O que os guias de viagem não revelam

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Como escolher um guia de viagem e tirar o melhor proveito das melhores publicações do gênero, assim como de outras fontes indispensáveis ao turista interessado em cultura — livros, jornais, internet e o que estiver à mão.  É do que trata o texto abaixo, parte do inédito Livro de Viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural


O QUE OS GUIAS DE VIAGEM DO DR. STRABO NÃO REVELAM

Os guias de viagem do Dr. Strabo vendem como pão quente na Holanda. O Guia da América do Norte e o Guia do Oeste e do Norte da Espanha contam entre dezenas de títulos publicados em centenas de edições e tiragem espetacular. Dr. Strabo é o alter ego e meio de vida do professor de “línguas mortas” Herman Mussert, tradutor dedicado dos poetas latinos Virgílio e Horácio . Do ponto de vista intelectual, Mussert e Strabo são como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se você é apaixonado por Lisboa, como o autor destas linhas, há de ver interesse nesta luta de egos. Acompanhe uma confissão de Mussert:

“Toda a cidade é um adeus. A borda da Europa, a última costa do primeiro mundo, é lá que o continente corroído afunda no mar, se dissolve na bruma infinita que o oceano faz lembrar, hoje. Esta cidade não pertence ao presente; aqui é mais cedo porque é mais tarde. O agora banal ainda não chegou; Lisboa é relutante. Esta deve ser a palavra. Esta cidade protela o momento da partida; é aqui que a Europa diz adeus a si mesma. Canções letárgicas, suave decadência, grande beleza. Memória, adiamento da metamorfose. Nenhuma dessas coisas entraria no Guia de viagem do Dr. Strabo. Eu mando os tolos para as tavernas de fado, para sua dose de saudade processada. Slauerhoff e Pessoa eu guardo para mim, ainda que não os mencione; guio os pobres coitados ao Mouraria e ao Brasileira, para uma xícara de café, e para o resto eu preferiria manter a boca fechada. Não direi uma palavra sobre as mudanças de alma do poeta alcoólico, para a persona líquida, multiforme que ainda percorre as ruas de Lisboa em todo o seu brilho sombrio, que se insinuou invisivelmente em tabacarias, embarcadouros, muros, cafés escuros onde Slauerhoff e ele facilmente poderiam estar juntos, sem saber.”

Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936) é poeta e romancista holandês desconhecido no Brasil. Fernando Pessoa, o enorme poeta dos heterônimos, a quem se voltará neste livro. A passagem acima foi extraída de A Seguinte História:, novela do escritor holandês Cees Nooteboom publicada em 1993 e vencedora do Prêmio Literário Europeu. Além de buscar a “alma” de Lisboa, o texto ilustra de modo original o limite dos guias de viagem. É preciso notar que Nooteboom, que também é poeta e viajante contumaz, escreveu, ele mesmo, diversos relatos de viagem pelo mundo, inclusive um sobre a Bahia, em 1968. Seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel.

Antes de melhor situar o alcance dos guias — como o turista não vive sem este bom serviço —, falemos um pouco deles e de seus complementos.

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Nos fundos da Casa Visconde de Chanceleiros (Sabrosa, Portugal). Foto de Antônio Siúves

Há guias muitos bons. Obrigado à feroz concorrência no mercado de viagens. Os melhores, entre Michelin, Lonely Planet, Time Out, Baedeker, Rough Guide, Frommer’s, Geoguia, Fodor’s e tutti quanti serão os mais atualizados. Neles, você achará, por óbvio, a informação que melhor quadre com seus planos, orçamento, sua curiosidade, suas preferências e seu humor.

A viagem cultural é cultivada pela aristocracia europeia há séculos. Do chamado Grand Tour da nobreza surgiu o embrião dos guias atuais, aí para o final dos 1600. Eram narrativas com observações sobre arte, arquitetura e antiguidades, geralmente dedicadas à Itália. Os guias como os conhecemos, com informação e avaliações estreladas, são da primeira metade dos 1800. (Goethe viaja à Itália apoiado no guia de viagem do historiador e crítico de arte Johann Jacob Volkmann, editado em Leipzig, em 1770).

Um dos mais velhuscos é o alemão Baedeker, que me deu o prazer apenas em 2013, em uma edição em inglês, quando me preparava para viajar à Andaluzia. Karl Baedeker publicou o primeiro livro para excursionistas com seu nome em 1830. O poeta norte-americano e Nobel de Literatura T.S. Eliot “homenageou” o guia no poema Burbank com um Baedeker: Bleistein com um charuto, escrito em Londres, no ano de 1919. Embora se refiram a um judeu, os versos parecem ironizar o gosto burguês pela viagem. É típico do antissemita e nariz- empinado Eliot. Eis duas das estrofes, na tradução de Ivan Junqueira:

Burbank cruzou uma pequena ponte
 E escolheu um hotel de custo baixo;
Volupina, a princesa, ali chegando,
 Uniu-se a ele, e Burbank veio abaixo.

(…)

De um modo ou de outro, assim era Bleistein:
 Cotovelos e joelhos com um vago
Arco alquebrado, as mãos espalmadas,
 Um vienense semita de Chicago.

Guardo dezenas de guias, que ainda vão me servir por muito tempo no que trazem de permanente e vai se repetindo a cada reedição. No Brasil, os estoques das livrarias em geral são limitados. Quanto antes você os encomendar, ou baixar em seu Kindle, melhor, já que alguns títulos terão de vir importados.

Ao planejar meu roteiro, gosto de cruzar avaliações e impressões distintas de três ou quatro guias. Embora a maior parte desses volumes seja escrita por equipes, há sempre um colaborador principal. Ele conhece mais intimamente a cidade ou uma parte da cidade retratada. Percorreu cada bairro, ruela e beco atrás de novidades para agradar você e o patrão.

O Lonely Planet, publicado no país pela Editora Globo, tem excelentes roteiros de Paris. Meus preferidos são os das galerias, mercados e a Volta literária no Quartier Latin. Em um par de horas, avistam-se os apartamentos onde James Joyce, Ernest Hemingway, Paul Verlaine, George Orwell e outros grandes autores do século 20 viveram e produziram suas obras.

O Time Out e o Rough Guide (editado pelo Publifolha) de Lisboa são enxutos e valiosos, como o Frommer’s de Buenos Aires. Da robusta e pesada edição Lonely Planet sobre a Itália, vou aos poucos e sem piedade extraindo os cadernos regionais, conforme minha excursão pela Bota.

Comparando as avaliações do Baedeker e o português Geoguia, ambos importados, pude fazer ótimas escolhas de hotéis na Andaluzia. Uma delas foi a Casa de los Azulejos, em Córdoba, com boas instalações, simpatia, um lindo pátio com jardins e fonte, a preço módico. Avaliações seguem critérios técnicos, mas sempre há um grau de subjetividade quando se conferem pontos, ou uma, duas ou três estrelas. Os juízos do guia alemão e do português são complementares na apreciação que cada leitor possa fazer deles.

Também gosto de mapas. Guardo-os aos montes em caixas e espalhados pela casa. Vão desde mapas da Europa inteira aos pequenos planos de cidades que nos dão nos escritórios de turismo. Como disse no capítulo anterior, prefiro conjugar aplicativos no celular com tecnologias tão boas quanto a roda, como é o livro. Não rejeito tablets e um dia quem sabe até venha “vestir” uns óculos da Google e o que mais se inventar. Mas não me furto ao prazer de usar a caneta colorida para demarcar caminhadas do hotel e endereços dos guias, ou traçar roteiros em um pedaço de mapa aberto na rua ou num café.

Não vejo muita graça no Google Street View. Muito raramente abro essa ferramenta para rever um lugar saudoso, exceto quando indispensável. A visão geral que um mapa nos oferece nos diz muito mais de onde estivemos e iremos. Às vezes lembram os filmes que assistimos e em alguma cena reencontramos uma praia, um bar ou esquina familiar.

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Enquanto folho e refolho os guias, faço incursões na internet. Em geral, confiro, como fazem milhares de leitores, as indicações das reportagens 36 Hours, do The New York Times, que saem nos fins de semana. Tirei dessa abençoada série ótimas dicas sobre o que ver, onde comer e me hospedar. Divirjo de seus avaliadores por vezes, mas os bendigo com mais frequência. Com sorte, à véspera de seu embarque para Hanói ou Chicago, o jornal soltará uma matéria fresquinha sobre uma dessas cidades, ajuizando o que há de mais novo e excitante por lá. Atualizar as indicações dos guias é a melhor serventia de seções como essa.

O jornalão norte-americano mantém uma editoria de viagem (Travel) provavelmente maior que as congêneres dos grandes jornais brasileiros somadas. Além de 36 Hours, publicam-se com regularidade despachos de seus críticos de artes, comida e vinhos.  A leitura do wine writer Isaac Asimov me guiou com grande proveito na Rioja e no Triângulo de Ouro do Jerez; uma reportagem assinada por Gisela Williams, de novembro de 2007, me chamou atenção para a entrada da região do Douro no mapa mundi dos grandes vinhos. (Para fazer justiça: entre minhas fontes sobre terroir, fermentação malolática e otras cositas más figura sempre o crítico brasileiro Jorge Lucki e sua página semanal no Valor Econômico.)

Graças a outro experto do NYT, o colunista Frank Bruni —escritor e jornalista polivalente, antes mandachuva da crítica de restaurantes do jornal — consegui recompensar uma noite a mais em Lisboa, em 2012, depois de problemas com um voo para Roma [leia mais sobre o episódio nos Diários].

Também navego no El País e The Guardian. Estão entre meus jornais favoritos e praticam com grande originalidade o jornalismo cultural voltado à viagem. Um correspondente do jornal britânico me deixou à vontade nas ruas de Logronho, no norte da Espanha, com raríssimos turistas à volta, a conferir o circuito de pintxos (tapas na língua basca, ou euskera) e a concorrência entre os bares das calles Laurel e San Agustín. Valorizo, com cuidado, as indicações do blog El Viajero, do El País. Certa vez, sugeri ao jornalista responsável a correção de alguns erros em um post sobre gastronomia mineira — e fui completamente ignorado: dois anos depois, os erros continuavam na página.

Buscas no Google e nos sites dos jornais pedem método e calma. Se o primeiro nos leva antes ao interesse de seus anunciantes ou ao que — supõem seus algoritmos metidos — sejam os nossos, os últimos empacam com frequência. Procuro associar precisamente meu objeto, por exemplo: NYT+vinhos+Douro+Portugal.

Entro devagar em sites e blogs de viagem. Há muito jabá na área (jabá é jargão entre jornalistas para agrados e propinas regulares oferecidos por empresas e governos). Tal praga, que infelizmente ainda acomete o jornalismo de viagem praticado no Brasil, contamina muito da informação que se põe na rede. [No final do livro há uma relação de endereços confiáveis e outras referências.]

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O Guia de Lisboa do Dr. Strabo, como vimos, não é o livro aberto da alma de Herman Mussert.  Ao comprar um guia, pagamos por informação objetiva e útil. O turista se vale dele para sondar o terreno, fazer escolhas, se planejar. O que faz cada um de nós perceber e experimentar a viagem deste ou daquele jeito — a despeito da beleza dos lugares — está além dele. O viajante conta com o repertório que tem para filtrar ideias e sensações. Cultura e arte são referências significantes, guias internos por assim dizer.

O leitor de Marcel Proust que for a Veneza será tentado a chegar até Pádua, distante apenas 15 minutos de trem da estação Mestre. Nem que seja para dar um pulo à Cappella degli Scrovegni, também chamada Arena, e paquerar os afrescos de Giotto. Além de repassar suas lições de historiada arte, há de se recordar do narrador de Em Busca do Tempo Perdido, nesta passagem do final de A Fugitiva —penúltimo dos sete livros que compõem o romance (a tradução é de Carlos Drummond de Andrade):

“(…) Na véspera de nossa partida, quisemos chegar até Pádua, onde se acham aqueles “vícios” e aquelas “virtudes” cujas reproduções me dera Swann; depois de atravessar, com o sol a pino, o jardim da Arena, entrei na capela dos Giotto, em que a abóbada inteira e os fundos da pintura a fresco são tão azuis que é como se também o dia radioso houvesse transposto o umbral em companhia do visitante, indo por um momento colocar na frescura da sombra o seu céu límpido, apenas um pouco mais escuro porque se desembaraçou dos raios dourados da luz, como nessas pausas breves que interrompem os dias mais claros, quando, sem que se visse qualquer nuvem, e tendo o sol virado sua pálpebra por um instante para mais longe, o azul, mas doce ainda, se obscurece. (…).”

O livrão de Proust pode não ser o melhor exemplo de literatura de viagem, embora a viagem seja um tema caro ao autor. Já os livros de Nooteboom e Sebald misturam memória, relato de viagem e história. Sebald, a propósito, também visita a capela Scrovegni. Está na página 69 de Vertigem outro tipo de perspectiva das pinturas que o turista que for a Pádua pode conferir. Em vez do encantamento que os afrescos do pintor florentino inspiram a Marcel (ou a um grande pintor do século passado: “Encontrei três reproduções de Giotto em Pádua, que envio a você. Giotto é para mim o ápice dos meus desejos” — de uma carta de Henri Matisse, já perto da morte, ao amigo Pierre Bonnard), o que admira o autor alemão, incomodado pelo calor dos infernos, é “o lamento silencioso erguido havia quase sete séculos pelos anjos que pairam sobre a infinita desventura”. Ele ainda observa que “em sua dor, os próprios anjos haviam franzido de tal modo as sobrancelhas que se poderia supô-los de olhos vendados”.

O narrador de A Seguinte História: viaja de Amsterdã a Lisboa e segue então de navio até o Rio Amazonas. Quem refizer o itinerário há de ter Mussert também como uma espécie de guia, apesar dele mesmo. Poderá então casar o gozo da viagem com o da leitura:

 “Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva.”

Em Austerlitz, Sebald deixa o leitor terrificado com a descrição da Centraal Station de Antuérpia e da arquitetura da Salle des pas perdus; espantado com as observações sobre a construção da nova Biblioteca Nacional de Paris; admirado com a descrição das paisagens do País de Gales; contemplativo, ao refazer um trajeto de trem na periferia de Londres ao chegar à Liverpool Station:

“Eu mirava a paisagem plana, quase sem árvores, os enormes campos marrons (…), as hortas, os arbustos desfolhados recobertos de clematites secas que crescem nos taludes (…) a feia visão dos fundos dos prédios enfileirados junto aos quais corre a ferrovia nos subúrbios da metrópole.”

Eu pensei nesta página ao chegar a Londres, quando o Eurostar começava a perder velocidade. A memória do texto me fez sentir, de certa maneira, mais ambientado ao desembarcar em St. Pancras num início de tarde chuvoso.

Bons livros de história começam onde a visão do guia de viagem já não enxerga. Danúbio, do germanista italiano Claudio Magris, acompanha o trajeto do rio europeu da nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. Em cada tópico ou parada, ele repassa as marcas da história e da cultura que vicejaram nas cidades às margens do rio de muitos nomes: Donau, Dunaj, Duna, Dunav, Dunărea, Dunay.

Com erudição, Magris reflete no diário de viagem sobre as marcas deixadas pelas obras de Kafka, Wittgenstein, Freud, Haydn, mas também pelos atos e omissões do carrasco nazista Adolf Eichmann e do Comandante em Auschwitz Rudolf Höss. Lemos o livro como roteiros para esquetes do “teatro do século” daquela civilização intricada. Em Linz, na Áustria, ao retratar o escritor Adalbert Stifter, ele, talvez sem se dar conta, vê a si próprio:

“De 1848 a 1868, ou seja, até sua morte, Stifter olhava das suas janelas para o Danúbio, a amada paisagem austríaca que lhe parecia conter séculos de história que se tornaram natureza, impérios e tradições absorvidos pela terra como folhas e árvores pulverizadas. (…).”

O gênero também está bem representado por A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal. O escritor descreve suas viagens por Londres, Paris, Viena e Tóquio para reconstituir os passos de sua família judia. O pretexto e contar a história dos proprietários de uma coleção de miniaturas japonesas. O turista que viajar a uma das três capitais encontrará grande valor na leitura dessa obra. [Leia mais sobre o livro em Peregrinações culturais.]

Arte e cinema ampliam do mesmo jeito o horizonte do turismo cultural. O observador atento de algumas paisagens de Renoir, Monet ou Pissarro terá uma visão dupla de certos recantos do Sena, ao se distrair em Paris. “É evidente que os olhos se formem em consonância com os objetos que divisaram desde a infância”, diz Goethe, ao refletir sobre a obra de Veronese e concluir que o artista “há de ver com maior clareza e limpidez do que outros homens”.

Ainda em Paris, ao se deixar levar pelas ruas do Marais e, à porta de uma velha escola, deparar a placa alusiva ao envio de seus ex-alunos aos campos nazistas, o cinéfilo talvez tente se apoiar em uma cena de Adeus, Meninos, de Louis Malle. Quando flanar por Roma, em cada esquina vai se ver assediado — e também reconfortado — pela memória de quilômetros de fotogramas rodados naquelas ruas e praças.

Perde-se muito ao zanzar por cidades europeias sem um domínio básico de arquitetura e história da arte. É dar mole à síndrome do viajante infeliz. Para o turista pronto haverá interesses dentro e fora dos museus. Saber identificar e apreciar os artifícios das construções — de ruínas etruscas ou grego-romanas ao arrojo dos prédios de Frank Gehry ou Norman Foster, com o gótico, o renascentista, o barroco e outros estilos a permear os séculos — ajuda a se pensar a ocupação do espaço urbano. Também é uma forma de abordar o ideário dos homens em cada época e compará-lo ao nosso.

O ciclo da viagem é mais rico para o turista que se deixa conduzi pela cultura. Para quem já rodou por livros, quadros e filmes, a vista do Grande Canal de Veneza será ainda mais excitante. Do camarote VIP franqueado por Shakespeares, Canalettos e Viscontis assistirá por um instante ao desfile dos sucessos que eternizaram a Serenissima Repubblica di Venezia. Ondas desbordantes de comércio, guerra,  tragédia, arte, e invenção vão inundar seus olhos.

O interesse cultural pode sim tornar um passeio por ruas de Paris ou Roma uma experiência estética em si. Presente e passado formam uma rede inextricável de vivos e mortos que se estende como por camadas geológicas.

Como diz o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, escrevendo sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 2014, “a Paris de [Patrick] Modiano, como a Dublin de Joyce é uma cidade literal e a metáfora de um estado de espírito”.  O viajante que tenha lido estes e outros autores não se prenderá às aparências. “Os aparecidos e desaparecidos povoam a literatura, e a cidade por onde se movem está igualmente feita de lugares reais e visíveis e outros que já na o existem”, diz Muñoz Molina no mesmo artigo.

Visto dos desfiladeiros das villas de Ravello, no sul da Itália, o mar Tirreno ressoa viagens de Ulisses cantadas por Homero. Estar em Paris, Berlim, Viena, Zurique ou São Petersburgo é um convite e uma oportunidade a considerar a saga marxista narrada por Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia.  Cenas de filmes de Fellini, Rossellini e Scola nos assombram em Roma tanto quanto a presença desconcertante do passado imperial em cada esquina.

A memória abre portas para o turista cultural. Os mapas do Google que nos guiam tornam-se rotas mais intrigantes se as sobrepomos às cartas de portulano que carregamos em nós.

O viajante que se deixa puxar pela memória vai entender melhor o mundo em que se mete — para o bem e para o mal. Pode ser pela glória e pela honra. Pode ser pela culpa ou nódoa que se enraízam na história de um país. A Paris ou a Berlim de hoje — para dizer isso de outra forma — não serão bem conhecidas se não forem ajuizadas na relação que ambas tiveram e têm com o flagelo do Nazismo. Quem percorrer a Espanha sem uma noção das diferenças culturais entre suas regiões autônomas ou a Itália — e não levar a em conta a indisposição entre sulistas e nortenhos — também estará exposto à síndrome do viajante infeliz.

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Leia também: apresentação do livro e fragmentos dos Diários e partes dos Souvenirs: Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença.

“Hineni, Hineni / Estou pronto, Senhor”, canta Leonard Cohen

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Rama/Creative Commons

So Long, Marianne

Em julho deste ano Leonard Cohen soube por uma amiga íntima da ex-mulher que Marianne estava à beira da morte, com câncer. Ela não havia falado da doença quando os dois conversaram pela última vez. Cohen então lhe escreve uma carta que começa assim (traduzo livremente): “Bem, Marianne, eis o tempo em que nossos corpos de tão velhos começam a cair aos pedaços. Creio que vou segui-la muito em breve. Agora saiba que estou tão perto que você pode segurar minha mão se me estender a sua”. Marianne viveu o bastante para ouvir a leitura da carta. A história é contada na revista americana The New Yorker.

“Seu dom ou gênio está em conexão com a música das esferas”, diz Bob Dylan sobre o amigo. Dylan deu uma rara entrevista, extensa e clara sobre a música de Cohen para o perfil de David Remnick. “Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim são tão geniais quanto suas letras”, comenta o Nobel de Literatura. “Mesmo as linhas de contraponto dão um caráter celestial e de elevação melódica a cada uma de suas canções. Até onde eu sei, ninguém fez nada parecido na música moderna. Inclusive uma de suas canções mais simples, como The Law, estruturada em dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais (…)”.

Cohen tem 82 anos e acaba de lançar um novo álbum, You Want It Darker. Tudo faz crer que o grande compositor canadense se despede. “Hineni, Hineni [aqui estou, em hebraico]/ Estou pronto, Senhor”, diz a canção-título.

Cohen merece um Nobel de Literatura.

Cohen tem razão sobre o que disse sobre Dylan na entrevista concedida ao El País. Sua obra é maior que o Nobel: “É como pôr uma medalha no Everest”. Não é que não mereça o prêmio. A academia sueca faz política, ignora a literatura e se apequena diante de uma estrela.



Um Nobel para João Gilberto

João mudou o mundo com seu jeito de cantar. Se não compôs muita nem grande poesia, além de Bim Bom, recria tudo que canta com seu violão revolucionário. A academia sueca premiou uma jornalista, um compositor, por que não reconhecer um inventor como João?



You Want It Darker

Leonard Cohen

If you are the dealer, I’m out of the game
If you are the healer, it means I’m broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, hineni
I’m ready, my lord

There’s a lover in the story
But the story’s still the same
There’s a lullaby for suffering
And a paradox to blame

But it’s written in the scriptures
And it’s not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They’re lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn’t know I had permission to murder and to maim
You want…


Publicação atualizada com a foto acima e a letra de You Want It Darker em 10/03/2017. A matéria referida de David Remnick pode ser lida em português na revista Piauí deste mês. Assinantes encontram aqui.

Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Uma entrevista (e um roteiro) imperdíveis

SteinerEm uma entrevista imperdível no Babelia do El País, traduzida pela versão brasileira do jornal, George Steiner comenta o roteiro essencial das ideias para a compreensão do mundo neste momento.

O filósofo e ensaísta literário, combalido ao 88 anos, mas perfeitamente lúcido, foi visitado em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, por Borja Hermoso.

Os temas da conversa tratam de questões que importam a quem queira se localizar sobre o chamado espírito da época.

O declínio da educação e a perda da memória; o dinheiro como um valor absoluto (“O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo”); a psicanálise em baixa conta:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”);

A centralidade da ciência:

“(…) Com certeza haverá duas ou três grandes novas descobertas científicas no campo da genética que introduzirão problemas de ordem moral terrivelmente complexos. Por exemplo: permitiremos que se manipulem as células de um feto?”;

A crise da política, visível com o fenômeno Donald Trump, o Brexit etc., e um alerta sobre as consequências de renunciarmos a ela:

(…) existe uma gigantesca abdicação da política. A política tem perdido terreno no mundo todo, as pessoas já não acreditam nela, e isso é muito perigoso. É Aristóteles quem diz: “Se você não quer entrar na política, na ágora pública, e prefere ficar em sua vida privada, então não venha se queixar depois de que são os bandidos que governam”;

A queda da tradição humanista da literatura e das artes:

(…) Se você e eu fôssemos cientistas, o tom da nossa conversa seria outro, seria muito mais otimista, pois hoje, toda semana a ciência descobre alguma coisa nova que não conhecíamos na semana passada. Em contrapartida –e isso que lhe digo é totalmente irracional, e espero estar enganado–, o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo, um Dante ou um Cervantes. Mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. Estamos muito distantes dos gigantes do passado. Espero estar enganado e que o próximo Proust ou Joyce esteja nascendo na casa aqui na frente! (…).

A vocação intelectual de Steiner “se compara à dos construtores de catedrais que reuniam, com perícia, e razão a técnica e a beleza e as punham a serviço de uma experiência mística”, diz Enrique Lynch em um comentário sobre o filósofo entrevistado no Babelia e não traduzido pelo El País Brasil.

Quem já teve o prazer de ler um ensaio de Steiner entende, como diz Lynch, a maneira única como ele consegue nos levar pela mão através do espaço da cultura europeia, tanto a clássica como a moderna, e nos fazer participar de uma espécie de rito iniciático.

Em outro comentário, Jordi Llovet define Steiner como “um humanista crepuscular” e “polímata renascentista”.

Um outro trecho da entrevista é ilustrativo sobre a diferença que faz a inteligência de um mestre, interessada em compreender o mundo antes de enunciar grandes verdades.

Pergunta – O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?
Resposta – Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, a multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Mohammed Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Mohammed Ali.

Li esta entrevista no sábado. No domingo fui tomar um pouco de sol nas ruas de Belo Horizonte. Me assustei com o parque fantasma que virou a praça da Savassi. Não havia um café ou uma banca de jornal abertos às onze horas da manhã.

Há muito arrancaram daquele coração da cidade seus dois cinemas e restam duas ou três livrarias de tantas que existiram.

BH é um fenômeno único de pobreza cultural, de fragilidade e incapacidade de resistir ao filistinismo tecnológico em voga.


P.s.: Recomendo aqui mais uma vez , senão toda a série de vídeos de o melhor programa de TV já feito, ao menos a de George Steiner.

Um convite quase irresistível

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Detalhe do tríptico “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri

“Há que se chegar o quanto antes ao Museu do Prado para não perder um detalhe, uma pincelada, um calafrio teológico e a gargalhada de El Bosco, o riso nos ossos”, recomenda Antonio Muñoz Molina.

O convite do colunista do Babelia quase faz o autor deste jornal a comprar uma passagem para Madri.

E valeria cada tostão apenas passar uma manhã inteira no Prado e percorrer a exposição que celebra, até setembro próximo, 500 anos da morte do artista, a 9 de agosto de 1516.

Os espanhóis, como os portugueses, têm a sabedoria de incorporar o que amam à familiaridade do idioma. Nós, ao contrário, nos perdemos da tradição e passamos a atestar nossos recalques em disputas pela melhor pronúncia seja em inglês, francês ou numa língua eslava.

Na Espanha, o pintor Doménikos Theotokópoulos tornou-se El Greco.

Hieronymus Bosch, pseudônimo do artista flamengo renascentista Jeroen van Aeken, é chamado deliciosa e simplesmente El Bosco.

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Detalhe do tríptico “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri

Molina comenta que pode ser um erro ver Bosch como um artista adiantado em relação a seu tempo, genial a ponto de antecipar temas do Surrealismo e figurar o inconsciente psicanalítico.

O mais provável, ele diz, é que o artista se distinga não pela modernidade, mas justamente pelo relativo anacronismo em relação às inovações de seus mais ou menos contemporâneos Dürer e Leonardo da Vinci, por exemplo.

Referindo-se Mikhail Bakhtin, Molina acrescenta que a obra de Bosch retrata um universo anterior à cultura visual e literária do Renascimento e à separação hierárquica, introduzida pelo movimento, entre alta e baixa cultura, sagrado e profano, erudito e vulgar.

Sua imaginação e religiosidade se enraizaram na vida comunitária, nas procissões que misturavam o litúrgico e o pagão, na poesia oral e nas festas e atrações de feira.

Seja como for, Bosch, El Bosco me comove e fascina pela profusão do imaginário e a precisão de suas pinceladas.

Perto de seus mosaicos onde vida e morte dançam animadamente pelo tempo afora, as sacadas freudianas dos surrealistas me parecem antigas e esquecidas brincadeiras de crianças.

E você, vai a Madri?

Vargas Llosa volta à Cisjordânia e ao jornalismo

Llosa

O escritor Mario Vargas Llosa, 80 anos, retomou recentemente sua veia jornalística, ao viajar à Cisjordânia para escrever sobre o problema dos territórios ocupados por Israel em 1967, há quase, portanto, 50 anos.

No próximo dia 30, o El País começa a publicar uma série com seus relatos.

Na coluna quinzenal que envia ao jornal espanhol, deste domingo, Vargas Llosa dá uma espécie de pontapé inicial nessa cobertura.

Segue o primeiro parágrafo do texto em português.

Os justos de Israel

Yehuda Shaul tem 33 anos, mas parece ter 50. Viveu e vive com tanta intensidade que devora os anos, como os maratonistas os quilômetros. Nasceu em Jerusalém, numa família muito religiosa, e é um de 10 irmãos. Quando o conheci, há 11 anos, ainda usava quipá. Era um jovem patriota, que deve ter se destacado no Exército enquanto cumpria o serviço militar, pois, ao terminar os três anos obrigatórios, o Tsahal lhe propôs fazer um curso de comando e ficou mais um ano nas fileiras, como sargento. Ao retornar à vida civil, da mesma forma que muitos jovens israelenses, viajou à Índia, para clarear as ideias. Lá refletiu e pensou que seus compatriotas ignoravam todo o mal feito pelo Exército nos territórios ocupados, e que sua obrigação moral era torná-lo público.

Continue a ler no El País Brasil.