin des Plantes
Rainer Maria Rilke, 6.11.1902, Paris 

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)
(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)
(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. José Paulo Paes)
(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

La Pantera
Rainer Maria Rilke
(Trad. Sergio Ismael)

Del deambular de las barras se ha cansado tanto
su mirada, que ya nada retiene.
Es como si hubiera mil barras
y detrás de mil barras ningún mundo hubiese.

El suave andar de pasos flexibles y fuertes,
que gira en el más pequenyo círculo,
es como una danza de fuerza entorno un centro
en el que se yergue una gran voluntad dormida.

Sólo a veces se abre mudo el velo
de las pupilas. Entonces las penetra una imagen,
recorre la tensa quietud de sus miembros
y en el corazón su existencia acaba.

La Pantera
Rainer Maria Rilke
(Trad. Héctor A. Piccoli)

Su mirada está del paso de las rejas
tan cansada, que no retiene ya objeto alguno.
Para ella, es como si mil rejas hubiera
y detrás de las mil rejas ningún mundo.

La marcha muelle de trancos dúctiles y recios
girando de un ínfimo círculo en la nada
es como una danza de fuerza en torno a un centro,
en que se yergue una voluntad narcotizada.

Sólo a veces, permite en silencio la apertura
a la pupila el velo. – E ingresa una figura:
por la tensa calma de los miembros va a correr,
para en el corazón cesar, luego, de ser.

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

La Panthère
Rainer Maria Rilke
(Trad. Ad Haans)

Son regard, à force d’user les barreaux
s’est tant épuisé qu’ il ne retient plus rien.
Il lui semble que le monde est fait
de milliers de barreaux et au-delà rien.

La démarche feutrée aux pas souples et forts,
elle tourne en rond dans un cercle étroit,
c’est comme une danse de forces autour d’un centre
où se tient engourdie une volonté puissante.

Parfois se lève le rideau des pupilles
sans bruit. Une image y pénètre,
parcourt le silence tendu des membres
et arrivant au coeur, s’évanouit.

La Panthère
Rainer Maria Rilke
(Trad. Angelloz)

Son regard, où les barreaux passent et repassent,
est à ce point lassé qu’il ne retient plus rien.
Il lui semble qu’il y a mille barreaux
et que, derrière mille barreaux, il n’y a aucun monde.

La douce allure des pas souples et forts,
qui tournent dans le cercle le plus étroit,
semble la danse d’une force autour d’un centre
où se tient, étourdie, une grande volonté.

Parfois seulement le rideau de la pupille
sans bruit se lève. Alors une image pénètre,
passe à travers le silence tendu des membres
et, dans le coeur, cesse d’être.

 

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

The Panther
Rainer Maria Rilke
(Trad. Stephen Mitchell)

His vision, from the constantly passing bars,
has grown so weary that it cannot holdanything else.
It seems to him there area thousand bars;
and behind the bars, no world.

As he paces in cramped circles, over and over,
the movement of his powerful soft strides
is like a ritual dance around a center
in which a mighty will stands paralyzed.

Only at times, the curtain of the pupils
lifts, quietly–. An image enters in,
rushes down through the tensed, arrested muscles,
plunges into the heart and is gone.

The Panther
Rainer Maria Rilke
(Trad.J.B. Leishman)

His gaze, going past those bars, has got so misted
with tiredness, it can take in nothing more.
He feels as though a thousand bars existed,
and no more world beyond them than before.

Those supply powerful paddings, turning there
in tiniest of circles, well might be
the dance of forces round a centre where
some mighty will stands paralyticly.

Just now and then the pupils’ noiseless shutter
is lifted. – Then an image will indart,
down through the limbs’ intensive stillness flutter,
and end its being in the heart.

Cabeça de Boi e Cachoeira (poema)

Sugerido por meu compadre P. (mesmo sem o saber) para festejar duas de nossas excursões

Para Naná

Cabeça Cachoeira3

I

Desde horas homéricas e eras de Epicuro

(Que aí cristalizou um saber)

O mundo ou o tempo

Ou como se pense tal túrbida medula

(E.g.: como figurar o presente?)

Às vezes se põe entre uma clareira

(E.g.: quando nos ausentamos)

No contínuo de outros tantos (mosaico)

Parênteses onde nos guardamos

E que oxalá nos guardem da vida baldada

(Quase tudo simulacro marcado

Nos livros de haveres e deveres cujo saldo é sal).

 

II

Na ígnea clareira o ágape

A iluminar na terra redescoberta

(da qual tantas vezes regressamos refeitos)

O verdor, a nuvem, o regato

Que se funde melodioso à maquinaria

Do Tempo (meu e seu, sem antes e depois)

(       )

Que, no entanto, ali (ó instante), entre parêntese

Compartimos, a ponto de desacatá-Lo

A ponto de celebrá-Lo em (mitológica) rebeldia

A ponto de comê-Lo e de bebê-Lo entre nós

(Já que humanamente convertemos o vinho e o pão).

 

 

 

 


 

Leia também:

Vozes da fazenda  
Footing no Face
Olive Kitteridge
Fisterra (a menina dos olhos cega)
21 poemas
Poemas de Viagem

 

Microcomédia dantesca

[Esta é a última postagem da coletânea “21 Poemas”,
publicada exclusivamente neste blog.
Os links (à maneira de índice) do livro estão
nesta página.]

rothko final

Um Mark Rothko

Il sole rapisce la città
Non si vede più
Neanche le tombe resistono molto.

Ricordo D’Africa — Giusepe Ungaretti

I – Inferno

Vinho ou viático
Que se avie na surdina
Ao se abrir a cortina
Do amanhecer
Acolherá a flor exótica
Que tentares
Aterrado
Dar à luz
No solo petrificado
De ontens no pus
Da lambança
Da aragem onde brotara
O brejo da esperança

A estação tem a textura
Do intocável
Na tela do Imóvel
Uma aspereza no ar
Insone
Uma fome
Uma sangria seca
Um muco opaco
Que escorre
Vácuo.

O que não quer
Por não querer
Ocupa a trama
Do campo de força
Linha a linha
Ferroa e coça
Espezinha
A casca de calma
Que renasce
Que se dobra
Que se abre
Qual ferida
À energia negra
Que remanesce
À beleza perdida

(E pensar como)
Era fácil
Furar a superfície
Boiar sobre a nata indócil
Mandar aos diabos
A imundície
Da bolha asséptica
Da lonjura do alheio
No olhar adentro
De alguém de novo

A esperar o sumiço
Na primeira hora
No dia adicionado
Descer pela corda
Ao passadiço
Passagem que surge
Compulsória no bolso
Como a viagem
Como a história
Ida e volta
Ida e volta ida
Mesma droga virtual
D’alguma poesia
Que antes o animava
Agora dá azia
Trago residual
Preso nos dentes
Como laivo negro
De fígado

Ah, a ideia recôndita
Da imobilidade grávida
Na âncora que afunda
Até o fundo amigo
O fim antigo
Velha fundura de guerra
Tão vão quanto tardio
Liça gasta de querelas
Do novo dia vazio

O último círculo descortina
Mais um ato submundo
E nele se desdobram
Tal radiação de fundo
Tais ruínas que sobram
No vale onde se aporta
Sem guia ou companhia
E cai pela garganta
Na fúria da ravina
Na barranceira espelhada
Em que se vê aderida
Tal crosta ensimesmada
Que não cai na passagem
Pois com ela se navega
Selo da dor eterna
Entre uma e mesma margem

 


 

II – Purgatório

Dias sujos à vista
Pois que o outono
Quase sem distinção
Tenha vindo revirar
Como um legista
Outro dantesco verão
A manipular
Sem pudor
Memórias de enxurrada
A fermentar seu liquor

A quadra não vingará
Sem chuva ou alento
Um beijo caraminguá
Um repente no vento
Um aceno de cima
Que venha
Afinal
No fim da picada
Nos livrar do banal

Coisas secretam essência
Suam
Como no rocio o sal
Quem sente é o insano
Que à beira do bote
Dança o fado ancestral
Ao ouvir o chicote
A tanger soberano

Pois bem se quer fugir
Bulir
Com as horas pandas
Como um ventre náufrago
Já na quarta-feira santa
Mês que vem à vista
Na vera promoção
Quem sabe nos fogos
Fátuos do ano novo
Na nova ressurreição

Pôr roupa nova
Cortar o cabelo
Mercê
Dum remédio
Dum hormônio
Duma unção
Da moda
Da maquinaria do século
Duma atitude
Tal o figurino
Na ordem unida da ação
Dos portais da fé e da virtude

Logo a Lua no céu se atrofia
Ante o Sol despudorado
Pois aberto em demasia
A vazante e a vigília
Enviesam o pobre coitado
Apontam a pedra nodosa
Bem no meio do asfalto
Como um calo na colina
Que se vê e cai de volta
Na contraluz que declina
No visgo do velho palco
Quando entra em cena
Como velho fidalgo
Como eterna marmota
Ator anão que carrega
A chama breve
Idiota


III – Paraíso

E pur si muove
Influxo não corrompido
Pela vaga que revolve
O sargaço remoído

A se fiar na gravidade
Da noite da certeza
No ocasional
Quem sabe
A pequena nave
Não romperá impávida
A prisão habitual
Inda que a dívida da dúvida
Divida você no averno
É certo deste jeito
Como é certa a reza

Ó Beatrice
Me leve à vereda
Não ao campo de Marte
À noite que deu a queda
Pé ante pé no ermo
Raiz e minério cavar
Na margem estreita
Onde há de se formar
(Por assim dizer)
(oh razão, mistério)
A flor do Poeta
No alvorecer

Não há mais brisa
Só a economia solar
Em cinzas resumidas
Na brecha onde penetra
A luz da estrela esquecida
De onde o olhar que se desvia
Desfolha por desejar
No meio da caminhada

Eis a hora de alcançar o lago
O barco bêbado
De regressar à corrente
Ao encalço dum beijo
E como um demente
Da maneira experta
Remar sobre a cascata
Que salta o precipício

A hora imperativa
De alçar o risco
Em campo aberto
Sobre um rocinante
Antes que decaia
O azul da tarde
E de lança em riste
Atacar os gigantes
A caretear no telão
E malferido palhaço
Nesta liquidação
Sem calça nem capuz
Pelejar pela paz
A que faz jus

Tramas de névoa
Revoam no céu
Sobre a floresta
Diante da mesa posta
Cingem a clareira
Com vinho e mel
Assim me vejo
O próprio delfim
Sob uma luz inédita
A tecer primaveras
Farolagens de fim
Até que desate pura
Lição do paraíso
Onde se aventura
Impenetrável anelo
Antevisão sem juízo
Quimera solar dum polichinelo
Por aprendeu a rebolar
No palco
Do circo
Do inferno

[21/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]. Finis opera.

Guerra e Paz

Madrugada
No campo de Borodinó:
Sobre a palha da aveia,
Um silvo rasga a névoa;
A carne acalenta o instante
Pôr do sol.

[20/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]
no-11 mark rothko

Mark Rothko, nº 11

Raiva

Nenhuma poesia in-
Surgirá da presa
A se debater
Contra a queda
Na movediça tarde azul;
Sequer da dor,
Se o poeta lograr
Por sorte
Desfazer o laço,
Ao dar ao espelho
A cara a tapa.

[19/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]

Black, Red and Black - Mark Rothko, 1968

Black, Red and Black, Mark Rothko, 1968

Céu de Sevilha, não senhor

Céu de Sevilha, não senhor,
Em azul, volume, fulgor.
O céu aqui é prófugo;

Há muito não pode
Com a imaginação sem
Queda para tais odes:

— Olvidado pelo destemor
Do olhar no chão celeste
Do plasma do computador;

— Trilha trivial da aviação,
Um inútil à nova era,
Mera ilusão da atmosfera;

— Nem espelho de mar e rio
Ou remordida de sol e raio
Contra a cor do minério;

— Abóboda macerada,
Bolorenta ideia selenita,
Relicário de escaparate!

 

[18 / "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]

Mark Rothko, Light, Eart and Blue, 1954

Mark Rothko, Light, Eart and Blue, 1954