Pequeno manifesto contra o infesto¹

(…) Mas esse era um dos problemas em que eu estava trabalhando, veja, as pessoas podem ser livres agora, mas a liberdade não tem conteúdo algum. É como um vazio uivante. (…)”
Fala de Herzog, do livro homônimo de Saul Bellow (pág. 68), Companhia das Letras (2011)

 

🙂 Risus cacosus 🙂 ou  acerca do kkkk na www [dádádá (bliu)] 🙂

kkkk → cácácácá (ad infinitum et ad vomitus)
CóCóCóCó → ovo post (ovum positis)
KêKêKêKê → ipso facto
KiKiKi  → faniquito de fã (fidelis)
KôKôKô → stercore virtual (virtualis)
KáKéKiKóKu → Quod erat demonstradum (Q.E.D.)

Riso sonrisa sonsa sonrisal
Ridendo nihil castigat mores porcaria nenhuma
Adoptare consuetudines risum sim senhora

Submundi sobremundo sobramundos
Mundiário global maravilha est
Supermerdário totalis melecasum

Humani nihil a me alienum puto(a) que pariu (P.Q.P.)

(¹) Antônio Siúves, “Moral das Horas e Outros Poemas”, Manduruvá, Belo Horizonte, 2013, pág. 69

 

[Atualizado em 06/04/2016]

Nervoase poate

Nervoase poate
Ou versinhos quebrados à guisa
dum adeus a Paulinho Werneck

I
push avante go
popurudito (purutactatac)
y vernizado tracatá —

II
guiar l’audace possible
nel lustroso 5º andar —
en todos los sitios de la malasaña Paulínia
reforjar o (refogado) festGullar —

III
brindo a ti com
mia acqua Araxá
du vin avec vos amis
sombras tuas todas celebrar —

IV
brindo anche
l’audace possible in Sumpa
y a teu no bulir nuncajamás
la élégant garantie d’argent —
ademais (é de menos)
—  und adieu.

Oração ao pós-humano

Ó, Grandessíssimo Doutor,

Lâminas de massa grisada
expõem meu espírito plástico
refeito e afeito às curvas
dum Guggenheim de Bilbao

Do pós-tudo ao pós-humano,
da síntese ao biossintético,
decanto Teu tesouro nanométrico
a ansiar pela vinda do emplasto
que há de recauchutar telômeros,
reeducar proteínas e sinapses
sem o ranço da eugenia, afinal,

E,

Naturalmente,

Usaremos redes sociais para trocar
endereços de clínicas genômicas
como quem no arregaçado século 20
buscava cremes e águas sulfurosas,
naquela era de fabulosa inocência,
de pierrôs indóceis com pouco viver
e tanta utopia tóxica coada no tempo,

Tempo que agora alarga o caminho
da suprema fé no futuro tecido ponto
por ponto da descompostura do ser,
que constitui o poder e a glória
na hígida Substância do Teu reino,

Amém.

 

Antônio Siúves in "Moral das Horas" (Manduruvá, 2013), p. 83.

Ruas de Belizon

Ruas de Belizon

Connoisseurs

Há comida a quilo e quilate
nas ruas cheias de connoisseurs,
e moças polilíngues nos coffe shops

Charla

Meninos com caixetas luzidias
ouvem o mundo esfriar no chat
e recebem o viático do Advento

Carrões

SUVsapões —Landaus de amanhã—
atestam a aventura do enriquecer
no faroeste chinês das esquinas.

O decálogo do quem escreve nunca alcança

O decálogo do Quem Escreve Nunca Alcança (*)

I  Escrever é porejar.

II – Quem escreve nunca alcança. Procura e não acha; quando acha, passa. Quem escreve, escreve, é bem sabido, para preencher o oco do oco de entreinhas. Melhor era pescar no ribeirão ou cortar lenha para o jantar. Mas, veja-se, quando escrevo pescar no ribeirão e cortar lenha para o jantar, obrigo-me a refletir que não há mais ribeirão, não há mais peixe, não há mais fogão nem mata há. Logo, furo a batida metafórica pela saúde do artesanato – o bom fado de quem sabe confeccionar algo relevante, mesa, cadeira, carretilha.

III – Quem escreve nunca alcança. Não é a glória nem a posteridade nem o poder nem a fama.

IV – Quem escreve quer ser lido e quem não é lido não deixa de escrever, pois se deixa, alcança menos. Quem publica e não é lido e quem publica e é mais-vendido nunca alcançam.

V – Quem escreve menospreza os sentidos ou vive as sensações no sentido translato, em sua capa vicária.

VI – Quem escreve nunca alcança e se cansa, mas escreve; se não escreve, padece do não escrever, um padecer pior.

VII – Melhor que escrever é tirar leite, pastorear ou, como disse o Raduam, o cheiro do alho frito no azeite vale mais que qualquer romance. Tem razão esse autor; pena, não tem razão esse autor.

VIII – Quem escreve às vezes fosforesce.

IX – Quem escreve às vezes dança.

X – Quem escreve às vezes vê. Mas quem escreve nunca alcança.

 

(*)Poema do "Moral das Horas" (Manduruvá, 2013, Belo Horizonte), pág. 52.

 

 

Um brinde a Ana Akhmátova

Lendo “Pós-Guerra – Uma História da Europa desde 1945”, de Tony Judt (Objetiva, 2007), deparo este trecho (pág. 205) no final do capítulo sobre as desgraças perpetradas pelo stalinismo, entre as quais os expurgos e os célebres julgamentos fabricados: “Os principais inimigos [do “povo”] eram supostamente os camponeses e os burgueses. Mas, na prática, os intelectuais costumavam ser o alvo mais fácil, conforme tinham sido para os nazistas. O ataque venenoso desferido por Andrei Zdanov contra Anna Akhmatova – “freira ou meretriz, ou melhor, freira e meretriz”, capaz de combinar prostituição e oração. A poesia de Akhmatova está totalmente distante do povo” – (…)”. Lembrei-me de meu querido “Nova Antologia Poesia Russa Moderna” (5ª edição, Brasiliense, 1987), que reúne traduções dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
Aproveito para erguer no blog um brinde à poeta, cujo nome os autores da antologia grafam Ana Akhmátova, e transcrever aqui seu “Dístico”:

Que outros me louvem – seu louvor é cinzas.
Que me reproves – teu rancor, alvíssaras.

DVUSTÍCHIE

Ot druguikh mnié khvalá – tchto Zolá,
Ot tiebiá i khulá – pokhvalá”.

1931

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)