O diário da sexta

A carta-compromisso de Dilma, caipirismo artístico,
marketing esportivo, Joyce e Knausgård, Regina Machado, Nana Caymmi e João.


VENEZUELÃO
Dilma prepara uma carta-compromisso para restaurar seu governo, dirigida a “movimentos sociais”, com a promessa de entregar tudo que a esquerda quer. Esses crentes não se darão por satisfeitos enquanto não cumprirem o ideal de transformar o Brasil num imenso Bananal, isto é, num Venezuelão.

HOMENS E MARCAS
No Valor, um longo texto sobre o negócio da conversão de atletas de alto nível em marcas publicitárias e o dinheiro que isso dá. Pode haver leitura mais chata? O reino de Muhammad Ali não era desse mundo. Aliás, estes “homens-marcas” em geral envelhecem sendo adolescentes, incultos e mimados. São incapazes de dizer algo relevante. O esporte tornou-se insuportável. Hoje sinto falta de Sharapova, que bebeu algo que não devia, pobre dela.

CAIPIRISMO ARTÍSTICO
Kleber Mendonça Filho, Sônia Braga —que não é mesma desde a cena do telhado em Gabriela, lá se vão 40 anos— e outros lançaram moda em Cannes. Segundo a Folha de S.Paulo, protestos contra Temer espelham-se pelo país e os quatro cantos do mundo. Citam três ou quatro nomes, dos quais nunca ouvi falar, todos provavelmente pendurados nas tetas da Lei Rouanet.

Entre os exemplos levantados pela Ilustrada, onde você procura e acha a mais autêntica “cultura do PT”, diariamente, estão dois coreógrafos e seus balés, que se manifestam contra Temer na Alemanha. A bobice sem tamanho vale por algo como, ó, vejam como somos engajados e conscientes, da esquerda bacana, enquanto o país é tomado por bárbaros de direita, depois de expulsarem o povo do poder.

GALILEU PROVA
O Brasil está morto culturalmente, e no entanto ele se move, como provam o Galileu e a guerra pelo MinC. Ninguém sabe direito o que faz ou para que faz, além de assegurar suas prebendas e patrocínios por meio do dinheiro público.

Babelia

RETRATO DE JOYCE POR KNAUSGÅRD
Estamos perto de mais um Bloomsday  e o Babelia do El País, único suplemento cultural que leio por gosto, celebra amanhã o centenário de Retrato do Artista Quando Jovem, com um artigo do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, de quem a Companhia das Letras lança este mês Uma Temporada no Escuro – Minha Luta 4. Há um trecho do livro na Piauí.

TRUQUES DE SOBREVIVÊNCIA
Um dos meus truques para olhar para cima e não deixar a peteca cair é ouvir Regina Machado cantar Ich Will Meine Seele Tauchen, este pequeno lied  de Robert Schumman e Henrich Heine.

Outro truque que não falha é rodar Nana Caymmi em Segue o Teu Destino, a ode de Ricardo musicada por Sueli Costa, do álbum A Música em Pessoa.

JOÃO, 85
Fiz estas notas ouvindo o programa da Radio Batuta sobre João Gilberto, 85 anos hoje. Uma bela seleção de Luiz Fernando Vianna com o repertório de João emparelhado a versões anteriores de outros intérpretes.

TRUQUE REGINA MACHADO

 

TRUQUE NANA CAYMMI

 

Dilma terá tomado café da manhã?

Um jornal como a Folha de S.Paulo não pode descambar para o sensacionalismo vergonhoso e vulgar de um tabloide inglês.

Para informar seus leitores, não deveria nunca tomar emprestadas as lentes de aumento distorcidas com as quais os “blogs sujos”, tipicamente, leem dados e fatos sempre pelo mesmo e único viés.

Abri meu navegador a dois minutos atrás e me deparei com a manchete que vai abaixo no alto da capa online do jornal.

A notícia —a suspensão de um cartão de gastos com o qual se abastece o Palácio do Planalto e, portanto, garante as provisões da presidente afastada e de sua equipe— aponta para mais uma trapalhada do governo interino e deve ser destacada e criticada.

Mas um editor consciente não deveria ter disparado a manchete abusiva “Temer corta comida de Dilma no Palácio da Alvorada”, que, no campo simbólico, atribuiu ao presidente o ato arbitrário que se esperaria de um Maduro, o ainda mandatário da Venezuela, ou de um ditador africano.

O fato, em si, é insignificante.

O tropeço do governo Temer já havia sido corrigido na noite de ontem, como informa o texto do Painel, na própria Folha, que aqui também se reproduz.

Faltou à Folha equilíbrio e senso de proporção, virtudes indispensáveis a um grande jornal.

Corta comida

Corta comida2

 

 

Um Woody Allen da hora

Acabo de rever “Bananas”, obra-prima de Woody Allen, para tentar entender o momento político.

No filme, Fielding Mellish (Allen) vai para San Marcos, uma republiqueta na América Central, onde se une aos rebeldes e acaba proclamado presidente do país.

A breve conspiração momesca de Waldir Maranhão, José Eduardo Cardoso e o governador maranhense Flavio Dino cabe na fita à perfeição.

Também entram na paródia brasileira a risada de Dilma Rousseff, a resposta da militância de esquerda ao esculacho de mais um golpe e a coluna na “Folha” de hoje de Mario Sergio Conti — o melhor entrevistador de Felipão da história deste país.

 

Os humilhados do parque municipal

O parque anda a cara do Brasil de Dilma, nossa suposta presidente.
Há abandono, desespero, miséria e vício por toda parte.

Jornal

Nem os peixes do parque municipal estão imunes à crise. Foto: Antônio Siúves (esta tarde)

Diferentemente da elite branca golpista de BH, vou muito ao Parque Municipal.

Bonito e mixuruca, é o parque possível para quem vive nos bairros à sua volta.

Mixuruca porque foi amiudado por filisteus desde sua abertura, em 1897, e estrangulado pelo asfalto e pelo trânsito.

O parque atual equivale a menos de um terço da extensão original – uma área de 600 mil m² amputada para 182 mil m². Aos poucos foi sendo comido pelas beiradas para atender a todo tipo de interesse.

“Pêsames à população de Belo Horizonte, particularmente às crianças residentes nos arranha-céus do centro. A invasão foi lenta e sorrateira”, lamentou Pedro Nava no “Chão de Ferro”.

Hoje, são famílias da periferia de BH que mais usufruem do parque, nos fins de semana.

Mas o assunto da nota é outro.

O parque municipal anda a cara do Brasil de Dilma Rousseff, nossa suposta presidente.

Há abandono, desespero, miséria e vício por toda parte.

Onde foram parar os humilhados do parque com os seus jornais, como diz Belchior na linda “Alucinação”?

É uma gente a vagar abaixo da linha da humilhação, onde vive quem não tem mais o que buscar.

Num cenário dantesco, o ar está cheio de perguntas que foram feitas há muito tempo e se perderam sem resposta.