Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção e a permanência da JU.

Para estabelecer uma assinatura mensal de R$ 40,00 — no dia mais conveniente — clique aqui. Ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Muito obrigado!


O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #08


Número 8 — outubro, 11, 2019


Rio cinza 1 – 2017. Foto: A. Siúves


Opa. Vamos apear?

Espero que esteja tudo bem com você, caro amigo. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta carta. Eis o que me pus a cismar no último quindênio, meus “rendimentos de intra-imo” (Joyce via Houaiss) mais intrínsecos só para você.


Apois. Descobri que tenho algo em comum com Allan Stewart Königsberg: o gosto pelos dias nublados.

Woody Allen esteve em San Sebastián, no País Basco, a rodar mais um filme, com o título provisório de Rifkin’s Festival, e falou disso.

Eis o homem que é uma “controvérsia andante”, na expressão do El País. A produtora Amazon vetou a distribuição da comédia romântica Dias de chuva em Nova York nos EUA, pressionada pelo movimento #MeToo.

Mas o filme estreia nesta sexta-feira (11) na Europa. Aos 84 anos, o diretor é um pária, um morto-vivo em seu país. Sua obra monumental também foi parar no fundo da lata do lixo do ostracismo.

Não vou render o assunto. Acredito que uma obra que nos define, pois define a cultura cinematográfica há mais de meio século, não pode ser apagada da história, à la mano estalinista.  

Pois na ótima conversa com o editor de cultura Borja Hermoso, Allen diz algo sobre luz e sombras que delimita nosso “estar no mundo” [a tradução do El País Brasil tem uns lapsos]:

“Por qué adora los días de lluvia? ¿Por qué mejor los cielos plomizos que el sol?

Porque la luz es más bonita. Y porque creo que en esos días las personas piensan más desde su interior, desde su alma. La mía es un poco triste… y si abro la ventana por la mañana y hace sol, me resulta desagradable. En cambio, encuentro que las ciudades son hermosas bajo la lluvia. París, Londres, Nueva York, San Sebastián son muy bonitas…, pero si llueve son mágicas. En San Sebastián, por ejemplo, el clima es una bendición, el verano parece primavera. Y llueve. En mis películas lo importante sucede casi siempre cuando llueve. Pero quienes invierten en ellas se quejan de que es caro rodar con lluvia. Sobre todo porque, cuando quiero rodar con lluvia, casi nunca llueve y tenemos que fabricarla y usar cisternas. Yo a veces llamo a Dios para que haga algo, pero nada, ni una nube.”

Meus dias favoritos também são cinzentos, friorentos e chuvosos, ainda que dispense as invernadas e o vento feroz, típicos de Copenhague ou Cambará do Sul, digamos.

Mas é bom poder andar pelas ruas molhadas, a pé ou de carro, e curtir o reflexo das luzes de mercúrio nas paralelas inscritas pelos pneus, como canta o Belchior.

Que tal ouvir Paralelas na versão bonita versão dessa música, do disco com Gilvan de Oliveira, de 1999?

O Belo se transforma em outra cidade em dias assim, um burgo mais suportável. As tintas de chumbo do céu aplacam a luz ríspida do período quente, comumente de setembro a maio, iludindo a feiura das vias e construções.

Num dia desses me veio este A chuva é cult, aí no Quadrado ao pé da carta, que passa a constar como seção desta Jurupoca.

ambém gosto do Rio mais do que nunca nos meses de maio, junho e julho, quando a cidade costuma estar encoberta e a temperatura civiliza-se, como nos dias em que tomei, desde o Forte de Copacabana, duas das fotos que ilustram esta edição.

Walter Salles captou isso encantadoramente já na abertura da coprodução francesa Chico Ou o País da delicadeza perdida, de 1989, como um delicioso poema visual.

Bom, Allen falou e disse. Traduzindo: “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. […] e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva.”

What do you mean? – Oviedo, Espanha, 2015 – Foto: Rachel Botelho

Dias cinzentos são comuns no País Basco, onde Allen filmou, depois de rodar Vicky Cristina Barcelona na Catalunha e em Oviedo, a capital das Astúrias que lhe rendeu, em gratidão, a estátua acima.

O aguaceiro é uma característica da vida de Bilbao ou San Sebastián. Me sinto muito bem naquelas bandas. Em um passeio por povoados ao norte de Bilbao, há poucos anos, procurei casar essa sensação de bem-estar com meu apreço às aves marinhas mais comuns em quase todo o planeta.

Este fragmento é de uma das crônicas de viagem à Espanha, capítulo do livro que venho prometendo nesta Jurupoca — e que logo há de sair:

“De Bakio tocamos para Bermeo, a uns cinco quilômetros à frente. Ao descer do carro me dão boas-vindas adoráveis gaivotas, a fazer sua ronda no porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves ousadas e referentes, que parecem filhas, senão frutos do mar. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.”

Consta que Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil, samba que emplacou 80 anos em agosto, em uma noite de toró no Rio. Impedido de sair de casa, o compositor foi sentar-se ao piano para saudar um país ensolarado, lindo e trigueiro.

Nos últimos dias fiz o oposto de Ary. Me tranquei em casa para fugir do sol e do calor e me refugiei no País Basco, por meio das 512 páginas de Pátria, o magnífico romance de Fernando Aramburu que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil. A obra vendeu mais de um milhão de cópias e é adaptada pela HBO.

Chuva nunca falta na retratada vila euskaldun — onde se fala apenas a língua basca, o euskera — não nomeada mas manjada, nos aforas de San Sebastián (Donostia).

A intempérie é comum na rotina das duas famílias, bons vizinhos de compadrio e tudo mais até a cisão causada pela perseguição e violência do ETA (Euskadi Ta Askatasuna — basco para Pátria Basca e Liberdade).

Chove na vila quando é cometido o crime de sangue, episódio que proporciona medianas às triangulações tecidas na narrativa.

Pelas artes da memória, inspiradas também nas reminiscências do autor, revisitamos os tempos sombrios em Euskal Herria, e a luz que eles roubaram de país, mães, filhos e amigos.

Um percurso longo que vai dos dias mais tempestuosos a um período recente [houve, em 2018, o adeus às armas da organização, depois de 50 anos de terror. Os fatos são narrados no ótimo documentário El fin de ETA, disponível na Netflix, e neste vídeo.]

Todos se conhecem e se dão a qualquer hora na vila. Na lida entre a horta, o açougue, a padaria, o bar e a igreja, um empresário extorquido que se recusa a contribuir mais uma vez com o bando tem a marca da peste pichada nos muros, e vai achar porcarias na caixa de correio.

O que era amigo-irmão ainda ontem, parceiro de tragos e partidas de mus na taberna e voltas de bicicleta aos domingos, beneficiário da gratidão por tantos favores, hoje é um traidor, de quem o medo e a covardia exigem distância: 

“Saiu de casa bem cedo com seu traje de ciclista e a bicicleta, e não pôde acreditar nos próprios olhos. Txato isso, Txato aquilo. Herriak ez du barkatuko. Nesse nível. E, quando chegou à praça e se incorporou ao grupo de cicloturistas, notou, o quê?, notou alguma coisa, certa aspereza nos cumprimentos. E olhares que evitavam os seus. E sentiu falta das gozações das outras vezes, mas também ele poderia estar mais suscetível e fosse vítima das próprias fantasias e receios.”

O ódio cristalizado no dogma (que sempre “lacrou”) entusiasma adolescentes que só podem contar com a própria força e seus superávits hormonais.

As vias da educação e do amor não estão disponíveis no momento, e há sucedâneos gloriosos para o sexo. O racismo é patente no ambiente abertzale, do esquerdismo partidário da “pátria” independente.

Chefões embuçados sob o signo do machado e da serpente (força e inteligência política, bietan jarrai em basco) atiçam a energia e as carências de seus potenciais soldados, gudaris.

Seduzem pretensos heróis, que depois são treinados na cartilha que autoriza a matar e, claro, eventualmente morrer pela causa. Gora ETA.

Em gangues rivais, esses jovens buscam aceitação e reconhecimento dos comandantes, e para isso disputam seu campeonato particular de quem faz mais estrago:

“Vem logo, Koldo, Koldito, correndo se for o caso, mas não me falhe. Por que tanta pressa? Porque não queriam que os jarraitxus de Rentería passassem na frente deles. Já tinham sido mais espertos uma vez e ficaram com a glória. Como? Botaram fogo em uma van novinha de mais de vinte milhões de pesetas, uma Mercedes, e isso sim afeta os cofres municipais. Enquanto eles tiveram que se contentar com um Pegaso velho e ferrado, que ainda por cima queima muito pior e não custa nem a metade. Até livraram a prefeitura dos gastos que teria com um ferro-velho.”

Aramburu é um ‎donostiarra, natural de San Sebastián, que vive na Alemanha, onde trabalha como professor de espanhol, desde 1985.

Seu distanciamento me parece ser um ponto essencial dessa obra. Se não deixou minas terrestres em sua guerra contra o “Estado” (seus membros evitam a denominação Espanha), o ETA intoxicou o País Basco e a própria Espanha com profunda degradação moral.

Nada mais apropriado que a literatura para penetrar em campo tão aviltado. 

Há, já mais para o final do livro, uma reunião pública organizada pelo Coletivo das Vítimas do Terror, a que o médico Xabier, que teve o pai assassinado e se tonara um alcoólatra, atende depois de muito relutar.

Com a coragem de dois copos de conhaque, ele finalmente entra no auditório, onde palestra um escritor que não é identificado, o que não é necessário. O disfarce não chega a ser ardiloso, como diz o narrador de um conto de Salinger.

O homem está falando: “— Também escrevi contra o crime cometido com alguma desculpa política, em nome de uma pátria onde um punhado de gente armada, com o vergonhoso apoio de um setor da sociedade, decide quem pertence a essa pátria e quem deve abandoná-la ou desaparecer”, discorre.

“Escrevi sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a desmemória e o esquecimento tramado pelos que tentam forjar uma história a serviço do seu projeto e suas convicções totalitárias”. 

Escrever sem ódio contra a linguagem do ódio é justamente a principal chave do romance.

O discurso indireto livre, técnica idealmente necessária aqui, me parece, é empregado com grande habilidade, não sem algum “esteticismo”, o estilismo que ocorre, na definição de James Wood, quando o autor se intromete na narrativa.

“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor”, explica Wood em Como funciona a ficção (Sesi-SP editora, 2017).

“Habitamos, simultaneamente, a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem e a ponte entre eles — que é o próprio estilo indireto livre — fecha essa lacuna, ao mesmo tempo que chama atenção para a distância”, agrega.

Em uma passagem de Pátria especialmente feliz, já em um tempo adiantado, dois irmãos, vítimas do ETA, caminham no Paseo Nuevo de San Sebastián.

Atrás deles está a escultura de Jorge Oteiza Construcción vacía [em aço corten, premiada na Bienal de São Paulo de 1957 e que nos remete a Amílcar de Castro]. O que essa obra tem a “dizer” é o mais significativo no encontro entre os dois:

“O sol, já se retirando, desenhava uma faixa de cintilações que se moviam na superfície marinha. Barcos? Nenhum. Uma lancha voltando, próxima à entrada da baía, e mais nada. Xabier e Nerea se debruçaram no parapeito. Ele cobria a incipiente calvície com um gorro escocês; ela, que até alguns anos antes usava boinas de lã, estava com o cabelo descoberto. Atrás de onde estavam se enferrujava, entediada, esperando a próxima tempestade, a escultura de Oteiza. A poucos passos dos dois irmãos, um pescador olhava fixamente o vaivém de boia nas águas ondulantes.”

O nacionalismo revolucionário, eivado de marxismo-leninismo, avalizou o assassinato de 867 pessoas, conforme o número da defensoria pública basca de atenção às vítimas.

Registre-se que militantes do ETA sofreram a brutalidade da polícia, em graves desvios do Estado democrático de direito.

A violência e a desrazão até hoje desagregam, separam amigos, amantes, definem histórias de vida e impõem zonas cinzentas aqui e ali.

Tudo enredado no absurdo. Cada página de Aramburu revive essas circunstâncias com a necessária sutileza e mesmo com delicadeza. Se assim não fosse, como um ficcionista poderia tentar repor a crença na humanidade?

É apenas por ocasião da publicação do romance na Espanha, em 2016, que o céu começa a desanuviar-se.

O perdão (barkatu – em basco ao mesmo tempo perdoar, perdoa, perdoe) e a reconciliação, com o fim das mortes e o julgamento dos assassinos, podem trazer de volta, para quem sobreviveu, a velha ordem de um dia após o outro, ainda que, para alguns, o sol volte a brilhar tarde demais.

A ficção amalgama o horror e a amargura que perduraram por décadas de  ódio, fúria e desgraça, tudo, no final das contas, como é corrente na história, para nada. 


Rio cinza 02 – 2017 – Foto: Antônio Siúves


“Our Boys”

Nas áreas fronteiriças entre Israel e Palestina, divergências inimaginavelmente antigas andam bem longe da paz.

Não há esperança de conciliação depois que o fel do nacionalismo e do ódio racial e religioso conseguiu amargar até as pedras do deserto.

O seriado Our Boys, em cartaz na HBO, traz uma noção clara e multifacetada dessa realidade.

Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro, tachou de “antissemita” a produção da rede Kashet, escrita por três roteiristas israelenses, dois judeus e um árabe — a opiniãoquivale a uma espécie de atestado de idoneidade antipopulista e antinacionalista.

Embora parta da comoção causada no país pela morte bárbara de três jovens judeus, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach, por membros do Hamas, em julho de 2014, a série, não se ousadia, se detém no ato de vingança atribuído a esse episódio.

Duas semanas depois daqueles eventos, o menino Abu Khdeir, de 16 anos, é sequestrado perto de casa, em Jerusalém Oriental, e logo cruelmente assassinado.

Our Boys acompanha o trabalho de investigação da Shabak, a agência israelense de segurança interna, e o indiciamento e julgamento dos três acusados pelo crime, dois deles menores de idade.

As ações policiais permitem que o roteiro, por um lado, focalize a via-crúcis dos pais de Khdeir, emparedados entre a dor e a pressão de líderes do Hamas que o requerem como mártir da facção.

Por outro, nos aproximamos da pregação religiosa e da doutrinação dos jovens nas Yeshivás, instituições judias dedicadas ao estudo do Talmud e da Torá.

Nesse universo, onde vivem as famílias das vítimas do atentado do Hamas e dos assassinos de Khdeir, alimenta-se o velho estranhamento entre judeus asquenazes, de ascendência urbana e cosmopolita, e colonos sefarditas ultraortodoxos.

O diálogo entre os algozes, na noite em que saem de carro para caçar sua vítima, expõe as raízes do mal de maneira a um tempo sutil e explosiva.

Vemos que a Bíblia judaica é pau para toda obra. Tanto ensina que a lei proíbe matar o inocente quanto pode sugerir uma interpretação oposta, a justificar a vingança.

Os efeitos da retórica de milhares de horas de doutrinação decoreba sobre a pureza da fé em um deus contra a animalidade da crença alheia são devastadores nas cabeças mais vulneráveis.

Ao ver andar na rua uma grávida árabe-israelense, um dos rapazes, ao defender que ela serviria ao propósito do grupo, comenta: “Olha, vai assando um terroristazinho”.

O comparsa cita com autoridade certa sabedoria rabínica: “Mate-o enquanto é tempo!” A sequência é de uma brutalidade vomitória. As explosões e cenas de tortura de matriz hollywoodiana não passam de terror infantil perto disso.

“A série é incomumente corajosa ao deixar persistir a incomodidade moral, e consegue comover sem oferecer falsas esperanças, uma raridade inclusive em dramas mais bem feitos, escreveu Emily Nussbaum na The New Yorker.

Depois de assistir a uma porção de séries medíocres, a exemplo de Fauda, na Netflix, Our boys realmente é uma boa surpresa na teledramaturgia israelense.

“Reconheço que a série tem profunda verossimilhança, desde as cozinhas estreitas de Jerusalém até os quintais dos assentamentos e as ruas iluminadas pelas luzes do Ramadã por onde caminham as famílias  muçulmanas”, diz Nussbaum.

O enfoque distanciado da narrativa, conduzido com serenidade, e que procura adentrar o submundo do fanatismo, extrapola o que há de mais específico no enredo para, quem sabe, sugerir alguma disciplina racional em um mundo ameaçado pela polarização, inclusive a nosso triste mundinho brasileiro.


O irlandês vem aí

Al Pacino, Joe Pasci e Robert De Niro estrelam o novo Scorsese IrishmanO Irlandês, com três horas e meia de duração.

Passou no New York Film Festival, antes de entrar no circuito americano, para chegar à Netflix, salve, salve, já em novembro — a operadora busca o mesmo sucesso de Roma.


 Lida tradutória

O leitor brasileiro tem uma baita dívida de gratidão com Paulo César de Souza, grande e fino escritor que emprestou suas artes à lida tradutória. Nos últimos tempos ele se concentrou nas obras completas de Freud e Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras, projetos que agora está por concluir.

A Folha lhe dedicou um bom perfil, ainda que um pouco preguiçoso na recolha de depoimentos sobre o personagem, inclusive aqueles que poderiam apor restrições ao trabalho de Paulo César, mas isso é o usual no jornalismo brasileiro.  



Drummond inédito

O livro Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto, lançado este mês pela Unesp e organizado por Marcelo Bortoloti, traz 68 cartas trocadas entre os dois escritores desde os anos 1920, e, como especial achado, três poemas inéditos de Drummond. Eis um deles, divulgado pela Folha:


Religião

Bichinho quer ir s’embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta e põe-se a adorá-la.
Põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.  

Oh, Greta

É sintomático, creio, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a sueca Greta Thunberg.

Leio que que ela levou os pais a deixar a carne, depois os converteu à dieta vegana e, ainda aos 13 anos, os fez abolir as viagens aéreas, o que limitou a carreira internacional de sua mãe, a famosa mezzo-soprano Malena Ernman.

Diga-se que a Suécia é ponta de lança do movimento mundial que incentiva as pessoas a trocarem o avião por meios de transporte de baixa emissão de gases-estufa.

A expressão “flygskam”, algo como “vergonha de voar”, define tal anseio. (Na Europa, vou de trem sempre que possa).

“Me sinto muito bem em ser ouvida”, disse Greta ao New York Times. Seus pais foram na maré da celebridade e lançaram este ano um livro sobre suas decisões sob a influência da petiz.

“O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. ‘Como vocês ousam?’, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: ‘Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?’”, escreveu Demétrio Magnoli. “A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo”, opinou.

A pequena Greta, que fez careta para Trump na ONU, faz muito bem a parte dela, ao tornar-se a heroica escultura viva de um mundo juvenilizado.

Merece a admiração que desfruta, e me simpatizo com ela. Mas é raro encontrar em colunas e editorais uma perspectiva mais larga, filtrada pela leitura extensiva, à luz da histórica.

É como se a pequenez do alcance mental e moral da política contaminasse tudo. Predomina o imediatismo da fofoca e a opinião estéril, a informação suspeita obtidas das “fontes” de cada um.

Greta condena os “traidores dos seus sonhos” e emociona multidões que se informam e formam certezas pelas redes sociais, como parece ser o caso exemplar de certo presidente da República.

As redes, para quem nelas vive imerso, são uma espécie de túnel sem fim, onde em cada página rola o presente eterno dos desconectados da história.

Parece que a mensagem jamais poderá mesmo se impor ao meio, para a glória de McLuhan, amém.

A mocinha exige um veganismo geral e irrestrito, e emissões zero de carbono, já!. Isso distrai a má consciência do ambientalismo de moda.

Quem dera fosse uma questão de banhar o planeta com o pó de pirlimpimpim da Greta-Emília.

“A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19”, contextualiza Magnoli.

“O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.” O colunista acrescenta:


 A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, se escondem nas profundezas do obscurantismo. […]  


Ao acaso, lendo Paulo Roberto Pires na Quatro cinco um, sobre Simone Weil, me ocorreu que a filósofa francesa também foi uma menina prodígio, e meio tiranazinha.

Era obcecada com a fome no mundo e não dava tréguas a quem visse pela frente com seu trololó. Ainda inspiradora, sua obra se tornou um marco do humanismo no século 20.

Alguém poderia sugerir sua leitura a Greta, como passatempo em suas viagens, nunca de avião, entre uma e outra aparição pública.    


Atenção, patetas, é fantasia! 

Houve uma época em que obras com a dimensão das de Fellini, Bergman, Visconti, Woody Allen, Glauber, sei lá, galvanizavam a reflexão, a crítica, as ideias sobre a beleza e o sentido de viver.

Hoje são os heróis da Marvel que falam à imaginação das gentes, entre uma e outra maratonada na Netflix.

Ou um filme como o novo Coringa (Joker), da DC_Comics, cujos produtores se viram obrigados a alertar o público, supostamente de crianças e adolescentes mimadas e cabeças-de-vento, que não se enganem, ao que acabaram de assistir é mesmo ficção, ouviram?

É o corrente. Há muitos anos notei a tendência, ao ver o longa-metragem de 2012 Os Três Patetas, em Portugal Os Três Estarolas, com um aviso no final para que não se repetisse em casa as marteladas na cabeça, dedos nos olhos etc., e os créditos revelavam o segredo daqueles truques.

Moe, Larry & Curly divertiram minha geração a ponto de fazer doer nossos peritônios. Não me recordo de nenhum incidente com aquelas gags, na vida real. Mas não.

O tempora, o mores!  (oh, tempos, oh, costumes), bradava Cícero nas Catilinárias. O jornalista e escritor espanhol Manuel Jabois fez um ótimo comentário a respeito.



Amélia, a IA de verdade

Fale com a Bia (acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial). Parece que o futuro vem aí com as assistentes virtuais.

Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell. “Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, diz esta reportagem de Lílian Cunha.

Humildemente, tenho cá a Marina, do supermercado da esquina, que me escreve e-mails diários com ofertas imperdíveis.

E uma voz feminina me liga na antevéspera para confirmar minha consultas num hospital do Belo; confirmo, e no dia seguinte recebo um SMS automático para testar minha convicção.

Dois dias depois, um robô solicita minha opinião sobre a qualidade do serviço prestado. Noto que os assistentes são sempre fêmeos. Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?

Ou, quem sabe, pelo contrário, o espalhamento de assistentes e secretárias nos algoritmos agora seja o sal da terra, uma libertação de tarefas consideradas subalternas?

Nesse caso, os jornalistas estariam solidários com essas e outras tantas categorias profissionais.

O advento da IA é saudado como mais um passo do imparável progresso humano. As empresas começam a usar e vender aos seus clientes a novidade como mais uma vantagem tecnológica, benefício de valor agregado perante a concorrência.

O fato de estarem cortando postos de trabalhos aos borbotões, inclusive de jornalistas, pois os robôs já reportam nos esportes, na economia e na previsão do tempo, não diz muita coisa à opinião pública.

Quando os bons serviços da Bia são proclamados nos intervalos comerciais do Jornal Nacional, os criativos da publicidade parecem convictos de agradar no atacado com suas, como gostam de dizer, epifanias, ao concederam tais miçangas e espelhinhos hi-tecs à bugrada. Como já disse aqui, acho burra a inteligência artificial.

A propósito, deu no Valor:


 Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1%) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. É o que mostra um estudo da consultoria IDados, obtido pelo Valor, que cruza a base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com um estudo da Universidade de Oxford que separa as ocupações em faixas de risco de automação.

Um exemplo bem-acabado dessas profissões ameaçadas é a condução de automóveis, táxis e caminhonetes (98% de probabilidade de automação), tarefa que tende a ser substituída por carros autônomos, como os famosos veículos da Waymo, a divisão de automóveis sem motorista do Google. Também estão na lista os cobradores, entrevistadores de pesquisa de mercado, balconistas de serviços de alimentação e garçons, por exemplo.


  É isso aí. Bom fim de semana e até a próxima.


QUADRADO AO PÉ DA CARTA

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #3

 2/agosto/2019


Uma entrada dos magníficos “Diarios” (em espanhol) de Iñaki Uriarte me acode quando tento burlar a bile negra. O autor basco cita o comentário grave e solene do senhor Prudhomme, personagem do dramaturgo, ator e caricaturista francês Henry Monnier (1799-1877), quando vê o mar pela primeira vez:

— Tal cantidad de agua roza el ridículo. (Tal quantidade de água beira o ridículo.)

Do original:

— Une telle quantité d’eau frise le ridicule.

 Ao ouvir astrônomos dissertarem sobre zilhões de zilhões de estrelas, aglomerados de galáxias e buracos negros, distantes zilhões de zilhões de anos-luz da chama breve da vida humana, penso em Prudhomme.  

“O nosso estômago pode congelar”, ela me disse depois que tínhamos andado um ou dois quilômetros. “É muito perigoso”.

“Estômago? Como é que o estômago pode congelar?”

“Podendo. E a gente pode ficar doente pro resto da vida se isso acontecer.”

“O que é que a gente faz pra isso não acontecer?”, perguntei.

“A coisa certa a fazer é cantar”, disse ela (…). Que diabo! Também não vai tirar pedaço. A única música que me veio à cabeça para cantar foi “La cucaracha”. Cantei “La cucaracha” por um ou dois quilômetros e achei que a cantoria tinha me congelado mais do que ajudado.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, pág. 702, tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.  


Opa! Vamos apear?

Na carta passada, disse que encontrei guias insuspeitáveis em obras de arte e ficção, ao escrever “A Arte da Viagem” — a sair este mês em KDP. Depois disso, terminei de ler, pela primeira vez, o clássico “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift. Ao dizer adeus aos leitores, depois de quase 500 páginas, o cirurgião Lemuel Gulliver defende a própria literatura de viagem perante a dos perversos yahoos europeus, e dá seu recado. “Para aqueles de nós que viajamos até Países remotos raramente visitados por Ingleses e outros Europeus, é fácil fazer Descrições de Animais maravilhosos do Mar e da Terra”, ele diz. “Porém, o principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros”. Eu diria que isso ainda é válido, mudando-se o necessário, mas voltado ao próprio viajante.

Não tenho, ai de mim, pretensões gulliverianas. Creio, entretanto, quando nunca se viajou tanto, que a viagem governada pelo ritmo de aplicativos e orientada por algoritmos se reduz quase sempre à mera vontade de poder do consumidor. O turista-consumidor logra apenas estar nos lugares, lá fora, e dessa superfície, dessa casca das coisas, o que ele faz?, ele coisa, isto é, selfiza-se e se esparrama. “A mania de se exibir diante de conhecidos postando fotos nas redes cretinas: ‘Veja onde estou’ é uma das mais absurdas que o mundo já conheceu” — diz o escritor espanhol Javier Marías — “porque onde cada um está ou já esteve, amanhã estará meia humanidade. Nada tem nenhum mérito, nada mais pode causar inveja, nada mais é estranho ou insólito. Tudo já foi trilhado.”

Pretendo mostrar no livro que o encurtamento das distâncias e a expansão das classes médias nas últimas décadas, assim como fizeram do turismo uma atividade tóxica para quem vive em certas cidades e balneários superlotados, distanciaram o viajante ainda mais do sentido último do que chamo (me perdoe meu compadre P., que questionou a acuidade lógica da expressão) de a verdadeira viagem, que é, no final e contas, interior, moldado pelo que lemos, vemos e sentimos, por isso, digo no livro que a preparação de uma viagem pede bem mais que reservas, guias e gadgets. No cantar dos últimos versos de “Tea at the Palaz of Hoon”, poema de Wallace Stevens, que ouso traduzir: “E o mundo em que caminhei, e o que vi/ Ou ouvi e senti brotava de mim mesmo;/ E ali me achei mais verdadeiro e mais estranho.”

Achei um barato esta capa — “Power Trip”, Joost Swarate

Os paragrafões acima não chegam, na extensão, a proustianos, mas contrariam todos os manuais de redação da internet, que recomendam períodos de duas linhas e textos curtos. Às favas os manuais. Pesquisas mostram que usuários mais ativos de celulares e das redes sociais tornaram-se incapazes de ler qualquer coisa que dure mais de 30 segundos; danou-se a leitura profunda, que um bom romance ou ensaio exigem. Eu diria que isso vale também para todos os tempos lentos da música e do cinema.E a isso devem sua hegemonia, entre adolescentes de 40 anos ou mais, como é corrente, o baticum tribal, a xaropada religiosa ou pornográfica e a montagem ultrarrápida dos filmes de ação e pancadaria, neta do videoclipe, como as bijuterias da série Marvel.

Esta carta está na contramão da tendência, e sua leitora e seu leitor também, estou certo, ou não chegariam até aqui. A propósito, Jurupoca se propõe como expediente antiviral, sucedâneo contra o espírito do que viraliza e tem valor no negócio de caça-cliques, que torna o jornalismo e tudo mais na rede reféns da Alphabet. Dá dinheiro o que gera milhões de acessos, por mais baixo, fútil e degradante seja o conteúdo. É a realidade de quem se informa pelo WhatsApp e Facebook, paraíso das “fake news”, mas afeta também a existência de grande parte dos jornais na internet, obrigados a “equilibrar” o jornalismo com determinada cota de fofocas, celebridades e escândalos variados. Os fait divers, quem diria, se tornaram mais escabrosos e imperativos.

Ajude Jurupoca a combater a Google-dependência. Convide quem você quiser para assiná-la em https://tinyletter.com/asiuves.  

No mais, keep calm and read on.


ÍCONES DA INFLUÊNCIA

Pela segunda vez, ao voltar de minha caminhada pela manhã no Parque Municipal, subindo a Afonso Pena, entro no Palácio das Artes para bispar a exposição “Narrativas em Processo – Livros de Artistas”, da coleção Itaú Cultural. O estande que me atrai é o primeiro à vista e tem obras de Augusto de Campos e Júlio Plaza. Vemos, um tanto descoloridos pela pátina do papel, “Caixa Preta: poemas e objetospoemas”, de 1975, “Viva Vaia”, “Lixo”, “Linguaviagem” (poema-objeto de 1967 reproduzido, 20 anos depois, na capa do livro homônimo que reúne traduções de Augusto de poetas como Keats, Mallarmé, Yeats e Valéry) e outras figurações de teor concretistas. São ícones sagrados da supremacia de uma faceta da arte brasileira supervalorizada e superexposta pelo poder de São Paulo, a riqueza de seu mecenato moderno e a enorme influência de sua imprensa no resto do país. Os concretistas adotaram, ainda em 1950, a expressão joyceana “verbivocovisual. Por décadas, o estropício se tonaria verdadeira praga para todo poeta aspirante exposto a seu forte magnetismo, cujo ego em flor deixava-se tentar pela majestade de cruzados das vanguardas contra a caipirada em geral que lhes contrapunha algo da tradição. Acho tudo imensamente datado, ainda que sinta certo fascínio em me ver diante desse santuário ateu. Disse num post bem lido do Jornal do Siúves que nossa cultura literária deve muito mais ao Augusto tradutor, divulgador, crítico e ensaísta que ao poeta enorme que ele acredita ser. Mas sinto falta dos arranca-rabos intelectuais que ele manteve com tanta gente, como um El Cid campeador de espada em punho pela causa da “transvanguarda”, e de seu etilo enxuto inconfundível em que o ego superinflado expira o mais puro veneno do “anticrítico”, como ele se define em “Linguaviagem”, onde sai atirando já na receita prescrita na “Breve introdução”: “Crítica via tradução. Crítica de iluminação contra a crítica de maledicência. Exopoesia para combater a egopoesia”.

HOUYHNHNMS E YAHOOS

Não havia lido “As Viagens de Gulliver”, a monumental obra de Jonathan Swift. Na quinta série da Escola Estadual Machado de Assis, em Vespasiano, caiu na prova uma de suas muitas versões ligeiras, com trechos das aventuras do herói. Era uma edição de bolso da Ediouro, creio, mas não era o livro e sim algo mais próximo do desenho animado que passava muito na TV da minha infância. Agora, antes tarde… me pago uma antiga dívida, terminadas as 448 páginas da excelente tradução de Paulo Henriques Britto (Penguin-Companhia das Letras). Não sei se há, nos últimos 300 anos (a primeira edição da obra é 1726), muitos satiristas da envergadura de Swift, mas estou certo de que sua obra segue indispensável, talvez ainda mais agora, como lenitivo contra a vertigem nauseante provocada pela política em toda parte. O clérigo e escritor irlandês, com a perícia de um grande cirurgião esteta, estica no curtume as almas (especialmente as da nobreza, dos altos funcionários de governo, advogados, médicos e administradores da Justiça), desventra sua iniquidade, torpeza, crueldade, ambição, o ódio… e expõe tudo ao sol do meio-dia, com a imensa maestria que apenas ao gênio favorece, tudo com clareza, inventividade e irresistível humor. “Mas, a partir do Relato que me fizeste, e das Respostas que com muito Cuidado arranquei de ti”, diz a Gulliver o rei de Brobdingnag, a terra dos gigantes, “sou obrigado a concluir que o Grosso dos Nativos de tua Terra são a mais perniciosa Raça de Sevandijas [nome comum a todos os parasitas e vermes] abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra”. Não é por nada que Gulliver, na quarta e última parte da história, vai se tornar um zelote dos Houyhnhnms, os seres assemelhados a cavalos, dotados de grande racionalidade e sabedoria, e desprezar, exatamente como os Houyhnhnms, a alimária fedorenta e imbecil dos yahoos, nossos irmãos, nossos iguais. Ao voltar para a Inglaterra e a família, a contragosto, quando terminam suas viagens, como o nosso general Figueiredo, mas por motivos nobres, Gulliver preferirá o cheiro de suas cavalgaduras, que ele mantém no bem-bom, ao insuportável odor das pessoas, incluindo o da mulher e dos filhos.

RAIOS DE SOL DE PEPINOS

Agora, há montes de bosta nas viagens do herói, pensei, a me lembrar de Paulo Francis, acho que em 1986, iniciando uma crítica do filme “O Nome da Rosa”. George Orwell tem razão ao enfatizar, no ensaio introdutório, a obsessão escatológica de Swift, que não descuida do xixi e do cocô aonde se aventure. E também ao apontar a implicância do autor com a ciência de sua época. Sobra até, nas sátiras, para a disputa entre Newton e Leibniz sobre invenção do cálculo infinitesimal. A Royal Society, fundada sete anos antes de Swift nascer, em 1667, é mal disfarçada na grã-Academia de Lagado, nos confins de Judas, visitada por Gulliver. Entre as pesquisas que observa na egrégia instituição e descreve oficiosamente há o projeto de “extrair Raios de Sol de Pepinos, os quais seriam guardados em Frascos hermeticamente fechados, e usados para aquecer o Ar nos Verões mais úmidos e inclementes”. O narrador prossegue: “Disse-me ele [o acadêmico que o conduz] julgar que com mais oito anos de Trabalho seria capaz de fornecer Sol aos Jardins do Governador a Preços módicos; porém queixava-se de estar com seu Estoque em baixa, e pediu-me que eu lhe desse algo como Incentivo ao Engenho, especialmente por estarem mui caros os Pepinos naquela Estação. Fiz-lhe uma pequena Doação (…).” Adoro pensar no que Swift escreveria sobre o solucionismo tecnológico do Vale do Silício.

 MALDITOS YAHOOS

Ah, essa raça de yahoos. No “Valor”, o escritor Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, diz, ao celebrar o centenário de nascimento de Primo Levi (31/8), referido na Jurupoca # 0, que apenas “Shoah” (1985), o documentário épico de Claude Lanzmann (1925-2018), incorpora no cinema o “magma” de “É Isto um Homem?”, a narrativa que é uma “experiência literária imorredoura e única”, nas palavras de Labaki, com sua “harmonia entre ética e estética; forma e conteúdo; as palavras e o narrado”. Vi “Shoah” no antigo cine Roxy, no Barro Preto, já no final dos anos 1980. Há uns seis ou sete anos tenho a produção em uma caixa de seis DVDs. No “Arte da Viagem”, digo que é inverossímil pensar a Europa desfocada do passado remexido profundamente por Lanzmann. O que isso tem a ver com os yahoos? É que os miseráveis yahoos de hoje são motivados pela baixaria que “viraliza” e, portanto, é digna de atenção da nossa (baixa e lassa) humanidade. Labaki se refere ao documentário “Retorno a Auschwitz” (1982), de Daniel Toaff, que acompanha a volta de Levi a Auschwitz, pela primeira vez desde os episódios narrados em “A Trégua”. Pois esse curta-metragem, disponível no YouTube e legendado em português, desde maio de 2016, quando escrevo esta nota angariava 4.499 visualizações, uma multidão, não é? Antonio Elorza, em “El País”, lembra que Violeta Friedman, sobrevivente de Auschwitz, uma amiga do colunista, lhe contava que os meios de comunicação se interessaram por seu testemunho apenas com o sucesso de “A Lista de Schindler”, o filme açucarado de Spielberg.

MOLINA AOS SÁBADOS

Minhas manhãs de sábado são imperfeitas sem a leitura das colunas de Antonio Muñoz Molina, no caderno Babelia de “El País” — traduzidas irregularmente na edição brasileira do jornal. Tenho comprado seus livros em viagens a Espanha, mas parte de sua ficção saiu em português pela Companhia das Letras, hoje infelizmente relegada aos sebos. Creio que a voz branda e o texto fluido, refletivo e evocativo do escritor, não raro roçando o poético, melhorou meu ouvido para o espanhol e assim meu gosto pelo idioma. A propósito, seu ensaio “Todo lo que era sólido” (Seix Barral, 2013) é um passaporte VIP para quem queira penetrar na Espanha contemporânea e compreender suas glórias e seus descaminhos; o recomendo penhoradamente a quem viajar ao país com genuína curiosidade. Em textos mais recentes ele celebra João GilbertoMachado de Assim, que lê pela primeira vez, ao tratar do “espírito do romance” e da vida literária. Em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Molina percebe uma “audácia e uma desenvoltura cervantinas na criação de suas histórias”. Ele valoriza “o espírito singular do romance, sua vocação para indagar os atos e as consciências dos seres humanos, sua generosa ambição abarcadora, sua desolação e seu humor”, para concluir que “não nos importaria tanto a literatura se não aprendêssemos com ela coisas que de outro modo não poderíamos saber. É isso que exigimos dela. Tudo mais que existe em volta carece de importância”.

“SERROTE” PERDE O FIO

Antes de a ler de cabo a rabo, saboreio “Serrote” — revista-livro quadrimestral publicada pelo Instituto Moreira Salles — como o belo produto gráfico que é. Folheio cada edição para apreciar fotografias, ensaios visuais e reproduções. Detenho-me na diagramação, nas cores, no cheiro da encadernação, na textura do papel, no excelente acabamento e passo uma vista no conteúdo, tantas vezes prodigioso, para saber o que me espera. Tenho os 31 números publicados até julho deste ano. Não há rival para a revista no Brasil. Mas sinto que ela tem se apequenado nos últimos anos, ao trazer para suas páginas, meio aos trancos, uma série de ensaios supostamente palatáveis à nova esquerda e seu tribalismo identitário. O problema não é a predominância desses temas. Os textos frequentemente são obscuros e, pior, curto nas ideias e no alcance intelectual. Escritos e editados no calor da divisão ideológica do país e na crista da onda reacionária, simplesmente destoam dos padrões que o IMS se impunha desde o seu lançamento, há dez anos. Muñoz Molina me cai bem sobre isso. Em uma coluna (“Ética da prosa”, sobre um ensaio de Colm Tóibín no “London Review of Books”, no qual o escritor irlandês se expõe como paciente de câncer) ele me lembrou da prestação de contas de Graciliano Ramos quando prefeito de Palmeiras dos Índios, ao defender:


“Uma prosa clara é uma exigência ética, uma necessidade civil, da mesma ordem que a transparência e a probidade na administração pública. Graças à claridade das palavras podemos discernir o grau de solvência dos argumentos de um debate e adquirir informações rigorosas sobre os fatos e, dentro do possível, distinguir as fantasias da realidade. Assim como um interventor submete a escrutínio os planos de gasto de um organismo público, um cidadão há de julgar a veracidade das palavras que lhe são apresentadas em uma informação, em uma coluna de jornal ou discurso político.”


MAS, QUANDO SERRA…

Reli por estes dias até altas da madrugada o perfil de Ernest Hemingway por Lilian Ross (Serrote #27, novembro de 2017, tradução de Alexandre Barbosa de Souza). Publicado originalmente na “The New Yorker”, depois como livro independente, o texto me parece moço como nunca, uma joia clássica. Hemingway ressurge eternamente decadente nas obsessões com lutas, caçadas e touradas, na ansiedade autoral competitiva, na insegurança e compulsão alcoólica, mas ainda assim vivíssimo, autêntico em cada passo, frase, resmungo, comentário, o que diz tudo sobre o alcance de Lilian Ross como jornalista e escritora. Para repetir o bordão de “Papa”, como Hemingway era chamado por Marlene Dietrich, que dá título ao ensaio: “Que tal, Senhores?”.

…SERRA BEM

Da Serrote # 31, a mais recente, louvo a inserção de “O Toldo Vermelho de Bolonha” (tradução de Samuel Titan Jr.), livro do romancista, pintor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017), formatado por meio de notas que se referem à memória de um tio do autor, à cidade italiana e seu encantamento com o tom vermelho que a caracteriza, com suas “tende” (toldos) confeccionadas com um linho grosso dessa cor. A prosa deliciosa, aerada poeticamente, é nobre e reconfortante. Já o número anterior disse a que veio em “Branco como Eu” (tradução de Érico Assis), obra primorosa dos historiador Henry Louis Gates Jr. sobre Anatole Broyard, o célebre crítico literário do “The New York Times”, alguém que morreu mentindo para si mesmo e sua família sobre a origem negra, porque “queria ser um escritor, não um escritor negro”. É um dos melhores ensaios já publicados na revista. O ensaio visual dessa edição traz o requinte de beleza que são as monotipias (método de impressão de triagem única) de Luiz Zerbini, criadas a partir de flores, folhas e caules extraídos do jardim do artista. As obras repõem a natureza investigada, repensada e mesmo sonhada em deliciosas formas aleatórios.

MEU BOM MARÍAS

“Meu bom Maria”, ou “Meu Maria”, era o tratamento amoroso que Vinicius de Morais dispensava, nas cartas que lhe endereçava, ao grande amigo, poeta, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria, parceiro de Luiz Bonfá na linda “Manhã de Carnaval”. Pois o escritor espanhol Javier Marías é “meu bom Marías” desde já. Leio com muito gosto suas crônicas dominicais em “El País Semanal” e logo chegarei aos romances. Soube que ele reuniu 96 desses textos, escritos entre fevereiro de 2017 e janeiro de 2019, em “Cuando la sociedad es el tirano” (Alfaguara). Fui logo buscar a versão eletrônica (RS 33,18). Marías é um cronista mordaz e refinado, crítico inclemente das besteiras de nossas épocas e do fanatismo de toda cepa. O que diz sobre a dificuldade atual de muita gente entender a ironia — o que torna o mundo mais burro — cala bem com minha vivência: “Isso está acabando. Cada vez menos se entende a ironia, as pessoas cada vez mais leem ao pé da letra, literalmente. O que se diz ironicamente é entendido tal qual. Quanto ao humor, temo que cada dia seja mais perseguido. Não se pode fazer uma piada sobre nada, qualquer piada é ofensiva”. Marías também olha em nossa direção, ao falar do presidente norte-americano: “Há um problema com Trump. Ele é uma figura tão tosca, tão fuleira, que nos impede de levá-lo verdadeiramente a sério. Parece menos perigoso do que provavelmente é. (…) Mas não ocorre somente com Trump. O que está se passando com as pessoas que engolem Salvini, Orban, Duterte nas Filipinas, Bolsonaro no Brasil etc.? Não pretendo ter razão, mas pessoalmente os vejo muito perigosos e daninhos para a democracia”.

INVEJA

Quem me dera escrever assim, ser capaz de resumir a ópera como Ruy Castro (24/07): “A chapa está esquentando. Jair Bolsonaro, o presidente mais boquirroto da história da República, tem se superado ultimamente em sua especialidade de atacar adversários, ofender aliados, ignorar protocolos, diminuir instituições, promover crises, agredir minorias, comprar brigas gratuitas, humilhar seus próprios amigos, mentir com grande convicção, desdizer-se na maior cara dura e, de modo geral, escoicear a liturgia do cargo.” A escolha vocabular (“escoicear”) é perfeita.

DE COICES

“Recalcitrat undique tutus” (“de sua posição de segurança ele escoiceia em todas as direções”). De um poema de Horácio, como nos informa uma nota do livro, que é fonte de certa passagem de “As Viagens de Gulliver”. O narrador imagina os Houyhnhnms reagindo a uma invasão de seu país por corruptos povos europeus.

ENGOLINDO CARURUS


“Calígula venceu”, disse ele, atendendo o telefone. Pensava que fosse outra pessoa, e depois de um instante eu disse: “É o que parece, mas aqui é o Zuckerman. “Hoje é um dia negro, senhor Zuckerman. Passei a manhã inteira engolindo sapo. Eu não conseguia acreditar que isso fosse acontecer. As pessoas votaram nos valores morais? Que valores são esses? Mentir para meter o país numa guerra? Que idiotice! Que idiotice! (…)

“Religião!”, exclamava Kliman. “Por que é que eles não adotam a bola de cristal para saber o que é a verdade? Imagine se descobrem que a evolução não tem nada a ver, que Darwin era mesmo maluco. Será que ele é tão maluco quanto o livro do Gênese, com a história da criação do homem? Essas pessoas não acreditam no conhecimento”. (…)

Trecho de “Fantasma Sai de Cena”, romance de Philip Roth (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henrique Brito). Nathan Zuckerman é o narrador desta e outras histórias de Roth. Aqui, envelhecido, está doidinho por uma jovem casada (apesar da impotência adquirida na ablação da próstata) e envolvido com o legado do contista E. I. Lonoff, seu padrinho intelectual. Zuckerman liga para Richard Kliman, jovem escritor e pé no saco, porque precisava dele naquela manhã de 2004, com Nova York de ressaca pela vitória de George W. Bush sobre John Kerry. Bush filho ganhara o segundo mandato, depois de justificar fajutamente a invasão do Iraque com aquela, diríamos, monumental “fake news” sobre as armas de destruição em massa de Saddan Hussein. Esta passagem de Roth tem brotado como ideia fixa das conexões sinápticas do subscritor. Por que será? Deixo a resposta ao descortino do leitor.

Ju #43

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa? Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo … Continuar lendo

Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2 ♪ Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal ♪  [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando … Continuar lendo



EPICURISMO

No extraordinário site Aeon, a jornalista freelance Temma Ehrenfeld confronta noções populares sobre epicurismo e estoicismo com o que essas tradições filosóficas defendiam para valer. Epicuro valorizava a amizade, chiava com a política mas presava a democracia, admitia mulheres e escravos em suas aulas — um escândalo para os gregos à época — e via a felicidade como a evitação da dor, por meio da busca de prazeres com escolhas sóbrias e racionais. O epicurismo, diz a autora, em boa medida atende à vida moderna. Traduzo dois parágrafos.


“A racionalidade que ele vinculou à democracia dependia da ciência. Nós agora conhecemos Epicuro sobretudo por meio do poema “Sobre a Natureza da Coisas”, uma exposição de 7.400 versos do filósofo romano Lucrécio, que viveu cerca de 250 anos depois dele. O poema circulava entre um pequeno número de leitores até ser redescoberto no século 15, quando desafiou radicalmente a cristandade.

“Seus princípios são considerados surpreendentemente modernos, até a física. Em seis livros, Lucrécio afirma que tudo é feito de partículas invisíveis, espaço e tempo são infinitos, a natureza é uma experimento sem fim, a sociedade humana começou com uma batalha pela sobrevivência, não há vida após da morte, religiões são delírios cruéis, e o universo não tem um propósito claro. O mundo é material — com uma pitada de livre arbítrio. Como devemos viver? Racionalmente, abandonando as ilusões. Ideias falsas quase sempre nos tornam infelizes. Se minimizamos a dor que elas nos causam, maximizamos nosso prazer.”


RAMILONGA

Desde o originalíssimo “Tambong” (2000), seu segundo disco, não o perco de vista. Vitor Ramil, 57 anos, é um raro “cantautor” a encontrar seu lugar na mpb estropiada a partir dos anos 1980. Além das faixas que entraram para nosso cancioneiro como “Não É Céu”, “Foi no Mês que Vem” (acompanhada por um piano atonal de Egberto Gismonti) e “Grama Verde, o álbum estabelecia Ramil como um descendente da linhagem de Caetano Veloso e Belchior. O disco demarcava suas elevadas referências poéticas (Paulo Leminski, Allen Ginsberg, versões de Dylan e a temática regional sintonizada com o mundo, formulada na “Estética do Frio – Ramilonga”), com uma instrumentação enxuta, colorida e bem arranjada. Deu na “Folha” que ele apresentou novas canções em Porto Alegre, em julho, com poemas de Angélica Freitas, e deve reuni-las em disco. Alvíssaras. Uma referência na reportagem de Paula Sperb a “Délibáb”, CD de 2010 com poemas de Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas musicados por ele, me faz clicar logo no Spotify. Ouço várias vezes “Milonga de los Morenos”, versão na medida, esférica, para as redondilhas de Borges, gravada com Caetano. Ramil se impôs na rica tradição popular brasileira de voz e violão, um grande feito. Aprendeu a trabalhar com perfeição uma ótima técnica instrumental com sua bela voz melancólica, cuja emissão parece modular a cada frase, efeito que acentua o páthos das letras.

“Milonga de los Morenos”, poema de Jorge Luis Borges musicado por Vitor Ramil, com participação da Caetano Veloso

JOÃO EM 55 MINUTOS

Do balacobaco o especial João Gilberto do “Playlist do Zuza”, programa semanal com roteiro e apresentação de Zuza Homem de Mello, disponível na rádio de internet do Instituto Moreira Salles, a Rádio Batuta. Músico, escritor, curador, produtor e não sei que mais, Zuza é um guia insuperável sobre música brasileira e jazz. Esse “Playlist”, pelo que toca, conta e analisa, vale por um curso intensivo sobre João e sua música, uma aula de 55 minutos. Perto de completar 86 anos, o autor, entre vários títulos, de “João Gilberto” (Publifolha, 2008), segue dividindo generosamente com leitores e ouvintes a cancha dos sonhos de quem viu de perto Miles Davis, John Coltrane e outros tantos recriadores do gênero, quando estudava música em Nova York. A propósito, é uma beleza o documentário “Zuza Homem de Jazz”, produzido pelo Cine Group, com direção de Janaina Dalri, em cartaz no canal Curta!.

 A APOLO 11 E A POESIA

A newsletter do NiemandLab, da Universidade de Harvard, me conduz a um artigo sobre os 50 anos da chegada da Apolo 11 à Lua, em 21/07/1969, e o desafio que o fato representou para os jornais se porem à altura do feito. Destaca a primeira página do “The New York Times” com um improvável poema. O “Times” soube ler as horas da história e marginar convenções editoriais. Quem ousaria hoje? “Cinquenta anos depois de ‘Voyage to the Moom’, em um país fraturado”, diz Joshua Benton, “parece impossível imaginar o momento de assombro comunal que a Apollo 11 inspirou. Quase tanto quanto um poema na capa do ‘The New York Times’. Mas houve um tempo, não muito longe, quando o jornalismo viu seus limites, os pôs de lado, e deixou o momento cantar”. O poeta convocado pelo “Times” era Archibald MacLeish. “Voyage to the Moom”, seu poema, alude a “andarilhos do céu” e ao “deslumbramento prateado” do luar “em nossas folhas e águas”. Mas impossível mesmo é imaginar algum jornal estampar na primeira página o desalento áspero de “Descida na Lua”, poema de W.H. Auden. Quatro de suas dez estrofes, na primorosa tradução de João Paulo Paes (minha edição da Companhia das Letras é de 1986), dizem assim:

Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes
que o nosso Trio, mas tiveram sorte: Heitor
    foi poupado ao vexame de a sua bravura
    ser coberta pelas câmaras de televisão.

Vale a pena ir ver? Eu posso bem acreditar que sim.
Vale a pena ver? Bah! Atravessei um deserto certa vez
     de carro, mas não me encantei; deem-me antes um jardim
    viçoso, bem regado, longe dos que tagarelam

sobre o Novo, os Von Brauns e sua laia, e onde eu possa
nas manhãs de agosto desfrutar as glórias
    matinais, onde morrer tenha um sentido
    e máquina alguma possa alterar a minha perspectiva.

Intacta, graças a Deus, a minha Lua, ainda rainha
dos Céus, minguante ou cheia, uma Presença incrível
    O Velho dela, feito de areia, não de proteína,
    visita ainda as minhas regiões austrais.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #0


jurupoca
ju·ru·po·ca
sf
ZOOL
1 Peixe teleósteo, siluriforme (Hemisorubim platyrhynchus), de água doce, encontrado nos rios da Amazônia e do Sudeste brasileiro e no Paraguai, com boca com grande prognatismo, dorso esverdeado, ventre esbranquiçado e manchas negras nas laterais; boca-de-colher, jeripoca, jerupoca, jiripoca, jurupensém, mandiaçu.
2 V surubim-lima.
ETIMOLOGIA
tupi iurupóka.

Etimologia
“Jurupoca”, “jerupoca” e “jiripoca” são oriundos da junção dos termos tupis yu’ru (“boca”) e ‘poka (gerúndio de pog, “arrebentar”), significando, portanto, “boca arrebentando”. É uma referência à sua mandíbula projetada para frente (prognatismo)[1]. “Hemisorubim” vem do grego hemi, “meio”[2], significando, portanto, “meio surubim”, numa referência à sua semelhança com os surubins. “Platyrhynchos” vem da junção dos termos gregos platýs, êia, ý (“chato”)[3] e rhýgchos, eos-ous (“bico”)[4], ou seja, “bico chato”, numa referência, novamente, a sua mandíbula projetada para frente.  

Opa.

A Jurupoca vai piar, logo, começo por dizer algo original.

Isto é uma carta dentro de um e-mail, velhos meios reciclados diante do cansaço com a balada das redes sociais, a burrice da inteligência artificial (IA) e, por certo, a dureza da vida de jornalistas e escritores.

“Publicar por e-mail ganha quase um ar retrô”, escreveu em abril Maurício Meireles em reportagem na “Folha de S.Paulo” sobre a volta das newsletters literárias. A matéria mostrava que uma “série de autores estabelecidos” se queixavam da “supremacia dos algoritmos e a economia dos likes” das redes sociais. “Hoje a internet é permeada pelos likes, algoritmos e publicidade constantes. São pilhas de informação moldadas por algoritmos que criam uma ansiedade de consumo de informação. E a leitura não é para ser uma experiência assim. Há uma estrutura de informação que não privilegia o interesse dos usuários, mas das corporações e dos anunciantes”, ponderava Daniel Galera.

Daniel Pellizzari ampliava a opinião do xará: “Não tinha [quando ele começou a divulgar seu trabalho na rede] essa maquininha pavloviana de likes e comentários, toda essa parafernália meio detestável. [Fazer newsletter] não é pura nostalgia, mas lembra uma época em que a internet era um lugar cheio de possibilidades legais e não uma realidade de coisas horríveis”.

Então, a internet tem seus nostálgicos, ora vejam, minha amiga, meu amigo. Aonde vamos parar?

Além de newsletters, os escritores recorrem à autopublicação e ebooks; se viram como podem.

Aí vamos nós.


A ARTE DA VIAGEM

Redescobri meu próprio livro ao voltar a um manuscrito inédito. Xongas, pensei, este texto é uma declaração de amor e uma reflexão sobre certa maneira de viajar, não é um guia de viagens, como pretendia. Junte nele as últimas crônicas europeias, reescreva o que pedir para ser reescrito, revise tudo mais uma vez e terá “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”. Ah, não caia de novo na asneira de procurar editoras brasileiras! Recebi ainda o estímulo de Carlos Moreira, amigo jornalista velho de guerra: anda, faça um e-book, ele me disse, vá de Kindle Direct Publishing (KDP), mas retire o livro do gavetário nas nuvens!

Por falar no Kindle, minha mulher me presenteou com o aparelhinho, o novo Paperwhite, que até à prova d’água é, ao qual aderi e com o qual divido minhas leituras deste então. A edição caprichada de “A Arte da Viagem”, recheada de fotos, com revisão profissional aos cuidados de Beto Arreguy, sairá antes do final de julho. Um trechinho da introdução:

A viagem como extensão da vida cultural e certa maneira de praticá-la são temas deste livro. O prazer de viajar é sua razão de ser.

O objetivo é compartilhar com o leitor um estilo ou jeito de viajar, dentro da modalidade “turismo cultural”. Nada a ver, aqui, com o conceito acadêmico, ensinado em faculdades de turismo, e ainda menos com o institucional, das hashtags do Instagram e promoções de agências públicas e privadas.

Viajar é — ou deveria ser — coisa tão pessoal quanto o gosto por livros, filmes, quadros e comida, bem como sua motivação e sentido, numa época de excursões breves e facilitadas.

Se a experiência humana pode ser tão rica quanto almejamos, com a viagem não é diferente. A mera diversão pode transformar-se em caminho espiritual e razão de viver.

A verdadeira viagem, em busca de beleza, diversidade e conhecimento, desvela mundos, educa, inspira e torna o viajante mais apto para compreender o próprio quintal interior.

O contato com uma civilização mais avançada ou diversa da nossa tem o dom de quebrar preconceitos e abrir cabeças.

Vida e trabalho podem se tornar mais prazerosos com as experiências que acumulamos, além das “milhas” de viagem. É disso que este livro vai tratar.

Como dizem Ruy Castro e Heloisa Seixas em “Terramarear – Peripécias de Dois Turistas Culturais” (Companhia das Letras, 2011), “turismo também é cultura, como se sabe. Mas mais divertido é quando a cultura se transforma em turismo.”

A frase invertida tem o mesmo teor. Transformado em cultura, o turismo se torna uma prática mais rica e divertida. Turismo também é cultura, ou seja, não necessariamente.

Há quem viaje em férias exclusivamente para caçar e pescar, cavalgar e mergulhar, correr e surfar, comprar e vender, comer e beber, fotografar passarinhos ou o que queira na vida. Tudo isso é ótimo e bacana. Mas é preciso bem mais que a boa vontade de antropólogos culturais pós-modernos para classificar tais atividades estritamente como “culturais”.

O turismo de massa, às vezes restrito ao limite de quarteirões, bairros e algumas atrações vistas em uma única tarde, é antípoda da arte da viagem. Milhões de pessoas da classe média planetária obtiveram meios para viajar nas últimas décadas. Estima-se o número de turistas chineses em 156 milhões, em 2018, contra 10,5 milhões em 2000. Globalmente, o turismo internacional, que em 1960 era de menos de 70 milhões, chega a 1,4 bilhão de pessoas no final da segunda década do século 21. Facilitado por companhias aéreas de baixo custo e locações de sites como Airbnb — a companhia criada e sediada em São Francisco, nos Estados Unidos, avaliada pela Forbes em 38 bilhões de dólares —, a atividade turística em larga escala enfrenta a rejeição popular e campanhas virulentas de ativistas em cidades como Barcelona (com uma população de 1,6 milhão de pessoas, recebe 30 milhões de visitantes anualmente) e Veneza (500 mil habitantes e 20 milhões de turistas).

Barulho, arruaça, desrespeito à cultura, inflação no preço dos aluguéis, gentrificação — a descaracterização de áreas populares e da genuína vida local pela reconfiguração de imóveis para receber mais turistas e lhes oferecer cafés, restaurantes e outros serviços em padrão globalizado, distantes da tradição de cada povo — são algumas das acusações levantadas contra o turismo massivo.  

Este livro tentará mostrar que a fuga do lugar-comum, a busca pelo genuíno e a aproximação respeitosa da vida local são fundamentos da arte de viajar, que demanda preparo e maturação — e tenderá a ser bem-vinda onde a praticarem.


FRACASSAR MELHOR

A citação mais conhecida do escritor irlandês Samuel Beckett — “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” (Tente. Fracasse. Não importa. Tente de novo. Fracasse melhor.) extraída do “Worstward Ho, uma de suas últimas obras — é bastante inspiradora e uma epígrafe na medida para a vida do futricado eleitor brasileiro.

Somos todos iguais nesta noite sob o mantão da imbecilidade. Um país amazônico e diabólico, que sequer conseguiu prover serviço de esgoto para mais do que a metade de sua população, perde tempo e a energia de Itaipus em tuítes e fofocário político imprestável.

Em “As Viagens de Gulliver”, Jonathan Swift narra, com grande clarividência para um leitor brasileiro, o grande cisma de Lilipute, que causou milhares de mortos naquele império de homúnculos (os seres medem 15 cm de altura), entre Extremidade-Grandinos e Extremidade-Pequeninos, em torno da forma ideal de quebrar o ovo para comê-lo, se pelo lado maior, conforme a tradição, ou pelo menor, segundo a heresia revolucionária — algo assim como “marxismo cultural”. Penso que o atual ministro das Relações Exteriores defende com verve e erudição a ideologia da Extremidade Maior, contra os radicais corporativistas, que morrerão pela Extremidade Menor do ovo, em nome da verdade, do povo e dos próprios cargos régios.

DEMOCRACIA ASSOPRADA

Na Europa também assopram contra a chama da democracia e, do jeito que vai a coisa, acabarão por conseguir apagá-la.Na nave do novo nacional populismo vai na proa Matteo Salvini, um imbecil idolatrado por multidões. O filósofo italiano Umberto Galimberti lembra que a Itália está em último lugar na Europa na compreensão de um texto escrito. A ignorância predomina entre jovens acorrentados às redes sociais. Hormônios de mais, paciência de menos e incultura geral fertilizam o campo da revolta dos “tifosi” das trevas.

TEU NOME É PETRA

Atualizo esta carta depois de assistir na Netflix, ainda na manhã desta quarta-feira (19/06), a “Democracia em Vertigem”, documentário de Petra Costa. A cineasta  é neta de fundadores da construtora Andrade Gutierrez e filha de militante políticos; seu nome, Petra, homenageia Pedro Pomar, líder do PCdoB assassinado por militares, em 1976. A conjunção autobiográfica define o filme e sua narrativa. O dilema pessoal da diretora, de uma eleitora com a idade aproximada do nosso último período democrático, conduz a retrospectiva dos últimos anos — as manifestações de 2013, a Operação Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff, a prisão de Lula e a eleição de Jair Messias Bolsonaro. “Grande parte da minha família votou em Bolsonaro, enquanto, segundo a cosmologia de Bolsonaro, meus pais deveriam ter sido assassinados”, diz Petra, como resumo da ópera, já no final do filme. Vemos cenas da infância da diretora, imagens de bastidores cedidas pelo fotógrafo Ricardo Stuckert (o “Velásquez do poder petista”, segundo Mario Sérgio Conti), entrevistas com os protagonistas da tragicomédia brasileira, com a própria mãe (que amargou o mesmo calabouço de Dilma, alguns anos antes e por menos tempo) e imagens dos eventos marcantes dos últimos oito anos, incluindo o picadeiro do Grande Círculo Tétrico da votação do impeachment, no domingo de 17 de abril de 2016. Revemos nosso atual presidente dedicar seu voto à “memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff”, e mais uma vez sentimos vontade de vomitar. Mesmo sem se aprofundar no desastre do governo Dilma na economia e seus reflexos para os mais pobres, e se apegar forte e inocentemente à simplificação da conspiração das elites para iluminar os abalos sofridos pelo sistema e a descrença cívica, “Democracia em Vertigem” é um documentário sensível, inteligente, honesto, por vezes comovente. É cinema de primeiríssima ordem. Diretores simpáticos à direta e à esquerda, incluindo suas obras de ficção, inspirados no tema, nem de longe realizaram algo da mesma estatura.

A PRIMEIRA ESTRELA

José Ovejero descreve no “El País” sua visita ao túmulo de Primo Levi (1919-1987) no cemitério de Turim, depois de muita andança para localizar a lápide, que é sóbria e humilde, conforme diz. Não apareceram outros visitantes durante o tempo em que esteve lá nem havia uma pedra sobre a sepultura, segundo o costume judaico de honrar a memória dos mortos, neste centenário do autor de “A Tabela Periódica”. “A lápide não informa que jaz ali um partisan antifascista nem um químico nem um imenso escritor, ainda que tenha sido todas essas coisas. E só o número 174.517 recorda sua passagem por Auschwitz”, diz o texto de Ovejero. Li há muito “É Isto um Homem?” e, depois de décadas de espera em minha estante, retomo “A Trégua”. São livros, me parecem, obrigatórios à nossa pretensa humanidade. Mas não. Na própria Alemanha estão agora a ulular lunáticos neonazistas.

A revista Piauí de junho publica alguns dos poemas de Levi do livro “Mil Sóis”, traduzidos por Maurício Santana Dias, a ser lançado em julho pelaTodavia. “Così passo il giorno, e fu sera,/ Ma quando fiori in cielo la prima stella…” (Assim passou o dia, e foi noite,/ Mas quando no céu floriu a primeira estrela…) são dois versos do poema “Eram cem” que me bateram na quina.

FESTA LITERÁRIA

Também neste e no próximo mês saem novas traduções de “Apanhador nos Campos de Centeio” (Todavia), de J. D. Salinger, “O Jogo de Amarelinha” (Cia das Letras), de Júlio Cortázar, e “No Coração das Traves”, de Joseph Conrad (Ubu). Três motivos de festa. Três brindes justos.

A GENIALIDADE DO GORDO

Devora-se o segundo e último volume do “Livro de Jô: Uma Autobiografia Desautorizada” (Cia das Letras), escrito por Jô Soares e Matinas Suzuki Jr., como o primeiro: de um fôlego só. Os calhamaços podem ser lidos como imensos esquetes, pois rimos sem parar a cada página. Os autores entretecem a iluminada trajetória artística e pessoal de Jô com episódios do teatro, cinema e TV — a própria história desses meios — com grande fluidez e excelente apreensão dos fatos. O gordo promove um festival autocongratulatório e celebrante de amigos e ídolos (você sabia que ele foi ministro da eucaristia e oficiou a comunhão ao lado de Don Hélder Câmara? Eu não). Não há controversas, dilemas, angústias, brigas. É tudo de bom. Claro, não vamos encontrar nada disso em uma autobiografia, por mais “desautorizada” que seja. Mas Jô, ele e Chico Anysio, são ícones imensos. Honram cada letra do malbaratado substantivo Gênio.


PARA ADULTOS

“Chernobyl”, da HBO, é o melhor da TV em 2019, uma respiro de programa adulto na sufocante atmosfera púbere poluída de vampiros, zumbis, dragões e mil comediotas. Dracarys neles. A série retrata quase à perfeição a desgraça humana que o estado totalitário sempre poderá perpetrar em nome do “povo”. É de gelar o sangue. Os roteiros (tornados públicos) são baseados em “Vozes de Tchernóbil”, da Nobel Svetlana Aleksiévitch, publicada no Brasil pela Cia das Letras.

“Band of Brothers” (2001), também da HBO, novamente disponível na NET, é outra atração para gente grande. Revê-la hoje nos liberta temporariamente da prisão do presente eterno na qual nos meteram o Silicon Valley e seu deus Big Data. O mundo não começou ontem, nos recorda a série, produzida por Tom Hanks e Steven Spielberg, sobre a saga da brigada Easy Company, parte da 101ª Divisão Aerotransportada do Exército dos Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial. Também faz gelar o sangue, e quase literalmente, os dois episódios que retratam as batalhas no terrível inverno das Ardenas, na Bélgica.
 
HINTERLAND


Com “Wallander” já excluído do acervo, “Hinterland” é o que de melhor a Netflix tem para oferecer aos amantes do suspense policial. Acabo de rever as três curtas temporadas pela terceira vez. Me alegra que esta série, incrivelmente desprezada ou despercebida pelos críticos e divulgadores, seja a campeã de audiência do blog. Para alguma coisa a postagem, inteiramente grátis, serviu, leitora e leitor amigo. Faltou falar ali da música incidental de altíssimas qualidade, constituída por sutis ruídos eletrônicos e notas de piano que dosam ou ampliam o pathos da narrativa.



DYLAN INTEIRO

“Let me forget about today until tomorrow” (Deixe-me esquecer o hoje até amanhã), suplica Dylan em “Mr. Tambourine Man”, num dos bons momentos de “Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story”, que estrou no último dia 12 na Netflix. Martin Scorsese recria a turnê meio mambembe do artista em 1975, em caravana formada também por Joan Baez, Joni Mitchell,Roger McGuinn e o poeta Allen Ginsberg, com apresentações em pequenas casas e, às vezes, para públicos inusitados, incluindo um asilo de idosos e uma reserva indígena. Ótima pedida. Besteira contestar o Nobel de Literatura de Dylan, pensei, ao terminar de assistir ao documentário, há bastante poesia em sua obra, contando que deem o laurel também a Chico Buarque, atual Prêmio Camões, com mais merecimento. Por falar em Chico, 75 anos completos em 19/06, mais 17 de seus álbuns chegam nesta sexta-feira (21/06) ao streaming, incluindo os belíssimos “Francisco” (1987), “Chico Buarque” (1989), “ParaTodos” (1993), “Chico Buarque de Mangueira” (1997) e “Chico Buarque ao Vivo – Paris, Le Zenith”, de 1990.
 

A CONVERSA

A conversa civilizada é uma antiguidade na era do WhatsApp. Ler e ouvir com atenção são velharias. David Lynch, creio que foi ele, disse que nossa janela para o mundo vai se fechando enquanto envelhecemos. Deve ser assim, pois está uma falta de graça danada por aí, um tédio só num mundo esvaziado de inteligência, ideias e grande criação. Mas, bem sei, sou um desafinado, e nunca importou que os desafinados também têm coração, hahaha. 

BEM-VINDO

Obrigado por assinar minha Jurupoca. Se puder, me fale sobre suas impressões, aponte erros ou esculhambe, participe, respondendo a este e-mail. Até a próxima.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.