De volta a Dunas com Tom, Zé Miguel e Ezra

Jurupoca_53. 8 a 14/1/2021. Ano 2.

Maracujás (passion fruit em inglês) pendem na cerca da Posada do Nono, em Venda Nova do Imigrante (ES), meio do caminho entre BH e Dunas de Itaúnas. A luz é da manhã de 20/12/2020

NOTAS PARA CXVII

 M’amour, m’amour

      que é que eu amo e

                onde estás?

Que perdi meu centro

             lutando contra o mundo

Os sonhos colidem

                 e estão despedaçados —

e eu que tentei fazer um paradiso

                         terrestre
[…]

CXX

Tentei escrever o Paraíso

Não se mova
          Deixe falar o vento
                esse é o paraíso.
Deixe os Deuses perdoarem
                    o que eu fiz
Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar
                       o que eu fiz.

Ezra Pound: Os cantos. Tradução José Lino Grünewald, Nova Fronteira, 2006.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Zé Miguel Wisnik, além de tudo, é pianista e um dos maiores compositores brasileiros em atividade. Tudo pode se referir ao professor de literatura e ensaísta de mão cheia que ele também é.

Claro, não é alcançável pelos rebanhos. No título de seu álbum de 2003, Pérolas aos poucos, poucos tem valor pronominal. Na letra da canção que ouviremos (dele com Paulo Neves), atualíssima, a palavra tem função adverbial, mas não só: “Eu jogo pérolas aos poucos ao mar…”, uma troça poética com “pérolas aos porcos”, referência ao evangelista Mateus 7,6: “Não deis aos cães o que é santo, nem atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não pisem e, voltando-se contra vós estraçalhem.”

As pérolas de Zé Miguel vão para poucos. E por sinal passam longe do radar do jornalismo cultural, que hoje, nas trincheiras da “guerra cultural”, despreza a música (e a arte) de qualidade, interessado demagogicamente em dar lugar à diversidade — e, óbvio, na própria sobrevivência na era do caça-clique.

O jornalismo perde a função crítica quando o valor artístico é o de menos.

A criação sem balizas desaparece como bolhas de sabão, e todo o ambiente cultural se banaliza e degrada. Culturalmente, somos uma espécie de Roma destruída pelos bárbaros.

Eu jogo pérolas ao fogo todo meu sonhar/ E o cego amor entrego ao deus dará…

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
Eu quero ver o fogo se queimar
E até no breu reconhecer
A flor que o acaso nos dá
Eu jogo pérolas ao deus dará

Viajei de carro no Natal, comi muito asfalto, de novo rumo a Itaúnas, Dunas de Itaúnas, passando, oh vida, oh dor, por Manhuaçu etc. com pernoite a meio caminho na deliciosa Pousada do Nono, em Venda Nova do Imigrante, já no Espírito Santo, onde cliquei os maracujás que embelezam este número da Ju.

Já a imagem no alto da página capta os lindos urubus que frequentam a área de coleta dos pescadores da vila. Observar o voo magistral dessas aves é um espetáculo sempre renovado. São mesmo os mestres do vento, como canta Jobim n’O boto.

Ouvi muita música brasileira na estrada, sobretudo Tom, que é com quem melhor viajo, à parte os quartetos de Beethoven. Consigo a um tempo me distrair e melhorar a concentração para guiar com calma e cuidado. É minha “estratégia” para me meter na selvageria, entre tarados do volante.

Pois nessa viagem a Dunas outra canção de Zé Miguel me subiu à cabeça, além de Pérolas aos poucos.

Subiu como revelação, revelação artística, a única que às vezes ainda experimento. Além da arte apenas aos santos algum mistério se revela. Se bem que publicitários deram para falar em “epifania”.

Essa música é Mais simples:

É sobre-humano viver/ E como não seria…

É sobre-humano amar
‘cê sabe muito bem
É sobre-humano amar, sentir
Doer, gozar
Ser feliz

Vê quem sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
Como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer

É sobre-humano viver
E como não seria
Sinto que fiz esta canção em parceria
Com você

A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?

“É sobre-humano viver/ E como não seria…” são versos de uma precisão cristalina. E o que seria a “expressão mais simples” da vida e do viver?

O super-homem nietzschiano e todas as noções assemelhadas estão mofadas.

Sim, parte da ciência persegue o humano 2.0, via transumanismo, inclusive a cura da morte com a engenharia genômica. Mas aí não vale.

Ser humano, humano pra valer, é sobre-humano, por certo.

Presumo que é mais simples ser gafanhoto, golfinho ou andorinha.

E que o verdadeiro ser humano era o caçador-coletor nômade de dez mil anos atrás.

Ser humano era não se deixar almoçar pelo tigre, e dormir alimentado e exausto sob as estrelas, aos bandos, nada menos.

A civilização — 1% da história do Homo sapiens sapiens — da agricultura ao Vale do Silício, o corrompeu e tornou a vida sobre-humana —para a maravilha e a desgraça.

O mal-estar tão bem descrito por Freud só faz crescer, ou inchar, e chega à náusea.

É o mal que se tenta remediar com drogas de toda espécie, inclusive as das farmacêuticas, da cosmética, do consumo, da tecnologia.

Para Bifo Berardi somos neo-humanos “cercados e subjugados pela onipresença dos automatismos da máquina digital conectada às redes”, que ele compara a um organismo sem ar.

Esse filósofo italiano de esquerda diz que vivemos uma crise da imaginação, asfixiados pelo capitalismo financeiro, e que é preciso “reativar o corpo erótico da sociedade” por meio da revitalização da linguagem e da poesia (como metáfora).

Sei não.

Nossa espécie é do balacobaco. Poetas como Pessoa ou Shakespeare conceberam tudo que é humanamente inconcebível. Eram gênios.

Mas ainda tocarão o mundo que sai das forjas frias do tempo e põe para dormir o espírito?

A alienação da cultura, as massas atomizadas pela tecnologia e as ideologias pamonhas das “guerras culturais” converteram a humanidade num formigueiro desgracioso.

“Dão à luz do útero para o túmulo, o dia brilha por um instante, volta a escurecer”.  Me pergunto se essa conhecida citação de Beckett em Esperando Godot ainda inspirará algo em alguém, além do gesto autômato de decalcá-la no Facebook e esquecer o assunto. Ah, se ao menos o inspirasse a tomar um Chicabon na esquina.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Deixa o mato crescer em paz

Boca de siri. Não me vá dar com a língua nos dentes. A notícia pode chegar aos ouvidos do ministro do Meio Ambiente de sua excrescência jumentíssima. No Parque Estadual de Itaúnas trabalham para recuperar matas de restinga e conter o avanço das dunas, das areias sopradas pelo vento que já sepultaram a antiga vila local. Como se sabe, o ministro Ricardo de Aquino Salles é um janota filisteu por princípio contrário ao meio ambiente, por isso está no cargo. Saleraço e Caveirão.105mm tem poluções ao sonhar com fogo, trator, expansão agropecuária e imobiliária e a mineração geral do país. Caveirão.105mm projeta construir em Angra dos Reis uma espécie de Disney marinha. Tem horror ao mato, ao bicho, ao índio. Quero dedicar a Saleraço, nesta carta, uma curta serenata, de uma música só:

Canção dedicada ao ministro Salles: Não quero fogo/ quero água…

Brexit is Brexit

Brexit means Brexit. Brexit is Brexit. Dona Theresa May tinha razão. Não somos ruminantes, por mais fracos que alguém seja, para digerir sem parar um medo ou ideia “fixa”. Nem roedores para roer até o osso uma promessa ou decisão jamais realizada. Sim, saída é saída e não é não.  Mas tenho cá minhas dúvidas… Cada luz do dia nos traz uma nova cor, e a confusão de hoje pode pacificar amanhã, como o suflê de enxofre da aflição que a insônia infla em geral murcha de manhã.

Somos todos Dilma

Sua excrescência jumentíssima voltou a zurrar sobre a tortura sofrida pela ex-presidente Dilma Vana Rousseff. Todo apoiador do presidente é seu cúmplice nisso. Caveirão.105mm repete os relinchos que ouvimos, e me fizeram vomitar, em seu voto no impeachment de Dilma. Nossa humanidade foi rebaixada ainda mais. Que tanta gente seja incapaz (de pai e mãe) de perceber a brutalidade desse fato deve dizer algo sobre nossa pretensão de ser um país que preste.

Dilma presa. Foto do Arquivo Público de São Paul

“Do you like it, macacada?”

Na véspera do Réveillon Demétrio Magnoli publicou uma de suas melhores colunas do ano. É um dos raros comentaristas brasileiros com estofo e destemor ao opinar. Ele não se deixa patrulhar nem tenta agradar no Instagram. Sua presença no GloboNews em Pauta, sou capaz de apostar, tem os dias contados. Ele não se afoga na poça demagógica dos colegas e costuma respaldar análises com firmeza e reflexões bem apuradas. O texto em questão é “Que vontade de nascer americano”, e saiu em O Globo. Magnoli desenha como extrema direita e esquerda no Brasil macaqueiam ridiculamente a “guerra cultural” que divide os EUA. Para você com preguiça de sair dessa página, copio os dois parágrafos finais:

“A esquerda brasileira já foi anarquista, modernista, cosmopolita, comunista, tropicalista e sindicalista — mas, em cada uma de suas encarnações, conservou-se fiel à convicção de que existe uma nação única, cozida no forno do passado. Não mais. #MeToo, #BlackLivesMatter: nossa esquerda vive a história dos outros e já nem sabe mais falar português.

“É um duplo divórcio da realidade brasileira. A extrema-direita enxerga, em meio a brumas, uma nação sem leis ou instituições, habitada por colonos armados e pregadores puritanos agarrados a cruzes: os EUA imaginários do faroeste. A esquerda, por sua vez, confunde seu país com um outro: os EUA das Leis Jim Crow, da segregação legalizada, do censo que classifica as pessoas em categorias raciais estanques.”

O viés do NYT

No New York Times — do alto de seu jornalismo de torre de marfim, como o chama um articulista na revista Quillette —pode parecer que a facção delirante da direita republicana faz “guerra cultural” sozinha, contra quem está inocentemente quieto no seu canto, senão contra fantasmas. Um crítico do jornal como James Poniewozik, em artigo traduzido pela Folha, não consegue apontar o outro lado em guerra com os conservadores. A esquerda é nomeada apenas como de “viés liberal”. É uma gente justa que não comete excessos ou tortura a história; não se ferra a ideologias anacrônicas; não alimenta o ressentimento do eleitorado republicano; não patrulha nem cancela ninguém que dê um passo fora do riscado do credo politicamente correto. Imagina-se que estão do lado do bem e da verdade e sob ataque de bárbaros ensandecidos como o espantalho laranja que tentou tocar fogo em Washington. Isso mostra que a jornalista Bari Weiss estava coberta de razão quando se demitiu do Times e, em carta aberta, acusou o jornal de se deixar editar pelo Twitter. Vai uma passagem da entrevista que ela deu à Folha quando esteve no Brasil, mês passado:

Em sua carta de demissão, a sra. fala que o Twitter tornou-se o editor do NYT. A mídia capitulou às novas formas de comunicação? Antes da internet, o chefe era o anunciante. Esse modelo se desintegrou. Agora é o assinante, o leitor, e os que são estridentes em lugares como o Twitter têm influência desproporcional. O público do NYT é formado por liberais ou democratas, mais de 90%. O incentivo passa a ser dar aos leitores o que eles querem. Toda pressão empurra para publicar mais um artigo sobre como Trump é um monstro ou um palhaço. Há um desincentivo para contar verdades inconvenientes contra noções pré-concebidas. Cada vez mais, o NYT e outros veículos mostram uma pequena faixa do país, um mundo como os editores ou os leitores gostariam que fosse. É mais realismo socialista do que relatar as notícias.

“Quando o NYT a contratou, a razão foi tornar o jornal mais diverso. Acha que era um desejo genuíno? As pessoas que dirigem o NYT sentiram, após a eleição de Trump, que haviam errado numa grande história. Você pode me chamar de ingênua, mas acho que eram genuínas no desejo de expor seus leitores a um espectro mais amplo. O problema é que muitas das pessoas mais jovens que contrataram têm uma visão diferente. Entraram no jornalismo para advogar coisas, estar do lado certo da história. Era inevitável que isso fosse resultar em algum tipo de conflito.

“É algo geracional? Em grande medida, sim. Essas pessoas jovens, inteligentes, estudaram nas faculdades mais respeitadas do país. Mas essas faculdades são o ponto de origem desta nova ideologia. E as pessoas levam suas ideias para empregos em editoras, museus, jornais. Em vez de essas instituições transformarem os jovens, são os jovens que as transformam. Esse pequeno grupo fanático e moralmente justo maneja as mídias sociais e faz acusações de intolerância com total descaso. Aterroriza os que acreditam nos métodos tradicionais.

“Universidades de esquerda sempre existiram. O que mudou agora? É a internet? Se eu quero ir à mídia social e ganhar pontos com meus amigos, é muito fácil, não leva dois segundos e não custa nada. Funciona quase como um movimento religioso. É capaz de, como muitas religiões em seus estágios iniciais, queimar muita coisa para conseguir o que quer. Essas ideias, tenham o nome que tiverem —política identitária, teoria racial crítica, justiça social— estavam contidas em departamentos periféricos de universidades. Mas como disse Andrew Sullivan [escritor britânico], todos nós vivemos num campus agora. Estamos vivendo no mundo dos departamentos de estudos de gênero.”

Ela não faz bundalelê

Leila Pinheiro é uma grande artista e uma senhora elegantíssima. Claro, não faz bundalelê nem posa de pijama para atrair engajamento nas redes sociais. Sua conta no Youtube nos deu mais este presente às vésperas do Natal. Sua carreira é o caminho iluminado de quem conhece a dimensão da música popular e não se permite pular a cerca da concessão à vulgaridade.

Quase levo uma rabanada do bicho acima, postado à beira-rio e defronte à sede do Parque Estadual de Itaúnas. Parei ali várias vezes pra admirá-lo, como volto sempre aos restos do pequi vinagreiro que na praça da igreja representa a destruição da mata atlântica