Diário do fim de semana

Diário fim de semana

SALVE UM JOVEM

Se você é próximo de quem começa a fazer Humanas, corra a lhe comprar a nova tradução de O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron, lançado pela editora Três Estrelas. Há uma ótima apresentação de Vinicius Mota na Folha de S.Paulo.

Corra e insista para que seu afeto o leia de verdade e com coragem. O livro vai vaciná-lo contra a mistificação, contra a doutrinação pela religião secular do marxismo (e suas derivações) e do esquerdismo; vai libertá-lo. Se não for agora, babau. A moça ou o rapaz cairá para sempre nas graças do primeiro professor charmoso e diligente que lhe der a ler, por exemplo, o gosmento O Que É Ideologia, de Marilena Chaui. Sem falar que a obra de Aron, pode apostar, sequer será mencionada pelo guru.

OS ROBÔS CHEGARAM

Conferentes de estoque de supermercado e motoristas começam a ser desempregados por robôs nos EUA. IA, Inteligência Artificial, é a nova fronteira do Vale do Silício, sem botão de “curtir”, informa esta matéria do The New York Times traduzida na Folha. Jornalistas que coletam dados econômicos, radiologistas e outras frentes de trabalho ganham ou ganharão competidores robóticos. Profetas como Ray Kurzweil, diretor de engenharia do Google, há muito pregam o advento da “vida” eterna por meio de IA. Tudo caminha para que seus discípulos perenizem nosso tédio, nossa miséria e nossa vergonha.

DEU BRASIL NO BABELIA

O Babelia, um “suplemento” cultural, como dizíamos nos século passado, digno desse nome —os brasileiros foram extintos—, tantas vezes citado pelo JS, aproveita a Olimpíada do Rio com a pretensão de mapear a literatura brasileira hoje. O resultado dos dois despachos é morno e triste. O correspondente anda com segurança pelo riscado, chove no molhado e foge de qualquer juízo, de uma investigação mais profunda com críticos e leitores referendados, sem falar de leituras próprias. Tive pena esta manhã dos espanhóis que leram o excelente caderno do El País.

 PAPAS EM AUSCHWITZ

Simples e boa a cobertura do El País, com um ótimo vídeo, da visita do papa Francisco I ao campo de concentração Auschwitz-Birkenau, na Polônia, onde os nazistas exterminaram um milhão de pessoas, quase todos judeus.

Francisco, terceiro papa a visitar o campo, após João Paulo II, em 1979, e Bento XVI, há 10 anos, permaneceu calado durante o percurso. Ele disse, “Senhor, tem piedade do seu povo. Senhor, perdão por tanta crueldade”. A palavra de Bento em 2006 era mais terrena, ao questionar o silêncio e a omissão do criador: “Senhor, como pudeste tolerar isto?”.

DERRETIDAS POR OBAMA

O deslumbramento com o discurso de Obama na convenção democrata tirou do sério algumas jornalistas. Contei as ótimas Ana Paula Araújo, no Bom Dia Brasil; Leilane Neubarth, na GloboNews, e Cora Rónai, no Facebook. O faniquito de encanto feminil pelo grande entertainer que é Obama —estou entre seus admiradores— foi mais um atestado do péssimo jornalismo que é feito hoje no país, rendido à banalidade, ao espetáculo e à preguiça.

SONS DO FIM DE SEMANA

Do CD Piano e Voz, um dos melhores discos de música brasileira lançados neste século. Duvido de que alguém se canse de ouvi-lo.

 

Tenho escutado muito as obras de Villa-Lobos para violão, no Spotify. Fisguei esta gravação no YouTube, mais ou menos ao acaso.

 

 

 

Uma entrevista (e um roteiro) imperdíveis

SteinerEm uma entrevista imperdível no Babelia do El País, traduzida pela versão brasileira do jornal, George Steiner comenta o roteiro essencial das ideias para a compreensão do mundo neste momento.

O filósofo e ensaísta literário, combalido ao 88 anos, mas perfeitamente lúcido, foi visitado em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, por Borja Hermoso.

Os temas da conversa tratam de questões que importam a quem queira se localizar sobre o chamado espírito da época.

O declínio da educação e a perda da memória; o dinheiro como um valor absoluto (“O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo”); a psicanálise em baixa conta:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”);

A centralidade da ciência:

“(…) Com certeza haverá duas ou três grandes novas descobertas científicas no campo da genética que introduzirão problemas de ordem moral terrivelmente complexos. Por exemplo: permitiremos que se manipulem as células de um feto?”;

A crise da política, visível com o fenômeno Donald Trump, o Brexit etc., e um alerta sobre as consequências de renunciarmos a ela:

(…) existe uma gigantesca abdicação da política. A política tem perdido terreno no mundo todo, as pessoas já não acreditam nela, e isso é muito perigoso. É Aristóteles quem diz: “Se você não quer entrar na política, na ágora pública, e prefere ficar em sua vida privada, então não venha se queixar depois de que são os bandidos que governam”;

A queda da tradição humanista da literatura e das artes:

(…) Se você e eu fôssemos cientistas, o tom da nossa conversa seria outro, seria muito mais otimista, pois hoje, toda semana a ciência descobre alguma coisa nova que não conhecíamos na semana passada. Em contrapartida –e isso que lhe digo é totalmente irracional, e espero estar enganado–, o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo, um Dante ou um Cervantes. Mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. Estamos muito distantes dos gigantes do passado. Espero estar enganado e que o próximo Proust ou Joyce esteja nascendo na casa aqui na frente! (…).

A vocação intelectual de Steiner “se compara à dos construtores de catedrais que reuniam, com perícia, e razão a técnica e a beleza e as punham a serviço de uma experiência mística”, diz Enrique Lynch em um comentário sobre o filósofo entrevistado no Babelia e não traduzido pelo El País Brasil.

Quem já teve o prazer de ler um ensaio de Steiner entende, como diz Lynch, a maneira única como ele consegue nos levar pela mão através do espaço da cultura europeia, tanto a clássica como a moderna, e nos fazer participar de uma espécie de rito iniciático.

Em outro comentário, Jordi Llovet define Steiner como “um humanista crepuscular” e “polímata renascentista”.

Um outro trecho da entrevista é ilustrativo sobre a diferença que faz a inteligência de um mestre, interessada em compreender o mundo antes de enunciar grandes verdades.

Pergunta – O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?
Resposta – Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, a multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Mohammed Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Mohammed Ali.

Li esta entrevista no sábado. No domingo fui tomar um pouco de sol nas ruas de Belo Horizonte. Me assustei com o parque fantasma que virou a praça da Savassi. Não havia um café ou uma banca de jornal abertos às onze horas da manhã.

Há muito arrancaram daquele coração da cidade seus dois cinemas e restam duas ou três livrarias de tantas que existiram.

BH é um fenômeno único de pobreza cultural, de fragilidade e incapacidade de resistir ao filistinismo tecnológico em voga.


P.s.: Recomendo aqui mais uma vez , senão toda a série de vídeos de o melhor programa de TV já feito, ao menos a de George Steiner.

Crédito e fé, por Agamben

O filósofo italiano Giorgio Agamben é uma celebridade de esquerda, se é que ainda existem filósofos célebres no mundo de Lady Gaga e Wesley Safadão.

Agamben no El País

O homem tem ideias originais e um texto cativante; há um excelente ensaio seu sobre o passado de Veneza na revista Serrote #6.

Mas a erudição é uma ferramenta invejável para alguém formular besteiras admiráveis. E a besteira dita com originalidade torna-se respeitabilíssima.

Pego na pilha de prints de leitura adiada uma entrevista ao Babelia do El País. Agamben critica a vigilância em cidades e aeroportos, ampliada na última década pela ameaça do terror.

Diz que estamos submetidos a um estado permanente de exceção e que o cidadão foi convertido em terrorista virtual.

Conversa boa num convescote acadêmico, sem o valor que a história ou a própria filosofia podem conferir à vida prática. Subjaz ao discurso, decerto, a culpa do ocidente pelos crimes cometidos em nome de Alá.

Por pior que estejamos, prefiro desfrutar de alguma sensação de segurança a viver com medo de ter meu avião derrubado a 30 mil pés.

Agamben valoriza, desde o mundo clássico, a ideia da felicidade e da vida boa, que ele contrapõe à ética do dever e à moral kantiana, estendida, como demonstra, à economia.

O homem é um ser em dívida, portanto dever é ser dominado pelo imperativo. Ter crédito na praça equivale a ter fé, poder de compra ou pecúlio para garantir a vida eterna.

Agamben conta a piada do professor israelense estudioso da fé, “pitis” em grego, que chegando Atenas e ao andar na rua lê numa placa “Banco de pisteos”. Banco da Fé? — ele se espanta, até entender que era um Banco de Crédito.

Aqui também a excitação intelectual é masturbatória. Uma ideia bonita que não passa do relativismo já velho de guerra.

Duas notas domingueiras, de leve

 

babelia

Do Bananão tomado pelo marrom e
do magnífico artigo de Alberto Manguel sobre Shakespeare e Cervantes

Não, não é nenhuma tragédia, apenas a democracia a operar, desgraçadamente, aos trancos e barrancos.

Mas o que esperar de quem malbaratou a escolha popular e confundiu o poder democrático com um tipo peculiar de mandato revolucionário, com uma carta branca para açambarcar o Estado?

Não, o trono não está manchado de sangue. Em nossa tragicomédia, versos como “the multitudinous seas incarnadine / Making the green one red” teriam outra paráfrase no português, algo como “Esta merda multitudinosa / O Bananão tomado pelo marrom”.

O trono foi destroçado pela ruína, pela lassidão moral e pela pura e simples incapacidade de governar.

Prefiro reler o Macbeth neste dia radioso. Haja protetor solar!

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Encantado com a concisão, profundidade, contundência do artigo de Alberto Manguel do Babelia de ontem sobre os 400 anos das mortes de Shakespeare e Cervantes.

Já disse por aí que nosso jornalismo cultural regrediu décadas, a despeito da internet e por causa da internet.

Não adianta. Não há quem faça o papel de um grande jornal (ou seu sucedâneo em outros meios) de trabalhar a síntese, de atuar como polo magnético capaz de alinhar forças da cultura, de buscar e encontrar quem saiba pensar e escrever com erudição, clareza e se possível, estilo, para um público não acadêmico, e, óbvio,  poder pagar por isso.

Traduzo um pequeno trecho  do texto de Manguel, sobre Shakespeare, com licença poética na citação do “Macbeth”.

“A língua de Shakespeare chegara a seu ponto mais alto. Confluência de línguas germânicas e latinas, o riquíssimo vocabulário do inglês do século XVI permitiu a Shakespeare uma extensão sonora e uma profundidade epistemológica assombrosas. Quando Macbeth declara que sua mão ensanguentada “tingiria de carmim o mar multitudinário, convertendo o verde em vermelho (“the multitudinous seas incarnadine / Making the green one red”), os epítetos lentos e multissilábicos do latim são contrapostos aos saxônicos, bruscos e contundentes, ressaltando a brutalidade do ato.”