Zambujo, grande intérprete de Chico

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O “cantautor” António Zambujo – Foto: Pablo Tupin-Noriega (Wikimedia Commons)

[Este texto tem correções e atualizações feitas na manhã de 10/05/2017]

É de outubro 2016 o álbum do português António Zambujo com a obra de Chico Buarque.

Chama-se graciosa e inteligentemente Até pensei que fosse minha. É o que mais podemos esperar de um intérprete.

Quase ninguém sabe disso, da existência desse CD, como é comum nesta era de pequenas tribos a valorar o que é mais elevado na música e na cultura.

Acima das tribos, claro, engula-se o relativismo crítico que promove a hegemonia até de certos nojos, putativamente gêneros musicais.  Mas deixa pra lá.

Há tempos não ouvia um trabalho de intérprete dedicado a uma única obra (cancioneiro, songbook em português) tão feliz na escolha do repertório, no canto e elaboração dos arranjos.

Pois Zambujo fez o melhor disco de intérprete de Chico Buarque.

Penso que apenas, entre cantores, Caetano Veloso poderia alcançar um resultado tão singelo e elegante, se se propusesse a isso, pois sabe, como Zambujo, que Chico sempre foi o melhor cantor da própria obra [ver área de comentários].

Olhe aqui a versão do baiano de Januária, do antológico Contemporâneos (2003), de Dori Caymmi.

Repertório

Dezesseis faixas (ver abaixo) logram um perfil poético e melódico apurado da música de Chico. Não é um feito qualquer diante de uma obra extensa e qualificada como a buarqueana.

Vão cronologicamente de Januária e Até pensei, canções do LP Chico Buarque –Volume 3 (1968), à linda valsa Nina, do disco mais fresco de Chico, de 2011.

Da música mais recente de Chico, para qual ingenuamente não se dá muita bola, aparece ainda Cecília e Injuriado, do álbum As cidades (1988).

Dentro do esbelto conjunto destaca-se o dueto de Zambujo e Roberta Sá em Sem fantasia, no qual Roberta abre a canção acompanhada por um contrabaixo. É bonito de chorar.

Canto

Zambujo tem no timbre e na divisão a delicadeza essencial que essas composições demandam.

Interpretar Chico Buarque não é qualquer firula; e apostar no peso da obra para o sucesso fácil, um engano que tem frustrado dezenas de cantoras e cantores.

Ouvir O sotaque de António Zambujo e a colocação pronominal portuguesa é reconfortante para os ouvidos cansados dum brasileiro.

Chico Buarque e Carminho também estão no CD.

Arranjos

Jobim ria de quem lhe criticava por usar “poucas notas”. “Sim, são poucas, mas apenas as melhores”, gozava.

Os arranjos deste disco têm a economia acústica que procura apurar as sensações, o encantamento alguma vez, uma economia joãogilbertiana, por assim dizer.

Violões, bandolim, clarineta, acordeom e pouco mais retecem a leveza da rede de melodias, de maneira a ressaltar e até reinventar nuanças das harmonias originais.

Se o leitor tem Spotify o disco está aí.


Ao leitor 

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Um papo “transante” com Caetano Veloso, ou como não entrevistar um ídolo

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Caetano Veloso é um doce de entrevistado, eu pude ver nas vezes que conversei com ele como repórter dos jornais Hoje em Dia e O Tempo. É capaz de abordar qualquer assunto e adora uma provocação. Todo mundo sabe disso.

Todo mundo também sabe que a Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, na última década ou mais anda como a mendigar o prestígio que tivera, a erguer o chapéu para os cliques da onda homogênea das redes sociais, mas só faz afundar, dia após dia, na areia movediça da falta de caráter editorial.

O JS deteve-se em alguns pontos culminantes dessa trajetória engolfante, como a capa dedicada a fritar Noel Rosa, Caymmi e Valesca Popozuda na mesma frigideira da “cultura do estupro”. The horror.

Agora, publica com o igual estrondo uma entrevista de Caetano a Anna Virginia Balloussier, que lhe levanta a bola em todas as perguntas, como fã incapaz de propor uma perguntinha que seja que tenha cheiro de autêntico e irrevelado. Caetano corta como sabe e pode e a moça quer, inclusive no título idiota já colocado na pergunta: “Avesso à polarização simplificadora, Caetano elogia a direita transante”.

A menina Ballousier poderia ter ser esforçado para ler a coluna de Demétrio Magnoli com uma crítica precisa como bisturi de neurocirurgião às ideias de seu ídolo, e dali tirar uma questão decente com teor para capa de jornal de grande circulação. O próprio Caetano se refere ao texto de Magnoli no papo de aranha “transante” com a entrevistadora, assim como quem sorve uma água de coco na praia. Anna Virginia, com tantas letras dobradas no nome, claro, não entende nada!, e come a mosca com gosto de bombom.

 

 

Beleza e trevas à luz de Pokémon

Luz e trevas

 

Chora o Arthur Rimbaud querubim na conhecida Canção da Mais Alta Torre: “Inútil beleza/ A tudo rendida,/ Por delicadeza/ Perdi minha vida./ Ah! Que venha o instante/ Que as almas encante¹.”

No mundo do Pokémon Go, dos Pokémons todos deste mundo de ligas de cyberatletas de videogame e, como Ariano Suassuna, sem jamais saber se era punqui ou se era funqui, perdi a beleza.

Aí chorei como só se pode chorar nessas ocasiões, como o Galeão Cumbica de Roni Cócegas.

Pois quero dizer quando crescer o mesmo que o Álvaro de Campos de Fernando Pessoa: “Nada de estéticas com coração: Sou lúcido./ Merda! Sou lúcido”.

Choro como Galeão Cumbica por um país no qual 44% da população não lê livros, e quem costuma ler, lê a Bíblia, gibis e quejandos.

Choro como Galeão Cumbica por um país cuja rica tradição musical será representada, perante o mundo, na abertura da Olimpíada do Rio, por certa Anitta.

Choro como Galeão Cumbica por nosso mal-estar sem civilização, como diz o filósofo Eduardo Giannetti, ou na variante do antropólogo Claude Lévi-Strauss, por termos passado da barbárie à decadência sem conhecer a civilização.

Choro como Galeão Cumbica por Caetano Veloso, para quem os sertanejos são os novos tropicalistas, ainda que sejam incapazes de pensar; para quem, presume-se, é divino e maravilhoso o luxo de ter Anitta ao seu lado na inauguração da Rio 2016.

Onde Caetano enxerga a realização da utopia tropical, que inspirou o novo livro de Giannetti, o devir da nova Roma prevista por Darcy Ribeiro, eu vejo apenas o fim da picada.

Luz e trevas
A decadência da democracia liberal e a ascensão dos Trumps e das Le Pens também reflete a decadência cultural — a impotência da invenção, da resistência, um nó cego na história.

E o horror do terrorismo (cuja principal vítima não somos nós ocidentais, mas iraquianos, sírios, paquistaneses, palestinos…) e da indiferença para com os emigrantes da África, a despeito das orações do papa Francisco?

Luz e trevas
Se tudo são trevas, a luz está vencendo, diz Rust (Matthew McConaughey), o detetive filósofo da excelente primeira temporada de True Detective, ao refletir sobre o significado do céu noturno.

Na última sequência do episódio final, que acabo de rever, Rust é amparado pelo amigo Marty (Woody Harrelson), ao fugir do hospital com a barriga ainda cheia de pontos.

Ao despertar do coma e regressar a este mundo, Rust, chocado, se debulha em lágrimas, amparado por Marty. Não esperava voltar.

Em nome da verdade e da decência, Marty e Rust, afinal amigos do peito, derrotaram o mal absoluto, o homem-diabo, sacerdote do templo de Corcosa.

Rust tivera uma experiência religiosa, ou mística, à beira do abismo, apenas um instante antes de receber uma facada no abdômen.

Sentira-se seduzido pela terra desconhecida, de onde ninguém jamais regressou, pela escuridão fria e redentora de um aglomerado estrelar, pelo reencontro com o amor da filha, que desaparecera tragicamente ainda menina — um amor também absoluto. Seduzido, ele diz sim.

Os roteiristas da série poderiam ter posto na boca de Rust, antes de descerem o pano, em mais um toque de elegância, outra passagem do Rimbaud querubim, de A Eternidade: “De novo me invade. / Quem? – A Eternidade. / É o mar que se vai/ Como o sol que cai” (…).


(¹) Os poemas de Rimbaud citados no post são traduções de Augusto de Campos. Estão no livro Rimbaud Livre, Editora Perspectiva, 1993, 2ª edição.