Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Wim Wenders e aprendendo

O Sal da Terra leva alguém a reconsiderar
a obra de Sebastião Salgado de um jeito ou de outro

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders Divulgação

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders. Foto: Divulgação

O título desta nota não é meu e já lhe dou crédito, mas digo que também tenho aprendido alguma coisa com o cineasta alemão. E quem não tem?

Quem não se enriqueceu com a música e a cultura de Cuba revividas em Buena Vista Social Club, de 1999?

Qual o cinéfilo não preza algo da extensa filmografia do diretor de O Amigo Americano?

Ontem, com mais de dois anos de atraso, vi O Sal da Terra, documentário sobre Sebastião Salgado co-dirigido por Wim Wenders e o filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, lançado em março de 2014.

Devo a esse filme uma visão mais rica de Salgado e sua obra.

É que, por preguiça e ignorância, releguei seu trabalho monumental a um plano secundário e o critiquei de maneira um tanto apressada e vã, ou, dizendo de outra forma, para atenuar um pouco esta autocrítica, com mais intuição que observação e leitura.

Não é que tenha me tornado seu fã, literalmente da noite para o dia. Devagar.

Wenders e Juliano Ribeiro fizeram por assim dizer uma hagiografia de Salgado. Tentaram transformá-lo num herói do nosso tempo, um artista e fotojornalista que realizou o prodígio de abrir os olhos do mundo para o êxodo humano, o genocídio na África, o trabalho duro em escala planetária ou as maravilhas que restam na natureza ameaçada pela catástrofe, alguém que, rico e famoso, dedicou-se a regenerar as terras desmatadas de sua família e transformou essa iniciativa numa causa social.

Em O Sal da Terra não cabem análises críticas à estética fotográfica ou à trajetória do militante de esquerda da Ação Popular que, fiel às suas convicções ideológicas, se tornou uma celebridade milionária com residência em Paris. O espectador interessado ou curioso sobre técnica fotográfica também fica a ver navios.

Mas o documentário, com fluidez e beleza, consegue nos dar um panorama razoável da carreira, um perfil e um retrato familiar de Salgado, ainda que, insisto, sempre com grande benevolência. As cenas sobre as realizações do Instituto Terra, em Minas Gerais, são especialmente comoventes.

UM ENSAIO DO BALACOBACO

Graças ao filme, procurei me aprofundar um pouco no assunto.

Li partes de uma reportagem de Dorrit Harazim sobre o trabalho de Salgado, incluída em seu livro que chega às bancas, O Instante Certo (Companhia das Letras), e um ensaio do balacobaco: Sebastião Salgado, um homem de contradições, de Francisco Quinteiro Pires, publicado na Zum #8, revista de fotografia do IMS, em abril do ano passado e disponível na internet.

Harazim preenche os vazios do documentário sobre os aspectos técnicos do trabalho do fotógrafo, com minúcias que tratam de câmaras, filmes, logística, métodos e habilidades de Salgado para se aproximar de quem fotografa, além de trazer um desfile de opiniões e depoimentos sobre a obra do autor.

Quinteiro Pires explora a outra metade dos vazios apontados em O Sal da Terra. Seu ensaio faz um levantamento extenso e cuidadoso da crítica à obra e ao engajamento artístico, jornalístico e ideológico de Sebastião Salgado, seja a de autores que a enaltecem, seja a dos que a procuram desconstruir.

Sebastião Salgado Divulgação

Sebastião Salgado diante de uma das edições de “Gênesis”. Foto: Divulgação

Não vou me deter aqui na visão favorável, muito bem representada, à qual recomendo que se conheça no ensaio da Zum e é igualmente importante a quem se interesse por fotografia e e pelo fotógrafo. De resto, essa é a perspectiva dominante dentro e fora do Brasil.

REVERÊNCIA E COMPOSIÇÃO TEATRAL

Prendo-me ao olhar desfavorável porque suas alegações me parecem mais pertinentes e em melhor sintonia com o que eu mesmo sinto e penso, enquanto revejo o livro Êxodos para escrever esta nota.

O ensaio de Quinteiro Pires recorre, por exemplo, à jornalista Susie Linfield, que considera Salgado “muitas vezes reverente em relação ao que ele fotografa”:

“Suas imagens agradavelmente em preto e branco são compostas com muita minúcia, são dramaticamente teatrais e apresentam um uso da luz semelhante ao da pintura”.

E ainda, citando Linfield e seu livro The Cruel Radiance: Photography and Political Violence, de 2010, em referência à doutrina soviética para as artes contraposta às expressões “burguesas” do modernismo:

“É verdade que as fotografias de Salgado podem sugerir um tipo de romantismo nostálgico que relembra o realismo socialista.”

Em seguida, o texto repassa vários autores, entre eles Susan Sontag e Martha Rosler, os quais, logo que Salgado ganhou fama, nos anos 1980, classificaram sua abordagem como a de um “esteta”, de “alguém preocupado acima de tudo com os elementos harmoniosos e belos da fotografia” e a “estetização do sofrimento”.

A Zum também compila a sarrafada com o título Boas Intenções dada por Ingrid Sischy na revista The New Yorker, em 1991. Para a autora, o fotógrafo brasileiro era um obcecado pela “composição de suas fotografias: interessava-lhe, sobretudo, achar ‘a graça’ e ‘a beleza’ nas ‘formas distorcidas de seus retratados agoniados’”:

Sischy preferiria o ponto de vista de Walker Evans (1903-75), conhecido por seu trabalho sobre a Grande Depressão, feito para a Farm Security Administration (órgão do governo norte-americano) (…). Ao contrário de Salgado, Evans não seria nem didático nem sentimental ao fotografar pessoas desfavorecidas, que na obra do brasileiro seriam “cuidadosamente compostas à semelhança de naturezas-mortas”. “E o embelezamento da tragédia resulta em imagens que, ao fim e ao cabo, reforçam nossa passividade em relação à experiência que elas revelam”, escreveu Sischy. “A estetização da tragédia é o caminho mais rápido para anestesiar os sentimentos daqueles que a testemunham. A beleza é um chamado para a admiração, não para a ação.” Sischy reclamou do culto a Salgado, um fotojornalista a cujo trabalho se atribuiria um poder transformador sobre noções classistas, raciais e étnicas.

As contradições de Salgado como militante de esquerda que nunca abandonou suas convicções e a desenvoltura com que trabalhou para grandes empresas, incluindo Silk Cut (cigarros), Le Creuset (panelas), Volvo (carros), Illy (café) e a brasileira Vale, gigante da mineração, que patrocina seu livro Genesis, no qual denuncia o aquecimento global, e que também apoia seu projeto de reflorestamento da Mata Atlântica.

Na campanha para a Illy, iniciada em 2002, Salgado visitou oito países (…) para fotografar os cafeicultores e a produção de café. “Em vez de se apresentar como uma promoção do café da Illy, o site da campanha declara ser o resultado de uma homenagem conjunta da Illy e de Salgado aos cultivadores de café”, escreve Nair [Parvati,] em A Different Light. [A Different Light: The Photography of Sebastião Salgado (2012)].

“Salgado usa a fotografia para promover a sua visão de mundo, que é planetária e panorâmica. E o resultado é o seguinte: o maior crítico dos impasses globais gera lucro”, resume essa autora.

Feitas as críticas, insisto que devem ser contrapostas ao que dizem os críticos que defendem as escolhas do fotógrafo. Além disso, é preciso reconhecer que a obra de Sebastião Salgado tornou-se uma referência planetária e, em muitos sentidos, nos é essencial para compreendermos as transformações do mundo nas últimas décadas.

Como diz  um leitor da Zum na área de comentários do site, “o trabalho dele é mais um ganho para a humanidade, e não uma perda”.

Quanto ao trocadilho esperto do título, devo-lhe ao jornalista, hoje executivo da Companhia das Letras Matinas Suzuki Jr., em um texto seu na Folha de S.Paulo, quando era editor da Ilustrada, creio que ainda no final dos anos 1980, e possivelmente falando de Paris, Texas, longa-metragem de Wim Wenders rodado nos Estados Unidos.

O jornalismo no cinema e o cinema na profissão

Filmes sobre jornalismo na última safra de Hollywood,
Todos os Homens do Presidente e a vida real
de quem escolheu a profissão, lá e aqui

cinema e jornalismo

Há mulheres sortudas, que são ricas, lindas e talentosas. E há Cate Blanchett, que está muito bem, mais uma vez, como a produtora de TV americana Mary Mapes, em Conspiração e Poder, título tapuia para o filme Truth (Verdade), do diretor James Vanderbilt, que vi ontem à noite, afinal.

Robert Redford, excelente no papel, faz o lendário apresentador Dan Rather nesta história que, numa palavra, trata da responsabilidade envolvida em cada ato do fazer jornalístico.

Não é um filme tão bom quanto Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy. Mas ambos ficam anos-luz de distância de Todos os Homens do Presidente, que pretendo assistir logo mais, pela, sei lá, 19ª vez, e tenho na conta de a mais elevada referência neste gênero ou subgênero.

Será um descanso atravessar uma narrativa de cinema sem o ritmo frenético do videoclipe, sem flashbacks a cada verbo colocado no pretérito, sem a concessão habitual instaurada pela ação, o videogame e outros gêneros infantis e imbecilizantes.

Aliás, a própria crítica se infantilizou. Dou apenas um exemplo. Em A Metafísica de Miami Vice, ensaio publicado em Serrote,  Antônio Xerxenesky tenta mostrar que o filme de Michael Mann é uma obra-prima em múltiplos sentidos e, inclusive, uma revolução estética na cinematografia.

Todos os Homens do Presidente, eu dizia, pode ser visto hoje, de certo modo e, quem diria, como o resgate de um cinema mais afeito ao tempo humano, aos nossos olhos e ao espírito.

Como todo mundo sabe, a imprensa e o jornalismo sempre fascinaram Hollywood. Não podia ser diferente numa democracia na qual a liberdade de expressão é pedra fundadora.

Logo, cada crítico, fã e jornalista que prepare sua lista pessoal. Abomino listas, mas creio que A Montanha de Sete Abutres (1951) de Billy Wilder, e Todos os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula, deveriam pintar em qualquer rol.

Robert Redford e Dustin Hoffman são Bob Woodward e Carl Bernstein, repórteres do Washington Post que constroem —com árduo esforço e exigidos pelos altos padrões do diretor do jornal, o mítico Ben Bradlee  (Jason Robards)— a apuração que estouraria no escândalo de Watergate e na deposição de Nixon.

Demonstram grande esforço mas também grande entusiasmo e evidente prazer.

O filme retrata muito bem o ofício exercido com ética e liberdade, cumprindo com louvor seu papel numa democracia. A reconstituição da rotina no métier de um grande jornal foi levada à perfeição. Basta dizer que até o papel amassado no lixo, onde iam parar tantas laudas batucadas em vão pelos jornalistas naquele tempo, foi trazido da redação do Post.

Desgraçadamente, um em mil jornalistas que escolheram essa profissão terá a chance de estar, na dita vida real, em uma posição que lembre de longe o trabalho de Woodward e Bernstein.

No Brasil, a história será ainda mais triste. Talvez um em dez mil jornalistas que jorram anualmente das universidades conseguirá, de fato, simplesmente ser jornalista em um jornal de verdade, ou ter um gosto verdadeiro da atividade.

Os outros viverão, quando muito, uma fantasia, e terão um gostinho de cinema.