un deux trois (revisitado)

Para Moreira y Mendonça

Eram Guso, Poderval, Sussanho (*)
Cada cão do seu tamanho
Entre outra e uma colherada
Duma divina marmelada.

Produziam um manifesto
Cujo teor era o protesto
Contra os homens sem pescoço

Nascidos todos do fosso
Ladinos feito cavalos
Mas excelentes dançarinos.

(*) Os pastores alemães do “Estorvo” (Companhia das Letras, 1991), de Chico Buarque

Em louvor a Fernando Fiúza de Filgueiras

[Atualizado em 03/03/2015, com nota no pé sobre a mostra de Fernando Fiúza no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte e link para o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. O poema a seguir integra o livro Moral das horas, publicado pelo autor do blog no final de 2013, pela Manduruvá Edições Especiais.]

 http://www.chillida-eduardo.com/

Eduardo Chillida, Dibujo tinta (1983)

“O papel das artes é explorar o espaço interior do homem; descobrir quanto e com qual intensidade ele pode vibrar por meio do que ouve!” — Karlheinz Stockhausen, citado por João Marcos Coelho, no Estadão, em 22/2/2009.

— Minas não tem mar. Em BH falta ar! — exclamou Franquilim da Silva.

1

Para Malluh Praxedes

1

Neste luar amarelo de ipês
revoa um pássaro púrpura
sobre a Paisagem abstrata,
como recriada pelo artista
Fernando Fiúza de Filgueiras.

2

O artista navega em seu barco avernal
pela cascata da colina lânguida coberta
de negros, prateados e o ciano matinal.

O quadro no alto então se desvanece
e toda a trama tropical encontra corada
o céu azul, a cingir o mundo que renasce.

3

A urbe expõe estrias onde não se semeou,
onde se abriram sulcos há terra crestada,
bulbo morto, varicose. O artista se mudou
da vizinhança, que ainda fulge, esbatida.

Cadê seu feitiço contra profetas agnósticos
que enchem nossos dias com esta didática
da tal pregação pela vida longa e higiênica
concebida pelos tecnopoetas matemáticos?

 4

A casa de esquina no 153 da Pouso Alto,
hoje espantada, cerrou seu teatro trágico.
Desceram os cenários refeitos a cada ato,
na ronda da arte, teu fundamento litúrgico

De amor ao desenho, filmes, livros de museu
comprados por ti, que não podias tomar avião
mas que à roda de teu quarto, rente ao chão,
sabias do mundo mais do que sonha o filisteu.

5

— Na sessão aberta, o público saudado por Tarsila e Van Gogh encontra os fantasmas Pablo Pablo Picasso, Federico Felini e Otto Dix, deitados no chão.

Tua casa transpirava o suor da casa vívida,
suor próprio da secreção de mesa, xícaras,
espátula, pincel, tubos de tinta, aquarela, lápis,
folhas, jornais, paletas, mancha no chão, goteira,
forno, cartolina, chá, cimento, cavalete, chinelo,
ampola de oxigênio, meia elástica, fotografia,
criaturas de cerâmica de Luciana, tudo debaixo
do verniz chiaroscuro da passagem das horas.

6

O Homem roxo a proclamar azul|
seu Nunca Mais em meio à festa
como este rapaz magro magenta
com braços quase linhas violeta
a biclicletar pela Pedro Leopoldo
redescoberta do Meu Boi Morreu,

Ou as mil e uma colagens de eus
e desenho a bico de pena ou lápis
que ilustravam na Babita a galeria,
e um que lhe fez pendant, o Francis
dos Diários, como o que tenho meu
ali nesta parede verde, à luz do dia.

7

O gosto largo pela vigília alegre,
tua nobreza, tua mão comprida
saliente (Rodin se encantaria)
sempre estendida à amizade
(Vinícius a Antônio), Nando,
lhe deram a provar mel e fel
na cidade rendida onde reina
a paz dos estios, onde impera,
entre sombra e vazio, a legião
habitual dos camaradas órficos,
poetas, filósofos, toda a gente
natural e singelamente infiel.

8

— Quem foste? O viajante de tantas eras, o embrião rebelde, o menino rebelde, o moço eterno rebelde de coração?

Que tu, Nando,
tenhas lutado
para ganhar a vida
até sobrevir o estertor,
ora fotógrafo, ora pintor,
enquanto driblava
a Indesejada
qual louva-a-deus, oblíquo,
tal valentia não doura
a cidade de alma ácida
que o esquece,
a que há séculos
assa covardia
no fervor de ser sincera.

9

Poucos levaram melhor
o tal mote existencialista
de viver até o último sopro,
até o último logro, artista,
até o vergão derradeiro
tua condenação à liberdade,
tua dedicação ao ofício
de tocar a corda do tempo
e encher a tela com teu ser.

10

Não há vez que depare a Pouso Alto,
indo ao Mart Plus, em nossa adjacência,
que não cruze com tua imensa ausência,
que não retenha tua felicidade e tua dor,

Que não capte tua doçura de olhar, o riso,
e que não reouça o piano de Nelson Freire
bater a frase inicial dos Préludes – Livre I,
do Debussy, que ouvimos ambos, só a sós.

 

Sobre a mostra em cartaz no CCBB de BH

(Adaptado do Guia UOL de Belo Horizonte ) As galerias do andar térreo do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de BH recebem 60 obras do artista plástico Fernando Fiúza. A exposição Mulheres – o traço poético de Fernando Fiúza pode ser visitada das 9h às 21h, com exceção de terça-feira, até 13 de abril de 2015, no espaço cultural da Praça da Liberdade. A curadoria de Luciana Radicchi, viúva do artista, buscou sobretudo desenhos de mulheres, inspiração recorrente na produção do mineiro. Os trabalhos se dividem em pinturas e desenhos em aquarela, carvão, guache, grafite e pastel seco.

No dia 11 de março, às 19h, a sala de cinema (Teatro 2) do CCBB  exibe o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. A partir de entrevistas e trilha original, o filme investiga, com humor e admiração, a trajetória de Fiúza. O vídeo pode ser visto por aqui.

Nossa humanidade vai à farmácia

Ser humano, esta doença.

Ou: inauguramos o humano 2.0 — era que certos filósofos e ensaístas também tratam por “pós-humano”. Este artigo, para mim indispensável, publicado hoje pelo The New York Times, não discute quadros depressivos graves, mas a incorporação da cultura pela psiquiatria (ou a extensão desta àquela), numa “época em que os meios de comunicação são um grande empório de drogas que pretende consertar de tudo, do sono ao sexo. Temo [diz o autor] que o ser humano esteja se convertendo rapidamente em um conjunto de sintomas [livre tradução para “condition”]”. É a época do uso “off-label” ou extrabula de remédios como Ritalina, Adderall e o modafinil (Provigil, Modiodal), chamado de “viagra do cérebro“.

O trecho, vertido na coxas, continua assim: “Nós nos tornamos cada vez mais dissociados e distantes dos padrões de vida e morte, desconfortáveis com a confusão de nossa própria humanidade, o envelhecimento e, finalmente, a morte“.

O tema, que me fascina (e persegue), está em alguns poemas do meu livro inédito, “Quem Escreve Nunca Alcança”, a exemplo deste “Reclames da farmácia espiritual e 2 rabichos (quadras ao gosto popular)”.

Vão aí alguns trechos do comovente artigo de Ted Gup.

Se você esteve aqui e se interessou pelo assunto, recomendo enfaticamente esta reportagem da The New Yorker, de Margaret Talbot, que li na revista em papel, há quase exatamente quatro anos. Talvez tenha sido a primeira matéria na imprensa mundial sobre o uso “off-label” de drogas psicoativas. À época, o modafinil, se não me engano, mal havia chegado às farmácias brasileiras.

Diagnosis: Human

By TED GUP

THE news that 11 percent of school-age children now receive a diagnosis of attention deficit hyperactivity disorder — some 6.4 million — gave me a chill. My son David was one of those who received that diagnosis.

In his case, he was in the first grade. Indeed, there were psychiatrists who prescribed medication for him even before they met him. One psychiatrist said he would not even see him until he was medicated. For a year I refused to fill the prescription at the pharmacy. Finally, I relented. And so David went on Ritalin, then Adderall, and other drugs that were said to be helpful in combating the condition.

In another age, David might have been called “rambunctious.” His battery was a little too large for his body. And so he would leap over the couch, spring to reach the ceiling and show an exuberance for life that came in brilliant microbursts.

As a 21-year-old college senior, he was found on the floor of his room, dead from a fatal mix of alcohol and drugs. The date was Oct. 18, 2011.

No one made him take the heroin and alcohol, and yet I cannot help but hold myself and others to account. I had unknowingly colluded with a system that devalues talking therapy and rushes to medicate, inadvertently sending a message that self-medication, too, is perfectly acceptable.

(…)

And we wonder why it is that they use drugs with such abandon. As all parents learn — at times to their chagrin — our children go to school not only in the classroom but also at home, and the culture they construct for themselves as teenagers and young adults is but a tiny village imitating that to which they were introduced as children.

The issue of permissive drug use and over-diagnosis goes well beyond hyperactivity. In May, the American Psychiatric Association will publish its D.S.M. 5, the Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. It is called the bible of the profession. Its latest iteration, like those before, is not merely a window on the profession but on the culture it serves, both reflecting and shaping societal norms. (For instance, until the 1970s, it categorized homosexuality as a mental illness.)

(…)

Ours is an age in which the airwaves and media are one large drug emporium that claims to fix everything from sleep to sex. I fear that being human is itself fast becoming a condition. It’s as if we are trying to contain grief, and the absolute pain of a loss like mine. We have become increasingly disassociated and estranged from the patterns of life and death, uncomfortable with the messiness of our own humanity, aging and, ultimately, mortality.

Challenge and hardship have become pathologized and monetized. Instead of enhancing our coping skills, we undermine them and seek shortcuts where there are none, eroding the resilience upon which each of us, at some point in our lives, must rely. Diagnosing grief as a part of depression runs the very real risk of delegitimizing that which is most human — the bonds of our love and attachment to one another. The new entry in the D.S.M. cannot tame grief by giving it a name or a subsection, nor render it less frightening or more manageable.

(…)

Ted Gup is an author and fellow of the Edmond J. Safra Center for Ethics at Harvard University.

Aperte aqui para ler o original.

Carrinho de mão vermelho

Carrinho de mão vermelho

Philip Roth dependurou as chuteiras
me conta The Herald Tribune
no hotelzinho do Marais

Ao lado (não percebera) da libraire anglophone
The Red Wheelbarrow
(22 rue de Saint Paul),
onde havia comprado anos antes
o Plot Against America (que me
confundiu em Florença)
e acaba de fechar

Inda há livros soltos na vitrine
e um computador semiabandonado,
qual aviso da promoção (50% OFF non fiction)
no cartazete sobreposto
pelo anúncio
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“Serena”, bola fora de Ian McEwan

Acabei Serena, romance de Ian McEwan lançado “mundialmente” entre nós pela Companhia das Letras, como diz o selo colado à capa.

Ainda não saiu no inglês original no país do autor, certamente porque nós, emergentes dos BRICs, já temos muito mais livrarias do que a grande Buenos Aires; trocadilhando, imbricamos de vez no primeiro mundo da literatura; estamos lendo mais e melhor, não apenas os fenomenais Paulo Coelho com sua coalhada esotérica ou as aventuras de Harry Potter.

Serena é um livro menor diante de Reparação, Sábado ou mesmo do nada memorável Solar.

A corrida desembestada e, digamos, epistolar, que pega o leitor no final, depois de 200 e tantas páginas do mais fino tédio, não vale o ingresso.

A heroína, Serena Frome, é um personagem um tanto quadrado e irreal, uma mulher comum sem as dimensões que podem tornar a existência de um ser humano comum algo fascinante. Ela não é uma mulher (ficcional) de verdade.

E os namorados da moça, ainda mais, parecem figuras de papel ameaçadas por um banho de solvente, como em Uma Cilada para Roger Rabbit.

McEwan produziu um romance laboratorial, insensível e impotente sobre o espírito de qualquer época.

É uma história ensimesmada, por tratar da própria literatura e da carpintaria literária, como tantas tentativas mais ou menos iguais por aí.

Leia também:

 

 

II pequeno manifesto contra o infesto¹

“(…) pois só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente (…)”
Friedrich Wilhelm Nietzsche — “O Nascimento da Tragédia”

Ó zeloso guardador da chama, livrai-me
do desfile sem vida da vida desventrada,
do riso e da chaga do mundo supurados;

Governai-me, santo anjo, contra o espírito
que rasteja no eterno reino carnavalesco
do álbum multitudinário das redes sociais;

Regei-me para dizer definitivamente não
ao super-homem comum além do homem comum
desnaturado pela tralha-totem da quitanda tec;

Guardai-me da quermesse dos pregoeiros
da migalha moral, da sabedoria prêt-à-porter,
dos faits divers e do golpe político do dejeto;

Se a ti me confiou a piedade, iluminai-me
para atravessar o fétido vagante que exala
do ser gelatinoso a se decompor em nuvens.

(1) Antônio Siúves, “Moral das Horas e Outros Poemas”, Manduruvá, Belo Horizonte, 2013, pág.  70

 

[Atualizado em 06/04/2016]