Perdidos no espaço analógico

Jurupoca #46. Desde o Belo, 6 a 12/11/2020. Ano 2

Soneto 178 – Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Era uma vez uma cartinha analógica que explorava galáxias na mandatória nave Júpiter II em busca de um atalho, um “buraco de minhoca”, para alcançar o mundo digital.

O missivista sabia que perseguir tal atalho era pretexto vão de um navegador extraviado, epa, fadado, debalde, o mesmo que embalde, a navegar e navegar sem rumo por aí, isto é, pelas galáxias.

Ainda que chegasse à pretendida dimensão espaço-temporal, lá não haveria ninguém capaz de decifrar a escritura analógica, nascida do ser analógico arredio, o mesmo que dévio, assegura o Houaiss, do missivista.

Os seres daquele mundo, daquele tempo, não tinham tempo nem (acima de tudo) proveito, aqui o mesmo que interesse, no sentido de pecúnia, com quimeras analógicas: analogias, metáforas, ironias.

Dicho sea de paso que a palavra “quimera” se necrosara no corpo do idioma, aliás, também a própria colocação pronominal, além dos vocábulos implícitos: “carta”, “missivista” o “escambau”.

Naquele mundo a palavra desencantada sepultara de vez a moribunda e patética poesia, ao menos o moribundo e patético poema analógico.

É que a lavra poética havia muito fora assumida pela inteligência artificial robótica no mercado digital de cliques.

Aplicativos abertos tornaram acessível, inclusive aos mais patetas, mesmo que parvos, a fatura poética como, acima de todos os propósitos, a inteira gama da criação literária e musical.

Robôs poetas sugeriam os versos dos putativos, no sentido de supostos, poetas compartilhadores (sic), desde a pré-história dadivosa e virtuosa, como também lacrimosa, do Instagram, naquele multitudinário mundo da criação instantânea.

Naquele mundo intenso, a publicidade conseguira de vez recriar-se no ativismo exclusivo dos mais ativos, verdadeira revolução no vender o peixe antediluviano dos criativos.

Era capaz, a publicidade, de fixar na imagem de uma empresa suja como pau de galinheiro a benévola aura duma Santa Dulce dos Pobres, ou de converter o capital supremacista num baluarte da luta antirracista.

Bastava, em suma, deslanchar uma onda de hashtags em inglês engajadas e virtuosas formuladas por criativos tecnicamente multitalentosos.

Mas isso e o resto são detalhes.

Significativo é narrar que, ainda assim, careca de saber de tudo isso e aquilo, nosso pugnaz missivista seguia a alçar tamancas e bater cabeça pelas galáxias, atrás de unzinho “buraco de verme”, assim traduzido do inglês “wormhole”, para contrabandear suas cartinhas para o mundo digital, mundo que punha no chinelo aquele outro, admirável, de um tal de Aldous.

Cuá, dizia o missivista para si próprio, resignando-se num remordimento de intra-imo, como o Dedalus do Joyce, isto é, do Houaiss, e salvando-se com a prima Naná com esse peculiar “cuá” familiar.

Pois, cuá, dizia, que ficassem por lá, transviadas, aquelas cartas analógicas, expressão de um ser analógico perdido no espaço, caso, claro, um dia ou uma noite, tais cartinhas deparassem um “buraco de minhoca” e pulassem a cerca espaço-temporal inteirinhas da Silva.

Cuá, que se acumulassem na posta-restante que não haveria, a espera de civilizações superinteligentes, faladoras de todas as formas do inglês do universo, como aprendeu quem viu muito Jornada na estrelas.

Fantasiava que tais exegetas, no caso comentaristas, lograriam ler, interpretar e, finalmente, despachar suas cartinhas, no sentido de, pelo amor de deus, nos livrar a todos de tais escritos até, inclusive e pelo menos, o fim do mundo.

Moral da história? Tuta e meia, nonada, equivalentes a ninharia.

Ou antes esta: Era uma vez um pinto pedrês, quer que eu te conte outra vez?

O BREVE RETORNO DE UM ALIEN AO FACEBOOK

Jonathan Harris como o
inesquecível Dr. Zachary Smith

Durou uma semana contada nos dedos de uma única mão o regresso do missivista às entranhas da rede social mais popular da Terra, o tóxico Facebook. Que aventura rosicler desfrutou nosso anti-herói! De cara, imbuído de profunda sinceridade desinteressada, disse um alô para colegas de faculdade com quem não parolava há meio século, com quem, é certo, continuou sem parolar. Contatou um familiar e obteve ansiadas notícias da amada madrinha! Solicitou (sic) a outro amizade na rede, que de pronto lha concedeu (eta nós!). Que viagem, hein, meu chapa? Mas não. Como dantes, sentiu-se, transcorrida aquela fase lunar, e era previsível que transcorresse assim, sentiu-se fantasmagórico, enjoado como uma grávida sem feto nos primeiros meses, talvez com um que outro desafeto, isto sim, sentiu-se a flutuar na estratosfera algorítmica do Zuckerberg como um Dr. Zachary Smith na abertura do seriado Perdidos no espaço, de priscas eras analógicas, mas que se pode recordar nesta página, graças a algum caridoso youtubeiro. Sentiu nosso macunaímico anti-herói, caso permanecesse mais dois segundos naquela dimensão social, que perderia o que lhe restava de carnação, sopro e véu da palavra, além da afanada lucidez. 

O samba-choro E o mundo não se acabou é um dos mais populares na obra de Assis Valente. A maestria do autor pipoca nos versos iniciais: “Anunciaram e garantiram/ Que o mundo ia se acabar…”.

Lançado por Carmem Miranda em 1938, a composição fazia “uma perfeita crônica sobre o fim do mundo, devido à possível colisão do cometa Halley com a Terra”, lemos no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

No segundo semestre de 1999, quando o fim do mundo fez uma de suas rentrées, com o Bug do Milênio, o velho sucesso de Valente foi muito lembrado por rádios e programas de TV.

Um ano antes Paula Toller havia incluído sua versão do samba no álbum da WEA com seu nome.

Ouvíamos uma cantora amadurecida e autoconfiante. Como disse à época um crítico de Veja a brincar com um sucesso do Kid Abelha, a artista conseguira transformar seu rascunho em arte final.

O arranjo de Graham Preskett honra o fonograma de Carmem, mas é ao mesmo tempo moderníssimo.

O colorido é obtido pelo amálgama sonoro de violão, guitarra, baixo elétrico, teclados, bateria programada e sampler. Ritmo e melodia soam ainda mais provocativos, uma autêntica transcriação e adaptação aos modos e recursos da época.

Embora muita gente boa tenha gravado este samba-choro, e entre os mais afamados constem Marlene, Isaurinha Garcia, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, a interpretação de Toller é a que me parece mais vital e pulsante, a que mais se sintoniza com a própria Carmem Miranda, erguendo uma ponte de meio século com inventividade e elegância.

A Toller introduziu um grão de pimenta e liberação feminina, com “cacos” teatrais que atualizam a letra aos costumes, além de uma introdução sacaninha sobre a frase instrumental da abertura. Assis Valente, estou certo, se sentiria honrado com a saudável e ousada e loura intérprete de seu hit.

E o mundo não se acabou – Assis Valente, com “cacos” de Paula Toller

Aracaju, maracujá, pega daqui, taca de lá
Maricota, Mariquinha e Mariquita soltam a periquita lá em
Guaratiba e Guarujá
Maracatu, jacarandá, Jeca tatu, Paranaguá
Papacu rasteiro vem correndo bem ligeiro
Vem querendo um bocadin’ de guaraná

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá
No morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei no pau de quem não conhecia
Dancei pelada na televisão
E o tal do mundo não se acabou

Chamei um cara com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão/um milhão
Agora eu soube que esse cara anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

O INSTA REDIMIDO

Depois de vilipendiada por pesquisas que comprovaram, decerto levianamente, que a rede faz mal à saúde, causa ansiedade e o diabo a quatro, o Instagram se viu sem querer redimido pelo, sempre quando quer, acrítico ex-caderno de ex-cultura da Folha. Imperativa, que é o modo mais sábio de induzir pavlovianamente o ato de clicar, a Ilustrada manchetou garrafal o título acima. A descolada repórter ouviu uma publicitária e uma doutora em semiótica, ou algo assim. Claro, também ouviu uma virtuosa ativista exclusivista. O leitor do relato acreditará se quiser que, enquanto o Facebook e o Twitter são puro veneno, é do Insta que virá a revolução social ensejada pelos ultraprogressistas do ex-jornalismo, ou, no vocabulário dos redatores do ex-caderno: “Saiba como o Insta está mudando o mundo para melhor”.

NÚMEROS “ATRASADOS” DA JU NO BLOG

A Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa é o mais recente dos números “atrasados” desta carta trazidos para este Livro de Viagem. Faltam, creio, transpor outras sete edições do acervo da plataforma TinyLetter para que tal trâmite seja dado por findo.

«La gota de rocío, com o cubano Silvio Rodríguez.175

«125 – Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Ney Matogrosso e Webster Santos.»

«Não há cena de seus sete filmes como James Bond, por mais memoráveis que sejam, que me façam recordar Sean Connery como este Robin e Mary, o filme dirigido por Richard Lester e lançado em 1976, estrelado por ele e também encantadoramente por Audrey Hepburn. Só achei no YouTube a cena final completa com legenda em francês.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Esse coqueiro que dá coco

Jurupoca #38 – Desde o Belo – 4 a 10/9/2020 – Ano 2

Criança, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Opa! Vamos apear?

Os sabiás voltaram a cantar e meu ipê amarelo refloriu contra a secura azul de agosto, refazendo um ciclo no qual reconhecemos ou imaginamos vindicar a beleza, e com tal alento recobramos brevemente o fôlego.

Criança ainda, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Hoje é hoje, e a sucessão de ontens acumula cacos, como xícaras partidas. Cacos às vezes rebrilham, semelhante à luz da estrela que já era mas chega a nós ao anoitecer.

Viver, como se queira, é se ir enchendo um depósito de cacos, trastaria. Então vem o “tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme”, na lição de CDA. Mas não há como não levar em conta o rebrilho, hoje e amanhã, agorinha, ainda.

A Jurupoca é necessariamente, no que tenho a dizer (por isso e por enquanto) uma carta extemporânea. “Em que tempo nos tocou viver! diria Flaubert, como disse no s. 19. A novidade de ontem acaba de envelhecer (hoje). Revolucionário não é o black-block, e sim o jovem e corajoso leitor do Grande sertão: veredas”, me diz o Milton Hatoum num bilhete (autorizado de estar aqui).

Lemos, escrevemos e buscamos pensar livremente por acreditar nessa revolução que o João Guimarães Rosa é capaz de promover. Disso resulta a Ju, um artefato analógico (ainda que digital), anacrônico (por mais que recém-chegado), marginal (hehehe, quem diria!), e quixotesco (ora bolas!).

Disso, quero crer, resultou o Escrevidas, poemeto do Moral das horas:

Escrevidas

Escrever por escrever
Por certo. Mas
Ser ou não ser?
 
Viver por viver
Decerto. Então
Escrevidas?

Codinha

Alma na lama:
L’amour?
 

Muito obrigado por assinar e ler a Ju. Sinceramente,

Antônio Siúves


  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vida e morte nas mesmas mãos

O genial criador do processo químico que permite a extração de nitrogênio da atmosfera, usado na fabricação de fertilizantes, é o mesmo pai do devastador gás cloro, introduzido na Grande Guerra como arma química, e ainda progenitor do poderoso pesticida Zyklon, depois modificado e empregado nas câmaras de extermínio nazistas. Pelo primeiro invento, o alemão Fritz Haber, de raízes judaicas, ganhou o Nobel de Química — dizia-se que ele conseguira extrair “pão do ar”. Como se sabe, os fertilizantes nitrogenados detonaram a explosão demográfica mundial, de 1,6 para 7 bilhões de almas, em cem anos. Pelas químicas outras, Haber será ad aeternum associado à morte industrial de milhões de seres humanos, e ao suicídio da própria mulher, também química, atormentada pela funérea prodigalidade do marido. Essa história é narrada com tintas de ficção por Benjamín Labatut, escritor de origem holandesa radicado no Chile, em Un verdor terrible (Anagrama), ou Um verdor terrível, do qual pode-se ler um vertiginoso trecho no Babelia. O verdor do título refere-se à coloração mostarda da nuvem do gás lançado pelos alemães contra tropas francesas perto da cidade Ypres, no Flandres, a 22 de abril de 1915, levando no vento a “morte total”.

Ah, esse coqueiro que dá coco

No Brasil, a juventude festeja em baladas feéricas o fim da pandemia; onde dá praia, multidões à milanesa fritam-se ao sol e se banham em mares contaminados, nem aí para as marés.

Notícias imperativas de ex-cultura

A Ilustrada, ex-caderno de ex-cultura etc., volta a algoritmar, e a Ju a observar com interesse seus ensinamentos imperativos na série de capas sobretituladas “Entenda…”. A reportagem acima atira uma âncora transatlântica dentro de um livro não traduzido no Brasil, Feminist City, ou cidade feminista, da geógrafa canadense Leslie Kern, para concluir que por aqui ainda não bateu a onda do “urbanismo feminista”, ou, com a boa vontade do texto, pode ser até que engatinhe… A ideia de “cidade fálica” é associada à falta de banheiros públicos afeitos às mulheres nas grandes cidades. Claro, sobra também, no livro da Kern, para os “fálicos obeliscos, colunas e torres de vigia” que “ejaculam luz no céu noturno com seus refletores”. Daí pode-se até viajar na ideia de uma contraposta “cidade vulvar”. Mas antes me ocorre exclamar, parafraseando o maluco da Escolinha do Raimundo, Seu Brasilino Roxo: SÓ SE FOR NO CANADÁ! Porque nossas metrópoles são universalmente dotadas de banheiros públicos para todos os gêneros e classes. Quem frequenta, e.g., o Parque Municipal Renné Giannetti, no Belo, encanta-se com o aspecto imaculado e o permanente cheiro de desinfetante dos banhos municipais. São muito frequentados nos fins de semana, aliás, pela rica classe média de Lourdes, nosso Leblon, como se sabe. Quanto à ejaculação da luz, que bonito! Me lembrou uma canção do José Miguel Wisnik chamada A olhos nus, que diz assim (cantarolemos!): “Uma vez amanheceu/ meu pai mostrou o céu/ onde nasceu redondo o sol/ abrindo um rombo no azul/ abrindo um sonho/ abrindo um tambor de luz/ que enchesse a fábrica/ com seu óleo cru/ e penetrasse os sonhos da família/ a olhos nus // raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ aquele dia/ raios de luz/ meu pai mostrando o sol/ um rombo azul/ a olhos nus/ raios de luz.” Trata-se quase da mesma coisa, não è vero? Mas essa é uma publicação livre!

Maconha na drogaria 

“Sonhei que o fogo gelou/ Sonhei que a neve fervia/ … Maconha só se comprava/ Na tabacaria/ Drogas na drogaria…”, canta o Buarque em Outros sonhos (do CD Carioca, 2006). Logo ali, no país do lendário José Mujica, o sonho buarqueano se realizou ad hoc.

A erva está disponível em 17 drogarias licenciadas pelo governo. O monopólio estatal, implantado na Lei da Maconha, de 2013, anda bem longe de cobrir a demanda; a turma da chincha reclama que a erva oficial é palha, e de ser obrigada a se registrar para adquirir sua ração periódica da Cannabis sativa ou da Cannabis indica, tipos oferecidos nas farmácias a cidadãos uruguaios. Para a turistama, neca, por enquanto. Um em três usuários fuma o produto estatal, os demais se valem dos bons serviços do paralelo, antes conhecido como “negrol”. Nada disso impede que o país seja decantado mundialmente como caso de sucesso, por sangrar um terço do faturamento do narcotráfico. “Eu uso a indica quando quero relaxar, e a sativa quando quero ser mais criativo, escrever ou desenhar”, explica, como quem prescreve, o jovem Nahun Martínez, de 19 aninhos, à reportagem especial da Folha. O rapaz é funcionário de uma padaria, e ainda há de se revelar ao mundo das artes. Tomara. A Disney da Erva milongueira não é uma Christiania, o parque temático hippie de Copenhague, mas tem museu, circuitos, completas lojas de acessórios e cursos para chefs da alta cozinha canábica. Um estudante brasileiro de nível avançado preparou para os repórteres da Folha um banquete de pratos como o Chicken Sauce Smoke. “Trata-se de um frango com batatas que leva azeite de maconha”, descrevem, para o leitor já na larica. A propósito do nosso vizinho, neste 14 de setembro celebra-se por lá o centenário de nascimento de Mario Benedetti.


GONZAGUINHA (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, Rio de Janeiro, 1945 — Renascença, Paraná, 1991) canta COM A PERNA NO MUNDO, composição dele, faixa A2 do LP Gonzaguinha da vida (EMI-Odeon, 1979), com a participação de Djavan no backing vocal.

O delicioso e bem marcado samba autobiográfico, carregado de páthos e alento, melancolia e joie de vivre, tem o dom de me revolver sinapses e aumentar num instante a taxa de serotonina (já que vamos devagar com o romantismo).

Gonzaguinha é daquelas almas que não caberiam neste mundo assombrado pela inteligência artificial, em que a “ética da autenticidade” vira mercadoria barata no Instagram.

Era um homem magérrimo, politizado e lírico a um tempo, de fala pausada, malandra, compassada nas cordas do coração.

COM A PERNA NO MUNDO - Gonzaguinha 
 
Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
 
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
 
Oh Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
 
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
 
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
 
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
 
Ô ô ô ê ê á
O moleque acabou de chegar
Ô ô ô ê ê á
Nessa cama é que eu quero sonhar
Ô ô ô ê ê á
Amanhã bato a perna no mundo
Ô ô ô ê ê á
É que o mundo é que é meu lugar


O banho da Lo Prete

Renata Lo Prete, quem sabe a jornalista brasileira mais completa em plena na labuta, comemora um ano do podcast O Assunto banhada na merecidíssima glória. Seu programa conquistou ampla audiência, inclusive a jovem, e é recomendado por professores a estudantes que se preparam para o Enem. Bateu na estratosfera dos 33 milhões de download. Aos 56 anos, a Lo Prete divide inacreditavelmente seu labor com a edição e apresentação do Jornal da Globo e do semanal Painel, da GloboNews. Enquanto isso, a Folha agrega um terceiro apresentador, jornalista mais tarimbado, pra ver se engrossa o caldo do seu falso Young friendly Café da Manhã.



PEREGRINAÇÃO – Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.


Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.


Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...

Este é o oitavo de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).    


Mark Rothko Nº. 11 (Sem título, 1957).
Óleo sobre tela (201.9 x 177.2 cm). Coleção particular. Via WikiArt.  
Pelo final de 2015 comecei a publicar, apenas no blog Livro de Viagem, a coletânea 21 poemas, dois anos depois do Moral das horas. Ilustrei as páginas desse poemário com obras de Mark Rothko (1903-1970), artista nascido onde hoje é Dunaburgo, Letônia, e naturalizado norte-americano.
Meu xodó por Rothko é um negócio do outro mundo; como costuma ser, à primeira vista, nascido, creio, desde que vi seus quadros na Tate Modern, muito tempo atrás.
Suas cores profundas, sobrepostas, graduadas e geometrizadas podem eviscerar a alma de um observador atento e paciente.
Bom, este Nº. 11 me pareceu perfeito para ilustrar o poema [20/21] que me escapuliu da leitura de Tolstói.
GUERRA E PAZ
 
Madrugada
No campo de Borodinó:
Sobre a palha da aveia,
Um silvo rasga a névoa;
A carne acalenta o instante
Pôr do sol.


«Magistocrata não sai de férias, vende. Conrado Hübner Mendes, na Folha.»

«Sem sintomas, brasileira ficou cinco meses infectada pelo coronavírus, caso mais longo já documentado no mundo. O Globo.»

«Hospitais em Nova Orleans mandam pacientes infectados pelo coronavírus para instalações de cuidado paliativos ou para morrer em casa. No ProPublica, em inglês.»

«Marcelo Viana: Limites da mente humana. Na Folha de S. Paulo.»

«Escrever é como girar a faca na ferida, uma rara entrevista com Elena Ferrante. No Estadão

«Eleição nos EUA: E se o Facebook for uma ‘maioria silenciosa’ de fato? New York Times, via Estadão

«Uma entrevista com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Na Letras Libres, em espanhol.»

«Uma entrevista com fotógrafo britânico David Hurn. No Jot Down, em espanhol.»

«A plataforma mais violenta. O problema do extremismo no Facebook. The Baffler, em inglês.»

«Charles Taylor: “É necessário o fortalecimento da identidade comum dentro das sociedades”. Estadão da Arte.»

«A reabertura da museu Casa de Fernando Pessoa. El País, em espanhol.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

De camisa amarela

Jurupoca #37 – Desde o Belo – 28/8 a 3/9, 2020 — Ano 2


REMISSÃO – Carlos Drummond de Andrade

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo do teu ser?

Este é o sétimo número da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). O soneto drummondiano vem originalmente do Claro enigma (1951).

Amilcar de Castro. Jardim das Esculturas do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, 797 × 800. Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons

Obra de Amilcar, poema incluído no Moral das horas (Manduruvá, 2013) surgiu, creio, da memória do escultor e das impressões de suas figurações em aço corten.

Eu o via muito entrar e sair do seu antigo ateliê da rua Goiás, no Belo. E pude entrevistá-lo na faina de repórter de cultura, entre o final dos 1980 e o começo da outra década.

Retenho seu rosto forte, anguloso, e a fala seca e direta.

Para o leitor interessado em sua obra recomendo o ensaio a ele dedicado por Rodrigo Naves em A forma difícil (Editora Ática, 1996). É magnífico.


 Obra de Amilcar

cidade-suma
sumário seccionado
aço roído ao ar exsuda
seu óxido

pele exangue

Do Moral das Horas (2013)



Opa! Vamos apear?

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos, como me lembram todo ano a essa época Beto Guedes e Ronaldo Bastos, não haverá, desgraçadamente, como brotar o perdão onde a gente plantou, no cantar de Sol de primavera.

A capa da Piauí de agosto tem uma extensão para homenagear, com cem mil pontos de luz, cada um dos seres, em igual quantidade, levados pelo Sars-Cov-2, uma pessoa, duas pessoas, três pessoas… cem mil pessoas.

Deste então precisamos de mais, talvez, nesta quinta-feira, quando arremato esse texto, de mais 18 mil pontos de luz além daqueles.

Talvez você tenha se inteirado de algo do debate sobre a reação diferenciada do brasileiro diante da mortandade atual. Outros povos, na Europa, na Ásia, mesmo nos EUA, se afirma, sentem mais e demonstram mais seu espanto, sua dor, são mais solidários diante da aniquilação, com as lágrimas, com a opressão no peito de milhares de famílias que não podem sequer receber o consolo do abraço forte de um amigo ou familiar distante pela perda de seus queridos e amados.

Além deste traço que, creio, também reafirma a tal cordialidade tão nossa, segundo Sergio Buarque de Holanda, característica que nos faz voltar para o que é próximo e pessoal, avessos que somos à noção de comunidade estendida, ao sentido comum do marco civilizatório, pois além desse traço, dizia, convivemos com um presidente e seus defensores que desprezam, senão negam a devastação da praga, com álibis dos mais canalhas como morre “só quem tem comorbidade”, “quem não é atleta”, “quem não toma cloroquina” e sandices que tais do nosso franco jumentíssimo.

Neste setembro e na primavera que se anuncia, é pena, queridos Guedes e Bastos, ainda estaremos sob trevas espessas, envergonhados, massacrados pela desonra, pelo vexame.

Não consigo ter esperança, confesso, além de torcer por dias melhores, pela produção de uma vacina eficaz e segura que nos permita, quem sabe, olhar para o saldo da terra devastada e tentar seguir em frente.

Um abraço, e mais uma vez obrigado pela leitura. Sinceramente,

Antônio Siúves


Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?



O fim dos mundos

“Foi a partir de minha terra natal que as trevas começaram a tomar conta do mundo”, diz Amin Maalouf em O naufrágio das civilizações (Vestígio Editora). O jornalista, professor e escritor, libanês de nascimento, francês e europeu por adoção, refere-se ao Levante, região que corresponde mais ou menos ao Oriente Médio atual, e às frustrações de um sonho civilizatório universalista jamais realizado. O melhor de sua análise é o sabor da prosa, a serenidade de um estilo decantado pela idade já avançada, e o testemunho de quem viu de perto como tudo começou a escurecer. Maalouf procura entender a “tendência ao fatiamento e à tribalização” dominante em nossos dias. “Quando os herdeiros das maiores civilizações e os portadores dos sonhos mais universais se metamorfoseiam em tribos raivosas e vingativas, como não esperar o pior para a continuação da aventura humana?”, indaga. Ele estabelece, para clareza de pensamento, dois grandes marcos temporais do retrocesso, moral e geopolítico. A guerra árabe-israelense de junho de 1967 é o primeiro. Os povos derrotados e humilhados jamais se recompuseram daquele fracasso, como lograram alemães e japoneses, nos casos mais notórios, compara o autor, depois de destroçados e ocupados pelo inimigo. Nações se dissolveram e o extremismo islamita mais sanguinário assumiu as rédeas da política, a partir do cisma teológico entre sunitas e xiitas, além do premente ódio aos colonizadores “infiéis”, muito compreensível, aliás. A disputa por influência planetária durante a Guerra Fria entre os polos soviético e norte-americano só fez aprofundar os descaminhos, com mais morticínio em massa na Indonésia, no Camboja, no Afeganistão, e desorientação geral sobre o futuro. Novembro de 1979 é o outro padrão desde o qual Maalouf desenrola a meada de suas reflexões. O autor define como revoluções conservadores o Thatcherismo, seguido pelo Reaganismo, a virada na China com Deng Xiaoping na direção de um “capitalismo de Estado”, a revolução iraniana de Khomeini, e mexidas mais pontuais no tabuleiro, como a eleição ao papado de Karol Wojtyla, no ano anterior. O ultraliberalismo lançou as bases da desigualdade e do atual populismo, diz Maalouf, e da queda da URSS, em 1989, império que já claudicava por seus muitos erros e crimes. Ele não poupa os desvios da esquerda, ao trocar o estandarte do humanismo universalista pela luta identitária e “corporativista”, ao lamentar os reveses, para ele irreversíveis, do projeto europeu, do descrédito da social democracia e da cacofonia populista que se espalhou pelo mundo no novo milênio. “O que caracteriza a humanidade de nossos dias não é uma tendência a se reagrupar no seio de vastíssimas coletividades”, observa, “mas uma propensão à fragmentação, à divisão, com frequência, entre violência e amargura”. Maalouf escreveu seu livro ao entrar na casa dos 70 anos. A aceleração dos avanços da ciência e tecnologia e os progressos da globalização, da libertação de forças econômicas responsáveis por tirar grandes massas humana das da miséria extrema, não detiveram o retrocesso a que se refere em sua obra. Empacamos ou regredimos, afirma o autor, na convivência entre diferentes comunidades humanas, ou no urgente enfrentamento da emergência climática. O ressentimento ampliou os limites da democracia liberal, estamos quase n’água, a pique, na imagem do Titanic a que recorre. Ao esboçar o perfil do “espírito do tempo”, Maalouf não dá muita bola para o papel das novas tecnologias de comunicação e da economia digital, ou não se aprofunda muito sobre seus efeitos na política e no comportamento. Mas isso não atrapalha uma leitura agradável e instrutiva do início ao fim.


Tecnolatria

O astrofísico, filósofo (além de uma porção de outras expertises) espanhol Juan Arnau diz em entrevista ao diário El País que estamos em pleno “triunfo da tecnolatria”. As humanidades se colocaram de joelhos diante da ciência, declara. O entrevistador quer saber se a radicalização e a polarização são ameaças de novos totalitarismos. Arnau diz que sim. “Seguimos no binário, por efeito da tecnologia e da preponderância dos algoritmos”, argumenta. “As redes sociais, além disso, tendem a uniformizar o pensamento. E isso é a morte do pensar. O dataísmo supõe sua aniquilação”, afirma.


Em modo digital

Arnau bateria uma boa bola com o médico e neurocientista Miguel Nicolelis sobre o novo livro do brasileiro que acaba de sair, O verdadeiro criador de tudo – Como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos (Editora Crítica). André Cáceres fez uma excelente análise do livro. Comento apenas um dos aspectos que mais me despertaram atenção, ainda sem ter acabado minha leitura. Nicolelis suspeita que “a convivência quase contínua com computadores pode afetar a forma como o cérebro funciona e, no limite, nos transformar em meros zumbis digitais orgânicos”. A conclusão se baseia na plasticidade neutral, o fascinante atributo da autoadaptação cortical. “Os neurônios alteram propriedades e morfologia e até a distribuição e a intensidade das sinapses”, explica. Outra coisa é que um cérebro de primata adulto, no dizer de Nicolelis, é influenciado por modificações ocorridas dentro e fora do nosso corpo. A ampliação de nossa dependência dos sistemas digitais, aplicativos e algoritmos estabelece uma “verdadeira simbiose e pode afetar o cérebro”, por meio dessa plasticidade. Operar no modo digital atende padrões artificiais de aceleração, eficácia e produtividade. Nicolelis receia que essa simbiose acabará por eliminar, e mais cedo do que possamos imaginar, o caráter humano definido pela criatividade, intuição, inteligência, compaixão e empatia pelo próximo.


Aceleração e significado

Li com muito gosto o perfil de Lorenzo Mammì na revista Piauí de agosto, que quase me chega em setembro. Mammì, um ítalo-brasileiro de baixa estatura, forte e sacudido, professor de filosofia medieval na USP, tradutor de Santo Agostinho desde o latim, talvez seja nosso melhor intérprete de João Gilberto e da Bossa Nova. Suas críticas musicais, sobre a importância do LP, por exemplo, são sempre iluminadoras. A matéria da revista tem como fundo a questão sobre o que deu errado com a “promessa de felicidade” que certa classe média decantava, e que só fez afundar mais e mais no pântano da realidade brasileira. O título é Utopias e ruínas – O Brasil da bossa nova e o de hoje… A era de ouro da cultura brasileira, dos anos 1950 em diante, também alicerçou o que viria depois da ditadura e seríamos hoje, como o inchaço das cidades e o aumento da violência urbana. Mammì olha para a violência como traço da mesma cordialidade identificada por Sergio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, ou a contraface da cordialidade que favorece a convivência e a proximidade. “Onde faltam regras impessoais e as relações são resolvidas caso a caso”, lemos na reportagem de Rafael Cariello, “a passagem do afeto à agressão se dá com assustadora facilidade”. Mammì nos ajuda a distinguir o consumo cultural praticado nos anos 1960 e 1970 da atual maquinaria de liquidação. “Se você pensar, todos os grandes movimentos da década de 1960 foram também movimentos de consumo: o disco, a motocicleta, o cinema, a roupa”, pondera. “Você tinha a possibilidade de dar peso e importância ao que seria supérfluo, mas não com uma aceleração tal que tornasse tudo obsoleto o tempo todo”. Vivemos hoje em permanente falta de tempo e liberdade, em uma vertiginosa aceleração. “As coisas se diluem quanto aceleram a um tal ponto que impedem uma apropriação reflexiva. Isso impede que as coisas criem significado”, diz Mammì.


E dizer mais o quê?

Vivemos um presente que parece permanente, eternamente vácuo, de um single a outro, na música, sem tempo para ouvir um novo álbum do começo ao fim; de post em post, hashtag em hashtag. Em grande medida, desaprendemos a ler em profundidade, e nos desinteressamos pela crítica e a reflexão. Creio que isso é o mesmo que dizer que nos afastamos do outro, do mundo, e nos voltamos mais e mais para dentro de nós próprios, nossas próprias respostas ególatras. 


O melhor amigo do  homem é o bode

Juan Arnau é um dos nomes da série recente de entrevista curtas e diretas lançadas pelo El País, em formato pingue-pongue no jargão do jornalismo, a mesma que traz o filósofo e escritor basco Fernando Savater (na captura de tela acima). Morador de San Sebastián, ele viveu longamente com proteção policial, depois de ser jurado pelos assassinos do ETA. Bissexual, amante do txakolí, o ótimo vinho branco regional, ele revela grande sinceridade e lucidez em seus livros, crônicas e entrevistas que concede, além de bom humor. Diz no papo com Borja Hermoso, editor de cultura do jornal, que o melhor amigo do homem não é cão, mas o bode expiatório. Sempre conseguimos colocar a culpa no outro, ele diz. Em nossa época, de seguidas pandemias de vitimismo, então, isso é batata! Me senti honrado por sua opinião sobre o terrorista, que lhe dá medo, e o defensor do terrorismo, de quem sente asco. Gostei sobretudo de sua consideração sobre drogas e o sexo e seus descontentes ideólogos. “O sexo está ligado à nossa natureza como seres determinados por forças que não conhecemos”, ele diz. “Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade”, prossegue, antes de alertar: “Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”


“Por isso essas ideias de autodeterminação de gênero me parecem uma estupidez. Crer que se pode determinar seu sexo é como crer que se pode determinar sua estatura ou idade. Há bárbaros que dizem a crianças de seis anos que podem escolher um sexo ou outro. Isso é o mais destrutivo que se pode fazer com uma personalidade.”

Fernando savate

ROSA PASSOS (Rosa Maria Farias Passos, Salvador, 1952) canta CAMISA AMARELA, de ARY BARROSO  (Ary Evangelista Barroso, Ubá, MG, 1903 – Rio de Janeiro, 1964).

Violonista, compositora e prodigiosa intérprete de todos os gêneros, fadada ao jazz e à carreira internacional, Rosa incluiu Camisa amarela em seu álbum de 1997, Letra & música de Ary Barroso, com o violonista e guitarrista Lula Galvão.

Talvez seja quem, na MPB, melhor fale a língua do jazz, com grande propriedade, o que demonstrar quando imprime nesse samba a cadência, a divisão e a suavidade que enaltecem a composição de Ary.

Camisa amarela é lançada a 31 de março de 1939, interpretada, lindamente, por Aracy de Almeida, apenas um ano depois de Carmem Miranda ganhar as paradas com a Camisa listada de Assis Valente [ver Ju # 34].

O novo samba vai, igualmente, se tornar um clássico da nossa música popular. Se não era uma resposta de Ary, nosso ubaense pegava o mesmo mote da crônica carnavalesca carioca sob o ponto de vista da mulher sofrida por seu homem desvairado.

É, por assim dizer, um metassamba, gravado no mesmo ano de Aquarela do Brasil, este samba-exaltação, gênero inventado por Ary, que iria ganhar Hollywood e o mundo.

“A protagonista [de Camisa amarela] narra as proezas do amante folião que volta sempre aos seus braços, passada a brincadeira”, comenta Zuza Homem de Melo e Jairo Severiano no primeiro volume de A canção do tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34, 2015).

“Procurando dar uma impressão de realidade à história, Ary chega a localizá-la no tempo e no espaço, com a citação de músicas do carnaval de 39 — Florisbela e Jardineira — e lugares do Rio — o Largo da Lapa, a Avenida (Rio Branco) e a Galeria (Cruzeiro)”, prosseguem esses autores.

O próprio Ary gravaria a canção em 1956, acompanhando-se ao piano, com todas as justas pausas e erres fortes da época. Também há lindos registros de Gal Costa, Nara Leão e Caetano Veloso.


Camisa amarela foi registrada na bela voz da cantora portuguesa Maria da Graça no filme O Pátio das cantigas, de 1942, dirigido por Francisco Ribeiro, aduza-se aqui como curiosidade.

O fraseado redondo de Ary, o português muitíssimo bem tratado, com colocações pronominais já extintas da oralidade brasileira, e mesmo da escrita, a ternura expressa pela amante, a mulher “cheia de perdão”, como exaltaria mais tarde Vinicius de Morais, fixa esse samba num tempo da delicadeza da canção popular.

CAMISA AMARELA — Ary Barroso

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando a Florisbela, oi, a Florisbela
Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão

Mais tarde o encontrei
Num café zurrapa
Do Largo da Lapa
Folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça
Isto não é chalaça

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando A Jardineira, oi, A Jardineira
Me pediu ainda zonzo
Um copo d'água com bicarbonato

O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama
E não tirou nem o sapato
E roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo, mas não ligo!
O meu pedaço me domina
Me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal

Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passada a brincadeira
E ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim.
 

Té ‘rrupiei, nu!

“Estou preocupado com a Amazônia”, diz Al Gore, ex-vice-presidente norte-americano. “Quero explorar os recursos da Amazônia com os EUA”, devolve ¡Caveirão.38!. “Não entendi o que você quer dizer”, encerra Al Gore, se virando e caindo fora daquela fria. Estrupício! O “diálogo” constrangedor e desconcertante, intermediado pelo ministro Arnesto, o funesto, ocorreu no Fórum de Davos, na Suíça, em 2019. “Ninguém queria ficar perto de Bolsonaro”, disse ao Globo Marcus Vetter, diretor do documentário O fórum. Ao ver a cena, que, como se diz, viralizou, té ‘rrupiei, nu!, cá nos recessos de minh’alma mineira.


O Haiti é ou não é aqui?

O assunto esfriou. Deu vez à hashtag da pergunta endereçada ao presidente Massaranduba, isto é, ¡Caveirão.38!, sobre os tais depósitos do Queiroz na conta da primeira-dama Xexele. Mas esta Ju não esquece um assunto sério assim sem menos. Soubemos por dr. Fontes Fidedignas que o arcebispo do Belo e presidente da CNBB, dom Walmor de Oliveira de Azevedo, adormecera e sonhara com a própria declaração condenatória à interrupção da gravidez da criança capixaba violentada. Após um pecaminoso wet dream, sua eminência reverendíssima despertara, por obra d’algum milagre, ao som da música Haiti (Gilberto Gil e Caetano Veloso), tocada em alto volume no rádio-relógio de seu amplo claustro, justamente na parte da letra que lhe serviria de carapuça: “…E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto / E nenhum no marginal…”. O religioso, baiano de Cocos, ao se levantar rumo ao W.C. se pusera aos berros, movido pela mais atroz e santa fúria: “Crime hediondo! Crime hediondo!”.


Cangaço

Enquanto isso, quase ao mesmo tempo, a cangaceira Sara Virgulina convocava seu bando de bandidos intergaláticos virtuais e analógicos para torturar mais uma vez a criança barbarizada. Médicos foram acossados e a demência, mais uma vez, reinou em Pindorama.



Eu algoritmo, tu algoritmas

O título de capa do caderno de ex-cultura da Folha, hoje mais para editoria de Secos e Molhados, aliás verdadeira loja de Raimundo Joãozinho, que fica logo ali, depois da ponte dos Machado, à direita de quem segue rumo a Itabira do Mato Dentro, terrinha boa de CDA. A máquina de caça-clique de ex-cultura padronizou enunciados no imperativo: entenda, pau pra toda obra, ou saiba. A redação parece movida por algoritmos, e o Nicolelis tem razão! Claro, a turminha imberbe da editoria, dedicado mercado de pulgas do new journalism cultural forjado na Barão de Limeira, tem muito a nos ensinar, entre um clique e outro. Lá se conjuga o verbo algoritmar, eu algoritmo, tu algoritmas etc. 

A editoria de ex-cultura da Folha flagrada em pleno esforço de reportagem caça-clique. 
Foto: Antônio Siúves

Harrison

No dia 29 de novembro de 2001, uma quinta-feira, diante de uma mesa fria de granito da redação de O Tempo, na avenida Babita Camargos, em Contagem, recebíamos no Magazine a notícia da morte prematura do ex-beatle George Harrison. Abrimos várias páginas do caderno para registrar com dignidade a perda de um artista tão querido por multidões e por cada um de nós que amamos suas canções, sua timidez e integridade paciente. Ao titular nossa “capa poster” pensei em algo simples e direto. “Obrigado pelo sonho”, manchetei garrafal. Durante muito tempo me descia uma lágrima só de pensar naquele título. Músicos e beatlemaníacos me ligaram no dia seguinte para nos felicitar. Lembrei disso agora ao ler um artigo/reportagem muito bem feito, especialmente para o Estadão por Carlos Oliveira sobre uma nova edição de All Things Must Pass, a caixa caprichada de 3 LPs lançada há 50 anos e que iria afogar as mágoas dos fãs, entristecidos com o anuncio recente do fim dos Beatles. Olivia e Dhani Harrison, viúva e filho, estão à frente do projeto, que terá registros inéditos e uma canção de Harrison e Bob Dylan nunca lançada oficialmente, chamada Window Window.

Canção amiga

Saiu uma beleza a versão de Canção amiga (Carlos Drummond de Andrade – Milton Nascimento) com Leila Pinheiro e o grupo Seis com Casca, do álbum que acabam de lançar pelo selo Azul Music.


Cisne

Deslumbrante, pelo menos, o single de Arthur e Lívia Nestrovski do novo álbum de pai e filha, Sarabanda, apresentado neste clipe aqui de Cisne, parceria de Arthur com o compositor francês Camille Saint-Saëns (1835-1921), mais uma das suas com os clássicos, e me lembro, por exemplo, entre muitas, de sua tradução da Ode à Alegria para a gravação da Osesp da 9ª Sinfonia de Beethoven, e sua Serenata, música de Franz Schubert e Ludwig Rellstab, que, na voz de Chico César virou trilha da novela  Velho Chico, da Globo. Gosto até mais da versão dessa música com a dupla parental, introduzida com uma citação de A saudade mata a gente, de Braguinha.



«Miserável mundo novo: Conservadores, uni-vos!. No Estadão da Arte.»

«O Gramsci da direita brasileira – Antes a maior influência de Jair Bolsonaro, a ambição de Olavo de Carvalho é estabelecer no Brasil a hegemonia nacionalista e cultural de uma nova direita. Na Dissent, em inglês.»

«Livro de 1794, ‘Viagem ao redor do meu quarto’ mostra como burlar o tédio da quarentena. O Globo.»

«Leonardo Padura constrói a grande novela do exílio cubano. El País, em espanhol.»

«Feliz aniversário: Paula Toller completa 58 anos (…) e fala sobre feminismo no rock e memes sobre ‘juventude eterna’. No Globo

«Os 80 anos de Acertei no milhar. Rádio Batuta.»

«Gilberto Gil | Concerto de Cordas & Máquinas de Ritmo (Show Completo). Vídeo da Biscoito Fino.»


«Bach marca o retorno do pianista Lang Lang – Por anos ele não quis tocar as ‘Variações Goldberg’ em público, mas agora lança duas gravações. Joshua Baron, The New York Times, via Estadão

«O radicalismo de Woody Guthrie. Na Jacobin, em inglês.»

«O rosto de Tiradentes – Sete anos de pesquisas, com a consulta de 300 imagens, permitiram mostrar como foi construído o rosto que está em monumentos, quadros, cédulas, moedas e selos. Elio Gaspari, em O Globo

«A canção que levava ao suicídio. No El País, em espanhol.» 

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.