Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

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Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #08


Número 8 — outubro, 11, 2019


Rio cinza 1 – 2017. Foto: A. Siúves


Opa. Vamos apear?

Espero que esteja tudo bem com você, caro amigo. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta carta. Eis o que me pus a cismar no último quindênio, meus “rendimentos de intra-imo” (Joyce via Houaiss) mais intrínsecos só para você.


Apois. Descobri que tenho algo em comum com Allan Stewart Königsberg: o gosto pelos dias nublados.

Woody Allen esteve em San Sebastián, no País Basco, a rodar mais um filme, com o título provisório de Rifkin’s Festival, e falou disso.

Eis o homem que é uma “controvérsia andante”, na expressão do El País. A produtora Amazon vetou a distribuição da comédia romântica Dias de chuva em Nova York nos EUA, pressionada pelo movimento #MeToo.

Mas o filme estreia nesta sexta-feira (11) na Europa. Aos 84 anos, o diretor é um pária, um morto-vivo em seu país. Sua obra monumental também foi parar no fundo da lata do lixo do ostracismo.

Não vou render o assunto. Acredito que uma obra que nos define, pois define a cultura cinematográfica há mais de meio século, não pode ser apagada da história, à la mano estalinista.  

Pois na ótima conversa com o editor de cultura Borja Hermoso, Allen diz algo sobre luz e sombras que delimita nosso “estar no mundo” [a tradução do El País Brasil tem uns lapsos]:

“Por qué adora los días de lluvia? ¿Por qué mejor los cielos plomizos que el sol?

Porque la luz es más bonita. Y porque creo que en esos días las personas piensan más desde su interior, desde su alma. La mía es un poco triste… y si abro la ventana por la mañana y hace sol, me resulta desagradable. En cambio, encuentro que las ciudades son hermosas bajo la lluvia. París, Londres, Nueva York, San Sebastián son muy bonitas…, pero si llueve son mágicas. En San Sebastián, por ejemplo, el clima es una bendición, el verano parece primavera. Y llueve. En mis películas lo importante sucede casi siempre cuando llueve. Pero quienes invierten en ellas se quejan de que es caro rodar con lluvia. Sobre todo porque, cuando quiero rodar con lluvia, casi nunca llueve y tenemos que fabricarla y usar cisternas. Yo a veces llamo a Dios para que haga algo, pero nada, ni una nube.”

Meus dias favoritos também são cinzentos, friorentos e chuvosos, ainda que dispense as invernadas e o vento feroz, típicos de Copenhague ou Cambará do Sul, digamos.

Mas é bom poder andar pelas ruas molhadas, a pé ou de carro, e curtir o reflexo das luzes de mercúrio nas paralelas inscritas pelos pneus, como canta o Belchior.

Que tal ouvir Paralelas na versão bonita versão dessa música, do disco com Gilvan de Oliveira, de 1999?

O Belo se transforma em outra cidade em dias assim, um burgo mais suportável. As tintas de chumbo do céu aplacam a luz ríspida do período quente, comumente de setembro a maio, iludindo a feiura das vias e construções.

Num dia desses me veio este A chuva é cult, aí no Quadrado ao pé da carta, que passa a constar como seção desta Jurupoca.

ambém gosto do Rio mais do que nunca nos meses de maio, junho e julho, quando a cidade costuma estar encoberta e a temperatura civiliza-se, como nos dias em que tomei, desde o Forte de Copacabana, duas das fotos que ilustram esta edição.

Walter Salles captou isso encantadoramente já na abertura da coprodução francesa Chico Ou o País da delicadeza perdida, de 1989, como um delicioso poema visual.

Bom, Allen falou e disse. Traduzindo: “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. […] e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva.”

What do you mean? – Oviedo, Espanha, 2015 – Foto: Rachel Botelho

Dias cinzentos são comuns no País Basco, onde Allen filmou, depois de rodar Vicky Cristina Barcelona na Catalunha e em Oviedo, a capital das Astúrias que lhe rendeu, em gratidão, a estátua acima.

O aguaceiro é uma característica da vida de Bilbao ou San Sebastián. Me sinto muito bem naquelas bandas. Em um passeio por povoados ao norte de Bilbao, há poucos anos, procurei casar essa sensação de bem-estar com meu apreço às aves marinhas mais comuns em quase todo o planeta.

Este fragmento é de uma das crônicas de viagem à Espanha, capítulo do livro que venho prometendo nesta Jurupoca — e que logo há de sair:

“De Bakio tocamos para Bermeo, a uns cinco quilômetros à frente. Ao descer do carro me dão boas-vindas adoráveis gaivotas, a fazer sua ronda no porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves ousadas e referentes, que parecem filhas, senão frutos do mar. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.”

Consta que Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil, samba que emplacou 80 anos em agosto, em uma noite de toró no Rio. Impedido de sair de casa, o compositor foi sentar-se ao piano para saudar um país ensolarado, lindo e trigueiro.

Nos últimos dias fiz o oposto de Ary. Me tranquei em casa para fugir do sol e do calor e me refugiei no País Basco, por meio das 512 páginas de Pátria, o magnífico romance de Fernando Aramburu que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil. A obra vendeu mais de um milhão de cópias e é adaptada pela HBO.

Chuva nunca falta na retratada vila euskaldun — onde se fala apenas a língua basca, o euskera — não nomeada mas manjada, nos aforas de San Sebastián (Donostia).

A intempérie é comum na rotina das duas famílias, bons vizinhos de compadrio e tudo mais até a cisão causada pela perseguição e violência do ETA (Euskadi Ta Askatasuna — basco para Pátria Basca e Liberdade).

Chove na vila quando é cometido o crime de sangue, episódio que proporciona medianas às triangulações tecidas na narrativa.

Pelas artes da memória, inspiradas também nas reminiscências do autor, revisitamos os tempos sombrios em Euskal Herria, e a luz que eles roubaram de país, mães, filhos e amigos.

Um percurso longo que vai dos dias mais tempestuosos a um período recente [houve, em 2018, o adeus às armas da organização, depois de 50 anos de terror. Os fatos são narrados no ótimo documentário El fin de ETA, disponível na Netflix, e neste vídeo.]

Todos se conhecem e se dão a qualquer hora na vila. Na lida entre a horta, o açougue, a padaria, o bar e a igreja, um empresário extorquido que se recusa a contribuir mais uma vez com o bando tem a marca da peste pichada nos muros, e vai achar porcarias na caixa de correio.

O que era amigo-irmão ainda ontem, parceiro de tragos e partidas de mus na taberna e voltas de bicicleta aos domingos, beneficiário da gratidão por tantos favores, hoje é um traidor, de quem o medo e a covardia exigem distância: 

“Saiu de casa bem cedo com seu traje de ciclista e a bicicleta, e não pôde acreditar nos próprios olhos. Txato isso, Txato aquilo. Herriak ez du barkatuko. Nesse nível. E, quando chegou à praça e se incorporou ao grupo de cicloturistas, notou, o quê?, notou alguma coisa, certa aspereza nos cumprimentos. E olhares que evitavam os seus. E sentiu falta das gozações das outras vezes, mas também ele poderia estar mais suscetível e fosse vítima das próprias fantasias e receios.”

O ódio cristalizado no dogma (que sempre “lacrou”) entusiasma adolescentes que só podem contar com a própria força e seus superávits hormonais.

As vias da educação e do amor não estão disponíveis no momento, e há sucedâneos gloriosos para o sexo. O racismo é patente no ambiente abertzale, do esquerdismo partidário da “pátria” independente.

Chefões embuçados sob o signo do machado e da serpente (força e inteligência política, bietan jarrai em basco) atiçam a energia e as carências de seus potenciais soldados, gudaris.

Seduzem pretensos heróis, que depois são treinados na cartilha que autoriza a matar e, claro, eventualmente morrer pela causa. Gora ETA.

Em gangues rivais, esses jovens buscam aceitação e reconhecimento dos comandantes, e para isso disputam seu campeonato particular de quem faz mais estrago:

“Vem logo, Koldo, Koldito, correndo se for o caso, mas não me falhe. Por que tanta pressa? Porque não queriam que os jarraitxus de Rentería passassem na frente deles. Já tinham sido mais espertos uma vez e ficaram com a glória. Como? Botaram fogo em uma van novinha de mais de vinte milhões de pesetas, uma Mercedes, e isso sim afeta os cofres municipais. Enquanto eles tiveram que se contentar com um Pegaso velho e ferrado, que ainda por cima queima muito pior e não custa nem a metade. Até livraram a prefeitura dos gastos que teria com um ferro-velho.”

Aramburu é um ‎donostiarra, natural de San Sebastián, que vive na Alemanha, onde trabalha como professor de espanhol, desde 1985.

Seu distanciamento me parece ser um ponto essencial dessa obra. Se não deixou minas terrestres em sua guerra contra o “Estado” (seus membros evitam a denominação Espanha), o ETA intoxicou o País Basco e a própria Espanha com profunda degradação moral.

Nada mais apropriado que a literatura para penetrar em campo tão aviltado. 

Há, já mais para o final do livro, uma reunião pública organizada pelo Coletivo das Vítimas do Terror, a que o médico Xabier, que teve o pai assassinado e se tonara um alcoólatra, atende depois de muito relutar.

Com a coragem de dois copos de conhaque, ele finalmente entra no auditório, onde palestra um escritor que não é identificado, o que não é necessário. O disfarce não chega a ser ardiloso, como diz o narrador de um conto de Salinger.

O homem está falando: “— Também escrevi contra o crime cometido com alguma desculpa política, em nome de uma pátria onde um punhado de gente armada, com o vergonhoso apoio de um setor da sociedade, decide quem pertence a essa pátria e quem deve abandoná-la ou desaparecer”, discorre.

“Escrevi sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a desmemória e o esquecimento tramado pelos que tentam forjar uma história a serviço do seu projeto e suas convicções totalitárias”. 

Escrever sem ódio contra a linguagem do ódio é justamente a principal chave do romance.

O discurso indireto livre, técnica idealmente necessária aqui, me parece, é empregado com grande habilidade, não sem algum “esteticismo”, o estilismo que ocorre, na definição de James Wood, quando o autor se intromete na narrativa.

“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor”, explica Wood em Como funciona a ficção (Sesi-SP editora, 2017).

“Habitamos, simultaneamente, a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem e a ponte entre eles — que é o próprio estilo indireto livre — fecha essa lacuna, ao mesmo tempo que chama atenção para a distância”, agrega.

Em uma passagem de Pátria especialmente feliz, já em um tempo adiantado, dois irmãos, vítimas do ETA, caminham no Paseo Nuevo de San Sebastián.

Atrás deles está a escultura de Jorge Oteiza Construcción vacía [em aço corten, premiada na Bienal de São Paulo de 1957 e que nos remete a Amílcar de Castro]. O que essa obra tem a “dizer” é o mais significativo no encontro entre os dois:

“O sol, já se retirando, desenhava uma faixa de cintilações que se moviam na superfície marinha. Barcos? Nenhum. Uma lancha voltando, próxima à entrada da baía, e mais nada. Xabier e Nerea se debruçaram no parapeito. Ele cobria a incipiente calvície com um gorro escocês; ela, que até alguns anos antes usava boinas de lã, estava com o cabelo descoberto. Atrás de onde estavam se enferrujava, entediada, esperando a próxima tempestade, a escultura de Oteiza. A poucos passos dos dois irmãos, um pescador olhava fixamente o vaivém de boia nas águas ondulantes.”

O nacionalismo revolucionário, eivado de marxismo-leninismo, avalizou o assassinato de 867 pessoas, conforme o número da defensoria pública basca de atenção às vítimas.

Registre-se que militantes do ETA sofreram a brutalidade da polícia, em graves desvios do Estado democrático de direito.

A violência e a desrazão até hoje desagregam, separam amigos, amantes, definem histórias de vida e impõem zonas cinzentas aqui e ali.

Tudo enredado no absurdo. Cada página de Aramburu revive essas circunstâncias com a necessária sutileza e mesmo com delicadeza. Se assim não fosse, como um ficcionista poderia tentar repor a crença na humanidade?

É apenas por ocasião da publicação do romance na Espanha, em 2016, que o céu começa a desanuviar-se.

O perdão (barkatu – em basco ao mesmo tempo perdoar, perdoa, perdoe) e a reconciliação, com o fim das mortes e o julgamento dos assassinos, podem trazer de volta, para quem sobreviveu, a velha ordem de um dia após o outro, ainda que, para alguns, o sol volte a brilhar tarde demais.

A ficção amalgama o horror e a amargura que perduraram por décadas de  ódio, fúria e desgraça, tudo, no final das contas, como é corrente na história, para nada. 


Rio cinza 02 – 2017 – Foto: Antônio Siúves


“Our Boys”

Nas áreas fronteiriças entre Israel e Palestina, divergências inimaginavelmente antigas andam bem longe da paz.

Não há esperança de conciliação depois que o fel do nacionalismo e do ódio racial e religioso conseguiu amargar até as pedras do deserto.

O seriado Our Boys, em cartaz na HBO, traz uma noção clara e multifacetada dessa realidade.

Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro, tachou de “antissemita” a produção da rede Kashet, escrita por três roteiristas israelenses, dois judeus e um árabe — a opiniãoquivale a uma espécie de atestado de idoneidade antipopulista e antinacionalista.

Embora parta da comoção causada no país pela morte bárbara de três jovens judeus, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach, por membros do Hamas, em julho de 2014, a série, não se ousadia, se detém no ato de vingança atribuído a esse episódio.

Duas semanas depois daqueles eventos, o menino Abu Khdeir, de 16 anos, é sequestrado perto de casa, em Jerusalém Oriental, e logo cruelmente assassinado.

Our Boys acompanha o trabalho de investigação da Shabak, a agência israelense de segurança interna, e o indiciamento e julgamento dos três acusados pelo crime, dois deles menores de idade.

As ações policiais permitem que o roteiro, por um lado, focalize a via-crúcis dos pais de Khdeir, emparedados entre a dor e a pressão de líderes do Hamas que o requerem como mártir da facção.

Por outro, nos aproximamos da pregação religiosa e da doutrinação dos jovens nas Yeshivás, instituições judias dedicadas ao estudo do Talmud e da Torá.

Nesse universo, onde vivem as famílias das vítimas do atentado do Hamas e dos assassinos de Khdeir, alimenta-se o velho estranhamento entre judeus asquenazes, de ascendência urbana e cosmopolita, e colonos sefarditas ultraortodoxos.

O diálogo entre os algozes, na noite em que saem de carro para caçar sua vítima, expõe as raízes do mal de maneira a um tempo sutil e explosiva.

Vemos que a Bíblia judaica é pau para toda obra. Tanto ensina que a lei proíbe matar o inocente quanto pode sugerir uma interpretação oposta, a justificar a vingança.

Os efeitos da retórica de milhares de horas de doutrinação decoreba sobre a pureza da fé em um deus contra a animalidade da crença alheia são devastadores nas cabeças mais vulneráveis.

Ao ver andar na rua uma grávida árabe-israelense, um dos rapazes, ao defender que ela serviria ao propósito do grupo, comenta: “Olha, vai assando um terroristazinho”.

O comparsa cita com autoridade certa sabedoria rabínica: “Mate-o enquanto é tempo!” A sequência é de uma brutalidade vomitória. As explosões e cenas de tortura de matriz hollywoodiana não passam de terror infantil perto disso.

“A série é incomumente corajosa ao deixar persistir a incomodidade moral, e consegue comover sem oferecer falsas esperanças, uma raridade inclusive em dramas mais bem feitos, escreveu Emily Nussbaum na The New Yorker.

Depois de assistir a uma porção de séries medíocres, a exemplo de Fauda, na Netflix, Our boys realmente é uma boa surpresa na teledramaturgia israelense.

“Reconheço que a série tem profunda verossimilhança, desde as cozinhas estreitas de Jerusalém até os quintais dos assentamentos e as ruas iluminadas pelas luzes do Ramadã por onde caminham as famílias  muçulmanas”, diz Nussbaum.

O enfoque distanciado da narrativa, conduzido com serenidade, e que procura adentrar o submundo do fanatismo, extrapola o que há de mais específico no enredo para, quem sabe, sugerir alguma disciplina racional em um mundo ameaçado pela polarização, inclusive a nosso triste mundinho brasileiro.


O irlandês vem aí

Al Pacino, Joe Pasci e Robert De Niro estrelam o novo Scorsese IrishmanO Irlandês, com três horas e meia de duração.

Passou no New York Film Festival, antes de entrar no circuito americano, para chegar à Netflix, salve, salve, já em novembro — a operadora busca o mesmo sucesso de Roma.


 Lida tradutória

O leitor brasileiro tem uma baita dívida de gratidão com Paulo César de Souza, grande e fino escritor que emprestou suas artes à lida tradutória. Nos últimos tempos ele se concentrou nas obras completas de Freud e Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras, projetos que agora está por concluir.

A Folha lhe dedicou um bom perfil, ainda que um pouco preguiçoso na recolha de depoimentos sobre o personagem, inclusive aqueles que poderiam apor restrições ao trabalho de Paulo César, mas isso é o usual no jornalismo brasileiro.  



Drummond inédito

O livro Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto, lançado este mês pela Unesp e organizado por Marcelo Bortoloti, traz 68 cartas trocadas entre os dois escritores desde os anos 1920, e, como especial achado, três poemas inéditos de Drummond. Eis um deles, divulgado pela Folha:


Religião

Bichinho quer ir s’embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta e põe-se a adorá-la.
Põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.  

Oh, Greta

É sintomático, creio, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a sueca Greta Thunberg.

Leio que que ela levou os pais a deixar a carne, depois os converteu à dieta vegana e, ainda aos 13 anos, os fez abolir as viagens aéreas, o que limitou a carreira internacional de sua mãe, a famosa mezzo-soprano Malena Ernman.

Diga-se que a Suécia é ponta de lança do movimento mundial que incentiva as pessoas a trocarem o avião por meios de transporte de baixa emissão de gases-estufa.

A expressão “flygskam”, algo como “vergonha de voar”, define tal anseio. (Na Europa, vou de trem sempre que possa).

“Me sinto muito bem em ser ouvida”, disse Greta ao New York Times. Seus pais foram na maré da celebridade e lançaram este ano um livro sobre suas decisões sob a influência da petiz.

“O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. ‘Como vocês ousam?’, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: ‘Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?’”, escreveu Demétrio Magnoli. “A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo”, opinou.

A pequena Greta, que fez careta para Trump na ONU, faz muito bem a parte dela, ao tornar-se a heroica escultura viva de um mundo juvenilizado.

Merece a admiração que desfruta, e me simpatizo com ela. Mas é raro encontrar em colunas e editorais uma perspectiva mais larga, filtrada pela leitura extensiva, à luz da histórica.

É como se a pequenez do alcance mental e moral da política contaminasse tudo. Predomina o imediatismo da fofoca e a opinião estéril, a informação suspeita obtidas das “fontes” de cada um.

Greta condena os “traidores dos seus sonhos” e emociona multidões que se informam e formam certezas pelas redes sociais, como parece ser o caso exemplar de certo presidente da República.

As redes, para quem nelas vive imerso, são uma espécie de túnel sem fim, onde em cada página rola o presente eterno dos desconectados da história.

Parece que a mensagem jamais poderá mesmo se impor ao meio, para a glória de McLuhan, amém.

A mocinha exige um veganismo geral e irrestrito, e emissões zero de carbono, já!. Isso distrai a má consciência do ambientalismo de moda.

Quem dera fosse uma questão de banhar o planeta com o pó de pirlimpimpim da Greta-Emília.

“A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19”, contextualiza Magnoli.

“O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.” O colunista acrescenta:


 A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, se escondem nas profundezas do obscurantismo. […]  


Ao acaso, lendo Paulo Roberto Pires na Quatro cinco um, sobre Simone Weil, me ocorreu que a filósofa francesa também foi uma menina prodígio, e meio tiranazinha.

Era obcecada com a fome no mundo e não dava tréguas a quem visse pela frente com seu trololó. Ainda inspiradora, sua obra se tornou um marco do humanismo no século 20.

Alguém poderia sugerir sua leitura a Greta, como passatempo em suas viagens, nunca de avião, entre uma e outra aparição pública.    


Atenção, patetas, é fantasia! 

Houve uma época em que obras com a dimensão das de Fellini, Bergman, Visconti, Woody Allen, Glauber, sei lá, galvanizavam a reflexão, a crítica, as ideias sobre a beleza e o sentido de viver.

Hoje são os heróis da Marvel que falam à imaginação das gentes, entre uma e outra maratonada na Netflix.

Ou um filme como o novo Coringa (Joker), da DC_Comics, cujos produtores se viram obrigados a alertar o público, supostamente de crianças e adolescentes mimadas e cabeças-de-vento, que não se enganem, ao que acabaram de assistir é mesmo ficção, ouviram?

É o corrente. Há muitos anos notei a tendência, ao ver o longa-metragem de 2012 Os Três Patetas, em Portugal Os Três Estarolas, com um aviso no final para que não se repetisse em casa as marteladas na cabeça, dedos nos olhos etc., e os créditos revelavam o segredo daqueles truques.

Moe, Larry & Curly divertiram minha geração a ponto de fazer doer nossos peritônios. Não me recordo de nenhum incidente com aquelas gags, na vida real. Mas não.

O tempora, o mores!  (oh, tempos, oh, costumes), bradava Cícero nas Catilinárias. O jornalista e escritor espanhol Manuel Jabois fez um ótimo comentário a respeito.



Amélia, a IA de verdade

Fale com a Bia (acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial). Parece que o futuro vem aí com as assistentes virtuais.

Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell. “Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, diz esta reportagem de Lílian Cunha.

Humildemente, tenho cá a Marina, do supermercado da esquina, que me escreve e-mails diários com ofertas imperdíveis.

E uma voz feminina me liga na antevéspera para confirmar minha consultas num hospital do Belo; confirmo, e no dia seguinte recebo um SMS automático para testar minha convicção.

Dois dias depois, um robô solicita minha opinião sobre a qualidade do serviço prestado. Noto que os assistentes são sempre fêmeos. Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?

Ou, quem sabe, pelo contrário, o espalhamento de assistentes e secretárias nos algoritmos agora seja o sal da terra, uma libertação de tarefas consideradas subalternas?

Nesse caso, os jornalistas estariam solidários com essas e outras tantas categorias profissionais.

O advento da IA é saudado como mais um passo do imparável progresso humano. As empresas começam a usar e vender aos seus clientes a novidade como mais uma vantagem tecnológica, benefício de valor agregado perante a concorrência.

O fato de estarem cortando postos de trabalhos aos borbotões, inclusive de jornalistas, pois os robôs já reportam nos esportes, na economia e na previsão do tempo, não diz muita coisa à opinião pública.

Quando os bons serviços da Bia são proclamados nos intervalos comerciais do Jornal Nacional, os criativos da publicidade parecem convictos de agradar no atacado com suas, como gostam de dizer, epifanias, ao concederam tais miçangas e espelhinhos hi-tecs à bugrada. Como já disse aqui, acho burra a inteligência artificial.

A propósito, deu no Valor:


 Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1%) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. É o que mostra um estudo da consultoria IDados, obtido pelo Valor, que cruza a base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com um estudo da Universidade de Oxford que separa as ocupações em faixas de risco de automação.

Um exemplo bem-acabado dessas profissões ameaçadas é a condução de automóveis, táxis e caminhonetes (98% de probabilidade de automação), tarefa que tende a ser substituída por carros autônomos, como os famosos veículos da Waymo, a divisão de automóveis sem motorista do Google. Também estão na lista os cobradores, entrevistadores de pesquisa de mercado, balconistas de serviços de alimentação e garçons, por exemplo.


  É isso aí. Bom fim de semana e até a próxima.


QUADRADO AO PÉ DA CARTA

JURUPOCA, O AUTOR
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Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

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Jurupoca #0


jurupoca
ju·ru·po·ca
sf
ZOOL
1 Peixe teleósteo, siluriforme (Hemisorubim platyrhynchus), de água doce, encontrado nos rios da Amazônia e do Sudeste brasileiro e no Paraguai, com boca com grande prognatismo, dorso esverdeado, ventre esbranquiçado e manchas negras nas laterais; boca-de-colher, jeripoca, jerupoca, jiripoca, jurupensém, mandiaçu.
2 V surubim-lima.
ETIMOLOGIA
tupi iurupóka.

Etimologia
“Jurupoca”, “jerupoca” e “jiripoca” são oriundos da junção dos termos tupis yu’ru (“boca”) e ‘poka (gerúndio de pog, “arrebentar”), significando, portanto, “boca arrebentando”. É uma referência à sua mandíbula projetada para frente (prognatismo)[1]. “Hemisorubim” vem do grego hemi, “meio”[2], significando, portanto, “meio surubim”, numa referência à sua semelhança com os surubins. “Platyrhynchos” vem da junção dos termos gregos platýs, êia, ý (“chato”)[3] e rhýgchos, eos-ous (“bico”)[4], ou seja, “bico chato”, numa referência, novamente, a sua mandíbula projetada para frente.  

Opa.

A Jurupoca vai piar, logo, começo por dizer algo original.

Isto é uma carta dentro de um e-mail, velhos meios reciclados diante do cansaço com a balada das redes sociais, a burrice da inteligência artificial (IA) e, por certo, a dureza da vida de jornalistas e escritores.

“Publicar por e-mail ganha quase um ar retrô”, escreveu em abril Maurício Meireles em reportagem na “Folha de S.Paulo” sobre a volta das newsletters literárias. A matéria mostrava que uma “série de autores estabelecidos” se queixavam da “supremacia dos algoritmos e a economia dos likes” das redes sociais. “Hoje a internet é permeada pelos likes, algoritmos e publicidade constantes. São pilhas de informação moldadas por algoritmos que criam uma ansiedade de consumo de informação. E a leitura não é para ser uma experiência assim. Há uma estrutura de informação que não privilegia o interesse dos usuários, mas das corporações e dos anunciantes”, ponderava Daniel Galera.

Daniel Pellizzari ampliava a opinião do xará: “Não tinha [quando ele começou a divulgar seu trabalho na rede] essa maquininha pavloviana de likes e comentários, toda essa parafernália meio detestável. [Fazer newsletter] não é pura nostalgia, mas lembra uma época em que a internet era um lugar cheio de possibilidades legais e não uma realidade de coisas horríveis”.

Então, a internet tem seus nostálgicos, ora vejam, minha amiga, meu amigo. Aonde vamos parar?

Além de newsletters, os escritores recorrem à autopublicação e ebooks; se viram como podem.

Aí vamos nós.


A ARTE DA VIAGEM

Redescobri meu próprio livro ao voltar a um manuscrito inédito. Xongas, pensei, este texto é uma declaração de amor e uma reflexão sobre certa maneira de viajar, não é um guia de viagens, como pretendia. Junte nele as últimas crônicas europeias, reescreva o que pedir para ser reescrito, revise tudo mais uma vez e terá “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”. Ah, não caia de novo na asneira de procurar editoras brasileiras! Recebi ainda o estímulo de Carlos Moreira, amigo jornalista velho de guerra: anda, faça um e-book, ele me disse, vá de Kindle Direct Publishing (KDP), mas retire o livro do gavetário nas nuvens!

Por falar no Kindle, minha mulher me presenteou com o aparelhinho, o novo Paperwhite, que até à prova d’água é, ao qual aderi e com o qual divido minhas leituras deste então. A edição caprichada de “A Arte da Viagem”, recheada de fotos, com revisão profissional aos cuidados de Beto Arreguy, sairá antes do final de julho. Um trechinho da introdução:

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro. O prazer de viajar é sua razão de ser.

O objetivo é compartilhar com o leitor um estilo ou jeito de viajar, dentro da modalidade “turismo cultural”. Nada a ver, aqui, com o conceito acadêmico, ensinado em faculdades de turismo, e ainda menos com o institucional, das hashtags do Instagram e promoções de agências públicas e privadas.

Viajar é — ou deveria ser — coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes, quadros e comida, bem como sua motivação e sentido, numa época de excursões breves e facilitadas.

Se a experiência humana pode ser tão rica quanto almejamos, com a viagem não é diferente. A mera diversão pode transformar-se em caminho espiritual e razão de viver.

A verdadeira viagem, em busca de beleza, diversidade e conhecimento, desvela mundos, educa, inspira e torna o viajante mais apto para compreender o próprio quintal interior.

O contato com uma civilização mais avançada ou diversa da nossa tem o dom de quebrar preconceitos e abrir cabeças.

Vida e trabalho podem se tornar mais prazerosos com as experiências que acumulamos, além das “milhas” de viagem. É disso que este livro vai tratar.

Como dizem Ruy Castro e Heloisa Seixas em “Terramarear – Peripécias de Dois Turistas Culturais” (Companhia das Letras, 2011), “turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

A frase invertida tem o mesmo teor. Transformado em cultura, o turismo se torna uma prática mais rica e divertida. Turismo também é cultura, ou seja, não necessariamente.

Há quem viaje em férias exclusivamente para caçar e pescar, cavalgar e mergulhar, correr e surfar, comprar e vender, comer e beber, fotografar passarinhos ou o que queira na vida. Tudo isso é ótimo e bacana. Mas é preciso bem mais que a boa vontade de antropólogos culturais pós-modernos para classificar tais atividades estritamente como “culturais”.

O turismo de massa, às vezes restrito ao limite de quarteirões, bairros e algumas atrações vistas em uma única tarde, é antípoda da arte da viagem. Milhões de pessoas da classe média planetária obtiveram meios para viajar nas últimas décadas. Estima-se o número de turistas chineses em 156 milhões, em 2018, contra 10,5 milhões em 2000. Globalmente, o turismo internacional, que em 1960 era de menos de 70 milhões, chega a 1,4 bilhão de pessoas no final da segunda década do século 21. Facilitado por companhias aéreas de baixo custo e locações de sites como Airbnb — a companhia criada e sediada em São Francisco, nos Estados Unidos, avaliada pela Forbes em 38 bilhões de dólares —, a atividade turística em larga escala enfrenta a rejeição popular e campanhas virulentas de ativistas em cidades como Barcelona (com uma população de 1,6 milhão de pessoas, recebe 30 milhões de visitantes anualmente) e Veneza (500 mil habitantes e 20 milhões de turistas).

Barulho, arruaça, desrespeito à cultura, inflação no preço dos aluguéis, gentrificação — a descaracterização de áreas populares e da genuína vida local pela reconfiguração de imóveis para receber mais turistas e lhes oferecer cafés, restaurantes e outros serviços em padrão globalizado, distantes da tradição de cada povo — são algumas das acusações levantadas contra o turismo massivo.  

Este livro tentará mostrar que a fuga do lugar-comum, a busca pelo genuíno e a aproximação respeitosa da vida local são fundamentos da arte de viajar, que demanda preparo e maturação — e tenderá a ser bem-vinda onde a praticarem.


FRACASSAR MELHOR

A citação mais conhecida do escritor irlandês Samuel Beckett — “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” (Tente. Fracasse. Não importa. Tente de novo. Fracasse melhor.) extraída do “Worstward Ho, uma de suas últimas obras — é bastante inspiradora e uma epígrafe na medida para a vida do futricado eleitor brasileiro.

Somos todos iguais nesta noite sob o mantão da imbecilidade. Um país amazônico e diabólico, que sequer conseguiu prover serviço de esgoto para mais do que a metade de sua população, perde tempo e a energia de Itaipus em tuítes e fofocário político imprestável.

Em “As Viagens de Gulliver”, Jonathan Swift narra, com grande clarividência para um leitor brasileiro, o grande cisma de Lilipute, que causou milhares de mortos naquele império de homúnculos (os seres medem 15 cm de altura), entre Extremidade-Grandinos e Extremidade-Pequeninos, em torno da forma ideal de quebrar o ovo para comê-lo, se pelo lado maior, conforme a tradição, ou pelo menor, segundo a heresia revolucionária — algo assim como “marxismo cultural”. Penso que o atual ministro das Relações Exteriores defende com verve e erudição a ideologia da Extremidade Maior, contra os radicais corporativistas, que morrerão pela Extremidade Menor do ovo, em nome da verdade, do povo e dos próprios cargos régios.

DEMOCRACIA ASSOPRADA

Na Europa também assopram contra a chama da democracia e, do jeito que vai a coisa, acabarão por conseguir apagá-la.Na nave do novo nacional populismo vai na proa Matteo Salvini, um imbecil idolatrado por multidões. O filósofo italiano Umberto Galimberti lembra que a Itália está em último lugar na Europa na compreensão de um texto escrito. A ignorância predomina entre jovens acorrentados às redes sociais. Hormônios de mais, paciência de menos e incultura geral fertilizam o campo da revolta dos “tifosi” das trevas.

TEU NOME É PETRA

Atualizo esta carta depois de assistir na Netflix, ainda na manhã desta quarta-feira (19/06), a “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa. A cineasta  é neta de fundadores da construtora Andrade Gutierrez e filha de militante políticos; seu nome, Petra, homenageia Pedro Pomar, líder do PCdoB assassinado por militares, em 1976. A conjunção autobiográfica define o filme e sua narrativa. O dilema pessoal da diretora, de uma eleitora com a idade aproximada do nosso último período democrático, conduz a retrospectiva dos últimos anos — as manifestações de 2013, a Operação Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Jair Messias Bolsonaro. “Grande parte da minha família votou em Bolsonaro, enquanto, segundo a cosmologia de Bolsonaro, meus pais deveriam ter sido assassinados”, diz Petra, como resumo da ópera, já no final do filme. Vemos cenas da infância da diretora, imagens de bastidores cedidas pelo fotógrafo Ricardo Stuckert (o “Velásquez do poder petista”, segundo Mario Sérgio Conti), entrevistas com os protagonistas da tragicomédia brasileira, com a própria mãe (que amargou o mesmo calabouço de Dilma, alguns anos antes e por menos tempo) e imagens dos eventos marcantes dos últimos oito anos, incluindo o picadeiro do Grande Círculo Tétrico da votação do impeachment, no domingo de 17 de abril de 2016. Revemos nosso atual presidente dedicar seu voto à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, e mais uma vez sentimos vontade de vomitar. Mesmo sem se aprofundar no desastre do governo Dilma na economia e seus reflexos para os mais pobres, e se apegar forte e inocentemente à simplificação da conspiração das elites para iluminar os abalos sofridos pelo sistema e a descrença cívica, “Democracia em Vertigem” é um documentário sensível, inteligente, honesto, por vezes comovente. É cinema de primeiríssima ordem. Diretores simpáticos à direta e à esquerda, incluindo suas obras de ficção, inspirados no tema, nem de longe realizaram algo da mesma estatura.

A PRIMEIRA ESTRELA

José Ovejero descreve no “El País” sua visita ao túmulo de Primo Levi (1919-1987) no cemitério de Turim, depois de muita andança para localizar a lápide, que é sóbria e humilde, conforme diz. Não apareceram outros visitantes durante o tempo em que esteve lá nem havia uma pedra sobre a sepultura, segundo o costume judaico de honrar a memória dos mortos, neste centenário do autor de “A Tabela Periódica”. “A lápide não informa que jaz ali um partisan antifascista nem um químico nem um imenso escritor, ainda que tenha sido todas essas coisas. E só o número 174.517 recorda sua passagem por Auschwitz”, diz o texto de Ovejero. Li há muito “É Isto um Homem?” e, depois de décadas de espera em minha estante, retomo “A Trégua”. São livros, me parecem, obrigatórios à nossa pretensa humanidade. Mas não. Na própria Alemanha estão agora a ulular lunáticos neonazistas.

A revista Piauí de junho publica alguns dos poemas de Levi do livro “Mil Sóis”, traduzidos por Maurício Santana Dias, a ser lançado em julho pelaTodavia. “Così passo il giorno, e fu sera,/ Ma quando fiori in cielo la prima stella…” (Assim passou o dia, e foi noite,/ Mas quando no céu floriu a primeira estrela…) são dois versos do poema “Eram cem” que me bateram na quina.

FESTA LITERÁRIA

Também neste e no próximo mês saem novas traduções de “Apanhador nos Campos de Centeio” (Todavia), de J. D. Salinger, “O Jogo de Amarelinha” (Cia das Letras), de Júlio Cortázar, e “No Coração das Traves”, de Joseph Conrad (Ubu). Três motivos de festa. Três brindes justos.

A GENIALIDADE DO GORDO

Devora-se o segundo e último volume do “Livro de Jô: Uma Autobiografia Desautorizada” (Cia das Letras), escrito por Jô Soares e Matinas Suzuki Jr., como o primeiro: de um fôlego só. Os calhamaços podem ser lidos como imensos esquetes, pois rimos sem parar a cada página. Os autores entretecem a iluminada trajetória artística e pessoal de Jô com episódios do teatro, cinema e TV — a própria história desses meios — com grande fluidez e excelente apreensão dos fatos. O gordo promove um festival autocongratulatório e celebrante de amigos e ídolos (você sabia que ele foi ministro da eucaristia e oficiou a comunhão ao lado de Don Hélder Câmara? Eu não). Não há controversas, dilemas, angústias, brigas. É tudo de bom. Claro, não vamos encontrar nada disso em uma autobiografia, por mais “desautorizada” que seja. Mas Jô, ele e Chico Anysio, são ícones imensos. Honram cada letra do malbaratado substantivo Gênio.


PARA ADULTOS

“Chernobyl”, da HBO, é o melhor da TV em 2019, uma respiro de programa adulto na sufocante atmosfera púbere poluída de vampiros, zumbis, dragões e mil comediotas. Dracarys neles. A série retrata quase à perfeição a desgraça humana que o estado totalitário sempre poderá perpetrar em nome do “povo”. É de gelar o sangue. Os roteiros (tornados públicos) são baseados em “Vozes de Tchernóbil”, da Nobel Svetlana Aleksiévitch, publicada no Brasil pela Cia das Letras.

“Band of Brothers” (2001), também da HBO, novamente disponível na NET, é outra atração para gente grande. Revê-la hoje nos liberta temporariamente da prisão do presente eterno na qual nos meteram o Silicon Valley e seu deus Big Data. O mundo não começou ontem, nos recorda a série, produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg, sobre a saga da brigada Easy Company, parte da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial. Também faz gelar o sangue, e quase literalmente, os dois episódios que retratam as batalhas no terrível inverno das Ardenas, na Bélgica.
 
HINTERLAND


Com “Wallander” já excluído do acervo, “Hinterland” é o que de melhor a Netflix tem para oferecer aos amantes do suspense policial. Acabo de rever as três curtas temporadas pela terceira vez. Me alegra que esta série, incrivelmente desprezada ou despercebida pelos críticos e divulgadores, seja a campeã de audiência do blog. Para alguma coisa a postagem, inteiramente grátis, serviu, leitora e leitor amigo. Faltou falar ali da música incidental de altíssimas qualidade, constituída por sutis ruídos eletrônicos e notas de piano que dosam ou ampliam o pathos da narrativa.



DYLAN INTEIRO

“Let me forget about today until tomorrow” (Deixe-me esquecer o hoje até amanhã), suplica Dylan em “Mr. Tambourine Man”, num dos bons momentos de “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story”, que estrou no último dia 12 na Netflix. Martin Scorsese recria a turnê meio mambembe do artista em 1975, em caravana formada também por Joan Baez, Joni Mitchell,Roger McGuinn e o poeta Allen Ginsberg, com apresentações em pequenas casas e, às vezes, para públicos inusitados, incluindo um asilo de idosos e uma reserva indígena. Ótima pedida. Besteira contestar o Nobel de Literatura de Dylan, pensei, ao terminar de assistir ao documentário, há bastante poesia em sua obra, contando que deem o laurel também a Chico Buarque, atual Prêmio Camões, com mais merecimento. Por falar em Chico, 75 anos completos em 19/06, mais 17 de seus álbuns chegam nesta sexta-feira (21/06) ao streaming, incluindo os belíssimos “Francisco” (1987), “Chico Buarque” (1989), “ParaTodos” (1993), “Chico Buarque de Mangueira” (1997) e “Chico Buarque ao Vivo – Paris, Le Zenith”, de 1990.
 

A CONVERSA

A conversa civilizada é uma antiguidade na era do WhatsApp. Ler e ouvir com atenção são velharias. David Lynch, creio que foi ele, disse que nossa janela para o mundo vai se fechando enquanto envelhecemos. Deve ser assim, pois está uma falta de graça danada por aí, um tédio só num mundo esvaziado de inteligência, ideias e grande criação. Mas, bem sei, sou um desafinado, e nunca importou que os desafinados também têm coração, hahaha. 

BEM-VINDO

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JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.




Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

bacon the sea

Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

Perder a viagem

Fotografar e não ver

A ânsia de registrar cada momento maquinalmente  e exibi-lo por aí
consome a viagem sem que o viajante o perceba. Perde-se a viagem em mil fotografias. É como se o ganho das férias fosse o olhar do outro, e não nosso próprio olhar sobre o outro e a novidade.


Imagens

A viagem não é só a imagem da viagem. É imaginar, imaginação. A imaginação se faz desde a memória e a memória se faz com a leitura.

A viagem ainda é a vivência e o desfrute da leitura.


Retratar e escrever

“Há dez anos quis ir a Santiago e estive ali, naturalmente, não uma vez apenas, senão muitas, mas ao mesmo tempo nunca havia estado na cidade porque não escrevi sobre ela”, diz Cees Nooteboom no capítulo final de El Desvío a Santiago (Ediciones Siruela).

 

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Uma via do Memorial aos Judeus Mortos da Europa (em alemão: Denkmal für die ermordeten Juden Europas), Berlim (2010). Foto de Antônio Siúves.