Tudo que é sórdido fica no ar

Jurupoca #36 — desde o Belo. 21 a 27/8. 2020 — Nº 36, Ano 2



Último credo – Augusto dos Anjos
 
Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro — este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
 
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
 
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui ...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

 
Budismo moderno – Augusto dos Anjos

Tome, Dr., essa tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo meu coração, depois da morte?!
 
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca destra forte!
 
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Este é o sexto de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). Domingo passado, o crítico de arte e cinema Donny Correia comentou no Estadão o livro Augusto dos Anjos: Um moderno entre os “ismos” (Desconcertos). Este ensaio de Del Candeias distingue o poeta paraibano  em sua época e detecta a força subterrânea de seu legado no modernismo  nascente.   

 

Luis Egidio Meléndez, Natureza-morta com salmão, limão e três vasilhas, 1772, óleo sobre tela, 41 X 62.2 cm (Museu do Prado). Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons. Este juropoco é freguês do gênero de natureza-morta com comida e tralha de mesa e fogão a que os espanhóis chamam bodegón. A soberba composição em v de Meléndez é obtida pela colher de cabo comprido, ao fundo. O texto de referência do Prado lembra que esse utensílio sublinha o limite do fundo da tela, e ajuda ocultar o plano que sustenta o conjunto. 

Opa! Vamos apear?

Você há de concordar que esta Jurupoca® é uma publicação singularíssima, como a pessoa do poeta Augusto, se a leitora e o leitor (os dois que tenho) se deram ao desfrute de ler o soneto acima. Então, leitor, leitora, tomem esta tesoura e corte…

Ora, um jornalista precisa se mover, dizer a que veio, ou vá criar galinhas! A isso não pude me entregar, à criação de galinhas, desgraçadamente. Uns bichos tão simpáticos!, preferidos de minha mãe. E adoro um ovinho frito com arroz.

O verão quando cai em agosto me deixa assim, filosofante, a cismar se o mundo ainda existirá quando eu reabrir os olhos…

Cuido nessas horas, como o dos Anjos, do nous (razão, intelecto, espírito dos gregos), do pneuma (o sopro da vida), do sum qui sum (sou quem sou). O último sendo quase um K-Suco.

Bom, que cantilena é essa?, meus dois leitores estarão a se indagar, estupefatos, e, com toda certeza, a citar o Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdestes o senso!”

E eu vos direi, no entanto, que, sim, peralá, buscava, apenas, meio sem jeito, com cuidado e vênia, uma forma de te pedir que pense em contribuir com a publicação desta carta singularíssima.

É um trabalho diário que consome dias e noites, e único!

Assine a Ju! Vamos lá, anime-se! Você define um valor mensal e a data da contribuição.

Sugestões? R$ 18, R$ 25, R$ 30, R$ 40, R$ 55, R$ 78, R$ 100! O que puder, quando puder.

A Jurupoca® está na estrada, sob sol e poeira, como cantam todas as canções mineiras, há pouco mais de um ano. E atravessa outra crise de identidade, acredite! É assim, sempre que sobe o preço do queijo e da goiabada, ou vence o GPS, o guia da previdência social.

Aos diabos as crises!, bem sei. Ou vai ou racha. Entregar a rapadura, nunca!

Então vamos todos cantar, tralalá, tralalá, trololó, trelelé… Eta ferro! Pra que tanto aço?

Reelaboradas as linhas acima e com algum esforço, quem sabe, eu teria escrito meu segundo poema nonsense na vida. Tenho apenas um, incrível!

Unzinho em décadas, uma baladinha de longa data, bonitinha, reconheço. Diz assim: 

un deux trois (revisitado) 

Para Moreira e Roberto

Eram Guso, Poderval, Sussanho*
Cada cão do seu tamanho
Entre outra e uma colherada
Duma divina marmelada.

Produziam um manifesto
Cujo teor era o protesto
Contra os homens sem pescoço

Nascidos todos do fosso
Ladinos feito cavalos
Mas excelentes dançarinos! 

(*) Os pastores alemães do Estorvo, romance de Chico Buarque 

  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?  


“[Mandei] a esse estado maravilhoso aqui, mesmo sem comprovação científica, mais de 400 mil unidades de cloroquina para o tratamento precoce da população. Eu sou a prova viva de que deu certo. Muitos médicos defendem esse tratamento. E sabemos que mais de 100 mil pessoas morreram no Brasil. Caso tivesse sido tratado, lá atrás, com esse medicamento, poderiam essas vidas terem sido evitadas. E mais ainda: aqueles que criticaram a hidroxicloroquina não apresentaram alternativas”.

¡Caveirão.38! discursando em Belém (13/8), a revelar, na clareza e destreza de seu português Cro-magnon, a esmerada educação que recebeu do Exército

Além da cloroquina, ¡Caveirão.38! é a prova viva de que…

  1. … o crime recompensa.
  2. … tudo que é sórdido fica no ar.
  3. … a boçalidade se transmite sexualmente.
  4. … a verdade foi à merda, de onde vieram as guerras de narrativas.
  5. … Stálin estava certo: “Uma única morte é uma tragédia. Uma milhão de mortes é uma estatística.”
  6. … Deus, Pátria e Família seguem a encobrir as piores depravações.
  7. … Ivan Lessa estava certo: “De uma forma geral, só temos uma coisa a temer: a coisa de forma geral.”
  8. … a ciência ainda não explica certas subespécies de nossa pobre espécie.
  9. … a Bossa Nova ainda não é foda (sinto muito, Caetano). Foda é a civilização do alho com vinagre e do mata-piolho contra o Corona.
  10. … estamos fodidos!

 
Caetano e ¡Caveirão.38!

Esta Ju quase perde uma boa querela intelectual, sô. Ângela Alonso, socióloga da USP e pesquisadora do Cebrap, fez uma graça sociológica no Dia dos Pais. O título da Folha até que saiu certinho: Famílias de Bolsonaro e de Caetano Veloso se enraízam em paralelas históricas. O artista baiano de Santo Amaro e o ex-militar de Glicério — conforme a doutora — legam aos filhos “seu bom lugar no mundo: o patrimônio imaterial, redes de relação que catapultam e protegem, e o monetário, tangível, que será literalmente herança”. Noves fora o resto, teriam, as duas famílias, tal sina comum nos entreatos de nossa desigualdade. Já pra negros e pobres, sem eira nem beira, como o entregador Matheus Barbosa, Ângela martela: neca de catapulta paterna. É nascer e morrer no mesmo sem lugar, e manter uma existência de distanciamento social, ela arremata. Eta nós! Viva a falsa equivalência! Tem tese boa que voa e esboroa como pombo de asa partida. Sim, herdam capital cultural as duas famílias, mas quanta diferença no capital cultural, madame. Viver melhor, sim, claro, quem herda não furta, ou não deveria precisar disso, hehehe. Mas filho de artista e futebolista raramente emplaca sem talento, e muitas vezes a sombra paterna atrapalha, sim, senhora. ¡Caveirão.38! e sua progênie prosperaram nas brechas sujas do sistema, e na prodigalidade do erário com o funcionalismo estatal. São conservadores da nossa vergonha. Seu legado é isso daí, um país constrangido e apequenado; feio e infernizado. Enquanto isso Caetano ajudou os filhos a subir na vida, pois sim, acontece pacas. Mas não terá feito o mesmo pra um país inteiro e sua cultura, sua educação musical, tais “patrimônios imateriais”? Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo). Pessoalmente, posso dizer que subi na vida ou melhor, vivo melhor graças a cada um de seus discos e canções. Mas deixo a palavra final para o leitor que comentou ao pé do artigo: “Sim, toda família transmite capitais para seus membros. A de Caetano não tem nada de especial. Isso acontece na de cientistas políticos uspianos”, casquinou Igor Machado. “Não é um fenômeno só da periferia do capitalismo; está lá nos países centrais. Com esse grau de generalidade qualquer família está em paralelas históricas com a de Bolsonaro. Mas o familismo dele se dá com desvio de dinheiro público. Patrimonialismo, portanto. Essa diferença não é um detalhe para fazer a analogia desejada. E, cá entre nós, nesse momento?”. Tomou, papuda?

Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo)


A grande arte que canta

“Poeta do encontro” foi como Otto Lara Resende definiu Caetano, em uma crônica de 1992, em que situa cantor e compositor santo-amarense como inclassificável. “Ficou para trás o tempo em que se podia espetar os artistas como insetos”, anotava. “Caducas as classificações”, a arte de Caetano “aniquila toda e qualquer discriminação”, celebrava Otto. “Exaltada aqui dentro, repercute lá fora. A música lhe dá dimensão internacional. […] A poesia de fato nunca esteve divorciada da expressão popular. Manuel Bandeira tirava o chapéu, respeitoso, para Sinhô, Pixinguinha, Noel”, lembrava o cronista mineiro. A propósito, Otto nos conta que fora testemunha “ocular e auditiva” da vez em que Bandeira ouviu, em casa, João Gilberto tocar a famosa batida de violão, e ficou extasiado. Caetano representava o fio puxado, o abre-alas, a metabolização “da grande arte que canta”, tradição que Otto remetia ao fim do século 19 e ao Corta jaca, música de Chiquinha Gonzaga que a primeira-dama de Hermes da Fonseca, dona Nair de Tefé, impunha nos saraus do Palácio do Catete, a despeito dos maus bofes do maridão.


O rico mercado da lacração

O professor Wilson Gomes, da UFBA, escreveu para a Ilustríssima uma aguda análise acerca do linchamento digital da antropóloga Lilia Schwarcz. Sim, ainda o tal episódio da crítica de Lilia (Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha) publicada na mesma Folha. Wilson observa a guerra que se trava pelo poder cultural nas redes sociais, ou pelo “mercado epistêmico”, como nomeia a coisa. “Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital”, deduz. “É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia”, conclui o autor de Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa (Paulus). “Um capital que depois vai render no mercado de palestras, livros, produtos culturais, posições acadêmicas, convites internacionais, empregos na mídia, cargos públicos e autoridade tribal”, especifica. Wilson chama de “filofascismo” o negócio de mandar “calar a boca” quem nos contradiz, ou de não admitir que um crítico, por ser branco ou amarelo, não possa avaliar a obra de um negro lançada na indústria cultural.  O professor, um afrodescendente, por sinal, ou estaríamos vivendo o fim dos tempos,  ainda lamenta que os antifascistas da esquerda, por cumplicidade, não se oponham à selvageria digital.

“Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital. (…) É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia.”

Wilson Gomes, na folha de s.Paulo



Em prol do cancelamento

Se você consegue entender os argumentos de um defensor da “cultura do cancelamento”, parabéns. Está pronto pra debulhar a metafísica hegeliana e a mecânica quântica, juntas, tomando psicanálise lacaniana no desjejum. O jornalista Paulo Roberto Pires é editor da Serrote, revista que ele tanto fez, tanto fez que conseguiu rebaixar a um manual da correção política e a uma bula do progressismo. Depois de recrutar acadêmicos europeus (ver o ensaio Ofendidinhos, de Lucra Lijtmae, na Serrote #33), agora ele próprio se escala, como colunista de outra publicação, a Quatro Cinco Um, no papel de guarda da cancelação. “Vale tudo para demonizar, indistintamente, quem participa do debate público sem beija-mão ou rapapés — e vitimizar a priori quem é admoestado no conforto da aprovação”. Revelando-se insuspeitável alquimista, Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

Paulo Roberto Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

JURUPOCA #36

Nara LEÃO (Nara Lofego Leão, Vitória, ES, 1942 – Rio de Janeiro, RJ, 1989) CANTA Fez bobagem, de Assis Valente (José de Assis Valente, Santo Amaro, Bahia, 1911 – Rio de Janeiro, RJ, 1958).

O IMMuB registra 31 fonogramas dessa música. Elza Soares, Ana Martins, Isaurinha Garcia, Verônica Ferriani e Marcia gravaram ou interpretaram o samba, pra citar algumas dessas gravações.

Seu lançamento coube a Aracy de Almeida, em março de 1942, num disco de 78 rpm, acompanhada por Luiz Americano e Seu Regional.

Valente a compôs depois de tentar se matar, mais uma vez. Pulara do morro do Pão de Açúcar e sobrevivera. Uma galhada de árvore detivera a queda.Já na quinta tentativa ele conseguiu, ao recorrer a uma tisana de guaraná e raticida. Seu corpo foi encontrado no banco de um playground da praia do Russel, no Rio, onde crianças se divertiam.

O artista viveu dos ofícios de desenhista e protético, além de compor e, por vezes, vender sambas. Casou, teve uma filha, mas gramava com dívidas e, supostamente, com a homossexualidade reprimida. A biografia Quem samba tem alegria (Civilização Brasileira), do jornalista Gonçalo Junior refuta a homossexualidade. O autor sustenta que a cocaína e a depressão arruinaram sua saúde, e por fim o mataram. 

Favorito de Carmem Miranda, por quem fora carnalmente apaixonado, conforme Gonçalo Junior, compositor e letrista excepcional, Assis Valente (ai vai de novo minha playlist) é um gigante trágico, como outros que fulguram na história da canção brasileira. 

Fez bobagem surgiu no cantar de Nara Leão no LP da Philips Coisas do mundo (1969), faixa B2. O vídeo enlaçado no começo da nota, de acompanhamento um pouco menos cadenciado que o primeiro registro, é do álbum Nara rara (Universal, 2013), CD de compilações. 

A versão de Nara, me parece, é a que melhor e mais belamente alcança e transmite a ingente delicadeza desse samba feminino, na tradição romântica trovadoresca que Chico Buarque herdaria na MPB.

“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver…” é dos versos mais singelos e cortantes de nosso cancioneiro. E muito bem arrematados na estrofe: “Não dá jeito de cantar/ Dá vontade de chorar/ E de morrer”. E que tal “Deixou que ela desfilasse na favela como meu peignoir”? 

Fez bobagem me pegou no nous quando a ouvi na voz de Caetano Veloso. Aparecia mais pro final de uma preciosa sequência da série documental Caetano, 50 anos, dirigida por João Moreira Salles e exibida na TV Manchete em 1992 (pule no vídeo para 20′).

Ali pelo vígesim0 minuto, Caetano dá uma aulinha inesquecível sobre a grande tradição da MPB

Caetano enfileirava sucessos de Monsueto Menezes, Herivelto Martins, Custódio Mesquita, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Pixinguinha e Assis Valente, em comovedora celebração dos mestres predecessores.

Como João Gilberto, Caetano é um renovador da tradição e um notável divulgador do cânone que ele próprio integra.

Fez bobagem – Assis Valente
 
Meu moreno fez bobagem
Maltratou meu pobre coração
Aproveitou da minha ausência
E botou mulher sambando no meu barracão

Quando eu penso que outra mulher
Requebrou pra meu moreno ver
Nem dá jeito de cantar
Dá vontade de chorar
E de morrer

Deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir
Minha sandália de veludo deu a ela para sapatear
E eu bem longe me acabando
Trabalhando pra viver
Por causa dele dancei rumba e foxtrote
Para inglês ver 

Discaço!

É da cantora italiana Barbara Casini (que canta em português com grande naturalidade, de timbre assemelhado ao de Joyce), a iniciativa e o dinheirinho que resultaram no ótimo Viva eu – As canções brasileiras de Novelli, álbum em parceria com Toninho Horta, que entra com seu violão originalíssimo e vocais. O instrumentista e compositor pernambucano Djair de Barros e Silva, o Novelli, apelidado assim em uma alusão à Nouvelle Vague, é lembrado mais por seu profícuo contrabaixo (embora também seja pianista), presente em centenas de gravações, virtualmente de toda a elite da MPB. Amigos e parceiros comparecem como convidados: Chico Buarque, Danilo Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Ilessi, Joyce Moreno, Luiz Cláudio Ramos e Nelson Angelo. Novelli,  hoje com 75 anos, também é autor de uma obra pequena e distinta, quase sempre com parceiro letristas, que é pouco conhecida. Sua discografia autoral se resume a três e sólidos álbuns: Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (Odeon, 1973), Nana, Nelson Angelo, Novelli (Saravah, 1975) e Canções Brasileiras (Maracatu,1984). Pode-se dizer que a presença de Toninho deu uma maneirada, ou amineirada, na ambientação sonora, no clima do disco, sem falar que Novelli é sócio fundador do Clube da Esquina. As gravações, que contaram com o guitarrista italiano Giuseppe Fornaroli, ocorreram Rio, em março de 2019, sempre com o homenageado no estúdio. Destaco (se é pra destacar) Linha de montagem (Novelli e Chico), composta por encomenda do diretor Renato Tapajós para a abertura do documentário homônimo de 1981, sobre as greves dos metalúrgicos do ABC Paulista; Reis e rainhas do maracatu (Novelli, Milton Nascimento, Nelson Angelo e Fran), lançada por Simone no álbum Face a face (1977), aqui com participação de Edu Lobo; ou Toshiro (Milton e Novelli) originalmente faixa do LP Clube da Esquina 2 (1978). Minhas preferidas, nel mio core, são Minas Gerais (Novelli e Ronaldo Bastos), do vinil Geraes (1976), de Milton, e a penetrante Sem fim (Novelli e Cacaso), que abre o disco homônimo e terrivelmente triste de Nana Caymmi (EMI, 1979), dividida agora com Danilo Caymmi.


Quem é Barbara Casini

A florentina Casini é vidrada na música brasileira e uma especialista nesse repertório em palcos italianos. Percorreu o Brasil em primeira viagem pra escrever o livro Se tutto è musica – Pensieri e parole dei compositori brasiliani (Angelica Editore), ou Se tudo é Música – Pensamentos e palavras de compositores brasileiros, lançado em janeiro de 2012. Entre os 18 personagens do livro estão Gilberto Gil, Guinga, Dori Caymmi, Nana Caymmi, Edu Lobo, Novelli, Egberto Gismonti, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Miúcha, Chico Buarque e Hermeto Pascoal. Ano passado, na época das gravações de Viva eu, Barbara foi entrevistada e se apresentou em sessão produzida pela Rádio Batuta, no IMS. Seu novo disco, de 15 faixas, foi lançado na Itália em junho pela editora Encore, e possivelmente terá versão nacional.


Sai Novelli entra Jup do Bairro

Viva eu – As canções brasileiras de Novelli está no YouTube há pouco mais de dois meses. Mas o álbum começou a ser divulgado pra valer esta semana. Até a tarde de ontem, os leitores da Folha e do Globo interessados não tinham lido uma linha a respeito. Esses e outros veículos majoritários se tornaram redutos, e com notória e hipócrita condescendência, daquilo que for relevante às causas identitárias e raciais, que dão mais cliques nos aplicativos. A MPB foi rebaixada, e assim, uma tradição de cento e tantos anos cultivada em todo o planeta. Nesse período, pela Folha, soube, entre outros artigos na mesma linha, do lançamento da música Pelo amor de Deize, ao ler na capa da Ilustrada a reportagem Jup do Bairro se descola de Linn da Quebrada em disco com pegada roqueira, com o subtítulo “Álbum-manifesto de cantora que se firmou como referência LGBT traz composições sobre sexualidade e depressão”. Saiu também no britânico Guardian, por sinal. Ouvi Pelo amor de Deize no Spotify. Achei bacana a batida, a voz de Jup e sua mensagem sobre o flagelo da depressão. Mas não é minha praia. Estaria tudo bem, claro, não vivêssemos numa época em que uma capa do jornal dedicada ao disco de Novelli não fosse tachada “elitista”. É quase impensável hoje em dia. Mas a Ilustrada é, você bem sabe, um ex-caderno de ex-cultura, e o mundo é o mundo. Sem falar, claro, que ainda há no pedaço esta Ju a quixotear contra moinhos de vento do Vale do Silício, e sem Sancho pra chamá-la à realidade!


 Sá & Mehmari

Saíram bonitas as versões, apresentadas ao vivo, nessa terça e quarta-feira, de Parados (Chico Buarque, 1993), e O que tinha de ser (Tom Jobim e Vinicius de Morais, 1959) e Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque, 1968), com Roberta Sá e André Mehmari. O duo havia mostrado o mesmo repertório, pré-gravado, no início do mês, na edição do Festival de Inverno da produtora Dell’Arte. Incluía ainda um quarto número, Por baixo (Tom Zé, 2015). Deve nascer disso, tomara, EP ou álbum. Mehmari, que tem um disco dedicado a Ernesto Nazaré, entre tantos registros, talvez seja o pianista mais atuante e criativo em atividade no país. Ele também compõe e se mostra inclassificável como músico. Destrincha e recria melodias com grande destreza e autonomia, cita frases de alguns dos compositores celebrados em Paratodos, e encontra variações em Sabiá distintas de sua execução na faixa com essa canção do esplêndido André Mehmari,Ná Ozzetti – Piano e voz (2014). E já que estamos no embalo, e no Youtube, veja e ouça Roberta Sá e Chico mandarem deliciosamente Mambembe, acompanhados pelo altivo sete cortas Marcello Gonçalves, num vídeo de 2011.

No sete cortas, o maestro Marcello Gonçalves.



«Marxista negro tem palestra cancelada ao colocar classe acima de raça e enfurecer socialistas americanos. Do NYT em O Globo.»

«Como não temer a morte. No Aeon, em inglês.»

«As pessoas estão usando as ferramentas de busca do Facebook e Instagram. Durante a pandemia isso é perigoso. NiemanLab, em inglês.»

«Aventura em busca do melhor café do mundo. El País, em espanhol.

«Mario Vargas Llosa: Rumo à Estação Finlândia. Fundação Astrogildo Pereira.»

«Canal no YouTube reúne cerca de 400 filmes brasileiros para ver totalmente de graça. Huffpost Brasil.»

«TikTok: O baile por dominação digital global — Revistas Anfibia, em espanhol.»

«No forrobodó do balacobaco — As muitas vidas de Sara Winter, a extremista de ideias zigodátilas. Piauí.»

«O clarinete vai bem, obrigado — programa A volta ao jazz em 80 mundos, por Reinaldo Figueiredo. Rádio Batuta.

«Fotos recriam última refeição de condenados à morte nos EUA. BBC Brasil.»

«Hidroxicloroquina: um conto moral: Uma surpreendente investigação sobre como uma droga conhecida e barata se tornou um futebol político em meio a uma pandemia. Na Tablet, em inglês.

«Dharma americano: a outra cara de Steve Bannon. Na Letras Libres, em espanhol.»  

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Dois poetas que somam 170 anos se mantêm unidos por uma querela

Rusga entre Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos com 85 anos,
em torno de Oswald de Andrade e de um almoço ocorrido
ou não no Rio de Janeiro, há 61 anos,
tem novo e delicioso round, para espanar nossa pasmaceira cultural

Gular augusto

Fotos: Fernando Frazão e Valter Campanato/Agência Brasil

 

Os dois poetas até se deram durante alguns anos, antes de as estéticas concretista e neoconcretista separá-los, ainda nos anos 1960, um no front carioca, outro no paulista.

Mas outra querela tem unido os ex-amigos e poetas Ferreira Gullar e Augusto de Campos.

A rusga remete a um suposto almoço dos dois na Spaghettilândia, no Rio de Janeiro, no longínquo 1955.

No encontro, negado por Augusto, Gullar teria convencido seu então camarada da real grandeza de Oswald de Andrade, à época em desgraça no meio intelectual, visto como um irresponsável e mau-caráter.

A contenda começou na própria Folha de S.Paulo, cinco anos atrás, com réplica, tréplica e inclemente pancadaria, sobretudo da parte de Augusto, que sempre teve o gosto por se digladiar com seus desafetos na praça pública da imprensa, entre eles o também poeta Bruno Tolentino (1940-2007).

Em 2011, Ruy Castro se divertiu com o arranca-rabo entre os dois vates, e, por coincidência, há um mês o grande biógrafo de Garrincha, Nelson Rodrigues e da Bossa Nova recordou a pendenga e até se propôs a  intermediar a paz entre eles.

A última frase do seu texto era premonitória: “Eu sei, as diferenças são muitas, mas seria fascinante vê-los fazer as pazes. Nem que fosse para logo voltarem a brigar”.

Pois voltaram, Ruy, para espanar a pasmaceira cultural vigente.

A disputa foi retomada no último domingo, no mesmo jornal, por uma nova menção de Gullar, em sua coluna, ao célebre almoço no restaurante ainda aberto na Cinelândia, no Centro do Rio, seguida de dura réplica de Augusto, publicada hoje.

Digo de passagem que fazia tempos que a Ilustrada, caderno cultural da Folha de S.Paulo, não lembrava o que foi um dia.  Diluída, guiada pelo farol da esquerda e da correção política, meio perdida entre o Punqui e o Funqui, hoje raramente consegue açular uma boa troca de sopapos retóricos entre pesos pesados da cultura, o que em suas páginas já foi quase um subgênero do jornalismo cultural.

Pois o busílis da escaramuça Campos/Gullar paira em torno de quem redescobriu e revalorizou primeiro a grande obra de Oswald de Andrade; em torno do que Augusto pensa que falou e o que Gullar teria dito e vice-versa.

A crônica de Gullar, que sempre acerta quanto foge à política, seara na qual soa óbvio e monótono, trata poeticamente de seu único encontro com Oswald.

Ele acabara de publicar, à própria custa, nos conta, o livro A Luta Corporal. No dia do seu aniversário de 1954 estava em casa de uma namorada e aparece para abraçá-lo ninguém menos que o autor de Serafim Ponte Grande, que não apenas rasga elogios a A Luta Corporal, como promete que promoveria a obra em um curso que daria em Genebra, na Suíça, ainda naquele ano. Oswald morreria em São Paulo, no mês seguinte.

Depois de narrar a bela passagem é que Gullar menciona o dito cujo, o tal almoço na Spaghettilândia e a recomendação que teria feito a Augusto para que este relevasse suas restrições a Oswald.

Campos não passa recibo, como se sabe. Novamente, tratou de rebater duramente a versão de quem um dia abraçara e atribuir tão somente a si e aos concretistas de São Paulo, mais uma vez, a redenção do autor de O Rei da Vela.

“ONDE CHUCHA SEU CHAZINHO”

Campos atribui a reminiscência de Gullar à “senilidades politicoides” do  velho desafeto e, mais à frente, a seu “memorioso formigueiro mental”; no final, condena-lhe por ter cedido às glórias terrenas da Academia Brasileira de Letras, “onde chucha seu chazinho bem remunerado com Sarney, FHC, Marco Maciel e até um golpista da TV Globo, entre outros espantalhos imortais da nossa literatura”.

O “golpista da TV Globo”, como todo mundo sabe, é o jornalista Merval Pereira.

Augusto, como todo mundo também sabe, é petista de coração. No ano passado, esteve com Dilma no Palácio do Planalto, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, revelando ali a que ponto pode chegar um antigo cavaleiro das vanguardas artísticas planetárias —alguém que ainda jovem se autoaplicara na tradição dos criadores inventores, do “make it new” (fazer o novo) de Mallarmé/Joyce/Pound/Cummings, como ele próprio os enfileira no artigo de hoje— especialista na arte de recusar o que é fácil, popular e estabelecido pela Inteligência cultural.

DE UM LADO DA BRIGA

Como se vê, este comentarista tem um lado nesta briga.

Sim, a reação de Augusto —um imperioso, dado a invectivas cheias de neologismos exibicionistas— sempre me pareceu desproporcional, excessivamente dura contra o sempre polido Gullar, alguém incapaz de “insultar” quem quer que seja em seus textos.

“Em suma, por que [Gullar] sempre insultou os poetas paulistas?”, Augusto se pergunta em sua nova réplica, para, em seguida, se permitir rebaixar o oponente: “Que seu ‘neo’ [referência ao neoconcretismo], cercado de uma pequena corte de subpoetas, hoje esquecidos, foi incapaz (…).”

Augusto tem o hábito de referir-se a si próprio, ao irmão Haroldo (1929-2003) e a Décio Pignatari (1927-2012), como uma espécie de Trindade. A despeito da viva afinidade que houve entre os três, isso é mitificar a história e se valer de testemunhas que não estão mais neste mundo.

Décio era o mais simpático dos três, um criador erudito, alegre e profuso, a quem devo a ótima expressão “esquerdofrenia” , entre muito mais, alguém que jamais se curvaria diante de sicários do estado democrático.

De Haroldo diga-se que sua melhor poesia, de Galáxias, nada tinha de concretismo, e que era um tradutor mais erudito, aplicado e consistente que o irmão mais jovem.

Quanto ao próprio Augusto, é melhor tradutor que o poeta enorme que acredita ser — e a literatura e a cultura brasileiras devem-lhe muito por isso.

Também não faz sentido Augusto acusar Gullar de só abrir a “pós-boca”, como diz, “para autolouvar-se”. Augusto nunca faz outra coisa na vida, penso que desde os cueiros.

Seu autoelogio no ensaio introdutório de Quase Borges – 20 Transpoemas e uma Entrevista, me assusta sempre que volto a esta passagem:

“(…) as edições bilíngues têm a vantagem de iluminar a percepção e a vivência das redescobertas dos ‘achados’ que o tradutor-poeta obtém na difícil viagem transcriativa, quando se trata de traduções artísticas, que podem senão impregná-lo de qualidade equivalente, chegar em raríssimos momentos até mesmo a superar o texto original”.

É isso mesmo que lemos. De cara, antes de o leitor chegar ao primeiro dos poemas vertidos para o português, ele insinua que suas traduções aqui e ali chegam além do próprio Borges! Com tradutores com tal modéstia poderíamos esquecer os textos originais.

Mas a tais arroubos seus leitores estão acostumados. E, seja como for, o JS se alegra e saúda esta nova rodada da diatribe entre os dois bons velhinhos, com todo respeito, torcendo para que Gullar mande brasa em sua tréplica, a sair domingo que vem.


 

Gullar fez a esperada tréplica, publicada em 26/06/2016, mais ou menos no tom que se esperava dele.

Campos rebateu a tréplica, com habilidade e fartos elogios a si próprio.

[Atualizado em 06/07/2016]

 

 

 

Querem falar de cultura a sério? Vamos pra Argentina

Alberto Manguel na Biblioteca de Borges, isto é,
Biblioteca Nacional de Buenos Aires, e o “Poema dos Dons” para esta tarde

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O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel. Foto: albertomanguel.com

O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel assume em meados do ano o cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, posto já ocupado por Jorge Luis Borges.

Em dezembro do ano passado, Manguel falou de Borges ao jornal argentino “Clarín”:

— Quando conheci Borges na livraria Pygmalion [onde Manguel trabalhava], em 1964, ele me convidou a participar das aulas de anglo-saxão que dava no próprio gabinete, na Biblioteca Nacional, na Rua México. Participei por um tempo e durante anos me converti em um dos que liam para ele [o autor do “Aleph” ficava cego]. Quem diria que, mais de 50 anos depois, eu iria me encontrar em sua posição. Oxalá ainda estejam lá a cadeira e o escritório que ele usava e que pertenceram a Paul Groussac [outro diretor da Biblioteca, citado por Borges no “Poema dos dons” – veja abaixo.]

Penso que Manguel, autor de “Uma História da Leitura” (1997) — uma trajetória do leitor em 6.000 anos de história — e coautor do “Dicionário de Lugares Imaginários” (ambos saíram no Brasil pela Companhia das Letras) é um dos maiores críticos literários em atividade, capaz de escrever com grande agudeza e de uma maneira completamente livre do pedregulho acadêmico. Há pouco comentei no jornal a lição de um de seus textos para o “Babelia” do “El País” em espanhol, sobre os 400 anos do nascimento de Shakespeare e Cervantes.

A ideia desta nota é de Sylvia Colombo, na Folha. Espinafrei a repórter aqui há poucos dias, mas hoje quero reconhecer a ótima matéria que ela assina na capa da “Ilustrada”.

Aos 69 anos, nascido em Buenos Aires, Manguel deixou a Argentina em 1973 e viveu no Canadá e na França. “É um dos autores argentinos com mais projeção global”, diz “O Clarín”. Atualmente, dá cursos nas universidades Columbia e de Princeton, nos EUA.

À Sylvia Colombo —sobre sua volta à capital argentina— Manguel diz algo de grande beleza e sabedoria a respeito da memória, algo de que temos consciência, mas nem sempre levamos em conta para valer:

“Voltar a Buenos Aires é estranho. Quando alguém deixa um lugar no qual aconteceram coisas importantes —no caso, minha adolescência—, esse lugar vira, na memória, um cenário que vai se modificando para acomodar as lembranças que vamos fabricando para nos consolarmos de estarmos longe.

Vamos mudando tanto essa geografia, do mesmo modo como mudamos a cara de uma pessoa que no passado amamos e já não vemos há tempos, que, quando voltamos a encontrá-la, já não a reconhecemos. Sinto que não volto para a minha Buenos Aires, mas, sim, a uma nova cidade, que devo descobrir e aprender a amar.”

Para fechar esta nota em tom maior, transcrevo meu poema favorito de Borges, seguido da tradução de Augusto de Campos, extraída de “Quase Borges” – 20 Trasnpoemas e uma Entrevista” (Musa Rara/Terracota, 2013).

POEMA DE LOS DONES

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.

POEMA DOS DONS

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como e esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

[Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.