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Acará deus

I
Na água me lavo da nódoa da sensação,
entre algas e ninfeias, a deslizar à toa,
acará do lodo entre a rama e a taboa,
sob a nata ferrugínea que cobre o lagoão.

II

O predador vagarosamente se achega,
seu dorso negro cata fios de sol e voa;
morrer é ondulação que o fundo escoa,
do salto da aranha d’água nada se diga.

III

Dobrada ao penetrar o mundo aquoso,
a luz revela a escuridão que assume
e a mancha da ramagem recebe o lume
do túrbido radiar de vivos e mortos.

IV

Do céu com o orvalho desmaia a ideia,
a película do tempo abre a tela muda
na lâmina glauca de escamas e espumas,
em única sessão de mil fitas sem plateia.

V

O estado de pedra pulsa rubro na carne,
além da morte, aquém da aberrância,
igual na carne pútrida. Vai além do corte
tal perfeição, além do anzol da consciência.

[9/ “21 Poemas”, antonio siúves — 2015]

Black on Maroon 1958 by Mark Rothko 1903-1970
Black on Maroon 1958 Mark Rothko 1903-1970 Presented by the artist through the American Federation of Arts 1968 http://www.tate.org.uk/art/work/T01031