Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Jurupoca #6

ÚMERO 6 — SETEMBRO, 13 2019


“Deus é um roteiristas medíocre, quase cinquenta anos de existência me levaram a essa convicção, e da maneira geral Deus é um medíocre, tudo em sua criação tem o selo da imperfeição e do fracasso, quando não da pura e simples maldade, claro que há exceções, necessariamente tem que haver, a possibilidade deve subsistir nem que seja como isca, enfim, estou divagando, voltemos ao meu tema, que sou eu mesmo, não que seja especialmente interessante, mas é o meu tema.

Michel Houellebecq em Serotonina, p. 123-124, Alfaguara, 2019. Grifo do original.


“Não sou só um cachorro, também sou seu autor e todos os que me contemplam, pois sou antes de tudo pintura, já que sem ela eu não existiria!

Fecho do ensaio O cão de Goya, de Antonio Saura, Serrote # 27, 2017Goya, Perro semihundido, 1820-24. Óleo transferido de mural para tela. Museo Nacional del Prado, Madri.

Opa. Vamos apear?

Há 200 anos, Goya mudava-se para a Granja del Sordo,
onde iria pintar o que há de mais soturno na arte espanhola

Cada um de nós pode ter um pequeno museu particular na teia neuronal. Tenho cá o meu, e é ele que se abre e me visita, ao léu, não o contrário.

Algumas das Pinturas negras de Goya, por exemplo, tomam amiúde essa iniciativa. Iluminam-se de repente e se insurgem. Pedem que as veja para que eu me recorde, emende, reconheça, ou apenas tente compreender que o jogo entre luz e trevas é uma constante no mundo.

Penso agora no Perro semihundido (Cão semiafundado), velho camarada, como se verá, e no Duelo a garrotazos (Duelo a bordoadas), obras que copiei do Museu do Prado sem que percebesse.

Como todo mundo sabe, as Pinturas negras foram retiradas das paredes da Quinta del Sordo, uma casa de campo nos arrabaldes de Madri, e remontadas em tela.

Francisco de Goya y Lucientes (1746-1828) obtém a escritura dessa chácara do surdo, pela qual desembolsara 60 mil reales, e muda-se para lá em 1819, há 200 anos portanto.

O pintor andava realmente surdo, fraco e, como homem de valores liberais, triste com os rumos da política reacionária de Fernando VII. No ano seguinte ele começaria a pintar a série mural da casa.

O que talvez nem todo mudo saiba, eu não sabia antes ler a biografia de Robert Hughes (Goya, Companhia das Letras, 2007), me preparando há alguns anos para uma viagem a Madrid, é que sob a noite fria da série aterrorizante de pinturas havia luz e calor.

Estudos radiográficos revelaram paisagens “luminosas e líricas”, diz Antonio Saura (já chego a ele), “tendo o pintor transformado abruptamente essa amável companhia num espaço de terror e de pesadelo”.

Conforme Hughes, era “relativamente pastoral” o tema das pinturas originais, criadas para decorar e embelezar a casa. Sob o canibal Saturno devorando o próprio filho, por exemplo, encontrava-se uma silhueta dançante com um pé erguido.

Hughes especula se as imagens da Quinta del Sordo possam ser entendidas como “protestos contra o absolutismo vacilante e injusto” que reinava na Espanha.

Mas dificilmente Duelo a bordoadas e, ainda menos, Perro semihundido, seriam apenas representações políticas. Vão muito além disso.

Para o crítico australiano, “o anseio aterrorizado daquele cachorro por segurança e por seu dono ausente é a miséria do homem num mundo sem consolo do qual Deus se retirou. Não sabemos o que significa, mas seu pathos nos comove a um ponto inenarrável”.

O melhor texto que pude ler sobre o cão de Goya é o ensaio do artista espanhol Antonio Saura (1930-1998), publicado originalmente em 1996 e traduzido na Serrote #27 (2017), com ilustrações do próprio Saura — a séries Retratos imaginários de Goya e Cães de Goya, compostas ao longo de quase quatro décadas.

Esse autor produziu uma investigação profunda, crítica e metacrítica, filosófica e pictórica sobre o Perro semihundido. O ensaio tem como epígrafe Emily Dickinson: “A dor se parece com um grande espaço.”

Ele diz que as Pinturas negras são o que há de “mais assombroso” em toda a arte espanhola, “e um dos exemplos de expressividade mais significativos e extremos da história da arte, antecipando-se de forma magistral a conceitos expressivos que só no século seguinte se manifestarão de verdade”.

O conjunto de pinturas da Quinta del Sordo não se destinava a mais ninguém que não o próprio Goya, ajuíza Saura. “São uma ilha na história da arte: não se coadunam sequer com a arte pela arte, mas com a arte para si mesma. Forma destinadas exclusivamente ao seu próprio destino”, define, acrescendo que são “libertárias porque não haviam sido condicionadas pelo juízo alheio nem destinadas a ser julgadas, admiradas e entendidas”.

O artista-ensaísta revela um fôlego prodigioso ao percorrer talvez mais de 20 interpretações distintas e conflitantes sobre o mistério do cachorro perdido. Como vemos o animal no quadro?

Encoberto por um barranco, talvez atolado na areia movediça, quem sabe a imergir na lama ou num rio, contraposto a um espaço infinito entre amarelo e dourado, tem a cara erguida, sutilmente virada à direita da tela, e o olhar melancólico dirigido a alguma coisa que surge ou se esfuma no céu.

“(…) é evidente o espírito subterrâneo que é ao mesmo tempo racional e anima essas pinturas dominadas por uma reflexão melancólica sobre a existência e o aniquilamento provocado pelo tempo”, diz Saura numa passagem, enquanto percorre a, por assim dizer, fortuna crítica das Pinturas negras, detendo-se no quadro do cão.

Passo ao largo da análise puramente plástica e pictórica do quadro elaborada por Antonio Saura para destacar algumas das análises a que o autor recorre para enfrentar os mistérios que cercam o Perro Semihundido.

Priscilla E. Muller contesta os intérpretes que veem o cão como a representação do animal a proteger seu dono, baseados no fato de que a imagem original ficava na parede contígua ao quarto do artista na Quinta del Sordo, ou mesmo Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada do mundo dos mortos.

Nesse caso, crê-se que Goya, decrépito, se sentia mais pra lá do que pra cá. A autora prefere pensar que a expressão do cão, com seu olhar um tanto desorbitado, denuncia para quem a vê uma aparição, um testemunho. “Essa aparição poderia indicar uma forma de despertar, um reencontro com a luz da realidade para dissipar as horrendas criaturas engendradas pela escuridão no abandono da razão e da inteligência.”

Para Diego Angulo, a chave para as Pinturas negras é Saturno, em seu duplo significado de deus da melancolia e da morte. Ele se pergunta se o próprio Goya na velhice não teria consciência de estar sob seu domínio ao conceber as pinturas da sua casa e a maioria de suas gravuras.

A melancolia é regida por Saturno, me ensinou Moacyr Scliar em “Saturno nos Trópicos” (Companhia das Letras, 2003). Soturno, corruptela de Saturno, é o ser melancólico. Saturno no corpo humano rege o baço, sede da bile negra.

Historiador da arte e um ex-diretor do Prado, Angulo diz que o cão nos leva a tocar o “triunfo sombrio” e “a vitória da ignorância sobre a ilustração”, o que é grandemente evocativo sobre o mundo em 2019.

“É a ideia da fatalidade da morte que, unida à barbárie humana, inspira o Duelo a bordoadas e o Cão condenado a morrer enterrado na areia”, escreveu.

O quadro em essência é uma obra mediúnica, “na qual a imaginação do pintor toca sutilmente para ressuscitar com angústia formas perdidas nas trevas através do Gênese”, interpretou André Malraux. Saura elege esse ensaio do autor de A condição humana como o mais bonito já publicado sobre Goya.

Para quem ou o que olhará nosso cão? Não se sabe. Trata-se, pode até ser, de um ato de “devoção associado ao sentimento de fidelidade”, considera o historiador da arte alemão Fred Licht, para quem essa pintura é a mais “eloquente e surpreendente do conjunto”; quem sabe o animal ainda espera que seu dono regresse?

O fato é que está perdido e sem salvação. Este ensaísta considera a cena “uma espécie de intriga em suspenso, uma eterna e fútil esperança como única função vital no vazio.”.

O filósofo, poeta e novelista italiano Guido Ceronetti entendeu que “na súplica percebida na imagem manifesta-se uma visão da condição humana que nenhum paradoxo teológico, nenhuma luz metafísica poderia pacificar, já que só expressa solidão, privação e necessidade.”

É a imagem de nós mesmo, diz Saura, para completar a citação desse escritor, “e essa areia, ou essa outra coisa em que o cachorro está afundando, é a vossa casa, a vossa cidade, a vossa indigesta história nacional, o mundo, a esfera da vida, o sistema solar, a vida e o sonho da vida. Como eu poderia esquecer esse olhar canino, tão pequeno dentro do imenso furor das Pinturas negras, se é o meu próprio olhar?”

Já Artur Lundkvist, escritor e crítico literário sueco, opina que talvez Goya tenha visto a si mesmo, ou uma pessoa qualquer, no destino do cão, “sem esperança nem possibilidade de salvação.”

Pois o jornalista e historiador norte-americano Richard Schickel vai nessa mesma linha, mas direto ao ponto, ao expressar o que andará pelo coração de quem contemple este quadro:

“Não podemos deixar de pensar que é talvez o último autorretrato de Goya, e nele o artista teria representado, mais que sua pessoa, seu espírito se debatendo com uma energia voluntariosa para escapar da submersão final.”


O que leva um artista a “decorar” o interior de sua casa com cenas mortificantes como as Pinturas negras? Justamente, eis a pergunta que fascina biógrafos de Goya e os críticos de arte que se enfronharam nessa inestimável herança da humanidade. O ensaio de Antonio Saura nos dá um amplo panorama de toda essa busca.

Imagino que o privilegiado que rompesse o retiro do artista e visitasse a quinta podia lembrar-se da frase que Dante esculpiu na porta do inverno: “Renunciai a qualquer esperança vós que entrais”. Não há esperança, não há consolação. É isso aí.

Ao escrever um post no JS, há alguns anos, já no final do texto recebi a visita de Goya, quero dizer, de uma obra do pintor.

A tela se iluminou numa projeção desde o museu do eu, de que falava no primeiro parágrafo. O cão se aproximou de mansinho e se colocou ao meu lado.

Compungido, me confessei, nas raias da autoficção. Três anos depois, tive que atualizar aquele registro confessional com uma entrada no diário, como se segue.


Trecho do post de 25.jul.2016

Entre e o verão e o outono de 2015, a morte partiu minha família. Cúmulos-nimbos da Indesejada se fixaram em nosso céu com a nitidez de um quadro de Goya. Diante do céu que se instalou entre nós, sou o cão de Goya, a indagar inutilmente as sombras que se formaram. Tenho dois irmãos vivos. Outros dois nos deixaram quase ao mesmo tempo: Alfredo, que contava 64 anos, a 16 de abril, em consequência de um AVC hemorrágico que o desfez durante uns 70 dias num leito hospitalar; um mês antes, aos 61 anos, Edna Marta, não sabemos bem por que nem de quê.  

Entrada do diário de 27.jan.2018 (noite, breve atualização)

O cão de Goya, então, mais que um visitante inopinado, hoje vigia minha insônia. Anteontem, o céu oscilava repartido entre o azul, o cinza e o amarelo.

Esperava há algumas horas no interior de um hospital na horrível periferia de Nova Lima, ou nos aforas de Belo Horizonte, dá igual, onde a presença humana conseguiu luxuosamente, ao peso de milhões, destruir toda a harmonia da paisagem natural.

Por volta das três da tarde, um médico intensivista com o avental verde em desalinho e a máscara abaixada no queixo nos chamou e nos conduziu a uma saleta já dentro do CTI.

Esperamos cerca de meia hora, como se tivessem nos transportado para um planeta inóspito, antes que o doutor se dignasse a retornar para comunicar o que sabíamos. Cansado de esperar, andara até onde estava o corpo, submetido a cuidados terminais.

A luz de Joviano tinha se apagado, seu organismo não suportara a progressão fulminante de uma infecção que os médicos não conseguiram diagnosticar nem controlar. Estava há poucos dias de fazer 69 anos.

Pues mi perrito, cariño, lo sabes. Pero hasta aquí todo bien.   

Bordoadas

“Duelo a bordoadas”, pintado no mesmo andar da quinta na qual ficava o Perro, mostra dois homens com roupas velhas e barrentas chafurdados numa disputa feroz que só terminará na morte de um deles ou de ambos.

Estão rente à tela, um tem o rosto ensopado de sangue, outro ergue o braço para se defender de um golpe. O cenário, de uma luz crepuscular e fria, lembra os ermos das terras de alguma fazenda. Por que se batem? Nunca saberemos.

“Mas alguém que olhasse para esse quadro em 1820 poderia muito bem relacioná-lo com o sofrimento generalizado na Espanha” — escreve Hughes — “com aquele mundo homicida de liberales e de Anjos Exterminadores, em que alguns homens massacravam outros atrás do muro da cidade ou do chiqueiro por causa de sua lealdade a um rei absoluto mas imprestável.”

Por outro lado, ele considera, entre outras linhas de interpretação, que talvez Goya “quisesse apenas criar uma imagem de agressão masculina irracional, autoprogramada”.

Goya nos dá o que pensar ainda agora. A praça pública planetária das redes sociais ecoa todos os vícios da democracia e suas virtudes mais estreitas. Os participantes confortam-se em ditar juízos, bordoadas, não almejam consensos nem clamam pela verdade, além da própria.

Mas será que isso tem importado de fato à humanidade, ao menos a quem tentar ler pensar? O deslumbramento reinante me leva a crer que não.

Na Quinta del Sordo, Goya — repetindo Antonio Saura — praticou a arte para si mesma. Mas não é assim que muitas das grandes obras perduram, encantam e intrigam geração após geração? Talvez seja esta, sim, a melhor chave para sempre voltarmos as Pinturas negras.


Goya, Duelo a garrotazos, 1820-4. Óleo transferido de mural para tela. Museo Naconal del Prado, Madri.

SELFISMO, NARCOSE NARCÍSICA

Narciso vem de narcose, entorpecimento, diz Marshall McLuhan, ao associar o mito à ideia fundadora dos meios de comunicação como extensão do homem, título do seu livro de 1964, traduzido no Brasil por Décio Pignatari.

Narciso “havia-se adaptado à extensão de si mesmo e tornara-se um sistema fechado.” O canadense, proclamado pela revista Wired o “santo padroeiro da era digital”, mostra que Narciso não está vidrado por si mesmo, mas sonado, baratinado pela própria extensão, como ficam os dependentes de selfies.

“E não deixa de ser um sintoma bastante significativo das tendências de nossa cultura marcadamente tecnológica e narcótica o fato de havermos interpretado a história de Narciso como um caso de autoamor e como se ele tivesse imaginado que a imagem refletida fosse a sua própria!”, ele escreveu há uns 60 anos.

Surge uma nova tecnologia midiática e seus gadgets, e a pessoa se perde, fascinada, fora de si. A imagem usada por McLuhan é a da autoamputação. A mania ou o vício selfístico, se me dão licença, tem a ver com isso.

A pessoa não se percebe à mercê da técnica e do aparato. Daí pode ocorrer que não consiga ver mais nada, quadro, pintura, paisagem, nem ler em profundidade. Como o viciado que toma sua dose de crack, o selfista (se me dão licença de novo, prometo não abusar) vai tentar se satisfazer com a próxima selfie, a próxima autoimagem captada e disparada nas redes para seu autodeleite, que afinal não é tão deleitoso assim.

McLuhan também emprega a imagem do luto, quando perdermos alguém da família e nos sentimos amputados em nosso ser. E recorda o “salmista hebreu” (Salmos 115: 23-8) na passagem sobre o idólatra de ouro e prata que se transforma no objeto idolatrado.

Nas palavras de McLuhan,


“O homem de uma sociedade letrada e homogeneizada já não é sensível à diversa e descontínua vida das formas. Ele adquire a ilusão da terceira dimensão e do ‘ponto de vista pessoal’ como parte de sua fixação narcísica, excluindo-se assim da consciência de um Blake ou do Salmista, para os quais nós nos transformamos naquilo que contemplamos.”  

INFERNO NARCÍSICO

Os verdadeiros humanistas, cultos e preparados para remar contra a maré sedutoramente, desapareceram quase todos da imprensa pátria. Que alguém com menos de 50 anos ouse ler e pensar em profundidade é quase milagroso, ainda que seja um português e mande seus textos de Lisboa.

Digo isso para saldar mais uma vez João Pereira Coutinho, colunista da Folha. “O turista moderno passa horas e horas nas filas para comprar ingressos. Quando finalmente está na presença daquele quadro, daquele vitral, daquela escultura, o turista demora cinco segundos, talvez dez. Não para contemplar a obra depois de uma longa espera; para tirar um selfie com ela”, descreve o professor de política (a Ilustrada, coitada — que no domingo em que escrevo essa nota traz na capa um texto espetacular sobre a volta do “pornô light” à TV aberta, com o qual, ninguém duvida, o jornal ganhará centenas de milhares de cliques valorosos — ainda tem um Mario Sergio Conti, pelo menos).

Coutinho fazia um relato de suas férias na Itália em agosto, auge do verão europeu, e conclui: “O turismo de massas não é apenas um inferno físico; é um inferno narcísico, em que o viajante nunca sai verdadeiramente de si próprio para se render a algo que é melhor, mais belo e mais importante do que o seu patético sorriso.”

Batata. Sobre o tema, vou me estender em “A Arte da Viagem”, o livro que devo lançar em alguns meses.

O TANGO DA SEROTONINA

Michel Houellebecq humaniza com maestria a alma perdida de uma vítima de sua época, o pobre diabo “perdedor” que pensa em se jogar nos trilhos do trem.

Seu Florent, narrador de Serotonina (Alfaguara, 2019), me lembra nas passagens mais vivas o Holden Caulfield do Apanhador nos campos de centeio e o Ferdinand Bardamu de Viagem ao Fim da Noite, ainda que Houellebecq não tenha a genialidade de Salinger e Céline.

O miserável Florent, um agrônomo respeitado enquanto aguentou o trampo, tem grana e namorou muito antes de se arruinar e perder o desejo, e desse lugar remói o passado e costura seu fim. Perto do meio século de vida, ainda não é gente grande nem vai ser, como tanta gente.

Inepto para construir uma relação adulta, apenas vislumbra o amor, estragado pelo machismo e a pornografia, como tantos homens. Sua decepção com Proust e Thomas Mann, já no final do livro, em favor de Conan Doyle, é brilhantemente patética, e sintomática sobre a infantilização do mundo.

O estofo cultural europeu e a mente aguda não o pouparam da vacuidade. Houellebecq culpa hiperbolicamente os antidepressivos (Florent toma altas dose de Captorix, no romance um inibidor seletivo da recaptação da serotonina up to date, donde o título do livro) pela destruição da libido, e até, perigosamente, pela destruição do caráter, como a sugerir que a indiferença da apatia leve alguém a se aproveitar de um flagrante de pedofilia, e simplesmente não chamar a polícia.

Com Florent, Houellebecq fustiga a social democracia europeia em crise, a torturante burocracia de Bruxelas para o velho modo de ser da França profunda, e ridiculariza o politicamente correto e a idiotia reinante no mundo do consumo e do entretenimento vulgar.

Regredimos, diz o narrador, à fase oral, e uma prova disso são os onipresentes shows de culinária que dominam na TV, ou a restauração como sucedâneo da arte. É um ótimo livro.

Depois de minha decepção com Partículas elementares, de 19991, talvez eu me atualize com Houellebecq. Uma obstáculo é sua obsessão com o sexo e o mundo pornô, por mais que se entenda seu realismo.

Freud, inteligentemente, é referido por antonomásia como “o fantoche de Viena”. Algumas passagens de Serotonina me fizeram admirar o juiz americano da Suprema Corte no início do século passado, Oliver W. Holmes Jr, grande defensor da liberdade de expressão. Aos 90 anos, ele pediu a uma secretaria que lesse para ele O amante de lady Chatterley”, de D. H. Lawrence, e a certa altura a interrompeu: “Filha, não vamos acabar este livro, sua chatice não é aliviada por sua pornografia”.

Não à toa, Serotonina se refere obliquamente à História do olho (Cosac y Naify, 2003) de Georges Bataille. Mas Bataille sabia se impor, como artista, sobre as fantasias sexuais mais escatológicas de nossa espécie.

História do Olho põe a pornografia no devido lugar, que é o do rendição à brutalidade, à impotência da imaginação, à incapacidade da fantasia, além da diminuição da vontade.

ARTE EM OBRAS

Beatriz Sarlo, esta grande crítica literária argentina, com sua escrita na cadência da própria respiração e fala, o que é raro e admirável, narra nesta crônica (El arte de instalar) com a ironia dos sábios a experiência desconcertante que a fez, ao visitar um centro de cultura em Buenos Aires, confundir uma estrutura em obras com uma instalação artística, logo ela que já viu de tudo em décadas de esforço analítico para tentar elucidar mirabolâncias como aquelas de Damien Hirst, aludindo aos cadáveres de bichos a apodrecer em caixas de aço e vidro.

Y, con todo este entrenamiento que, debo decirlo, nunca fue tedioso, el domingo pasado confundí a un grupo de operarios con una performance. Se me habían cruzado las líneas del ‘arte’ y la ‘vida’, porque ya estaba acostumbrada a que muchos artistas las cruzaran”, ela diz, para concluir: “Lo que al principio fue una revolución estética se fue convirtiendo en una repetición academicista.”


Esforço maior que o de Sarlo exige-se dos curadores para escrever apresentações em que, desde o álibi da prosa poética, torturam cruelmente frases e conceitos impensáveis para nos explicar como e principalmente porque devemos valorizar obras como cabos de vassoura encostados em paredes, atrações que atraem multidões às grandes galerias do mundo e aos leilões de arte em Londres e Nova York.

CONSERVADORISMO E ATRASO

Na carta anterior, dizia que o conservadorismo defendido por Roger Scruton não pode ser entendido sem se ter em conta a história política e cultural inglesa, com direito costumeiro e tradições tão arraigadas quanto os seus gramados.

O quiproquó atual com o não faz nem sai da moita do Brexit ilustra o inferno que podem ser os mecanismos seculares de deliberação política, que ainda hoje pedem bênção à rainha.

“A mãe de todos os Parlamentos é uma anomalia. Sem conseguir depor a monarquia após uma revolução fracassada, no século 17, e sendo uma potência imperial em vez de ter passado por uma guerra de libertação, o Reino Unido nunca teve um momento de fundação constitucional”, escreve James Butler no The New York Times, em artigo traduzido pelo Estadão.

“Isso traz consigo um peso conservador muito forte. Sob essa pompa ritualística, o Parlamento tornou-se muito poderoso ao longo dos anos. Um premiê com uma maioria confortável, como Margareth Thatcher e Tony Blair, pode refazer o país. Mas, sem uma maioria sólida, o Parlamento resiste ao líder mais ambicioso.”

Bem, o que eu queria dizer, a respeito das leituras equivocas de Scruton no Brasil por certa direita, é que fui buscar, lendo Elio Gaspari, a passagem de um artigo de Fernando Henrique Cardoso que esclarece o eu que falei sobre ser inconcebível conservar miséria e iniquidade, em outras palavras, o conservadorismo brasileiro só consegue atender ao reacionarismo do prefeito do Rio de Janeiro e seu eleitorado pentecostal, quanto tenta proibir, em nome das criancinhas, revistinhas de super-herói: 

Sobre a “esquerda” e a “direita” no Brasil, há anos eu repito a frase que ouvi do historiador Sérgio Buarque de Holanda quando examinava uma tese de livre-docência sobre a política brasileira no Império. No trabalho, o autor confrontava o pensamento liberal, o conservador e o progressista. Sérgio, referindo-se a um personagem simbólico de nossos conservadores naquele período, perguntou com certa ironia ao candidato: você acredita que Bernardo Pereira de Vasconcelos lia Edmund Burke (um clássico do conservadorismo inglês, que via com maus olhos a Revolução Francesa)? Não, respondeu o próprio Sérgio, ele não era um verdadeiro conservador, não defendia ideias; ele era apenas um “atrasado”.

FESTA

Esta Jurupoca não pode deixar de celebrar a queda espetacular, ainda que provisória, de Matteo Salvini na Itália, e as trapalhadas de Boris Jonhson no Reino Unido. Um, pagliaccio mussolinesco, apostou que poderia desfazer o Governo italiano e convocar novas eleições, fiando-se na grande popularidade e na vitória de seu partido, Liga, nas eleições do Parlamento Europeu — e perdeu feio; outro, farsesco maganão, faz o que pode para concluir o Brexit na marra — e até aqui se deu muito mal.

Suas derrotas, depois do espernear autoritário para levar adiante o populismo nacionalista em seus países são sinais alentadores para quem se descabela com a ascensão do fanatismo.

Acenam para Putin, Bolsonargh, Trump e tipões do leste europeu, a turma regredida, anacrônica, de ideias fracas e miolo mole, que alimenta a ira do recalcado. Se bem que Trump, em campanha pela reeleição, demitiu essa semana seu principal cão de guerra, Bolton Bigodeira, conselheiro de Segurança Nacional. Bigodeira não aceitava que Trump afrouxasse a linha dura.

Lembra um Dr. Fantástico feio à beça. Na Casa Branca, tinha como missão recomendar ataques a torto e a direito na cabeça de infiéis do America First. Ele integra a “Bancada da Bomba” em Washington, diz o embaixador José Maurício Bustani ao Estadão.

Na metade de seu mandato na presidência da Opac, a Organização para a Proibição de Armas Químicas, para o qual tinha sido eleito em 1997, Bustani foi pressionado a deixar o cargo pelo governo de George W. Bush, representado por Bolton, um dos pais da tramoia denominada operação “armas de destruição em massa”. O embaixador revelou ao Estadão que o modus operandi de Bigodeira não difere dos piores mafiosos, neste início de sua entrevista ao jornal:


Como foi sua experiência com Bolton?
Foi traumática. Esse homem foi me visitar lá em Haia (sede da Opaq), uma história que está sendo contada em um documentário do cineasta José Joffily. Ele chegou na minha sala, me ameaçou, me deu 24 horas para abandonar a organização e ameaçou minha família. Disse que sabia onde moravam os meus filhos, que iriam atrás deles. Foi de uma violência inédita.   

PIOR NÃO FICA

“Populismo, nacionalismo e xenofobia ganham eleições em vários países do Ocidente. Sentimentos de ódio e intolerância contaminam o debate político: rejeição do outro, do estrangeiro, do diferente; rejeição das “elites”, das instituições, do “establishment” em todas as suas representações (partidos, sindicatos, mídia); medo do futuro e fechamento dos países em si mesmos são atitudes que se espraiam”, lamenta Fernando Henrique Cardoso em Crise e reinvenção da política no Brasil (Companhia das Letras, 2018), livro lançado antes da eleição de Bolsonargh. Sobre o que plantou tudo isso, o ex-presidente repete o que todo mundo sabe: “A democracia representativa é cada vez mais percebida como um sistema elitista, disfuncional, minado pela corrupção, insensível às necessidades e demandas das pessoas comuns. É como se todos os governantes se equivalessem, na medida em que nenhum se revela capaz de proteger a sociedade das crises econômicas, da extinção dos empregos, da violência ou da desigualdade.” Logo, “tá cansado de política? Vote no Tiririca”.

A REBELIÃO DAS MASSAS: AGORA É PRA VALER

Fernando Vallespín, no El País (Cómo los tertulianos suplantaron a los intelectuales), analisa a derrota dos “intelectuais públicos” e suas variações para a grita das facções tribais extremadas que se propagam pelas redes sociais e abominam novas e velhas formas de medicação.


“La actual vituperación de las élites se ha extendido también a quienes tenían la función de orientarnos. Ortega se equivocaba. Ha habido que esperar a la expansión de las redes sociales para que se produjera la auténtica rebelión de las masas, aunque ahora hayan cobrado la forma de enjambres virtuales. Detrás de esto se encuentra, desde luego, el proceso de desintermediación, que ha roto con el monopolio de los medios tradicionales para ejercer su tutela sobre la opinión pública. O la posibilidad potencial de acceso directo a conocimientos que hasta ahora solo eran accesibles para un grupo de iniciados. O el predominio de los afectos sobre la cognición —“solo me parece convincente lo que encaja con mis sentimientos”—. O la enorme polarización política que se nutre de un consumo tribalizado de la información y la discusión (las famosas cámaras de eco). O la desaparición de la deliberación detrás de lo meramente expresivo.” 


No Brasil, é triste que bons candidatos a exercer o papel de “intelectuais” público” não resistam ao apelo das redes sociais, onde assumem tricheiras, tendo de se adaptar, melhor dizer se rebaixar ao meio, onde o equilíbrio e a reflexão não ganham tantos likes. E o que eles poderiam fazer? Em que tribunas falariam? É tarde. O intelectual enamorado de ideias, “barrocos profetas vociferantes”, na imagem de Darcy Ribeiro em Maíra, dele, Darcy, que talvez tenha sido o último dessa espécie.

LITERACIA

As professoras Márcia Barbosa da Silva e Gabriela Borges explicam em artigo publicado pela Folha o que é e qual a importância da educação para a mídia, tema de uma notinha da Jurupoca #5.

Elas chamam “midia literacy” de “literacia, ou alfabetização midiática”. Literacia? Está no Houaiss: qualidade ou condição de quem é letrado, mesmo que “letramento”. O pé do texto diz o essencial:


  (…) O educador deve ter em mente o papel da literacia midiática na formação dos alunos. Ao contrário do que se imagina, a literacia midiática não acontece somente colocando os estudantes em contato com as mídias/TIC (Tecnologias da informação e comunicação).

O acesso é importante, mas não suficiente para o desenvolvimento das competências midiáticas. De fato, as pesquisas apontam que ter domínio da tecnologia não garante ser competente nas outras dimensões. Pelo contrário, o grande acesso às tecnologias indica a urgência em fomentar processos educativos de desenvolvimento de todas as dimensões de competência midiática desde a educação básica.  

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #5

NÚMERO 5 — AGOSTO, 30   2019

La vita è questo scialo
di triti fatti, vano
più che crudele
(…)
Addio! — fischiano pietre tra le fronde,
la rapace fortuna è già lontana,
cala un’ora, i suoi volti riconfonde, —
e la vita è crudele più che vana.

A vida é um esbanjamento
De fatos triviais, vão
mais que cruel.
(…)
Adeus! — sibilam pedras nas folhagens,
a tormenta voraz já vai distante,
a hora cai, de novo se confundem as imagens, —
e a vida é mais cruel do que vã.

“Flussi” (“Fluxos”), de “Ossos de Sépia”, Companhia das Letras, 2002, p. 155, na tradução de Renato Xavier.


“Pela graça de Deus, cheguei cedinho a Machado de Assis. Deste não me separaria nunca, embora vez por outra lhe tenha feito umas malcriações. Justifico-me: amor nenhum dispensa uma gota de ácido.”

Carlos Drummond de Andrade em um dos textos reunidos no livro “Amor Nenhum Dispensa Uma Gota de Ácido”, lançado agora pela Três Estrelas.


“A realidade também é feita dessas esperanças íntimas que a imaginação inventa. Esperanças, os males indispensáveis da caixa de pandora. A confiança num destino pelo qual valha a pena sofrer. Em outras palavras, o desejo de ser moldado na forma da verdadeira humanidade. Mas quem é moldado dessa forma? Ninguém sabe.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, p. tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.


“Você pode extrair da pessoa quantas partes do corpo dela quiser, mas jamais encontrará o lugar onde ela está, o lugar do qual o sujeito se dirige a mim e do qual eu, por minha vez, me dirijo a ele. O que importa para nós não são os sistemas nervosos invisíveis que explicam como as pessoas funcionam, mas as aparência visíveis às quais reagimos quanto reagimos a elas como pessoas”.

Roger Scruton em “A Alma do Mundo”, p. 85, Record, 2017, tradução de Martim Vasques da Cunha. 


“O desespero é o preço que pagamos por nos comprometermos com uma meta impossível. É, dizem, o pecado imperdoável, mas um pecado que nunca é cometido pelos corruptos ou pelos maus. Eles sempre têm esperança. Nunca atingem aquele estado paralisante que é o conhecimento do fracasso absoluto. Só os homens de boa vontade levam sempre no coração essa capacidade para a desgraça.”

Graham Greene em “O Cerne da Questão”, tradução de Otacílio Mendes, Biblioteca Azul, 2ª edição impressa, 2019.


Opa. Vamos apear?

Philip Roth: três romances”, um dos ensaios reunidos em “Tudo Tem a Ver: Literatura e Música” (Todavia, 2019), de Arthur Nestrovski, é crítica literária como não existe mais nos jornais brasileiros, ou em parte alguma. “O depauperamento da crítica fica evidente para quem acompanhou o processo; e não foi compensado pelas mídias digitais, até pelo contrário. Isso tem mais gravidade do que parece: diminuir o espaço da crítica significa diminuir o espaço da cultura, vencida pelo jornalismo instrumental: serviço, polêmica, entretenimento”, avalia. Ele se refere ao papel formador, essencial da literatura, que é o de balizar, ou melhor, deslindar a condição humana, ao que a crítica deve estar apta a enfrentar.

O diretor artístico da Osesp, Nestrovski joga nas onze na cancha cultural, o que esses ensaios e textos curtos evidenciam. No ensaio final, escrito para a edição da coletânea, ele faz um balanço de suas suas “vidas”, todas bem vividas, de tradutor, editor, professor e músico. Conta, por exemplo, como traduziu “Ständchen” (1828), lied de Schubert e Ludwig Rellstab.

Explica as alusões feitas ao “Sabiá” de Tom Jobim e Chico Buarque, canção que encarnava a “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, poema que tem como epígrafe versos de Goethe (“Mignon”) sobre um país imaginário (“onde ardem laranjas de ouro”), sendo Goethe um contemporâneo de Schubert. Tudo pode ter a ver quando se apagam fronteiras. “Gravada por Chico César, à maneira de toada caipira, a ‘Serenata’ entrou na trilha da novela ‘Velho Chico’, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que foi ao ar em 2016, na Globo!”, relata, para celebrar: “Durante meses, mais de 30 milhões de pessoas escutaram este Schubert brasileiro. Dessas coisas, como se gosta de dizer, que “só acontecem aqui”. Foi provavelmente a maior audiência de Schubert de todos os tempos. Aconteceu no Brasil — e em tradução”.

Mas, comecei a dizer, Nestrovski tem Roth em altíssima conta. A qualidade da sua crítica aos romances “O Teatro de Sabbath”, “Pastoral Americana” e “Casei com um Comunista” expressa sua eleição. Em um trecho da primeira parte, a respeito da saga do devasso Mickey Sabbath, lê-se:


“Se Philip Roth tem traços que o ligam familiarmente a Henry Miller, tem muito mais para situá-lo na linhagem dos profetas judeus Franz Kafka e Sigmund Freud, temperados pela leitura de Céline e Joyce (este último homenageado diversas vezes no livro). Nesse contexto tão elevado, de uma literatura em estado de incandescência, ou indignação quase constante, até Updike, que rivaliza com Roth como mestre supremo da língua americana e cronista das ambições sexuais, começa a soar um pouco como o bom burguês.”


Roth e Updike, ambos mortos, ambos escritores americanos canônicos, candidatos ao Nobel e preteridos pela academia sueca. Como tudo tem a ver, peço licença poética para chegar a meu próprio ofício, de que venho falando a conta-gotas nesta Jurupoca, e à minha pequena teia.

“O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman. Nathan ‘torna-se’ Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro”, escrevi aqui.

Nesse texto de 2017, publicado sete meses antes da morte do escritor, aos 85 anos, comento o ótimo documentário “Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra”, de Adrien Soland e François Busnel. Aponto o andamento de réquiem que se depreende nas cenas finais.

Na sala de sua casa de campo, Roth põe para tocar as “Quatro Últimas Canções” de Richard Strauss e suspira, revelando seu encantamento por essa música.

À época dessa gravação ele já havia anunciado a aposentadoria, e diz que começava a aproveitar a vida. Um pouco antes, discorre sobre o “ciclo Nêmesis” (2006-2010), como enfeixa os últimos romances, narrativas em torno do envelhecimento, a decadência física e a ronda da morte: “Homem Comum”, “Fantasma Sai de Cena”, “Indignação”, “A Humilhação”, “O Animal Agonizante” e “Nêmesis”.

Alude a uma história que ouviu sobre um genial ator inglês que um dia, ao subir no palco, percebeu que havia perdido a força, a magia, não sabia mais atuar. O célebre ator Simon Axler de “A Humilhação” repõe essa narrativa. Já o publicitário sessentão de “Homem Comum” sofre com os achaques da velhice e a impotência.

“A velhice não é uma batalha. A velhice é um massacre”, ele se lamenta, na frase mais citada do livro. Todo esse contexto não é revelado no documentário francês assim, mastigado. Mas o leitor de Roth percebe a extensão da melancolia e do drama.

Bem, ia a dizer, a obsessão deste leitor baratinado pelos espelhamentos entre Zuckerman e Roth não vinha dali, do ensaio que escrevi para a revista “Inclusive.com”, com o título “Zuckerman Safadinho & Roth Safadão”, mas de antes, de duas décadas de leitura e releitura de seus livros e de uma viagem forçosamente literária a Paris e Florença no outono europeu de 2005.

Narro o episódio em “Inferno em Florença”, crônica incluída em “A Arte da Viagem”, cuja publicação, que tenho anunciado nesta Jurupoca para este mês, sofrerá algum atraso. Não dá para revelar muito dessa história sem spoiler.

Adianto que cheguei à cidade italiana com um exemplar em inglês do “Complô contra América” debaixo do braço. Esse romance de Roth ainda não tinha saído no Brasil. Dois ou três dias depois, cruzei com um desses dois autores (Roth ou Updike) por duas vezes, de manhã, no museu Bargello e, na tarde do mesmo dia, à beira do Arno, num balcão próximo da Piazza dei Frescobaldi, quando o abordei.

Também me refiro à Roth em um dos poemas de viagem que entram no livro como souvenirs, chamado “Carrinho de mão vermelho”. O nome é uma piscadela para “The Red Wheelbarrow”, de William Carlos Williams, poema no qual tentei me inspirar para registar o fechamento de uma livraria de mesmo nome no Marais, em Paris, onde eu havia comprado em 2005, diretamente das mãos da proprietária, a canadense Penelope Fletcher, meu exemplar de “The Plot Against America”.

Sucedeu que numa daqueles acasos de que falei na carta anterior, de volta a Paris cinco anos mais tarde, escolhi um hotel bem ao lado da Red Wheelbarrow Bookstore, que, então, acabava de dar adeus ao ponto.

Na “libraire anglophone” ainda se viam alguns livros e um computador, além do anúncio imobiliário bem visível.

Nos hospedamos no chinfrim Hôtel du 7e Art, um duas estrelas na rue de Saint-Paul. Naquela semana, eu e minha mulher soubemos pelo “The Herald Tribune” que Roth havia, em comunicado público, para tristeza de seus leitores e, todo o mundo, que não escreveria mais ficção. Procurei gravar no poema essa sucessão de eventos.

Recentemente, a propósito, Penelope Fletcher reabriu sua livraria em outro endereço, agora na Rive Gauche.


A amazônica conspiração maquiavelista

“Isso está me cheirando a conspiração que vem de fora”, sussurra Odorico para seu Dirceu. / Aí tem cérebro de gente traquejada nestes maquiavelismos. / Poooovo de Sucupira…  É com a alma [incompreensível]… que venho fazer ao povo uma denúncia de sumíssima gravidade. Um plano maquiavelista está em marcha visando a roubar Sucupira (…) / Querem impedir que Sucupira trilhe o caminho do progresso. / Todos vós sabeis que tenho dado meu o suor e meu sangue pela grandeza de Sucupira. Mas esses maus sucupiranos recebem ordem de potências estrangeiras interessadas em manter o nosso povo no atraso e na dependência.” (…). Ouça a íntegra na Rádio Sucupira da CBN.

A amazônica conspiração comunista

“Brasileiros: (…) forças do mal e do ódio [o comunismo] campearam sobre a nacionalidade ensombrando o espírito amorável da nossa terra e da nossa gente… A dissimulação, a mentira, a felonia constituem as suas armas”, proclama Getúlio, seu Gegê, na Hora do Brasil, ao anunciar que o governo de salvação nacional debelara a Intentona Comunista, o levante organizado por militantes da Aliança Nacional Libertadora, a 23 de novembro de 1935.


Tânato na avenida

De carona com Joaquim Nabuco e Caetano Veloso, que dedicou um disco ao abolicionista, “Noites do Norte” (2000), digo que a imagem do governador Wilson Witzel descendo de um helicóptero na ponte Rio-Niterói com sua figura balofa e curvada sobre as hélices da aeronave, rindo à larga com os punhos erguidos — como um Tânato no Sambódromo ou um goleador nos campos do demônio — permanecerá por muito tempo como a reafirmação de mais uma característica nacional do Brasil.



CONSERVAÇÃO

Meu coração está na dimensão estética da existência”, diz Roger Scruton nesta longa e bem articulada entrevista ao Estadão/Spotnicks. O conservadorismo, como o liberalismo, é malbaratado em toda parte ao gosto do freguês.

Scruton é o melhor defensor dessa corrente tão vilipendiada e pela qual guardo certa simpatia, mas que deve ser entendida, para que as ideias correspondam aos fatos, como liberal, libertária e britânica — fruto dessa história cultural.

Em um país como o nosso, o princípio da conservação — conservar o que presta e devemos preservar para nossos filhos e os que vão nascer, a exemplo do patrimônio arquitetônico ou da melhor tradição música popular, que uma corrente intelectual vê como elitista à luz dos novos ritmos mais “autênticos” porque georreferenciados — só pode ser visto, creio eu, em abstrato, “ad hoc”, ou seja, em situações sociais ou familiares específicas, aqui ou ali.

Por certo, não há o que conservar da miséria, da iniquidade, da ignorância, de uma sociedade atrasada e disfuncional.Tenho para mim que a civilização começa com a universalização do saneamento básico, do que falo no pé. 


A BELEZA IMPORTA?

“Roger Scruton tem inteira razão quando afirma que o conservadorismo procura conservar a ‘ecologia social’ de um povo”, escreve João Pereira Coutinho, a propósito do livro “Filosofia Verde: Como Pensar Seriamente o Planeta”.

“Nessa ecologia, estão as leis, os costumes, as instituições; as liberdades civis, políticas, econômicas; mas também os recursos naturais e, por que não, a mera possibilidade de existir beleza no mundo”.

A deixa do colunista da “Folha” remete ao livro “Beleza” e ao filme da BBC “Beauty” ou “Why Beauty Matters?”, disponível no YouTube com legendas em português, escrito e apresentado pelo filósofo.

Scruton considera um culto à feiura toda a progênie artística semeada pelo urinol de Duchamp, com raras exceções, como um Rothko; toda a música posterior a certas peças de Schoenberg que não siga as fórmulas clássicas; e toda arquitetura derivada do modernismo. “É mais fácil destruir coisas do que criá-las. Isso é, essencialmente, o que Mefistófeles diz no Fausto”, diz nessa entrevista.


MARTELADAS

Seu romantismo é um tanto irritante, mas ele defende em grande estilo o legado da arte constituído em milênios por meio de diálogo entre os mestres, em termos de reverência e inovação.

Ele diz que a catedral da beleza erguida por séculos e séculos foi posta abaixo a marteladas, e o que restou da demolição terminou reduzido a pó no pós-modernismo. Daí nasceu o culto escatológico à marmota.

Ele critica com afinco e disciplina toda a derivação da utopia hegeliana em torno da “inevitabilidade da história”.

“A natureza contraditória das utopias socialistas é uma explicação para a violência envolvida na tentativa de impô-las: é necessária uma força infinita para obrigar as pessoas fazerem o impossível”, escreve em “Tolos, Fraudes e Militantes: Pensadores da Nova Esquerda”.


O ZEITGEIST E A “MERDE D’ARTISTA”

Em grande medida, a arte contemporânea engaja-se com o novo como uma força destinada a superar e sepultar a beleza do mundo. Scruton vai à nascente dessa crença e tenta estancá-la por um instante para criticá-la.

“Cada período sucessivo da história, de acordo com os hegelianos, exibe um estágio no desenvolvimento espiritual da humanidade — um ‘espírito da época’ particular ou Zeitgeist, que é propriedade comum de todos os produtos culturais contemporâneos, e que é inerentemente dinâmico, transformando aquilo que herda e sendo descartado quando chega a sua hora”, diz em “As Vantagens do Pessimismo”.

Conforme essa lei, a história flui continuamente rumo ao progresso espiritual. Identificar o espírito da época em retrospecto, num dado período histórico, vá lá. O problema é estabelecer como inelutável essa ação entre os vivos, quando a noção de progresso científico é levada para o terreno social, político e cultural.

É como se estivéssemos destinados a evoluir espiritualmente da mesma maneira que — graças à ciência — saltamos do uísque empregado como anestésico nas cirurgias à maravilha do Propofol, sugeri em outro lugar.

Então, o que a política e o desarranjo aleatório derivam como a novíssima arte passa a ser a quintessência da criação, a exemplo das latinhas de bosta “Merde d’Artista”, que fizeram a fortuna de Piero Manzoni, ou o a instalação “My Bed” (1998), da britânica Tracey Emin, uma cama de casal desarrumada com roupas sujas espalhadas que faturou 4,3 milhões de dólares num leilão.

“O Zeitgeist que nos governa é o que está agindo agora. A arte verdadeira tem que ser fiel ao Zeitgeist (…). Os artistas verdadeiramente modernos pertencem a sua época, e essa época que dita o que eles devem fazer”, retrata, no capítulo “A falácia do espírito móvel”.

Precisamos ser fiéis ao espírito da época para acatar certas novidades artísticas como avanços inevitáveis e alguns valores em voga como expressão de um contínuo progresso moral. E precisamos ser crentes para considerar reacionária toda heresia contra a crença de que haja tal “viés” na história.


NARIZ DE CERA

Pensei num nariz de cera para as notas acima, como vênia a alguma leitora ou leitor mais sensível a ideias excêntricas ao eixo ideológico marxista. Mas, uai, para quê? Quem segue esta carta sabe que ela não é ideologicamente exclusiva e se nutre do bom e do melhor contra a cegueira.

Scruton, filósofo conservador e escritor britânico foi tipicamente xingado de fascista nos anos 1980, sendo lacrado “avant la lettre”.

A virulenta reação a seu livro “Pensadores da Nova Esquerda”, recentemente ampliado e reescrito no “Tolos, Fraudes e Militantes”, o expulsou do ensino acadêmico. Sua força intelectual e caráter hoje o colocam acima da manada das patotas do pensamento mágico.

É influente e respeitado. Fez crítica de vinhos, escreve crítica literária e de arte, romances, libretos de óperas, compõe, como o lindo tema de abertura da série televisiva “O Belo e a Consolação”, e ainda é o organista de sua igreja. Scruton se considera um “homem de letras” na velha tradição e mantém uma fazenda autossustentável, onde cultiva a terra e a boa vida.




 
O CERNE DA QUESTÃO

Forçando a barra contra o sono, acabo a leitura de “O Cerne da Questão”, romance de Graham Greene escrito há 71 anos.

Me pergunto se em mundo bobo e infantilizado como o nosso haverá leitores para um grande livro adulto sobre o tema da culpa religiosa e a depressão, o abandono e o “suicídio por compaixão”, como Paulo Francis, um fã de Greene de primeira hora, definiu o destino do herói, Scobie.

Não creio que haja. Li algumas vezes “O Poder e a Glória”, opera magna de Greene. O desespero do padre bebum e incasto, que acaba fuzilado por revolucionários mexicanos me acompanha com uma memória pessoal.

Releio de vez em quando a comédia “Nosso Homem e Havana”, sobre um vendedor de eletrodomésticos feito espião por acaso na Cuba pré-revolucionária (o próprio Greene espionou para o MI6, o serviço secreto de sua majestade), narrativa tão engraçada quanto “Furo” ou “Declínio e Queda”, de Evelyn Waugh.

Já o “Cerne da Questão” não tem graça e não faz graça. “Scobie tinha a impressão de que a vida era interminavelmente longa. A prova do homem não poderia ser realizada em menos anos?

Não poderíamos cometer o primeiro pecado importante aos sete, nos arruinar por amor ou por ódio aos dez, nos agarrar à redenção num leito de morte aos quinze?”, diz uma passagem.

O leitor vai se servindo, em discurso livre indireto, desse destilado agônico produzido na alma do major inglês, mal entrado na meia idade. Ele e a mulher perderam a filha pequena e, sufocados pelo clima e o ambiente social de uma colônia africana na Segunda Guerra, onde Scobie se sente prisioneiro e fascinado por essa condição, tentam escamotear a memória trágica. (Leio a reedição da Biblioteca Azul, com tradução de Otacílio Nunes.)

A prosa de Greene nunca é frouxa ou concessiva, mas enxuta e cortante. Às vezes é quase pintura: “Lançou a garrafa por cima do cais, e a boca faminta da água a recebeu com um único arroto”.

Assim ele engrossa as pinceladas que esboçam o mal-estar existencial de Scobie. Durante uma ronda policial no porto, recolhe uma garrafa de uísque que podia ser uma bomba incendiária, “e quando ele sacou as folhas de palmeira o fedor de petisco desidratado para cachorro e de uma podridão sem nome irrompeu como um vazamento de gás”.

Francis escreveu que Greene se debatia com seu jansenismo, doutrina que não conta com a salvação, como adúltero e simpático oportunista do comunismo.

Católico converso na juventude (praticou roleta russa na adolescência para combater o tédio), o autor de “O Terceiro Homem” e “O Americano Tranquilo”, livros que deram filmes excelentes, ia à missa até o final da vida, vivendo com a amante em Nice, num pequeno apartamento com 12 garrafas de J&B alinhadas na estante

. Pode que Francis estivesse certo, mas o pessimismo de “O Cerne da Questão” nunca é hesitante:


Por que, ele se perguntava, desviar o carro para evitar um cachorro morto? Amo tanto este lugar? Será porque aqui a natureza humana não teve tempo de se disfarçar? Ninguém aqui poderia jamais falar sobre um paraíso na Terra. O paraíso permanecia rigidamente em seu lugar do outro lado da morte, e deste lado floresciam as injustiças, as crueldades, a mesquinhez que em outros lugares as pessoas escondiam com tanta engenhosidade. Aqui era possível amar seres humanos quase como Deus os amava, conhecendo o pior: não se amava uma pose, um vestido bonito, um sentimento assumido superficialmente. Ele sentiu uma afeição repentina por Yusef [o sírio contrabandista e corruptor das autoridades locais]. “Um erro não justifica outro. Um dia, Yusef, você vai encontrar o meu pé debaixo de seu traseiro gordo”, ele disse.


EDUCAR PARA A MÍDIA

O nome é feio pacas em duas línguas, “media literacy” ou “alfabetização para a mídia”. Prefiro educação para a mídia. Mas seu apelo é urgente. Deveria se tornar disciplina em vários níveis no currículo escolar, incluindo a alfabetização de marmanjos.

Ainda pouco difundida no Brasil, vem na onda da checagem de fatos, do combate às notícias falsas e ao vitimismo alucinatório contra a imprensa, de que já falei bastante na Jurupoca # 2 (ver Fanáticos contra o jornalismo).

O colombiano Thomas Durante, pesquisador para União Europeia de estudos midiáticos, deu uma entrevista à “Folha” sobre o tema. “A ideia é promover e aprimorar o senso crítico dos cidadãos, o conhecimento da mídia, do universo de informações, a compreensão crítica de mensagens e notícias etc.”, ele explica.

“A alfabetização para a mídia busca conceder acesso a ferramentas e conhecimentos gerais sobre o alcance e as oportunidades que a tecnologia representa. Isso inclui gerar habilidades técnicas, pensamento crítico, poder de análise, de solucionar problemas, e então desenvolver a capacidade de lidar com todo tipo de informação, com a mídia e com produtos culturais.”



F WORD, JODER, PQP

Álvaro P. Ruiz de Elvira, no “El País” (“The Wire – o melhor uso de um palavrão”), comenta a sequência do quarto capítulo da primeira temporada dessa série, que julga uma das mais bem escritas, dirigidas e filmadas da história da televisão. O que é, sem dúvida, e inesquecível. Durante quase cinco minutos, apenas uma palavra é repetida 33 vezes, a expressão “fuck”, “joder” em espanhol — em português “puta que pariu” me parece uma tradução mais justa.

O que os detetives estão vendo na cena do crime é de gelar os ossos, mas resolvem o caso. Revi algumas vezes “The Wire” (A Escuta, HBO, 2002), criada por David Simon. É minha série número 1. Até a academia rendeu-se ao seu alcance social e artístico.

Suas cinco temporadas conseguem retratar a sociedade de Baltimore, repartida em guetos pela imigração, o duro trabalho policial, a imprensa decadente, o jogo de poder e seu trânsito corrupto no submundo da droga nos miseráveis bairros negros; o elenco, formado quase que só por atores ingleses, impressiona pelo domínio do patoá.

Segundo uma reportagem de O Globo, um dos mais respeitados sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como a maior etnografia jamais produzida sobre os Estados Unidos. O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa é outro célebre fã do seriado.




OU POR QUE ESTAMOS NA MERDA

A capa (como se dizia) de “O Globo” no domingo, 18/8, trouxe um levantamento oficial sobre as maiores estatais de saneamento no país. Mostra que essas empresas gastam mais com o pagamento dos empregados que com investimentos em infraestrutura. O lobby desses funcionários de altos salários enfrenta duramente a aprovação de um marco regulatório para a privatização do setor, em discussão há séculos no Congresso. Talvez nossos tataranetos vivam em outro país. Hoje, segundo o levantamento o instituto Trata Brasil, quase 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto e 35 milhões não recebem água tratada em suas casas. Quem é um pouco informado e não seja um extremista sabe o que isso significa.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
Convide quem você quiser para assinar esta cara por https://tinyletter.com/asiuves.
 

 
No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca # 01

Número 01 — JULHO, 5  2019 


“O tempo, meu lorde, carrega uma sacola nas costas onde põe óbolos para o oblívio.”

Citado por Adão, o androide personagem de “Máquinas como Eu – E gente como Você”, novo romance de Ian McEwan, do “Tróilo e Créssida”, de Willian Shakespeare 

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado.
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro.
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.”


Belchior em “Sujeito de Sorte”

Alastra-se a suposição de que, na sociedade em que circula volume inédito de informação, o jornalismo perdera sua razão de ser. O jornalista, a sua razão de viver. O secular e celebrado ofício de editor, em quadro de carências múltiplas e desassossegos de identidade, aparece rebatizado como “curador de notícias”. Ocorre o contrário: nunca o jornalismo foi tão necessário para selecionar, organizar e hierarquizar informações. Diante do caos resultante e da overdose informativa, o jornalismo contextualiza e dá sentido a fatos e ideias. Verificar o que é fato comprovável e o que é ‘notícia falsa’ — expressão imprópria, pois, se falsa, não configura notícia”.

Mário Magalhães em “J – Jornalista”, na “Serrote!” # 29

Opa.

Bem-vinda e bem-vindo. Eis o mix da feira de Jurupoca #1, notas a tratar dos últimos livros, músicas, filmes e ideias que me envolveram.

Na Jurupoca, quero compartir com você o ofício de um editor de cultura autoexilado das lides blogueiras, das redes sociais (exceto pelos poemetos do Insta, de que falo no pé), sobrevivente na diáspora das redações, a concluir o livro “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”, a ser lançado proximamente em Kindle Direct Publishing (KDP), na Amazon.

Esta Jurupoca é para chegar a você às sextas-feiras, quinzenalmente. Agradeço demais a quem comentou a edição de número zero, seja para saudá-la ou não, e convido novos leitores a jurupocarem.

MEUS PARABÉNS

Um brinde — melhor que seja de uísque, bebida preferida da patota — aos 50 anos de fundação do “Pasquim”, transcorridos em 26 de junho. Ivan Lessa, Millôr, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Sérgio Augusto e outros tantos bambas desopilaram fígados e almas de leitores intoxicados com a carantonha onipresente da ditadura nos anos 1970. Aquela alta concentração de talento, inteligência e humor fundou uma era na nossa imprensa, referendou ideias, aprendizados, deixou saudade e gratidão, numa frase, salvou a pátria.
 

Fotomontagem de Jaguar sobre a pintura “Independência ou Morte [O Grito do Ipiranga], de Pedro Américo. A charge saiu na edição 71 do “Pasquim”, em 28/10/1970. Como conta o cartunista (link para o PDF da tese de Márcia Neme Buzalaf, “A Censura no Pasquim”, defendida em 2009 na Universidade Estadual Paulista) os militares sentiram o golpe. Onze integrantes da redação amargaram dois meses de cana.


O FUTURO VEM AÍ

Conhecido pelos muitos acertos de suas previsões e pela clareza de livros como “A Vida Digital”, o professor Nicholas Negroponte, fundador e diretor do Media Lab do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), diz em entrevista ao El Pais (em português) que o 5G, a tecnologia de comunicações móveis disputada por Estados Unidos e China, não promoverá a revolução que se apregoa. “É apenas uma mudança incremental sobre o 4G. O marco foi o 3G”, considera. Ele sustenta que nossos filhos e netos viverão 150 anos; humanos serão geneticamente modificados para reparar os erros da natureza; a carne de boi artificial (“um projeto maravilhoso”), produzida por meio da replicação de células do animal, vai alimentar o mundo, livrar o boi do abatedouro, reduzir as emissões de gás carbônico e melhorar o meio ambiente; além disso, em 50 anos teremos energia limpa, barata e segura, com o domínio da fusão nuclear. Aí, sim, haverá uma nova era de avanços tecnológicos na história humana. Negroponte relativiza as críticas ao oligopólio na internet e à perda de privacidade com tecnologias como a vigilância por câmaras de reconhecimento facial, empregada largamente na China, promessa de uma “segurança quase perfeita”. Mas, perguntado se temos de valorizar as ciências humanas e a filosofia em uma sociedade hipertecnológica, responde: “As ciências humanas são a coisa mais importante que você pode estudar.”
 

O FUTURO POR AÍ

“Máquinas como Eu – E gente como Você” (Companhia das Letras), que acaba de sair em português, novo romance do britânico Ian McEwan, dá o que ler e pensar. Algumas das obras recentes de McEwan me pareceram claudicantes, narrativas em que o autor atraía muita atenção para si, para seu conhecimento enciclopédico e sua fixação em certos hábitos da classe média, como certa obsessão com vinhos e comida. Mas, a despeito dessa onisciência autoral, ei-lo de volta e em grande forma com uma reflexão ética e moral acerca da condição humana, quando a ciência mira a fabricação máquinas que, cedo ou tarde, serão capazes de sentir, interagir desembaraçadamente conosco e nos superar em inteligência e criatividade. O livro não explora a ficção científica corriqueira, mas, antes, atualiza a fábula prometeica — em sintonia, por sinal, com o filme “Ex Machina”, dirigido por Alex Garland.

“Boa parte dessa tradição [da ficção científica] não me interessa. Mas tem outra que acho fascinante, que observa a possível reação à tecnologia. Como em ‘1984’, de George Orwell, ou em ‘Blade Runner’, que mostra um planeta destruído, lidando com a mortalidade dos robôs”, disse McEwan em entrevista à “Folha de S.Paulo”.

O leitor não viaja ao futuro, mas é conduzido a um passado alternativo, como no “Complô contra a América”, romance de Philip Roth — em que os Estados Unidos nos anos 1940 é governador pelo antissemita Charlie Lindbergh, ou, entre outras, nas séries “SS-GB” (exibida no Brasil pela NET) e “The Man in the High Castle” (Amazon Prime), que imaginam o Reino Unido e os EUA ocupados por Hitler. No livro de McEwan, ambientado no início dos anos 1980, a Inglaterra da primeira ministra Margaret Thatcher perde tragicamente a guerra das Malvinas; os Beatles se reencontram depois de 12 anos afastados e lançam o álbum “Love and Lemons”; Alan Turing, pai da computação retratado no filme “O Jogo da Imitação”, está vivo e bem-disposto — é um bilionário casado com seu amado, um físico de renome, e celebrado mundialmente pela generosidade de ter aberto a codificação de um novo paradigma da inteligência artificial, o que levou à confecção de humanoides por meio da resolução de um teorema matemático, do avanço da ciência da computação e da engenharia dos materiais. Turing, que também é um personagem destacado da história de McEwan, ainda jovem reiterava que “no momento em que não pudéssemos notar a diferença no comportamento de uma máquina e de uma pessoa, caberia então atribuir humanidade à máquina”.  

“Artigos sensacionalistas na imprensa anunciaram uma nova era de softwares humanizados. Os computadores estavam prestes a pensar como nós, imitando as razões frequentemente mal definidas com que tomamos decisões ou fazemos escolhas”, conta Charlie Friend, o narrador do livro. Aos 33 anos, Charlie torra a herança dos pais em Adão, um dos 25 primeiros androides, ou seres humanos artificiais lançados por uma firma britânica — 12 mulheres e 13 homens, batizados Adões e Evas. “O manual [de instruções do fabricante] me informava que Adão, além de um sistema operacional, possuía uma natureza — isto é, uma natureza humana — e uma personalidade (…)”. Aí está o busílis, diria o detetive Rosalvo, personagem de “Agosto”, o romance de Rubem Fonseca, aí está o fulcro do bordado literário de McEwan.

Ocorre que em “Máquinas como Eu” há outros ingredientes além de avanços na matemática (a solução positiva para P versus NP, o principal problema aberto da computação), do debate proporcionado pela neurociência (o problema entre cérebro e mente) e da especulação filosófico sobre a ética da ciência e suas implicações na política. O que estimula o leitor a atravessar todas essas dimensões e as 328 páginas do livro é a trama de amor, sexo e, como em “A Balada de Adam Henry” e outros livros  de McEwan, o suspense de tribunal e a discussão dos imperativos da lei. Charlie, um especulador com ações e moedas semifracassado, envolve Adão (o androide é chegado em Shakespeare e escreve haicais) na sua vida, nos seus ganhos e na sua apaixonada transa (latu sensu) com a vizinha Miranda, estudante de pós-graduação dez anos mais jovem que ele, atada a um segredo decisivo. Mais do que isso não direi para não incorrer no tal do spoiler e tirar o prazer da leitora e do leitor. O foco do livro, afinal, o que a leitura nos leva a ruminar, ilumina o que o escritor disse à “Folha”:

Estamos tentando ser Deus, mas não somos. Essa é nossa forma de colocar nossa própria consciência em um robô e, assim, podermos viver eternamente. É um tema ancestral. Está na história de Jasão e os Argonautas, no Gênesis”.

O romance criado a partir desse alicerce literário talvez seja a melhor obra de McEwan desde “Reparação” e “Sábado”.

COMO SER FELIZ

“E pela minha lei/ A gente era obrigada a ser feliz”, canta Chico Buarque em “João e Maria”. A lei que o obrigava a ser feliz agora leva o louco a se pergunta, “o que é que a vida vai fazer de mim?”. É insano ser feliz? Melhor cantar sempre, como quem bate na madeira, “ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são”? Há cinco décadas, a obra de um artista toca profundamente na banda sonora do afeto de tanta gente, refina a música popular brasileira e açula o gosto pelo idioma e pela poesia. Também por isso, a gente vai levando.


Embora tenha todos os discos autorais de Chico em CD ou vinil, fui buscar no Spotify os títulos que faltavam no aplicativo (falei disso na carta anterior). No pacote estão “Morro Dois Irmãos”, “Valsa Brasileira”, “Carioca”, “Iracema Voou”, ‘Sonhos, Sonhos São”, “A Ostra e o Vento”, “Todo o Sentimento”, “Estação Derradeira”, “Bancarrota Blues” etc., canções já clássicas cuja força poética se manterá por muito tempo.

Só Carolina não viu que a obra buarquiana foi se tornando mais complexa em suas melodias, mais apuradas nas harmonias e mais sofisticadas nas letras — José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovsk demonstraram isso com grande didatismo nas suas aulas-shows. Sinto pelas Carolinas musicófilas que brigaram também com a arte do compositor nos embates virulentos contra os devotos do lulopetismo. Que triste. O que disse Belchior sobre os discos de Bob Dylan lançados nos anos 2.000 — em um entrevista ao “Diário do Nordeste” citada no livro de Jotabê Medeiros (“Apenas um Rapaz Latino-americano”, ver comentário abaixo) — vale para Chico Buarque: “Não foi Dylan quem mudou, foi o público que piorou”. A propósito, as músicas citadas estão no playlist A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções da MBP, que me custou três anos de pesquisa e arranjo, e que não paro de atualizar e refinar. Aviso aos navegantes que meu conceito de MPB é pessoal e superelástico, indo de Catulo da Paixão Cearense, do final do século 19, ao Clube da Esquina e além.

COMO? SER FELIZ

De volta à lei que nos obrigava a ser feliz, ouvir “João e Maria” mais uma vez me lembrou, com uma sombra de ironia, um trecho de “A Trégua”, de Primo Levi (ver referência na Jurupoca #0), que acabara de ler. Está na página 346 de minha edição da Companhia das Letras, de 1997. O autor se refere nessa passagem à sensação dos mil e tantos expatriados italianos em comboio, entre os quais sobreviventes de Auschwitz, como o autor, diante do anúncio feito pelo exército soviético que começaria enfim a ansiada volta para casa, depois de dois meses de acampamento na aldeia russa de Stáryie Doróghi e de outros tantos vagando miseravelmente pelo leste europeu, terminada a 2ª Guerra:

“Acendemos fogo no bosque, e ninguém dormiu: passamos o resto da noite cantando e dançando, contando um para o outro as aventuras passadas, e relembrando os companheiros perdidos, pois não é dado aos homens desfrutar alegrias incontaminadas.”

Primo Levi quinta-essenciou — ou quintessenciou, para usar um verbo que aprendo com Mario de Andrade em “Vida de Cantador” (Jotabê Medeiros, op. cit.) — a narrativa possível da destruição do ser humano e, no subtexto, do que restaria de humano no sobrevivente do terror, da violência, do (até então) impensável.
 

RESPIRE FUNDO

A meditação faz bem a muita gente. O relaxamento obtido com a prática — inspirada no budismo e chancelada pela ciência — proporciona equilíbrio, concentração, superação, bem-estar. Ninguém nega isso. Mas há outra dimensão do fenômeno planetário, que é política e econômica, a de um negócio, de uma valorizada commodity do mercado de autoajuda. A indústria da meditação movimenta a baba de 4 bilhões de dólares por ano em cursos, livros, documentários, filmes e uma ramificação que abrange terapias, dietas, liderança e até criação de pets.

Wall Street, a bolsa de valores dos EUA, o Vale do Silicone — berço da Gafam (acrônimo dos gigantes da rede, Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), agências estatais americanas, inclusive as militares e CEOs habitués do Fórum Econômico de Davos promovem como chefes de torcida os benefícios da meditação e da “atenção plena” (mindfulness), em geral associada ao método MBSR (Mindfulness-Based Stress Reducion), criado por Jon Kabat-Zinn, um professor emérito da Escola Médica da Universidade de Massachusetts. No fundo dessa cultura ecoa a busca da adequação espiritual ao status quo. Os grandes devotos da meditação estão em paz com a realidade, são resilientes e autocontrolados; subjugam as contradições, creem que as causas da inconformidade e da aflição com o mundo residem em si próprios; não se deixarão moer pelo sistema, ao contrário, aproveitarão seus avanços para trabalhar mais e enriquecer na era prodigiosa do capitalismo tecnológico.

SOLTE O AR

Acabei de resumir a linha de ataque da crítica de esquerda à “mindfulness”. O jornal britânico “The Guardian” condensou (em inglês) os argumentos do livro “McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality” (McMindfulness: Como a Atenção Plena Tornou-se a Nova Espiritualidade Capitalista), de Ronald Purser, um professor de administração e negócios em São Francisco, a sair no próximo dia 9. O título sugere uma óbvia correlação entre a cadeia de fast food McDonalds e a “atenção plena”, ancorada no sopro do momento e na consciência sem julgamento. A não inquirição moral sobre as consequências das decisões corporativas e a mentalidade apolítica que a prática favorece — defende o autor — encobrem a desigualdade e o sofrimento das vítimas do capitalismo. Ele cita, por certo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, para quem a “atenção plena” tornou-se a “ideologia hegemônica do capitalismo global”, com a qual as pessoas se sentem confortáveis para “participar plenamente da dinâmica capitalista, mantendo a aparência de saúde mental”.
Não achei no texto adaptado do livro de Puser nenhuma ocorrência da palavra “alienação”, a velha e boa pedra de toque da crítica marxista à ideologia. Mas vivemos outros tempos e, seja como for, é estimulante acompanhar o confronto de ideais e a liberdade de pensar e de valorizar a inteligência. Os radicais extremistas evangelizados não sabem o que estão perdendo.

ODE AO ÓDIO

Os radicais extremistas evangelizados do Partido do Brexit, liderados pelo feroz Nigel Farage, apresentaram ao mundo seu intocável autorretrato. Na sessão de abertura do Parlamento Europeu, na terça-feira, dia 2, os 29 eurodeputados eleitos pela agremiação viraram as costas durante a execução do trecho final (Ode à Alegria) do hino europeu, a Nona Sinfonia de Beethoven. A turma de Farage conseguiu o que pretendia: deu as costas à humanidade, à esperança de fraternidade que todos os homens de boa vontade deveriam alimentar ou respeitar, compondo, com seu gesto, uma verdadeira ode ao ódio. Os eurocéticos da ultradireita certamente se ofendem com o que podem inspirar a música de Beethoven e o poema de Friedrich Schiller cantado pelo coro no quarto movimento da “Nona”, que diz:

Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo, (...)
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!

A BELCHIOR, O QUE É SEU

Saiu claramente malcuidada a biografia de Belchior por Jotabê Medeiros, um jornalista de cultura e crítico musical que joga na Série A da nossa imprensa. Só agora pude ler “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Todavia, 2017). É mais um livro-promessa, lançado na carona da morte inesperada do “cantautor” cearense, aos 70 anos, depois de uma década de sumiço austral. Há lapsos, falhas de continuidade, pontos descritivos sem nó, bastante especulação. Um editor de classe poderia tê-lo enxugado e exigido mais do autor em pesquisa e entrevistas de campo. Mas, se lido pelo fã como perfil biográfico extenso, tem lá seu valor. É acurado na análise da obra e rico em curiosidades da trajetória do ídolo — educado como frade capuchinho, estudante de medicina, flâneur apaixonado por poesia e pintura, arte na qual quis tanto se apurar.

Jotabê se sai bem ao dimensionar a energia criativa e erudição de Antônio Carlos Belchior, bem como ao retratar a verve “dylanesca”, a elegância e também as fraquezas mundanas do ídolo da MPB que parece ter se embriagado além da conta com o sucesso, com seu dom-juanismo e novorriquismo, lembrado por Caetano Veloso no artigo para o “Estadão” em que fala das aparições nas festas ao lado de André Midani “usando ternos finos, fumando charutos caros e falando na cultura da Rive Gauche”, na esteira do estrondoso sucesso crítico e comercial do LP “Alucinação” (vendeu meio milhão de cópias, faixa onde apenas Roberto Carlos roçava). O mais importante: a agudeza da poética e sua singularidade em nossa herança cultural, a inventividade das canções, que supera suas carências em harmonia, e sua adequação ao canto de timbre inequívoco ficam bem assentadas no livro.

O canto torto de Belchior cortou a carne do seu ouvinte adolescente nos anos 1970 e deixou por cicatriz memórias microvulcânicas de versos desta densidade, que brilham e reluzem como uma esfera de aço: “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais”, da canção-tema de “Alucinação” (1976), que comentei no aniversário de 40 anos desse álbum.

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JURUPOCA, O AUTOR
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