Recaio no truque do Ipê, com trilha e tudo

[Texto atualizado com ligeiras e necessárias podas, nas manhãs de 22 e 23 deste agosto belo-horizontino.] 

 

Parece ser assim, se não sempre, tanta vez. Namoros, flertes, enlaces com árvores ou flores todos os temos.

Mas quero passar logo a um certo Ipê preciso, uma aparição, uma revelação a me sujigar, de novo.

De repente, out of the blue, como se diz lindamente em inglês,  toda minha inaptidão para vencer o tédio, para remar contra a maré é exposta no meio da rua, de novo.

Nesta manhã de domingo encoberta em BH o sol voltou justamente quando saía à padaria, como regido por ele a me pegar uma peça, de novo.

E caio no seu truque, de novo.

A cúpula amarela ante a mancha azul é exatamente eterna enquanto dura de novo.

Só a vejo quanto é, inteira, moça em flor de novo.

Pois, cara leitora e caro leitor, este ipê, fincado no pátio da casa antiga que sucede a Cervejaria e Bar Brasil, a quem sobe a ladeirinha de Maranhão no Funcionários, onde houve na última década um abre-e-fecha de uns 20 restaurantes, todo ano me deixa bobo de novo.

Quanto o percebo, chegou e pronto, completo e irretocável e imperturbável. Nem um microssegundo antes, de novo.

O Ipê não é qualquer outro senão aquele que me impôs os versos do Canto Amarelo, que integra a coletânea 21 Poemas, publicada exclusivamente no JS.

Ei-lo aqui, como determina de novo o vizinho mágico ressurgido que o tirou da cartola:

 

 

Canto amarelo

[Eis que um Ipê se arregala
Como um deus de aldeia
Ao descer do sol, na calçada.]

 

Saía cedo,
Novo dia em que me vendo
Suposto ser às cegas,
No rio da vida vicária,
À margem da sempiterna
Florada daninha, meu irmão,
Meu igual, eu remava.

Olímpica e nua vegetação
A ostentar seu ciclo, soberana,
Tal potestade, pé, condição,
No pátio do bistrô postada.

Parei face ao signo radicado
A me indagar, amarelecido:
Que serventia terá o colorido
Ainda há pouco rebuçado?

Levava-se uma peça trágica
De clamor vangoghiano,
Reflexo da escuma cósmica
Recriado no instantâneo.

Olhos vazados
Para vendar melhor,
Deixei-me só, como soía,
Ir no rol da correnteza.

[11/ “21 Poemas”, antônio siúves — 2015]


A TRILHA DO IPÊ

Eu que às 8h ouvia meio jururu o Adiós Noniño de Piazzolla, às 9h me reencontrava com a trilha pedida pelo Ipê ressurrecto, como se apenas Bach estivesse à altura dele, este aí, desde logo a bachiana do Canto Amarelo.

Microcomédia dantesca

[Esta é a última postagem da coletânea “21 Poemas”,
publicada exclusivamente neste blog.
Os links (à maneira de índice) do livro estão
nesta página.]

rothko final

Um Mark Rothko

Il sole rapisce la città
Non si vede più
Neanche le tombe resistono molto.

Ricordo D’Africa — Giusepe Ungaretti

I – Inferno

Vinho ou viático
Que se avie na surdina
Ao se abrir a cortina
Do amanhecer
Acolherá a flor exótica
Que tentares
Aterrado
Dar à luz
No solo petrificado
De ontens no pus
Da lambança
Da aragem onde brotara
O brejo da esperança

A estação tem a textura
Do intocável
Na tela do Imóvel
Uma aspereza no ar
Insone
Uma fome
Uma sangria seca
Um muco opaco
Que escorre
Vácuo.

O que não quer
Por não querer
Ocupa a trama
Do campo de força
Linha a linha
Ferroa e coça
Espezinha
A casca de calma
Que renasce
Que se dobra
Que se abre
Qual ferida
À energia negra
Que remanesce
À beleza perdida

(E pensar como)
Era fácil
Furar a superfície
Boiar sobre a nata indócil
Mandar aos diabos
A imundície
Da bolha asséptica
Da lonjura do alheio
No olhar adentro
De alguém de novo

A esperar o sumiço
Na primeira hora
No dia adicionado
Descer pela corda
Ao passadiço
Passagem que surge
Compulsória no bolso
Como a viagem
Como a história
Ida e volta
Ida e volta ida
Mesma droga virtual
D’alguma poesia
Que antes o animava
Agora dá azia
Trago residual
Preso nos dentes
Como laivo negro
De fígado

Ah, a ideia recôndita
Da imobilidade grávida
Na âncora que afunda
Até o fundo amigo
O fim antigo
Velha fundura de guerra
Tão vão quanto tardio
Liça gasta de querelas
Do novo dia vazio

O último círculo descortina
Mais um ato submundo
E nele se desdobram
Tal radiação de fundo
Tais ruínas que sobram
No vale onde se aporta
Sem guia ou companhia
E cai pela garganta
Na fúria da ravina
Na barranceira espelhada
Em que se vê aderida
Tal crosta ensimesmada
Que não cai na passagem
Pois com ela se navega
Selo da dor eterna
Entre uma e mesma margem

 


 

II – Purgatório

Dias sujos à vista
Pois que o outono
Quase sem distinção
Tenha vindo revirar
Como um legista
Outro dantesco verão
A manipular
Sem pudor
Memórias de enxurrada
A fermentar seu liquor

A quadra não vingará
Sem chuva ou alento
Um beijo caraminguá
Um repente no vento
Um aceno de cima
Que venha
Afinal
No fim da picada
Nos livrar do banal

Coisas secretam essência
Suam
Como no rocio o sal
Quem sente é o insano
Que à beira do bote
Dança o fado ancestral
Ao ouvir o chicote
A tanger soberano

Pois bem se quer fugir
Bulir
Com as horas pandas
Como um ventre náufrago
Já na quarta-feira santa
Mês que vem à vista
Na vera promoção
Quem sabe nos fogos
Fátuos do ano novo
Na nova ressurreição

Pôr roupa nova
Cortar o cabelo
Mercê
Dum remédio
Dum hormônio
Duma unção
Da moda
Da maquinaria do século
Duma atitude
Tal o figurino
Na ordem unida da ação
Dos portais da fé e da virtude

Logo a Lua no céu se atrofia
Ante o Sol despudorado
Pois aberto em demasia
A vazante e a vigília
Enviesam o pobre coitado
Apontam a pedra nodosa
Bem no meio do asfalto
Como um calo na colina
Que se vê e cai de volta
Na contraluz que declina
No visgo do velho palco
Quando entra em cena
Como velho fidalgo
Como eterna marmota
Ator anão que carrega
A chama breve
Idiota


III – Paraíso

E pur si muove
Influxo não corrompido
Pela vaga que revolve
O sargaço remoído

A se fiar na gravidade
Da noite da certeza
No ocasional
Quem sabe
A pequena nave
Não romperá impávida
A prisão habitual
Inda que a dívida da dúvida
Divida você no averno
É certo deste jeito
Como é certa a reza

Ó Beatrice
Me leve à vereda
Não ao campo de Marte
À noite que deu a queda
Pé ante pé no ermo
Raiz e minério cavar
Na margem estreita
Onde há de se formar
(Por assim dizer)
(oh razão, mistério)
A flor do Poeta
No alvorecer

Não há mais brisa
Só a economia solar
Em cinzas resumidas
Na brecha onde penetra
A luz da estrela esquecida
De onde o olhar que se desvia
Desfolha por desejar
No meio da caminhada

Eis a hora de alcançar o lago
O barco bêbado
De regressar à corrente
Ao encalço dum beijo
E como um demente
Da maneira experta
Remar sobre a cascata
Que salta o precipício

A hora imperativa
De alçar o risco
Em campo aberto
Sobre um rocinante
Antes que decaia
O azul da tarde
E de lança em riste
Atacar os gigantes
A caretear no telão
E malferido palhaço
Nesta liquidação
Sem calça nem capuz
Pelejar pela paz
A que faz jus

Tramas de névoa
Revoam no céu
Sobre a floresta
Diante da mesa posta
Cingem a clareira
Com vinho e mel
Assim me vejo
O próprio delfim
Sob uma luz inédita
A tecer primaveras
Farolagens de fim
Até que desate pura
Lição do paraíso
Onde se aventura
Impenetrável anelo
Antevisão sem juízo
Quimera solar dum polichinelo
Por aprendeu a rebolar
No palco
Do circo
Do inferno

[21/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]. Finis opera.

Céu de Sevilha, não senhor

Céu de Sevilha, não senhor,
Em azul, volume, fulgor.
O céu aqui é prófugo;

Há muito não pode
Com a imaginação sem
Queda para tais odes:

— Olvidado pelo destemor
Do olhar no chão celeste
Do plasma do computador;

— Trilha trivial da aviação,
Um inútil à nova era,
Mera ilusão da atmosfera;

— Nem espelho de mar e rio
Ou remordida de sol e raio
Contra a cor do minério;

— Abóboda macerada,
Bolorenta ideia selenita,
Relicário de escaparate!

 

[18 / "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]

Mark Rothko, Light, Eart and Blue, 1954

Mark Rothko, Light, Eart and Blue, 1954

 

Ladainhas

Ladainha I

Que (tímida certeza) a morte
Ou (lotérica chama) a sorte
Não me aprontem o disparate,
Assim, de parte a parte,
De me pegarem degredado,
—adúltero, bêbado, renegado—
Fora do leito da arte.


 

Ladainha II

A ideia de ir contra
a parede é pior
(q) pular do precipício
pior (q)
ir contra a parede

A ideia de congelar
o instante é pior
(q) ir contra a parede
pior (q)
congelar o instante

A ideia de pular
do precipício é pior
(q) congelar o instante
pior (q)
pular do precipício

[16 e 17/ "21 Poemas" - antonio siuves - 2015/2016]
blue-and-gray

Mark Rothko, Azul e cinza