Anamnese

Um Mark Rothko sem título

Mark Rothko (s/ título)

 

Entre um dado e mil dados,
No correr do sucesso
De fatos e fotos,
Enredado em destroços
Do mundo encapelado
Pós-tsunami do tédio,
Já não me cabia
Entre a dieta e o remédio,
E me desavinha, náufrago,
Na estranha paisagem estilhaçada;

Ousar eu não podia
Interromper a viagem
Na jornada estendida
Que cumprir devia:
Minha nave errou
De rota na galáxia?

Quando a onda entrou,
A padecer de hipóxia,
Sei que desde então
Vago zambo,
Que quando me canso
Paro de supetão
Para um trago,
Ou num breve remanso
De farmácia, entre tantas
Estações que não alcanço;

Que, penso, não importa,
Mas a verdade mais lisa,
É que a vertigem me bate
No limiar da saída,
Ao sucumbir à gravidade
Que antecede a subida.

[15/ "21 Poemas" - antônio siúves - 2016]

 

Acará deus

I
Na água me lavo da nódoa da sensação,
entre algas e ninfeias, a deslizar à toa,
acará do lodo entre a rama e a taboa,
sob a nata ferrugínea que cobre o lagoão.

II

O predador vagarosamente se achega,
seu dorso negro cata fios de sol e voa;
morrer é ondulação que o fundo escoa,
do salto da aranha d’água nada se diga.

III

Dobrada ao penetrar o mundo aquoso,
a luz revela a escuridão que assume
e a mancha da ramagem recebe o lume
do túrbido radiar de vivos e mortos.

IV

Do céu com o orvalho desmaia a ideia,
a película do tempo abre a tela muda
na lâmina glauca de escamas e espumas,
em única sessão de mil fitas sem plateia.

V

O estado de pedra pulsa rubro na carne,
além da morte, aquém da aberrância,
igual na carne pútrida. Vai além do corte
tal perfeição, além do anzol da consciência.

[9/ “21 Poemas”, antonio siúves — 2015]

Black on Maroon 1958 by Mark Rothko 1903-1970

Black on Maroon 1958 Mark Rothko 1903-1970 Presented by the artist through the American Federation of Arts 1968 http://www.tate.org.uk/art/work/T01031

Saberes

Sonho com supercordas.
A um tempo alcanço
O sortilégio em pleno
Supermercado das ideias ideais,
Não sem me surpreender,
É certo:
A suma do saber,
A me apontar a saída final,
Se
Definitiva e categórica;
Sei.

Mas me assanho
E saio ao encalço
Dos mundos de costas
Uns para os outros,
Mundo às avessas;
Busco a travessia
Com a faca matemática
Presa entre os dentes,
Mas não corto ninguém.
Nada de sumo acho,
E nada do caixa, além.

[7/ “21 Poemas” – 2015]

38.1952

Um Mark Rothko (Nº 10, 1950)

Trivial idade

O cheiro de morte
do instantâneo eterno
a cada segundo recende
dentro da lata de lixo.

Selfies em Auschwitz
contam bem a história,
iluminam o Zeitgeist
no refugo da memória.

Qual a nossa idade
que se espraia florida
na abastança da tarde e
no mundo tem guarida?

Nesta batida velhota
deixo aqui meu tributo
ao gran finale do agora
no renascer do minuto.

(3/21 Poemas — 2015)

rothko-chapel

Capela de Rothko em Houston, Texas

Olive Kitteridge

“Olive Kitteridge” foi uma das melhores coisas que vi na TV nesses anos. A minissérie da HBO, com a grande Frances MacDormand e o também grande Richard Jenkins, foi exibida em 2014 e é reprisada de tanto em tanto. Quem assistiu e conhece um pouco da obra e vida de Rothko há de perceber a conexão, no poemeto, entre o drama comum ao pintor e à personagem de MacDormand e a paisagem cinza do porto de uma cidadezinha do nordeste dos Estados Unidos.


(Uma abertura ao meio-dia
fez nevar esta melodia.)

Mrs. Kitteridge quer morrer
Como qualquer dona de visão
Ao tomar na cara sem mover-se
Perdigotos de alta definição.

A ideia do Atlântico no Maine
É faixa cinza a quebrar no oco
Da faixa negra do olhar de Olive
Qual visgo em tela de Mark Rothko.

12/12/2014 – (2/21 poemas – 2015)

Watercolour_Rotko

Aquarela de Mark Rothko

Para o Chico, 70, amanhã

[Atualizado em 08/01/2015]

Em homenagem aos 70 anos de Francisco Buarque de Hollanda, amanhã, entre tantas e tudo mais, deixo aqui um capítulo do meu livro inédito encalhado Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera, cujo título, O Disco da Samambaia, se refere ao LP de 1978.

Creio que o narrado, a influência cultural, literária e artística da alta música popular brasileira, possa ser comungado com leitores que, naquela quadra dos 1970, também não dispunham de muitos livros em casa e viviam em pequenas cidades do interior do Brasil sem muita oferta espiritual além das missas na matriz e quermesses.

Acrescento que o personagem do narrador, ao redor dos 17 anos, nem sonhava que mais tarde, como jornalista cultural, teria a oportunidade de entrevistar Chico por três vezes e escrever sobre seus discos e shows.

Meu Boi Morreu – O último carnaval em Primavera é do gênero ficção autobiográfica, de que muito se fala outra vez, graças ao sucesso do norueguês Karl Ove Knausgård e da série “Minha Luta”.

Aqui, um pouco mais do “Meu Boi…”

Eis o capítulo do livro, em PDF: O Disco da Samambaia.

Para ouvir o Disco da Samambaia: