O cinema transcendental de David Lynch

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David Lynch na Sala Vermelha, uma intersecção no espaço-tempo aberta nas matas de Twin Peaks. Foto: cortesia Showtime

[Coluna da Inclusive.com número 8, setembro_2017]

Os 18 episódios do novo Twin Peaks (Netflix) equivalem a um placar de 18 a zero dos diretores David Lynch e Mark Frost contra quem decretava o fracasso dessa peculiar continuação. Seria impossível, disseram sabichões, retomar — sem se recair na mesmice datada — o clima de cruel sensualidade, beleza e mistério das duas temporadas da série exibidas há 25 anos. Muito bem, tomaram uma goleada de Lynch e Frost. Twin Peaks, me arrisco a dizer, é um marco do gênero ficcional de maior prestígio hoje no mundo.

Aos 71 anos, o diretor de Veludo Azul ainda é um criador voraz e imaginativo, capaz de explorar a quintessência de sua arte, cujo melhor propósito, como ensinou Hitchcock, é ensejar no espectador pequenos deslizes da consciência.

Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração. Lynch acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como diz Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

O ingresso neste cinema transcendental (o que está além da visão, da explicação) é a música de Angelo Badalamenti. A trilha criada para Twin Peaks nos anos 1990 foi mantida. Nem mesmo Lynch podia crer em outra mágica tão poderosa. Talvez nenhum compositor tenha traduzido com tal exatidão o que havia na alma de um diretor.

Os primeiros acordes do tema de abertura, que se repetem antes da pungente modulação, dão cores às imagens. Literalmente, somos teletransportados para o universo paralelo da série. A antecâmara desse universo, ou melhor, do multiverso de Lynch, é a Sala Vermelha, onde o agente Dale Cooper está desde sua desaparição.

O lugar tem um piso ondulante e altas cortinas de veludo rubro, como nas grandes salas de cinema que conhecíamos. Além dessas cortinas se defrontam mal e o bem, a Black Lodge e a White Lodge.

Ali, aonde se acede desde uma fenda de lava no solo da nata de Twin Peaks, no noroeste dos Estados Unidos, nossas noções de espaço e tempo vão para o brejo. No primeiro capítulo, Mike, o homem de um braço só, pergunta, como um narrador teatral: “É o passado ou é o futuro?”.

Ros chama a nova criação de Lynch e Mark Frost de “delírio atonal”, ao se referir à roteirização não linear e à diversidade de planos, tramas e tempos que a total liberdade de criação concedeu aos diretores.

O assassinato de Laura Palmer, tema condutor de Twin Peaks em 1992, está no visgo do passado como uma espécie de mito. Algo dá errado na liberação de Cooper (Kyle MacLachlan) da Sala Vermelha, onde reencontramos Laura. Então o vemos convertido até os últimos episódios no impagável Doug, em uma existência vicária em Las Vegas, enquanto seu doppelgänger, pura encarnação do mal, o senhor C., zanza entre vivos e mortos.

O que podíamos esperar da série depois da cena na qual o chefe do FBI Gordon Cole (o próprio Lynch) surge no escritório de Washington encimado não pelo retrato do presidente norte-americano de ocasião, mas pela estampa do escritor Franz Kafka?

Esta Twin Peaks moldou um amálgama prazeroso — retomando o texto de Enric Ros — “do novelão, do suspense e da comédia de absurdo; do costumbrismo e do surrealismo; do espírito do cinema clássico e da vanguarda pura; do misticismo e da física quântica”.

Ele conjectura se o novo fruto da parceria entre Lynch e Frost não terá vindo “para obrigar a ficção televisiva contemporânea a repensar a si mesma, a se transformar em algo distinto, a voltar a fazer saltar pelos ares os códigos mais assentados da narrativa serial”.

Oxalá ele tenha razão. Lynch nos deu “a grande aventura cinematográfica do ano”, celebrou Inácio Araújo na Folha de S.Paulo. Ergo um brinde para saldar Twin Peaks. Pouco importa que nas redes sociais e por aí só falem de Game of Thrones.

Twin Peaks

O agente Coper (Kyle MacLachlan) e o homem de um braço só na Sala Vermelha: será o passado ou será o futuro? Foto: cortesia Showtime

 

 

La Hermandad e os novelões mexicanos

Noveloes

As séries mexicanas que tento ver me lembram das célebres novelas mexicanas.

Regresso à gloriosa era em que Gloria Magadan fazia o Brasil sonhar, lá se vão cinquenta anos.

Tal o grau de canastrice e apelos furrecas daquelas produções.

Deus Inc. (HBO), trama concebida por Sergio Sanchez Suarez e exibida no primeiro semestre de 2016, a despeito do roteiro estapafúrdio, ainda trazia um elenco respeitável.

A direção dos episódios era mais ou menos segura.

Não se permitiam atuações legais para Chispita ou O Direito de Nascer, mas intoleráveis quando a HBO fabrica séries do nível de True Detectives.

Mas Deus Inc. morreu para mim ainda no meio da primeira temporada e, ao que eu saiba, única, por todos os méritos.

Foi demais para este velho coração a cena em que uma beldade adolescente, sem o menor nexo dramático, resolve, como dizer, pegar o filósofo e protagonista Salvador Pereyra (Rafael Sánchez Navarro).

Apenas para enfiarem uma passagem caliente num roteiro destrambelhado.

Com grande abnegação tentei chegar ao fim da primeira temporada da saga vingativa do médico Julio Kaczinski.

Heroicamente, segui La Hermandad — dolorosa bolação de Raul Pietro e Rosa Clemente, dirigida com mão pesadíssima pela dupla Carlos Bolado e Humberto Hinojosa — até o oitavo episódio.

Desisti no ponto em que o ator bonitão Manolo Cardona tem de virar os olhos à direita do enquadramento, na cena dentro de um trailer, toda vez que — assim me pareceu — precisa ler o texto que está a dizer.

A passagem exigiria de um ator digno de sua arte algum desempenho dramático.

Kaczinski buscava nada menos que induzir ao suicídio um dos policiais corruptos que mataram sua mulher.

O Jardim de Bronze

Para este jornal não parecer implicante com os mexicanos: a produção argentina da HBO O Jardim de Bronze é um fiasco, por tudo que podemos esperar de qualidade vindo do audiovisual argentino.

A série em oito episódios, baseada no policial El Jardín de Bronce, de Gustavo Malajovich, ainda sem tradução no Brasil, andou tropegamente e terminou, por falar nisso, como uma novela de Janete Clair, graças aos soluços de um roteiro mal feito.

Todo o mistério desaba no último capítulo. Não é pouca coisa!

A malfadada tentativa de envolver o leitor num clima “noir” perdeu-se nos tropeços de uma trama com personagens sem lastro na história, uma montagem defeituosa e um elenco frágil, a começar de outro galã, o ator Joaquín Furriel, no papel do arquiteto protagonista Fabián Danubio.

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O arquiteto Fabián Danubio (Joaquín Furriel) em O Jardim de Bronze

 

Amém para a 3ª temporada de Hinterland e um rápido balanço da série

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Mathias (Richard Harrington), Mared Rhys (Mali Harris) e Brian Prosser (Aneirin Hughes), da série Hinterland, exibida no Brasil pela Netflix

A terceira temporada de Hinterland (Netflix) tem sabor de aurora, ainda que de um alvorecer trágico, a lembrar o que o ocorre no poema de Drummond Morte do Leiteiro.

Quem gosta dessa série crepuscular (o título em galês, Y Gwyll, tem a ver com ocaso), cuja atmosfera é comparada ao “noir” nórdico de produções como The Killing, A Ponte e Borgen, diz amém.

Não há sobressalto novelesco no final, sequer o que seria a única celebração de toda a trama. Mas justiça é feita e o desespero, para citar o poema de Tomas Tranströmer que encerra Wallander, rompe seu curso.

Nessa altura se pode considerar o que torna este seriado um entretenimento adulto entre o melhor que o gênero — hoje um tanto inflacionado — produziu.

1 — O hábil trabalho de câmara e montagem faz do espectador de Hinterland alguém íntimo da paisagem do oeste do País da Gales, na área rural de Aberystwyth, com emprego original do velho efeito do suspense cinematográfico.

1.1 — A cada sequência, por meio de “janelas” que se abrem, temos o privilégio de chegar um pouco antes e antecipar as sensações que aguardam os personagens no interior de casarões de pedra e celeiros centenários espalhados por vilarejos escarpados que dão em praias banhadas pelo mar cinzento de Gales.

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2 — Os episódios, com duração e ritmo de longa-metragem, trazem uma coleção verossímil de criaturas destruídas pela herança familiar ou que tiveram a inocência corrompida pelo mal. A direção é sempre segura e o elenco de primeira ordem.

3 — A total ausência de humor, a solidão e a carga de conflitos dos protagonistas são como um reflexo natural do ambiente e das condições de frio, umidade e escuridão onde atuam.

4 — O silêncio e o não dito teatral formam o elemento comum das cenas da investigação policial conduzida pelo inspetor Mathias (Richard Harrington) e a sub Mared Rhys (Mali Harris), ambos afeitos e bem talhados para seus papéis.

5 — A integridade de Mathias e Mared sustenta a moral da audiência. Se Mathias busca a redenção de um passado familiar infausto na metrópole, a mãe solteira Mared tenta apenas dar conta com firmeza do que a vida lhe deu.

6 — O superintendente local Brian Prosser (Aneirin Hughes) atrai nosso interesse na outra ponta da história criminosa de fundo que amarra as três temporadas e aqui se fecha com maestria.

Confissões de um comedor de séries

[Coluna da revista Inclusive.com número 5, junho_2017.]

 

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Não vou relatar uma saga alucinógena. Menos para o bem que para o mal, não tenho nada de singular a revelar nesse terreno. Era apenas uma criança mineira do interior quando a turma se enlameava em Woodstock como quem surfava num mar laranja ao som de Hendrix.

Mas me inspiro em relatos de uma gente muito doida para confessar que em anos recentes me evadi do “real”, ao me ver perdido numa selva escura.

Levado na contramaré que pôs à deriva a canoa do jornalismo, adernei como um náufrago diante da TV. Ilhado, passei a me servir de séries e minisséries para alargar os sentidos, como Baudelaire do haxixe ou Aldous Huxley da mescalina.

Histórias de grandes dopados filiam-se ao clássico Confissões de um Comedor de Ópio, de Thomas De Quincey (1785-1859). Uma linhagem que vai do poeta Baudelaire ao neurologista Oliver Sacks bebeu na obra do escritor inglês.

Paul Bowles, Carlos Castañeda, William Burroughs figuram no cânone lisérgico. Em 2001, a revista inglesa de literatura Granta publicou o texto apologético Confissões de um Comedor de Ecstasy de Meia-Idade, assinado por Anônimo.

Perto do escrete de chapadões, do peiote e do LSD, sou um perna de pau careta. E só podem ser caretas confissões de um comedor de séries. Mas, veja o leitor, o seriado se transformou num gênero de excelência.

As séries oferecem ao terráqueo adulto educado de agora muito do que o romance e o conto serviram ao viventes dos dois últimos séculos: narrativas, fabulação, contação de histórias que nos enredam como presa dócil em vidas e mundos vicários. Oferecem também os melhores recursos do melhor cinema já realizado.

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Essa alta qualidade literária e fílmica das séries alarga a percepção e, no meu caso, representou uma droga bem-vinda para me tirar da vida ordinária, das mazelas da insônia e me livrar do tédio com a simples passagem das horas.

Refestelado em meu sofá de náufrago preto e macio, devo ter seguido ou tentado seguir (mal provei muita porcariada em canais a cabo e na Netflix), não menos que cem produções, entre séries e minisséries, mil episódios e milhares de cenas incríveis.

Vi algumas vezes The Wire (A Escuta), criada por David Simon. Até a academia se rendeu ao alcance social e artístico desta série referencial. Segundo uma extensa reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, “definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos” de hoje. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é fã do seriado.

Revi Mad Men inteira e inúmeras vezes episódios isolados da série criada por Matthew Weiner. Os roteiros das sete temporadas fizeram cair o queixo de grandes autores.

“Comecei a ver cenas de episódios de Mad Men como quem entra na sala de aula de uma escola todos os dias para recordar o que é narrar”, contou no El País o espanhol Enrique Vila-Matas, ao explicar por que voltou a escrever contos. “Quando vejo séries, penso em romances e teatro”, ecoou no mesmo periódico o autor e crítico teatral Marcos Ordóñez.

Os grandes autores que abraçaram o formato destilam nos roteiros uma desconcertante bagagem literária e cinematográfica. Passagens de Guerra dos Tronos me recordam Macbeth e outros dramas de Shakespeare.

O criador de Mad Men trouxe para a série o universo dos contos magistrais de John Cheever, ele próprio admitiu a influência. Os Sopranos pede bênçãos a Coppola e O Poderoso Chefão; The Leftovers, a toda uma cinemateca”.

Encantei-me com a beleza e a fatura esmerada de Os Sopranos, Boardwalk Empire, Downton Abbey (a mais sofisticada das novelas jamais feitas) ou de minisséries adaptadas de livros a exemplo das antológicas Olive Kitteridge, Wallander ou Big Little Lies.

Listei 30 séries dadivosas. Sinto-me obrigado a citar ao menos as americanas Better Call Saul (spin-off da épica Breaking Bad), a primeira temporada de True Detective, Ray Donovan, The Americans e The Good Wife; as britânicas Broadchurch e Hinterland e a sueco-dinamarquesa The Bridge.

Então confesso meu vício de comedor de séries. Não ofendi a saúde e não creio ter perdido tempo em minhas maratonas. Se devo apontar um efeito colateral, concedo: as séries me tornaram ainda mais refratário a livros e filmes ruins, à ficção da Rede Globo e ao cinema nacional.

 

Broadchurch, Hinterland e uma palavra sobre séries britânicas

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Os atores David Tennant e Olivia Colman, em “Broadchurch”. Foto: Divulgação

Os EUA são pioneiros no gênero e produzem ótimas séries de TV. O JS tem citado The Wire, Sopranos, Boardwalk Empire e a primeira temporada de True Detectives como exemplos de obras de excelência, com pretensões e realizações artísticas.

Mas, em geral, predomina na indústria americana do seriado televisivo o entretenimento rasteiro e fantasioso que pode ser visto sem percalços cognitivos por crianças e adolescentes de todas as idades, um público carente da mínima formação literária.

Com maior frequência, as séries britânicas que chegam ao Brasil parecem ter sido concebidas com alguma reverência à inteligência e à psique adultas.

Pode-se dizer que nelas a seleção de atores prima pela qualidade dramática e adequação aos personagens, em vez do franchising desfilante de caras jovens e bonitas, ainda que indiferenciadas, tão comum nos EUA.

Há roteiros bem elaborados, com densidade mental e direção de atores que persegue a empatia dos personagens com o público, na condução da trama — requisitos nos quais uma série badalada como a americana Vynil, da HBO, fracassa de maneira retumbante, apenas para dar um contraexemplo.

Além disso, há um show de locações nas séries britânicas, contra o excesso de interiores e cenas urbanas de suas congêneres do outro lado do Atlântico.

Esta nota se deterá em duas séries policiais, ou noir, a lembrar que para o JS a maior referência neste gênero é Wallander, filmada no sul da Suécia.

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Broadchurch e Hinterland, disponíveis para assinantes da Globosat e Netflix, realizam competentemente o que está dito acima.

Os detetives que estrelam as duas series têm em comum, como notou o The Guardian homens e mulheres intensos, conflituosos e em busca de redenção, puxados ao noir escandinavo de Wallander. Ambas estão acima, por exemplo, da também britânica, mas afetada e vazia The Fall.

Hinterland, cuja terceira temporada deve ser exibida este ano, se passa no país de Gales e é originalmente bilíngue, com o título de Y Gwyll no idioma local

Os diálogos entre o detetive Mathias (Richard Harrington), seu chefe e subordinados, como a ótima Mared Rhys (Mali Harris), dentro e fora da delegacia de policia são duros, secos e agudos, quase a clamar, como trilha sonora, por José, esta beleza de canção de Caetano Veloso: “Estou no fundo do poço/ meu grito lixa o céu seco/ O tempo espicha mas ouço/ O eco/ Qual será o Egito que responde…”.

Os episódios transcorrem em uma paisagem desolada e friorenta com fazendas e pequenas vilas distantes entre si fincadas nos limites do oceano.

Mathias é torturado pelo infortúnio de um episódio que o afastou da família e opera à beira da depressão mais grave. A certa altura, seu grau de aflição é tal que o vemos jogar roleta-russa com três tentativas contra a sorte, ou a favor, já não sabemos.

Sua humanidade, como a dos oficiais e dos tipos metidos nos crimes investigados é retirada dos porões da alma, do abandono e da solidão dilacerante. Vivos e mortos dialogam sem parar e somos convidados as participar da conversa.

O AMÁLGAMA DE HINTERLAND

O temperamento do detetive Alec Hardy (David Tennant), de Broadchurch, é apenas ligeiramente mais solar que o de Mathias, e ele divide o primeiro plano com a um tanto reprimida Ellie Miller, interpretada pela excelente Olivia Colman.

Nas duas primeiras temporadas (o produto será continuado), quase toda a gente da minúscula Broadchurch, comunidade fictícia no litoral britânico, se envolve na história do assassinato de um menino com os embaraços e a carga emocional de uma peça de Nelson Rodrigues.

O meio atrapalhado e cardíaco detetive Hardy recruta a pesarosa Miller para ajudá-lo a desvendar o assassínio brutal, e, mais tarde, para resolver um duplo assassinato de uma cidade vizinha, de onde viera transferido para Broadchurch, depois de fracassar na primeira vez.

O mar, o porto e as lindas falésias que vemos a cada cena de Broadchurch, como os exteriores de Hinterland, são filmados com habilidade de modo a não se descolar da apreensão do telespectador, embalado pelo amálgama das emoções e a ambientação exuberante.

Ao terminar essas séries, como ocorrer no melhor do gênero, em vez da típica sensação de termos nossos cérebros esvaziados, sensação que os produtos televisivos em geral nos causa, e isso pode ter lá sua valia, saímos com lembranças, reflexões e insights. Isso provavelmente terá alguma coisa a ver com arte.

Hinterland
Richard Harrington e Mali Harris, de “Hinterland”. Foto: Divulgação

[Atualizado em 23/06/2016, às 08:19, com correções no texto.]

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“Wallander” (o grande final) e um poema de Tranströmer

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo,
 um homem quase mudo, divorciado, a viver longe da filha.
Um policial que quase se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Wallander BBC

Foto: Cortesia BBC One

 

Uma paisagem gelada e cinzenta, árvores velhas, um lago com ondulações de brisa; acordes de teclado em fundo incidental ressaltam a desolação ambiente.

Um velho de cenho fechado, perplexo, binóculos em punho, abandona sua casa de campo a passos firmes.

Ouvimos então a voz de sir Kenneth Branagh dizer um poema (ver abaixo) do Prêmio Nobel (2011) sueco Tomas Tranströmer, traduzido apenas ocasionalmente no Brasil, em publicações isoladas, até onde sei.

Começa “The Troubled Man”.

Vejo na Netflix o último episódio (assinantes encontram aqui) da quarta e última temporada de “Wallander”, a série britânica estrelada por Branagh baseada em histórias  de Kurt Wallander, policial criado por Henning Mankel (1948-2015) e desenvolvido numa série de livros noir.

Alguns dos títulos estão traduzidos no Brasil pela Companhia das Letras.

Wallander é um melancólico, um isolado no mundo, um ser quase mudo, um homem divorciado à beira do abismo, a viver longe da filha. Um policial que se mata ao tirar a vida de um criminoso.

Ele também é sensível e inteligente.

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Não conheço a série sueca correspondente, mas apenas um ator com os recursos de Branagh pode entrar na pele de personagem tão sutil, a um tempo plano e complexo.

Eis um caso no qual a adaptação televisiva transpõe a obra literária com grandeza.

A série é inesquecível, um dos melhores produtos televisivos que pude assistir.

Rodados na Suécia, principalmente na cidade portuária de Ystad, cenário original dos livros de Mankel, os filmes da série, com episódios de hora e meia de duração, causam sensações que oscilam da beleza reverberada à dor existencial, conforme a estação do ano e conforme o roteiro.

A alternância de tomadas é sempre refrescante. Respiramos o ar limpo e gelado, nos expandimos em estradas abertas, repousamos à beira-mar ou à volta de lagos que espelham bosques centenares.

Que o leitor do blog não perca a série.

Melhor nada dizer sobre o final e o destino de Wallander, a não ser, talvez, que a integridade artística da série e o desempenho de Branagh se expõem com a luz ávida do poema que segue.

Eis uma versão em inglês do magnífico poema de Tomas Tranströmer.

A tradução mais ou menos literal é mais ou menos igual à da legendagem feita pela Netflix.

 

The Half-Finished Heaven

Despondency breaks off its course.
Anguish breaks off its course.
The vulture breaks off its flight.

[O desespero rompe seu curso. A angústia rompe seu curso. O abutre interrompe seu voo.]

The eager light streams out,
even the ghosts take a draught.

[A luz ávida paira no ar, até mesmo os fantasma respiram.]

And our paintings see daylight,
our red beasts of the ice-age studios.

[E as nossas pinturas veem a luz do dia, nossas bestas escarlates dos estúdios da era do glacial.]

Everything begins to look around.
We walk in the sun in hundreds.

[Tudo começa a enxergar. Andamos ao sol às centenas.]

Each man is a half-open door
leading to a room for everyone.

[Cada homem é uma porta semiaberta que leva a um quarto comum.]

The endless ground under us.

[O chão infinito sobre nós.]

The water is shining among the trees.

[A água brilhando entre as árvores.]

The lake is a window into the earth.

[O lago é uma janela para a Terra.]

De Tomas Tranströmer, New Collected Poems,
 translated by Robin Fulton (Bloodaxe Books, 1997/2011)

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