“Hineni, Hineni / Estou pronto, Senhor”, canta Leonard Cohen

leonard_cohen_2127-1.jpg

Rama/Creative Commons

So Long, Marianne

Em julho deste ano Leonard Cohen soube por uma amiga íntima da ex-mulher que Marianne estava à beira da morte, com câncer. Ela não havia falado da doença quando os dois conversaram pela última vez. Cohen então lhe escreve uma carta que começa assim (traduzo livremente): “Bem, Marianne, eis o tempo em que nossos corpos de tão velhos começam a cair aos pedaços. Creio que vou segui-la muito em breve. Agora saiba que estou tão perto que você pode segurar minha mão se me estender a sua”. Marianne viveu o bastante para ouvir a leitura da carta. A história é contada na revista americana The New Yorker.

“Seu dom ou gênio está em conexão com a música das esferas”, diz Bob Dylan sobre o amigo. Dylan deu uma rara entrevista, extensa e clara sobre a música de Cohen para o perfil de David Remnick. “Quando as pessoas falam sobre Leonard, não mencionam suas melodias, que para mim são tão geniais quanto suas letras”, comenta o Nobel de Literatura. “Mesmo as linhas de contraponto dão um caráter celestial e de elevação melódica a cada uma de suas canções. Até onde eu sei, ninguém fez nada parecido na música moderna. Inclusive uma de suas canções mais simples, como The Law, estruturada em dois acordes fundamentais, tem linhas de contraponto essenciais (…)”.

Cohen tem 82 anos e acaba de lançar um novo álbum, You Want It Darker. Tudo faz crer que o grande compositor canadense se despede. “Hineni, Hineni [aqui estou, em hebraico]/ Estou pronto, Senhor”, diz a canção-título.

Cohen merece um Nobel de Literatura.

Cohen tem razão sobre o que disse sobre Dylan na entrevista concedida ao El País. Sua obra é maior que o Nobel: “É como pôr uma medalha no Everest”. Não é que não mereça o prêmio. A academia sueca faz política, ignora a literatura e se apequena diante de uma estrela.



Um Nobel para João Gilberto

João mudou o mundo com seu jeito de cantar. Se não compôs muita nem grande poesia, além de Bim Bom, recria tudo que canta com seu violão revolucionário. A academia sueca premiou uma jornalista, um compositor, por que não reconhecer um inventor como João?



You Want It Darker

Leonard Cohen

If you are the dealer, I’m out of the game
If you are the healer, it means I’m broken and lame
If thine is the glory then mine must be the shame
You want it darker
We kill the flame

Magnified, sanctified, be thy holy name
Vilified, crucified, in the human frame
A million candles burning for the help that never came
You want it darker

Hineni, hineni
I’m ready, my lord

There’s a lover in the story
But the story’s still the same
There’s a lullaby for suffering
And a paradox to blame

But it’s written in the scriptures
And it’s not some idle claim
You want it darker
We kill the flame

They’re lining up the prisoners
And the guards are taking aim
I struggled with some demons
They were middle class and tame
I didn’t know I had permission to murder and to maim
You want…


Publicação atualizada com a foto acima e a letra de You Want It Darker em 10/03/2017. A matéria referida de David Remnick pode ser lida em português na revista Piauí deste mês. Assinantes encontram aqui.

Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Uma entrevista (e um roteiro) imperdíveis

SteinerEm uma entrevista imperdível no Babelia do El País, traduzida pela versão brasileira do jornal, George Steiner comenta o roteiro essencial das ideias para a compreensão do mundo neste momento.

O filósofo e ensaísta literário, combalido ao 88 anos, mas perfeitamente lúcido, foi visitado em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, por Borja Hermoso.

Os temas da conversa tratam de questões que importam a quem queira se localizar sobre o chamado espírito da época.

O declínio da educação e a perda da memória; o dinheiro como um valor absoluto (“O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo”); a psicanálise em baixa conta:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”);

A centralidade da ciência:

“(…) Com certeza haverá duas ou três grandes novas descobertas científicas no campo da genética que introduzirão problemas de ordem moral terrivelmente complexos. Por exemplo: permitiremos que se manipulem as células de um feto?”;

A crise da política, visível com o fenômeno Donald Trump, o Brexit etc., e um alerta sobre as consequências de renunciarmos a ela:

(…) existe uma gigantesca abdicação da política. A política tem perdido terreno no mundo todo, as pessoas já não acreditam nela, e isso é muito perigoso. É Aristóteles quem diz: “Se você não quer entrar na política, na ágora pública, e prefere ficar em sua vida privada, então não venha se queixar depois de que são os bandidos que governam”;

A queda da tradição humanista da literatura e das artes:

(…) Se você e eu fôssemos cientistas, o tom da nossa conversa seria outro, seria muito mais otimista, pois hoje, toda semana a ciência descobre alguma coisa nova que não conhecíamos na semana passada. Em contrapartida –e isso que lhe digo é totalmente irracional, e espero estar enganado–, o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo, um Dante ou um Cervantes. Mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. Estamos muito distantes dos gigantes do passado. Espero estar enganado e que o próximo Proust ou Joyce esteja nascendo na casa aqui na frente! (…).

A vocação intelectual de Steiner “se compara à dos construtores de catedrais que reuniam, com perícia, e razão a técnica e a beleza e as punham a serviço de uma experiência mística”, diz Enrique Lynch em um comentário sobre o filósofo entrevistado no Babelia e não traduzido pelo El País Brasil.

Quem já teve o prazer de ler um ensaio de Steiner entende, como diz Lynch, a maneira única como ele consegue nos levar pela mão através do espaço da cultura europeia, tanto a clássica como a moderna, e nos fazer participar de uma espécie de rito iniciático.

Em outro comentário, Jordi Llovet define Steiner como “um humanista crepuscular” e “polímata renascentista”.

Um outro trecho da entrevista é ilustrativo sobre a diferença que faz a inteligência de um mestre, interessada em compreender o mundo antes de enunciar grandes verdades.

Pergunta – O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?
Resposta – Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, a multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Mohammed Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Mohammed Ali.

Li esta entrevista no sábado. No domingo fui tomar um pouco de sol nas ruas de Belo Horizonte. Me assustei com o parque fantasma que virou a praça da Savassi. Não havia um café ou uma banca de jornal abertos às onze horas da manhã.

Há muito arrancaram daquele coração da cidade seus dois cinemas e restam duas ou três livrarias de tantas que existiram.

BH é um fenômeno único de pobreza cultural, de fragilidade e incapacidade de resistir ao filistinismo tecnológico em voga.


P.s.: Recomendo aqui mais uma vez , senão toda a série de vídeos de o melhor programa de TV já feito, ao menos a de George Steiner.

Um convite quase irresistível

El_jardín_de_las_Delicias,_de_El_Bosco (detalhe2)

Detalhe do tríptico “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri

“Há que se chegar o quanto antes ao Museu do Prado para não perder um detalhe, uma pincelada, um calafrio teológico e a gargalhada de El Bosco, o riso nos ossos”, recomenda Antonio Muñoz Molina.

O convite do colunista do Babelia quase faz o autor deste jornal a comprar uma passagem para Madri.

E valeria cada tostão apenas passar uma manhã inteira no Prado e percorrer a exposição que celebra, até setembro próximo, 500 anos da morte do artista, a 9 de agosto de 1516.

Os espanhóis, como os portugueses, têm a sabedoria de incorporar o que amam à familiaridade do idioma. Nós, ao contrário, nos perdemos da tradição e passamos a atestar nossos recalques em disputas pela melhor pronúncia seja em inglês, francês ou numa língua eslava.

Na Espanha, o pintor Doménikos Theotokópoulos tornou-se El Greco.

Hieronymus Bosch, pseudônimo do artista flamengo renascentista Jeroen van Aeken, é chamado deliciosa e simplesmente El Bosco.

El_jardín_de_las_Delicias,_de_El_Bosco (detalhe)

Detalhe do tríptico “O Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch, no Museu do Prado, em Madri

Molina comenta que pode ser um erro ver Bosch como um artista adiantado em relação a seu tempo, genial a ponto de antecipar temas do Surrealismo e figurar o inconsciente psicanalítico.

O mais provável, ele diz, é que o artista se distinga não pela modernidade, mas justamente pelo relativo anacronismo em relação às inovações de seus mais ou menos contemporâneos Dürer e Leonardo da Vinci, por exemplo.

Referindo-se Mikhail Bakhtin, Molina acrescenta que a obra de Bosch retrata um universo anterior à cultura visual e literária do Renascimento e à separação hierárquica, introduzida pelo movimento, entre alta e baixa cultura, sagrado e profano, erudito e vulgar.

Sua imaginação e religiosidade se enraizaram na vida comunitária, nas procissões que misturavam o litúrgico e o pagão, na poesia oral e nas festas e atrações de feira.

Seja como for, Bosch, El Bosco me comove e fascina pela profusão do imaginário e a precisão de suas pinceladas.

Perto de seus mosaicos onde vida e morte dançam animadamente pelo tempo afora, as sacadas freudianas dos surrealistas me parecem antigas e esquecidas brincadeiras de crianças.

E você, vai a Madri?

Vargas Llosa volta à Cisjordânia e ao jornalismo

Llosa

O escritor Mario Vargas Llosa, 80 anos, retomou recentemente sua veia jornalística, ao viajar à Cisjordânia para escrever sobre o problema dos territórios ocupados por Israel em 1967, há quase, portanto, 50 anos.

No próximo dia 30, o El País começa a publicar uma série com seus relatos.

Na coluna quinzenal que envia ao jornal espanhol, deste domingo, Vargas Llosa dá uma espécie de pontapé inicial nessa cobertura.

Segue o primeiro parágrafo do texto em português.

Os justos de Israel

Yehuda Shaul tem 33 anos, mas parece ter 50. Viveu e vive com tanta intensidade que devora os anos, como os maratonistas os quilômetros. Nasceu em Jerusalém, numa família muito religiosa, e é um de 10 irmãos. Quando o conheci, há 11 anos, ainda usava quipá. Era um jovem patriota, que deve ter se destacado no Exército enquanto cumpria o serviço militar, pois, ao terminar os três anos obrigatórios, o Tsahal lhe propôs fazer um curso de comando e ficou mais um ano nas fileiras, como sargento. Ao retornar à vida civil, da mesma forma que muitos jovens israelenses, viajou à Índia, para clarear as ideias. Lá refletiu e pensou que seus compatriotas ignoravam todo o mal feito pelo Exército nos territórios ocupados, e que sua obrigação moral era torná-lo público.

Continue a ler no El País Brasil.

Estaremos mais ignorantes e narcisistas?

Estamos todos nus na era da internet, diz a El País o jornalista britânico Andrew Keen, de 56 anos, atração na Feria do Livro de Madri com seu “A Internet não É a Resposta”, que me deu vontade ler.

Há no mundo uma crescente literatura crítica à internet e seus produtos, mas ainda escassa no Brasil.

internet em madrid

Keen procura sustentar em sua obra que a internet “incrementa monopólios, desigualdade, narcisismo e vigilância”:

1. O Vale do Silício e seus gurus se aproveitaram de todos nós para enriquecer com promessas de um mundo melhor, mais livre e democrático (ele cita no livro uma pesquisa do instituto Pew que mostra que 90% dos norte-americanos consideram que a internet foi benéfica para sua existência).

2. A internet está agravando a desigualdade entre ricos e pobres.

3. No longo prazo, haverá uma gigantesca crise mundial de desemprego com as máquinas inteligentes que estão sendo criadas e serão capazes, inclusive, de substituir a classe média em tarefas mais especializadas;

4. Vivemos uma economia de vigilância, na qual somos o produto, convertidos em dados que Google (cujos executivos assumem que almejam “nos conhecer melhor do que nós mesmos”) e Facebook vendem a seus clientes para fazerem publicidade.

5. Estamos mais mal informados, ignorantes e narcisistas.