Categoria: Quem Escreve nunca Alcança

Uma senhora poeta e dois senhores poetas

Publicado originalmente em O Tempo, em 11/04/2010

Uma senhora poeta e dois senhores poetas

Reprodução O Tempo Online

SEBASTIÃO NUNES

Os desígnios de Deus são inescrutáveis, afirmam todas as religiões. Em algumas delas, seu nome é desconhecido ou impronunciável. Tenho uma música sufi, “Os noventa e nove nomes de Allah”, que não entendo, mas que ouço com devoção e respeito. Jorge Luis Borges era apaixonado pela ideia de que basta pronunciar o nome secreto de Deus para penetrar os mistérios do Universo. Os xamãs, mais do que nossos guias religiosos atuais, vivem tão próximos de Deus que, em seus transes, entram em comunhão com Ele, da mesma maneira que os profetas antigos. A poesia (oral, musicada, escrita) será talvez a linguagem comum entre Deus e os homens, e quem sabe por isso nos tenha sido entregue como dádiva, e não a todos, mas apenas aos iniciados. Costumo pensar que, por isso mesmo, a poesia seja tão recolhida em si mesma, os bons poetas sejam tão raros e a prática da melhor poesia exija concentração máxima, tanto para a escrita quanto para leitura e audição. Assim, se os poetas são raros, os bons leitores de poesia também, desde Hesíodo e Homero. Acredito, com humildade, que o ser humano só se torna completo quando se deixa atrair pelo misterioso chamado da poesia. Não vou dizer que o homem se tornou pior por abandoná-la, porque ela nunca foi abandonada. Os fiéis dessa religião sem dogmas sempre foram poucos e continuarão sendo poucos até a consumação dos tempos. Infelizmente.

ANA MARTINS MARQUES
Em 2007 julguei, com Eloésio Paulo e Nelson de Oliveira, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, promovido pela Fundação Municipal de Cultura, dirigida na época pela extraordinária e batalhadora Antonieta Cunha. Debruçado sobre caixas e mais caixas de originais, tentava descobrir a chama sagrada. A maioria, o que é comum, sequer merecia o título de poesia, e seus autores desconheciam o que fosse poema, ainda que medíocre. Eram no máximo prosadores, e prosadores ruins.

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