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Perder a viagem

Fotografar e não ver

A ânsia de registrar cada momento maquinalmente  e exibi-lo por aí
consome a viagem sem que o viajante o perceba. Perde-se a viagem em mil fotografias. É como se o ganho das férias fosse o olhar do outro, e não nosso próprio olhar sobre o outro e a novidade.


Imagens

A viagem não é só a imagem da viagem. É imaginar, imaginação. A imaginação se faz desde a memória e a memória se faz com a leitura.

A viagem ainda é a vivência e o desfrute da leitura.


Retratar e escrever

“Há dez anos quis ir a Santiago e estive ali, naturalmente, não uma vez apenas, senão muitas, mas ao mesmo tempo nunca havia estado na cidade porque não escrevi sobre ela”, diz Cees Nooteboom no capítulo final de El Desvío a Santiago (Ediciones Siruela).

 

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Uma via do Memorial aos Judeus Mortos da Europa (em alemão: Denkmal für die ermordeten Juden Europas), Berlim (2010). Foto de Antônio Siúves.

Santa María de Naranco (Oviedo, Espanha)

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Era uma manhã ensolarada e fresca de domingo, a primavera nos contagiava com a bacanal da polinização, a semear, além de beleza, excruciantes rinites em organismos combalidos como o do escriba. Galgávamos a pé os outeiros de Oviedo, pelo norte das Astúrias, Espanha, alegres por achegar-nos à igreja de Santa María de Naranco, uma construção assentada naqueles altos há mil anos e pico.

Releio El Desvío a Santiago, de Cees Nooteboom, pouco mais de um ano depois de terminar a primeira leitura. Mais uma vez, me preparo para voltar ao país que mais me seduz, provoca e estimula nesses últimos anos.

Em 2015 não tomei notas de viagem, o que nunca havia feito, por uma infausta circunstância. Repasso agora aqueles dias que, como tiveram que ser, me levaram a escrever dois dos 21 Poemas publicados exclusivamente neste jornal, e o leitor que se interesse por essas linha haverá quem sabe de entender o que tento dizer neste Fisterra (a menina dos olhos cega).


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A leitura de Nooteboom, escritor holandês, autor de romances e relatos de viagem — viagem interior e geográfica, na justa definição de Luisgé Martín —, muito lembrado para o Nobel, com um caso de amor pela Espanha, onde tem uma pequena casa de verão na ilha de Menorca, é um aprofundamento em meus preparativos, que além dos guias de toda espécie incluem um interesse cultural permanente pelo idioma e pela história, literatura e política, mas disso creio já tenha tratado aqui.

El Desvío a Santiago se compõe de relatos muito bem amarrados das andanças de Nooteboom pela Espanha desde 1979, interessado na diversidade, na historia complexa e fascinante, na arquitetura das igrejas e mosteiros medievais, na pintura e na expressão das gentes de tantas origens, idiomas e fervores. Ele parte de carro desde Barcelona, onde chega de barco, em direção a cidades, vilas e rincões despovoados da “meseta!” espanhola, visita e revisita paradores, conventos, livros e quadros, com os de Francisco de Zurbarán, um pintor que tanto o encanta, em uma viagem que durará alguns anos, antes que ele regresse a Santiago de Compostela.

Em março e abril de 2015, de volta a Bilbao desde Madri, depois de uma viagem a Barcelona de trem, quando revi debaixo de neve e chuva a deliciosa Rioja basca (Alavesa), a partir da estação de Haro, e depois de visitarmos Pamplona, fomos guiados por amigos através do norte espanhol, quase sempre entre as montanhas e a costa cantábrica e das Astúrias, antes de nos determos uns dias na Galícia.

Ao final daquelas semanas, pude entender mais propriamente o que Nooteboom escreve sobre sua viagem pela mesma região e pelas “Espanhas” (traduzo livremente do espanhol, do meu livrinho de bolso da – Editora Siruela):

“Que desatino que a maioria dos viajantes não vá mais além do formo da costa leste espanhola! Faz trinta anos que viajo por aqui e nunca se acaba. Há todo um continente por detrás dos Pirineus. É preciso de anos para alguém desenterrar, descobrir e refletir sobre o conjunto de países misterioso, oculto, desconhecido, com sua própria história, suas próprias línguas e tradições.”

Desde nosso hotel na cidade portuária de Gijon, conhecemos a pequena e oculta Ribasella e a não menos pequena e intrigante, mas reafeiçoada ao turismo, Cudilello. Ao reler as páginas de Nooteboom, como disse, retomo aqueles dias desfrutados nas Astúrias e minha leve ansiedade por chegar a Santa María de Naranco. Deixo-me guiar nessa revivência pelo autor do relato.

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Santa María de Naranco, Oviedo, Espanha. Foto: José Fontán

Nooteboom se hospeda em Oviedo, bebe sidra, come fabada, gosta dos lugares “agradavelmente escuros”, visita a catedral e celebra os tesouros que vê e que a maioria dos turistas que passeia pela Espanha desconhece, mas registra que o melhor o esperava nas colinas da cidade, quando encontra

“… uma das mais antigas igrejas cristãs que ainda existem, Santa María de Naranco, construída sob o reinado de Ramiro I (842-850) como aula regia, ainda durante sua vida habilitada como igreja. Em estas colinas há duas igrejas muito perto uma da outra, da mesma época, ambas do pré-românico, o estilo asturiano.

“Ainda é cedo quando o guia me deixa passar a Santa María. Há véus de nuvens sobre o vale e Oviedo jazz na lonjura. A construção é alta e dá impressão de uma elegância ligeira e extrema, apesar dos grandes blocos de arenito com que foi construída, toscos e desiguais. Que classe de reis eram esses? De onde tiravam os modelos para suas construções? A decoração faz pensar que é de Roma, a graça ligeira das duas fachadas abertas ri-se da obscuridade da Idade Média, e de fato não conheço nenhuma construção igual a esta. Abaixo estão os quartos de banho “para a guarda”, onde as dependências são mais bem fundadas e sólidas, mas acima, aonde só se pode chegar por uma escada exterior, no lado norte, tudo é, como o guia tão belamente diz, diáfano. E ele tem razão. O edifício é de pedra, mas de pedra diáfana, a luz e o ar podem atravessá-la e nele também se transformam, se veem afetados, e esta troca comove o visitante, que se encontra durante um tempo em outro tipo de luz, em outro ar e se torna meditativo, mas a um tempo eufórico, alegre e jubiloso pelas coisas que seguem existindo para contar algo (…).”

Essa passagem me fez recordar o prazer de sentir na palma da mão as paredes, alisar as colunas delgadas e os muros da construção. À maneira de Nooteboom, tento restituir o uso do edifício antes (conforme o guia nos disse, possivelmente como galpão de caça) e depois de ter sido convertido na linda igreja, e reter algo do abismo do tempo, da fé e dos anseios de quem entrou e saiu daquelas dependências há mil e tantos anos. Uma experiência como essa é o verdadeiro alimento da viagem, da viagem que me interessa.


Leia também, caso tenha apreciado este post: O que os guias de viagem não revelam — Ou um guia dos guias de viagens no turismo cultural.