O ano do VAZIO

EDIÇÃO DE FIM DE ANO

Jurupoca_52. 18/12/2020 a 7/1/2021. Ano 2

Uma galeria vazia, foto via Widewalls

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eu sei sobre o Natal. Bimbalham os sinos etc. Mas balanços são um saco. Deixo pra revista Time, que elegeu Biden e Kamala personalidades do ano.

Em 20 de janeiro, puta merda, nos livramos (talvez provisoriamente) do balofo espantalho alaranjado que assombrou o mundo nos últimos 4 anos.

2020 é o ano da peste.

2020 é o ano do pemba.

2020 é no ano do Jumento, ou seja, mais um ano de Sua Excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e toda a récua, a tropa de animais de carga (mesmo que cavalgaduras, corja, súcia, quadrilha, carcaria e malta).

Mas, sobretudo, 2020 é o ano do VAZIO!

***

Essa derradeira carta de 2020 saiu meio excêntrica, fora do padrão, se a Jurupoca possui algum.

A leitora sabe como um influenciador analógico segue à risca os mandamentos do marketing digital.

A gente tem de se dar por realizado quando 2 ou 3 abnegados clicam aqui. É um marco, uma festa na redação, tem champanhe George Albert e tudo.

E convenhamos, é triste fechar 2020 num registro meditabundo, você me perdoe. Mas não há o que fazer.

Fomos parar num cul-de-sac, o fundo do saco, beco sem saída.

É que a Ju está pra lá de pra frente e está me passando pra traz.

Decidida a se supermodernizar, ela só entra escondida no Face e no Insta, que é pra ninguém reparar. Mas acabo notando. E relevo que meus concertos de flauta já não lhe despertem emoção, e menos ainda, ó, pavor, lhe acendem o fogo.

Ih, que coisa mais esquizoide! Parece que bebe!

Que balda é essa de falar da Ju, da Jurupoca, desse jeito — você, com juízo e razão, haverá de se perguntar —, como se quem escrevesse não fosse a própria escritura?

E quem disse que é?

Assim como não era autor do Jornal do Siúves, e esclareci isso bem lá atrás, acho, não sou autor da Jurupoca.

Quem é então? Sei lá. Pierre Menard, autor do Quixote segundo o Borges? Vai ver.

Coisas da vida. Mas não bebo para escrever. Nunca dá certo.

Mas a Ju me deixa triste e cabisbaixo e umas tantas vezes me parte o coração. Bom rapaz, faço que não a vejo pular a cerca digital.

Não que eu seja santo. A Ju talvez, coitada, apenas reaja a certas inconstâncias autorais, como quem navega entre a ilha de Lia e o leito de Rosa, ou oscila entre Nize e Estela e ela (você entenderá essas referências no Intervalo).

Assim se passou mais este tal de 2020, cujos zeros são sumidouros de dois pobres patinhos na lagoa diante dos nossos olhos.

Como encarar um áporo, um problema sem solução, o drama que o leitor e a leitora da carta, verdadeiros mártires, têm acompanhado aqui como um seriado de terror?

Já foi mais fácil.

Antes, bem antes, alguém fumava um maço de Minister por dia e na hora do arrocho fumava dois, se ferrava no grosope, como dizia adoravelmente seu Joviano, saía por aí, lia um romance, cometia um poema, rodava até furar um LP de Leonardo Cohen ou Nelson Ned, e, dado a esportes mais radicais, recorria a um mercado generoso, eternamente rico em subterfúgios estupefacientes, da marijuana ao cheirinho da Loló ou Lança, do ácido à psilocibina, do chá de lírio às papoulas da terra do fogo, no cantar de cátedra do philosophy doctor Zé Ramalho da Paraíba.

Pelo menos esse era o padrão da juventude, e a juventude, como disse celebre e sabiamente Bernard Shaw, é a coisa mais preciosa na vida. Pena que é desperdiçada com os jovens.

Mas e hoje? O samba é diferente, cadenciado, e a batida é escatológica (no sentido filosófico, ao menos). Ensaboa, mulata, ensaboa.

Um alienista vai logo te ordenar um upgrade no antideprê e repor seu armarinho de reguladores mórficos e aplainadores de picos ansiosos. Assim se enquadra um cristão à ordem do dia e ao espírito do tempo.

Ah, naturalmente, vem os adendos adverbiais: se alimentar bem e ricamente, praticar sexo, exemplarmente, fazer terapia, ginástica, comer abacate, tudo regularmente, fazer meditação, profundamente, fazer coaching, necessariamente, e perseverar, positivamente, numa vida social plena e higiênica, certamente. Isso só pra começar. Seguramente, esse é o caminho da resiliência e da santidade aos 115 anos. Esse é, meramente, seu investimento, como se diz agora.

Num caso ou outro, no vai da valsa ou rock’n’roll primaveril de trasanteontem e o atual samba quadrado de agora, texto e subtexto se confundem numa algaravia pós-dodecafônica.

E é o maior barato!

Se esse caso não tem solução, se a equação não tem saída, resta o texto como variante da vida vivida. É o que chamo escrevidas.

Uma das maiores lorotas do vulgo é que só se vive uma vez.  Poucas e boas. Conta outra, bro.

Vivemos uma sucessão de vidas,  uma depois da outra, e uma sucessão de eus, um depois do outro, donde o autoengano da uniformidade, de que somos seres únicos.

Vai ver daí pintou o aforismo de Cioran: “Sem a ideia do suicídio há temos eu tinha me matado.”

O segredo é não ter pressa. Para ir ao outro bairro, como diz um autor espanhol, não é o caso de pegar o atalho do suicida. “Não reza a máxima que a única coisa segura na vida são a morte e os impostos?”, lembra o Carlos Castro.  Pois é. “Pra que precipitar os acontecimentos?”

E por que não ouvir os 4 Impromptus de Schubert, aqui com Alfred Brendel?

E por que não rever Tom Jobim e Leila Pinheiro ensaiarem a Valsa brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque) para a gravação do Songbook de Edu Lobo?

E por que não ouvir o professor Davi Arrigucci Jr dizer o Áporo na exata batida drummondiana?

E por que não se segurar no galho da Ju?

E por que não ser o autor da Ju?

Boas festas!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vertigem: do Financial Times a O Tempo

Leio no El País um elogio à publicação dos diários de Lionel Barber, celebrado e respeitado editor do Financial Times (2005-2020). A independência jornalística para a saúde financeira, permanência e vitalidade de um veículo de imprensa é um truísmo. Os mitológicos anos de Ben Bradlee à frente do Washington Post foram parar no cinema em um filme como Todos os Homens do Presidente. O editor Alan Rusbridger, é bem sabido, deu grandeza, respeitabilidade e admiração mundiais ao bicentenário The Guardian enquanto se manteve no cargo (1995-2015). Embora no Brasil tenhamos veículos respeitáveis e esforçados, estamos longe do padrão anglo-saxônico. Falo como observador e jornalista cuja experiência concreta nunca ultrapassou a imprensa regional, que é o inferno de toda e qualquer pretensão ao Jornalismo digno do nome. O lançamento em Minas de O Tempo, do empresário Vittorio Medioli, em 1996, onde durei dez anos, trouxe empregos, bons salários e abriu o mercado das ilusões. Nunca me esqueço, apenas alguns anos depois, de uma reunião no gélido e mofado auditório do jornal em Contagem, na avenida Babita Camargos. Enfrentávamos mais uma de tantas crises, com passaralhos, choro e ranger de dentes. Medioli, agora prefeito reeleito de Betim, subiu ao palco como mandachuva imperial para reagir às nossas reivindicações. Ainda o ouço profetizar na sua fala mansa, com forte sotaque de italiano nortenho (a imprensa italiana, a propósito, nunca foi grande coisa): “Vocês vão acabarrr na sarrrjeta”. Na batata! O vaticínio valeu para nós, jornalistas desempregados ou ganhando bem a vida em assessorias de imprensa e relações públicas que parasitam o jornalismo, quando ainda não capengando no trabalho precário em jornais que morreram e ainda respiram, no dizer de Caetano Veloso (com outras palavras) sobre o Jornal do Brasil. Valeu para o jornalismo regional mineiro. Valeu para montes de jornalecos que o Google não salvará.

Um país apedrejado

Os editorialistas do Estadão seguem afiados: “Desde sua posse, mas especialmente em meio à pandemia de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não se comportou em nenhum momento como se soubesse o que fazer com o poder que os eleitores lamentavelmente lhe conferiram em 2018. Bolsonaro não preside a República; depreda-a – e nisso é coadjuvado não somente pelos fanáticos camisas pardas bolsonaristas, mas por muitos brasileiros comuns que, por ignorância do que vem a ser uma República, respaldam a vandalização da Presidência e, por extensão, da própria democracia.” Primeiro parágrafo de O demolidor da República e seus cúmplices, publicado nesta quinta-feira (17). Ouro puro.

O suspense do ano

Não vi em 2020 outra série de ação melhor que a britânica Gangues de Londres, Gangs of London em português corrente, no Starzplay/Prime Video, já no quinto episódio. Seus criadores, Gareth Evans e Matt Flannery, parecem ter feito a escolinha do professor Martin Scorsese e tomado lições com Francis Ford Coppola e Quentin Tarantino. Ainda há toques da saga Bourne e, surpreendentemente, a inspiração de Jogos de Tronos em um entretenimento adulto. Cada capítulo transcorre com a tensão e urgência do grande suspense. A violência abusiva é posta a serviço da estética, é coreografada. O quarto episódio termina como um épico, uma sequência de alta voltagem de fato digna do Scorsese de Os Bons Companheiros ou Casino. Prendemos o fôlego diante da precisão, do desempenho de cada ator na expressão atônita dos personagens ao ver o sacro ambiente familiar, literalmente a sala de jantar da família Wallace durante uma confraternização, se converter em zona de guerra. No capítulo seguinte entendemos melhor aquele inferno doméstico. A série traz novo alento a um gênero precocemente decante, hoje dominado por produções medíocres, pueris e novelescas.

Le Carré

A morte de David Cornwell, o escritor John Le Carré, mereceu obituários pífios na imprensa brasileira. Mais um atestado da falência do nosso jornalismo cultural. A obra de Le Carré realmente nada tem a ver com  o “glamour” de James Bond, como repetiram feito matracas. O que não se disse é que o romance propriamente de espionagem ganhou, com o autor, um caráter literário filiado à grande tradição da ficção inglesa. Paulo Francis era seu fã, e não é que fizesse por menos. Punha nas alturas o livro Tinker, Taylor, Soldier, Spy (1974), no Brasil O espião que sabia demais, em Portugal A toupeira, muito bem transposto para o cinema em 2011 por Tomas Alfredson. O livro é considerado o mais perfeito de Le Carré também por Rafael Narbona. Mas Francis dizia que Le Carré era “influenciadíssimo pelo Graham Green jovem, dos ‘entretenimentos’, mas sem a destreza literária”, o que é mais ou menos válido. E reclamava que o britânico começara a “ficar balofo como escritor” a partir de Um espião perfeito (1986). Francis desgraçadamente não viveu para ler O alfaiate do Panamá ou Nosso fiel traidor. Talvez mudasse de ideia.

De Alvarenga para Chico

O tema do coração dividido por dois amores é vasto e velho. Mas se renova numa tabelinha que me ocorre, num verdadeiro overlapping (alguém aí tem idade para se lembrar dos esquemas do técnico Cláudio Coutinho?). O lance de um soneto de Alvarenga Peixoto, um poeta do século 18, me traz uma canção redonda de Chico Buarque e Edu Lobo.

Bilhete de Edu Lobo para Chico Buarque. ARQUIVO TOM JOBIM.

Na ilha de lia, no barco de rosa foi composta para Dança da meia-lua, balé do Teatro Guaíra roteirizado por Ferreira Gullar. Essa mesma trilha rendeu a maravilha que é Valsa brasileira, um clássico moderno.

A “toada mineira”, como diz Edu Lodo no bilhete acima, está originalmente no LP Dança da meia-lua (Som Livre), de 1988. No ano seguinte, “Na ilha de Lia” foi incluída no disco Chico Buarque (RCA/BMG/Sony).

Minha gravação preferida é mais recente, faixa de Dos Navegantes, álbum delicioso de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise lançado pela Biscoito Fino em 2017.

Edu Lobo canta acompanhado por Bruno Aguilar no contrabaixo e os dois mestres que são Mauro Senise (sax alto) e Romero Lubambo (violão).

O arranjo de Cristóvão Bastos dá um colorido propriamente lírico e etéreo à partitura de Edu que ilustra esta edição. O tema me pareceu meio negligenciado pelo grande Luiz Claudio Ramos, maestro da banda de Chico Buarque, que já era seu arranjador no álbum 1989.

ESTELA E NIZEAlvarenga Peixoto

Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e a achei tão bela
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem Cupido, soltar-me desses laços;
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços.

Peixoto, Alvarenga. Obras Poéticas

NA ILHA DE LIA, NO BARCO DE ROSA (MEIO-DIA, MEIA-LUA)Edu Lobo e Chico Buarque

Quando adormecia na ilha de Lia, meu Deus
Eu só vivia a sonhar
Que passava ao largo no barco de Rosa e
Queria aquela ilha abordar

Pra dormir com Lia que via que eu ia sonhar
Dentro do barco de Rosa
Rosa que se ria e dizia nem coisa com coisa

Era uma armadilha de Lia com Rosa com Lia
Eu não podia escapar
Girava num barco num lago no centro da ilha
Num moinho de mar

Era estar com Rosa nos braços de Lia, era Lia
Com balanço de Rosa
Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Rosa, meio Lia, meio
Rosa, meio-dia, meia-lua, meio Lia, meio

Era uma partilha de Rosa com Lia, com Rosa
Eu não podia esperar
Na feira do porto, meu corpo, minh’alma, meus
Sonhos vinham negociar

Era poesia nos pratos de Rosa, era prosa na
Balança de Lia

Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Lia, meio Rosa, meio
Lia, meia lua, meio-dia, meio Rosa, meio
Na ilha de Lia, de Lia, de Lia
No barco de Rosa, de Rosa, de Rosa

E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/sobre/&quot; target="_blank"><strong>Antônio Siúves</strong> </a>(maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-siuves/moral-das-horas/570242892?q=moral+das+horas&quot; target="_blank"><strong><em>Moral das horas</em></strong></a><strong><em>, </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/21-poemas/&quot; target="_blank"><strong><em>21 poemas</em></strong></a><strong><em> e </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/TURISMO-CULTURAL-LITER%C3%81RIO-EUROPA-Propostas-ebook/dp/B082RBGXDB/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=turismo+cultural+e+liter%C3%A1rio+na+europa&qid=1586348439&sr=8-1&quot; target="_blank"><strong><em>Turismo cultural e literário na Europa.</em></strong></a>Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Tudo que é sórdido fica no ar

Jurupoca #36 — desde o Belo. 21 a 27/8. 2020 — Nº 36, Ano 2



Último credo – Augusto dos Anjos
 
Como ama o homem adúltero o adultério
E o ébrio a garrafa tóxica de rum,
Amo o coveiro — este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
 
É o transcendentalíssimo mistério!
É o nous, é o pneuma, é o ego sum qui sum,
É a morte, é esse danado número Um
Que matou Cristo e que matou Tibério!
 
Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui ...

Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!

 
Budismo moderno – Augusto dos Anjos

Tome, Dr., essa tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo meu coração, depois da morte?!
 
Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca destra forte!
 
Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Este é o sexto de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987). Domingo passado, o crítico de arte e cinema Donny Correia comentou no Estadão o livro Augusto dos Anjos: Um moderno entre os “ismos” (Desconcertos). Este ensaio de Del Candeias distingue o poeta paraibano  em sua época e detecta a força subterrânea de seu legado no modernismo  nascente.   

 

Luis Egidio Meléndez, Natureza-morta com salmão, limão e três vasilhas, 1772, óleo sobre tela, 41 X 62.2 cm (Museu do Prado). Foto: Domínio público, via Wikimedia Commons. Este juropoco é freguês do gênero de natureza-morta com comida e tralha de mesa e fogão a que os espanhóis chamam bodegón. A soberba composição em v de Meléndez é obtida pela colher de cabo comprido, ao fundo. O texto de referência do Prado lembra que esse utensílio sublinha o limite do fundo da tela, e ajuda ocultar o plano que sustenta o conjunto. 

Opa! Vamos apear?

Você há de concordar que esta Jurupoca® é uma publicação singularíssima, como a pessoa do poeta Augusto, se a leitora e o leitor (os dois que tenho) se deram ao desfrute de ler o soneto acima. Então, leitor, leitora, tomem esta tesoura e corte…

Ora, um jornalista precisa se mover, dizer a que veio, ou vá criar galinhas! A isso não pude me entregar, à criação de galinhas, desgraçadamente. Uns bichos tão simpáticos!, preferidos de minha mãe. E adoro um ovinho frito com arroz.

O verão quando cai em agosto me deixa assim, filosofante, a cismar se o mundo ainda existirá quando eu reabrir os olhos…

Cuido nessas horas, como o dos Anjos, do nous (razão, intelecto, espírito dos gregos), do pneuma (o sopro da vida), do sum qui sum (sou quem sou). O último sendo quase um K-Suco.

Bom, que cantilena é essa?, meus dois leitores estarão a se indagar, estupefatos, e, com toda certeza, a citar o Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo perdestes o senso!”

E eu vos direi, no entanto, que, sim, peralá, buscava, apenas, meio sem jeito, com cuidado e vênia, uma forma de te pedir que pense em contribuir com a publicação desta carta singularíssima.

É um trabalho diário que consome dias e noites, e único!

Assine a Ju! Vamos lá, anime-se! Você define um valor mensal e a data da contribuição.

Sugestões? R$ 18, R$ 25, R$ 30, R$ 40, R$ 55, R$ 78, R$ 100! O que puder, quando puder.

A Jurupoca® está na estrada, sob sol e poeira, como cantam todas as canções mineiras, há pouco mais de um ano. E atravessa outra crise de identidade, acredite! É assim, sempre que sobe o preço do queijo e da goiabada, ou vence o GPS, o guia da previdência social.

Aos diabos as crises!, bem sei. Ou vai ou racha. Entregar a rapadura, nunca!

Então vamos todos cantar, tralalá, tralalá, trololó, trelelé… Eta ferro! Pra que tanto aço?

Reelaboradas as linhas acima e com algum esforço, quem sabe, eu teria escrito meu segundo poema nonsense na vida. Tenho apenas um, incrível!

Unzinho em décadas, uma baladinha de longa data, bonitinha, reconheço. Diz assim: 

un deux trois (revisitado) 

Para Moreira e Roberto

Eram Guso, Poderval, Sussanho*
Cada cão do seu tamanho
Entre outra e uma colherada
Duma divina marmelada.

Produziam um manifesto
Cujo teor era o protesto
Contra os homens sem pescoço

Nascidos todos do fosso
Ladinos feito cavalos
Mas excelentes dançarinos! 

(*) Os pastores alemães do Estorvo, romance de Chico Buarque 

  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?  


“[Mandei] a esse estado maravilhoso aqui, mesmo sem comprovação científica, mais de 400 mil unidades de cloroquina para o tratamento precoce da população. Eu sou a prova viva de que deu certo. Muitos médicos defendem esse tratamento. E sabemos que mais de 100 mil pessoas morreram no Brasil. Caso tivesse sido tratado, lá atrás, com esse medicamento, poderiam essas vidas terem sido evitadas. E mais ainda: aqueles que criticaram a hidroxicloroquina não apresentaram alternativas”.

¡Caveirão.38! discursando em Belém (13/8), a revelar, na clareza e destreza de seu português Cro-magnon, a esmerada educação que recebeu do Exército

Além da cloroquina, ¡Caveirão.38! é a prova viva de que…

  1. … o crime recompensa.
  2. … tudo que é sórdido fica no ar.
  3. … a boçalidade se transmite sexualmente.
  4. … a verdade foi à merda, de onde vieram as guerras de narrativas.
  5. … Stálin estava certo: “Uma única morte é uma tragédia. Uma milhão de mortes é uma estatística.”
  6. … Deus, Pátria e Família seguem a encobrir as piores depravações.
  7. … Ivan Lessa estava certo: “De uma forma geral, só temos uma coisa a temer: a coisa de forma geral.”
  8. … a ciência ainda não explica certas subespécies de nossa pobre espécie.
  9. … a Bossa Nova ainda não é foda (sinto muito, Caetano). Foda é a civilização do alho com vinagre e do mata-piolho contra o Corona.
  10. … estamos fodidos!

 
Caetano e ¡Caveirão.38!

Esta Ju quase perde uma boa querela intelectual, sô. Ângela Alonso, socióloga da USP e pesquisadora do Cebrap, fez uma graça sociológica no Dia dos Pais. O título da Folha até que saiu certinho: Famílias de Bolsonaro e de Caetano Veloso se enraízam em paralelas históricas. O artista baiano de Santo Amaro e o ex-militar de Glicério — conforme a doutora — legam aos filhos “seu bom lugar no mundo: o patrimônio imaterial, redes de relação que catapultam e protegem, e o monetário, tangível, que será literalmente herança”. Noves fora o resto, teriam, as duas famílias, tal sina comum nos entreatos de nossa desigualdade. Já pra negros e pobres, sem eira nem beira, como o entregador Matheus Barbosa, Ângela martela: neca de catapulta paterna. É nascer e morrer no mesmo sem lugar, e manter uma existência de distanciamento social, ela arremata. Eta nós! Viva a falsa equivalência! Tem tese boa que voa e esboroa como pombo de asa partida. Sim, herdam capital cultural as duas famílias, mas quanta diferença no capital cultural, madame. Viver melhor, sim, claro, quem herda não furta, ou não deveria precisar disso, hehehe. Mas filho de artista e futebolista raramente emplaca sem talento, e muitas vezes a sombra paterna atrapalha, sim, senhora. ¡Caveirão.38! e sua progênie prosperaram nas brechas sujas do sistema, e na prodigalidade do erário com o funcionalismo estatal. São conservadores da nossa vergonha. Seu legado é isso daí, um país constrangido e apequenado; feio e infernizado. Enquanto isso Caetano ajudou os filhos a subir na vida, pois sim, acontece pacas. Mas não terá feito o mesmo pra um país inteiro e sua cultura, sua educação musical, tais “patrimônios imateriais”? Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo). Pessoalmente, posso dizer que subi na vida ou melhor, vivo melhor graças a cada um de seus discos e canções. Mas deixo a palavra final para o leitor que comentou ao pé do artigo: “Sim, toda família transmite capitais para seus membros. A de Caetano não tem nada de especial. Isso acontece na de cientistas políticos uspianos”, casquinou Igor Machado. “Não é um fenômeno só da periferia do capitalismo; está lá nos países centrais. Com esse grau de generalidade qualquer família está em paralelas históricas com a de Bolsonaro. Mas o familismo dele se dá com desvio de dinheiro público. Patrimonialismo, portanto. Essa diferença não é um detalhe para fazer a analogia desejada. E, cá entre nós, nesse momento?”. Tomou, papuda?

Ascendemos com a obra de Caetano, daí sermos seus herdeiros, ora bolas. Uma razão pra nos orgulharmos num mudinho tão medíocre, mesquinho e miserável como é o Bananão (obrigado, Ivan Lessa, de novo)


A grande arte que canta

“Poeta do encontro” foi como Otto Lara Resende definiu Caetano, em uma crônica de 1992, em que situa cantor e compositor santo-amarense como inclassificável. “Ficou para trás o tempo em que se podia espetar os artistas como insetos”, anotava. “Caducas as classificações”, a arte de Caetano “aniquila toda e qualquer discriminação”, celebrava Otto. “Exaltada aqui dentro, repercute lá fora. A música lhe dá dimensão internacional. […] A poesia de fato nunca esteve divorciada da expressão popular. Manuel Bandeira tirava o chapéu, respeitoso, para Sinhô, Pixinguinha, Noel”, lembrava o cronista mineiro. A propósito, Otto nos conta que fora testemunha “ocular e auditiva” da vez em que Bandeira ouviu, em casa, João Gilberto tocar a famosa batida de violão, e ficou extasiado. Caetano representava o fio puxado, o abre-alas, a metabolização “da grande arte que canta”, tradição que Otto remetia ao fim do século 19 e ao Corta jaca, música de Chiquinha Gonzaga que a primeira-dama de Hermes da Fonseca, dona Nair de Tefé, impunha nos saraus do Palácio do Catete, a despeito dos maus bofes do maridão.


O rico mercado da lacração

O professor Wilson Gomes, da UFBA, escreveu para a Ilustríssima uma aguda análise acerca do linchamento digital da antropóloga Lilia Schwarcz. Sim, ainda o tal episódio da crítica de Lilia (Filme de Beyoncé erra ao glamorizar negritude com estampa de oncinha) publicada na mesma Folha. Wilson observa a guerra que se trava pelo poder cultural nas redes sociais, ou pelo “mercado epistêmico”, como nomeia a coisa. “Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital”, deduz. “É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia”, conclui o autor de Transformações da Política na Era da Comunicação de Massa (Paulus). “Um capital que depois vai render no mercado de palestras, livros, produtos culturais, posições acadêmicas, convites internacionais, empregos na mídia, cargos públicos e autoridade tribal”, especifica. Wilson chama de “filofascismo” o negócio de mandar “calar a boca” quem nos contradiz, ou de não admitir que um crítico, por ser branco ou amarelo, não possa avaliar a obra de um negro lançada na indústria cultural.  O professor, um afrodescendente, por sinal, ou estaríamos vivendo o fim dos tempos,  ainda lamenta que os antifascistas da esquerda, por cumplicidade, não se oponham à selvageria digital.

“Quem mais lacrar e mais humilhar mais acumula capital. (…) É luta por acúmulo de autoridade em termos de raça e de etnia.”

Wilson Gomes, na folha de s.Paulo



Em prol do cancelamento

Se você consegue entender os argumentos de um defensor da “cultura do cancelamento”, parabéns. Está pronto pra debulhar a metafísica hegeliana e a mecânica quântica, juntas, tomando psicanálise lacaniana no desjejum. O jornalista Paulo Roberto Pires é editor da Serrote, revista que ele tanto fez, tanto fez que conseguiu rebaixar a um manual da correção política e a uma bula do progressismo. Depois de recrutar acadêmicos europeus (ver o ensaio Ofendidinhos, de Lucra Lijtmae, na Serrote #33), agora ele próprio se escala, como colunista de outra publicação, a Quatro Cinco Um, no papel de guarda da cancelação. “Vale tudo para demonizar, indistintamente, quem participa do debate público sem beija-mão ou rapapés — e vitimizar a priori quem é admoestado no conforto da aprovação”. Revelando-se insuspeitável alquimista, Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

Paulo Roberto Pires converte o pântano moral da “cancelação” na áurea de pureza dos espíritos justos. De quebra, ao dourar a pílula, prova que a introdução de frases-vaselina pode fazer de vigilantes morais fofos ursinhos de pelúcia. Ou, ainda, reafirma que pimenta nos olhos dos outros…

JURUPOCA #36

Nara LEÃO (Nara Lofego Leão, Vitória, ES, 1942 – Rio de Janeiro, RJ, 1989) CANTA Fez bobagem, de Assis Valente (José de Assis Valente, Santo Amaro, Bahia, 1911 – Rio de Janeiro, RJ, 1958).

O IMMuB registra 31 fonogramas dessa música. Elza Soares, Ana Martins, Isaurinha Garcia, Verônica Ferriani e Marcia gravaram ou interpretaram o samba, pra citar algumas dessas gravações.

Seu lançamento coube a Aracy de Almeida, em março de 1942, num disco de 78 rpm, acompanhada por Luiz Americano e Seu Regional.

Valente a compôs depois de tentar se matar, mais uma vez. Pulara do morro do Pão de Açúcar e sobrevivera. Uma galhada de árvore detivera a queda.Já na quinta tentativa ele conseguiu, ao recorrer a uma tisana de guaraná e raticida. Seu corpo foi encontrado no banco de um playground da praia do Russel, no Rio, onde crianças se divertiam.

O artista viveu dos ofícios de desenhista e protético, além de compor e, por vezes, vender sambas. Casou, teve uma filha, mas gramava com dívidas e, supostamente, com a homossexualidade reprimida. A biografia Quem samba tem alegria (Civilização Brasileira), do jornalista Gonçalo Junior refuta a homossexualidade. O autor sustenta que a cocaína e a depressão arruinaram sua saúde, e por fim o mataram. 

Favorito de Carmem Miranda, por quem fora carnalmente apaixonado, conforme Gonçalo Junior, compositor e letrista excepcional, Assis Valente (ai vai de novo minha playlist) é um gigante trágico, como outros que fulguram na história da canção brasileira. 

Fez bobagem surgiu no cantar de Nara Leão no LP da Philips Coisas do mundo (1969), faixa B2. O vídeo enlaçado no começo da nota, de acompanhamento um pouco menos cadenciado que o primeiro registro, é do álbum Nara rara (Universal, 2013), CD de compilações. 

A versão de Nara, me parece, é a que melhor e mais belamente alcança e transmite a ingente delicadeza desse samba feminino, na tradição romântica trovadoresca que Chico Buarque herdaria na MPB.

“Quando eu penso que outra mulher/ requebrou pro meu moreno ver…” é dos versos mais singelos e cortantes de nosso cancioneiro. E muito bem arrematados na estrofe: “Não dá jeito de cantar/ Dá vontade de chorar/ E de morrer”. E que tal “Deixou que ela desfilasse na favela como meu peignoir”? 

Fez bobagem me pegou no nous quando a ouvi na voz de Caetano Veloso. Aparecia mais pro final de uma preciosa sequência da série documental Caetano, 50 anos, dirigida por João Moreira Salles e exibida na TV Manchete em 1992 (pule no vídeo para 20′).

Ali pelo vígesim0 minuto, Caetano dá uma aulinha inesquecível sobre a grande tradição da MPB

Caetano enfileirava sucessos de Monsueto Menezes, Herivelto Martins, Custódio Mesquita, Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, Pixinguinha e Assis Valente, em comovedora celebração dos mestres predecessores.

Como João Gilberto, Caetano é um renovador da tradição e um notável divulgador do cânone que ele próprio integra.

Fez bobagem – Assis Valente
 
Meu moreno fez bobagem
Maltratou meu pobre coração
Aproveitou da minha ausência
E botou mulher sambando no meu barracão

Quando eu penso que outra mulher
Requebrou pra meu moreno ver
Nem dá jeito de cantar
Dá vontade de chorar
E de morrer

Deixou que ela passeasse na favela com meu peignoir
Minha sandália de veludo deu a ela para sapatear
E eu bem longe me acabando
Trabalhando pra viver
Por causa dele dancei rumba e foxtrote
Para inglês ver 

Discaço!

É da cantora italiana Barbara Casini (que canta em português com grande naturalidade, de timbre assemelhado ao de Joyce), a iniciativa e o dinheirinho que resultaram no ótimo Viva eu – As canções brasileiras de Novelli, álbum em parceria com Toninho Horta, que entra com seu violão originalíssimo e vocais. O instrumentista e compositor pernambucano Djair de Barros e Silva, o Novelli, apelidado assim em uma alusão à Nouvelle Vague, é lembrado mais por seu profícuo contrabaixo (embora também seja pianista), presente em centenas de gravações, virtualmente de toda a elite da MPB. Amigos e parceiros comparecem como convidados: Chico Buarque, Danilo Caymmi, Edu Lobo, Francis Hime, Ilessi, Joyce Moreno, Luiz Cláudio Ramos e Nelson Angelo. Novelli,  hoje com 75 anos, também é autor de uma obra pequena e distinta, quase sempre com parceiro letristas, que é pouco conhecida. Sua discografia autoral se resume a três e sólidos álbuns: Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta (Odeon, 1973), Nana, Nelson Angelo, Novelli (Saravah, 1975) e Canções Brasileiras (Maracatu,1984). Pode-se dizer que a presença de Toninho deu uma maneirada, ou amineirada, na ambientação sonora, no clima do disco, sem falar que Novelli é sócio fundador do Clube da Esquina. As gravações, que contaram com o guitarrista italiano Giuseppe Fornaroli, ocorreram Rio, em março de 2019, sempre com o homenageado no estúdio. Destaco (se é pra destacar) Linha de montagem (Novelli e Chico), composta por encomenda do diretor Renato Tapajós para a abertura do documentário homônimo de 1981, sobre as greves dos metalúrgicos do ABC Paulista; Reis e rainhas do maracatu (Novelli, Milton Nascimento, Nelson Angelo e Fran), lançada por Simone no álbum Face a face (1977), aqui com participação de Edu Lobo; ou Toshiro (Milton e Novelli) originalmente faixa do LP Clube da Esquina 2 (1978). Minhas preferidas, nel mio core, são Minas Gerais (Novelli e Ronaldo Bastos), do vinil Geraes (1976), de Milton, e a penetrante Sem fim (Novelli e Cacaso), que abre o disco homônimo e terrivelmente triste de Nana Caymmi (EMI, 1979), dividida agora com Danilo Caymmi.


Quem é Barbara Casini

A florentina Casini é vidrada na música brasileira e uma especialista nesse repertório em palcos italianos. Percorreu o Brasil em primeira viagem pra escrever o livro Se tutto è musica – Pensieri e parole dei compositori brasiliani (Angelica Editore), ou Se tudo é Música – Pensamentos e palavras de compositores brasileiros, lançado em janeiro de 2012. Entre os 18 personagens do livro estão Gilberto Gil, Guinga, Dori Caymmi, Nana Caymmi, Edu Lobo, Novelli, Egberto Gismonti, Francis Hime, Geraldo Azevedo, Miúcha, Chico Buarque e Hermeto Pascoal. Ano passado, na época das gravações de Viva eu, Barbara foi entrevistada e se apresentou em sessão produzida pela Rádio Batuta, no IMS. Seu novo disco, de 15 faixas, foi lançado na Itália em junho pela editora Encore, e possivelmente terá versão nacional.


Sai Novelli entra Jup do Bairro

Viva eu – As canções brasileiras de Novelli está no YouTube há pouco mais de dois meses. Mas o álbum começou a ser divulgado pra valer esta semana. Até a tarde de ontem, os leitores da Folha e do Globo interessados não tinham lido uma linha a respeito. Esses e outros veículos majoritários se tornaram redutos, e com notória e hipócrita condescendência, daquilo que for relevante às causas identitárias e raciais, que dão mais cliques nos aplicativos. A MPB foi rebaixada, e assim, uma tradição de cento e tantos anos cultivada em todo o planeta. Nesse período, pela Folha, soube, entre outros artigos na mesma linha, do lançamento da música Pelo amor de Deize, ao ler na capa da Ilustrada a reportagem Jup do Bairro se descola de Linn da Quebrada em disco com pegada roqueira, com o subtítulo “Álbum-manifesto de cantora que se firmou como referência LGBT traz composições sobre sexualidade e depressão”. Saiu também no britânico Guardian, por sinal. Ouvi Pelo amor de Deize no Spotify. Achei bacana a batida, a voz de Jup e sua mensagem sobre o flagelo da depressão. Mas não é minha praia. Estaria tudo bem, claro, não vivêssemos numa época em que uma capa do jornal dedicada ao disco de Novelli não fosse tachada “elitista”. É quase impensável hoje em dia. Mas a Ilustrada é, você bem sabe, um ex-caderno de ex-cultura, e o mundo é o mundo. Sem falar, claro, que ainda há no pedaço esta Ju a quixotear contra moinhos de vento do Vale do Silício, e sem Sancho pra chamá-la à realidade!


 Sá & Mehmari

Saíram bonitas as versões, apresentadas ao vivo, nessa terça e quarta-feira, de Parados (Chico Buarque, 1993), e O que tinha de ser (Tom Jobim e Vinicius de Morais, 1959) e Sabiá (Tom Jobim e Chico Buarque, 1968), com Roberta Sá e André Mehmari. O duo havia mostrado o mesmo repertório, pré-gravado, no início do mês, na edição do Festival de Inverno da produtora Dell’Arte. Incluía ainda um quarto número, Por baixo (Tom Zé, 2015). Deve nascer disso, tomara, EP ou álbum. Mehmari, que tem um disco dedicado a Ernesto Nazaré, entre tantos registros, talvez seja o pianista mais atuante e criativo em atividade no país. Ele também compõe e se mostra inclassificável como músico. Destrincha e recria melodias com grande destreza e autonomia, cita frases de alguns dos compositores celebrados em Paratodos, e encontra variações em Sabiá distintas de sua execução na faixa com essa canção do esplêndido André Mehmari,Ná Ozzetti – Piano e voz (2014). E já que estamos no embalo, e no Youtube, veja e ouça Roberta Sá e Chico mandarem deliciosamente Mambembe, acompanhados pelo altivo sete cortas Marcello Gonçalves, num vídeo de 2011.

No sete cortas, o maestro Marcello Gonçalves.



«Marxista negro tem palestra cancelada ao colocar classe acima de raça e enfurecer socialistas americanos. Do NYT em O Globo.»

«Como não temer a morte. No Aeon, em inglês.»

«As pessoas estão usando as ferramentas de busca do Facebook e Instagram. Durante a pandemia isso é perigoso. NiemanLab, em inglês.»

«Aventura em busca do melhor café do mundo. El País, em espanhol.

«Mario Vargas Llosa: Rumo à Estação Finlândia. Fundação Astrogildo Pereira.»

«Canal no YouTube reúne cerca de 400 filmes brasileiros para ver totalmente de graça. Huffpost Brasil.»

«TikTok: O baile por dominação digital global — Revistas Anfibia, em espanhol.»

«No forrobodó do balacobaco — As muitas vidas de Sara Winter, a extremista de ideias zigodátilas. Piauí.»

«O clarinete vai bem, obrigado — programa A volta ao jazz em 80 mundos, por Reinaldo Figueiredo. Rádio Batuta.

«Fotos recriam última refeição de condenados à morte nos EUA. BBC Brasil.»

«Hidroxicloroquina: um conto moral: Uma surpreendente investigação sobre como uma droga conhecida e barata se tornou um futebol político em meio a uma pandemia. Na Tablet, em inglês.

«Dharma americano: a outra cara de Steve Bannon. Na Letras Libres, em espanhol.»  

JURUPOCA, O AUTOR
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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #08


Número 8 — outubro, 11, 2019


Rio cinza 1 – 2017. Foto: A. Siúves


Opa. Vamos apear?

Espero que esteja tudo bem com você, caro amigo. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta carta. Eis o que me pus a cismar no último quindênio, meus “rendimentos de intra-imo” (Joyce via Houaiss) mais intrínsecos só para você.


Apois. Descobri que tenho algo em comum com Allan Stewart Königsberg: o gosto pelos dias nublados.

Woody Allen esteve em San Sebastián, no País Basco, a rodar mais um filme, com o título provisório de Rifkin’s Festival, e falou disso.

Eis o homem que é uma “controvérsia andante”, na expressão do El País. A produtora Amazon vetou a distribuição da comédia romântica Dias de chuva em Nova York nos EUA, pressionada pelo movimento #MeToo.

Mas o filme estreia nesta sexta-feira (11) na Europa. Aos 84 anos, o diretor é um pária, um morto-vivo em seu país. Sua obra monumental também foi parar no fundo da lata do lixo do ostracismo.

Não vou render o assunto. Acredito que uma obra que nos define, pois define a cultura cinematográfica há mais de meio século, não pode ser apagada da história, à la mano estalinista.  

Pois na ótima conversa com o editor de cultura Borja Hermoso, Allen diz algo sobre luz e sombras que delimita nosso “estar no mundo” [a tradução do El País Brasil tem uns lapsos]:

“Por qué adora los días de lluvia? ¿Por qué mejor los cielos plomizos que el sol?

Porque la luz es más bonita. Y porque creo que en esos días las personas piensan más desde su interior, desde su alma. La mía es un poco triste… y si abro la ventana por la mañana y hace sol, me resulta desagradable. En cambio, encuentro que las ciudades son hermosas bajo la lluvia. París, Londres, Nueva York, San Sebastián son muy bonitas…, pero si llueve son mágicas. En San Sebastián, por ejemplo, el clima es una bendición, el verano parece primavera. Y llueve. En mis películas lo importante sucede casi siempre cuando llueve. Pero quienes invierten en ellas se quejan de que es caro rodar con lluvia. Sobre todo porque, cuando quiero rodar con lluvia, casi nunca llueve y tenemos que fabricarla y usar cisternas. Yo a veces llamo a Dios para que haga algo, pero nada, ni una nube.”

Meus dias favoritos também são cinzentos, friorentos e chuvosos, ainda que dispense as invernadas e o vento feroz, típicos de Copenhague ou Cambará do Sul, digamos.

Mas é bom poder andar pelas ruas molhadas, a pé ou de carro, e curtir o reflexo das luzes de mercúrio nas paralelas inscritas pelos pneus, como canta o Belchior.

Que tal ouvir Paralelas na versão bonita versão dessa música, do disco com Gilvan de Oliveira, de 1999?

O Belo se transforma em outra cidade em dias assim, um burgo mais suportável. As tintas de chumbo do céu aplacam a luz ríspida do período quente, comumente de setembro a maio, iludindo a feiura das vias e construções.

Num dia desses me veio este A chuva é cult, aí no Quadrado ao pé da carta, que passa a constar como seção desta Jurupoca.

Também gosto do Rio mais do que nunca nos meses de maio, junho e julho, quando a cidade costuma estar encoberta e a temperatura civiliza-se, como nos dias em que tomei, desde o Forte de Copacabana, duas das fotos que ilustram esta edição.

Walter Salles captou isso encantadoramente já na abertura da coprodução francesa Chico Ou o País da delicadeza perdida, de 1989, como um delicioso poema visual.

Bom, Allen falou e disse. Traduzindo: “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. […] e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva.”

What do you mean? – Oviedo, Espanha, 2015 – Foto: Rachel Botelho

Dias cinzentos são comuns no País Basco, onde Allen filmou, depois de rodar Vicky Cristina Barcelona na Catalunha e em Oviedo, a capital das Astúrias que lhe rendeu, em gratidão, a estátua acima.

O aguaceiro é uma característica da vida de Bilbao ou San Sebastián. Me sinto muito bem naquelas bandas. Em um passeio por povoados ao norte de Bilbao, há poucos anos, procurei casar essa sensação de bem-estar com meu apreço às aves marinhas mais comuns em quase todo o planeta.

Este fragmento é de uma das crônicas de viagem à Espanha, capítulo do livro que venho prometendo nesta Jurupoca — e que logo há de sair:

“De Bakio tocamos para Bermeo, a uns cinco quilômetros à frente. Ao descer do carro me dão boas-vindas adoráveis gaivotas, a fazer sua ronda no porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves ousadas e referentes, que parecem filhas, senão frutos do mar. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.”

Consta que Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil, samba que emplacou 80 anos em agosto, em uma noite de toró no Rio. Impedido de sair de casa, o compositor foi sentar-se ao piano para saudar um país ensolarado, lindo e trigueiro.

Nos últimos dias fiz o oposto de Ary. Me tranquei em casa para fugir do sol e do calor e me refugiei no País Basco, por meio das 512 páginas de Pátria, o magnífico romance de Fernando Aramburu que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil. A obra vendeu mais de um milhão de cópias e é adaptada pela HBO.

Chuva nunca falta na retratada vila euskaldun — onde se fala apenas a língua basca, o euskera — não nomeada mas manjada, nos aforas de San Sebastián (Donostia).

A intempérie é comum na rotina das duas famílias, bons vizinhos de compadrio e tudo mais até a cisão causada pela perseguição e violência do ETA (Euskadi Ta Askatasuna — basco para Pátria Basca e Liberdade).

Chove na vila quando é cometido o crime de sangue, episódio que proporciona medianas às triangulações tecidas na narrativa.

Pelas artes da memória, inspiradas também nas reminiscências do autor, revisitamos os tempos sombrios em Euskal Herria, e a luz que eles roubaram de país, mães, filhos e amigos.

Um percurso longo que vai dos dias mais tempestuosos a um período recente [houve, em 2018, o adeus às armas da organização, depois de 50 anos de terror. Os fatos são narrados no ótimo documentário El fin de ETA, disponível na Netflix, e neste vídeo.]

Todos se conhecem e se dão a qualquer hora na vila. Na lida entre a horta, o açougue, a padaria, o bar e a igreja, um empresário extorquido que se recusa a contribuir mais uma vez com o bando tem a marca da peste pichada nos muros, e vai achar porcarias na caixa de correio.

O que era amigo-irmão ainda ontem, parceiro de tragos e partidas de mus na taberna e voltas de bicicleta aos domingos, beneficiário da gratidão por tantos favores, hoje é um traidor, de quem o medo e a covardia exigem distância: 

“Saiu de casa bem cedo com seu traje de ciclista e a bicicleta, e não pôde acreditar nos próprios olhos. Txato isso, Txato aquilo. Herriak ez du barkatuko. Nesse nível. E, quando chegou à praça e se incorporou ao grupo de cicloturistas, notou, o quê?, notou alguma coisa, certa aspereza nos cumprimentos. E olhares que evitavam os seus. E sentiu falta das gozações das outras vezes, mas também ele poderia estar mais suscetível e fosse vítima das próprias fantasias e receios.”

O ódio cristalizado no dogma (que sempre “lacrou”) entusiasma adolescentes que só podem contar com a própria força e seus superávits hormonais.

As vias da educação e do amor não estão disponíveis no momento, e há sucedâneos gloriosos para o sexo. O racismo é patente no ambiente abertzale, do esquerdismo partidário da “pátria” independente.

Chefões embuçados sob o signo do machado e da serpente (força e inteligência política, bietan jarrai em basco) atiçam a energia e as carências de seus potenciais soldados, gudaris.

Seduzem pretensos heróis, que depois são treinados na cartilha que autoriza a matar e, claro, eventualmente morrer pela causa. Gora ETA.

Em gangues rivais, esses jovens buscam aceitação e reconhecimento dos comandantes, e para isso disputam seu campeonato particular de quem faz mais estrago:

“Vem logo, Koldo, Koldito, correndo se for o caso, mas não me falhe. Por que tanta pressa? Porque não queriam que os jarraitxus de Rentería passassem na frente deles. Já tinham sido mais espertos uma vez e ficaram com a glória. Como? Botaram fogo em uma van novinha de mais de vinte milhões de pesetas, uma Mercedes, e isso sim afeta os cofres municipais. Enquanto eles tiveram que se contentar com um Pegaso velho e ferrado, que ainda por cima queima muito pior e não custa nem a metade. Até livraram a prefeitura dos gastos que teria com um ferro-velho.”

Aramburu é um ‎donostiarra, natural de San Sebastián, que vive na Alemanha, onde trabalha como professor de espanhol, desde 1985.

Seu distanciamento me parece ser um ponto essencial dessa obra. Se não deixou minas terrestres em sua guerra contra o “Estado” (seus membros evitam a denominação Espanha), o ETA intoxicou o País Basco e a própria Espanha com profunda degradação moral.

Nada mais apropriado que a literatura para penetrar em campo tão aviltado. 

Há, já mais para o final do livro, uma reunião pública organizada pelo Coletivo das Vítimas do Terror, a que o médico Xabier, que teve o pai assassinado e se tonara um alcoólatra, atende depois de muito relutar.

Com a coragem de dois copos de conhaque, ele finalmente entra no auditório, onde palestra um escritor que não é identificado, o que não é necessário. O disfarce não chega a ser ardiloso, como diz o narrador de um conto de Salinger.

O homem está falando: “— Também escrevi contra o crime cometido com alguma desculpa política, em nome de uma pátria onde um punhado de gente armada, com o vergonhoso apoio de um setor da sociedade, decide quem pertence a essa pátria e quem deve abandoná-la ou desaparecer”, discorre.

“Escrevi sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a desmemória e o esquecimento tramado pelos que tentam forjar uma história a serviço do seu projeto e suas convicções totalitárias”. 

Escrever sem ódio contra a linguagem do ódio é justamente a principal chave do romance.

O discurso indireto livre, técnica idealmente necessária aqui, me parece, é empregado com grande habilidade, não sem algum “esteticismo”, o estilismo que ocorre, na definição de James Wood, quando o autor se intromete na narrativa.

“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor”, explica Wood em Como funciona a ficção (Sesi-SP editora, 2017).

“Habitamos, simultaneamente, a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem e a ponte entre eles — que é o próprio estilo indireto livre — fecha essa lacuna, ao mesmo tempo que chama atenção para a distância”, agrega.

Em uma passagem de Pátria especialmente feliz, já em um tempo adiantado, dois irmãos, vítimas do ETA, caminham no Paseo Nuevo de San Sebastián.

Atrás deles está a escultura de Jorge Oteiza Construcción vacía [em aço corten, premiada na Bienal de São Paulo de 1957 e que nos remete a Amílcar de Castro]. O que essa obra tem a “dizer” é o mais significativo no encontro entre os dois:

“O sol, já se retirando, desenhava uma faixa de cintilações que se moviam na superfície marinha. Barcos? Nenhum. Uma lancha voltando, próxima à entrada da baía, e mais nada. Xabier e Nerea se debruçaram no parapeito. Ele cobria a incipiente calvície com um gorro escocês; ela, que até alguns anos antes usava boinas de lã, estava com o cabelo descoberto. Atrás de onde estavam se enferrujava, entediada, esperando a próxima tempestade, a escultura de Oteiza. A poucos passos dos dois irmãos, um pescador olhava fixamente o vaivém de boia nas águas ondulantes.”

O nacionalismo revolucionário, eivado de marxismo-leninismo, avalizou o assassinato de 867 pessoas, conforme o número da defensoria pública basca de atenção às vítimas.

Registre-se que militantes do ETA sofreram a brutalidade da polícia, em graves desvios do Estado democrático de direito.

A violência e a desrazão até hoje desagregam, separam amigos, amantes, definem histórias de vida e impõem zonas cinzentas aqui e ali.

Tudo enredado no absurdo. Cada página de Aramburu revive essas circunstâncias com a necessária sutileza e mesmo com delicadeza. Se assim não fosse, como um ficcionista poderia tentar repor a crença na humanidade?

É apenas por ocasião da publicação do romance na Espanha, em 2016, que o céu começa a desanuviar-se.

O perdão (barkatu – em basco ao mesmo tempo perdoar, perdoa, perdoe) e a reconciliação, com o fim das mortes e o julgamento dos assassinos, podem trazer de volta, para quem sobreviveu, a velha ordem de um dia após o outro, ainda que, para alguns, o sol volte a brilhar tarde demais.

A ficção amalgama o horror e a amargura que perduraram por décadas de  ódio, fúria e desgraça, tudo, no final das contas, como é corrente na história, para nada. 


Rio cinza 02 – 2017 – Foto: Antônio Siúves


“Our Boys”

Nas áreas fronteiriças entre Israel e Palestina, divergências inimaginavelmente antigas andam bem longe da paz.

Não há esperança de conciliação depois que o fel do nacionalismo e do ódio racial e religioso conseguiu amargar até as pedras do deserto.

O seriado Our Boys, em cartaz na HBO, traz uma noção clara e multifacetada dessa realidade.

Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro, tachou de “antissemita” a produção da rede Kashet, escrita por três roteiristas israelenses, dois judeus e um árabe — a opiniãoquivale a uma espécie de atestado de idoneidade antipopulista e antinacionalista.

Embora parta da comoção causada no país pela morte bárbara de três jovens judeus, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach, por membros do Hamas, em julho de 2014, a série, não se ousadia, se detém no ato de vingança atribuído a esse episódio.

Duas semanas depois daqueles eventos, o menino Abu Khdeir, de 16 anos, é sequestrado perto de casa, em Jerusalém Oriental, e logo cruelmente assassinado.

Our Boys acompanha o trabalho de investigação da Shabak, a agência israelense de segurança interna, e o indiciamento e julgamento dos três acusados pelo crime, dois deles menores de idade.

As ações policiais permitem que o roteiro, por um lado, focalize a via-crúcis dos pais de Khdeir, emparedados entre a dor e a pressão de líderes do Hamas que o requerem como mártir da facção.

Por outro, nos aproximamos da pregação religiosa e da doutrinação dos jovens nas Yeshivás, instituições judias dedicadas ao estudo do Talmud e da Torá.

Nesse universo, onde vivem as famílias das vítimas do atentado do Hamas e dos assassinos de Khdeir, alimenta-se o velho estranhamento entre judeus asquenazes, de ascendência urbana e cosmopolita, e colonos sefarditas ultraortodoxos.

O diálogo entre os algozes, na noite em que saem de carro para caçar sua vítima, expõe as raízes do mal de maneira a um tempo sutil e explosiva.

Vemos que a Bíblia judaica é pau para toda obra. Tanto ensina que a lei proíbe matar o inocente quanto pode sugerir uma interpretação oposta, a justificar a vingança.

Os efeitos da retórica de milhares de horas de doutrinação decoreba sobre a pureza da fé em um deus contra a animalidade da crença alheia são devastadores nas cabeças mais vulneráveis.

Ao ver andar na rua uma grávida árabe-israelense, um dos rapazes, ao defender que ela serviria ao propósito do grupo, comenta: “Olha, vai assando um terroristazinho”.

O comparsa cita com autoridade certa sabedoria rabínica: “Mate-o enquanto é tempo!” A sequência é de uma brutalidade vomitória. As explosões e cenas de tortura de matriz hollywoodiana não passam de terror infantil perto disso.

“A série é incomumente corajosa ao deixar persistir a incomodidade moral, e consegue comover sem oferecer falsas esperanças, uma raridade inclusive em dramas mais bem feitos, escreveu Emily Nussbaum na The New Yorker.

Depois de assistir a uma porção de séries medíocres, a exemplo de Fauda, na Netflix, Our boys realmente é uma boa surpresa na teledramaturgia israelense.

“Reconheço que a série tem profunda verossimilhança, desde as cozinhas estreitas de Jerusalém até os quintais dos assentamentos e as ruas iluminadas pelas luzes do Ramadã por onde caminham as famílias  muçulmanas”, diz Nussbaum.

O enfoque distanciado da narrativa, conduzido com serenidade, e que procura adentrar o submundo do fanatismo, extrapola o que há de mais específico no enredo para, quem sabe, sugerir alguma disciplina racional em um mundo ameaçado pela polarização, inclusive a nosso triste mundinho brasileiro.


O irlandês vem aí

Al Pacino, Joe Pasci e Robert De Niro estrelam o novo Scorsese IrishmanO Irlandês, com três horas e meia de duração.

Passou no New York Film Festival, antes de entrar no circuito americano, para chegar à Netflix, salve, salve, já em novembro — a operadora busca o mesmo sucesso de Roma.


 Lida tradutória

O leitor brasileiro tem uma baita dívida de gratidão com Paulo César de Souza, grande e fino escritor que emprestou suas artes à lida tradutória. Nos últimos tempos ele se concentrou nas obras completas de Freud e Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras, projetos que agora está por concluir.

A Folha lhe dedicou um bom perfil, ainda que um pouco preguiçoso na recolha de depoimentos sobre o personagem, inclusive aqueles que poderiam apor restrições ao trabalho de Paulo César, mas isso é o usual no jornalismo brasileiro.  



Drummond inédito

O livro Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto, lançado este mês pela Unesp e organizado por Marcelo Bortoloti, traz 68 cartas trocadas entre os dois escritores desde os anos 1920, e, como especial achado, três poemas inéditos de Drummond. Eis um deles, divulgado pela Folha:


Religião

Bichinho quer ir s’embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta e põe-se a adorá-la.
Põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.  

Oh, Greta

É sintomático, creio, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a sueca Greta Thunberg.

Leio que que ela levou os pais a deixar a carne, depois os converteu à dieta vegana e, ainda aos 13 anos, os fez abolir as viagens aéreas, o que limitou a carreira internacional de sua mãe, a famosa mezzo-soprano Malena Ernman.

Diga-se que a Suécia é ponta de lança do movimento mundial que incentiva as pessoas a trocarem o avião por meios de transporte de baixa emissão de gases-estufa.

A expressão “flygskam”, algo como “vergonha de voar”, define tal anseio. (Na Europa, vou de trem sempre que possa).

“Me sinto muito bem em ser ouvida”, disse Greta ao New York Times. Seus pais foram na maré da celebridade e lançaram este ano um livro sobre suas decisões sob a influência da petiz.

“O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. ‘Como vocês ousam?’, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: ‘Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?’”, escreveu Demétrio Magnoli. “A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo”, opinou.

A pequena Greta, que fez careta para Trump na ONU, faz muito bem a parte dela, ao tornar-se a heroica escultura viva de um mundo juvenilizado.

Merece a admiração que desfruta, e me simpatizo com ela. Mas é raro encontrar em colunas e editorais uma perspectiva mais larga, filtrada pela leitura extensiva, à luz da histórica.

É como se a pequenez do alcance mental e moral da política contaminasse tudo. Predomina o imediatismo da fofoca e a opinião estéril, a informação suspeita obtidas das “fontes” de cada um.

Greta condena os “traidores dos seus sonhos” e emociona multidões que se informam e formam certezas pelas redes sociais, como parece ser o caso exemplar de certo presidente da República.

As redes, para quem nelas vive imerso, são uma espécie de túnel sem fim, onde em cada página rola o presente eterno dos desconectados da história.

Parece que a mensagem jamais poderá mesmo se impor ao meio, para a glória de McLuhan, amém.

A mocinha exige um veganismo geral e irrestrito, e emissões zero de carbono, já!. Isso distrai a má consciência do ambientalismo de moda.

Quem dera fosse uma questão de banhar o planeta com o pó de pirlimpimpim da Greta-Emília.

“A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19”, contextualiza Magnoli.

“O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.” O colunista acrescenta:


 A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, se escondem nas profundezas do obscurantismo. […]  


Ao acaso, lendo Paulo Roberto Pires na Quatro cinco um, sobre Simone Weil, me ocorreu que a filósofa francesa também foi uma menina prodígio, e meio tiranazinha.

Era obcecada com a fome no mundo e não dava tréguas a quem visse pela frente com seu trololó. Ainda inspiradora, sua obra se tornou um marco do humanismo no século 20.

Alguém poderia sugerir sua leitura a Greta, como passatempo em suas viagens, nunca de avião, entre uma e outra aparição pública.    


Atenção, patetas, é fantasia! 

Houve uma época em que obras com a dimensão das de Fellini, Bergman, Visconti, Woody Allen, Glauber, sei lá, galvanizavam a reflexão, a crítica, as ideias sobre a beleza e o sentido de viver.

Hoje são os heróis da Marvel que falam à imaginação das gentes, entre uma e outra maratonada na Netflix.

Ou um filme como o novo Coringa (Joker), da DC_Comics, cujos produtores se viram obrigados a alertar o público, supostamente de crianças e adolescentes mimadas e cabeças-de-vento, que não se enganem, ao que acabaram de assistir é mesmo ficção, ouviram?

É o corrente. Há muitos anos notei a tendência, ao ver o longa-metragem de 2012 Os Três Patetas, em Portugal Os Três Estarolas, com um aviso no final para que não se repetisse em casa as marteladas na cabeça, dedos nos olhos etc., e os créditos revelavam o segredo daqueles truques.

Moe, Larry & Curly divertiram minha geração a ponto de fazer doer nossos peritônios. Não me recordo de nenhum incidente com aquelas gags, na vida real. Mas não.

O tempora, o mores!  (oh, tempos, oh, costumes), bradava Cícero nas Catilinárias. O jornalista e escritor espanhol Manuel Jabois fez um ótimo comentário a respeito.



Amélia, a IA de verdade

Fale com a Bia (acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial). Parece que o futuro vem aí com as assistentes virtuais.

Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell. “Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, diz esta reportagem de Lílian Cunha.

Humildemente, tenho cá a Marina, do supermercado da esquina, que me escreve e-mails diários com ofertas imperdíveis.

E uma voz feminina me liga na antevéspera para confirmar minha consultas num hospital do Belo; confirmo, e no dia seguinte recebo um SMS automático para testar minha convicção.

Dois dias depois, um robô solicita minha opinião sobre a qualidade do serviço prestado. Noto que os assistentes são sempre fêmeos. Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?

Ou, quem sabe, pelo contrário, o espalhamento de assistentes e secretárias nos algoritmos agora seja o sal da terra, uma libertação de tarefas consideradas subalternas?

Nesse caso, os jornalistas estariam solidários com essas e outras tantas categorias profissionais.

O advento da IA é saudado como mais um passo do imparável progresso humano. As empresas começam a usar e vender aos seus clientes a novidade como mais uma vantagem tecnológica, benefício de valor agregado perante a concorrência.

O fato de estarem cortando postos de trabalhos aos borbotões, inclusive de jornalistas, pois os robôs já reportam nos esportes, na economia e na previsão do tempo, não diz muita coisa à opinião pública.

Quando os bons serviços da Bia são proclamados nos intervalos comerciais do Jornal Nacional, os criativos da publicidade parecem convictos de agradar no atacado com suas, como gostam de dizer, epifanias, ao concederam tais miçangas e espelhinhos hi-tecs à bugrada. Como já disse aqui, acho burra a inteligência artificial.

A propósito, deu no Valor:


 Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1%) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. É o que mostra um estudo da consultoria IDados, obtido pelo Valor, que cruza a base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com um estudo da Universidade de Oxford que separa as ocupações em faixas de risco de automação.

Um exemplo bem-acabado dessas profissões ameaçadas é a condução de automóveis, táxis e caminhonetes (98% de probabilidade de automação), tarefa que tende a ser substituída por carros autônomos, como os famosos veículos da Waymo, a divisão de automóveis sem motorista do Google. Também estão na lista os cobradores, entrevistadores de pesquisa de mercado, balconistas de serviços de alimentação e garçons, por exemplo.


  É isso aí. Bom fim de semana e até a próxima.


QUADRADO AO PÉ DA CARTA

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #3

 2/agosto/2019


Uma entrada dos magníficos “Diarios” (em espanhol) de Iñaki Uriarte me acode quando tento burlar a bile negra. O autor basco cita o comentário grave e solene do senhor Prudhomme, personagem do dramaturgo, ator e caricaturista francês Henry Monnier (1799-1877), quando vê o mar pela primeira vez:

— Tal cantidad de agua roza el ridículo. (Tal quantidade de água beira o ridículo.)

Do original:

— Une telle quantité d’eau frise le ridicule.

 Ao ouvir astrônomos dissertarem sobre zilhões de zilhões de estrelas, aglomerados de galáxias e buracos negros, distantes zilhões de zilhões de anos-luz da chama breve da vida humana, penso em Prudhomme.  

“O nosso estômago pode congelar”, ela me disse depois que tínhamos andado um ou dois quilômetros. “É muito perigoso”.

“Estômago? Como é que o estômago pode congelar?”

“Podendo. E a gente pode ficar doente pro resto da vida se isso acontecer.”

“O que é que a gente faz pra isso não acontecer?”, perguntei.

“A coisa certa a fazer é cantar”, disse ela (…). Que diabo! Também não vai tirar pedaço. A única música que me veio à cabeça para cantar foi “La cucaracha”. Cantei “La cucaracha” por um ou dois quilômetros e achei que a cantoria tinha me congelado mais do que ajudado.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, pág. 702, tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.  


Opa! Vamos apear?

Na carta passada, disse que encontrei guias insuspeitáveis em obras de arte e ficção, ao escrever “A Arte da Viagem” — a sair este mês em KDP. Depois disso, terminei de ler, pela primeira vez, o clássico “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift. Ao dizer adeus aos leitores, depois de quase 500 páginas, o cirurgião Lemuel Gulliver defende a própria literatura de viagem perante a dos perversos yahoos europeus, e dá seu recado. “Para aqueles de nós que viajamos até Países remotos raramente visitados por Ingleses e outros Europeus, é fácil fazer Descrições de Animais maravilhosos do Mar e da Terra”, ele diz. “Porém, o principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros”. Eu diria que isso ainda é válido, mudando-se o necessário, mas voltado ao próprio viajante.

Não tenho, ai de mim, pretensões gulliverianas. Creio, entretanto, quando nunca se viajou tanto, que a viagem governada pelo ritmo de aplicativos e orientada por algoritmos se reduz quase sempre à mera vontade de poder do consumidor. O turista-consumidor logra apenas estar nos lugares, lá fora, e dessa superfície, dessa casca das coisas, o que ele faz?, ele coisa, isto é, selfiza-se e se esparrama. “A mania de se exibir diante de conhecidos postando fotos nas redes cretinas: ‘Veja onde estou’ é uma das mais absurdas que o mundo já conheceu” — diz o escritor espanhol Javier Marías — “porque onde cada um está ou já esteve, amanhã estará meia humanidade. Nada tem nenhum mérito, nada mais pode causar inveja, nada mais é estranho ou insólito. Tudo já foi trilhado.”

Pretendo mostrar no livro que o encurtamento das distâncias e a expansão das classes médias nas últimas décadas, assim como fizeram do turismo uma atividade tóxica para quem vive em certas cidades e balneários superlotados, distanciaram o viajante ainda mais do sentido último do que chamo (me perdoe meu compadre P., que questionou a acuidade lógica da expressão) de a verdadeira viagem, que é, no final e contas, interior, moldado pelo que lemos, vemos e sentimos, por isso, digo no livro que a preparação de uma viagem pede bem mais que reservas, guias e gadgets. No cantar dos últimos versos de “Tea at the Palaz of Hoon”, poema de Wallace Stevens, que ouso traduzir: “E o mundo em que caminhei, e o que vi/ Ou ouvi e senti brotava de mim mesmo;/ E ali me achei mais verdadeiro e mais estranho.”

Achei um barato esta capa — “Power Trip”, Joost Swarate

Os paragrafões acima não chegam, na extensão, a proustianos, mas contrariam todos os manuais de redação da internet, que recomendam períodos de duas linhas e textos curtos. Às favas os manuais. Pesquisas mostram que usuários mais ativos de celulares e das redes sociais tornaram-se incapazes de ler qualquer coisa que dure mais de 30 segundos; danou-se a leitura profunda, que um bom romance ou ensaio exigem. Eu diria que isso vale também para todos os tempos lentos da música e do cinema.E a isso devem sua hegemonia, entre adolescentes de 40 anos ou mais, como é corrente, o baticum tribal, a xaropada religiosa ou pornográfica e a montagem ultrarrápida dos filmes de ação e pancadaria, neta do videoclipe, como as bijuterias da série Marvel.

Esta carta está na contramão da tendência, e sua leitora e seu leitor também, estou certo, ou não chegariam até aqui. A propósito, Jurupoca se propõe como expediente antiviral, sucedâneo contra o espírito do que viraliza e tem valor no negócio de caça-cliques, que torna o jornalismo e tudo mais na rede reféns da Alphabet. Dá dinheiro o que gera milhões de acessos, por mais baixo, fútil e degradante seja o conteúdo. É a realidade de quem se informa pelo WhatsApp e Facebook, paraíso das “fake news”, mas afeta também a existência de grande parte dos jornais na internet, obrigados a “equilibrar” o jornalismo com determinada cota de fofocas, celebridades e escândalos variados. Os fait divers, quem diria, se tornaram mais escabrosos e imperativos.

Ajude Jurupoca a combater a Google-dependência. Convide quem você quiser para assiná-la em https://tinyletter.com/asiuves.  

No mais, keep calm and read on.


ÍCONES DA INFLUÊNCIA

Pela segunda vez, ao voltar de minha caminhada pela manhã no Parque Municipal, subindo a Afonso Pena, entro no Palácio das Artes para bispar a exposição “Narrativas em Processo – Livros de Artistas”, da coleção Itaú Cultural. O estande que me atrai é o primeiro à vista e tem obras de Augusto de Campos e Júlio Plaza. Vemos, um tanto descoloridos pela pátina do papel, “Caixa Preta: poemas e objetospoemas”, de 1975, “Viva Vaia”, “Lixo”, “Linguaviagem” (poema-objeto de 1967 reproduzido, 20 anos depois, na capa do livro homônimo que reúne traduções de Augusto de poetas como Keats, Mallarmé, Yeats e Valéry) e outras figurações de teor concretistas. São ícones sagrados da supremacia de uma faceta da arte brasileira supervalorizada e superexposta pelo poder de São Paulo, a riqueza de seu mecenato moderno e a enorme influência de sua imprensa no resto do país. Os concretistas adotaram, ainda em 1950, a expressão joyceana “verbivocovisual. Por décadas, o estropício se tonaria verdadeira praga para todo poeta aspirante exposto a seu forte magnetismo, cujo ego em flor deixava-se tentar pela majestade de cruzados das vanguardas contra a caipirada em geral que lhes contrapunha algo da tradição. Acho tudo imensamente datado, ainda que sinta certo fascínio em me ver diante desse santuário ateu. Disse num post bem lido do Jornal do Siúves que nossa cultura literária deve muito mais ao Augusto tradutor, divulgador, crítico e ensaísta que ao poeta enorme que ele acredita ser. Mas sinto falta dos arranca-rabos intelectuais que ele manteve com tanta gente, como um El Cid campeador de espada em punho pela causa da “transvanguarda”, e de seu etilo enxuto inconfundível em que o ego superinflado expira o mais puro veneno do “anticrítico”, como ele se define em “Linguaviagem”, onde sai atirando já na receita prescrita na “Breve introdução”: “Crítica via tradução. Crítica de iluminação contra a crítica de maledicência. Exopoesia para combater a egopoesia”.

HOUYHNHNMS E YAHOOS

Não havia lido “As Viagens de Gulliver”, a monumental obra de Jonathan Swift. Na quinta série da Escola Estadual Machado de Assis, em Vespasiano, caiu na prova uma de suas muitas versões ligeiras, com trechos das aventuras do herói. Era uma edição de bolso da Ediouro, creio, mas não era o livro e sim algo mais próximo do desenho animado que passava muito na TV da minha infância. Agora, antes tarde… me pago uma antiga dívida, terminadas as 448 páginas da excelente tradução de Paulo Henriques Britto (Penguin-Companhia das Letras). Não sei se há, nos últimos 300 anos (a primeira edição da obra é 1726), muitos satiristas da envergadura de Swift, mas estou certo de que sua obra segue indispensável, talvez ainda mais agora, como lenitivo contra a vertigem nauseante provocada pela política em toda parte. O clérigo e escritor irlandês, com a perícia de um grande cirurgião esteta, estica no curtume as almas (especialmente as da nobreza, dos altos funcionários de governo, advogados, médicos e administradores da Justiça), desventra sua iniquidade, torpeza, crueldade, ambição, o ódio… e expõe tudo ao sol do meio-dia, com a imensa maestria que apenas ao gênio favorece, tudo com clareza, inventividade e irresistível humor. “Mas, a partir do Relato que me fizeste, e das Respostas que com muito Cuidado arranquei de ti”, diz a Gulliver o rei de Brobdingnag, a terra dos gigantes, “sou obrigado a concluir que o Grosso dos Nativos de tua Terra são a mais perniciosa Raça de Sevandijas [nome comum a todos os parasitas e vermes] abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra”. Não é por nada que Gulliver, na quarta e última parte da história, vai se tornar um zelote dos Houyhnhnms, os seres assemelhados a cavalos, dotados de grande racionalidade e sabedoria, e desprezar, exatamente como os Houyhnhnms, a alimária fedorenta e imbecil dos yahoos, nossos irmãos, nossos iguais. Ao voltar para a Inglaterra e a família, a contragosto, quando terminam suas viagens, como o nosso general Figueiredo, mas por motivos nobres, Gulliver preferirá o cheiro de suas cavalgaduras, que ele mantém no bem-bom, ao insuportável odor das pessoas, incluindo o da mulher e dos filhos.

RAIOS DE SOL DE PEPINOS

Agora, há montes de bosta nas viagens do herói, pensei, a me lembrar de Paulo Francis, acho que em 1986, iniciando uma crítica do filme “O Nome da Rosa”. George Orwell tem razão ao enfatizar, no ensaio introdutório, a obsessão escatológica de Swift, que não descuida do xixi e do cocô aonde se aventure. E também ao apontar a implicância do autor com a ciência de sua época. Sobra até, nas sátiras, para a disputa entre Newton e Leibniz sobre invenção do cálculo infinitesimal. A Royal Society, fundada sete anos antes de Swift nascer, em 1667, é mal disfarçada na grã-Academia de Lagado, nos confins de Judas, visitada por Gulliver. Entre as pesquisas que observa na egrégia instituição e descreve oficiosamente há o projeto de “extrair Raios de Sol de Pepinos, os quais seriam guardados em Frascos hermeticamente fechados, e usados para aquecer o Ar nos Verões mais úmidos e inclementes”. O narrador prossegue: “Disse-me ele [o acadêmico que o conduz] julgar que com mais oito anos de Trabalho seria capaz de fornecer Sol aos Jardins do Governador a Preços módicos; porém queixava-se de estar com seu Estoque em baixa, e pediu-me que eu lhe desse algo como Incentivo ao Engenho, especialmente por estarem mui caros os Pepinos naquela Estação. Fiz-lhe uma pequena Doação (…).” Adoro pensar no que Swift escreveria sobre o solucionismo tecnológico do Vale do Silício.

 MALDITOS YAHOOS

Ah, essa raça de yahoos. No “Valor”, o escritor Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, diz, ao celebrar o centenário de nascimento de Primo Levi (31/8), referido na Jurupoca # 0, que apenas “Shoah” (1985), o documentário épico de Claude Lanzmann (1925-2018), incorpora no cinema o “magma” de “É Isto um Homem?”, a narrativa que é uma “experiência literária imorredoura e única”, nas palavras de Labaki, com sua “harmonia entre ética e estética; forma e conteúdo; as palavras e o narrado”. Vi “Shoah” no antigo cine Roxy, no Barro Preto, já no final dos anos 1980. Há uns seis ou sete anos tenho a produção em uma caixa de seis DVDs. No “Arte da Viagem”, digo que é inverossímil pensar a Europa desfocada do passado remexido profundamente por Lanzmann. O que isso tem a ver com os yahoos? É que os miseráveis yahoos de hoje são motivados pela baixaria que “viraliza” e, portanto, é digna de atenção da nossa (baixa e lassa) humanidade. Labaki se refere ao documentário “Retorno a Auschwitz” (1982), de Daniel Toaff, que acompanha a volta de Levi a Auschwitz, pela primeira vez desde os episódios narrados em “A Trégua”. Pois esse curta-metragem, disponível no YouTube e legendado em português, desde maio de 2016, quando escrevo esta nota angariava 4.499 visualizações, uma multidão, não é? Antonio Elorza, em “El País”, lembra que Violeta Friedman, sobrevivente de Auschwitz, uma amiga do colunista, lhe contava que os meios de comunicação se interessaram por seu testemunho apenas com o sucesso de “A Lista de Schindler”, o filme açucarado de Spielberg.

MOLINA AOS SÁBADOS

Minhas manhãs de sábado são imperfeitas sem a leitura das colunas de Antonio Muñoz Molina, no caderno Babelia de “El País” — traduzidas irregularmente na edição brasileira do jornal. Tenho comprado seus livros em viagens a Espanha, mas parte de sua ficção saiu em português pela Companhia das Letras, hoje infelizmente relegada aos sebos. Creio que a voz branda e o texto fluido, refletivo e evocativo do escritor, não raro roçando o poético, melhorou meu ouvido para o espanhol e assim meu gosto pelo idioma. A propósito, seu ensaio “Todo lo que era sólido” (Seix Barral, 2013) é um passaporte VIP para quem queira penetrar na Espanha contemporânea e compreender suas glórias e seus descaminhos; o recomendo penhoradamente a quem viajar ao país com genuína curiosidade. Em textos mais recentes ele celebra João GilbertoMachado de Assim, que lê pela primeira vez, ao tratar do “espírito do romance” e da vida literária. Em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Molina percebe uma “audácia e uma desenvoltura cervantinas na criação de suas histórias”. Ele valoriza “o espírito singular do romance, sua vocação para indagar os atos e as consciências dos seres humanos, sua generosa ambição abarcadora, sua desolação e seu humor”, para concluir que “não nos importaria tanto a literatura se não aprendêssemos com ela coisas que de outro modo não poderíamos saber. É isso que exigimos dela. Tudo mais que existe em volta carece de importância”.

“SERROTE” PERDE O FIO

Antes de a ler de cabo a rabo, saboreio “Serrote” — revista-livro quadrimestral publicada pelo Instituto Moreira Salles — como o belo produto gráfico que é. Folheio cada edição para apreciar fotografias, ensaios visuais e reproduções. Detenho-me na diagramação, nas cores, no cheiro da encadernação, na textura do papel, no excelente acabamento e passo uma vista no conteúdo, tantas vezes prodigioso, para saber o que me espera. Tenho os 31 números publicados até julho deste ano. Não há rival para a revista no Brasil. Mas sinto que ela tem se apequenado nos últimos anos, ao trazer para suas páginas, meio aos trancos, uma série de ensaios supostamente palatáveis à nova esquerda e seu tribalismo identitário. O problema não é a predominância desses temas. Os textos frequentemente são obscuros e, pior, curto nas ideias e no alcance intelectual. Escritos e editados no calor da divisão ideológica do país e na crista da onda reacionária, simplesmente destoam dos padrões que o IMS se impunha desde o seu lançamento, há dez anos. Muñoz Molina me cai bem sobre isso. Em uma coluna (“Ética da prosa”, sobre um ensaio de Colm Tóibín no “London Review of Books”, no qual o escritor irlandês se expõe como paciente de câncer) ele me lembrou da prestação de contas de Graciliano Ramos quando prefeito de Palmeiras dos Índios, ao defender:


“Uma prosa clara é uma exigência ética, uma necessidade civil, da mesma ordem que a transparência e a probidade na administração pública. Graças à claridade das palavras podemos discernir o grau de solvência dos argumentos de um debate e adquirir informações rigorosas sobre os fatos e, dentro do possível, distinguir as fantasias da realidade. Assim como um interventor submete a escrutínio os planos de gasto de um organismo público, um cidadão há de julgar a veracidade das palavras que lhe são apresentadas em uma informação, em uma coluna de jornal ou discurso político.”


MAS, QUANDO SERRA…

Reli por estes dias até altas da madrugada o perfil de Ernest Hemingway por Lilian Ross (Serrote #27, novembro de 2017, tradução de Alexandre Barbosa de Souza). Publicado originalmente na “The New Yorker”, depois como livro independente, o texto me parece moço como nunca, uma joia clássica. Hemingway ressurge eternamente decadente nas obsessões com lutas, caçadas e touradas, na ansiedade autoral competitiva, na insegurança e compulsão alcoólica, mas ainda assim vivíssimo, autêntico em cada passo, frase, resmungo, comentário, o que diz tudo sobre o alcance de Lilian Ross como jornalista e escritora. Para repetir o bordão de “Papa”, como Hemingway era chamado por Marlene Dietrich, que dá título ao ensaio: “Que tal, Senhores?”.

…SERRA BEM

Da Serrote # 31, a mais recente, louvo a inserção de “O Toldo Vermelho de Bolonha” (tradução de Samuel Titan Jr.), livro do romancista, pintor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017), formatado por meio de notas que se referem à memória de um tio do autor, à cidade italiana e seu encantamento com o tom vermelho que a caracteriza, com suas “tende” (toldos) confeccionadas com um linho grosso dessa cor. A prosa deliciosa, aerada poeticamente, é nobre e reconfortante. Já o número anterior disse a que veio em “Branco como Eu” (tradução de Érico Assis), obra primorosa dos historiador Henry Louis Gates Jr. sobre Anatole Broyard, o célebre crítico literário do “The New York Times”, alguém que morreu mentindo para si mesmo e sua família sobre a origem negra, porque “queria ser um escritor, não um escritor negro”. É um dos melhores ensaios já publicados na revista. O ensaio visual dessa edição traz o requinte de beleza que são as monotipias (método de impressão de triagem única) de Luiz Zerbini, criadas a partir de flores, folhas e caules extraídos do jardim do artista. As obras repõem a natureza investigada, repensada e mesmo sonhada em deliciosas formas aleatórios.

MEU BOM MARÍAS

“Meu bom Maria”, ou “Meu Maria”, era o tratamento amoroso que Vinicius de Morais dispensava, nas cartas que lhe endereçava, ao grande amigo, poeta, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria, parceiro de Luiz Bonfá na linda “Manhã de Carnaval”. Pois o escritor espanhol Javier Marías é “meu bom Marías” desde já. Leio com muito gosto suas crônicas dominicais em “El País Semanal” e logo chegarei aos romances. Soube que ele reuniu 96 desses textos, escritos entre fevereiro de 2017 e janeiro de 2019, em “Cuando la sociedad es el tirano” (Alfaguara). Fui logo buscar a versão eletrônica (RS 33,18). Marías é um cronista mordaz e refinado, crítico inclemente das besteiras de nossas épocas e do fanatismo de toda cepa. O que diz sobre a dificuldade atual de muita gente entender a ironia — o que torna o mundo mais burro — cala bem com minha vivência: “Isso está acabando. Cada vez menos se entende a ironia, as pessoas cada vez mais leem ao pé da letra, literalmente. O que se diz ironicamente é entendido tal qual. Quanto ao humor, temo que cada dia seja mais perseguido. Não se pode fazer uma piada sobre nada, qualquer piada é ofensiva”. Marías também olha em nossa direção, ao falar do presidente norte-americano: “Há um problema com Trump. Ele é uma figura tão tosca, tão fuleira, que nos impede de levá-lo verdadeiramente a sério. Parece menos perigoso do que provavelmente é. (…) Mas não ocorre somente com Trump. O que está se passando com as pessoas que engolem Salvini, Orban, Duterte nas Filipinas, Bolsonaro no Brasil etc.? Não pretendo ter razão, mas pessoalmente os vejo muito perigosos e daninhos para a democracia”.

INVEJA

Quem me dera escrever assim, ser capaz de resumir a ópera como Ruy Castro (24/07): “A chapa está esquentando. Jair Bolsonaro, o presidente mais boquirroto da história da República, tem se superado ultimamente em sua especialidade de atacar adversários, ofender aliados, ignorar protocolos, diminuir instituições, promover crises, agredir minorias, comprar brigas gratuitas, humilhar seus próprios amigos, mentir com grande convicção, desdizer-se na maior cara dura e, de modo geral, escoicear a liturgia do cargo.” A escolha vocabular (“escoicear”) é perfeita.

DE COICES

“Recalcitrat undique tutus” (“de sua posição de segurança ele escoiceia em todas as direções”). De um poema de Horácio, como nos informa uma nota do livro, que é fonte de certa passagem de “As Viagens de Gulliver”. O narrador imagina os Houyhnhnms reagindo a uma invasão de seu país por corruptos povos europeus.

ENGOLINDO CARURUS


“Calígula venceu”, disse ele, atendendo o telefone. Pensava que fosse outra pessoa, e depois de um instante eu disse: “É o que parece, mas aqui é o Zuckerman. “Hoje é um dia negro, senhor Zuckerman. Passei a manhã inteira engolindo sapo. Eu não conseguia acreditar que isso fosse acontecer. As pessoas votaram nos valores morais? Que valores são esses? Mentir para meter o país numa guerra? Que idiotice! Que idiotice! (…)

“Religião!”, exclamava Kliman. “Por que é que eles não adotam a bola de cristal para saber o que é a verdade? Imagine se descobrem que a evolução não tem nada a ver, que Darwin era mesmo maluco. Será que ele é tão maluco quanto o livro do Gênese, com a história da criação do homem? Essas pessoas não acreditam no conhecimento”. (…)

Trecho de “Fantasma Sai de Cena”, romance de Philip Roth (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henrique Brito). Nathan Zuckerman é o narrador desta e outras histórias de Roth. Aqui, envelhecido, está doidinho por uma jovem casada (apesar da impotência adquirida na ablação da próstata) e envolvido com o legado do contista E. I. Lonoff, seu padrinho intelectual. Zuckerman liga para Richard Kliman, jovem escritor e pé no saco, porque precisava dele naquela manhã de 2004, com Nova York de ressaca pela vitória de George W. Bush sobre John Kerry. Bush filho ganhara o segundo mandato, depois de justificar fajutamente a invasão do Iraque com aquela, diríamos, monumental “fake news” sobre as armas de destruição em massa de Saddan Hussein. Esta passagem de Roth tem brotado como ideia fixa das conexões sinápticas do subscritor. Por que será? Deixo a resposta ao descortino do leitor.

O ano do VAZIO

A publicação chega a 52 edições. Seu número zero saiu em maio de 2019, com periodicidade quinzenal. Depois das edições especiais de quarentena, desde março, passaria a semanal. Continuar lendo



EPICURISMO

No extraordinário site Aeon, a jornalista freelance Temma Ehrenfeld confronta noções populares sobre epicurismo e estoicismo com o que essas tradições filosóficas defendiam para valer. Epicuro valorizava a amizade, chiava com a política mas presava a democracia, admitia mulheres e escravos em suas aulas — um escândalo para os gregos à época — e via a felicidade como a evitação da dor, por meio da busca de prazeres com escolhas sóbrias e racionais. O epicurismo, diz a autora, em boa medida atende à vida moderna. Traduzo dois parágrafos.


“A racionalidade que ele vinculou à democracia dependia da ciência. Nós agora conhecemos Epicuro sobretudo por meio do poema “Sobre a Natureza da Coisas”, uma exposição de 7.400 versos do filósofo romano Lucrécio, que viveu cerca de 250 anos depois dele. O poema circulava entre um pequeno número de leitores até ser redescoberto no século 15, quando desafiou radicalmente a cristandade.

“Seus princípios são considerados surpreendentemente modernos, até a física. Em seis livros, Lucrécio afirma que tudo é feito de partículas invisíveis, espaço e tempo são infinitos, a natureza é uma experimento sem fim, a sociedade humana começou com uma batalha pela sobrevivência, não há vida após da morte, religiões são delírios cruéis, e o universo não tem um propósito claro. O mundo é material — com uma pitada de livre arbítrio. Como devemos viver? Racionalmente, abandonando as ilusões. Ideias falsas quase sempre nos tornam infelizes. Se minimizamos a dor que elas nos causam, maximizamos nosso prazer.”


RAMILONGA

Desde o originalíssimo “Tambong” (2000), seu segundo disco, não o perco de vista. Vitor Ramil, 57 anos, é um raro “cantautor” a encontrar seu lugar na mpb estropiada a partir dos anos 1980. Além das faixas que entraram para nosso cancioneiro como “Não É Céu”, “Foi no Mês que Vem” (acompanhada por um piano atonal de Egberto Gismonti) e “Grama Verde, o álbum estabelecia Ramil como um descendente da linhagem de Caetano Veloso e Belchior. O disco demarcava suas elevadas referências poéticas (Paulo Leminski, Allen Ginsberg, versões de Dylan e a temática regional sintonizada com o mundo, formulada na “Estética do Frio – Ramilonga”), com uma instrumentação enxuta, colorida e bem arranjada. Deu na “Folha” que ele apresentou novas canções em Porto Alegre, em julho, com poemas de Angélica Freitas, e deve reuni-las em disco. Alvíssaras. Uma referência na reportagem de Paula Sperb a “Délibáb”, CD de 2010 com poemas de Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas musicados por ele, me faz clicar logo no Spotify. Ouço várias vezes “Milonga de los Morenos”, versão na medida, esférica, para as redondilhas de Borges, gravada com Caetano. Ramil se impôs na rica tradição popular brasileira de voz e violão, um grande feito. Aprendeu a trabalhar com perfeição uma ótima técnica instrumental com sua bela voz melancólica, cuja emissão parece modular a cada frase, efeito que acentua o páthos das letras.

“Milonga de los Morenos”, poema de Jorge Luis Borges musicado por Vitor Ramil, com participação da Caetano Veloso

JOÃO EM 55 MINUTOS

Do balacobaco o especial João Gilberto do “Playlist do Zuza”, programa semanal com roteiro e apresentação de Zuza Homem de Mello, disponível na rádio de internet do Instituto Moreira Salles, a Rádio Batuta. Músico, escritor, curador, produtor e não sei que mais, Zuza é um guia insuperável sobre música brasileira e jazz. Esse “Playlist”, pelo que toca, conta e analisa, vale por um curso intensivo sobre João e sua música, uma aula de 55 minutos. Perto de completar 86 anos, o autor, entre vários títulos, de “João Gilberto” (Publifolha, 2008), segue dividindo generosamente com leitores e ouvintes a cancha dos sonhos de quem viu de perto Miles Davis, John Coltrane e outros tantos recriadores do gênero, quando estudava música em Nova York. A propósito, é uma beleza o documentário “Zuza Homem de Jazz”, produzido pelo Cine Group, com direção de Janaina Dalri, em cartaz no canal Curta!.

 A APOLO 11 E A POESIA

A newsletter do NiemandLab, da Universidade de Harvard, me conduz a um artigo sobre os 50 anos da chegada da Apolo 11 à Lua, em 21/07/1969, e o desafio que o fato representou para os jornais se porem à altura do feito. Destaca a primeira página do “The New York Times” com um improvável poema. O “Times” soube ler as horas da história e marginar convenções editoriais. Quem ousaria hoje? “Cinquenta anos depois de ‘Voyage to the Moom’, em um país fraturado”, diz Joshua Benton, “parece impossível imaginar o momento de assombro comunal que a Apollo 11 inspirou. Quase tanto quanto um poema na capa do ‘The New York Times’. Mas houve um tempo, não muito longe, quando o jornalismo viu seus limites, os pôs de lado, e deixou o momento cantar”. O poeta convocado pelo “Times” era Archibald MacLeish. “Voyage to the Moom”, seu poema, alude a “andarilhos do céu” e ao “deslumbramento prateado” do luar “em nossas folhas e águas”. Mas impossível mesmo é imaginar algum jornal estampar na primeira página o desalento áspero de “Descida na Lua”, poema de W.H. Auden. Quatro de suas dez estrofes, na primorosa tradução de João Paulo Paes (minha edição da Companhia das Letras é de 1986), dizem assim:

Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes
que o nosso Trio, mas tiveram sorte: Heitor
    foi poupado ao vexame de a sua bravura
    ser coberta pelas câmaras de televisão.

Vale a pena ir ver? Eu posso bem acreditar que sim.
Vale a pena ver? Bah! Atravessei um deserto certa vez
     de carro, mas não me encantei; deem-me antes um jardim
    viçoso, bem regado, longe dos que tagarelam

sobre o Novo, os Von Brauns e sua laia, e onde eu possa
nas manhãs de agosto desfrutar as glórias
    matinais, onde morrer tenha um sentido
    e máquina alguma possa alterar a minha perspectiva.

Intacta, graças a Deus, a minha Lua, ainda rainha
dos Céus, minguante ou cheia, uma Presença incrível
    O Velho dela, feito de areia, não de proteína,
    visita ainda as minhas regiões austrais.

JURUPOCA, O AUTOR
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