Wim Wenders e aprendendo

O Sal da Terra leva alguém a reconsiderar
a obra de Sebastião Salgado de um jeito ou de outro

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders Divulgação

Juliano Ribeiro Salgado, Sebastião Salgado e Wim Wenders. Foto: Divulgação

O título desta nota não é meu e já lhe dou crédito, mas digo que também tenho aprendido alguma coisa com o cineasta alemão. E quem não tem?

Quem não se enriqueceu com a música e a cultura de Cuba revividas em Buena Vista Social Club, de 1999?

Qual o cinéfilo não preza algo da extensa filmografia do diretor de O Amigo Americano?

Ontem, com mais de dois anos de atraso, vi O Sal da Terra, documentário sobre Sebastião Salgado co-dirigido por Wim Wenders e o filho do fotógrafo, Juliano Ribeiro Salgado, lançado em março de 2014.

Devo a esse filme uma visão mais rica de Salgado e sua obra.

É que, por preguiça e ignorância, releguei seu trabalho monumental a um plano secundário e o critiquei de maneira um tanto apressada e vã, ou, dizendo de outra forma, para atenuar um pouco esta autocrítica, com mais intuição que observação e leitura.

Não é que tenha me tornado seu fã, literalmente da noite para o dia. Devagar.

Wenders e Juliano Ribeiro fizeram por assim dizer uma hagiografia de Salgado. Tentaram transformá-lo num herói do nosso tempo, um artista e fotojornalista que realizou o prodígio de abrir os olhos do mundo para o êxodo humano, o genocídio na África, o trabalho duro em escala planetária ou as maravilhas que restam na natureza ameaçada pela catástrofe, alguém que, rico e famoso, dedicou-se a regenerar as terras desmatadas de sua família e transformou essa iniciativa numa causa social.

Em O Sal da Terra não cabem análises críticas à estética fotográfica ou à trajetória do militante de esquerda da Ação Popular que, fiel às suas convicções ideológicas, se tornou uma celebridade milionária com residência em Paris. O espectador interessado ou curioso sobre técnica fotográfica também fica a ver navios.

Mas o documentário, com fluidez e beleza, consegue nos dar um panorama razoável da carreira, um perfil e um retrato familiar de Salgado, ainda que, insisto, sempre com grande benevolência. As cenas sobre as realizações do Instituto Terra, em Minas Gerais, são especialmente comoventes.

UM ENSAIO DO BALACOBACO

Graças ao filme, procurei me aprofundar um pouco no assunto.

Li partes de uma reportagem de Dorrit Harazim sobre o trabalho de Salgado, incluída em seu livro que chega às bancas, O Instante Certo (Companhia das Letras), e um ensaio do balacobaco: Sebastião Salgado, um homem de contradições, de Francisco Quinteiro Pires, publicado na Zum #8, revista de fotografia do IMS, em abril do ano passado e disponível na internet.

Harazim preenche os vazios do documentário sobre os aspectos técnicos do trabalho do fotógrafo, com minúcias que tratam de câmaras, filmes, logística, métodos e habilidades de Salgado para se aproximar de quem fotografa, além de trazer um desfile de opiniões e depoimentos sobre a obra do autor.

Quinteiro Pires explora a outra metade dos vazios apontados em O Sal da Terra. Seu ensaio faz um levantamento extenso e cuidadoso da crítica à obra e ao engajamento artístico, jornalístico e ideológico de Sebastião Salgado, seja a de autores que a enaltecem, seja a dos que a procuram desconstruir.

Sebastião Salgado Divulgação

Sebastião Salgado diante de uma das edições de “Gênesis”. Foto: Divulgação

Não vou me deter aqui na visão favorável, muito bem representada, à qual recomendo que se conheça no ensaio da Zum e é igualmente importante a quem se interesse por fotografia e e pelo fotógrafo. De resto, essa é a perspectiva dominante dentro e fora do Brasil.

REVERÊNCIA E COMPOSIÇÃO TEATRAL

Prendo-me ao olhar desfavorável porque suas alegações me parecem mais pertinentes e em melhor sintonia com o que eu mesmo sinto e penso, enquanto revejo o livro Êxodos para escrever esta nota.

O ensaio de Quinteiro Pires recorre, por exemplo, à jornalista Susie Linfield, que considera Salgado “muitas vezes reverente em relação ao que ele fotografa”:

“Suas imagens agradavelmente em preto e branco são compostas com muita minúcia, são dramaticamente teatrais e apresentam um uso da luz semelhante ao da pintura”.

E ainda, citando Linfield e seu livro The Cruel Radiance: Photography and Political Violence, de 2010, em referência à doutrina soviética para as artes contraposta às expressões “burguesas” do modernismo:

“É verdade que as fotografias de Salgado podem sugerir um tipo de romantismo nostálgico que relembra o realismo socialista.”

Em seguida, o texto repassa vários autores, entre eles Susan Sontag e Martha Rosler, os quais, logo que Salgado ganhou fama, nos anos 1980, classificaram sua abordagem como a de um “esteta”, de “alguém preocupado acima de tudo com os elementos harmoniosos e belos da fotografia” e a “estetização do sofrimento”.

A Zum também compila a sarrafada com o título Boas Intenções dada por Ingrid Sischy na revista The New Yorker, em 1991. Para a autora, o fotógrafo brasileiro era um obcecado pela “composição de suas fotografias: interessava-lhe, sobretudo, achar ‘a graça’ e ‘a beleza’ nas ‘formas distorcidas de seus retratados agoniados’”:

Sischy preferiria o ponto de vista de Walker Evans (1903-75), conhecido por seu trabalho sobre a Grande Depressão, feito para a Farm Security Administration (órgão do governo norte-americano) (…). Ao contrário de Salgado, Evans não seria nem didático nem sentimental ao fotografar pessoas desfavorecidas, que na obra do brasileiro seriam “cuidadosamente compostas à semelhança de naturezas-mortas”. “E o embelezamento da tragédia resulta em imagens que, ao fim e ao cabo, reforçam nossa passividade em relação à experiência que elas revelam”, escreveu Sischy. “A estetização da tragédia é o caminho mais rápido para anestesiar os sentimentos daqueles que a testemunham. A beleza é um chamado para a admiração, não para a ação.” Sischy reclamou do culto a Salgado, um fotojornalista a cujo trabalho se atribuiria um poder transformador sobre noções classistas, raciais e étnicas.

As contradições de Salgado como militante de esquerda que nunca abandonou suas convicções e a desenvoltura com que trabalhou para grandes empresas, incluindo Silk Cut (cigarros), Le Creuset (panelas), Volvo (carros), Illy (café) e a brasileira Vale, gigante da mineração, que patrocina seu livro Genesis, no qual denuncia o aquecimento global, e que também apoia seu projeto de reflorestamento da Mata Atlântica.

Na campanha para a Illy, iniciada em 2002, Salgado visitou oito países (…) para fotografar os cafeicultores e a produção de café. “Em vez de se apresentar como uma promoção do café da Illy, o site da campanha declara ser o resultado de uma homenagem conjunta da Illy e de Salgado aos cultivadores de café”, escreve Nair [Parvati,] em A Different Light. [A Different Light: The Photography of Sebastião Salgado (2012)].

“Salgado usa a fotografia para promover a sua visão de mundo, que é planetária e panorâmica. E o resultado é o seguinte: o maior crítico dos impasses globais gera lucro”, resume essa autora.

Feitas as críticas, insisto que devem ser contrapostas ao que dizem os críticos que defendem as escolhas do fotógrafo. Além disso, é preciso reconhecer que a obra de Sebastião Salgado tornou-se uma referência planetária e, em muitos sentidos, nos é essencial para compreendermos as transformações do mundo nas últimas décadas.

Como diz  um leitor da Zum na área de comentários do site, “o trabalho dele é mais um ganho para a humanidade, e não uma perda”.

Quanto ao trocadilho esperto do título, devo-lhe ao jornalista, hoje executivo da Companhia das Letras Matinas Suzuki Jr., em um texto seu na Folha de S.Paulo, quando era editor da Ilustrada, creio que ainda no final dos anos 1980, e possivelmente falando de Paris, Texas, longa-metragem de Wim Wenders rodado nos Estados Unidos.

1 Siúves, 3 Antonios e 1 Jobim

Há muito esperava rever a fita. Meu tape em VHS sumiu no porão.

Apareceu no tubo da Google.

O média-metragem 3 Antonios e 1 Jobim, de 1993, realiza a bela ideia de um encontro entre Antonio Callado, Antonio Houaiss, Antonio Candido e Tom Jobim, no Rio de Janeiro.

O diretor Rodolfo Brandão e o produtor executivo Augusto Casé não vão se importar com o gesto da boa alma que o fez subir ao tubo, há coisa de seis meses. Até segunda-feira, apenas uns 3,7 mil o tinham visitado, we few, we happy few.

Os 4 Antonios se reúnem no museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, e almoçam um macarrão preparado pelo chef Houaiss; passeiam pela cidade e proseiam risonha e francamente. Em cenas alternadas, cada um fala de si do que acha belo e bom.

Callado cobriu a Segunda Guerra e ouviu as bombas alemãs silvarem sobre Londres; ao voltar, se interessou pelos índios e enveredou sua obra Brasil a dentro.

Houaiss decanta Portinari e tasca a ditadura manuseando o próprio prontuário do SNI.

O acadêmico deixará sua receita de gafanhotos fritos no “azeite de oliveira”: “quando começar a estalar, você leva à boca: é um camarão delicioso! São João Batista comeu com muito prazer, pode estar certo.” Nosso grande tradutor do “Ulisses” também recomenda a farofa com bundinhas de formigas ao ponto.

Candido enaltece as utopias do século 18, liberalismo, socialismo, comunismo, o anarquismo, a fraternidade universal, a igualdade… “A utopia cria o homem superior. Faz você subir acima de você mesmo”, nos diz. Utopias já eram, lamenta.

Callado lembra a empregada portuguesa da família em Paris. A boa senhora se virava bem no francês mas implicava “com a mania” de chamarem água de “l’eau”. Não, água é água.

Candido louva a imigração. Cita com ternura a memória dum libanês gritando “Nagibêêê, vosso pai está te chamando você!”. “Três formas de tratamento numa frase simples”, diz Callado.

Depois cantarola a “Balada de Pedro Nava”, de Vinicius de Moraes: “Meu amigo Pedro Nava/ Em que navio embarcou: / A bordo do Westphalia/ Ou a bordo do Lidador? // Em que antárticas espumas/ Navega o navegador?”

Como inteligência e elegância fazem diferença. O comunismo de Houaiss, Callado e Candido soa idílico perto do esquerdismo rude e, diria o próprio Houaiss, ágrafo dos nossos dias.

Hoje só temos o Candido entre nós, mestre de mestres com seu “Formação da Literatura Brasileira – Momentos Decisivos”.

Os outros xarás se foram.

Ao revê-los, me dei conta de que a arte da conversa de fato estrebuchou. Não há mais reunião que não seja mediada pelo tédio de telinhas abertas a cada instante para alguém nos exibir fotocas e filmocos engraçadinhos. Não se discutem mais ideias soltas sobre a vida e arte, livros e discos e tal.

Tom: “O Brasil precisa merecer a bossa nova, casar com mulher bonita, ter filhos, passear no barquinho do Menescal… o barquinho vai, a tardinha cai… o barquinho a deslizar no macio azul do mar…”, ele recita. Ainda não merece, não.

Retenho o rigor do Houaiss, a honrar sua obra, sua fala meio sibilante, a prosa melodiosa do Callado, semelhante à do sempre suave Candido, com seu delicioso acento interiorano de mineiro e paulistano.

Tom, o mais jovem ali, traz o mundo luminoso, o amor ao Rio, a beleza da música que ele mesmo irradia ao falar de dicionários ou do taquaraçu de espinho que amava tanto.

Saudade.

O filme, de apenas 21 anos atrás, é retrato de certo Brasil (um retrato é um instante mumificado pela luz, eu digo) e de um idioma que se degradou no patoá das tribos infantilizadas.

Houaiss: “Todo homem, para ser homem no futuro, vai ser um viajor”.

Viajor sou.

No final, Jobim cita meu esquecido Cassiano Ricardo: “Chove e eu penso: haverá coisa mais viúva/ que a saudade possuir olhos de chuva/ e eu coração de girassol?”

Tom ainda diz que seu amigo Callado gosta mesmo é de Eliot e manda “April is the cruellest month, breeding/ Lilacs out of the dead land, mixing/ Memory and desire, stirring” — e vão-lhe seguindo: “Dull roots with spring rain. / Winter kept us warm, covering…”

O contubérnio (grazie, Houaiss) termina com os quatro num bar cantando um samba de Noel.


 

(Correções e uma atualização em 24/05/2014; nova atualização em 30/05/2014)