Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Sobre o futebol, aqui vai uma bola fora, caro Tostão

Futebol

[Texto atualizado em 28/07, com alterações e correções. Na versão anterior, a expressão “idiotia da subjetividade”, em referência a Nelson Rodrigues, estava, idiota e obviamente, invertida.]

Para estufar este filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual/ Compositor (…) — Chico Buarque – O Futebol

Não entendo patavina, mas gosto muito de futebol.

Vejo jogos, copas e campeonatos, acompanho fatos e comentários. Até cair de porre.

Então me afasto para curar a ressaca. Preciso de longa abstinência para regressar aos gramados e aos fantasmas de ontem e hoje que me assediam.

A Seleção de 1970 e a de Telê; Kafunga e Fernando Sasso no Canal 4 estão, por exemplo, em minha fantasmagoria propriamente dita; na de hoje, bola para frente.

O mal vem do mesmo, da repetição em um campo, sociologicamente falando (ver Pierre Bourdieu), incapaz de sair do raso, do decorado, do contratado, do déjà-vu, de um campo (midiático) incapaz de se reinventar.

Há ilhas de refrigério, como o texto de Tostão, inspiração deste post do JS, e a quem volto já, já, antes de chutar esta bola fora do gol ou vê-la bater na trave, o que não dá no mesmo.

Os que botam banca nas bancadas de TV são quase sempre aqueles que também escrevem nos jornais.

Sei que há diversidade, dois milhões de blogs e tal. Mas ninguém é de ferro para ver tudo isso, só o fanático.

Em geral, nossos bambambãs, da ESPN, SporTV e por aí, são superespecialistas em seu domínio, com muita pós-graduação a balizar com recursos técnicos sua opinião e análise de desempenho, e nos oferecer montes de informação inútil.

Com toda a multiplicidade desse ecossistema, neste mundo ordenado por infantes, não há mais lugar para a visão trágica ou lírica do esporte, para um Nelson Rodrigues ou para um Armando Nogueira. Não há vagas para poetas.

Hoje, os dois são folclore. Mas o que Nelson diria do bom Paulo Vinícius Coelho, o PVC (tenho pejo em chamá-lo de epítome da idiotia da objetividade, mas não resisto à tentação; respeito seu esforço incomum como jornalista) ou Armando, da saga de Lionel Messi na Copa América ou daquela funesta tarde de uma terça-feira de 2014 no Mineirão?

Diante de fatos extraordinários, não ouço ou leio, entre nossos superprofissionais, quem revele talento, ousadia, inteligência ou coragem para driblar o lugar comum.

Os astros da crônica se tornaram primas-donas e donos de seus feudos. Acompanhava com agrado muitos deles, até dizer chega!

Além dos que não são meros repetidores ou vão se aposentar tomando coragem para alcançar alguma originalidade, chega dum José Trajano, cuja empatia deixa-se borrar pela esquerdofrenia do militante; dum Juca Kfouri, cuja simpatia se esboroa no bom-mocismo equilibrista sobre o bem e o mal; da crueldade dum Mauro Cezar Pereira, que deu de perseguir o grande sujeito, craque e trabalhador da bola que é Marcelo de Oliveira.

Antes ouvia muito a Itatiaia, desde os tempos de Osvaldo “coragem para dizer a verdade” Faria (1930-2000), até expulsar da minha audiência uma rádio que levou às últimas consequências sua condição de “emissora comercial”.

Digo chega! —na reserva duma nova ressaca— toda temporada, ao infernal moto-contínuo, à logorreia, às frases e gestos e entonação indignada reiterados sobre esquema tático, compra e vendas de craque, desempenho de time e jogador, arbitragem e cartolagem.

Quase que só vejo jogo transmitido por Milton Leite, que tem a graça de não levar o futebol a ferro e a fogo e de dispensar a demagogia. Com Milton, segue o jogo e a autenticidade.

Entre os comentaristas, sou assíduo apenas de Tostão, que, no novo ofício, depois dos gramados e da medicina, se manteve como o melhor ponta de lança entre seus pares da crônica.

Tostão me parece ser o único comentarista adulto, lido e capaz de dizer que o futebol é mais que o jogo. Lê-lo é um alívio para quem não se deixa resumir à condição de torcedor.

Tostão me soa como um  raro comentarista capaz de se expressar sem se parecer um condenado ao presente. É alguém com o dom da memória e que domina o fundamento da memória para qualquer reflexão.

Filho e irmão de grandes cruzeirenses (o clube era uma razão de viver para Alfredo, irmão mais velho), guardo Tostão como a mais rica das taças.

Ao cruzar por ele em um cinema ou rua de Belo Horizonte, sem nunca importuná-lo, algo se revela, algo como aquela “fração do tempo em estado puro” (ou algo assim, cito de memória), de que fala Marcel Proust já no final de sua obra. O homem adulto revive e se revê claramente no passado que, aparentemente, havia perdido, mas que se mantinha encoberto pela percepção, nalgum recesso da alma.

 

Para tudo acabar num pau de vassoura

Arate conceitual

A arte contemporânea reduziu nossa chance de viver uma experiência estética a um cabo de vassoura colorido exposto num museu.

Não importa que você não leve a sério, nas gôndolas da arte contemporânea, no selo “conceitual”, um cabo de vassoura pintado. Tal obra ora se dá à contemplação no novo prédio da Tate Modern, em Londres.

Não importa muito o que você pensa ou sente. A banda da história que lutou para permitir que um cabo de vassoura se pusesse pau a pau com a fina flor da arte ganhou a parada.

Os reticentes são perdedores, reacionários, românticos, mortos-vivos, o que seja. O cabo de vassoura conquistou corações e mentes, vale dizer, o universo.

O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o poeta Ferreira Gullar e o antropólogo e ensaísta colombiano Carlos Granés estão entre os que não se dão inteiramente por vencidos. O JS nem tanto.

Gullar, um crítico de arte que consegue escrever em ótimo português e alcançar a compressão de não iniciados no esoterismo estilístico típico do metiê, vive dizendo isso.

Granés, no livro referencial infelizmente não traduzido no Brasil El Puño Invisible (Taurus, 2011), narra em profundidade, tim-tim por tim-tim, como a trama toda se deu.

A premiação sistemática da estupidez e a instituição do logro permitiram que chegássemos até aqui, ao dia em que um cabo de vassoura pintado não é mais nem menos genial que um Modigliani, um Giacometti ou um Rothko.

Vargas Llosa visitou a bela extensão da Tate. Ele nos conta que se deteve diante do tal cabo de vassoura por longos minutos e acompanhou com interesse os esforços de uma professora inglesa para ensinar a seus pequerruchos como deveriam entender aquele pau de vassoura colorido, conceitualmente. Não deixem de ler a coluna de Mario no El País, é instrutiva e ilustra muito bem a que veio seu altamente recomendável livro A Civilização do Espetáculo.

Os tubarões no formal, a caveira cravejada de diamantes e o borboletário do bilionário Damien Hirst, os urubus que Nuno Ramos fez empoleirar e obrar à vontade na Bienal de São Paulo ou, antes deles, a Merde d’Artista de Piero Manzoni são célebres antecedentes do cabo de vassoura pintado nas cores do arco-íris, conforme a lição de arte de uma criança na Tate, no relato de Vargas Llosa. Outro serelepe, incentivado pela Miss, traduziu a obra com mais propriedade: o artista havia se inspirado no meio de transporte preferido pelo bruxo Harry Potter.

Marcel Duchamp tinha seus motivos para provocar a burguesa e os criadores do seu tempo ao expor o famoso urinol (Fountain). A peça tornou-se uma curiosidade, um ícone dos manuais de história da arte.

Dificilmente o artista poderia antever que o engodo e a velhacaria iriam compor uma trama vitoriosa, perfeitamente burguesa, e gerar a rica indústria atual que artistas, especialistas, curadores, galeristas e turistas aos milhões movimentam no mundo inteiro.

Dizer que tudo é relativo, inclusive a arte, é menosprezar a Relatividade de Einstein, a história da arte e o próprio ser humano. Mas a sabedoria em voga é a sabedoria do establishment, e controla os talões de cheque.

O politicamente correto e o obscurantismo dos “estudos culturais” nos trouxeram até aqui.

A literatura e a verdadeira arte, a própria cultura perderam a centralidade que tinham na educação e em nossas vidas.

Seu lugar foi ocupado pelos dispositivos tecnológicos, pelas redes sociais, pelo Pokémon Go, pelo pau de vassoura da Tate.

A viagem até um editor

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Bilbao, indicações em basco. Foto: Antônio Siúves

 

O JS publica uma novo trecho do Livro de viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural.

Já caíram no jornal os Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença, textos que integram os Souvenirs, na terceira e última parte do volume.

Seguem-se o Plano de Voo, uma apresentação da obra, e alguns excertos dos Diários, com registros de passagens por Bilbao e País Basco, na Espanha.

PLANO DE VOO

“Turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

Terramarear – Peripécias de dois turistas culturais, de Ruy Castro e Heloisa Seixas

Um modo de viajar é coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes e quadros, bem como a motivação e o sentido que cercam a viagem. Em uma época de excursões curtas e facilitadas, o turismo de massa se confunde com experiência cultural. A forma de usufruir essa experiência é que distingue a viagem, como o conteúdo define o viajante.

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro, e o prazer de viajar é a meada cujo fio se pretende puxar para orientar os rumos da conversa.

O objetivo é compartir o que talvez possa se nomear um estilo de viagem dentro do gênero de turismo chamado turismo cultural — com desapego ao conceito acadêmico ou institucional que se tenha da modalidade. Signos, arranjos, vivência e o proveito que se tem antes, durante e depois da viagem são paradas obrigatórias na exploração do assunto.

Espera-se que a leitura seja atrativa para o leitor empenhado em se aperfeiçoar no turismo cultural, mas também para o viajante inveterado. Este haverá de cotejar suas vivências às do autor, e também seus ideais aos dele. Que as rotas, os livros e as obras de arte apontadas, os exemplos e uma ou outra sugestão possam ser úteis a ambos.

O primeiro capítulo cuida de estabelecer um rumo para a jornada, isto é, de assentar o que a viagem pode significar em nossas vidas. O mérito dos preparativos, a importância relativa dos guias e do que se leva por bagagem na prevenção da “síndrome do viajante infeliz” é discutida nos capítulos 2 e 3.

Em seguida, procura-se tratar com brevidade cada marco que define a “arquitetura da viagem”: o tempo ideal para se viajar, o “melhor” meio de transporte, a escolha do hotel, a visitação a museus e a dimensão que a comida e o vinho representam nos dias atuais, se passados pelo filtro da crítica à cultura. O capítulo 11 dá atenção particular aos ritos e peregrinações de um viajante guiado pelo amor aos livros e às artes. Encerra a primeira parte uma reflexão acerca de viagem e memória.

O intuito dos Diários, com extratos de notas de viagem do autor, contidos na segunda parte, é ilustrar ideias e caminhos traçados no livro. Podem ser lidos como rotas, programas testados e highlights das cidades. Algum entusiasmo e algum registro mais íntimo marcam estas anotações.

Os Souvenirs — na terceira parte — reúnem uma reportagem sobre a Rioja, a principal rota do vinho no norte da Espanha, a crônica de um tortuoso episódio de viagem em Florença envolvendo celebridades da literatura mundial e cinco poemas de viagem que equivalem a um diário de bordo.

Referências a obras e sugestões a que se faz menção nos textos podem ser encontradas no final do volume.

Por simples afinidade do autor a remissão a viagens a cidades europeias predominam largamente no livro.

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Estética (Vista de Bilbao). Foto: José Fontán

 

EXCERTOS DOS DIÁRIOS

Bilbao e região, San Sebastián e La Rioja

— Voo agradável a Bilbao (Bizkaia), desde Barcelona, numa manhã de domingo. José e Inês nos esperam carinhosamente. Vamos segui-los de carro até a cidade fria e densa de vapor. Paramos em um mirante com vista para a ría, a cidade, o mar e o verde cerrado no horizonte estético. Ficamos no “opulento”, segundo um guia, Hotel Carlton, graças a uma pechincha de ocasião. Logo a uma ronda de pintxos (tapas) no casco antíguo, a cidade velha, com José, Inês e amigos que nos apresentam, entre eles o queniano Fecade, que é guia turístico aqui. Na feirinha da primeira parada, compro uma edição de bolso de Asesinato em el Comité Central, um das primeiras histórias de Pepe Carvalho, inédita no Brasil. A ronda é nossa via sacra dos anos de faculdade. Vinhos e tapas, tapas e vinhos. Todo o norte espanhol é uma farra para o amante dos brancos, com seus Albariños, Godellos e o indizivelmente genuíno Txakoli, de gosto misterioso como o euskera, a língua basca. —


— José convida o grupo a almoçar a cerca de um quilômetro de onde estávamos, no aprazível Porrue, Alameda de Rekalde, 4. Banqueteamos. Frutos do mar, carne assada e verduras. Depois seguimos para o Guggenheim, bem perto dali. Do lado da alameda,  o Café restaurante Bosta (cinco em euskera). —

 

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O café bilbaíno (cinco, em português). Foto: Antônio Siúves

— Álacre embriaguez. Álegres reflexos do sol da tarde aquosa sobre as chapas de titânio do Guggenheim. Minha tontura não é suficiente para tornar interessante o Puppy florido de Jeff Koons, postado como gigantesco pet de guarda do Guggenheim. Do outro lado uma aranha de Louise Bourgeois, velha conhecida de bienais de São Paulo. José, sempre gentil, havia nos conseguido as entradas. Joseph Beuys e sua cracas no primeiro piso, acolá paredões de aço recurvos de Richard Serra. Arte e entretenimento, arte-ostentação neta de Andy Warhol. Então resolvo entrar na brincadeira pós-pós. Emito alguns sons dignos de Neandertais para ouvir os ecos que ressoam entre das chapas de Serra. Uma monitora vem me chamar atenção. José, por perto, me socorre e diz a moça para ir cuidar de turistas sóbrios menos inofensivos. —

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Puppy, obra de Jeff Koons ao redor do Museu Guggenheim Bilbao. Foto: Paulo José Ribeiro Teixeira


— José me apresenta um artista digno do renome que desfruta, o escultor basco Eduardo Chillida. Seu Consejo al espacio V me lembra nosso Amilcar de Castro, seu contemporâneo e confrade na arte de interpretar recriar o espaço. A escultura em bloco de alabastro Lo profundo es el aire é eloquente e sensual.  —


Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha

Um Mark Rothko, do Guggenheim de Bilbao, País Basco, Espanha

— “As pessoas que choram diante dos meus quadros têm a mesma experiência religiosa que eu experimentei”, disse Mark Rothko.  Na tela sem título pintada entre 1952-53, bordas alaranjadas entre fresta de vermelho esmaecido conformam barras amarelas em semitons sobre uma terceira barra, na base, menos larga, em vermelho sangue sobre o amarelo evidente. A liberdade airosa e seu limite horizontal. —


— Impressionado e deliciado com o metrô de da cidade, projetado por Norman Foster. Forma marcada por elegância e beleza e função combinados com ousadia para dar à cidade mais um dos atrativos que a colocam no circuito planetário do turismo cultural. Penso que por esse tempo Bilbao já tenha superado as dores do polo industrial que, em decadência, deu lugar ao nascimento da nova cidade forjada, como também superado o cisma cultural criado pelo Guggenheim, seu centro de gravidade miliardário. A Bilbao atual será a síntese desse movimento. —


— Na tarde seguinte, José nos leva à melhor a cidade. Vamos pela margem direita da Ría, com a vista do centro de indústria naval do outro lado — veem-se armadores, gruas, antigos fornos siderúrgicos de Vizcaya. Em Getxo, o amigo nos mostrou a ponte colgada. Caminho até o belo monumento ao engenheiro Evaristo de Churruca y Brunet, que projetou a transformação do porto de Bilbao. A escultura de Miguel García de Salazar representa a peleja entre o homem e Netuno pelo domínio do mar (nada disso sabem dos portugueses? ora pois). Ainda em Getxo, José nos faz ver as residências aristocráticas do bairro de Neguri, na direção da praia de Ereaga até o Puerto Viejo de Algorta. Paramos num pequeno bar cravado na encosta onde vivem pescadores, para um aperitivo. Comemos percebes e outros bichos marinhos de aspecto extraterreno. —

Etarras editado

Os dizeres, em euskera, ou basco, pedem que os prisioneiros condenados do ETA cumpram suas sentenças no território pátrio.

— Na manhã seguinte, saímos de Bilbao rumo a San Sebastián pela autoestrada. Na parada em um posto de gasolina, José me aponta as montanhas do Duranguesado e o Amboto, refúgio da deusa Mari. “É o monte sagrado dos bascos presidindo a paisagem”, ele diz. —


— Nos desviamos em direção a Amorebieta-Gernika e passamos ao largo de Guernica. “Guernica foi bombardeada pelos alemães a serviço de Franco por ser símbolo da imemorial democracia e organização política das cidades (aldeias) bascas”, comenta José. —


— Depois de percorrer a margem esquerda da Ría de Guernica, também chamada Ría de Mundaka, na reserva ecológica de Urdaibai, paramos à frente num alto de estrada para apreciar a linda praia de Laga, de areias acobreadas com a maré baixa. Dali, avistamos o cabo Ogoño e o mar Cantábrico profundamente verde. —

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Praia de Laga, na na reserva ecológica de Urdaibai, País Basco. Foto: Antônio Siúves


 

— Depois de franquear o cabo Ogoño, paramos no povoado de Elantxobe; com o céu semiaberto, passeamos em meio aos espigões do porto. Estacionamos em seguida em Lekeitio, outro povoado onde predomina o euskera. Em uma varanda do porto, pedimos uma roda de pintxos e Taxkoli para reassentar o coração. —


— Com “el mareo de las chicas”, como José se refere às irmãs enjoadas no trajeto curvo da estrada, adiantamos o percurso até Getaria, perdendo a oportunidade de conhecer outras aldeias onde raramente vão turistas: Ondarroa, Motriko, Deba, Zumaia, lista o bom José, também desolado. —


— Em Getaria, perto do porto, comemos no espaçoso restaurante Mayflower. Sopa de peixe, bochechas de merluza e outros pratos simples e ricos da cozinha espanhola. Nada cai melhor em um dia frio que uma boa sopa de pescado. O prato é reconfortante e inspirador.  Com vinhos Txakoli e Albariño, a conta dá cerca de 40 € por casal. Pagaríamos quatro vezes isso no Brasil, por pura pretensão dos senhores chefs, além do mau hábito da clientela. Isso me lembra Mark Rothko, que gostava de comida chinesa, dizer, à época de sua malgrada comissão para o Four Seasons, que achava indecente alguém pagar mais de US$ 5 por uma refeição. —


— Ni neu = nem eu; norekin = com quem. —


— Herri mina equivale à nossa saudade. —

 

Anamnese

Um Mark Rothko sem título

Mark Rothko (s/ título)

 

Entre um dado e mil dados,
No correr do sucesso
De fatos e fotos,
Enredado em destroços
Do mundo encapelado
Pós-tsunami do tédio,
Já não me cabia
Entre a dieta e o remédio,
E me desavinha, náufrago,
Na estranha paisagem estilhaçada;

Ousar eu não podia
Interromper a viagem
Na jornada estendida
Que cumprir devia:
Minha nave errou
De rota na galáxia?

Quando a onda entrou,
A padecer de hipóxia,
Sei que desde então
Vago zambo,
Que quando me canso
Paro de supetão
Para um trago,
Ou num breve remanso
De farmácia, entre tantas
Estações que não alcanço;

Que, penso, não importa,
Mas a verdade mais lisa,
É que a vertigem me bate
No limiar da saída,
Ao sucumbir à gravidade
Que antecede a subida.

[15/ "21 Poemas" - antônio siúves - 2016]

 

Acará deus

I
Na água me lavo da nódoa da sensação,
entre algas e ninfeias, a deslizar à toa,
acará do lodo entre a rama e a taboa,
sob a nata ferrugínea que cobre o lagoão.

II

O predador vagarosamente se achega,
seu dorso negro cata fios de sol e voa;
morrer é ondulação que o fundo escoa,
do salto da aranha d’água nada se diga.

III

Dobrada ao penetrar o mundo aquoso,
a luz revela a escuridão que assume
e a mancha da ramagem recebe o lume
do túrbido radiar de vivos e mortos.

IV

Do céu com o orvalho desmaia a ideia,
a película do tempo abre a tela muda
na lâmina glauca de escamas e espumas,
em única sessão de mil fitas sem plateia.

V

O estado de pedra pulsa rubro na carne,
além da morte, aquém da aberrância,
igual na carne pútrida. Vai além do corte
tal perfeição, além do anzol da consciência.

[9/ “21 Poemas”, antonio siúves — 2015]

Black on Maroon 1958 by Mark Rothko 1903-1970

Black on Maroon 1958 Mark Rothko 1903-1970 Presented by the artist through the American Federation of Arts 1968 http://www.tate.org.uk/art/work/T01031