Poetas tiram coisas do nariz em Paraty

Segundo relato da Folha de S.Paulo, a atriz Roberta Estrela D’Alva deu “show atrás de show” na Flip, ontem à noite, e “recitou slams contundentes
contra o racismo e a cultura do estupro”, a exemplo disto:  
“sou filha da puta/da luta/a mesma que aduba esse solo fértil/a mesma que te pariu” 


A poesia e o jornalismo cultural radiografam em Paraty
o estado da arte da cultura brasileira

Poesia colagem flip

O poeta e diplomata Felipe Fortuna opinou que a escolha de Ana Cristina Cesar como poeta homenageada na Flip (Festa Literária de Paraty) “é marca do desprestígio da literatura”.

No Feis, o poeta e tradutor Régis Bonvicino, comentou o artigo de Fortuna na Folha de S.Paulo: “MUITO CORRETO, muito corajoso, confere um tom adulto à literatura”.

Lá pelas tantas do texto, Fortuna escreve: “Se houvesse debate, se houvesse mercado para suplementos literários, talvez a escolha fosse outra. Como nada disso existe agora, restam acusações de parte a parte: serão machistas, serão conservadores os críticos de Ana C.?”

E a festa começou.

Nosso jornalismo mostrou-se apetrechado para cobrir a poesia brasileira no maior festival literário do país, onde predomina a vertente mercadológica “poesia com pegada pop” (ver abaixo).

Soubemos que os poetas reunidos em Paraty tiraram muita coisa da cabeça, incluindo o nariz.

Pelo relato das enviadas especiais da Folha, Lígia Mesquita e Luiza Franco, “Na abertura da Flip, poeta arranca aplausos ao citar Temer ‘monstruoso'”. [O verbo “arrancar” já fica mal no onipresente e eterno vocabulário esportivo, tal time “arranca empate”; quando aplicado a uma reportagem de cultura, minha paciência é arrancada.]:

Questionado se a poesia era a vida passada a limpo, o poeta Armando Freitas Filho, 76, arrancou aplausos e gritos da plateia na mesa inaugural (…) ao citar o presidente interino Michel Temer.

“A minha poesia, eu a entendo como a que toca todas as coisas, inclusive as mais monstruosas. Que pode tocar um Temer, por exemplo”, declarou.

[Como é fácil divertir o público e fazer espraiar o calor fraternal da gente sincera e bacana na era do “kkk”. Esperava mais de Armando Freitas Filho].

Poesia colagem flip

Despacho de outra enviada especial do jornal, Juliana Gragnani, informa no título: “Poetas falam de racismo, política e cultura do estupro em sarau da Flip”:

(…) O sarau de poesia (…) teve muitos aplausos a jovens poetas e gritos de “Fora, Temer”.

(…) O sarau foi apresentado pela bem-humorada atriz Roberta Estrela D’Alva, do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. Logo no início, ela foi interrompida por um grito pedindo a saída do presidente interino Michel Temer (PMDB), ao que ela respondeu: “ah, sim, primeiramente, Fora Temer!” (…)

Uma série de jovens poetas, como Mel Duarte, Allan Jones, Emerson Alcalde e a própria apresentadora, Roberta Estrela D’Alva, subiu ao palco, dando show atrás de show – todos extremamente aplaudidos pelo público. Mel Duarte recitou slams contundentes contra o racismo e a cultura do estupro: “sou filha da puta/da luta/a mesma que aduba esse solo fértil/a mesma que te pariu” (…)

[Como são engajados e ousados nossos repórteres culturais, poetas e “classe artística”, a esgrimirem sua pontuda consciência política em plateias tão hostis.]

Pois é, Fortuna, não há mais mercado para suplementos literários. Ainda houvesse suplementos, não fariam grande diferença.

A poesia entre nós é esta coisa, uma hora é levada a sério e produz um grande, outra hora nem tanto, brincam muito e marginalizam-se, mas, quase sempre, o poeta de São Paulo se desavém com o poeta do Rio, que ignora o poeta de Minas.

Há 86 anos, em seu livro de estreia, Drummond fazia blague no célebre Política literária, dedicado a Manuel Bandeira: “O poeta municipal / discute com o poeta estadual / qual deles é capaz de bater o poeta federal. // Enquanto isso o poeta federal / tira ouro do nariz”.

Poesia colagem flip

Este JS não era JS quando deu aqui um post mais ou menos assim, há mais ou menos dois anos:

Procuram-se poetas com pegada pop

Interessante matéria de sexta-feira passada (16/5/2014) no jornal Valor Econômico (“Quanto vale um poeta”) assegura no fio da bigodeira: Com sucesso de Leminski, editores apostam em escritores dos anos 80 (sic), como Waly Salomão, e buscam autores com pegada pop.

Roubo um pedaço ou dois dos primeiros parágrafos do original:

(…) a poesia está conquistando as redes sociais, sendo mais lida e ganhando espaço no mercado editorial brasileiro como nunca, desfazendo o estigma de arte feita para poucos e que não vende bem. Editoras do porte de Companhia das Letras, Cosac Naify, Record e LeYa vão publicar neste ano antologias de poetas já consagrados (…).

O frenesi da poesia extrapola as décadas de 1970 e 80, chegando aos contemporâneos. Novos poetas, como Bruna Beber, Angélica Freitas, Gregório Duvivier — o humorista de Porta dos Fundos —, entre muitos outros, estão obtendo êxito nos mundos virtual e real, animando os editores pela qualidade literária e pela popularidade que têm nas livrarias.

Lendo a valorosa reportagem, tocou-me num canto da memória o Drummond do Sentimento do Mundo:

Brinde ao juízo final

Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
poetas de elixir de inhame e tonofosfã,
chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.

Em vão assassinaram a poesia nos livros,
em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
poetas diretos da Rua Larga.
(As outras ruas são muito estreitas,
só nesta cabem a poeira,
o amor
e a Light.)

Poesia colagem flip

Daí eu mesminho cometer poemetos de pegada pop sem pathos: 3 popenemas de última hora.

Esta obra é aberta a estetas sem pathos (pathetas) da nova era que o Valor vaticina.

Sejamos didáticos & mediáticos: um popenema é mesmo que um enema pop-poemático para uso de coletivos.

I

Poe-pê-peesi-á-pá: pá daqui
pá de lá e pronto: fiz agorinha
um indolor popeneminha.

II

No jardim concreto ao cacaso
florescem arnaldos roxos
e antunes multicoloridos;
lá revoam maritacas oswaldianas,
e jaguaretes espreitam
atrás de moitas de capinã
a balouçar ao vento amigo.

Olhos vazados
(para cantar melhor),
ilustres pintassilgos
bicam o alpiste mágico de Paulo Werneck,
piam na Piauí e zanzam em companhia
de pinguins cossacos globais
(flipados por aí).

III

1/2 dúzia de caroço
sobre o Eu
& Fim de Semana
do (p)o(et)a pop,
atrás da portinha:
p
o
e
s

i

a

Na feira de flores do Arnaldo

Arnaldo agora

Foto: Antônio Siúves

Como Mrs. Dalloway, saí para comprar flores.

Como sempre, ando quatro quarteirões até a feirinha atualmente ao lado do Colégio Arnaldo, às sextas.

O movimento é pequeno para uma antevéspera do Dia das Mães. O aperto é geral, penso.

Ainda integro a ínfima freguesia masculina da feirinha.

Ainda desperto curiosidade ao retornar com meu maço de lisiantos, em geral entre mulheres.

BH não é uma cidade dotada de mil praças e jardins e, pena, não tem florista, o pequeno florista do dia a dia.

Saí para comprar flores, como Mrs. Dalloway, a me lembrar dos versos de Drummond em “Tarde de Maio”: “…Eu nada te peço a ti, tarde de maio,/ senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível, / sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de/ converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém/ que, precisamente, volve o rosto e passa… / Outono é a estação em que ocorrem tais crises,/ e em maio, tantas vezes, morremos…”

BH ainda agora era uma cidade mais amável.

[Atualizado às 19h16, com links e um acréscimo.]

 

 

 

CDA e os Beatles; Blackbird e o Melro

O colunista Carlos de Oliveira, em seu blog Sonoridades – Partituras sem contratempo, hospedado no Estadão, lembrou, no dia 10, as traduções de Carlos Drummond de Andrade para seis canções do Álbum branco dos Beatles. Saíram na revista Realidade, em 1969. As versões são ótimos. Aí vão a letra original e o texto de CDA para Blackbird — uma das mais lindas melodias de McCartney, uma das mais lindas melodias já criadas.

O próprio ex-beatle disse ter se inspirado no Bourée em Mi menor de Bach, tal como para compor, mais recentemente, a singela Jenny Wren.

(Oliveira observa que Blackbird tem apenas o violão canhoto de Paul e o som do metrônomo, à guisa de percussão. Há quem diga que o que se ouve é a precisa marcação do pé do artista; é o que sugere o vídeo abaixo.)

CDA e Paul, um encontro predestinado no universo da poesia. Digo grazie mille.

 

Blackbird

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.

Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.

Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise
You were only waiting for this moment to arise.

Melro (por CDA)

Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo.

Melro que cantas no morrer da noite,
com estes olhos fundos aprende a ver
A vida toda
esperaste a hora e a vez de ser livre.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.

Voa, melro, voa, melro,
para o clarão da escura noite.
Melro que cantas no morrer da noite,
com estas asas rotas aprende teu voo
A vida toda
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo
esperaste a hora e a vez de teu voo.