Tag: A arte da viagem

Jurupoca #11

Número 11, novembro, 22, 2019
 


[...]
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
[...]
 
Tabacaria, Álvaro de Campos, do Arquivo Pessoa

Opa. Vamos apear?

Disgrama. Onde estou? Quem serei? Alien ilhado alienado? Cadê o doutor Bacamarte? E você?

Mas, se até sei, sim, o que há de bom? Ouvindo a Melodia da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck, no novo disco de Nelson Freire, acho espaço, escapo, um lugar, íntima utopia.


O já idoso e eminente filósofo Michael Ruse encontra o sentido da vida num belo artigo do Aeon.

Está claríssimo, ele diz, viemos do macaco, não do barro. Nossa espécie é violenta e deplorável, mas há uma essência resiliente que nos faz perdurar e significar. Sartre estava certo. Estamos condenados à liberdade. “Mesmo se Deus existe, Ele ou Ela, é irrelevante. As escolhas são nossas”a.

Filhos, família, cultura, arte… Sociabilidade é a chave.

Ruse cita o belo poema de John Donne (1624), popularizado por Hemingway na epígrafe de seu romance:

No man is an island,
Entire of itself,
Every man is a piece of the continent,
A part of the main.
If a clod be washed away by the sea,
Europe is the less.
As well as if a promontory were.
As well as if a manor of thy friend’s
Or of thine own were:
Any man’s death diminishes me,
Because I am involved in mankind,
And therefore never send to know for whom the bell tolls;
It tolls for thee.

Na tradução de Monteiro Lobato:

Nenhum homem é uma ilha isolada;
Cada homem é uma partícula do continente,
Uma parte da terra.
Se um torrão é arrastado para o mar,
A Europa fica diminuída,
Como se fosse um promontório,
Como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio:
A morte de qualquer homem me diminui,
Porque sou parte do gênero humano.
E por isso não perguntes por quem os sinos dobram;
Eles dobram por ti.

O ser lançado para a morte, átomo desorbitado… As escolhas são nossas?

Sejamos existencialistas, mas devagar (ouço o Álvaro de Campos). Eu sou, em tese, com um pé na farmácia.

E os sinos gemem por mim, ora bolas. E gemem em lúgubres responsos, pobre Siúves, pobre Siúves, coitado. Sim, coitado dele mais de muitos… (Álvaro de novo).

Ora, missivista, posso te ouvir, vamos deixar de jeremiadas e lenga-lengas, tenha a santa paciência! Você tem razão.

Mas, e essa gente?

Fernando de Barros e Silva passou a régua no podcast Foro de Teresina #77: “Os personagens são péssimos, as brigas são por motivos paroquiais, é tudo vulgar, é cafona, é horrível, essa gente é horrorosa”.

Um jornalista de primeira linha é obrigado a comentar corrimentos do chorume onde essa gente se banha, no caso a história do dossiê “Orleans e Bragança”. O que você quer?

Se bem que jornalistas têm fama de muquiranas, não, não, “muckrakers”, algo como catadores de lixo, como os colegas eram chamados pelos políticos e empresários dos EUA, no início do século passado.

E como um gambá cheira o outro, Bolsonargh, que fala o que lhe sai das tripas, soprou um “I love you” na linda orelhinha de Trump. Mr. Trampa, nem aí para o jeca, ora enfrenta um processo de impeachment.

E tasca no Twitter, lisonjeia o mundo com seu bronzeado artificial, topete, bicanca, rebaixa quem o denuncia, tira as acusações de letra. Seu eleitor compra as lorotas, é o povo contra a democracia. Reeleição no papo.

E você viu a Espanha? Sou um apaixonado pela Espanha, ou pelas Espanhas, como prefere um amigo de Bilbao. (A arte da viagem, meu livro que espera acabamento, tem várias crônicas de minhas andanças na península). Me detenho um tiquinho no assunto.

Nada de geringonça por lá. Direitas, esquerdas, ilhas, ninguém ouve ninguém.

O sociólogo português Boaventura Sousa Santos, farol da esquerda mundo afora, prega contra as divisões. Esquerdistas de todo o mundo, uni-vos…

União urgente pela democracia liberal contra o que nomeia “neofascistas” da Hungria, Polônia, Itália, do Brasil e os “pequenos partidos que se fundam na Espanha”.

O campo democrático está acossado. E o mais importante dessa entrevista à publicação espanhola InfoLibre, em 2018: “Penso que as esquerdas têm de abandonar o sectarismo, o dogmatismo, o infantilismo, para iniciar uma negociação. Que seja pragmática, como fizemos em Portugal….”, ele diz.

Qual baratas tontas, os políticos espanhóis, los barones, esvoaçam em busca de luz. Fustigam a democracia sem piedade.

Chutaram de novo a bola para o eleitor cansado de votar, em 10 de novembro. Outro estrupício, mais um bloqueio à vista (se o PSOE fracassar novamente para obter 176 assentos no parlamento) quando diligentemente batuco esta carta pra você.

O Vox, de extrema direita, chama para dançar os nacionalistas lunáticos da Catalunha. Agora é a terceira força legislativa. Seu líder, o basco babão Santiago Abascal, destila o mix populista habitual: “fatos alternativos”, rejeição à imprensa, paranoia contra imigrantes, racismo, chorume.

É o que dá futucar a raiva dessa gente deslocada e sem futuro, os piratas da insurgência, na visão do cientista político João Pereira Coutinho; os  primitivos de uma nova época, na do antropólogo cultural Carlos Granés (citando Mario de Andrade); os perdedores da globalização, para o geógrafo francês Christophe Guilluy em artigo sobre a luta dos Coletes Amarelos.

“Na realidade, o que chamamos de ‘populismo’ nada mais é que a forma política de um novo modo de empoderamento (hum) das classes populares”, relativiza candidamente Guilluy, autor de No Society – O fim da classe média ocidental, não lançado no Brasil.

As predições de Guilluy passam longe.

Daniela Campello e Cesar Zucco têm mais a dizer sobre o povo nas ruas na América do Sul, em estudo que relaciona o índice “Bons Tempos Econômicos” (preço das commodities e taxas de juros internacionais) com a estabilidade e a turbulência política nesta zona continental.

A vizinhança, que se agita e toca fogo em metrô, que se cuide. A razão está sem lugar e sem propósito. Sem luz. E pode piorar.

Uma sucuri de silício — uma das múltiplas e simultâneas encarnações do capital — tritura e engole a sociedade civil globalizada. A sucuri de silício não liga para a verdade factual, que virou uma espécie de fóssil pré-histórico”, desfia Eugênio Bucci em novo e urgente livro.

A “verdade factual”, conceito caro a Hannah Arendt, vai pela bola sete. Simples e frágil, esse ideal iluminista é ofuscado pelo brilho da pós-verdade, na onda das “narrativas” que piscam em tuítes e posts provisórios.

O Dicionário Oxford, você se lembra, chancelou “post-truth” como “a palavra do ano” de 2016. Pois periga se tornar a palavra do século, deus nos livre.

Na tradução de Bucci, o adjetivo “post-truth” “qualifica um ambiente em que os fatos objetivos têm menos peso do que apelos emocionais ou crenças pessoais em formar a opinião pública”.

A mentira, tão velha quanto nossa espécie, é parte da política desde sempre. Mas a pós-verdade é coisa nossa, do século 21. Vai muito bem de saúde. Sobrevive e cresce no Google e nas mídias sociais.

Eis um trecho de Existe democracia sem verdade factual? (Estação das Letras e Cores):

Nas redes sociais, diferentemente do que acontecia na televisão ou no cinema, a propagação das mensagens depende diretamente da ação das audiências, nas quais o desejo leva vantagem sobre o pensamento. Uma notícia (falsificada, fraudulenta ou mesmo verdadeira, pouco importa) só se difunde à medida que corresponda a emoções, quaisquer emoções, “positivas” ou “negativas”. Sobre o factual, predomina o sensacional – daí o sensacionalismo. Sobre o argumento, o sentimento ou o sentimentalismo. Esses registros da percepção e do sensível, que passam pelo desejo, pelo sensacional, pelo sentimental, proporcionam conforto psíquico aos indivíduos enredados em suas fantasias narcisistas. A receita se revelou infalível.

Não escapa ao professor da ECA/USP que detratores da TV Globo, essa nêmesis para bolsonaristas, lulistas e antivacinistas, se descabelam no Facebook contra o “monopólio” da família Marinho. Logo onde.

Formiguinhas obreiras, orgulhosas voluntárias, trabalham como “produtoras de conteúdo” para o oligopólio planetário — o “feis”, como dizem em Espanha, vale 500 bilhões de dólares na praça; em 2017 faturou 36 bilhões de dólares.

Assim, as obreiras, mesmo sem querer, ajudam também a manter inflada a bolha da pós-verdade, o grande espetáculo da terra. Nada como a boa vontade.

“O que é a carteira de assinantes de um jornal, algo em torno dos 250 mil leitores, como no caso dos maiores diários do Brasil, perto da escala de um Facebook, que tem perto de 2 bilhões de usuários com perfis ativos, quase um terço da humanidade?”, indaga Bucci.

Pois é, suas hienas, jornalistas da Globo, da Folha, e esta hiena que te escreve.

Será só coincidência que “isso daí” conviva com a destruição de uma ideia de cultura, mormente a artística, conviva com a pós-leitura. Mas que diabo é isso, Siutônio?

Então. Como diz Karl Kraus, o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito.

A pós-leitura segue-se à morte de deus, por Darwin etc., e também à morte da cultura — sucedânea do divino no modernismo. Essa ideia de cultura vai sendo triturada no pós-modernismo.

E agora? O que tem aura divina?

O fetiche e a devoção em torno da tecnociência que (no dizer de Adauto Novaes, citado por Bucci) “ganha a força de uma religião: domina as instituições políticas, as artes, os costumes, a linguagem, as igrejas, as mentalidades…”  

Há no YouTube um debate quente (legendado, 16 minutos). Batem-se educadamente o marxista Terry Eagleton e o liberal conservador Roger Scruton. Ambos estão certos em seus pontos.


Há mais interesse na conversa que a rinha esquerda vs. direita, como quer o divulgador do vídeo.

Eagleton diz que a cultura, no pós-modernismo, aos poucos deixou de operar como instância crítica. Perdemos a sua grande função humanística. Em vez de solução, a cultura passa a ser parte do problema.

Essa função, segue o autor de A ideia de cultura (Unesp, 2011), era a de “acender uma luz entre ela mesma e o resto de nossas práticas sociais e instituições para que pudesse efetivamente criticá-las”. Hoje a crítica está muda e cega onde mais deveria perdurar, na universidade.

A universidade em geral e o ensino das ciências humanas, em particular, entregaram-se ao império do capital, lamenta Eagleton.

Errado, rebate Scruton. É o oposto: a universidade deixou-se anular continuamente pela prosopopeia marxista, e, aduzo por conta própria, pela derivação obscurantista do marxismo, impenetrável para quem está fora de seus guetos e não pita o ópio dos intelectuais.

Mas divago. E a pós-leitura?

Parafraseando o Dicionário Oxford, a pós-leitura qualifica um ambiente, uma época, em que a literatura e a própria ideia de arte são sufocadas pela influência da tecnologia na existência humana.

A perda da imaginação e o Déficit de Atenção pela Infantilização do mundo (DAIM) vêm daí.

Um tempo em que a santimônia das patrulhas sanitárias crucifica Woody Allen (Um Dia de Chuva em Nova York é ótimo) e levanta um auto de fé contra a arte de Paul Gauguin. Tipo a hipocrisia é a homenagem que a virtude rende ao vício.

Na pós-leitura, fulano está mais a fim de aceitar perorações que lhe tocam alma e intestinos a ouvir argumentos baseados em fatos, o que pede um impulso ético e moral de aprendizado e autocrítica. Duvidar e perguntar. Nossas escolhas?

Mas não estamos condenados à liberdade?

Quem ainda lê para valer, literatura de qualidade, nesses tempos líquidos, pós-modernos e melindrosos, como diz Javier Cercas? Quem?

Eu, você e meia dúzia de três ou quatro aliens.

Mas há mais, muitos mais aliens a ler neste momento Essa gente, de Chico Buarque (Companhia das Letras).

Disse em outra Jurupoca que é difícil largar o que quer que Chico escreva, e sou devotado à sua música. Em algumas horas terminei o romance, com proveito.

Manuel Duarte, o narrador, rima com Chico Buarque, que rima com Duterte, como o sobrenome da ex-mulher de Duarte, a ricaça Rosane, que se dá bem nas altas rodas, é confundido numa coluna social.

Rodrigo Duterte é o presidente filipino homicida de cepa bolsonarista. A alusão não é gratuita, como outras tantas.

Há uma juíza federal sem “preconceito de cor” a cismar com Duarte. Gabriela Hardt, por acaso? Não, te apresento a dra. Marilu Zabala.

Há um bilionário influente na política que vive a receber a plutocracia em sua mansão do Cosme Velho. O fantasma de Roberto Marinho? Não, por favor. O grande empresário do agronegócio Napoleão (hum) Mamede, de quem Rosane é amante.

“Mal sabe essa gente que nos últimos anos morei na avenida mais nobre do bairro com a bela Rosane, que também já virou outra e que hoje decerto me considera um estranho; da última vez que a Rosane me dirigiu a palavra, foi para dizer que me tornei um tipo antissocial”, anota Duarte em uma entrada do diário.

O diário termina em setembro de 2019. Agorinha. Nesses registros, nas cartas de terceiros e nas alusões ao gênero epistolar, a história transcorre e o romance se conforma.

Entre sonhos, cenas de degradação social, racismo, violência da polícia e da elite do Leblon contra miseráveis, há infinitas cortinas com palcos atrás.

Nada de palcos azuis. Palcos marrons, cinza-esverdeados, fedorentos, fuleiros, cafonas, onde essa gentinha empoleirada no poder se apresenta. Uma escultura dourada do presidente com quepe de general, postada na janela de Rosane, a representa insistentemente, como um bibelô narrativo.

E estou a tropeçar na fragilidade de Essa gente, a mesma de outros livros de Chico.

Duarte não é um personagem de carne e osso moldados da argila da ficção. Lembra mais um esboço, muito bem traçado, é verdade; ou um boneco ventríloquo, ainda que a ventriloquia seja de primeira.

Antonio Muñoz Molina conta que deixou de ler Ian McEwan quando lhe pareceu que os romances do britânico “se convertiam em dissertações políticas ou teóricas apenas dissimuladas debaixo de um envoltório ficcional”. Justíssimo para certos livros de McEwan, ou parte deles. Disse algo parecido aqui e aqui.



“Num romance pode haver exposições e debates de ideias, porque cabe tudo num romance. Mas quando os personagens deixam de ser criaturas viventes para se converter em porta-vozes do autor ou em símbolos disso e daquilo”, continua o colunista do El País, sempre na mosca, “a antiga ‘suspensão da descrença’ na base da ficção está cancelada: com ideias e opiniões pode-se não estar de acordo, mas precisamos crer nos personagens. Como diz Fernando Pessoa, ‘todas as nossas opiniões são dos outros’”.

Bão, tenho agora de pedir licença poética, humildemente, de joelhos, porque estou vencido nessa cláusula pétrea do jornalismo cultural.

Vencido pela aclamação d’Essa gente. Li atentamente as resenhas dos quatro jornalões, e as quatro se derretem. Uma das melhores e mais entusiásticas é a de Arthur Nestrovski, na Folha.

“Talvez seja o melhor livro de Chico”, estima o diretor artístico da Osesp, para emendar, botando Futuros amantes na vitrola,

Quando chegarem os escafandristas, quando o Rio for uma cidade submersa e o Brasil tiver acabado de vez, só vão precisar deste livro para entender o que aconteceu.

Só este livro, deveras, Arthur? Talvez mais um, pelo menos, o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, vai?

Tão bem escrita quanto a de Nestrovski, sem se arriscar muito a desafiar o coro dos contentes, mas mais fiel aos fundamentos da crítica, é a análise do jornalista e professor Miguel Conde, em O Globo.

Essa gente é um livro ácido, que aposta no desafogo do riso e do sexo para não cair no azedume, mas assume um tom agressivo de caricatura, com sentido implícito de ajuste de contas”, Conde ousa dizer, para assentar que

nas ironias ficcionais de Duarte, é difícil não ver a resposta satírica de Buarque às ofensas gritadas por alguns de seus vizinhos de bairro e, mais do que isso, ao projeto de Brasil que esses mesmos gritadores presumivelmente ajudaram a levar ao poder.

Ele também ressalva que Chico é “menos convincente ao detalhar a penúria financeira que aflige Duarte”. De certo.

É de lascar o choro do escritor Duarte, liso e leso, coitado, que, como um personagem das novelas de Manoel Carlos, não se descola do Leblon nem nos sonhos (sobe bastante o morro do Vidigal, é verdade) e, apesar de enrolar seu editor, recebe polpudos adiantamentos (hum) e até outro dia vivia com Rosane em um

apartamento de alto luxo na quadra da praia do Leblon, amplo salão em 3 ambientes e sol matinal, sala de jantar, lavabo, 4 suítes sendo uma master, sala íntima, copa-cozinha gourmet, área de serviço com 2 dependências de empregada, 8 vagas na garagem, R$ 16 700 000,00.

Ah, vida, minha vida, olha o que é que eu fiz. Olha o que é que eu vi. Tipo o verdadeiro fim do mundo está no aniquilamento do espírito.

Mas, quer saber de uma coisa? (Volto a ouvir Nelson Freire, já nas Peças líricas, de Grieg).

Esta carta já está longa demais, foi longe demais da conta, me perdoe, mas você sabe, os sinos… Luz, quero luz.

— Mehr Licht! (Últimas palavras de Goethe, segundo seu médico Carl Vogel, dizem). É o que queremos, né não?

A você, caro amigo alienígena que me leu até aqui, bom fim de semana.

P.S.


Jurupoca #5

NÚMERO 5 — AGOSTO, 30   2019

La vita è questo scialo
di triti fatti, vano
più che crudele
(…)
Addio! — fischiano pietre tra le fronde,
la rapace fortuna è già lontana,
cala un’ora, i suoi volti riconfonde, —
e la vita è crudele più che vana.

A vida é um esbanjamento
De fatos triviais, vão
mais que cruel.
(…)
Adeus! — sibilam pedras nas folhagens,
a tormenta voraz já vai distante,
a hora cai, de novo se confundem as imagens, —
e a vida é mais cruel do que vã.

“Flussi” (“Fluxos”), de “Ossos de Sépia”, Companhia das Letras, 2002, p. 155, na tradução de Renato Xavier.


“Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas malcriações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Carlos Drummond de Andrade em um dos textos reunidos no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, lançado agora pela Três Estrelas.


“A realidade também é feita dessas esperanças íntimas que a imaginação inventa. Esperanças, os males indispensáveis da caixa de pandora. A confiança num destino pelo qual valha a pena sofrer. Em outras palavras, o desejo de ser moldado na forma da verdadeira humanidade. Mas quem é moldado dessa forma? Ninguém sabe.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, p. tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.


“Você pode extrair da pessoa quantas partes do corpo dela quiser, mas jamais encontrará o lugar onde ela está, o lugar do qual o sujeito se dirige a mim e do qual eu, por minha vez, me dirijo a ele. O que importa para nós não são os sistemas nervosos invisíveis que explicam como as pessoas funcionam, mas as aparência visíveis às quais reagimos quanto reagimos a elas como pessoas”.

Roger Scruton em “A Alma do Mundo”, p. 85, Record, 2017, tradução de Martim Vasques da Cunha. 


“O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível. É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus. Eles sempre têm esperança. Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto. Só os homens de boa vontade levam sempre no coração essa capacidade para a desgraça.”

Graham Greene em “O Cerne da Questão”, tradução de Otacílio Mendes, Biblioteca Azul, 2ª edição impressa, 2019.


Opa. Vamos apear?

Philip Roth: três romances”, um dos ensaios reunidos em “Tudo Tem a Ver: Literatura e Música” (Todavia, 2019), de Arthur Nestrovski, é crítica literária como não existe mais nos jornais brasileiros, ou em parte alguma. “O depauperamento da crítica fica evidente para quem acompanhou o processo; e não foi compensado pelas mídias digitais, até pelo contrário. Isso tem mais gravidade do que parece: diminuir o espaço da crítica significa diminuir o espaço da cultura, vencida pelo jornalismo instrumental: serviço, polêmica, entretenimento”, avalia. Ele se refere ao papel formador, essencial da literatura, que é o de balizar, ou melhor, deslindar a condição humana, ao que a crítica deve estar apta a enfrentar.

O diretor artístico da Osesp, Nestrovski joga nas onze na cancha cultural, o que esses ensaios e textos curtos evidenciam. No ensaio final, escrito para a edição da coletânea, ele faz um balanço de suas suas “vidas”, todas bem vividas, de tradutor, editor, professor e músico. Conta, por exemplo, como traduziu “Ständchen” (1828), lied de Schubert e Ludwig Rellstab.

Explica as alusões feitas ao “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, canção que encarnava a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, poema que tem como epígrafe versos de Goethe (“Mignon”) sobre um país imaginário (“onde ardem laranjas de ouro”), sendo Goethe um contemporâneo de Schubert. Tudo pode ter a ver quando se apagam fronteiras. “Gravada por Chico César, à maneira de toada caipira, a ‘Serenata’ entrou na trilha da novela ‘Velho Chico’, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que foi ao ar em 2016, na Globo!”, relata, para celebrar: “Durante meses, mais de 30 milhões de pessoas escutaram este Schubert brasileiro. Dessas coisas, como se gosta de dizer, que “só acontecem aqui”. Foi provavelmente a maior audiência de Schubert de todos os tempos. Aconteceu no Brasil — e em tradução”.

Mas, comecei a dizer, Nestrovski tem Roth em altíssima conta. A qualidade da sua crítica aos romances “O Teatro de Sabbath”, “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista” expressa sua eleição. Em um trecho da primeira parte, a respeito da saga do devasso Mickey Sabbath, lê-se:


“Se Philip Roth tem traços que o ligam familiarmente a Henry Miller, tem muito mais para situá-lo na linhagem dos profetas judeus Franz Kafka e Sigmund Freud, temperados pela leitura de Céline e Joyce (este último homenageado diversas vezes no livro). Nesse contexto tão elevado, de uma literatura em estado de incandescência, ou indignação quase constante, até Updike, que rivaliza com Roth como mestre supremo da língua americana e cronista das ambições sexuais, começa a soar um pouco como o bom burguês.”


Roth e Updike, ambos mortos, ambos escritores americanos canônicos, candidatos ao Nobel e preteridos pela academia sueca. Como tudo tem a ver, peço licença poética para chegar a meu próprio ofício, de que venho falando a conta-gotas nesta Jurupoca, e à minha pequena teia.

“O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman. Nathan ‘torna-se’ Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro”, escrevi aqui.

Nesse texto de 2017, publicado sete meses antes da morte do escritor, aos 85 anos, comento o ótimo documentário “Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra”, de Adrien Soland e François Busnel. Aponto o andamento de réquiem que se depreende nas cenas finais.

Na sala de sua casa de campo, Roth põe para tocar as “Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss e suspira, revelando seu encantamento por essa música.

À época dessa gravação ele já havia anunciado a aposentadoria, e diz que começava a aproveitar a vida. Um pouco antes, discorre sobre o “ciclo Nêmesis” (2006-2010), como enfeixa os últimos romances, narrativas em torno do envelhecimento, a decadência física e a ronda da morte: “Homem Comum”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “O Animal Agonizante” e “Nêmesis”.

Alude a uma história que ouviu sobre um genial ator inglês que um dia, ao subir no palco, percebeu que havia perdido a força, a magia, não sabia mais atuar. O célebre ator Simon Axler de “A Humilhação” repõe essa narrativa. Já o publicitário sessentão de “Homem Comum” sofre com os achaques da velhice e a impotência.

“A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre”, ele se lamenta, na frase mais citada do livro. Todo esse contexto não é revelado no documentário francês assim, mastigado. Mas o leitor de Roth percebe a extensão da melancolia e do drama.

Bem, ia a dizer, a obsessão deste leitor baratinado pelos espelhamentos entre Zuckerman e Roth não vinha dali, do ensaio que escrevi para a revista “Inclusive.com”, com o título “Zuckerman Safadinho & Roth Safadão”, mas de antes, de duas décadas de leitura e releitura de seus livros e de uma viagem forçosamente literária a Paris e Florença no outono europeu de 2005.

Narro o episódio em “Inferno em Florença”, crônica incluída em “A Arte da Viagem”, cuja publicação, que tenho anunciado nesta Jurupoca para este mês, sofrerá algum atraso. Não dá para revelar muito dessa história sem spoiler.

Adianto que cheguei à cidade italiana com um exemplar em inglês do “Complô contra América” debaixo do braço. Esse romance de Roth ainda não tinha saído no Brasil. Dois ou três dias depois, cruzei com um desses dois autores (Roth ou Updike) por duas vezes, de manhã, no museu Bargello e, na tarde do mesmo dia, à beira do Arno, num balcão próximo da Piazza dei Frescobaldi, quando o abordei.

Também me refiro à Roth em um dos poemas de viagem que entram no livro como souvenirs, chamado “Carrinho de mão vermelho”. O nome é uma piscadela para “The Red Wheelbarrow”, de William Carlos Williams, poema no qual tentei me inspirar para registar o fechamento de uma livraria de mesmo nome no Marais, em Paris, onde eu havia comprado em 2005, diretamente das mãos da proprietária, a canadense Penelope Fletcher, meu exemplar de “The Plot Against America”.

Sucedeu que numa daqueles acasos de que falei na carta anterior, de volta a Paris cinco anos mais tarde, escolhi um hotel bem ao lado da Red Wheelbarrow Bookstore, que, então, acabava de dar adeus ao ponto.

Na “libraire anglophone” ainda se viam alguns livros e um computador, além do anúncio imobiliário bem visível.

Nos hospedamos no chinfrim Hôtel du 7e Art, um duas estrelas na rue de Saint-Paul. Naquela semana, eu e minha mulher soubemos pelo “The Herald Tribune” que Roth havia, em comunicado público, para tristeza de seus leitores e, todo o mundo, que não escreveria mais ficção. Procurei gravar no poema essa sucessão de eventos.

Recentemente, a propósito, Penelope Fletcher reabriu sua livraria em outro endereço, agora na Rive Gauche.


A amazônica conspiração maquiavelista

“Isso está me cheirando a conspiração que vem de fora”, sussurra Odorico para seu Dirceu. / Aí tem cérebro de gente traquejada nestes maquiavelismos. / Poooovo de Sucupira…  É com a alma [incompreensível]… que venho fazer ao povo uma denúncia de sumíssima gravidade. Um plano maquiavelista está em marcha visando a roubar Sucupira (…) / Querem impedir que Sucupira trilhe o caminho do progresso. / Todos vós sabeis que tenho dado meu o suor e meu sangue pela grandeza de Sucupira. Mas esses maus sucupiranos recebem ordem de potências estrangeiras interessadas em manter o nosso povo no atraso e na dependência.” (…). Ouça a íntegra na Rádio Sucupira da CBN.

A amazônica conspiração comunista

“Brasileiros: (…) forças do mal e do ódio [o comunismo] campearam sobre a nacionalidade ensombrando o espírito amorável da nossa terra e da nossa gente… A dissimulação, a mentira, a felonia constituem as suas armas”, proclama Getúlio, seu Gegê, na Hora do Brasil, ao anunciar que o governo de salvação nacional debelara a Intentona Comunista, o levante organizado por militantes da Aliança Nacional Libertadora, a 23 de novembro de 1935.


Tânato na avenida

De carona com Joaquim Nabuco e Caetano Veloso, que dedicou um disco ao abolicionista, “Noites do Norte” (2000), digo que a imagem do governador Wilson Witzel descendo de um helicóptero na ponte Rio-Niterói com sua figura balofa e curvada sobre as hélices da aeronave, rindo à larga com os punhos erguidos — como um Tânato no Sambódromo ou um goleador nos campos do demônio — permanecerá por muito tempo como a reafirmação de mais uma característica nacional do Brasil.



CONSERVAÇÃO

Meu coração está na dimensão estética da existência”, diz Roger Scruton nesta longa e bem articulada entrevista ao Estadão/Spotnicks. O conservadorismo, como o liberalismo, é malbaratado em toda parte ao gosto do freguês.

Scruton é o melhor defensor dessa corrente tão vilipendiada e pela qual guardo certa simpatia, mas que deve ser entendida, para que as ideias correspondam aos fatos, como liberal, libertária e britânica — fruto dessa história cultural.

Em um país como o nosso, o princípio da conservação — conservar o que presta e devemos preservar para nossos filhos e os que vão nascer, a exemplo do patrimônio arquitetônico ou da melhor tradição música popular, que uma corrente intelectual vê como elitista à luz dos novos ritmos mais “autênticos” porque georreferenciados — só pode ser visto, creio eu, em abstrato, “ad hoc”, ou seja, em situações sociais ou familiares específicas, aqui ou ali.

Por certo, não há o que conservar da miséria, da iniquidade, da ignorância, de uma sociedade atrasada e disfuncional.Tenho para mim que a civilização começa com a universalização do saneamento básico, do que falo no pé. 


A BELEZA IMPORTA?

“Roger Scruton tem inteira razão quando afirma que o conservadorismo procura conservar a ‘ecologia social’ de um povo”, escreve João Pereira Coutinho, a propósito do livro “Filosofia Verde: Como Pensar Seriamente o Planeta”.

“Nessa ecologia, estão as leis, os costumes, as instituições; as liberdades civis, políticas, econômicas; mas também os recursos naturais e, por que não, a mera possibilidade de existir beleza no mundo”.

A deixa do colunista da “Folha” remete ao livro “Beleza” e ao filme da BBC “Beauty” ou “Why Beauty Matters?”, disponível no YouTube com legendas em português, escrito e apresentado pelo filósofo.

Scruton considera um culto à feiura toda a progênie artística semeada pelo urinol de Duchamp, com raras exceções, como um Rothko; toda a música posterior a certas peças de Schoenberg que não siga as fórmulas clássicas; e toda arquitetura derivada do modernismo. “É mais fácil destruir coisas do que criá-las. Isso é, essencialmente, o que Mefistófeles diz no Fausto”, diz nessa entrevista.


MARTELADAS

Seu romantismo é um tanto irritante, mas ele defende em grande estilo o legado da arte constituído em milênios por meio de diálogo entre os mestres, em termos de reverência e inovação.

Ele diz que a catedral da beleza erguida por séculos e séculos foi posta abaixo a marteladas, e o que restou da demolição terminou reduzido a pó no pós-modernismo. Daí nasceu o culto escatológico à marmota.

Ele critica com afinco e disciplina toda a derivação da utopia hegeliana em torno da “inevitabilidade da história”.

“A natureza contraditória das utopias socialistas é uma explicação para a violência envolvida na tentativa de impô-las: é necessária uma força infinita para obrigar as pessoas fazerem o impossível”, escreve em “Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda”.


O ZEITGEIST E A “MERDE D’ARTISTA”

Em grande medida, a arte contemporânea engaja-se com o novo como uma força destinada a superar e sepultar a beleza do mundo. Scruton vai à nascente dessa crença e tenta estancá-la por um instante para criticá-la.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, diz em “As Vantagens do Pessimismo”.

Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual. Identificar o espírito da época em retrospecto, num dado período histórico, vá lá. O problema é estabelecer como inelutável essa ação entre os vivos, quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, político e cultural.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência — saltamos do uísque empregado como anestésico nas cirurgias à maravilha do Propofol, sugeri em outro lugar.

Então, o que a política e o desarranjo aleatório derivam como a novíssima arte passa a ser a quintessência da criação, a exemplo das latinhas de bosta “Merde d’Artista”, que fizeram a fortuna de Piero Manzoni, ou o a instalação “My Bed” (1998), da britânica Tracey Emin, uma cama de casal desarrumada com roupas sujas espalhadas que faturou 4,3 milhões de dólares num leilão.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, retrata, no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Precisamos ser fiéis ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral. E precisamos ser crentes para considerar reacionária toda heresia contra a crença de que haja tal “viés” na história.


NARIZ DE CERA

Pensei num nariz de cera para as notas acima, como vênia a alguma leitora ou leitor mais sensível a ideias excêntricas ao eixo ideológico marxista. Mas, uai, para quê? Quem segue esta carta sabe que ela não é ideologicamente exclusiva e se nutre do bom e do melhor contra a cegueira.

Scruton, filósofo conservador e escritor britânico foi tipicamente xingado de fascista nos anos 1980, sendo lacrado “avant la lettre”.

A virulenta reação a seu livro “Pensadores da Nova Esquerda”, recentemente ampliado e reescrito no “Tolos, Fraudes e Militantes”, o expulsou do ensino acadêmico. Sua força intelectual e caráter hoje o colocam acima da manada das patotas do pensamento mágico.

É influente e respeitado. Fez crítica de vinhos, escreve crítica literária e de arte, romances, libretos de óperas, compõe, como o lindo tema de abertura da série televisiva “O Belo e a Consolação”, e ainda é o organista de sua igreja. Scruton se considera um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável, onde cultiva a terra e a boa vida.




 
O CERNE DA QUESTÃO

Forçando a barra contra o sono, acabo a leitura de “O Cerne da Questão”, romance de Graham Greene escrito há 71 anos.

Me pergunto se em mundo bobo e infantilizado como o nosso haverá leitores para um grande livro adulto sobre o tema da culpa religiosa e a depressão, o abandono e o “suicídio por compaixão”, como Paulo Francis, um fã de Greene de primeira hora, definiu o destino do herói, Scobie.

Não creio que haja. Li algumas vezes “O Poder e a Glória”, opera magna de Greene. O desespero do padre bebum e incasto, que acaba fuzilado por revolucionários mexicanos me acompanha com uma memória pessoal.

Releio de vez em quando a comédia “Nosso Homem e Havana”, sobre um vendedor de eletrodomésticos feito espião por acaso na Cuba pré-revolucionária (o próprio Greene espionou para o MI6, o serviço secreto de sua majestade), narrativa tão engraçada quanto “Furo” ou “Declínio e Queda”, de Evelyn Waugh.

Já o “Cerne da Questão” não tem graça e não faz graça. “Scobie tinha a impressão de que a vida era interminavelmente longa. A prova do homem não poderia ser realizada em menos anos?

Não poderíamos cometer o primeiro pecado importante aos sete, nos arruinar por amor ou por ódio aos dez, nos agarrar à redenção num leito de morte aos quinze?”, diz uma passagem.

O leitor vai se servindo, em discurso livre indireto, desse destilado agônico produzido na alma do major inglês, mal entrado na meia idade. Ele e a mulher perderam a filha pequena e, sufocados pelo clima e o ambiente social de uma colônia africana na Segunda Guerra, onde Scobie se sente prisioneiro e fascinado por essa condição, tentam escamotear a memória trágica. (Leio a reedição da Biblioteca Azul, com tradução de Otacílio Nunes.)

A prosa de Greene nunca é frouxa ou concessiva, mas enxuta e cortante. Às vezes é quase pintura: “Lançou a garrafa por cima do cais, e a boca faminta da água a recebeu com um único arroto”.

Assim ele engrossa as pinceladas que esboçam o mal-estar existencial de Scobie. Durante uma ronda policial no porto, recolhe uma garrafa de uísque que podia ser uma bomba incendiária, “e quando ele sacou as folhas de palmeira o fedor de petisco desidratado para cachorro e de uma podridão sem nome irrompeu como um vazamento de gás”.

Francis escreveu que Greene se debatia com seu jansenismo, doutrina que não conta com a salvação, como adúltero e simpático oportunista do comunismo.

Católico converso na juventude (praticou roleta russa na adolescência para combater o tédio), o autor de “O Terceiro Homem” e “O Americano Tranquilo”, livros que deram filmes excelentes, ia à missa até o final da vida, vivendo com a amante em Nice, num pequeno apartamento com 12 garrafas de J&B alinhadas na estante

. Pode que Francis estivesse certo, mas o pessimismo de “O Cerne da Questão” nunca é hesitante:


Por que, ele se perguntava, desviar o carro para evitar um cachorro morto? Amo tanto este lugar? Será porque aqui a natureza humana não teve tempo de se disfarçar? Ninguém aqui poderia jamais falar sobre um paraíso na Terra. O paraíso permanecia rigidamente em seu lugar do outro lado da morte, e deste lado floresciam as injustiças, as crueldades, a mesquinhez que em outros lugares as pessoas escondiam com tanta engenhosidade. Aqui era possível amar seres humanos quase como Deus os amava, conhecendo o pior: não se amava uma pose, um vestido bonito, um sentimento assumido superficialmente. Ele sentiu uma afeição repentina por Yusef [o sírio contrabandista e corruptor das autoridades locais]. “Um erro não justifica outro. Um dia, Yusef, você vai encontrar o meu pé debaixo de seu traseiro gordo”, ele disse.


EDUCAR PARA A MÍDIA

O nome é feio pacas em duas línguas, “media literacy” ou “alfabetização para a mídia”. Prefiro educação para a mídia. Mas seu apelo é urgente. Deveria se tornar disciplina em vários níveis no currículo escolar, incluindo a alfabetização de marmanjos.

Ainda pouco difundida no Brasil, vem na onda da checagem de fatos, do combate às notícias falsas e ao vitimismo alucinatório contra a imprensa, de que já falei bastante na Jurupoca # 2 (ver Fanáticos contra o jornalismo).

O colombiano Thomas Durante, pesquisador para União Europeia de estudos midiáticos, deu uma entrevista à “Folha” sobre o tema. “A ideia é promover e aprimorar o senso crítico dos cidadãos, o conhecimento da mídia, do universo de informações, a compreensão crítica de mensagens e notícias etc.”, ele explica.

“A alfabetização para a mídia busca conceder acesso a ferramentas e conhecimentos gerais sobre o alcance e as oportunidades que a tecnologia representa. Isso inclui gerar habilidades técnicas, pensamento crítico, poder de análise, de solucionar problemas, e então desenvolver a capacidade de lidar com todo tipo de informação, com a mídia e com produtos culturais.”



F WORD, JODER, PQP

Álvaro P. Ruiz de Elvira, no “El País” (“The Wire – o melhor uso de um palavrão”), comenta a sequência do quarto capítulo da primeira temporada dessa série, que julga uma das mais bem escritas, dirigidas e filmadas da história da televisão. O que é, sem dúvida, e inesquecível. Durante quase cinco minutos, apenas uma palavra é repetida 33 vezes, a expressão “fuck”, “joder” em espanhol — em português “puta que pariu” me parece uma tradução mais justa.

O que os detetives estão vendo na cena do crime é de gelar os ossos, mas resolvem o caso. Revi algumas vezes “The Wire” (A Escuta, HBO, 2002), criada por David Simon. É minha série número 1. Até a academia rendeu-se ao seu alcance social e artístico.

Suas cinco temporadas conseguem retratar a sociedade de Baltimore, repartida em guetos pela imigração, o duro trabalho policial, a imprensa decadente, o jogo de poder e seu trânsito corrupto no submundo da droga nos miseráveis bairros negros; o elenco, formado quase que só por atores ingleses, impressiona pelo domínio do patoá.

Segundo uma reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é outro célebre fã do seriado.




OU POR QUE ESTAMOS NA MERDA

A capa (como se dizia) de “O Globo” no domingo, 18/8, trouxe um levantamento oficial sobre as maiores estatais de saneamento no país. Mostra que essas empresas gastam mais com o pagamento dos empregados que com investimentos em infraestrutura. O lobby desses funcionários de altos salários enfrenta duramente a aprovação de um marco regulatório para a privatização do setor, em discussão há séculos no Congresso. Talvez nossos tataranetos vivam em outro país. Hoje, segundo o levantamento o instituto Trata Brasil, quase 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não recebem água tratada em suas casas. Quem é um pouco informado e não seja um extremista sabe o que isso significa.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.