Em um quarto da Fazenda Cachoeira


Na moldura azul do janelão, à hora da sesta,
reenquadro os altos ramos da capoeira
e sua paleta de verdes que me acenam
do lado de lá do riacho, no pas de deux
com o sol, enquanto me arde a memória.

A brisa e o rumor lapidário do rio  
me fazem deitar o livro de Amós Oz
e adormecer, adormecer de mim.
Às vezes, deixo-me ninar no casarão,
onde sonharam minha avó e minha mãe.

A hora grávida


Abri o ventre da hora, e nada.
Por o abrir, adivinhava o vazio:
A hora que frutifica já frutificou.

Então, salvava o silêncio infértil
E os encontros vãos. Era a hora
Trabalhada, mais que memória:

O pulso da lucidez na carne.
Sem nova florada, intoxicados
De desesperança, caminhamos.

Um país cinza e ocre

Meu país acorda cinza e dorme marrom.
O filme nacional passa no Circo Trágico:
Álacre coliseu povoado por carpideiras

Leva carnavais evangélicos. Nas sociais,
Sobreviventes rolam posts angelicais,
E galeras distribuem flores sem perfume.

É o gozar de coração. No país de meus pais
Vivem espécies híbridas — em vão, sociólogos
tentaram catalogá-las. Deslizam e voam

Em ternos e tailleurs imaculados. Às vezes,
Alguma escama ou coro atávico escapam
De nossas mãos hígidas lavadas à pedra.

Adeus a Trieste

Ciao. Oito e meia. O sol
Reassume e repinta
O Canal Grande. Paro
De empurrar a mala
Rumo à Centrale. Noto
A sombra longilínea que se alça.
Como um galho ao vento,
O chapéu verde à mão oscila
Por si.

Aquele abraço

Quero compartir este abraço, hoje, com o leitor.

Por retratar um instante belo, cheio, exemplar, de vida plena, penso que a força desse abraço, e tudo que ela cobre, conta e congrega, deva ser dividida* com quem também procura, há exato um ano, reconstruir um mundo fraturado.

Não se pode, claro, reparar essa e outras tantas fraturas que desfiguram o mundo e a vida de cada um de nós, ou seja, aquilo que acreditamos (ainda) ser enquanto envelhecemos.

Vamos em frente, por certo, mas, mais e mais, como mina a guardar nos veios apenas sombras da antiga fortuna, cujo valor, tantas vezes, não soubemos aquilatar — o que é bem humano. Mas quero falar de outra coisa.

Como canta Drummond, para sempre, em “Memória”: “Amar o perdido/ deixa confundido este coração. // Nada pode o olvido/ contra o sem sentido/ apelo do não. //As coisas tangíveis / tornam-se insensíveis / à palma da mão. // Mas as coisas findas, / muito mais que lindas, essas ficarão.”

E nesses últimos dias também tenho lido o poeta israelense Yehuda Amichai. Seu “Esquecer Alguém”, diz: “Esquecer alguém é como / esquecer de apagar a luz do quintal/ e deixá-la acesa também de dia: / mas isso é também lembrar / pela luz.”

A luz que se acendeu na tarde de 25 de janeiro de 2018 continua a brilhar, ainda quando, supostamente, a esqueço.

Por ser irmão e ter convivido com Joviano e desfrutado de sua generosidade, inteligência, graça, coragem e sede de justiça, digo, ou melhor, proclamo, como o querido baterista, cantor e compositor Wilson das Neves (1936-2017): — “Ô sorte!”

A todos os herdeiros do imenso legado de amor, humor e esperança de Joviano, aquele abraço!

(*) Para “UsJovis”, “Alpendre de Dona Hilda” (certos grupos no WhatsApp) e amigos de Jov. em toda parte.

A pantera de Rilke e a onça extraviada

 

A voz lenta de baixo cavernoso no fim do vídeo alude ao poema A Pantera, de Rainer Maria Rilke.
O de Rilke vale para você, Sá Onça, onça, jaguar, onça amazônica extraviada.
Parque Goeldi, Belém do Grão Pará, manhã ensolarada de sexta-feira, 18.05.2018.


Aí estão o poema no alemão original e um apanhado de traduções para o português, espanhol, francês e inglês que há muito tomei de um site cujo link era frágil e se quebrou, ao qual, infelizmente, não posso mais agradecer. 


 

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

Der Panther
Im Jardin des Plantes
Rainer Maria Rilke, 6.11.1902, Paris 

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden, dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein großer Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)
(No Jardin des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Geir Campos)
(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. José Paulo Paes)
(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração.

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

La Pantera
Rainer Maria Rilke
(Trad. Sergio Ismael)

Del deambular de las barras se ha cansado tanto
su mirada, que ya nada retiene.
Es como si hubiera mil barras
y detrás de mil barras ningún mundo hubiese.

El suave andar de pasos flexibles y fuertes,
que gira en el más pequenyo círculo,
es como una danza de fuerza entorno un centro
en el que se yergue una gran voluntad dormida.

Sólo a veces se abre mudo el velo
de las pupilas. Entonces las penetra una imagen,
recorre la tensa quietud de sus miembros
y en el corazón su existencia acaba.

La Pantera
Rainer Maria Rilke
(Trad. Héctor A. Piccoli)

Su mirada está del paso de las rejas
tan cansada, que no retiene ya objeto alguno.
Para ella, es como si mil rejas hubiera
y detrás de las mil rejas ningún mundo.

La marcha muelle de trancos dúctiles y recios
girando de un ínfimo círculo en la nada
es como una danza de fuerza en torno a un centro,
en que se yergue una voluntad narcotizada.

Sólo a veces, permite en silencio la apertura
a la pupila el velo. – E ingresa una figura:
por la tensa calma de los miembros va a correr,
para en el corazón cesar, luego, de ser.

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

La Panthère
Rainer Maria Rilke
(Trad. Ad Haans)

Son regard, à force d’user les barreaux
s’est tant épuisé qu’ il ne retient plus rien.
Il lui semble que le monde est fait
de milliers de barreaux et au-delà rien.

La démarche feutrée aux pas souples et forts,
elle tourne en rond dans un cercle étroit,
c’est comme une danse de forces autour d’un centre
où se tient engourdie une volonté puissante.

Parfois se lève le rideau des pupilles
sans bruit. Une image y pénètre,
parcourt le silence tendu des membres
et arrivant au coeur, s’évanouit.

La Panthère
Rainer Maria Rilke
(Trad. Angelloz)

Son regard, où les barreaux passent et repassent,
est à ce point lassé qu’il ne retient plus rien.
Il lui semble qu’il y a mille barreaux
et que, derrière mille barreaux, il n’y a aucun monde.

La douce allure des pas souples et forts,
qui tournent dans le cercle le plus étroit,
semble la danse d’une force autour d’un centre
où se tient, étourdie, une grande volonté.

Parfois seulement le rideau de la pupille
sans bruit se lève. Alors une image pénètre,
passe à travers le silence tendu des membres
et, dans le coeur, cesse d’être.

 

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Museu e parque Goeldi, Belém, 18/05/2018. Foto: Antônio Siúves

The Panther
Rainer Maria Rilke
(Trad. Stephen Mitchell)

His vision, from the constantly passing bars,
has grown so weary that it cannot holdanything else.
It seems to him there area thousand bars;
and behind the bars, no world.

As he paces in cramped circles, over and over,
the movement of his powerful soft strides
is like a ritual dance around a center
in which a mighty will stands paralyzed.

Only at times, the curtain of the pupils
lifts, quietly–. An image enters in,
rushes down through the tensed, arrested muscles,
plunges into the heart and is gone.

The Panther
Rainer Maria Rilke
(Trad.J.B. Leishman)

His gaze, going past those bars, has got so misted
with tiredness, it can take in nothing more.
He feels as though a thousand bars existed,
and no more world beyond them than before.

Those supply powerful paddings, turning there
in tiniest of circles, well might be
the dance of forces round a centre where
some mighty will stands paralyticly.

Just now and then the pupils’ noiseless shutter
is lifted. – Then an image will indart,
down through the limbs’ intensive stillness flutter,
and end its being in the heart.