Ian McEwan e a ostentação narrativa (1)

McEwan

O escritor britânico Ian McEwan. Foto: Creative Commons

Ian McEwan me faz pensar num campeão de fisiculturismo narrativo, num Schwarzenegger do romance.

Cada vez mais o vejo como um escritor dado a exibir sua fabulosa musculatura literária num palco onde, sem querer, olimpicamente se distancia do leitor, seja ele ou não ignaro.

Em tantas páginas, saltam-lhe dos bíceps e peitorais inflados a grossa trama venosa da inteligência ficcional e estupenda cultura capaz de dominar da física de partículas à vitivinicultura, passando pelo contraponto musical e o que mais desejar.

A ostentação e o esbanjamento, creio, frequentemente tornam nebulosos personagens frágeis e descartáveis. Não consigo me imaginar relendo sua obra.

Agora, referenciar este seu último livro com o Memória Póstumas de Brás Cubas, como escreveram na orelha de Enclausurado, é o fim da picada. Machado não merece.

Não é justo exigir demasiado do drama cômico de fôlego curto sobre o feto filosófico e gourmet entrado no nono mês de gestação, a refletir sobre a picaretagem da mãe com seu amante e todos os enroscos que herdará fora do útero.

Noveleta original e de leitura agradável, Enclausurado me soa o equivalente a um divertimento musical, um scherzo, para usar uma metáfora que McEwan aprovaria. Apenas isso.

Penso que falta ao autor de ótimos livros (Reparação, Sábado, Na Praia) algo do prodígio e da ousadia de titãs da ficção com os quais alguns críticos o comparam.

McEwan carece da generosidade de autores que pudessem retratar — no século 21, no estágio atual ciência etc. — nossa espécie não apenas como primatas altamente complexos e encalacrados na vida, mas, também, como as almas cariadas que continuamos ser.

Um tipo de escritor que desgraçadamente anda em falta.

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Ian McEwan e a ostentação narrativa (2)

Na madruga seguinte à leitura de Enclausurado terminei A Balada de Adam Henry, livro anterior de Ian McEwan.

Essa novela é mais interessante, ainda que termine um tanto chocha.

A juíza Fiona Maye e o rapaz testemunha de Jeová são personagens (ficcionais) de carne e osso, ela mais sólida que o herói, diga-se.

O próprio enredo e as lições de direito familiar são verossímeis.

Ok, mas McEwan é recorrentemente chato na ambientação.

Na Balada ele poupa o leitor de seu cabedal enófilo, destilado no Enclausurado com a verve de um Robert Parker.

Já para o fim da narrativa, cede ao vezo e prende-se à própria sabedoria de técnica musical, quase que a se esquecer da trama, e do pobre leitor analfabeto em contraponto.

E tome frivolidades como o desjejum do casal Fiona e Jack, no qual o café há muito era preparado “com grãos da  Colômbia de alta qualidade”, com o leite saído da máquina poderosa e derramado morno em suas canecas finas.

Mas, aos diabos, me ocorre que estou saindo aos meus antepassados ao envelhecer. Um rabugento cada dia menos tolerante com manias alheias.

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