Memento mori ao revés: lembre-se de que viveu

Jurupoca_56. 29/1 a 4/2/2021. Ano 2.

“Visível que, aqueles outros tempos, eu pintava – cré que o caroá levanta flor. Eh, bom meu pasto… Mocidade. Mas mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir.”      

João  Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

“A vida que esvai distraída, entre os dedos da hora, tirando da mão até a memória do tato dos meus idos. Só persistimos, se tanto, na usura da memória alheia, à véspera do longo esquecimento.”

Darcy Ribeiro – Maíra

“Longe, longe, ouço essa voz/ Que o tempo não levará.”

Milton Nascimento e Fernando Brant — Sentinela

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

As epígrafes acima são do capítulo final de um manuscrito encalhado, a que dei o nome de Meu boi morreu.

Na travessia dos 40 anos cedi à tentação (e à necessidade) de recuperar um tempo que me picava, por começar a decair na memória ativa, como uma mosca vai sendo engolida pelo âmbar, antes de virar relíquia pré-histórica.

Nesse prurido do tempo se debatia uma outra travessia: o parto longo e doído do crescimento, da adolescência para o mundo adulto.

Abreviei esse parto ao narrar a passagem de um derradeiro Carnaval (ou pré-carnaval) para Quarta-feira de Cinzas, o equivalente à transição do desregramento à abstenção, ou ao resgate das promissórias que, jovens, emitimos contra nós próprios.

Primeiro saíram umas crônicas no jornal O Tempo, depois o manuscrito frustrado. Nele, conto a odisseia foliã de um rapaz comum.

Durante um desfile do Boi da Manta — festa pré-carnavalesca de uma cidade que reinventei como Nossa Senhora de Primavera, mas pode chamar de Pedro Leopoldo,— tento reencontrar a disponibilidade, o calor e a excitação sem margens de alguns amigos no último baile de suas fantasias, ainda ilhados por grandes premissas (imposições) hormonais.

O desfile começa antes, no aquecimento das turmas no quintal das casas, ora de um ora de outro camarada.

É hora de abrir a função etílica, vestir velhos trajes de baile das irmãs, borrar o rosto com maquiagem e, pouco antes de sair à rua, aderir ao cordão das oncinhas e gatinhas mascaradas e alvoroçadas, já à porta. Quem é quem, quem é de quem?

Então seguia-se a reunião do cortejo na concentração. Logo a brincadeira ganhava a rua principal de Primavera e íamos atrás da banda; depois do retorno tinha o gran finale: a representação do “enterro” do Boi, que amanhã era Carnaval!

O manuscrito interrompe os atos dessa via sacra profana, como um Rimbaud da roça, para revisitar (pela última vez) iluminações e temporadas no inferno do autor em Primavera, na tentativa de fixar, na despedida da adolescência, a gente cúmplice do melhor da festa, ou da liberdade da vida na festa que compartimos. (Essa cumplicidade, para quem tem a sorte de conservar amigos, nos ajuda muito a envelhecer.)

Não acho ruim, ao reler o texto agora, um trechinho do final dessa história, o epílogo das epígrafes, intitulado “Desce o pano (cena solta)”, inspirado na foto do alto:

“Então o Boi, meu bem, jamais. O sol da tarde fazia cintilar o rol de garrafas vazias ordenadas e expostas como troféu contra o muro do quintal, ali na concentração, onde o Almirante inda outro dia nos preparava caipiríssimas como só as dele. Memento mori ao revés: lembra-te de que viveu.”

Bom, outra passagem que me acode dessa odisseia provinciana, e que na verdade me foi lembrar o livro natimorto, é uma revelação com cor, cheiro, gosto e potência, uma revelação — ou o que em crítica literária chama-se “epifania” (fenômeno que ocorre, diz George Steiner,  quando ‘o objeto se manifesta e se impõe ao observador’) — trazida em um sábado: um sábado-madalena proustiana.

“O sábado se abria pleno na tarde enlanguescida e cantava dentro de mim”, releio, “quando recebia no rosto a familiar brisa rósea, por carregar o capim dessa cor, a soprar dos altos da colina e da linha férrea, como que para rematar a conjunção que tornava Primavera, aquele dia no tempo, um lugar incomparavelmente bom de se viver.”

Sabemos que os sábados da adolescência jamais se repetirão na repartição e nos escaninhos do tempo.

Manhãs e tardes de sábado ainda guardavam certa sensação de eternidade, um eco de fundo da força gravitacional da infância, uma esperança difusa e sensual que nos tange como bichos que somos.

Meu personagem levava esse anseio ao chegar de bicicleta à casa do irmão, e logo se ver sozinho em sua sala ampla, com uma acústica fabulosa, dádiva de sua construção rústica,  da tapeçaria e de velhas madeiras resinadas.

Na sala havia um aparelho de som novinho da marca Sony, com boas caixas e amplificação. Sucedeu de o primo Egon (nome que emprestei do primo de Pedro Nava nas Memórias), ligar o aparelho na função rádio, achar a Mineira, ou talvez já a Inconfidência FM no dial analógico e deixa estar.

Então ele ouve a música que vai ocupar toda a sala e, mais que a sala, o próprio universo ao redor; a canção vai soar ali, apenas ali naquele instante, como a “profecia de uns graves coados no véu da musa Euterpe, a ‘doadora de prazeres’. Havia uma energia fabulosa naquele canto negro, uma força capaz de modular o tecido da existência, dotando-a de sentido e substância.”

A geração de Chico, Caetano, Edu Lobo etc. aponta o violão e o canto de João Gilberto em Chega de Saudade como o clique decisivo que fez de cada um o artista que cada um veio a ser.

Não me tornei artista, talvez poeta bissexto, mas nasceu ali, por certo, ou ali se aprofundou, naquela tarde de sábado nos anos 1970, minha afeição e meu amor por nossa dita música popular, ao menos a música popular (hoje impopular, mas o que digo, música erudita?, elitista?) que havia naquela época, e sua dádiva consoladora: graças a Milton Nascimento, sua voz, seu violão e esta canção: Morro velho (composição de 1967 classificada em sétimo lugar no II Festival Internacional da Canção, sucesso de Travessia, seu primeiro disco).

no sertão da minha terra… fazenda é o camarada que ao chão se deu… fez a obrigação com força… parece até que tudo aquilo é seu…

As versões do próprio Milton e Elis (álbum da Philips Elis, de 1977) são canônicas.

Ponho ambas aqui para relembrar aquele sábado “milagroso” e sua revelação; relembrar meu manuscrito e “A Turma”, a quem é dedicado); relembrar o moço para sempre engolfado no âmbar do tempo, como um inseto primevo, ainda que, mesmo em tal estado, persista na memória de seus comparsas, no dizer de Darcy, até a “véspera do grande esquecimento”.


O autor da Ju e seus camaradas clicados no aquecimento, antes de nossa entrada triunfal no desfile do Boi do Manta

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


Eh, Meu boi

…Homens ficaram no chão/ olhando as estrelas/ mas sem poder vê-las/ no céu brilhar…

Meu boi morreu é uma narrativa sarapintada de música. Há tardes com amigos para ouvir o último Genesis ou Pink Floyd, muito samba, marchinhas e canções brasileiras como No colo da serra, de Toquinho e Vinicius, cujos versos ilustram um dos escritos do livro manqué. Falei nos sábados e penso que era capaz de escrever mais sobre as várias feições dessa estação na semana. (Pus algo no Moral das horas, inclusive no poema que nomeia o livro e termina em Tarde de sábado,/ de sol, de não, de louvor.// Entrementes, a amizade/ era massa de júbilo  a assar/ numa roda de Brahma,/ em qualquer lugar.) O passeio de sábado no camelão tinha um sabor bem temperado, quase musical, havia uma quebra na rotina familiar, e tarefas como lavar o fusquinha do irmão para defender o cigarro e a cerveja, e havia um olhar e um cheiro de moça que não saíam da gente, memória e antevisão. E havia a missa, por certo. A gandaia começava depois da bênção do padre, … ide em paz e o Senhor vos acompanha…, desde a saída da matriz. O Altíssimo de fato nos seguia (e protegia) em copos-sujos, clubes periféricos (como esquecer o baile de Rainha do Alho, em Prudente de Morais?) e liceus, liceu como sinônimo (mineiro, segundo o Houaiss) de lupanar, baiuca, serralho e bordel. (Nossa geração prestigiava, eventualmente, Lolote e Lourdinha, casas de excelência no ramo, naquele tempo imemorial.)


Sonhos envelhecem sim

Sonhos não envelhecem? Os ainda moços Bituca, Lô e  Márcio Borges fizeram a linda Clube da Esquina II. A letra, que veio depois da música e do disco de 1972, deu um mote a essas turma, e o título das memórias de Marcio. Mas sonhos envelhecem sim. Claudicam, definham, murcham e croack. Vão antes de quem sonhou. Nossas carcaças sobrevivem a eles, quando somos pouco mais que isso, carcaças.


Com Greene no Haiti

“Preferiria ter sangue em minhas mãos a ter água, como Pilatos”, escreve o doutor Magiot, o heroico médico comunista de Os farsantes, romance de Graham Greene, traduzido antes no Brasil, e creio que mais apropriadamente, como Os comediantes. O livro é o melhor retrato que conheço do Haiti sob Papa Doc Duvalier e sua milícia sanguinária Tonton Macoute. Naquela “horrível favela flutuante a poucas milhas da Flórida”, como define Magiot, apenas a indiferença é imperdoável perante a crueldade institucional. Mas Greene, como sempre, ao espremer a moralidade católica e militante do comunista, diante do crime e da injustiça (ele próprio se definia como um “católico agnóstico”), expõe o limite e o absurdo de crenças e práxis. Seu narrador, Brown, fala em causa própria ao defender os falsários (ou comediantes), os indiferente sem causa, sobre candidatos a heróis tutelados por Marx ou Jesus Cristo:  “… por timidez ou por falta de interesse suficiente, descobrimos que somos os únicos realmente comprometidos — comprometidos com todo o mundo de maldade e bondade, com os sábios e os loucos, com os indiferentes e os equivocados”, lemos pelas tantas, antes da conclusão desse parágrafo, que cita Wordsworth: “Não escolhemos nada a não ser continuar vivendo, ‘girando no curso diurno da Terra. Com rochas e pedras e árvores’.” Mas a comédia humana de quem se aventura na Terra de Papa Doc também é carnal. Brown padece de ciúme da amante, talvez por ver na esposa do embaixador a figura da mãe que o abandonara ainda menino, a quem nunca pode amar. O rum, mas principalmente o sexo, tornam sua existência suportável naquele inferno.

Graham Greene (1904-1991) em 1939. Foto Wikimedia Commons (domínio público)


Homenagem a Elza

Elza Soares fez 90 anos em 2020. A revista da União Brasileira dos Compositores publica em seu número de fevereiro textos de Chico Buarque e Caetano Veloso em homenagem à artista. Ambos tem grande relevo na vida de Elza. Chico e família a acolheram em Roma, no final de dos anos 1960, quando a massacravam por aqui por ser amante de Garrincha, e Caetano deu-lhe o ombro para chorar e a fez renascer como cantora, quando a chamou pra gravar sua paradigmática Língua. O Globo adiantou os artigos. O de Chico, especialmente, é do balacobaco, uma série de instantâneos de Elza em várias épocas com parágrafos introduzidos por Se acaso você chegasse, nome do samba de Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins, um dos primeiros e maiores sucessos da hoje nonagenária, gravado em 1960. Vai uma pitada:

“Se acaso você chegasse ao Teatro Record em 1968 e fosse apresentado a Elza Soares, ficaria mudo. E ficaria besta quando ela soltasse uma gargalhada e cantasse assim: ‘Elza desatinou, viu’.”


Ela e eu

Essa é uma de tantas canções de Caetano (gravada primeiro por Bethânia no LP Mel, de 1979, e mais tarde por Simone e Marina, só!) que me fazem um bem danado, pela beleza da melodia, poesia e rigor na versificação. O último verso diz assim:

Outro homem poderá banhar-se
Na luz que com essa mulher cresceu
Muito momento que nasce
Muito tempo que morreu
Mas nada é igual a ela e eu

Até onde pude verificar, Caetano a gravou pela primeira e única vez no registro do show Ofertório, dele e filhos, em 2018.



Enquanto isso, no ex-caderno
de ex-cultura…

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Seus problemas se acabaram. Você, progressista que odeia a Globo desde criancinha, e você, das hostes terraplanistas do Caveirão, que vive a xingar a ‘Globolixo”, já podem ver sem culpa o verdadeiro show da vida.

Recorte da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

Para fazer colunismo de rede social basta um telefone esperto, ensina Mônica Bergamo a estudantes de jornalismo.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (25/01)

O menino que fez o título idiota acima deve se considerar um progressista especialista em “funk de raiz”, daí o segundo título idiota. Certamente não sabe quem é Nara Leão. Apenas cogitar que Nara já foi uma mocinha “frágil de joelho bonitinho”, em 2021!, revela uma ignorância suprema e irreversível.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (23/01)

Mais colunismo de rede social e mais uma inculta e exemplar reportagem de ex-cultura, tal gênero criado na Barão de Limeira.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (24/01)

“Veja”, “leia”, “saiba”. O caça-clique é imperativo e generoso como pau de galinheiro.

Recorte (captura de tela) da Ilustrada, Folha de S.Paulo (22/01)

Retratos do Brasil no melhor ex-caderno de ex-cultura do Brasil. Não tem preço.


Sua excelência veterinária

Recorte (captura de tela) no site da revista Piauí (21/1)

O Dr. Laurício Monteiro Cruz é o homem ideal para o cargo que ocupa no Ministério do General da Banda da Saúde. Ora, doutor Cruz, cura-te a ti mesmo e aos seus. Neguvon e Ripercol para todo mundo aí, tá ok?


Leite Moça e leite de jumenta

Sua excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e os seus parecem encher piscinas olímpicas com leite condensado, ou tomam porres homéricos em bacanais animadas com o produto da Nestlé, uma multinacional suíça. Se ainda fosse leite de jumenta (o Kg do seu queijo pode custar 3 mil reais, veja no vídeo), poderiam alegar que patrocinavam o agronegócio nacional, que é pop, e tudo ficaria em família, entre iguais.


Olha o nível, Caveirão: language!

Sua excrescência jumentíssima, segundo Eugenio Bucci “um atendo ambulante à Constituição”, tem o linguajar do machão violento e analfabeto a ostentar a própria ignorância, como o fedor que emana de um lixão. Esta publicação de família não vai repetir o que nosso pré-fascista disse (vai no vídeo abaixo para quem tem estômago) sobre a imprensa, reagindo ao escândalo do leite condensado, o Moçagate. Líderes autoritários ou totalitários desde Hitler abominam a imprensa. Trump (toc, toc, toc), Caveirão, Orban, o polonês Kaczyńsk são aprendizes dessa escola. “Nos nossos dias, os fascistinhas de Facebook que repetem o xingamento ‘Globolixo’ ecoam a campanha nazista baseada na palavra infamante Lügenpresse”, anota Bucci, citando a palavra alemã que pode ser traduzida como “imprensa mentirosa”. O que Bucci não diz, ou diz pisando em ovos, é que a Globo há muito é a nêmesis tanto da direita antidemocrática como da esquerda mais excitada que exalta os ditadores de Cuba. O epíteto Globolixo difrata o eco do bordão “Abaixo a Rede Globo” de décadas atrás. São iguais nessa noite antidemocrática.

Melodia sentimental para um amigo na pior

Jurupoca_54. 15 a 21/1/2021. Ano 2.

Lua: “Tão linda que só espalha sofrimento/ Tão cheia de pudor que anda nua”. Fotos (créditos, acima e no alto da página): Domínio público/Pxhere/Creative Commons

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Moraes

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Soneto do Corifeu, Vinicius de Moraes, Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sim, sou um sentimental, caranguejeiro, mas sou.

Buscava qualquer espécie de boia, lenitivo, depois de falar com um grande amigo entristecido, na pior.

Se dois bicudos não se beijam, dois deprimidos, ainda que ocasionais, são um risco geológico.

Isolados e distantes, nem tomar um porre juntos mais podemos, para mandar tudo às favas, ainda que haja uma espécie de tristeza refratária ao álcool.

Meu velho amigo anda de farol baixo há vários meses, o que faz dele (alguém naturalmente expansivo, até onde alguém do interior de Minas pode ser, e dado à risada e à amizade), um ser encabulado.

Nunca me falou isso, mas é desses que acham que depressão é para os fracos.

É certo que sempre foi uma rocha. Sofreu perdas horríveis e enfrenta uma condição complicada com bravura. Mas ninguém é uma rocha. Nem areia, rocha degradada, somos. Ou pergunte ao pó.

O vírus, por certo, não ajuda.

Mas e a boia de salvação? Não há.

Como sempre, quem procura pode achar alguma consolação transcendente, já que amizade é luxo contingente.

E não há outra fonte de consolação mais fiel que a música.

Logo reencontrei a Melodia sentimental de Heitor Villa-Lobos, peça da cantata A Floresta do Amazonas, letrada pela poeta e embaixatriz Dora Vasconcellos.

Villa-Lobos trabalhou na suíte depois de ver que sua música para o filme Green Mansions, de 1950 (dirigido por Mel Ferrer e estrelado por Audrey Hepburn), fora malbaratada pelo polonês Bronislaw Kaper.

Ele deu a volta por cima. A Floresta está entre as últimas obras primas que escreveu.

Melodia sentimental tem dezenas de lindas versões: orquestrais, instrumentais, líricas, populares.

A MPB coleciona registros esplêndidos de Elizeth Cardoso, em disco de 1967, Maria Bethânia, Mônica Salmaso, Zizi Possi, Paula Morelenbaum, Ney Matogrosso, Olivia Byington etc. Há 43 fonogramas registrados no site do IMMub.

Aqui, como em tantas outras peças, Villa é o mago das melodias que salvam ou por instantes reparam nossa humanidade cindida.

À música aglutinou-se a poesia de Dora Vasconcellos numa peça esférica, de lancinante profundidade melódica.

A gravação na potente voz de Elizeth — com acompanhamento sinfônico e todos os vibratos a que tínhamos direito — a de Djavan, que ouvimos na belíssima cena final de Deus é brasileiro, o bom filme de Cacá Diegues — e a de João Bosco — faixa do álbum Da licença meu senhor (1995), com um arranjo soberano de sua autoria, apenas com seu violão e os de Marco Pereira, incluindo um de oito cordas — são as minhas favoritas, entre aquelas que pude ouvir.

Mas agrego nessa eleição o álbum A floresta do Amazonas (Kuarup, 1987, remasterizado em 2020), de Jaques Morelenbaum, Wagner Tiso, João Carlos Assis Brasil, Jurim Moreira e Ney Matogrosso (a Melodia está na Suíte I faixa 11).

Aí vão, com a letra de Dora, dedicadas ao meu amigo entristecido e à nossa amizade à beira de completar meio século.

Aliás, meu velho, essa Ju é pra você. Aguente firme.

E vamos juntos!

MELODIA SENTIMENTAL

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que fulge tão bela e branca
Derramando doçura

Clara chama silente
Ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera

Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Lua e luar. Foto (crédito): Domínio Público/Pxhere/Creative Commons

Aberração na sala

A Presidência ocupada por Sua Excrescência Jumentíssima é uma aberração. Enquanto seu amado molde cor de burro fugido toma o segundo processo de impeachment nos EUA, nosso Congresso segue a normalizar sua cópia fajuta — e ainda mais danosa que o original. O país tem uma aberração dentro da sala, mas o pragmatismo parlamentário não a vê. Pois veremos até onde e quando.

A mensagem do meio

Pós-verdade é pré-fascismo, diz o historiador Timothy Snyder no melhor artigo que li sobre o Putsch de Washington (O abismo americano, em inglês no New York Times). Snyder lembra que não pode existir sociedade civil sem concordância sobre fatos básicos, e que a verdade se defende realmente mal sob artilharia pesada. Trump e governantes como Putin surfam numa era de decadência do jornalismo. “As redes sociais não substituem” o jornalismo, diz o acadêmico. As redes “sobrecarregam os hábitos mentais por meio dos quais buscamos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que se sente como verdadeiro e o que é realmente verdadeiro”. Como diria aquele policial de Agosto, o romance de Rubem Fonseca, aí está o busílis. Mesmo numa democracia como a norte-americana, tida e havida como a mais sólida e funcional da Terra, alguém da laia de Donald Trump consegue quase 80 milhões de votos sustentado por ficções grosseiras e pensamento mágico.

Piscadela de Barthes

A linguagem de Trump (e a de Caveirão.105mm é ainda pior) é brutal, inculta e incompreensível fora do botequim. Como seu aplicado discípulo dos trópicos,  é impiedoso ao espancar o idioma e dependente das redes sociais para falar à plebe. O professor da USP Elias Thomé Saliba comentou no Estadão A língua de Trump, livro da linguista e tradutora francesa Bérengère Viennot, uma análise minuciosa de centenas de discursos e tuítes do Espantalho Laranja. Seu vocabulário primário e raso e uma sintaxe truncada, recheada de repetições vomitórias, emojis e expletivos como “wow”, “sad”, “great” são o horror dos tradutores. As falas brucutus soam incompletas ou sem sentido para quem se educou no idioma culto. Como Caveirão.105mm, Trump rebaixou ao lupanar todos os padrões da linguagem pública, tal como, diz Saliba, o universo moral da comunicação política. Saliba imagina Roland Barthes — que comparou o discurso que abole o referente, ou contexto, ao discurso esquizofrênico, num ensaio muito anterior à internet —a nos lançar uma piscadela do túmulo.

Banido do eldorado

 “O Twitter é algo maravilhoso para mim, porque consigo transmitir a mensagem… talvez eu não estivesse aqui conversando com você como presidente se eu não tivesse uma maneira honesta de comunicar a minha mensagem”, disse Trump, em março de 2017, num raro arroubo de sinceridade. Caveirão.105mm poderia assinar embaixo, incluindo as outras redes. Trump deve ter sentido o golpe ao ser banido do Twitter. Bem, veio tarde, como o banimento do Caveirão virá tarde. As redes sociais não são a nova esfera pública da democracia, são oligopólios trilionários a viver de expansão e lucro. Enquanto não forem quebradas ou enquadradas pelo estado, muita patacoada se dirá sobre liberdade de expressão e os desatinos do debate público na democracia.

Elites e ralé

Hannah Arendt, em As origens do totalitarismo, descreve a aliança entre elite e a ralé (o refugo da burguesia), a escória social. Lembra o que vemos hoje, quando o populismo de direita deita e rola na tecnologia para galgar o poder, e a esquerda ultraprogressista atua como árbitra do galinheiro. Arendt é fabulosa. Por sinal, seu livro é obrigatório, hoje, para entendermos o que está em jogo. “O que as massas [o conjunto dos indivíduos atomizados] se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita”, ela escreve (à página 458). “Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso.” A realidade paralela do negacionismo e da pós-verdade se dá no mesmo plano. O demagogo sabe perfeitamente com quem fala.

A produtividade de “Nosso Kassio”

O mais novo ministro do STF, Kassio Nunes Marques, para sempre “Nosso Kassio”, impressiona a ralé por seu saber jurídico e relativa independência. Relativa pois, pois. A autonomia do magistrado excetua toda e qualquer interesse bolsonarista. Decoroso, escrupuloso, confiável, irrepreensível, fiel, “Nosso Kassio” tem recebido seguidas congratulações de quem o indicou e realizou seu desejo mais profundo. E mais uma vez, sua excrescência jumentíssima parabenizou seu garantista de algibeira ao ver concedida liminar liberando a pesca predatória no Rio Grande do Sul, como mostrou reportagem da Piauí.  

Fran e Marty

Fran Lebowitz é incrivelmente inteligente e engraçada. E sua nova parceria com Martin Scorsese, a série documental Faz de conta que NY é uma cidade, o que de melhor surgiu no Netflix nos últimos tempos. A arte e amizade de Scorsese servem de escada para o brilho da escritora, comediante e atriz eventual, hoje aos 70 anos. Judia, homossexual, autodidata expulsa do colégio, ex-motorista de táxi, que figura é Lebowitz! Seu tipo de humor e atitudes só podem existir numa cultura livresca como a nova-iorquina, ao menos no legado de sua era gloriosa. Os sete episódios curtos de Faz de conta… lembram muito a íntima relação com a cidade que vemos nos filmes de Woody Allen, de quem, aliás, ninguém dá mais notícia. O melhor são os comentários de Fran sobre livros, arte, cultura. Ela foi chegada de Charles Mingus, e narra passagens deliciosas sobre seu círculo jazzístico. Mingus era de uma arrogância fabulosa, ela diz, e apenas se curvava e se calava diante de Duke Ellington. Fina ironista, Lebowitz caçoa das fantasias atuais sobre bem-estar, leveza, saúde, dinheiro e vida eterna dos rapazes do Vale do Silício. Boa atriz, representa a si mesma, uma senhora elegante a andar anonimamente por ruas de Nova York, com seus movimentos captados num excepcional trabalho de câmara. Sua expressão diante de umas moças em malha puxando grandes pneus no meio do burburinho da cidade, como condenadas de um Gulag, é indescritível.

Construção cinquentona

Deus lhe pague e Construção, com arranjos sinfônicos de Rogério Duprat, são a alma do álbum lançado em novembro de 1971, mas que já se começa a celebrar. Essas duas faixas, potentes respiradouros num país então sob as botas dos generais, não roubam completamente a cena. Construção (lançado pela Philips, dirigida no Brasil por André Midani, responsável pela contratação de Chico Buarque, com Roberto Menescal na direção artística) é um disco de sólida integridade em sua pouco mais de meia hora que parece guardar muito mais tempo, um prodígio do formato LP, quando era bem explorado. Magro, o músico do MPB-4, apelido artístico de Antônio José Waghabi Filho, morto em 2012, zelou pela direção artística e arranjou algumas faixas. Ouvimos Jobim ao piano abrir energicamente Olha, Maria, ele autor da melodia letrada por Chico. Cotidiano, a segunda faixa do lado A, tornou-se algo como um épico urbano antes de Belchior. Valsinha (Chico e Vinícius de Moraes) traz uma pitada sensual às faixas propriamente líricas, com Cordão, Desalento e Acalanto, que cantei muito para ninar meu milho. Samba de Orly (com Vinicius e Toquinho) e Minha história, versão em português feita por Chico do italiano Gesù bambino, canção de Lucio Dalla e Paola Pallottino agregam outros registro ao variado clima emocional de Construção, marco temporal luminoso na história da MPB.

Bangue-bangue

O prazer de reencontrar o western. Nem é preciso rever um clássico como Matar ou morrer ou O homem que matou o facínora. Um faroeste classe c como O vale da vingança (1951), que encontro no péssimo Looke, dirigido por Richard Thorpe, com Burt Lancaster como herói, já nos dá um gosto da grandiosa dimensão desse gênero mitológico. Quem tem menos de 50 anos dificilmente entenderá a força do imaginário de um bangue-bangue. Em essência, são narrativas de excelência que resgatam a conquista destrutiva do oeste e o rastro sanguinário no caminho da civilização. A maravilha inóspita da natureza é o palco de dramas shakespearianos inesquecíveis. E o caráter masculino à prova nesse elemento selvagem, a matéria prima dos conflitos. Sua riqueza criativa é impressionante. De John Ford a Sérgio Leone, passando por Fred Zinnemann ou Sam Peckinpah, quanto deleite para um cinéfilo! O prazer de reencontrar o western é o prazer do grande cinema.

Enquanto isso, no ex-caderno…

O jornalista mais experiente da ilustrada terá 23 anos completos? Para essa geração, o que não é sucesso nas redes sociais não existe. O pensamento social é o que celebridades postam e a obediência cega à correção política e à bula da “diversidade”. A criação artística não tem espaço entre a atualização de aplicativos e horas dedicadas ao corpo e gadgets. Que na Barão de Limeira ainda acreditem que esteja aí o futuro da empresa e do jornalismo na internet, para mim, e para quem lê os melhores jornais do mundo, é um baita mistério.

Chavões para abrir o Brasil

Jurupoca_50. 4 a 10/12/2020. Ano 2

Na última sexta-feira (27/11) me surpreendi com esse efeito de luz , fundo e flor.
Cascatinha do Parque Municipal Renné Gianetti, no Belo.
 
LA VIDA NUEVA – A VIDA NOVA

 MI DIOS ES HAMBRE — MEU DEUS É FOME

 MI DIOS ES NIEVE — MEU DEUS É NEVE

 MI DIOS ES NO — MEU DEUS É NÃO

 MI DIOS ES DESENGAÑO — MEU DEUS É DESENGANO

 MI DIOS ES CARROÑA — MEU DEUS É CARNIÇA

 MI DIOS ES PARAÍSO — MEU DEUS É PARAÍSO

 MI DIOS ES PAMPA — MEU DEUS É PLANÍCIE

 MI DIOS ES CHICANO — MEU DEUS É AFRO    
     
 MI DIOS ES CÁNCER — MEU DEUS É CÂNCER

 MI DIOS ES VACÍO — MEU DEUS É VAZIO

 MI DIOS ES HERIDA – MEU DEUS É FERIDA 
          
 MI DIOS ES GHETTO — MEU DEUS É GUETO

 MI DIOS ES DOLOR — MEU DEUS É DOR

 MI DIOS ES — MEU DEUS É

 MI AMOR DE DIOS — MEU AMOR DE DEUS 

Poema do Chileno Raúl Zurita que teve seus versos formados no rastro de pequenos aviões no céu de Nova York. Extraído do livro Tu vida rompiéndose, Penguin Randon House. Livre tradução de quem vos escreve. Zurita também é autor de poemas escritos (e inscritos) no deserto de Atacama. Um fragmento da performance, ocorrida em 2 de junho de 1982, pode ser visto neste vídeo:

Cascatinha, Parque Municipal Renné Gianetti, BH
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá

Frufru manera, Frufru manera, Frufru
Frufru manera, Frufru manera, Frufru

 

Trecho de Manera Frufru, manera (Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra), canção-título do álbum de Fagner lançado em 15 de maio de 1973, com produção de Roberto Menescal e arranjo de Luiz Cláudio Ramos.

“Versão gravada em 1972. Sobras de estúdio do álbum Manera Frufru Manera”, conforme o canal do YouTube Mucurype 49.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

É só catimbó e o Chicó tá no icó tralalá…

Sou reservista. 5ª Categoria, mas honrado reservista (incluído no “excesso de contingente” de 1980, Certificado da 4ª Região Militar do Ministério do Exército Nº 153652).

De 5ª Categoria são os reservistas que tocavam e cantavam Para não dizer que não falei das flores com a patota inebriada de Brahma e bongo (o mesmo que bagulho). Primeira classe tinha quem cantava Sabiá.

Neste instante estou disposto como uma gaivota a servir a pátria. Vosmecê sabe, a gaivota é uma ave marinha típica das Minas dos Matos Gerais.

E aqui — o Itamar Franco se ufanava disso — temos pólvora, chumbo e bala (apud op. cit. Milton Nascimento & Tavinho Moura).

Nós queremos é guerrear Xi Jinping.

Se a guerra contra China for declarada, aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons. Qu’un sang impur abreuve nos sillons!

Brasília vai lançar foguete contra os amarelos e dedetizar o Super Corona Kung Flu que eles criaram. Xi Jinping e Kim Jong-un vão contra-atacar.

E até dizem que dessa vez é pra valer: Cuba lança!

E quero ver Cuba lançar!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A arte de não abandonar a zona

Confessei, numa furtiva lágrima, numa das primeiras Jurupocas, que o mais gabaritado coaching seria um rematado picareta aqui na redação. Um padre faria um trabalho melhor. Como jornalista inativo, não me reciclei, não me reinventei, não saí da zona, da zona de conforto, não aprendi a fazer biscoito, cookie nem pamonha para fora; criar galinhas poedeiras, então, que utopia! Para não lembrar que quando ouço falar em marketing, mormente “marketing digital”, me segura!, ou pulo do Viaduto das Almas.

O que serei quando crescer

Acho que tenho talento para influenciador analógico! É o que quero ser quando crescer. Como não havia pensado nisso? Precisou de um gênio, Sir Gordon Jô Soares, se definir como tal, influenciador analógico, numa cartinha ao nosso, quer dizer, vosso “ExcelentíSSimo!” (sic) presidente, para que a Ju acordasse e vislumbrasse seu target e seu benchmarking (com o perdão da pornografia) neste mercadão de meu Deus.

Influenciador digital x influenciador analógico

O influenciador digital é quem tudo sabe e tudo ensina sobre cada retalho de uma colcha de retalhos. É capaz de isolar e dividir para “monetizar” um retalhinho assim de nada em pixels, bits e bytes, tudo em inglês, claro. Já a tarefa do influenciador analógico é dura e altruísta. A este profissional cabe referenciar um retalho com outro retalho e outro conjunto de retalhos de uma colcha de retalhos, o antigo contexto. E ninguém entende nada! Perde a paciência. O digital não precisa ter esses cuidados, afinal digitalizou-se também a história. E o tempo (antes, agora, depois) liquefez-se. O digital influencer tem mais é que ir em cima do clic e do stream, e bater bola no Insta, no Face e por aí, tá sabendo; já o analogic… coitado dele.

Uma rara foto do autor da Jurupoca

Jornalista cultural e futuro influenciador analógico, o titular da Ju, um leitor de poesia e ouvinte de música antiga (MPB) agarra-se, para sobreviver, à primeira oportunidade que aparece.  Mas ninguém o tira da zona, de conforto, isso não! Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE 

Poetar é preciso, viver…

“O dia que se deixe de escrever poesia, acabará a Humanidade”, diz o poeta chileno Raúl Zurita, galardoado na Espanha com o prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana. Na mesma entrevista ao El País ele compara o ofício do poeta ao do engenheiro. “Se cai uma ponte pode morrer muita gente, se um poema cai não acontece nada. Mas é muito mais difícil erguer um poema que uma ponte”. Outra do Zurita, agora em conversa com o catalão El Cultural: “A poesia está mais perto do sofrimento real que qualquer outra literatura, por isso é importante escrever poesia agora, ainda que não se leia”, reflete, sugerindo que os poetas devam olhar para as angústias e incertezas da pandemia. Acho que já disse nesta Ju do gosto que tenho por descobrir um grande poeta, seja onde for. Zurita, até onde sei, não é traduzido no Brasil, o que é notável, isto é, notável desinteresse dos editores. O Chile é um país de grandes escritores e tem dois poetas nobelados.

“Irracionalmente relevante”

Andrés Seoane, no El Cultural, lembra no papo com Zurita outro proeminente ficcionista chileno: Alejandro Zambra, para quem o Chile é “um país literário, onde a poesia, curiosamente, é irracionalmente relevante”.

Pornô com “diversidade”

Helahoho! helahoho! Houve um tempo no Brasil em que alguém ainda citava num boteco dois versos de Bandeira, um poemeto de Drummond ou um soneto do Álvares de Azevedo. Agora nem letra de música — gênero vizinho da poesia e que ensinou muita gente o português — mais importa. Toca-se, canta-se e reporta-se qualquer coisa, inclusive o pornô, desde que um pornô com correção política e selo de “diversidade”.

Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura
mais vanguardeiro da América do Sul…

Os meninos da Barão de Limeira são uns danados, sô. Agora nos revelam, leitores ávidos que somos, a geopolítica da modernidade dos jogos eletrônicos. A Ilustrada, tal ex-caderno, nos próximos capítulos vai nos trazer o que a Hungria de Viktor Orbán e a Bielorrússia de Lukashenko têm de culturalmente mais diverso, embora nesses países, a democracia pene. E a Eslovênia vem aí. A Polônia, berço de literatas como Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk, cada qual com seu nobelzinho, foram bem esquecidas. Claro, na música erudita ou no cinema, o país também teria muito a declarar, ontem e hoje, mas isso não tem nada a ver, e onde já se viu um gamer se interessar por outra coisa além games? A Polônia, pobre Polônia, violada por nazistas, soviéticos e autoviolada, agora é potência e vanguarda desse novo gênero de lazer elevado a 9ª ou 11ª arte pela Ilustrada: os jogos eletrônicos, e nada mais vem ao caso. Mas a “democracia pena” por lá. Como pode? Nem uma pista histórica? E a Iara Rennó?, artista genial que “expande os limites da música”. Um Bach, se vivo estivesse, invejaria tal expansão de limites. Disco erótico? Matutamos na redação se o menino ou menina que escreveu a matéria terá ouvido a trilha de Emanuelle, ou o mela-cueca-e-calcinha de primeira que foi Je t’aime moi non plus, com Jane Birkin et Serge Gainsbourg.

Cuba e o negacionismo da esquerda garnisé

A vida do artista inconformado não é fácil lá na Ilha do Fernando Moraes, do Chico Buarque, do Boulos, da Gleisi Helena Hoffmann. Como se sabe, Cuba é um país livre, y cual solamente puede ser libre, e ai de quem não é! A quienes no son solamente libre, os rigores da cana brava e da prensa oficial (digital e analógica). “A primeira coisa que a polícia política faz ao prender um artista é confiscar e desfigurar seu telefone celular”, fofoca o imperalista Rafael Rojas na revista mexicana Letras Libres, num despacho de La Habana. A greve de fome de integrantes do Movimiento San Isidro, coletivo de jovens artistas e intelectuais desse bairro paupérrimo, terminou com a  borracha comendo. A turma protestava contra a sorte do rapper Denis Sólis, que vai curtir oito meses com vista para o sol enquadrada. O coletivo está cheio de “marginais”, “delinquentes”,  “agentes do imperialismo”, como se soube pelas revelações do regime em seus jornais e perfis nas redes sociais. Na Ilha amiga do PSOL e do PT, o regime decide no decreto quem é ou não é artista ou pode ou não pode fazer cinema independente. A reportagem da Ju tentou ouvir o outro lado, a franja cubófila da nossa esquerda garnisé, hoje de muito boas relações com o “mainstream” do jornalismo nacional, mas até o fechamento desta edição, nada.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (1)

Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são. Mário de Andrade bem que tentou diagnosticar nossa problemática essencial no Macunaíma. Bola fora! Muita saúva, pouco Siúves, os males do Brasil são. A emendava do saudoso colunista Marcelo Rios saiu-se ainda pior. Os índices depravados da má qualidade da educação fundamental e o cocô de metade do país a escorrer por ruas e valas (olha a perpetuação da pobreza aí, gente!), os males do país são. Na, na, ni, na não. A obscenidade da administração pública, o roubo, o sistema de casta do funcionalismo estatal e da Justiça, os planos econômicos delirantes, os males do Brasil são. Ih, tá frio, frio, tá gelado. Nada disso ajuda ninguém mais a pensar direito. Triste Brasil! ó quão dessemelhante. Não sei se ainda se se pode, impunemente, parafrasear o Gregório de Matos sem “direito de fala”. Pode? Cartas para a redação.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (2)

A imprensa virou uma câmara de eco das redes sociais. Ecos são modas, e todo mundo sabe de tudo desde os cueiros, até que venham novas ondas e modas, novos escândalos, novas gravações quentinhas. Obras seminais sobre escravidão, formação da República, analfabetismo, política oligárquica, patrimonialismo etc., que escarafuncham nossa história com ou sem imaginação, caíram do galho. Anuncia-se para qualquer momento a tradução do país segundo o “lugar de fala”. Vêm aí o Gilberto Freire, o Sérgio Buarque de Holanda, o Raimundo (ou Raymundo) Faoro, o Darcy Ribeiro capaz de revisar tudo sem a miopia da branquitude, como se sugeriu no último Foro de Teresina. Espera-se o advento de um diplomado em Harvard capaz de encaixar a “cultura do estupro” e o “racismo estrutural” na equação.  Asseiam por novas chaves gerais, boas para abrir as portas da esperança no Brasil, e para iluminar nossa natureza e nossa miséria.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (3)

Chaves ideológicas dão hashtags e desaguam no mar teorético, quando sabem a chavões. Chaves gerais abrem cabeças, como o serrote daquela revista. Talvez nos façam menos burros, mais humanos, outra gente que, enfim, vai brincar na nova ordem moral o Carnaval da Democracia.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (4)

Chaves gerais abrem os portais do Brasil, da nacionalidade, da “cultura” disso e daquilo, dos vícios e perversões totalizantes. Afinal, mostram que nada pode ser feito contra realidades “estruturais” e estruturantes, até que caiam as estruturas. Gestores públicos e a velha (ou a nova) política tricotada no Parlamento vão dormir em paz, sossegados para cuidar de seus afazeres, lobbies e pecúlios. Até que caiam as estruturas.

Nossos comerciais, por favor!

Peroba que é madeira. Paca/tatu que é caça. Correinha que é primeira. Correinha que é cachaça. Bote mais uma!

Coppola e o Poderoso chefão 3, coda

O elenco de O poderoso chefão — Desfecho…
Francis Ford Coppola fala sobre O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone e explica o sentido do termo “coda” (no título em inglês) emprestado da linguagem musical para rebatizar o filme

«Como Francis Ford Coppola regressou para fazer O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone. No New York Times. A nova versão estreia nesta quinta (3) e na terça-feira (8) estará disponível em várias plataformas de streaming: Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video e PlayStation Store. O longa-metragem foi remasterizado com resolução 4K. O título, em inglês Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone  (O Poderoso Chefão  de Mario Puzzo, coda: A morte de Michael Corleone) valoriza o trabalho de Puzzo (1920-1999), roteirista da saga e autor do romance no qual a trilogia é baseada. A remontagem retoma ideias de Puzzo e Coppola, hoje com 84 anos, recusadas pelo estúdio há 30 anos. O filme, com um novo começo, um novo desfecho e cenas reposicionadas, volta ligeiramente encurtado. »

«A amarga verdade de La dolce vita. No El País.»

«Brasil viveu ‘utopia’ de que internet seria democratizante, diz pesquisador. Entrevista com Francisco Brito Cruz, autor do livro Novo jogo, velhas regras. Na Folha de S.Paulo

«Emmet Cohen Trio feat. Cyrille Aimée: “La Vie en rose”. A live gravada na casa da jazzista francesa está há menos de um mês na youtubaria e já foi vista, quando enlaçada aqui, 234.613 vezes. E quem ainda não viu é mulher do padre!»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. 4º e último episódio. É do balacobaco. Ouçam João em Corsário , canção que parte do Adágio do Concierto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo, e Amigos novos e antigos, inspirada em uma música do disco Abbey Road dos Beatles, Sun King, em que John Lennon diz a palavra “obrigado”. Ambas são dele e Blanc.»

Ê, Minas, oh Minas

Paulo César Pinheiro é letrista de mão cheia, fabuloso, ninguém pode negar. É autor da épica Matita Perê (com Tom Jobim, do disco homônimo de 1972) e de Desenredo (encomenda de Dori Caymmi), uma canção singela sobre vida, morte e a consolação do amor.

Ambas se inspiram em Minas Gerais e na obra de João Guimarães Rosa, evocadas no imaginário dos artistas em foco neste Intervalo.

Em uma entrevista a Ana Clara Brant para Estado de Minas sobre a história dessa composição, em que lembra seus dias no estaleiro, depois de romper o tendão do calcanhar numa fatídica pelada, Dori se apresenta como “33,3% baiano, 33,3% carioca e 33,3% mineiro”.

Nasceu no Rio, fruto da união do baiano Dorival com dona Stella Maris, mineira de Pequeri, vizinha a Juiz de Fora, onde os Caymmi têm casa e onde Nana cumpre esta quarentena.

Sobre a influência de Rosa, César Pinheiro disse ao jornal:

“De tanta paixão, acabei assimilando aquela maneira de escrever. Rosa me ensinou a amar o sertão mineiro; foi a partir da literatura dele que procurei saber tudo. Conheci Minas em seus livros e só depois fui conhecê-la in loco. Quando me casei com a Clara [a cantora Clara Nunes], ela desbravou muitos lugares comigo”.

Desenredo foi composta e lançada por Nana Caymmi em 1976, no LP Renascer. Ela canta a faixa acompanhada pelo violão do mano e um fundo de cordas. Mas vale a pena dar uma olhadela na estelar ficha técnica desse álbum:

João Donato: Piano
Dori Caymmi: Violão, piano
Nelson Ângelo e Milton Nascimento: Violão
Danilo Caymmi: Violão, flauta
Fernando Leporace e Novelli: Baixo elétrico
Luiz Alves: Baixo acústico
Hélio Delmiro: Guitarra
Robertinho Silva: Bateria
Rubinho: Bateria e percussão
Direção de produção e arranjos: Dori Caymmi

Gosto tiquinho mais da gravação de  Edu Lobo no álbum Tempo presente (1980), com participação de Dori no canto. O arranjo, mais uma vez de Dori, é ensolarado como uma manhã de Cordisburgo. Nas duas gravações, seu violão autoral é a alma do negócio. Eis a ficha técnica:

Café: Chaves e coco
Chico Batera: Sino e triângulo
Edu Lobo: Pau de chuva
Chiquinho do Acordeom (Romeu Seibel): Acordeom
Dori Caymmi: Violões
Luiz Alves: Contrabaixo

DESENREDO – Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas/tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda solto/morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo 

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me perco/enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Perdidos no espaço analógico

Jurupoca #46. Desde o Belo, 6 a 12/11/2020. Ano 2

Soneto 178 – Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Era uma vez uma cartinha analógica que explorava galáxias na mandatória nave Júpiter II em busca de um atalho, um “buraco de minhoca”, para alcançar o mundo digital.

O missivista sabia que perseguir tal atalho era pretexto vão de um navegador extraviado, epa, fadado, debalde, o mesmo que embalde, a navegar e navegar sem rumo por aí, isto é, pelas galáxias.

Ainda que chegasse à pretendida dimensão espaço-temporal, lá não haveria ninguém capaz de decifrar a escritura analógica, nascida do ser analógico arredio, o mesmo que dévio, assegura o Houaiss, do missivista.

Os seres daquele mundo, daquele tempo, não tinham tempo nem (acima de tudo) proveito, aqui o mesmo que interesse, no sentido de pecúnia, com quimeras analógicas: analogias, metáforas, ironias.

Dicho sea de paso que a palavra “quimera” se necrosara no corpo do idioma, aliás, também a própria colocação pronominal, além dos vocábulos implícitos: “carta”, “missivista” o “escambau”.

Naquele mundo a palavra desencantada sepultara de vez a moribunda e patética poesia, ao menos o moribundo e patético poema analógico.

É que a lavra poética havia muito fora assumida pela inteligência artificial robótica no mercado digital de cliques.

Aplicativos abertos tornaram acessível, inclusive aos mais patetas, mesmo que parvos, a fatura poética como, acima de todos os propósitos, a inteira gama da criação literária e musical.

Robôs poetas sugeriam os versos dos putativos, no sentido de supostos, poetas compartilhadores (sic), desde a pré-história dadivosa e virtuosa, como também lacrimosa, do Instagram, naquele multitudinário mundo da criação instantânea.

Naquele mundo intenso, a publicidade conseguira de vez recriar-se no ativismo exclusivo dos mais ativos, verdadeira revolução no vender o peixe antediluviano dos criativos.

Era capaz, a publicidade, de fixar na imagem de uma empresa suja como pau de galinheiro a benévola aura duma Santa Dulce dos Pobres, ou de converter o capital supremacista num baluarte da luta antirracista.

Bastava, em suma, deslanchar uma onda de hashtags em inglês engajadas e virtuosas formuladas por criativos tecnicamente multitalentosos.

Mas isso e o resto são detalhes.

Significativo é narrar que, ainda assim, careca de saber de tudo isso e aquilo, nosso pugnaz missivista seguia a alçar tamancas e bater cabeça pelas galáxias, atrás de unzinho “buraco de verme”, assim traduzido do inglês “wormhole”, para contrabandear suas cartinhas para o mundo digital, mundo que punha no chinelo aquele outro, admirável, de um tal de Aldous.

Cuá, dizia o missivista para si próprio, resignando-se num remordimento de intra-imo, como o Dedalus do Joyce, isto é, do Houaiss, e salvando-se com a prima Naná com esse peculiar “cuá” familiar.

Pois, cuá, dizia, que ficassem por lá, transviadas, aquelas cartas analógicas, expressão de um ser analógico perdido no espaço, caso, claro, um dia ou uma noite, tais cartinhas deparassem um “buraco de minhoca” e pulassem a cerca espaço-temporal inteirinhas da Silva.

Cuá, que se acumulassem na posta-restante que não haveria, a espera de civilizações superinteligentes, faladoras de todas as formas do inglês do universo, como aprendeu quem viu muito Jornada na estrelas.

Fantasiava que tais exegetas, no caso comentaristas, lograriam ler, interpretar e, finalmente, despachar suas cartinhas, no sentido de, pelo amor de deus, nos livrar a todos de tais escritos até, inclusive e pelo menos, o fim do mundo.

Moral da história? Tuta e meia, nonada, equivalentes a ninharia.

Ou antes esta: Era uma vez um pinto pedrês, quer que eu te conte outra vez?

O BREVE RETORNO DE UM ALIEN AO FACEBOOK

Jonathan Harris como o
inesquecível Dr. Zachary Smith

Durou uma semana contada nos dedos de uma única mão o regresso do missivista às entranhas da rede social mais popular da Terra, o tóxico Facebook. Que aventura rosicler desfrutou nosso anti-herói! De cara, imbuído de profunda sinceridade desinteressada, disse um alô para colegas de faculdade com quem não parolava há meio século, com quem, é certo, continuou sem parolar. Contatou um familiar e obteve ansiadas notícias da amada madrinha! Solicitou (sic) a outro amizade na rede, que de pronto lha concedeu (eta nós!). Que viagem, hein, meu chapa? Mas não. Como dantes, sentiu-se, transcorrida aquela fase lunar, e era previsível que transcorresse assim, sentiu-se fantasmagórico, enjoado como uma grávida sem feto nos primeiros meses, talvez com um que outro desafeto, isto sim, sentiu-se a flutuar na estratosfera algorítmica do Zuckerberg como um Dr. Zachary Smith na abertura do seriado Perdidos no espaço, de priscas eras analógicas, mas que se pode recordar nesta página, graças a algum caridoso youtubeiro. Sentiu nosso macunaímico anti-herói, caso permanecesse mais dois segundos naquela dimensão social, que perderia o que lhe restava de carnação, sopro e véu da palavra, além da afanada lucidez. 

O samba-choro E o mundo não se acabou é um dos mais populares na obra de Assis Valente. A maestria do autor pipoca nos versos iniciais: “Anunciaram e garantiram/ Que o mundo ia se acabar…”.

Lançado por Carmem Miranda em 1938, a composição fazia “uma perfeita crônica sobre o fim do mundo, devido à possível colisão do cometa Halley com a Terra”, lemos no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

No segundo semestre de 1999, quando o fim do mundo fez uma de suas rentrées, com o Bug do Milênio, o velho sucesso de Valente foi muito lembrado por rádios e programas de TV.

Um ano antes Paula Toller havia incluído sua versão do samba no álbum da WEA com seu nome.

Ouvíamos uma cantora amadurecida e autoconfiante. Como disse à época um crítico de Veja a brincar com um sucesso do Kid Abelha, a artista conseguira transformar seu rascunho em arte final.

O arranjo de Graham Preskett honra o fonograma de Carmem, mas é ao mesmo tempo moderníssimo.

O colorido é obtido pelo amálgama sonoro de violão, guitarra, baixo elétrico, teclados, bateria programada e sampler. Ritmo e melodia soam ainda mais provocativos, uma autêntica transcriação e adaptação aos modos e recursos da época.

Embora muita gente boa tenha gravado este samba-choro, e entre os mais afamados constem Marlene, Isaurinha Garcia, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, a interpretação de Toller é a que me parece mais vital e pulsante, a que mais se sintoniza com a própria Carmem Miranda, erguendo uma ponte de meio século com inventividade e elegância.

A Toller introduziu um grão de pimenta e liberação feminina, com “cacos” teatrais que atualizam a letra aos costumes, além de uma introdução sacaninha sobre a frase instrumental da abertura. Assis Valente, estou certo, se sentiria honrado com a saudável e ousada e loura intérprete de seu hit.

E o mundo não se acabou – Assis Valente, com “cacos” de Paula Toller

Aracaju, maracujá, pega daqui, taca de lá
Maricota, Mariquinha e Mariquita soltam a periquita lá em
Guaratiba e Guarujá
Maracatu, jacarandá, Jeca tatu, Paranaguá
Papacu rasteiro vem correndo bem ligeiro
Vem querendo um bocadin’ de guaraná

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá
No morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei no pau de quem não conhecia
Dancei pelada na televisão
E o tal do mundo não se acabou

Chamei um cara com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão/um milhão
Agora eu soube que esse cara anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

O INSTA REDIMIDO

Depois de vilipendiada por pesquisas que comprovaram, decerto levianamente, que a rede faz mal à saúde, causa ansiedade e o diabo a quatro, o Instagram se viu sem querer redimido pelo, sempre quando quer, acrítico ex-caderno de ex-cultura da Folha. Imperativa, que é o modo mais sábio de induzir pavlovianamente o ato de clicar, a Ilustrada manchetou garrafal o título acima. A descolada repórter ouviu uma publicitária e uma doutora em semiótica, ou algo assim. Claro, também ouviu uma virtuosa ativista exclusivista. O leitor do relato acreditará se quiser que, enquanto o Facebook e o Twitter são puro veneno, é do Insta que virá a revolução social ensejada pelos ultraprogressistas do ex-jornalismo, ou, no vocabulário dos redatores do ex-caderno: “Saiba como o Insta está mudando o mundo para melhor”.

NÚMEROS “ATRASADOS” DA JU NO BLOG

A Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa é o mais recente dos números “atrasados” desta carta trazidos para este Livro de Viagem. Faltam, creio, transpor outras sete edições do acervo da plataforma TinyLetter para que tal trâmite seja dado por findo.

«La gota de rocío, com o cubano Silvio Rodríguez.175

«125 – Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Ney Matogrosso e Webster Santos.»

«Não há cena de seus sete filmes como James Bond, por mais memoráveis que sejam, que me façam recordar Sean Connery como este Robin e Mary, o filme dirigido por Richard Lester e lançado em 1976, estrelado por ele e também encantadoramente por Audrey Hepburn. Só achei no YouTube a cena final completa com legenda em francês.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Esse coqueiro que dá coco

Jurupoca #38 – Desde o Belo – 4 a 10/9/2020 – Ano 2

Criança, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Opa! Vamos apear?

Os sabiás voltaram a cantar e meu ipê amarelo refloriu contra a secura azul de agosto, refazendo um ciclo no qual reconhecemos ou imaginamos vindicar a beleza, e com tal alento recobramos brevemente o fôlego.

Criança ainda, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Hoje é hoje, e a sucessão de ontens acumula cacos, como xícaras partidas. Cacos às vezes rebrilham, semelhante à luz da estrela que já era mas chega a nós ao anoitecer.

Viver, como se queira, é se ir enchendo um depósito de cacos, trastaria. Então vem o “tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme”, na lição de CDA. Mas não há como não levar em conta o rebrilho, hoje e amanhã, agorinha, ainda.

A Jurupoca é necessariamente, no que tenho a dizer (por isso e por enquanto) uma carta extemporânea. “Em que tempo nos tocou viver! diria Flaubert, como disse no s. 19. A novidade de ontem acaba de envelhecer (hoje). Revolucionário não é o black-block, e sim o jovem e corajoso leitor do Grande sertão: veredas”, me diz o Milton Hatoum num bilhete (autorizado de estar aqui).

Lemos, escrevemos e buscamos pensar livremente por acreditar nessa revolução que o João Guimarães Rosa é capaz de promover. Disso resulta a Ju, um artefato analógico (ainda que digital), anacrônico (por mais que recém-chegado), marginal (hehehe, quem diria!), e quixotesco (ora bolas!).

Disso, quero crer, resultou o Escrevidas, poemeto do Moral das horas:

Escrevidas

Escrever por escrever
Por certo. Mas
Ser ou não ser?
 
Viver por viver
Decerto. Então
Escrevidas?

Codinha

Alma na lama:
L’amour?
 

Muito obrigado por assinar e ler a Ju. Sinceramente,

Antônio Siúves


  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vida e morte nas mesmas mãos

O genial criador do processo químico que permite a extração de nitrogênio da atmosfera, usado na fabricação de fertilizantes, é o mesmo pai do devastador gás cloro, introduzido na Grande Guerra como arma química, e ainda progenitor do poderoso pesticida Zyklon, depois modificado e empregado nas câmaras de extermínio nazistas. Pelo primeiro invento, o alemão Fritz Haber, de raízes judaicas, ganhou o Nobel de Química — dizia-se que ele conseguira extrair “pão do ar”. Como se sabe, os fertilizantes nitrogenados detonaram a explosão demográfica mundial, de 1,6 para 7 bilhões de almas, em cem anos. Pelas químicas outras, Haber será ad aeternum associado à morte industrial de milhões de seres humanos, e ao suicídio da própria mulher, também química, atormentada pela funérea prodigalidade do marido. Essa história é narrada com tintas de ficção por Benjamín Labatut, escritor de origem holandesa radicado no Chile, em Un verdor terrible (Anagrama), ou Um verdor terrível, do qual pode-se ler um vertiginoso trecho no Babelia. O verdor do título refere-se à coloração mostarda da nuvem do gás lançado pelos alemães contra tropas francesas perto da cidade Ypres, no Flandres, a 22 de abril de 1915, levando no vento a “morte total”.

Ah, esse coqueiro que dá coco

No Brasil, a juventude festeja em baladas feéricas o fim da pandemia; onde dá praia, multidões à milanesa fritam-se ao sol e se banham em mares contaminados, nem aí para as marés.

Notícias imperativas de ex-cultura

A Ilustrada, ex-caderno de ex-cultura etc., volta a algoritmar, e a Ju a observar com interesse seus ensinamentos imperativos na série de capas sobretituladas “Entenda…”. A reportagem acima atira uma âncora transatlântica dentro de um livro não traduzido no Brasil, Feminist City, ou cidade feminista, da geógrafa canadense Leslie Kern, para concluir que por aqui ainda não bateu a onda do “urbanismo feminista”, ou, com a boa vontade do texto, pode ser até que engatinhe… A ideia de “cidade fálica” é associada à falta de banheiros públicos afeitos às mulheres nas grandes cidades. Claro, sobra também, no livro da Kern, para os “fálicos obeliscos, colunas e torres de vigia” que “ejaculam luz no céu noturno com seus refletores”. Daí pode-se até viajar na ideia de uma contraposta “cidade vulvar”. Mas antes me ocorre exclamar, parafraseando o maluco da Escolinha do Raimundo, Seu Brasilino Roxo: SÓ SE FOR NO CANADÁ! Porque nossas metrópoles são universalmente dotadas de banheiros públicos para todos os gêneros e classes. Quem frequenta, e.g., o Parque Municipal Renné Giannetti, no Belo, encanta-se com o aspecto imaculado e o permanente cheiro de desinfetante dos banhos municipais. São muito frequentados nos fins de semana, aliás, pela rica classe média de Lourdes, nosso Leblon, como se sabe. Quanto à ejaculação da luz, que bonito! Me lembrou uma canção do José Miguel Wisnik chamada A olhos nus, que diz assim (cantarolemos!): “Uma vez amanheceu/ meu pai mostrou o céu/ onde nasceu redondo o sol/ abrindo um rombo no azul/ abrindo um sonho/ abrindo um tambor de luz/ que enchesse a fábrica/ com seu óleo cru/ e penetrasse os sonhos da família/ a olhos nus // raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ aquele dia/ raios de luz/ meu pai mostrando o sol/ um rombo azul/ a olhos nus/ raios de luz.” Trata-se quase da mesma coisa, não è vero? Mas essa é uma publicação livre!

Maconha na drogaria 

“Sonhei que o fogo gelou/ Sonhei que a neve fervia/ … Maconha só se comprava/ Na tabacaria/ Drogas na drogaria…”, canta o Buarque em Outros sonhos (do CD Carioca, 2006). Logo ali, no país do lendário José Mujica, o sonho buarqueano se realizou ad hoc.

A erva está disponível em 17 drogarias licenciadas pelo governo. O monopólio estatal, implantado na Lei da Maconha, de 2013, anda bem longe de cobrir a demanda; a turma da chincha reclama que a erva oficial é palha, e de ser obrigada a se registrar para adquirir sua ração periódica da Cannabis sativa ou da Cannabis indica, tipos oferecidos nas farmácias a cidadãos uruguaios. Para a turistama, neca, por enquanto. Um em três usuários fuma o produto estatal, os demais se valem dos bons serviços do paralelo, antes conhecido como “negrol”. Nada disso impede que o país seja decantado mundialmente como caso de sucesso, por sangrar um terço do faturamento do narcotráfico. “Eu uso a indica quando quero relaxar, e a sativa quando quero ser mais criativo, escrever ou desenhar”, explica, como quem prescreve, o jovem Nahun Martínez, de 19 aninhos, à reportagem especial da Folha. O rapaz é funcionário de uma padaria, e ainda há de se revelar ao mundo das artes. Tomara. A Disney da Erva milongueira não é uma Christiania, o parque temático hippie de Copenhague, mas tem museu, circuitos, completas lojas de acessórios e cursos para chefs da alta cozinha canábica. Um estudante brasileiro de nível avançado preparou para os repórteres da Folha um banquete de pratos como o Chicken Sauce Smoke. “Trata-se de um frango com batatas que leva azeite de maconha”, descrevem, para o leitor já na larica. A propósito do nosso vizinho, neste 14 de setembro celebra-se por lá o centenário de nascimento de Mario Benedetti.


GONZAGUINHA (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, Rio de Janeiro, 1945 — Renascença, Paraná, 1991) canta COM A PERNA NO MUNDO, composição dele, faixa A2 do LP Gonzaguinha da vida (EMI-Odeon, 1979), com a participação de Djavan no backing vocal.

O delicioso e bem marcado samba autobiográfico, carregado de páthos e alento, melancolia e joie de vivre, tem o dom de me revolver sinapses e aumentar num instante a taxa de serotonina (já que vamos devagar com o romantismo).

Gonzaguinha é daquelas almas que não caberiam neste mundo assombrado pela inteligência artificial, em que a “ética da autenticidade” vira mercadoria barata no Instagram.

Era um homem magérrimo, politizado e lírico a um tempo, de fala pausada, malandra, compassada nas cordas do coração.

COM A PERNA NO MUNDO - Gonzaguinha 
 
Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
 
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
 
Oh Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
 
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
 
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
 
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
 
Ô ô ô ê ê á
O moleque acabou de chegar
Ô ô ô ê ê á
Nessa cama é que eu quero sonhar
Ô ô ô ê ê á
Amanhã bato a perna no mundo
Ô ô ô ê ê á
É que o mundo é que é meu lugar


O banho da Lo Prete

Renata Lo Prete, quem sabe a jornalista brasileira mais completa em plena na labuta, comemora um ano do podcast O Assunto banhada na merecidíssima glória. Seu programa conquistou ampla audiência, inclusive a jovem, e é recomendado por professores a estudantes que se preparam para o Enem. Bateu na estratosfera dos 33 milhões de download. Aos 56 anos, a Lo Prete divide inacreditavelmente seu labor com a edição e apresentação do Jornal da Globo e do semanal Painel, da GloboNews. Enquanto isso, a Folha agrega um terceiro apresentador, jornalista mais tarimbado, pra ver se engrossa o caldo do seu falso Young friendly Café da Manhã.



PEREGRINAÇÃO – Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.


Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.


Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...

Este é o oitavo de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).    


Mark Rothko Nº. 11 (Sem título, 1957).
Óleo sobre tela (201.9 x 177.2 cm). Coleção particular. Via WikiArt.  
Pelo final de 2015 comecei a publicar, apenas no blog Livro de Viagem, a coletânea 21 poemas, dois anos depois do Moral das horas. Ilustrei as páginas desse poemário com obras de Mark Rothko (1903-1970), artista nascido onde hoje é Dunaburgo, Letônia, e naturalizado norte-americano.
Meu xodó por Rothko é um negócio do outro mundo; como costuma ser, à primeira vista, nascido, creio, desde que vi seus quadros na Tate Modern, muito tempo atrás.
Suas cores profundas, sobrepostas, graduadas e geometrizadas podem eviscerar a alma de um observador atento e paciente.
Bom, este Nº. 11 me pareceu perfeito para ilustrar o poema [20/21] que me escapuliu da leitura de Tolstói.
GUERRA E PAZ
 
Madrugada
No campo de Borodinó:
Sobre a palha da aveia,
Um silvo rasga a névoa;
A carne acalenta o instante
Pôr do sol.


«Magistocrata não sai de férias, vende. Conrado Hübner Mendes, na Folha.»

«Sem sintomas, brasileira ficou cinco meses infectada pelo coronavírus, caso mais longo já documentado no mundo. O Globo.»

«Hospitais em Nova Orleans mandam pacientes infectados pelo coronavírus para instalações de cuidado paliativos ou para morrer em casa. No ProPublica, em inglês.»

«Marcelo Viana: Limites da mente humana. Na Folha de S. Paulo.»

«Escrever é como girar a faca na ferida, uma rara entrevista com Elena Ferrante. No Estadão

«Eleição nos EUA: E se o Facebook for uma ‘maioria silenciosa’ de fato? New York Times, via Estadão

«Uma entrevista com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Na Letras Libres, em espanhol.»

«Uma entrevista com fotógrafo britânico David Hurn. No Jot Down, em espanhol.»

«A plataforma mais violenta. O problema do extremismo no Facebook. The Baffler, em inglês.»

«Charles Taylor: “É necessário o fortalecimento da identidade comum dentro das sociedades”. Estadão da Arte.»

«A reabertura da museu Casa de Fernando Pessoa. El País, em espanhol.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

De camisa amarela

Jurupoca #37 – Desde o Belo – 28/8 a 3/9, 2020 — Ano 2


REMISSÃO – Carlos Drummond de Andrade

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?

Este é o sétimo número da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). O soneto drummondiano vem originalmente do Claro enigma (1951).

Amilcar de Castro. Jardim das Esculturas do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 797 × 800. Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons

Obra de Amilcar, poema incluído no Moral das horas (Manduruvá, 2013) surgiu, creio, da memória do escultor e das impressões de suas figurações em aço corten.

Eu o via muito entrar e sair do seu antigo ateliê da rua Goiás, no Belo. E pude entrevistá-lo na faina de repórter de cultura, entre o final dos 1980 e o começo da outra década.

Retenho seu rosto forte, anguloso, e a fala seca e direta.

Para o leitor interessado em sua obra recomendo o ensaio a ele dedicado por Rodrigo Naves em A forma difícil (Editora Ática, 1996). É magnífico.


 Obra de Amilcar

cidade-suma
sumário seccionado
aço roído ao ar exsuda
seu óxido

pele exangue

Do Moral das Horas (2013)



Opa! Vamos apear?

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, como me lembram todo ano a essa época Beto Guedes e Ronaldo Bastos, não haverá, desgraçadamente, como brotar o perdão onde a gente plantou, no cantar de Sol de primavera.

A capa da Piauí de agosto tem uma extensão para homenagear, com cem mil pontos de luz, cada um dos seres, em igual quantidade, levados pelo Sars-Cov-2, uma pessoa, duas pessoas, três pessoas… cem mil pessoas.

Deste então precisamos de mais, talvez, nesta quinta-feira, quando arremato esse texto, de mais 18 mil pontos de luz além daqueles.

Talvez você tenha se inteirado de algo do debate sobre a reação diferenciada do brasileiro diante da mortandade atual. Outros povos, na Europa, na Ásia, mesmo nos EUA, se afirma, sentem mais e demonstram mais seu espanto, sua dor, são mais solidários diante da aniquilação, com as lágrimas, com a opressão no peito de milhares de famílias que não podem sequer receber o consolo do abraço forte de um amigo ou familiar distante pela perda de seus queridos e amados.

Além deste traço que, creio, também reafirma a tal cordialidade tão nossa, segundo Sergio Buarque de Holanda, característica que nos faz voltar para o que é próximo e pessoal, avessos que somos à noção de comunidade estendida, ao sentido comum do marco civilizatório, pois além desse traço, dizia, convivemos com um presidente e seus defensores que desprezam, senão negam a devastação da praga, com álibis dos mais canalhas como morre “só quem tem comorbidade”, “quem não é atleta”, “quem não toma cloroquina” e sandices que tais do nosso franco jumentíssimo.

Neste setembro e na primavera que se anuncia, é pena, queridos Guedes e Bastos, ainda estaremos sob trevas espessas, envergonhados, massacrados pela desonra, pelo vexame.

Não consigo ter esperança, confesso, além de torcer por dias melhores, pela produção de uma vacina eficaz e segura que nos permita, quem sabe, olhar para o saldo da terra devastada e tentar seguir em frente.

Um abraço, e mais uma vez obrigado pela leitura. Sinceramente,

Antônio Siúves


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O fim dos mundos

“Foi a partir de minha terra natal que as trevas começaram a tomar conta do mundo”, diz Amin Maalouf em O naufrágio das civilizações (Vestígio Editora). O jornalista, professor e escritor, libanês de nascimento, francês e europeu por adoção, refere-se ao Levante, região que corresponde mais ou menos ao Oriente Médio atual, e às frustrações de um sonho civilizatório universalista jamais realizado. O melhor de sua análise é o sabor da prosa, a serenidade de um estilo decantado pela idade já avançada, e o testemunho de quem viu de perto como tudo começou a escurecer. Maalouf procura entender a “tendência ao fatiamento e à tribalização” dominante em nossos dias. “Quando os herdeiros das maiores civilizações e os portadores dos sonhos mais universais se metamorfoseiam em tribos raivosas e vingativas, como não esperar o pior para a continuação da aventura humana?”, indaga. Ele estabelece, para clareza de pensamento, dois grandes marcos temporais do retrocesso, moral e geopolítico. A guerra árabe-israelense de junho de 1967 é o primeiro. Os povos derrotados e humilhados jamais se recompuseram daquele fracasso, como lograram alemães e japoneses, nos casos mais notórios, compara o autor, depois de destroçados e ocupados pelo inimigo. Nações se dissolveram e o extremismo islamita mais sanguinário assumiu as rédeas da política, a partir do cisma teológico entre sunitas e xiitas, além do premente ódio aos colonizadores “infiéis”, muito compreensível, aliás. A disputa por influência planetária durante a Guerra Fria entre os polos soviético e norte-americano só fez aprofundar os descaminhos, com mais morticínio em massa na Indonésia, no Camboja, no Afeganistão, e desorientação geral sobre o futuro. Novembro de 1979 é o outro padrão desde o qual Maalouf desenrola a meada de suas reflexões. O autor define como revoluções conservadores o Thatcherismo, seguido pelo Reaganismo, a virada na China com Deng Xiaoping na direção de um “capitalismo de Estado”, a revolução iraniana de Khomeini, e mexidas mais pontuais no tabuleiro, como a eleição ao papado de Karol Wojtyla, no ano anterior. O ultraliberalismo lançou as bases da desigualdade e do atual populismo, diz Maalouf, e da queda da URSS, em 1989, império que já claudicava por seus muitos erros e crimes. Ele não poupa os desvios da esquerda, ao trocar o estandarte do humanismo universalista pela luta identitária e “corporativista”, ao lamentar os reveses, para ele irreversíveis, do projeto europeu, do descrédito da social democracia e da cacofonia populista que se espalhou pelo mundo no novo milênio. “O que caracteriza a humanidade de nossos dias não é uma tendência a se reagrupar no seio de vastíssimas coletividades”, observa, “mas uma propensão à fragmentação, à divisão, com frequência, entre violência e amargura”. Maalouf escreveu seu livro ao entrar na casa dos 70 anos. A aceleração dos avanços da ciência e tecnologia e os progressos da globalização, da libertação de forças econômicas responsáveis por tirar grandes massas humana das da miséria extrema, não detiveram o retrocesso a que se refere em sua obra. Empacamos ou regredimos, afirma o autor, na convivência entre diferentes comunidades humanas, ou no urgente enfrentamento da emergência climática. O ressentimento ampliou os limites da democracia liberal, estamos quase n’água, a pique, na imagem do Titanic a que recorre. Ao esboçar o perfil do “espírito do tempo”, Maalouf não dá muita bola para o papel das novas tecnologias de comunicação e da economia digital, ou não se aprofunda muito sobre seus efeitos na política e no comportamento. Mas isso não atrapalha uma leitura agradável e instrutiva do início ao fim.


Tecnolatria

O astrofísico, filósofo (além de uma porção de outras expertises) espanhol Juan Arnau diz em entrevista ao diário El País que estamos em pleno “triunfo da tecnolatria”. As humanidades se colocaram de joelhos diante da ciência, declara. O entrevistador quer saber se a radicalização e a polarização são ameaças de novos totalitarismos. Arnau diz que sim. “Seguimos no binário, por efeito da tecnologia e da preponderância dos algoritmos”, argumenta. “As redes sociais, além disso, tendem a uniformizar o pensamento. E isso é a morte do pensar. O dataísmo supõe sua aniquilação”, afirma.


Em modo digital

Arnau bateria uma boa bola com o médico e neurocientista Miguel Nicolelis sobre o novo livro do brasileiro que acaba de sair, O verdadeiro criador de tudo – Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (Editora Crítica). André Cáceres fez uma excelente análise do livro. Comento apenas um dos aspectos que mais me despertaram atenção, ainda sem ter acabado minha leitura. Nicolelis suspeita que “a convivência quase contínua com computadores pode afetar a forma como o cérebro funciona e, no limite, nos transformar em meros zumbis digitais orgânicos”. A conclusão se baseia na plasticidade neutral, o fascinante atributo da autoadaptação cortical. “Os neurônios alteram propriedades e morfologia e até a distribuição e a intensidade das sinapses”, explica. Outra coisa é que um cérebro de primata adulto, no dizer de Nicolelis, é influenciado por modificações ocorridas dentro e fora do nosso corpo. A ampliação de nossa dependência dos sistemas digitais, aplicativos e algoritmos estabelece uma “verdadeira simbiose e pode afetar o cérebro”, por meio dessa plasticidade. Operar no modo digital atende padrões artificiais de aceleração, eficácia e produtividade. Nicolelis receia que essa simbiose acabará por eliminar, e mais cedo do que possamos imaginar, o caráter humano definido pela criatividade, intuição, inteligência, compaixão e empatia pelo próximo.


Aceleração e significado

Li com muito gosto o perfil de Lorenzo Mammì na revista Piauí de agosto, que quase me chega em setembro. Mammì, um ítalo-brasileiro de baixa estatura, forte e sacudido, professor de filosofia medieval na USP, tradutor de Santo Agostinho desde o latim, talvez seja nosso melhor intérprete de João Gilberto e da Bossa Nova. Suas críticas musicais, sobre a importância do LP, por exemplo, são sempre iluminadoras. A matéria da revista tem como fundo a questão sobre o que deu errado com a “promessa de felicidade” que certa classe média decantava, e que só fez afundar mais e mais no pântano da realidade brasileira. O título é Utopias e ruínas – O Brasil da bossa nova e o de hoje… A era de ouro da cultura brasileira, dos anos 1950 em diante, também alicerçou o que viria depois da ditadura e seríamos hoje, como o inchaço das cidades e o aumento da violência urbana. Mammì olha para a violência como traço da mesma cordialidade identificada por Sergio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, ou a contraface da cordialidade que favorece a convivência e a proximidade. “Onde faltam regras impessoais e as relações são resolvidas caso a caso”, lemos na reportagem de Rafael Cariello, “a passagem do afeto à agressão se dá com assustadora facilidade”. Mammì nos ajuda a distinguir o consumo cultural praticado nos anos 1960 e 1970 da atual maquinaria de liquidação. “Se você pensar, todos os grandes movimentos da década de 1960 foram também movimentos de consumo: o disco, a motocicleta, o cinema, a roupa”, pondera. “Você tinha a possibilidade de dar peso e importância ao que seria supérfluo, mas não com uma aceleração tal que tornasse tudo obsoleto o tempo todo”. Vivemos hoje em permanente falta de tempo e liberdade, em uma vertiginosa aceleração. “As coisas se diluem quanto aceleram a um tal ponto que impedem uma apropriação reflexiva. Isso impede que as coisas criem significado”, diz Mammì.


E dizer mais o quê?

Vivemos um presente que parece permanente, eternamente vácuo, de um single a outro, na música, sem tempo para ouvir um novo álbum do começo ao fim; de post em post, hashtag em hashtag. Em grande medida, desaprendemos a ler em profundidade, e nos desinteressamos pela crítica e a reflexão. Creio que isso é o mesmo que dizer que nos afastamos do outro, do mundo, e nos voltamos mais e mais para dentro de nós próprios, nossas próprias respostas ególatras. 


O melhor amigo do  homem é o bode

Juan Arnau é um dos nomes da série recente de entrevista curtas e diretas lançadas pelo El País, em formato pingue-pongue no jargão do jornalismo, a mesma que traz o filósofo e escritor basco Fernando Savater (na captura de tela acima). Morador de San Sebastián, ele viveu longamente com proteção policial, depois de ser jurado pelos assassinos do ETA. Bissexual, amante do txakolí, o ótimo vinho branco regional, ele revela grande sinceridade e lucidez em seus livros, crônicas e entrevistas que concede, além de bom humor. Diz no papo com Borja Hermoso, editor de cultura do jornal, que o melhor amigo do homem não é cão, mas o bode expiatório. Sempre conseguimos colocar a culpa no outro, ele diz. Em nossa época, de seguidas pandemias de vitimismo, então, isso é batata! Me senti honrado por sua opinião sobre o terrorista, que lhe dá medo, e o defensor do terrorismo, de quem sente asco. Gostei sobretudo de sua consideração sobre drogas e o sexo e seus descontentes ideólogos. “O sexo está ligado à nossa natureza como seres determinados por forças que não conhecemos”, ele diz. “Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade”, prossegue, antes de alertar: “Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”


“Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade. Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”

Fernando savate

ROSA PASSOS (Rosa Maria Farias Passos, Salvador, 1952) canta CAMISA AMARELA, de ARY BARROSO  (Ary Evangelista Barroso, Ubá, MG, 1903 – Rio de Janeiro, 1964).

Violonista, compositora e prodigiosa intérprete de todos os gêneros, fadada ao jazz e à carreira internacional, Rosa incluiu Camisa amarela em seu álbum de 1997, Letra & música de Ary Barroso, com o violonista e guitarrista Lula Galvão.

Talvez seja quem, na MPB, melhor fale a língua do jazz, com grande propriedade, o que demonstrar quando imprime nesse samba a cadência, a divisão e a suavidade que enaltecem a composição de Ary.

Camisa amarela é lançada a 31 de março de 1939, interpretada, lindamente, por Aracy de Almeida, apenas um ano depois de Carmem Miranda ganhar as paradas com a Camisa listada de Assis Valente [ver Ju # 34].

O novo samba vai, igualmente, se tornar um clássico da nossa música popular. Se não era uma resposta de Ary, nosso ubaense pegava o mesmo mote da crônica carnavalesca carioca sob o ponto de vista da mulher sofrida por seu homem desvairado.

É, por assim dizer, um metassamba, gravado no mesmo ano de Aquarela do Brasil, este samba-exaltação, gênero inventado por Ary, que iria ganhar Hollywood e o mundo.

“A protagonista [de Camisa amarela] narra as proezas do amante folião que volta sempre aos seus braços, passada a brincadeira”, comenta Zuza Homem de Melo e Jairo Severiano no primeiro volume de A canção do tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34, 2015).

“Procurando dar uma impressão de realidade à história, Ary chega a localizá-la no tempo e no espaço, com a citação de músicas do carnaval de 39 — Florisbela e Jardineira — e lugares do Rio — o Largo da Lapa, a Avenida (Rio Branco) e a Galeria (Cruzeiro)”, prosseguem esses autores.

O próprio Ary gravaria a canção em 1956, acompanhando-se ao piano, com todas as justas pausas e erres fortes da época. Também há lindos registros de Gal Costa, Nara Leão e Caetano Veloso.


Camisa amarela foi registrada na bela voz da cantora portuguesa Maria da Graça no filme O Pátio das cantigas, de 1942, dirigido por Francisco Ribeiro, aduza-se aqui como curiosidade.

O fraseado redondo de Ary, o português muitíssimo bem tratado, com colocações pronominais já extintas da oralidade brasileira, e mesmo da escrita, a ternura expressa pela amante, a mulher “cheia de perdão”, como exaltaria mais tarde Vinicius de Morais, fixa esse samba num tempo da delicadeza da canção popular.

CAMISA AMARELA — Ary Barroso

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela, oi, a Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão

Mais tarde o encontrei
Num café zurrapa
Do Largo da Lapa
Folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça
Isto não é chalaça

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando A Jardineira, oi, A Jardineira
Me pediu ainda zonzo
Um copo d'água com bicarbonato

O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama
E não tirou nem o sapato
E roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo, mas não ligo!
O meu pedaço me domina
Me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal

Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
E ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim.
 

Té ‘rrupiei, nu!

“Estou preocupado com a Amazônia”, diz Al Gore, ex-vice-presidente norte-americano. “Quero explorar os recursos da Amazônia com os EUA”, devolve ¡Caveirão.38!. “Não entendi o que você quer dizer”, encerra Al Gore, se virando e caindo fora daquela fria. Estrupício! O “diálogo” constrangedor e desconcertante, intermediado pelo ministro Arnesto, o funesto, ocorreu no Fórum de Davos, na Suíça, em 2019. “Ninguém queria ficar perto de Bolsonaro”, disse ao Globo Marcus Vetter, diretor do documentário O fórum. Ao ver a cena, que, como se diz, viralizou, té ‘rrupiei, nu!, cá nos recessos de minh’alma mineira.


O Haiti é ou não é aqui?

O assunto esfriou. Deu vez à hashtag da pergunta endereçada ao presidente Massaranduba, isto é, ¡Caveirão.38!, sobre os tais depósitos do Queiroz na conta da primeira-dama Xexele. Mas esta Ju não esquece um assunto sério assim sem menos. Soubemos por dr. Fontes Fidedignas que o arcebispo do Belo e presidente da CNBB, dom Walmor de Oliveira de Azevedo, adormecera e sonhara com a própria declaração condenatória à interrupção da gravidez da criança capixaba violentada. Após um pecaminoso wet dream, sua eminência reverendíssima despertara, por obra d’algum milagre, ao som da música Haiti (Gilberto Gil e Caetano Veloso), tocada em alto volume no rádio-relógio de seu amplo claustro, justamente na parte da letra que lhe serviria de carapuça: “…E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal…”. O religioso, baiano de Cocos, ao se levantar rumo ao W.C. se pusera aos berros, movido pela mais atroz e santa fúria: “Crime hediondo! Crime hediondo!”.


Cangaço

Enquanto isso, quase ao mesmo tempo, a cangaceira Sara Virgulina convocava seu bando de bandidos intergaláticos virtuais e analógicos para torturar mais uma vez a criança barbarizada. Médicos foram acossados e a demência, mais uma vez, reinou em Pindorama.



Eu algoritmo, tu algoritmas

O título de capa do caderno de ex-cultura da Folha, hoje mais para editoria de Secos e Molhados, aliás verdadeira loja de Raimundo Joãozinho, que fica logo ali, depois da ponte dos Machado, à direita de quem segue rumo a Itabira do Mato Dentro, terrinha boa de CDA. A máquina de caça-clique de ex-cultura padronizou enunciados no imperativo: entenda, pau pra toda obra, ou saiba. A redação parece movida por algoritmos, e o Nicolelis tem razão! Claro, a turminha imberbe da editoria, dedicado mercado de pulgas do new journalism cultural forjado na Barão de Limeira, tem muito a nos ensinar, entre um clique e outro. Lá se conjuga o verbo algoritmar, eu algoritmo, tu algoritmas etc. 

A editoria de ex-cultura da Folha flagrada em pleno esforço de reportagem caça-clique. 
Foto: Antônio Siúves

Harrison

No dia 29 de novembro de 2001, uma quinta-feira, diante de uma mesa fria de granito da redação de O Tempo, na avenida Babita Camargos, em Contagem, recebíamos no Magazine a notícia da morte prematura do ex-beatle George Harrison. Abrimos várias páginas do caderno para registrar com dignidade a perda de um artista tão querido por multidões e por cada um de nós que amamos suas canções, sua timidez e integridade paciente. Ao titular nossa “capa poster” pensei em algo simples e direto. “Obrigado pelo sonho”, manchetei garrafal. Durante muito tempo me descia uma lágrima só de pensar naquele título. Músicos e beatlemaníacos me ligaram no dia seguinte para nos felicitar. Lembrei disso agora ao ler um artigo/reportagem muito bem feito, especialmente para o Estadão por Carlos Oliveira sobre uma nova edição de All Things Must Pass, a caixa caprichada de 3 LPs lançada há 50 anos e que iria afogar as mágoas dos fãs, entristecidos com o anuncio recente do fim dos Beatles. Olivia e Dhani Harrison, viúva e filho, estão à frente do projeto, que terá registros inéditos e uma canção de Harrison e Bob Dylan nunca lançada oficialmente, chamada Window Window.

Canção amiga

Saiu uma beleza a versão de Canção amiga (Carlos Drummond de Andrade – Milton Nascimento) com Leila Pinheiro e o grupo Seis com Casca, do álbum que acabam de lançar pelo selo Azul Music.


Cisne

Deslumbrante, pelo menos, o single de Arthur e Lívia Nestrovski do novo álbum de pai e filha, Sarabanda, apresentado neste clipe aqui de Cisne, parceria de Arthur com o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), mais uma das suas com os clássicos, e me lembro, por exemplo, entre muitas, de sua tradução da Ode à Alegria para a gravação da Osesp da 9ª Sinfonia de Beethoven, e sua Serenata, música de Franz Schubert e Ludwig Rellstab, que, na voz de Chico César virou trilha da novela  Velho Chico, da Globo. Gosto até mais da versão dessa música com a dupla parental, introduzida com uma citação de A saudade mata a gente, de Braguinha.



«Miserável mundo novo: Conservadores, uni-vos!. No Estadão da Arte.»

«O Gramsci da direita brasileira – Antes a maior influência de Jair Bolsonaro, a ambição de Olavo de Carvalho é estabelecer no Brasil a hegemonia nacionalista e cultural de uma nova direita. Na Dissent, em inglês.»

«Livro de 1794, ‘Viagem ao redor do meu quarto’ mostra como burlar o tédio da quarentena. O Globo.»

«Leonardo Padura constrói a grande novela do exílio cubano. El País, em espanhol.»

«Feliz aniversário: Paula Toller completa 58 anos (…) e fala sobre feminismo no rock e memes sobre ‘juventude eterna’. No Globo

«Os 80 anos de Acertei no milhar. Rádio Batuta.»

«Gilberto Gil | Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo (Show Completo). Vídeo da Biscoito Fino.»


«Bach marca o retorno do pianista Lang Lang – Por anos ele não quis tocar as ‘Variações Goldberg’ em público, mas agora lança duas gravações. Joshua Baron, The New York Times, via Estadão

«O radicalismo de Woody Guthrie. Na Jacobin, em inglês.»

«O rosto de Tiradentes – Sete anos de pesquisas, com a consulta de 300 imagens, permitiram mostrar como foi construído o rosto que está em monumentos, quadros, cédulas, moedas e selos. Elio Gaspari, em O Globo

«A canção que levava ao suicídio. No El País, em espanhol.» 

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.