JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
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No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Perder a viagem

Fotografar e não ver

A ânsia de registrar cada momento maquinalmente  e exibi-lo por aí
consome a viagem sem que o viajante o perceba. Perde-se a viagem em mil fotografias. É como se o ganho das férias fosse o olhar do outro, e não nosso próprio olhar sobre o outro e a novidade.


Imagens

A viagem não é só a imagem da viagem. É imaginar, imaginação. A imaginação se faz desde a memória e a memória se faz com a leitura.

A viagem ainda é a vivência e o desfrute da leitura.


Retratar e escrever

“Há dez anos quis ir a Santiago e estive ali, naturalmente, não uma vez apenas, senão muitas, mas ao mesmo tempo nunca havia estado na cidade porque não escrevi sobre ela”, diz Cees Nooteboom no capítulo final de El Desvío a Santiago (Ediciones Siruela).

 

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Uma via do Memorial aos Judeus Mortos da Europa (em alemão: Denkmal für die ermordeten Juden Europas), Berlim (2010). Foto de Antônio Siúves.

O que os guias de viagem não revelam

Guias

Como escolher um guia de viagem e tirar o melhor proveito das melhores publicações do gênero, assim como de outras fontes indispensáveis ao turista interessado em cultura — livros, jornais, internet e o que estiver à mão.  É do que trata o texto abaixo, parte do inédito Livro de Viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural


O QUE OS GUIAS DE VIAGEM DO DR. STRABO NÃO REVELAM

Os guias de viagem do Dr. Strabo vendem como pão quente na Holanda. O Guia da América do Norte e o Guia do Oeste e do Norte da Espanha contam entre dezenas de títulos publicados em centenas de edições e tiragem espetacular. Dr. Strabo é o alter ego e meio de vida do professor de “línguas mortas” Herman Mussert, tradutor dedicado dos poetas latinos Virgílio e Horácio . Do ponto de vista intelectual, Mussert e Strabo são como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se você é apaixonado por Lisboa, como o autor destas linhas, há de ver interesse nesta luta de egos. Acompanhe uma confissão de Mussert:

“Toda a cidade é um adeus. A borda da Europa, a última costa do primeiro mundo, é lá que o continente corroído afunda no mar, se dissolve na bruma infinita que o oceano faz lembrar, hoje. Esta cidade não pertence ao presente; aqui é mais cedo porque é mais tarde. O agora banal ainda não chegou; Lisboa é relutante. Esta deve ser a palavra. Esta cidade protela o momento da partida; é aqui que a Europa diz adeus a si mesma. Canções letárgicas, suave decadência, grande beleza. Memória, adiamento da metamorfose. Nenhuma dessas coisas entraria no Guia de viagem do Dr. Strabo. Eu mando os tolos para as tavernas de fado, para sua dose de saudade processada. Slauerhoff e Pessoa eu guardo para mim, ainda que não os mencione; guio os pobres coitados ao Mouraria e ao Brasileira, para uma xícara de café, e para o resto eu preferiria manter a boca fechada. Não direi uma palavra sobre as mudanças de alma do poeta alcoólico, para a persona líquida, multiforme que ainda percorre as ruas de Lisboa em todo o seu brilho sombrio, que se insinuou invisivelmente em tabacarias, embarcadouros, muros, cafés escuros onde Slauerhoff e ele facilmente poderiam estar juntos, sem saber.”

Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936) é poeta e romancista holandês desconhecido no Brasil. Fernando Pessoa, o enorme poeta dos heterônimos, a quem se voltará neste livro. A passagem acima foi extraída de A Seguinte História:, novela do escritor holandês Cees Nooteboom publicada em 1993 e vencedora do Prêmio Literário Europeu. Além de buscar a “alma” de Lisboa, o texto ilustra de modo original o limite dos guias de viagem. É preciso notar que Nooteboom, que também é poeta e viajante contumaz, escreveu, ele mesmo, diversos relatos de viagem pelo mundo, inclusive um sobre a Bahia, em 1968. Seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel.

Antes de melhor situar o alcance dos guias — como o turista não vive sem este bom serviço —, falemos um pouco deles e de seus complementos.

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Nos fundos da Casa Visconde de Chanceleiros (Sabrosa, Portugal). Foto de Antônio Siúves

Há guias muitos bons. Obrigado à feroz concorrência no mercado de viagens. Os melhores, entre Michelin, Lonely Planet, Time Out, Baedeker, Rough Guide, Frommer’s, Geoguia, Fodor’s e tutti quanti serão os mais atualizados. Neles, você achará, por óbvio, a informação que melhor quadre com seus planos, orçamento, sua curiosidade, suas preferências e seu humor.

A viagem cultural é cultivada pela aristocracia europeia há séculos. Do chamado Grand Tour da nobreza surgiu o embrião dos guias atuais, aí para o final dos 1600. Eram narrativas com observações sobre arte, arquitetura e antiguidades, geralmente dedicadas à Itália. Os guias como os conhecemos, com informação e avaliações estreladas, são da primeira metade dos 1800. (Goethe viaja à Itália apoiado no guia de viagem do historiador e crítico de arte Johann Jacob Volkmann, editado em Leipzig, em 1770).

Um dos mais velhuscos é o alemão Baedeker, que me deu o prazer apenas em 2013, em uma edição em inglês, quando me preparava para viajar à Andaluzia. Karl Baedeker publicou o primeiro livro para excursionistas com seu nome em 1830. O poeta norte-americano e Nobel de Literatura T.S. Eliot “homenageou” o guia no poema Burbank com um Baedeker: Bleistein com um charuto, escrito em Londres, no ano de 1919. Embora se refiram a um judeu, os versos parecem ironizar o gosto burguês pela viagem. É típico do antissemita e nariz- empinado Eliot. Eis duas das estrofes, na tradução de Ivan Junqueira:

Burbank cruzou uma pequena ponte
 E escolheu um hotel de custo baixo;
Volupina, a princesa, ali chegando,
 Uniu-se a ele, e Burbank veio abaixo.

(…)

De um modo ou de outro, assim era Bleistein:
 Cotovelos e joelhos com um vago
Arco alquebrado, as mãos espalmadas,
 Um vienense semita de Chicago.

Guardo dezenas de guias, que ainda vão me servir por muito tempo no que trazem de permanente e vai se repetindo a cada reedição. No Brasil, os estoques das livrarias em geral são limitados. Quanto antes você os encomendar, ou baixar em seu Kindle, melhor, já que alguns títulos terão de vir importados.

Ao planejar meu roteiro, gosto de cruzar avaliações e impressões distintas de três ou quatro guias. Embora a maior parte desses volumes seja escrita por equipes, há sempre um colaborador principal. Ele conhece mais intimamente a cidade ou uma parte da cidade retratada. Percorreu cada bairro, ruela e beco atrás de novidades para agradar você e o patrão.

O Lonely Planet, publicado no país pela Editora Globo, tem excelentes roteiros de Paris. Meus preferidos são os das galerias, mercados e a Volta literária no Quartier Latin. Em um par de horas, avistam-se os apartamentos onde James Joyce, Ernest Hemingway, Paul Verlaine, George Orwell e outros grandes autores do século 20 viveram e produziram suas obras.

O Time Out e o Rough Guide (editado pelo Publifolha) de Lisboa são enxutos e valiosos, como o Frommer’s de Buenos Aires. Da robusta e pesada edição Lonely Planet sobre a Itália, vou aos poucos e sem piedade extraindo os cadernos regionais, conforme minha excursão pela Bota.

Comparando as avaliações do Baedeker e o português Geoguia, ambos importados, pude fazer ótimas escolhas de hotéis na Andaluzia. Uma delas foi a Casa de los Azulejos, em Córdoba, com boas instalações, simpatia, um lindo pátio com jardins e fonte, a preço módico. Avaliações seguem critérios técnicos, mas sempre há um grau de subjetividade quando se conferem pontos, ou uma, duas ou três estrelas. Os juízos do guia alemão e do português são complementares na apreciação que cada leitor possa fazer deles.

Também gosto de mapas. Guardo-os aos montes em caixas e espalhados pela casa. Vão desde mapas da Europa inteira aos pequenos planos de cidades que nos dão nos escritórios de turismo. Como disse no capítulo anterior, prefiro conjugar aplicativos no celular com tecnologias tão boas quanto a roda, como é o livro. Não rejeito tablets e um dia quem sabe até venha “vestir” uns óculos da Google e o que mais se inventar. Mas não me furto ao prazer de usar a caneta colorida para demarcar caminhadas do hotel e endereços dos guias, ou traçar roteiros em um pedaço de mapa aberto na rua ou num café.

Não vejo muita graça no Google Street View. Muito raramente abro essa ferramenta para rever um lugar saudoso, exceto quando indispensável. A visão geral que um mapa nos oferece nos diz muito mais de onde estivemos e iremos. Às vezes lembram os filmes que assistimos e em alguma cena reencontramos uma praia, um bar ou esquina familiar.

Guias

Enquanto folho e refolho os guias, faço incursões na internet. Em geral, confiro, como fazem milhares de leitores, as indicações das reportagens 36 Hours, do The New York Times, que saem nos fins de semana. Tirei dessa abençoada série ótimas dicas sobre o que ver, onde comer e me hospedar. Divirjo de seus avaliadores por vezes, mas os bendigo com mais frequência. Com sorte, à véspera de seu embarque para Hanói ou Chicago, o jornal soltará uma matéria fresquinha sobre uma dessas cidades, ajuizando o que há de mais novo e excitante por lá. Atualizar as indicações dos guias é a melhor serventia de seções como essa.

O jornalão norte-americano mantém uma editoria de viagem (Travel) provavelmente maior que as congêneres dos grandes jornais brasileiros somadas. Além de 36 Hours, publicam-se com regularidade despachos de seus críticos de artes, comida e vinhos.  A leitura do wine writer Isaac Asimov me guiou com grande proveito na Rioja e no Triângulo de Ouro do Jerez; uma reportagem assinada por Gisela Williams, de novembro de 2007, me chamou atenção para a entrada da região do Douro no mapa mundi dos grandes vinhos. (Para fazer justiça: entre minhas fontes sobre terroir, fermentação malolática e otras cositas más figura sempre o crítico brasileiro Jorge Lucki e sua página semanal no Valor Econômico.)

Graças a outro experto do NYT, o colunista Frank Bruni —escritor e jornalista polivalente, antes mandachuva da crítica de restaurantes do jornal — consegui recompensar uma noite a mais em Lisboa, em 2012, depois de problemas com um voo para Roma [leia mais sobre o episódio nos Diários].

Também navego no El País e The Guardian. Estão entre meus jornais favoritos e praticam com grande originalidade o jornalismo cultural voltado à viagem. Um correspondente do jornal britânico me deixou à vontade nas ruas de Logronho, no norte da Espanha, com raríssimos turistas à volta, a conferir o circuito de pintxos (tapas na língua basca, ou euskera) e a concorrência entre os bares das calles Laurel e San Agustín. Valorizo, com cuidado, as indicações do blog El Viajero, do El País. Certa vez, sugeri ao jornalista responsável a correção de alguns erros em um post sobre gastronomia mineira — e fui completamente ignorado: dois anos depois, os erros continuavam na página.

Buscas no Google e nos sites dos jornais pedem método e calma. Se o primeiro nos leva antes ao interesse de seus anunciantes ou ao que — supõem seus algoritmos metidos — sejam os nossos, os últimos empacam com frequência. Procuro associar precisamente meu objeto, por exemplo: NYT+vinhos+Douro+Portugal.

Entro devagar em sites e blogs de viagem. Há muito jabá na área (jabá é jargão entre jornalistas para agrados e propinas regulares oferecidos por empresas e governos). Tal praga, que infelizmente ainda acomete o jornalismo de viagem praticado no Brasil, contamina muito da informação que se põe na rede. [No final do livro há uma relação de endereços confiáveis e outras referências.]

Guias

O Guia de Lisboa do Dr. Strabo, como vimos, não é o livro aberto da alma de Herman Mussert.  Ao comprar um guia, pagamos por informação objetiva e útil. O turista se vale dele para sondar o terreno, fazer escolhas, se planejar. O que faz cada um de nós perceber e experimentar a viagem deste ou daquele jeito — a despeito da beleza dos lugares — está além dele. O viajante conta com o repertório que tem para filtrar ideias e sensações. Cultura e arte são referências significantes, guias internos por assim dizer.

O leitor de Marcel Proust que for a Veneza será tentado a chegar até Pádua, distante apenas 15 minutos de trem da estação Mestre. Nem que seja para dar um pulo à Cappella degli Scrovegni, também chamada Arena, e paquerar os afrescos de Giotto. Além de repassar suas lições de historiada arte, há de se recordar do narrador de Em Busca do Tempo Perdido, nesta passagem do final de A Fugitiva —penúltimo dos sete livros que compõem o romance (a tradução é de Carlos Drummond de Andrade):

“(…) Na véspera de nossa partida, quisemos chegar até Pádua, onde se acham aqueles “vícios” e aquelas “virtudes” cujas reproduções me dera Swann; depois de atravessar, com o sol a pino, o jardim da Arena, entrei na capela dos Giotto, em que a abóbada inteira e os fundos da pintura a fresco são tão azuis que é como se também o dia radioso houvesse transposto o umbral em companhia do visitante, indo por um momento colocar na frescura da sombra o seu céu límpido, apenas um pouco mais escuro porque se desembaraçou dos raios dourados da luz, como nessas pausas breves que interrompem os dias mais claros, quando, sem que se visse qualquer nuvem, e tendo o sol virado sua pálpebra por um instante para mais longe, o azul, mas doce ainda, se obscurece. (…).”

O livrão de Proust pode não ser o melhor exemplo de literatura de viagem, embora a viagem seja um tema caro ao autor. Já os livros de Nooteboom e Sebald misturam memória, relato de viagem e história. Sebald, a propósito, também visita a capela Scrovegni. Está na página 69 de Vertigem outro tipo de perspectiva das pinturas que o turista que for a Pádua pode conferir. Em vez do encantamento que os afrescos do pintor florentino inspiram a Marcel (ou a um grande pintor do século passado: “Encontrei três reproduções de Giotto em Pádua, que envio a você. Giotto é para mim o ápice dos meus desejos” — de uma carta de Henri Matisse, já perto da morte, ao amigo Pierre Bonnard), o que admira o autor alemão, incomodado pelo calor dos infernos, é “o lamento silencioso erguido havia quase sete séculos pelos anjos que pairam sobre a infinita desventura”. Ele ainda observa que “em sua dor, os próprios anjos haviam franzido de tal modo as sobrancelhas que se poderia supô-los de olhos vendados”.

O narrador de A Seguinte História: viaja de Amsterdã a Lisboa e segue então de navio até o Rio Amazonas. Quem refizer o itinerário há de ter Mussert também como uma espécie de guia, apesar dele mesmo. Poderá então casar o gozo da viagem com o da leitura:

 “Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva.”

Em Austerlitz, Sebald deixa o leitor terrificado com a descrição da Centraal Station de Antuérpia e da arquitetura da Salle des pas perdus; espantado com as observações sobre a construção da nova Biblioteca Nacional de Paris; admirado com a descrição das paisagens do País de Gales; contemplativo, ao refazer um trajeto de trem na periferia de Londres ao chegar à Liverpool Station:

“Eu mirava a paisagem plana, quase sem árvores, os enormes campos marrons (…), as hortas, os arbustos desfolhados recobertos de clematites secas que crescem nos taludes (…) a feia visão dos fundos dos prédios enfileirados junto aos quais corre a ferrovia nos subúrbios da metrópole.”

Eu pensei nesta página ao chegar a Londres, quando o Eurostar começava a perder velocidade. A memória do texto me fez sentir, de certa maneira, mais ambientado ao desembarcar em St. Pancras num início de tarde chuvoso.

Bons livros de história começam onde a visão do guia de viagem já não enxerga. Danúbio, do germanista italiano Claudio Magris, acompanha o trajeto do rio europeu da nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. Em cada tópico ou parada, ele repassa as marcas da história e da cultura que vicejaram nas cidades às margens do rio de muitos nomes: Donau, Dunaj, Duna, Dunav, Dunărea, Dunay.

Com erudição, Magris reflete no diário de viagem sobre as marcas deixadas pelas obras de Kafka, Wittgenstein, Freud, Haydn, mas também pelos atos e omissões do carrasco nazista Adolf Eichmann e do Comandante em Auschwitz Rudolf Höss. Lemos o livro como roteiros para esquetes do “teatro do século” daquela civilização intricada. Em Linz, na Áustria, ao retratar o escritor Adalbert Stifter, ele, talvez sem se dar conta, vê a si próprio:

“De 1848 a 1868, ou seja, até sua morte, Stifter olhava das suas janelas para o Danúbio, a amada paisagem austríaca que lhe parecia conter séculos de história que se tornaram natureza, impérios e tradições absorvidos pela terra como folhas e árvores pulverizadas. (…).”

O gênero também está bem representado por A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal. O escritor descreve suas viagens por Londres, Paris, Viena e Tóquio para reconstituir os passos de sua família judia. O pretexto e contar a história dos proprietários de uma coleção de miniaturas japonesas. O turista que viajar a uma das três capitais encontrará grande valor na leitura dessa obra. [Leia mais sobre o livro em Peregrinações culturais.]

Arte e cinema ampliam do mesmo jeito o horizonte do turismo cultural. O observador atento de algumas paisagens de Renoir, Monet ou Pissarro terá uma visão dupla de certos recantos do Sena, ao se distrair em Paris. “É evidente que os olhos se formem em consonância com os objetos que divisaram desde a infância”, diz Goethe, ao refletir sobre a obra de Veronese e concluir que o artista “há de ver com maior clareza e limpidez do que outros homens”.

Ainda em Paris, ao se deixar levar pelas ruas do Marais e, à porta de uma velha escola, deparar a placa alusiva ao envio de seus ex-alunos aos campos nazistas, o cinéfilo talvez tente se apoiar em uma cena de Adeus, Meninos, de Louis Malle. Quando flanar por Roma, em cada esquina vai se ver assediado — e também reconfortado — pela memória de quilômetros de fotogramas rodados naquelas ruas e praças.

Perde-se muito ao zanzar por cidades europeias sem um domínio básico de arquitetura e história da arte. É dar mole à síndrome do viajante infeliz. Para o turista pronto haverá interesses dentro e fora dos museus. Saber identificar e apreciar os artifícios das construções — de ruínas etruscas ou grego-romanas ao arrojo dos prédios de Frank Gehry ou Norman Foster, com o gótico, o renascentista, o barroco e outros estilos a permear os séculos — ajuda a se pensar a ocupação do espaço urbano. Também é uma forma de abordar o ideário dos homens em cada época e compará-lo ao nosso.

O ciclo da viagem é mais rico para o turista que se deixa conduzi pela cultura. Para quem já rodou por livros, quadros e filmes, a vista do Grande Canal de Veneza será ainda mais excitante. Do camarote VIP franqueado por Shakespeares, Canalettos e Viscontis assistirá por um instante ao desfile dos sucessos que eternizaram a Serenissima Repubblica di Venezia. Ondas desbordantes de comércio, guerra,  tragédia, arte, e invenção vão inundar seus olhos.

O interesse cultural pode sim tornar um passeio por ruas de Paris ou Roma uma experiência estética em si. Presente e passado formam uma rede inextricável de vivos e mortos que se estende como por camadas geológicas.

Como diz o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, escrevendo sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 2014, “a Paris de [Patrick] Modiano, como a Dublin de Joyce é uma cidade literal e a metáfora de um estado de espírito”.  O viajante que tenha lido estes e outros autores não se prenderá às aparências. “Os aparecidos e desaparecidos povoam a literatura, e a cidade por onde se movem está igualmente feita de lugares reais e visíveis e outros que já na o existem”, diz Muñoz Molina no mesmo artigo.

Visto dos desfiladeiros das villas de Ravello, no sul da Itália, o mar Tirreno ressoa viagens de Ulisses cantadas por Homero. Estar em Paris, Berlim, Viena, Zurique ou São Petersburgo é um convite e uma oportunidade a considerar a saga marxista narrada por Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia.  Cenas de filmes de Fellini, Rossellini e Scola nos assombram em Roma tanto quanto a presença desconcertante do passado imperial em cada esquina.

A memória abre portas para o turista cultural. Os mapas do Google que nos guiam tornam-se rotas mais intrigantes se as sobrepomos às cartas de portulano que carregamos em nós.

O viajante que se deixa puxar pela memória vai entender melhor o mundo em que se mete — para o bem e para o mal. Pode ser pela glória e pela honra. Pode ser pela culpa ou nódoa que se enraízam na história de um país. A Paris ou a Berlim de hoje — para dizer isso de outra forma — não serão bem conhecidas se não forem ajuizadas na relação que ambas tiveram e têm com o flagelo do Nazismo. Quem percorrer a Espanha sem uma noção das diferenças culturais entre suas regiões autônomas ou a Itália — e não levar a em conta a indisposição entre sulistas e nortenhos — também estará exposto à síndrome do viajante infeliz.

Guias

Leia também: apresentação do livro e fragmentos dos Diários e partes dos Souvenirs: Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença.

Santa María de Naranco (Oviedo, Espanha)

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Era uma manhã ensolarada e fresca de domingo, a primavera nos contagiava com a bacanal da polinização, a semear, além de beleza, excruciantes rinites em organismos combalidos como o do escriba. Galgávamos a pé os outeiros de Oviedo, pelo norte das Astúrias, Espanha, alegres por achegar-nos à igreja de Santa María de Naranco, uma construção assentada naqueles altos há mil anos e pico.

Releio El Desvío a Santiago, de Cees Nooteboom, pouco mais de um ano depois de terminar a primeira leitura. Mais uma vez, me preparo para voltar ao país que mais me seduz, provoca e estimula nesses últimos anos.

Em 2015 não tomei notas de viagem, o que nunca havia feito, por uma infausta circunstância. Repasso agora aqueles dias que, como tiveram que ser, me levaram a escrever dois dos 21 Poemas publicados exclusivamente neste jornal, e o leitor que se interesse por essas linha haverá quem sabe de entender o que tento dizer neste Fisterra (a menina dos olhos cega).

A leitura de Nooteboom, escritor holandês, autor de romances e relatos de viagem — viagem interior e geográfica, na justa definição de Luisgé Martín —, muito lembrado para o Nobel, com um caso de amor pela Espanha, onde tem uma pequena casa de verão na ilha de Menorca, é um aprofundamento em meus preparativos, que além dos guias de toda espécie incluem um interesse cultural permanente pelo idioma e pela história, literatura e política, mas disso creio já tenha tratado aqui.

El Desvío a Santiago se compõe de relatos muito bem amarrados das andanças de Nooteboom pela Espanha desde 1979, interessado na diversidade, na historia complexa e fascinante, na arquitetura das igrejas e mosteiros medievais, na pintura e na expressão das gentes de tantas origens, idiomas e fervores. Ele parte de carro desde Barcelona, onde chega de barco, em direção a cidades, vilas e rincões despovoados da “meseta!” espanhola, visita e revisita paradores, conventos, livros e quadros, com os de Francisco de Zurbarán, um pintor que tanto o encanta, em uma viagem que durará alguns anos, antes que ele regresse a Santiago de Compostela.

Em março e abril de 2015, de volta a Bilbao desde Madri, depois de uma viagem a Barcelona de trem, quando revi debaixo de neve e chuva a deliciosa Rioja basca (Alavesa), a partir da estação de Haro, e depois de visitarmos Pamplona, fomos guiados por amigos através do norte espanhol, quase sempre entre as montanhas e a costa cantábrica e das Astúrias, antes de nos determos uns dias na Galícia.

Ao final daquelas semanas, pude entender mais propriamente o que Nooteboom escreve sobre sua viagem pela mesma região e pelas “Espanhas” (traduzo livremente do espanhol, do meu livrinho de bolso da – Editora Siruela):

“Que desatino que a maioria dos viajantes não vá mais além do formo da costa leste espanhola! Faz trinta anos que viajo por aqui e nunca se acaba. Há todo um continente por detrás dos Pirineus. É preciso de anos para alguém desenterrar, descobrir e refletir sobre o conjunto de países misterioso, oculto, desconhecido, com sua própria história, suas próprias línguas e tradições.”

Desde nosso hotel na cidade portuária de Gijon, conhecemos a pequena e oculta Ribasella e a não menos pequena e intrigante, mas reafeiçoada ao turismo, Cudilello. Ao reler as páginas de Nooteboom, como disse, retomo aqueles dias desfrutados nas Astúrias e minha leve ansiedade por chegar a Santa María de Naranco. Deixo-me guiar nessa revivência pelo autor do relato.

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Nooteboom se hospeda em Oviedo, bebe sidra, come fabada, gosta dos lugares “agradavelmente escuros”, visita a catedral e celebra os tesouros que vê e que a maioria dos turistas que passeia pela Espanha desconhece, mas registra que o melhor o esperava nas colinas da cidade, quando encontra

“… uma das mais antigas igrejas cristãs que ainda existem, Santa María de Naranco, construída sob o reinado de Ramiro I (842-850) como aula regia, ainda durante sua vida habilitada como igreja. Em estas colinas há duas igrejas muito perto uma da outra, da mesma época, ambas do pré-românico, o estilo asturiano.

“Ainda é cedo quando o guia me deixa passar a Santa María. Há véus de nuvens sobre o vale e Oviedo jazz na lonjura. A construção é alta e dá impressão de uma elegância ligeira e extrema, apesar dos grandes blocos de arenito com que foi construída, toscos e desiguais. Que classe de reis eram esses? De onde tiravam os modelos para suas construções? A decoração faz pensar que é de Roma, a graça ligeira das duas fachadas abertas ri-se da obscuridade da Idade Média, e de fato não conheço nenhuma construção igual a esta. Abaixo estão os quartos de banho “para a guarda”, onde as dependências são mais bem fundadas e sólidas, mas acima, aonde só se pode chegar por uma escada exterior, no lado norte, tudo é, como o guia tão belamente diz, diáfano. E ele tem razão. O edifício é de pedra, mas de pedra diáfana, a luz e o ar podem atravessá-la e nele também se transformam, se veem afetados, e esta troca comove o visitante, que se encontra durante um tempo em outro tipo de luz, em outro ar e se torna meditativo, mas a um tempo eufórico, alegre e jubiloso pelas coisas que seguem existindo para contar algo (…).”

Essa passagem me fez recordar o prazer de sentir na palma da mão as paredes, alisar as colunas delgadas e os muros da construção. À maneira de Nooteboom, tento restituir o uso do edifício antes (conforme o guia nos disse, possivelmente como galpão de caça) e depois de ter sido convertido na linda igreja, e reter algo do abismo do tempo, da fé e dos anseios de quem entrou e saiu daquelas dependências há mil e tantos anos. Uma experiência como essa é o verdadeiro alimento da viagem, da viagem que me interessa.


Leia também, caso tenha apreciado este post: O que os guias de viagem não revelam — Ou um guia dos guias de viagens no turismo cultural.

Inverno no Rio com Aylan no colo. Vejo Francis, leio Nooteboom, procuro Ferreira Gullar. História sem vida

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rio frioPreso no túnel de Botafogo, observo faixas de luz vermelho e verde na abóbada. Penso no Natal neste começo de setembro frio, esta tarde. O mar em Copacabana parecia mais distante de manhã, lá pela linha do cinza que recurva o horizonte para além da areia encardida. É quinta-feira, dizia o jornal de manhã; era quinta-feira quando havia a página de Paulo Francis, a preencher o dia, a consolar a inteligência, a confortar o caráter de quem lia. Mas tudo é tão diverso, mas tudo é tão igual, mas tudo é tão sem nexo e sem música agora, penso, seco por dentro. Tenho Dia de Finados na bolsa de pano azul com tiras em roxo e um personagem de Cees Nooteboom diz a outro: — Onde alguém lê jornal, você lê história, leio no café da República do Peru. Para você um jornal vira logo mármore, eu acho. O que é um absurdo! E assim você simplesmente se esquece de viver. Sabedor de que a vida não tem explicação, cruzei antes a Duvivier desde o Copa. Não vi o poeta Gullar. Alhures, Ferreirão, no dizer do Roberto, receberá outro prêmio, outra carimbada oficial merecida. Mas, não, não era isso. Fecho o livro e a caderneta. Hoje uma única e outra e mesma praia do mundo convoca o olhar de quem enxerga um palmo à frente do nariz. Na praia turca, o pequeno Aylan jaz desde sempre nos braços paternos de um guarda. Porque hoje é quinta-feira e estou no Rio de Janeiro, alheio, meio perturbado. A alienação, como a impotência, como o acaso, é imune à inflação cósmica, desde o Big Bang.