E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/sobre/&quot; target="_blank"><strong>Antônio Siúves</strong> </a>(maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-siuves/moral-das-horas/570242892?q=moral+das+horas&quot; target="_blank"><strong><em>Moral das horas</em></strong></a><strong><em>, </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/21-poemas/&quot; target="_blank"><strong><em>21 poemas</em></strong></a><strong><em> e </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/TURISMO-CULTURAL-LITER%C3%81RIO-EUROPA-Propostas-ebook/dp/B082RBGXDB/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=turismo+cultural+e+liter%C3%A1rio+na+europa&qid=1586348439&sr=8-1&quot; target="_blank"><strong><em>Turismo cultural e literário na Europa.</em></strong></a>Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.