Perder a viagem

Fotografar e não ver

A ânsia de registrar cada momento maquinalmente  e exibi-lo por aí
consome a viagem sem que o viajante o perceba. Perde-se a viagem em mil fotografias. É como se o ganho das férias fosse o olhar do outro, e não nosso próprio olhar sobre o outro e a novidade.


Imagens

A viagem não é só a imagem da viagem. É imaginar, imaginação. A imaginação se faz desde a memória e a memória se faz com a leitura.

A viagem ainda é a vivência e o desfrute da leitura.


Retratar e escrever

“Há dez anos quis ir a Santiago e estive ali, naturalmente, não uma vez apenas, senão muitas, mas ao mesmo tempo nunca havia estado na cidade porque não escrevi sobre ela”, diz Cees Nooteboom no capítulo final de El Desvío a Santiago (Ediciones Siruela).

 

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Uma via do Memorial aos Judeus Mortos da Europa (em alemão: Denkmal für die ermordeten Juden Europas), Berlim (2010). Foto de Antônio Siúves.

Inverno no Rio com Aylan no colo. Vejo Francis, leio Nooteboom, procuro Ferreira Gullar. História sem vida

Vídeo

rio frioPreso no túnel de Botafogo, observo faixas de luz vermelho e verde na abóbada. Penso no Natal neste começo de setembro frio, esta tarde. O mar em Copacabana parecia mais distante de manhã, lá pela linha do cinza que recurva o horizonte para além da areia encardida. É quinta-feira, dizia o jornal de manhã; era quinta-feira quando havia a página de Paulo Francis, a preencher o dia, a consolar a inteligência, a confortar o caráter de quem lia. Mas tudo é tão diverso, mas tudo é tão igual, mas tudo é tão sem nexo e sem música agora, penso, seco por dentro. Tenho Dia de Finados na bolsa de pano azul com tiras em roxo e um personagem de Cees Nooteboom diz a outro: — Onde alguém lê jornal, você lê história, leio no café da República do Peru. Para você um jornal vira logo mármore, eu acho. O que é um absurdo! E assim você simplesmente se esquece de viver. Sabedor de que a vida não tem explicação, cruzei antes a Duvivier desde o Copa. Não vi o poeta Gullar. Alhures, Ferreirão, no dizer do Roberto, receberá outro prêmio, outra carimbada oficial merecida. Mas, não, não era isso. Fecho o livro e a caderneta. Hoje uma única e outra e mesma praia do mundo convoca o olhar de quem enxerga um palmo à frente do nariz. Na praia turca, o pequeno Aylan jaz desde sempre nos braços paternos de um guarda. Porque hoje é quinta-feira e estou no Rio de Janeiro, alheio, meio perturbado. A alienação, como a impotência, como o acaso, é imune à inflação cósmica, desde o Big Bang.