Dois poetas que somam 170 anos se mantêm unidos por uma querela

Rusga entre Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos com 85 anos,
em torno de Oswald de Andrade e de um almoço ocorrido
ou não no Rio de Janeiro, há 61 anos,
tem novo e delicioso round, para espanar nossa pasmaceira cultural

Gular augusto

Fotos: Fernando Frazão e Valter Campanato/Agência Brasil

 

Os dois poetas até se deram durante alguns anos, antes de as estéticas concretista e neoconcretista separá-los, ainda nos anos 1960, um no front carioca, outro no paulista.

Mas outra querela tem unido os ex-amigos e poetas Ferreira Gullar e Augusto de Campos.

A rusga remete a um suposto almoço dos dois na Spaghettilândia, no Rio de Janeiro, no longínquo 1955.

No encontro, negado por Augusto, Gullar teria convencido seu então camarada da real grandeza de Oswald de Andrade, à época em desgraça no meio intelectual, visto como um irresponsável e mau-caráter.

A contenda começou na própria Folha de S.Paulo, cinco anos atrás, com réplica, tréplica e inclemente pancadaria, sobretudo da parte de Augusto, que sempre teve o gosto por se digladiar com seus desafetos na praça pública da imprensa, entre eles o também poeta Bruno Tolentino (1940-2007).

Em 2011, Ruy Castro se divertiu com o arranca-rabo entre os dois vates, e, por coincidência, há um mês o grande biógrafo de Garrincha, Nelson Rodrigues e da Bossa Nova recordou a pendenga e até se propôs a  intermediar a paz entre eles.

A última frase do seu texto era premonitória: “Eu sei, as diferenças são muitas, mas seria fascinante vê-los fazer as pazes. Nem que fosse para logo voltarem a brigar”.

Pois voltaram, Ruy, para espanar a pasmaceira cultural vigente.

A disputa foi retomada no último domingo, no mesmo jornal, por uma nova menção de Gullar, em sua coluna, ao célebre almoço no restaurante ainda aberto na Cinelândia, no Centro do Rio, seguida de dura réplica de Augusto, publicada hoje.

Digo de passagem que fazia tempos que a Ilustrada, caderno cultural da Folha de S.Paulo, não lembrava o que foi um dia.  Diluída, guiada pelo farol da esquerda e da correção política, meio perdida entre o Punqui e o Funqui, hoje raramente consegue açular uma boa troca de sopapos retóricos entre pesos pesados da cultura, o que em suas páginas já foi quase um subgênero do jornalismo cultural.

Pois o busílis da escaramuça Campos/Gullar paira em torno de quem redescobriu e revalorizou primeiro a grande obra de Oswald de Andrade; em torno do que Augusto pensa que falou e o que Gullar teria dito e vice-versa.

A crônica de Gullar, que sempre acerta quanto foge à política, seara na qual soa óbvio e monótono, trata poeticamente de seu único encontro com Oswald.

Ele acabara de publicar, à própria custa, nos conta, o livro A Luta Corporal. No dia do seu aniversário de 1954 estava em casa de uma namorada e aparece para abraçá-lo ninguém menos que o autor de Serafim Ponte Grande, que não apenas rasga elogios a A Luta Corporal, como promete que promoveria a obra em um curso que daria em Genebra, na Suíça, ainda naquele ano. Oswald morreria em São Paulo, no mês seguinte.

Depois de narrar a bela passagem é que Gullar menciona o dito cujo, o tal almoço na Spaghettilândia e a recomendação que teria feito a Augusto para que este relevasse suas restrições a Oswald.

Campos não passa recibo, como se sabe. Novamente, tratou de rebater duramente a versão de quem um dia abraçara e atribuir tão somente a si e aos concretistas de São Paulo, mais uma vez, a redenção do autor de O Rei da Vela.

“ONDE CHUCHA SEU CHAZINHO”

Campos atribui a reminiscência de Gullar à “senilidades politicoides” do  velho desafeto e, mais à frente, a seu “memorioso formigueiro mental”; no final, condena-lhe por ter cedido às glórias terrenas da Academia Brasileira de Letras, “onde chucha seu chazinho bem remunerado com Sarney, FHC, Marco Maciel e até um golpista da TV Globo, entre outros espantalhos imortais da nossa literatura”.

O “golpista da TV Globo”, como todo mundo sabe, é o jornalista Merval Pereira.

Augusto, como todo mundo também sabe, é petista de coração. No ano passado, esteve com Dilma no Palácio do Planalto, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, revelando ali a que ponto pode chegar um antigo cavaleiro das vanguardas artísticas planetárias —alguém que ainda jovem se autoaplicara na tradição dos criadores inventores, do “make it new” (fazer o novo) de Mallarmé/Joyce/Pound/Cummings, como ele próprio os enfileira no artigo de hoje— especialista na arte de recusar o que é fácil, popular e estabelecido pela Inteligência cultural.

DE UM LADO DA BRIGA

Como se vê, este comentarista tem um lado nesta briga.

Sim, a reação de Augusto —um imperioso, dado a invectivas cheias de neologismos exibicionistas— sempre me pareceu desproporcional, excessivamente dura contra o sempre polido Gullar, alguém incapaz de “insultar” quem quer que seja em seus textos.

“Em suma, por que [Gullar] sempre insultou os poetas paulistas?”, Augusto se pergunta em sua nova réplica, para, em seguida, se permitir rebaixar o oponente: “Que seu ‘neo’ [referência ao neoconcretismo], cercado de uma pequena corte de subpoetas, hoje esquecidos, foi incapaz (…).”

Augusto tem o hábito de referir-se a si próprio, ao irmão Haroldo (1929-2003) e a Décio Pignatari (1927-2012), como uma espécie de Trindade. A despeito da viva afinidade que houve entre os três, isso é mitificar a história e se valer de testemunhas que não estão mais neste mundo.

Décio era o mais simpático dos três, um criador erudito, alegre e profuso, a quem devo a ótima expressão “esquerdofrenia” , entre muito mais, alguém que jamais se curvaria diante de sicários do estado democrático.

De Haroldo diga-se que sua melhor poesia, de Galáxias, nada tinha de concretismo, e que era um tradutor mais erudito, aplicado e consistente que o irmão mais jovem.

Quanto ao próprio Augusto, é melhor tradutor que o poeta enorme que acredita ser — e a literatura e a cultura brasileiras devem-lhe muito por isso.

Também não faz sentido Augusto acusar Gullar de só abrir a “pós-boca”, como diz, “para autolouvar-se”. Augusto nunca faz outra coisa na vida, penso que desde os cueiros.

Seu autoelogio no ensaio introdutório de Quase Borges – 20 Transpoemas e uma Entrevista, me assusta sempre que volto a esta passagem:

“(…) as edições bilíngues têm a vantagem de iluminar a percepção e a vivência das redescobertas dos ‘achados’ que o tradutor-poeta obtém na difícil viagem transcriativa, quando se trata de traduções artísticas, que podem senão impregná-lo de qualidade equivalente, chegar em raríssimos momentos até mesmo a superar o texto original”.

É isso mesmo que lemos. De cara, antes de o leitor chegar ao primeiro dos poemas vertidos para o português, ele insinua que suas traduções aqui e ali chegam além do próprio Borges! Com tradutores com tal modéstia poderíamos esquecer os textos originais.

Mas a tais arroubos seus leitores estão acostumados. E, seja como for, o JS se alegra e saúda esta nova rodada da diatribe entre os dois bons velhinhos, com todo respeito, torcendo para que Gullar mande brasa em sua tréplica, a sair domingo que vem.


 

Gullar fez a esperada tréplica, publicada em 26/06/2016, mais ou menos no tom que se esperava dele.

Campos rebateu a tréplica, com habilidade e fartos elogios a si próprio.

[Atualizado em 06/07/2016]

 

 

 

Querem falar de cultura a sério? Vamos pra Argentina

Alberto Manguel na Biblioteca de Borges, isto é,
Biblioteca Nacional de Buenos Aires, e o “Poema dos Dons” para esta tarde

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O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel. Foto: albertomanguel.com

O escritor, tradutor e editor Alberto Manguel assume em meados do ano o cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires, posto já ocupado por Jorge Luis Borges.

Em dezembro do ano passado, Manguel falou de Borges ao jornal argentino “Clarín”:

— Quando conheci Borges na livraria Pygmalion [onde Manguel trabalhava], em 1964, ele me convidou a participar das aulas de anglo-saxão que dava no próprio gabinete, na Biblioteca Nacional, na Rua México. Participei por um tempo e durante anos me converti em um dos que liam para ele [o autor do “Aleph” ficava cego]. Quem diria que, mais de 50 anos depois, eu iria me encontrar em sua posição. Oxalá ainda estejam lá a cadeira e o escritório que ele usava e que pertenceram a Paul Groussac [outro diretor da Biblioteca, citado por Borges no “Poema dos dons” – veja abaixo.]

Penso que Manguel, autor de “Uma História da Leitura” (1997) — uma trajetória do leitor em 6.000 anos de história — e coautor do “Dicionário de Lugares Imaginários” (ambos saíram no Brasil pela Companhia das Letras) é um dos maiores críticos literários em atividade, capaz de escrever com grande agudeza e de uma maneira completamente livre do pedregulho acadêmico. Há pouco comentei no jornal a lição de um de seus textos para o “Babelia” do “El País” em espanhol, sobre os 400 anos do nascimento de Shakespeare e Cervantes.

A ideia desta nota é de Sylvia Colombo, na Folha. Espinafrei a repórter aqui há poucos dias, mas hoje quero reconhecer a ótima matéria que ela assina na capa da “Ilustrada”.

Aos 69 anos, nascido em Buenos Aires, Manguel deixou a Argentina em 1973 e viveu no Canadá e na França. “É um dos autores argentinos com mais projeção global”, diz “O Clarín”. Atualmente, dá cursos nas universidades Columbia e de Princeton, nos EUA.

À Sylvia Colombo —sobre sua volta à capital argentina— Manguel diz algo de grande beleza e sabedoria a respeito da memória, algo de que temos consciência, mas nem sempre levamos em conta para valer:

“Voltar a Buenos Aires é estranho. Quando alguém deixa um lugar no qual aconteceram coisas importantes —no caso, minha adolescência—, esse lugar vira, na memória, um cenário que vai se modificando para acomodar as lembranças que vamos fabricando para nos consolarmos de estarmos longe.

Vamos mudando tanto essa geografia, do mesmo modo como mudamos a cara de uma pessoa que no passado amamos e já não vemos há tempos, que, quando voltamos a encontrá-la, já não a reconhecemos. Sinto que não volto para a minha Buenos Aires, mas, sim, a uma nova cidade, que devo descobrir e aprender a amar.”

Para fechar esta nota em tom maior, transcrevo meu poema favorito de Borges, seguido da tradução de Augusto de Campos, extraída de “Quase Borges” – 20 Trasnpoemas e uma Entrevista” (Musa Rara/Terracota, 2013).

POEMA DE LOS DONES

Nadie rebaje a lágrima o reproche
Esta declaración de la maestría
De Dios, que con magnífica ironía
Me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
A unos ojos sin luz, que sólo pueden
Leer en las bibliotecas de los sueños
Los insensatos párrafos que ceden

Las albas a su afán. En vano el día
Les prodiga sus libros infinitos,
Arduos como los arduos manuscritos
Que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
Muere un rey entre fuentes y jardines;
Yo fatigo sin rumbo los confines
De esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
Y el Occidente, siglos, dinastías,
Símbolos, cosmos y cosmogonías
Brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
Exploro con el báculo indeciso,
Yo, que me figuraba el Paraíso
Bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
Con la palabra azar, rige estas cosas;
Otro ya recibió en otras borrosas
Tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
Suelo sentir con vago horror sagrado
Que soy el otro, el muerto, que habrá dado
Los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
De un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
Si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
Mundo que se deforma y que se apaga
En una pálida ceniza vaga
Que se parece al sueño y al olvido.

POEMA DOS DONS

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como e esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

[Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.