O curador do ar invade o jornal

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— O curador do ar chega ao JS. Quer seu lugar no “espaço expositivo” das mentes, quer fabular Inhotins que durem o tempo de uma caminhada. Aprende o bê-a-bá do olhar.

— O curador do ar não aceita que alguém meio morto, ou já um tanto gasto, gaste suas horas a pensar em como estender a vida. As pessoas vão e vem falando em temperança e regime, e em doença, e o tempo escorre, ele já sabe. Quer olhar e ver, além de ouvir, onde esteja o que, aqui, já.

— No Largo do Sol, Parque Municipal, Belô, há uma pequena e desajeita pérgula rococó no centro do lago verde-musgo ocupada por uma garça negra, e aquém há uma Vitória Alada da Samotrácia a bater asas, em vão, até a mão dum Aleijadinho.

— O curador do ar aprendendo a olhar. Olha a bonita igreja do Sagrado Coração de Jesus em restauro, vê o tapume das obras e nota o contraste entre placas de madeira tingidas de preto e as chapas zincadas com marcas de oxidação esbatidas pelo sol manso. Vê a lisura da madeira contra o corrugado do metal.

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— Na pista da avenida dos Andradas, à margem do esgotão Arrudas, aonde sempre volta a caminhar, já se vão 30 anos, o curador do ar prende-se à passarela e ao movimento da gente indo e vindo da estação do metrô. Há beleza na linha horizontal sobreposta às três pistas e ao esgotão entre Santa Efigênia e Santa Tereza. Os passageiros entre as grades formam ângulos retos em relação à passarela e o movimento não é só do andar. Movem-se roupas, cores, bolsas, desejos, compras, dúvidas, mochilas, memórias, sacolas, transes, bonés.

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— O curador do ar ainda se surpreende com certas pichações, na permanência e anacronismo desse tipo de despojo individual na paisagem urbana, em geral pura imundície do atraso. Dadá e companhia estarão por aí, nos assombrando? “Viva o maoismo”, lê-se, contra a fachada do Shopping Bulevar, no 3.000 da Andradas.  O maoismo hoje é um sonho, um sonho de consumo bobo de revanche contra a liberdade. Ao lado, alguém declara aos interessados por meio de um possível slogan  LGBT ipsilone: “Mãe sou lésbica!”; contíguo à frase, um hater evangélico extraí o máximo da alma, do sumo de si mesmo. O desprezo pela ortografia deve ser outra forma de protesto.

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— O curador do ar pergunta-se sobre que tipo de mostra abriga a Grande Galeria do Palácio das Artes até 1º de julho. Anunciada nas paredes externas do espaço, para o pedestres na Afonso Pena et orbi, com frases de um lugar-comum de fotonovela (“Ardia de amor e se queimava”), será uma tentativa da artista de expor ao revés a frivolidade de algumas ideias soltas sobre o feminino? A imagem de divulgação ao lado não promete sequer um déjà-vu. Letal.

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3 O diário da sexta

O Santander e o patrocínio involuntário das artes

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Depois de censurar, ou, como se diz, descontinuar a exposição Queermuseu em Porto Alegre, subjugado pela lábia moralista de neobrucutus, o Instituto Santander Cultural continua a prestigiar nossa vanguarda artística. Que não se diga o contrário. No caso que aqui se relata, é verdade, o estímulo às artes visuais se dá à revelia da instituição multinacional e de seus curadores, até onde se sabe.

As marquises de uma agência premium (dir-se-ia gourmet?, afinal, suas propagandas mostram tantas comidas finas) do banco Santander em Belo Horizonte, estabelecida nas esquinas de Aimorés com avenida Brasil, diante da portentosa e repulsiva estátua do mártir mineiro, há muito abrigam moradores de rua desbancados. Com seus carrinhos de supermercado, trastes e panos e papelões, um grupo teima em passar suas noites ali, a despeito das diuturnas intervenções higiênicas do pessoal do Santander. Na manhã do último sábado (28/04), o transeunte que subia Aimorés, mal acostumado ao fedor das intervenções nada higiênicas dos sem teto, podia deparar, além da ausência dos maus odores, algo novo e raro no local. Uma obra de arte contemporânea fora concebida e era exposta gratuita e universalmente no local.

Santander4A técnica usada pelos artistas anônimos na obtenção do fundo negro e a dilatação do pigmento cinza que revistia a fachada podia (peço licença poética) ser chamada de carbonização aleatória conjungada ao happening culinário, que consiste no aquecimento de uma panela de sopa com letras de macarrão, batatas da xepa e migalhas de carne. Um cinzel ou canivete parece ter sido empregado na abertura da fenda na argamassa para revelar a boca larga e branca, suavemente iluminada pela luz de abril no sábado.

O conjunto remetia o observador a um grande buquê de flores do mal ou a veste luxuosa de uma beldade de Klimt, sem dourados, é certo, mas decorado por reluzentes transparências de apliques de organdi. As formas circulares e ciliares sugeriam frutos, peixes cegos de abismos oceânicos e pequenas expansões atômicas, como que transpostas da imaginação de um Hieronymus Bosch ou, quando menos, de um curador do ar.

 

O prazer de reler grandes livros

Vargas Llosa

Mario Vargas Llosa na feira do livro de Gotemburgo, Suécia, em 2011

A transmissão da partida entre Boca Juniors e Palmeiras (25/04) me surpreendeu ao destacar a elegante figura de Mario Vargas Llosa na tribuna de honra do estádio. Como tudo que não pertença ao mundo da bola era alheio a eles, narrador e comentaristas da Fox Sports ignoraram a presença de um Prêmio Nobel na Bombonera. Para mim, vê-lo no campo aquela noite foi motivo de júbilo.

Poucas horas antes do jogo havia terminado de reler, agora em espanhol, “El Pez En El Agua” (Alfaguara, 1993; a tradução brasileira [“O Peixe na Água, Companhia das Letras, 1994] descansa nos sebos). A releitura só fez aumentar meu apreço pelo autor de “Conversa na Catedral”, “A Festa do Bode” e outras tantas grandes obras, incluindo o ensaio “A Civilização do Espetáculo” (Objetiva, 2013), que nos ajuda a entender boa parte dos desatinos de um mundo banalizado pela imagem, pela tecnologia e pelo ditame das redes algorítmicas.

Peixe na águaO livro é magistral na profundidade e clareza do estilo belo e corrente com que narra a frustrada e agônica tentativa de Vargas Llosa de aplicar ideias e dignificar a política peruana. Como é sabido, ele constituiu o Movimiento Libertad e concorreu à Presidência do Peru, em 1990, sendo derrotado por Alberto Fujimori. É referencial ao retratar a formação da sociedade peruana e distingui-la na América Latina, em suas divisões e tensões étnicas e na pobreza e desigualdade abissais. É obra prima por alternar com fluidez os planos da experiência política e da autobiografia, desde a infância à formação literária, com o andamento de um grande romance. Os capítulos propriamente autobiográficos relatam o trauma da relação com o pai ausente e abusivo e os anos de formação do escritor. Muitos dos episódios, para o leitor de sua obra, se confundem com a ficção, na qual foram recriados.

Llosa ensina como a política pode ser concebida com fins civilizatórios e para o resgate da cidadania, o que é impensável fora da democracia, mas também como o populismo fez da América Latina um manguezal putrefato, onde só podem sobreviver e sobressair criaturas que se adaptam de corpo e alma, moral e intelectualmente, à vida que tal ecossistema degradado permite.

A propósito do lançamento do novo livro do autor, “La Llamada de La Tribu”, o premiado jornalista Juan Cruz, do “El País”, encabeça com “El Pez En El Agua” uma eleição dos cinco livros mais importantes de Llosa. “Este é um livro essencial”, ele diz. “É a melhor autobiografia que li de um escritor hispano”, ajunta, ao enaltecer o texto que “combina duas vocações que se vão encontrando: uma termina em êxito, a literária, e outra em fracasso, a política”. Cruz ainda comenta que os dois marcos que se entrecruzam no livro, a gestação do escritor e o fracasso na política, são definidos por chegadas a Paris, “acreditando que [a cidade] seguia sendo uma festa”.

Penso que não pode haver leitura mais recomendável a quem se interesse pela política, por suas bases, valores e práticas, em um universo muito familiar ao leitor brasileiro, e também pelo trabalho necessário à confirmação de uma verdadeira vocação literária  em uma vida dedicada à leitura e à escrita.

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Carta a Fred no terceiro ano

Carta ao Fred 3

Fred, Fred, dia desses te passei um zap no Alpendre de Dona Hilda, nossa cozinha familiar no mundo virtual. Prometia escrever mais a largo e cá estou, aos três anos de sua ausência, para tentar pôr nossa prosa em dia.

Te dizer de primeira que o Cruzeiro é campeão mineiro de 2018, depois de merendar (como você diria) um Galo que cacarejava o ovo ainda na galinha, e fomos penta na Copa do Brasil do ano passado, vencendo o torneio pela primeira vez sem que nossa torcida pudesse contar com a sua alegria inequívoca e indispensável. Inequívocas sempre eram suas alegrias no futebol e creio que em tudo mais. Ainda ouço sua risada, como aquela ao ler meu poema “Reclames da Farmácia Espiritual e 2 Rabichos (Quadras ao Gosto Popular)”, do “Moral as Horas”. Você logo notou o viés autoirônico daqueles versos, viés que bem lhe servia.

Inequívocas também eram suas exagerações, que me fazem falta (“Fulana de tal anda pelos 200 anos, por deus do céu!”), e o indignado destampatório diante da sem-vergonhice dos políticos e cartolas do futebol (“Traficantes!”).

Quero te dizer que choveu bem no último verão. Na Cachoeira, onde estivemos quando janeiro ainda germinava falsas promessas, o ar quente e úmido cobria a memória recente da aspereza da terra e do estalejar dos pastos secos, de três meses atrás. Quando a flor da noite surgiu enluarada na capoeira do outro lado do rio, eu me lembrava da vez que estivemos todos juntos na fazenda, Edna, Joviano, você, mamãe, Gê (você e Gê por esta única vez), e que era antes de o Otávio nascer. Claro, havia menos mortos de nossa órbita temporal e erámos muitos os vivos a cruzar sem parar o casarão — da cozinha para o quarto de Sá Mestra, hoje sala do truco; de lá para a varanda de fora; dos quartos para a varanda de dentro e de volta à cozinha — onde há mais de cem anos saudamos uns e outros e tentamos preservar a memória dos nossos, dos de nossa forja, inclusive a dos malucos do clã, que você, sem parcimônia, diagnosticava.

Não sei como será minha próxima vez na Cachoeira, em nossas visitas à Naná, aos primos-irmãos, ao casarão — com suas marcas da infância e mocidade de nossa mãe e nossos avós, de minha própria adolescência e de tanta gente querida — sem a âncora da companhia de Joviano.

E chego, a palo seco, à “novidade” a que meu tal zap mal aludia; chego à tarde de sol negro de quinta-feira, 25 de janeiro de 2018. Conforme os versos do João Cabral no poema homônimo, “1.1 / Se diz a palo seco / o cante sem guitarra; / o cante sem; o cante; / o cante sem mais nada; / se diz a palo seco / a esse cante despido:/ ao cante que se canta / sob o silêncio a pino // 1.2. / O cante a palo seco / é o cante mais só: / é cantar num deserto / devassado de sol; / é o mesmo que cantar / num deserto sem sombra / em que a voz só dispõe / do que ela mesma ponha. // (…)”.  É o canto dito cigano e flamenco.

(Guardemos este “em que a voz só disponha / do que ela mesma ponha”.)

A cena se repetiu em um maldito hospital, Fred, embora eu não estivesse sozinho agora, como ocorreu com você. Ao ver o corpo dele devassado no leito da UTI, chorei feito criança velha. Depois me perguntei: é preciso estar criança para sofrer na carne a força brutal do “coice da morte” (na expressão de Vinícius de Moraes)? Fiz que sim. Acho, por sinal, que todas as ocasiões em que o abraçava, sempre que nos reencontrávamos — e, Dei Gratia, foram tantas — um tanto dos meus abraços era sempre do menino que ele ajudou a viver depois da morte de nosso pai.

E para quem, cinquentão, seguia tendo a eminência de um marco fundador, a ensinar o que é ser homem (um mensch) quando isso conta, ou seja, diante do fado adverso. Fora isso, me ensinava o canto de passarinhos, o nome de árvores, como aproveitar um bom gole, e me fazia rir de suas imitações (como a “clássica” do amigo dele Marquinho Carvoeiro) e das expressões que inventava, uma verdadeira arte em seu Jove. Em casa com a sonda urinária durante o pós-operatório da prostatectomia, me contou por telefone que andava à vontade com ajuda de uma “mijete”, genial adaptação, creio, de uma velha pochete. Danei a rir. Digo de passagem que seus maus exemplos nas saídas do Boi da Manta foram de grande inspiração para meu próprio desfrute carnavalesco. Ainda hoje sou capaz de ouvi-lo a dizer impropérios contra o célebre colunista Nicolau Neto tentando, no palanque, animar um desfile que não carecia de estímulo.

O mais memorável do sepultamento, Fred, na sexta-feira, dia 26, além da presença de um povaréu que eu não via há decênios e cuja presença atestava o valor de seu Jove no mundo, em tudo que ele realizou (desde os 14 anos, sendo almoxarife, agente do conjunto musical The Fisher, chefe de compras de uma grande indústria, empresário do ramo de transportes, fazendeiro, aquicultor etc.), foram as palavras ditas pelo compadre Aderbal, tão comovidas quanto exatas, que honraram a memória de um homem que logrou transcender a si próprio e se deixar imprimir em tanta gente com quem conviveu e fez amiga.

Carta ao Fred 3

No domingo fizemos uma roda com Luiza. Estávamos no conforto do quintal gramado, à sombra cúmplice da mangueira, na casa grande, bonita, confortável e pioneira daquele bairro de Pedro Leopoldo, casa que vi ser erguida desde o alicerce, afeita com perfeição à personalidade amorosa do casal, a seu incrível talento para bem viver, receber e oferecer generosamente aos amigos o tesouro que acumulava, erguida também pelo passar da criação dos filhos, pela transição da vinda dos netos, pelo transcorrer dos cuidados de cada dia, almoços em famílias, ceias natalinas, encontros dos filhos e amigos, de tanta festa e gargalhada que quase não percebo a brevidade disso tudo.

Mas, eu te falava, os meninos surgiram com uma garrafa preciosa de rum, prenda que ele próprio guardava com carinho (encantado com o regalo da nora) para uma ocasião especial, e fizemos a roda em torno de Luiza. O grozope riquíssimo foi servido em copinhos e, ao brindar e dizer o que sentíamos (o compadre Aderbal fazia a síntese dos nossos brindes), seguindo Luiza, tentávamos medir o tamanho da importância de seu Jove na vida de cada qual e a um tempo o tamanho de sua ausência, do buraco da falta que ela cavava naquele mundo também comum, onde todos nos achávamos destroçados. Foi em vão esse medir aquoso, pois não existe tal medida. A falta tem a profundidade de uma falha geológica, a profundidade do ar (recorro ao nome da obra do escultor basco Eduardo Chillida).

(Além do ar não existimos.)

Fred, Fred, sei que você me sabe e eu te sei. Não precisamos, nestes três anos de lonjuras completos hoje à tarde, recordar o tatibitate, os anos duros que você e seu Jove enfrentaram depois da morte de seu Laerte (no último 27/10 estávamos sem ele há 50 anos). Não vou falar de seus próprios desencontros, suas teimas e desmesuras, da presença de seu Jove ao seu lado no hospital Santa Mônica, nem BH, a convalescer do terrível acidente de carro em Vespasiano (retenho a sua volta para casa de ambulância, em pijamas, doido para pitar um Capri), ou dos escorregões desde a adolescência que mancharam sua lida e arruinaram seus sonhos. Não precisamos tocar na sua falta de oportunidades para desenvolver seus vários talentos, entre eles o desenho e a mecânica, e deles melhor desfrutar. Mas, pelo filho e pelos netos que te guardam neles, por nossa convivência e pelo retrato devoto no qual você expressou o legado amoroso dos nossos pais e o retransmitiu, não é pouco o que conseguiu superar na vida. Dou vivas a você, Fred.

As suas histórias que seu Jove gostava de contar eram quase sempre as que davam conta, desde moço, de uma força e coragem incomuns, das muitas brigas de sopapos, mas, por fim, sua bravura também transpareceu na primeira hora depois de alguma veia estourar na sua cabeça. Você cantarolava alguma cantiga, ele dizia, no minuto antes da chegada da ambulância. Eta-ferro, pra que tanto aço? Fred (te ouço a exclamar, como fazia sem mais nem menos: “Raaaiiiôôô Uberaba! ou “Raaaiiiôôô Montes Claros!). Não é para qualquer um este destemor. Muito menos para qualquer um de nós é a sinceridade com que você confessava, sem nenhum traço de autocomiseração, depois de perder a mulher, já obeso e com dificuldade para andar (por ter se recusado a tratar direito aquela fratura no pé, certo?), que entregara a rapadura e torcia pela pronta vinda da Indesejada. Era como se nos dissesse: sinto muito gente, já deu.

Carta ao Fred 3Mudando de clave e chave, me voltou dia desses sua figura me flagrando,  melancólico, olhar perdido na direção da imensa árvore que dominava a colina além da ferrovia, desde a janela do meu quarto na casa da Roberto Belisário, e, matreiro, querendo saber o que eu tinha fumado.

Recompus também você, não sei como, a passar os olhos nuns versos que eu havia escrito num caderno em horas de espera na rodoviária de BH, nos tempos da Escola Técnica, e que depois datilografei na Olivetti Lettera 82, presenteada, creio, por seu Jove (ele também me deu a cartucheira 32, que tanto me fez aprender, nas caçadas, a gostar de bicho e de mata; entre outros mimos dele, verdadeiros ritos de passagem, constam um mágico Lego completo, um jogo de cartões de memória, um baralho redondo e uma bela faca gaúcha de pescaria com bainha e tudo, que ele trouxe da lua de mel. Aos 14 ou 15 anos tive miseravelmente de vender a prenda e pagar a dívida com um primo da Cachoeira. Era a grana de uma noite na Fazendinha, zona estabelecida no caminho de Itabira, onde íamos a cavalo. Minha estreia ali ou, como dizíamos, meu desmame com Daisy, morena magra e gentil, me valeu o fino artigo de cutelaria; a espingarda também passei nos cobres, neste caso para um fim quiça mais nobre: quitar a matrícula do pré-vestibular). Mas, de volta à tramontana, você descobriu e começou a ler alguns dos primeiros poemetos que eu mantinha em segredo, e achou divertido um deles, que mais tarde retomaria na coleção dos “21 Poemas”: “A ideia de ir contra a / Parede / É pior que pular do / Precipício / Pior que ir contra a / Parede…”. Você se interessava pelo que eu rascunhava porque você mesmo, estou certo, era um poeta, um poeta da raça homérica — da que reina sobre a vida e a celebra — um poeta que não pôde ser.

Já se foram muitas linhas, quase tantas quanto as de sua carta manuscrita de umas cinco ou seis folhas, com uma letra alta, dançante e acidentada, que mantenho no baú, na qual você questiona a postura agnóstica que eu assumia, depois de muito rezar e ir à missa.

Sem saber como, meio sem jeito, tenho de indagar, meu irmão mais velho: Fred, como ficamos, Virgínia Maria e eu, a ver vocês três como gaivotas a deslizar mar adentro para o limite do horizonte, até se tornarem pontos cinzas que logo não poderemos mais distinguir? Pois só nos vemos a nós próprios mutualmente, na caverna familiar, entre amigos e irmãos. O que quero dizer é que, sem vocês, perdemos inexoravelmente uma parte de nossos ontens e amanhãs, e que, em boa medida, presentemente já não sabemos quem somos — o que amiúde é desconcertante. Talvez isto seja a arte de sobreviver. Grande arte. Sei.

Carta ao Fred 3Anotei, umas semanas depois de seu Jove sair de cena aos 67 anos e 11 meses, este esboço malogrado de poema: “Se a morte / Antimatéria do amor / Da vida é que vive / Se o amor é eternidade provisória/ Como quer o Vininha / A morte, com o amor desprendido / Eterna que não será”. Pura besteira, pensei depois. O amor não se desprende com a morte, a não ser na hora da nossa morte, logo, a morte é igualmente eterna quanto durarmos.

Se bem que a morte, quem sabe, seja uma força nuclear fraca e a vida, gravidade. Pois posso, doravante, facilmente borrar a imagem do corpo dele na UTI com outra imagem, um plano-sequência de vida e vivência, de esplendor. Nosso reencontro na saída do Prado, depois de ele e Luiza zanzarem a manhã inteira por Madri — onde ele, Vi e eu tivemos a sorte de poder nos reunir — todo prosa e feliz, um dia depois de nossa esbórnia no Café Central, na noite em que, aconchegados pela afeição, erguemos brindes a você e a Edna (mas disso já te contei algo aqui).

Quando estive na Cachoeira pela primeira vez sem Edna foi um desastre, Fred. Edna, nossa Aned, era um elo inconsútil, você sabe, a nos unir entre nós e aos parentes e aos bons amigos dela, um elo preso ao carro que dirigimos, ao asfalto que percorremos, à entrada da fazenda que sempre erramos, ao cheiro da terra, à comida no prato e à cerveja no copo que nos alegram, à conversa risonha e saudosa que nos diverte, ao rumor carinhoso do rio e também aos seus resmungos e bravezas que a tornam indissolúvel em nossas almas consonantes, um elo, Aned, portanto, a nos unir ao que é mais vital.

Que desfeita esta falta que ela nos faz, comentei com o primo Edmar, de passagem, ao nos cruzarmos de carro na estradinha da fazenda por alguns segundos, eu indo e ele chegando.

Então, ficamos assim, Fred. Quando eu e Vi também nos convertermos, gaivotas mar adentro e airosos pontos cinzas a percorre o memorial de céus alheios, e depois nem isso, espero que a flor da noite continue por séculos a se abrir branca do outro lado do rio na Cachoeira, a concorrer com a primeira estrela, quem sabe diante dos olhos de algum tataraneto de nossa gente.

Enquanto isso, saiba você, vocês três, na profundidade do ar, que estamos aí.

Beijos do caçula de Hilda e Laerte.

Carta ao Fred 3

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Não sou autor do “Jornal do Siúves”

Santinho para Alfredo

Santinho para Alfredo (2)

Cabeça de Boi e Cachoeira (poema)

Sugerido por meu compadre P. (mesmo sem o saber) para festejar duas de nossas excursões

Para Naná

Cabeça Cachoeira3

I

Desde horas homéricas e eras de Epicuro

(Que aí cristalizou um saber)

O mundo ou o tempo

Ou como se pense tal túrbida medula

(E.g.: como figurar o presente?)

Às vezes se põe entre uma clareira

(E.g.: quando nos ausentamos)

No contínuo de outros tantos (mosaico)

Parênteses onde nos guardamos

E que oxalá nos guardem da vida baldada

(Quase tudo simulacro marcado

Nos livros de haveres e deveres cujo saldo é sal).

 

II

Na ígnea clareira o ágape

A iluminar na terra redescoberta

(da qual tantas vezes regressamos refeitos)

O verdor, a nuvem, o regato

Que se funde melodioso à maquinaria

Do Tempo (meu e seu, sem antes e depois)

(       )

Que, no entanto, ali (ó instante), entre parêntese

Compartimos, a ponto de desacatá-Lo

A ponto de celebrá-Lo em (mitológica) rebeldia

A ponto de comê-Lo e de bebê-Lo entre nós

(Já que humanamente convertemos o vinho e o pão).

 

 

 

 


 

Leia também:

Vozes da fazenda  
Footing no Face
Olive Kitteridge
Fisterra (a menina dos olhos cega)
21 poemas
Poemas de Viagem

 

Uma missa para a imprensa

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[Coluna da Inclusive.com número 9, novembro_2017]

A imprensa morreu e não descansa em paz.

Nasceu o jornal online sem caráter e dispensável. O antigo leitor acordou metamorfoseado em cascudo clicador, condenado às galés do ciberespaço.

É quase um ET semeador de tráfego na internet, presa do Google e do Facebook. Pois o clique é o critério absoluto da notícia na era digital, a teia sem escape.

O apelo dos jornais em luta pela sobrevivência — pautado em concessões à política de bandos, à banalidade, à fofoca, à controvérsia oca, ao culto da celebridade — soa cada dia mais tonto. Alguns contorcem-se como enguias sacadas do mar para tentar se sobrepor à segregação ideológica animada pelo Google e pelas redes sociais.

Cliques dão dinheiro. A aposta barata no populismo midiático (como as “fake news”) dá dinheiro.

Isso talvez explique a falta de sintonia dos editores e o confuso alinhamento das matérias (conteúdos) nos portais.

Quando mais vulgar, mais cliques no papo. Quanto mais reles o humor, mais suja a fofoca, mais pornô a controvérsia e mais enviesada a manchete, maior a chance de um troço viralizar.

E aonde a vaca da internet vai, os jornais digitais vão atrás.

Entre o atentado terrorista e as malas do Geddel, você pode se informar sobre as aulas de furadeira da Lolita para atuar na novela das sete, desfrutar a sabedoria humanística do “artista de gênero” em voga, se iluminar com o pensamento mágico engagé de Wagner Moura e Cássia Kiss.

Um jornal deve se adaptar aos tempos. Não há nada de novo nisso. Novas editorias sempre foram criadas por imposição do público, da caça à raposa ao salve as baleias, do xadrez ao Pokémon, da crítica literária à culinária.

O negócio é o meio, seu McLuhan, que agora ultrapassou a mensagem.

O que exigia perícia dos editores para hierarquizar os fatos com senso e sensibilidade, no portal online virou uma terra de leiloeiros na bolsa de cliques.

A ordenação dos “conteúdos”, isto é, qualquer merreca, é um desafio que editores, desenhistas de web e programadores em geral estão perdendo.

O leitor em papel conferia uma espécie de procuração aos editores para filtrar e ordenar o que valia a pena se saber do turbilhão do mundo.

Toda manhã, confiante nesse contrato tácito, repassava as manchetes, os editoriais, as seções e separava o caderno ou a página a que mais se habituara. O resto ia para o serviço do gato. Assim se começava a ganhar o dia.

O jornal, dizia Hegel, era a “oração matinal do homem moderno”, pois havia algo de ritualístico na prática cidadã de se ler um periódico.

Agora é esse deus nos acuda. Se o jornal analógico era um veículo aristotélico, o digital está essa choldra mefistofélica.

Os anúncios viabilizavam o impresso de qualidade, mas não concorriam com a informação. Hoje travam com a matéria uma luta pixel a pixel na tela em transe.

Os donos de jornal podiam distinguir seu negócio: para o público letrado, com certa sofisticação intelectual, iam as folhas de primeira linha, e para as massas indistintas os tabloides com a pletora de sangue, suor e bundalelê. Agora, eis o busílis, os dois apelos convivem promiscuamente na mesma telinha.

O online precisa garantir milhões de cliques por milissegundo. Não tem procuração alguma de leitorados específicos, mas a imposição de publicar tudo que possa fisgar a atenção do internauta cigano.

O clicador — conforme o tipo que os digitais mais parecem perseguir — é iletrado tendente a babar na gravata, com menos de 30 anos e algum poder de compra, politicamente coxinha ou mortadela e incapaz de se deter por dois minutos numa leitura, que abandonará se não tiver carne fresca, isto é, algo que o faça estacionar e clicar mais num mesmo sítio.

As velhas gazetas, em geral, não estão conseguindo reafirmar suas identidades e põem a perder marcas e reputações, esmagadas pelo império do Facebook e do YouTube.

Jornalões e jornaizinhos estão numa cilada. Creem, falo do Brasil, que vai se safar quem mais despudoradamente representar um mundo infantilizado e hostil à inteligência e ao compromisso moderno do bom jornal de se aproximar o mais possível da verdade.

A imprensa morreu e vaga como alma penada.

É preciso que alguém mande celebrar uma missa para que pare de nos assombrar e descanse no silêncio eterno. Amém.