O ano do VAZIO

EDIÇÃO DE FIM DE ANO

Jurupoca_52. 18/12/2020 a 7/1/2021. Ano 2

Uma galeria vazia, foto via Widewalls

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Eu sei sobre o Natal. Bimbalham os sinos etc. Mas balanços são um saco. Deixo pra revista Time, que elegeu Biden e Kamala personalidades do ano.

Em 20 de janeiro, puta merda, nos livramos (talvez provisoriamente) do balofo espantalho alaranjado que assombrou o mundo nos últimos 4 anos.

2020 é o ano da peste.

2020 é o ano do pemba.

2020 é no ano do Jumento, ou seja, mais um ano de Sua Excrescência jumentíssima, Caveirão.105mm, e toda a récua, a tropa de animais de carga (mesmo que cavalgaduras, corja, súcia, quadrilha, carcaria e malta).

Mas, sobretudo, 2020 é o ano do VAZIO!

***

Essa derradeira carta de 2020 saiu meio excêntrica, fora do padrão, se a Jurupoca possui algum.

A leitora sabe como um influenciador analógico segue à risca os mandamentos do marketing digital.

A gente tem de se dar por realizado quando 2 ou 3 abnegados clicam aqui. É um marco, uma festa na redação, tem champanhe George Albert e tudo.

E convenhamos, é triste fechar 2020 num registro meditabundo, você me perdoe. Mas não há o que fazer.

Fomos parar num cul-de-sac, o fundo do saco, beco sem saída.

É que a Ju está pra lá de pra frente e está me passando pra traz.

Decidida a se supermodernizar, ela só entra escondida no Face e no Insta, que é pra ninguém reparar. Mas acabo notando. E relevo que meus concertos de flauta já não lhe despertem emoção, e menos ainda, ó, pavor, lhe acendem o fogo.

Ih, que coisa mais esquizoide! Parece que bebe!

Que balda é essa de falar da Ju, da Jurupoca, desse jeito — você, com juízo e razão, haverá de se perguntar —, como se quem escrevesse não fosse a própria escritura?

E quem disse que é?

Assim como não era autor do Jornal do Siúves, e esclareci isso bem lá atrás, acho, não sou autor da Jurupoca.

Quem é então? Sei lá. Pierre Menard, autor do Quixote segundo o Borges? Vai ver.

Coisas da vida. Mas não bebo para escrever. Nunca dá certo.

Mas a Ju me deixa triste e cabisbaixo e umas tantas vezes me parte o coração. Bom rapaz, faço que não a vejo pular a cerca digital.

Não que eu seja santo. A Ju talvez, coitada, apenas reaja a certas inconstâncias autorais, como quem navega entre a ilha de Lia e o leito de Rosa, ou oscila entre Nize e Estela e ela (você entenderá essas referências no Intervalo).

Assim se passou mais este tal de 2020, cujos zeros são sumidouros de dois pobres patinhos na lagoa diante dos nossos olhos.

Como encarar um áporo, um problema sem solução, o drama que o leitor e a leitora da carta, verdadeiros mártires, têm acompanhado aqui como um seriado de terror?

Já foi mais fácil.

Antes, bem antes, alguém fumava um maço de Minister por dia e na hora do arrocho fumava dois, se ferrava no grosope, como dizia adoravelmente seu Joviano, saía por aí, lia um romance, cometia um poema, rodava até furar um LP de Leonardo Cohen ou Nelson Ned, e, dado a esportes mais radicais, recorria a um mercado generoso, eternamente rico em subterfúgios estupefacientes, da marijuana ao cheirinho da Loló ou Lança, do ácido à psilocibina, do chá de lírio às papoulas da terra do fogo, no cantar de cátedra do philosophy doctor Zé Ramalho da Paraíba.

Pelo menos esse era o padrão da juventude, e a juventude, como disse celebre e sabiamente Bernard Shaw, é a coisa mais preciosa na vida. Pena que é desperdiçada com os jovens.

Mas e hoje? O samba é diferente, cadenciado, e a batida é escatológica (no sentido filosófico, ao menos). Ensaboa, mulata, ensaboa.

Um alienista vai logo te ordenar um upgrade no antideprê e repor seu armarinho de reguladores mórficos e aplainadores de picos ansiosos. Assim se enquadra um cristão à ordem do dia e ao espírito do tempo.

Ah, naturalmente, vem os adendos adverbiais: se alimentar bem e ricamente, praticar sexo, exemplarmente, fazer terapia, ginástica, comer abacate, tudo regularmente, fazer meditação, profundamente, fazer coaching, necessariamente, e perseverar, positivamente, numa vida social plena e higiênica, certamente. Isso só pra começar. Seguramente, esse é o caminho da resiliência e da santidade aos 115 anos. Esse é, meramente, seu investimento, como se diz agora.

Num caso ou outro, no vai da valsa ou rock’n’roll primaveril de trasanteontem e o atual samba quadrado de agora, texto e subtexto se confundem numa algaravia pós-dodecafônica.

E é o maior barato!

Se esse caso não tem solução, se a equação não tem saída, resta o texto como variante da vida vivida. É o que chamo escrevidas.

Uma das maiores lorotas do vulgo é que só se vive uma vez.  Poucas e boas. Conta outra, bro.

Vivemos uma sucessão de vidas,  uma depois da outra, e uma sucessão de eus, um depois do outro, donde o autoengano da uniformidade, de que somos seres únicos.

Vai ver daí pintou o aforismo de Cioran: “Sem a ideia do suicídio há temos eu tinha me matado.”

O segredo é não ter pressa. Para ir ao outro bairro, como diz um autor espanhol, não é o caso de pegar o atalho do suicida. “Não reza a máxima que a única coisa segura na vida são a morte e os impostos?”, lembra o Carlos Castro.  Pois é. “Pra que precipitar os acontecimentos?”

E por que não ouvir os 4 Impromptus de Schubert, aqui com Alfred Brendel?

E por que não rever Tom Jobim e Leila Pinheiro ensaiarem a Valsa brasileira (Edu Lobo e Chico Buarque) para a gravação do Songbook de Edu Lobo?

E por que não ouvir o professor Davi Arrigucci Jr dizer o Áporo na exata batida drummondiana?

E por que não se segurar no galho da Ju?

E por que não ser o autor da Ju?

Boas festas!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vertigem: do Financial Times a O Tempo

Leio no El País um elogio à publicação dos diários de Lionel Barber, celebrado e respeitado editor do Financial Times (2005-2020). A independência jornalística para a saúde financeira, permanência e vitalidade de um veículo de imprensa é um truísmo. Os mitológicos anos de Ben Bradlee à frente do Washington Post foram parar no cinema em um filme como Todos os Homens do Presidente. O editor Alan Rusbridger, é bem sabido, deu grandeza, respeitabilidade e admiração mundiais ao bicentenário The Guardian enquanto se manteve no cargo (1995-2015). Embora no Brasil tenhamos veículos respeitáveis e esforçados, estamos longe do padrão anglo-saxônico. Falo como observador e jornalista cuja experiência concreta nunca ultrapassou a imprensa regional, que é o inferno de toda e qualquer pretensão ao Jornalismo digno do nome. O lançamento em Minas de O Tempo, do empresário Vittorio Medioli, em 1996, onde durei dez anos, trouxe empregos, bons salários e abriu o mercado das ilusões. Nunca me esqueço, apenas alguns anos depois, de uma reunião no gélido e mofado auditório do jornal em Contagem, na avenida Babita Camargos. Enfrentávamos mais uma de tantas crises, com passaralhos, choro e ranger de dentes. Medioli, agora prefeito reeleito de Betim, subiu ao palco como mandachuva imperial para reagir às nossas reivindicações. Ainda o ouço profetizar na sua fala mansa, com forte sotaque de italiano nortenho (a imprensa italiana, a propósito, nunca foi grande coisa): “Vocês vão acabarrr na sarrrjeta”. Na batata! O vaticínio valeu para nós, jornalistas desempregados ou ganhando bem a vida em assessorias de imprensa e relações públicas que parasitam o jornalismo, quando ainda não capengando no trabalho precário em jornais que morreram e ainda respiram, no dizer de Caetano Veloso (com outras palavras) sobre o Jornal do Brasil. Valeu para o jornalismo regional mineiro. Valeu para montes de jornalecos que o Google não salvará.

Um país apedrejado

Os editorialistas do Estadão seguem afiados: “Desde sua posse, mas especialmente em meio à pandemia de covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não se comportou em nenhum momento como se soubesse o que fazer com o poder que os eleitores lamentavelmente lhe conferiram em 2018. Bolsonaro não preside a República; depreda-a – e nisso é coadjuvado não somente pelos fanáticos camisas pardas bolsonaristas, mas por muitos brasileiros comuns que, por ignorância do que vem a ser uma República, respaldam a vandalização da Presidência e, por extensão, da própria democracia.” Primeiro parágrafo de O demolidor da República e seus cúmplices, publicado nesta quinta-feira (17). Ouro puro.

O suspense do ano

Não vi em 2020 outra série de ação melhor que a britânica Gangues de Londres, Gangs of London em português corrente, no Starzplay/Prime Video, já no quinto episódio. Seus criadores, Gareth Evans e Matt Flannery, parecem ter feito a escolinha do professor Martin Scorsese e tomado lições com Francis Ford Coppola e Quentin Tarantino. Ainda há toques da saga Bourne e, surpreendentemente, a inspiração de Jogos de Tronos em um entretenimento adulto. Cada capítulo transcorre com a tensão e urgência do grande suspense. A violência abusiva é posta a serviço da estética, é coreografada. O quarto episódio termina como um épico, uma sequência de alta voltagem de fato digna do Scorsese de Os Bons Companheiros ou Casino. Prendemos o fôlego diante da precisão, do desempenho de cada ator na expressão atônita dos personagens ao ver o sacro ambiente familiar, literalmente a sala de jantar da família Wallace durante uma confraternização, se converter em zona de guerra. No capítulo seguinte entendemos melhor aquele inferno doméstico. A série traz novo alento a um gênero precocemente decante, hoje dominado por produções medíocres, pueris e novelescas.

Le Carré

A morte de David Cornwell, o escritor John Le Carré, mereceu obituários pífios na imprensa brasileira. Mais um atestado da falência do nosso jornalismo cultural. A obra de Le Carré realmente nada tem a ver com  o “glamour” de James Bond, como repetiram feito matracas. O que não se disse é que o romance propriamente de espionagem ganhou, com o autor, um caráter literário filiado à grande tradição da ficção inglesa. Paulo Francis era seu fã, e não é que fizesse por menos. Punha nas alturas o livro Tinker, Taylor, Soldier, Spy (1974), no Brasil O espião que sabia demais, em Portugal A toupeira, muito bem transposto para o cinema em 2011 por Tomas Alfredson. O livro é considerado o mais perfeito de Le Carré também por Rafael Narbona. Mas Francis dizia que Le Carré era “influenciadíssimo pelo Graham Green jovem, dos ‘entretenimentos’, mas sem a destreza literária”, o que é mais ou menos válido. E reclamava que o britânico começara a “ficar balofo como escritor” a partir de Um espião perfeito (1986). Francis desgraçadamente não viveu para ler O alfaiate do Panamá ou Nosso fiel traidor. Talvez mudasse de ideia.

De Alvarenga para Chico

O tema do coração dividido por dois amores é vasto e velho. Mas se renova numa tabelinha que me ocorre, num verdadeiro overlapping (alguém aí tem idade para se lembrar dos esquemas do técnico Cláudio Coutinho?). O lance de um soneto de Alvarenga Peixoto, um poeta do século 18, me traz uma canção redonda de Chico Buarque e Edu Lobo.

Bilhete de Edu Lobo para Chico Buarque. ARQUIVO TOM JOBIM.

Na ilha de lia, no barco de rosa foi composta para Dança da meia-lua, balé do Teatro Guaíra roteirizado por Ferreira Gullar. Essa mesma trilha rendeu a maravilha que é Valsa brasileira, um clássico moderno.

A “toada mineira”, como diz Edu Lodo no bilhete acima, está originalmente no LP Dança da meia-lua (Som Livre), de 1988. No ano seguinte, “Na ilha de Lia” foi incluída no disco Chico Buarque (RCA/BMG/Sony).

Minha gravação preferida é mais recente, faixa de Dos Navegantes, álbum delicioso de Edu Lobo, Romero Lubambo e Mauro Senise lançado pela Biscoito Fino em 2017.

Edu Lobo canta acompanhado por Bruno Aguilar no contrabaixo e os dois mestres que são Mauro Senise (sax alto) e Romero Lubambo (violão).

O arranjo de Cristóvão Bastos dá um colorido propriamente lírico e etéreo à partitura de Edu que ilustra esta edição. O tema me pareceu meio negligenciado pelo grande Luiz Claudio Ramos, maestro da banda de Chico Buarque, que já era seu arranjador no álbum 1989.

ESTELA E NIZEAlvarenga Peixoto

Eu vi a linda Estela, e namorado
Fiz logo eterno voto de querê-la;
Mas vi depois a Nize, e a achei tão bela
Que merece igualmente o meu cuidado.

A qual escolherei, se neste estado
Não posso distinguir Nize de Estela?
Se Nize vir aqui, morro por ela;
Se Estela agora vir, fico abrasado.

Mas, ah! que aquela me despreza amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E esta não me quer por inconstante.

Vem Cupido, soltar-me desses laços;
Ou faz de dois semblantes um semblante,
Ou divide o meu peito em dois pedaços.

Peixoto, Alvarenga. Obras Poéticas

NA ILHA DE LIA, NO BARCO DE ROSA (MEIO-DIA, MEIA-LUA)Edu Lobo e Chico Buarque

Quando adormecia na ilha de Lia, meu Deus
Eu só vivia a sonhar
Que passava ao largo no barco de Rosa e
Queria aquela ilha abordar

Pra dormir com Lia que via que eu ia sonhar
Dentro do barco de Rosa
Rosa que se ria e dizia nem coisa com coisa

Era uma armadilha de Lia com Rosa com Lia
Eu não podia escapar
Girava num barco num lago no centro da ilha
Num moinho de mar

Era estar com Rosa nos braços de Lia, era Lia
Com balanço de Rosa
Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Rosa, meio Lia, meio
Rosa, meio-dia, meia-lua, meio Lia, meio

Era uma partilha de Rosa com Lia, com Rosa
Eu não podia esperar
Na feira do porto, meu corpo, minh’alma, meus
Sonhos vinham negociar

Era poesia nos pratos de Rosa, era prosa na
Balança de Lia

Era tão real, era devaneio
Era meio a meio, meio Lia, meio Rosa, meio
Lia, meia lua, meio-dia, meio Rosa, meio
Na ilha de Lia, de Lia, de Lia
No barco de Rosa, de Rosa, de Rosa

Esse coqueiro que dá coco

Jurupoca #38 – Desde o Belo – 4 a 10/9/2020 – Ano 2

Criança, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Opa! Vamos apear?

Os sabiás voltaram a cantar e meu ipê amarelo refloriu contra a secura azul de agosto, refazendo um ciclo no qual reconhecemos ou imaginamos vindicar a beleza, e com tal alento recobramos brevemente o fôlego.

Criança ainda, fui testado positivo para certa cepa de romantismo, da qual a vacina do realismo, que nunca será cem por cento eficaz, não me livrou plenamente, já ao descer a serra. Esta Jurupoca, helahoho, helahoho, é sintoma disso, parte do quadro.

Hoje é hoje, e a sucessão de ontens acumula cacos, como xícaras partidas. Cacos às vezes rebrilham, semelhante à luz da estrela que já era mas chega a nós ao anoitecer.

Viver, como se queira, é se ir enchendo um depósito de cacos, trastaria. Então vem o “tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme”, na lição de CDA. Mas não há como não levar em conta o rebrilho, hoje e amanhã, agorinha, ainda.

A Jurupoca é necessariamente, no que tenho a dizer (por isso e por enquanto) uma carta extemporânea. “Em que tempo nos tocou viver! diria Flaubert, como disse no s. 19. A novidade de ontem acaba de envelhecer (hoje). Revolucionário não é o black-block, e sim o jovem e corajoso leitor do Grande sertão: veredas”, me diz o Milton Hatoum num bilhete (autorizado de estar aqui).

Lemos, escrevemos e buscamos pensar livremente por acreditar nessa revolução que o João Guimarães Rosa é capaz de promover. Disso resulta a Ju, um artefato analógico (ainda que digital), anacrônico (por mais que recém-chegado), marginal (hehehe, quem diria!), e quixotesco (ora bolas!).

Disso, quero crer, resultou o Escrevidas, poemeto do Moral das horas:

Escrevidas

Escrever por escrever
Por certo. Mas
Ser ou não ser?
 
Viver por viver
Decerto. Então
Escrevidas?

Codinha

Alma na lama:
L’amour?
 

Muito obrigado por assinar e ler a Ju. Sinceramente,

Antônio Siúves


  Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Vida e morte nas mesmas mãos

O genial criador do processo químico que permite a extração de nitrogênio da atmosfera, usado na fabricação de fertilizantes, é o mesmo pai do devastador gás cloro, introduzido na Grande Guerra como arma química, e ainda progenitor do poderoso pesticida Zyklon, depois modificado e empregado nas câmaras de extermínio nazistas. Pelo primeiro invento, o alemão Fritz Haber, de raízes judaicas, ganhou o Nobel de Química — dizia-se que ele conseguira extrair “pão do ar”. Como se sabe, os fertilizantes nitrogenados detonaram a explosão demográfica mundial, de 1,6 para 7 bilhões de almas, em cem anos. Pelas químicas outras, Haber será ad aeternum associado à morte industrial de milhões de seres humanos, e ao suicídio da própria mulher, também química, atormentada pela funérea prodigalidade do marido. Essa história é narrada com tintas de ficção por Benjamín Labatut, escritor de origem holandesa radicado no Chile, em Un verdor terrible (Anagrama), ou Um verdor terrível, do qual pode-se ler um vertiginoso trecho no Babelia. O verdor do título refere-se à coloração mostarda da nuvem do gás lançado pelos alemães contra tropas francesas perto da cidade Ypres, no Flandres, a 22 de abril de 1915, levando no vento a “morte total”.

Ah, esse coqueiro que dá coco

No Brasil, a juventude festeja em baladas feéricas o fim da pandemia; onde dá praia, multidões à milanesa fritam-se ao sol e se banham em mares contaminados, nem aí para as marés.

Notícias imperativas de ex-cultura

A Ilustrada, ex-caderno de ex-cultura etc., volta a algoritmar, e a Ju a observar com interesse seus ensinamentos imperativos na série de capas sobretituladas “Entenda…”. A reportagem acima atira uma âncora transatlântica dentro de um livro não traduzido no Brasil, Feminist City, ou cidade feminista, da geógrafa canadense Leslie Kern, para concluir que por aqui ainda não bateu a onda do “urbanismo feminista”, ou, com a boa vontade do texto, pode ser até que engatinhe… A ideia de “cidade fálica” é associada à falta de banheiros públicos afeitos às mulheres nas grandes cidades. Claro, sobra também, no livro da Kern, para os “fálicos obeliscos, colunas e torres de vigia” que “ejaculam luz no céu noturno com seus refletores”. Daí pode-se até viajar na ideia de uma contraposta “cidade vulvar”. Mas antes me ocorre exclamar, parafraseando o maluco da Escolinha do Raimundo, Seu Brasilino Roxo: SÓ SE FOR NO CANADÁ! Porque nossas metrópoles são universalmente dotadas de banheiros públicos para todos os gêneros e classes. Quem frequenta, e.g., o Parque Municipal Renné Giannetti, no Belo, encanta-se com o aspecto imaculado e o permanente cheiro de desinfetante dos banhos municipais. São muito frequentados nos fins de semana, aliás, pela rica classe média de Lourdes, nosso Leblon, como se sabe. Quanto à ejaculação da luz, que bonito! Me lembrou uma canção do José Miguel Wisnik chamada A olhos nus, que diz assim (cantarolemos!): “Uma vez amanheceu/ meu pai mostrou o céu/ onde nasceu redondo o sol/ abrindo um rombo no azul/ abrindo um sonho/ abrindo um tambor de luz/ que enchesse a fábrica/ com seu óleo cru/ e penetrasse os sonhos da família/ a olhos nus // raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ trabalhando o dia/ raios de luz/ aquele dia/ raios de luz/ meu pai mostrando o sol/ um rombo azul/ a olhos nus/ raios de luz.” Trata-se quase da mesma coisa, não è vero? Mas essa é uma publicação livre!

Maconha na drogaria 

“Sonhei que o fogo gelou/ Sonhei que a neve fervia/ … Maconha só se comprava/ Na tabacaria/ Drogas na drogaria…”, canta o Buarque em Outros sonhos (do CD Carioca, 2006). Logo ali, no país do lendário José Mujica, o sonho buarqueano se realizou ad hoc.

A erva está disponível em 17 drogarias licenciadas pelo governo. O monopólio estatal, implantado na Lei da Maconha, de 2013, anda bem longe de cobrir a demanda; a turma da chincha reclama que a erva oficial é palha, e de ser obrigada a se registrar para adquirir sua ração periódica da Cannabis sativa ou da Cannabis indica, tipos oferecidos nas farmácias a cidadãos uruguaios. Para a turistama, neca, por enquanto. Um em três usuários fuma o produto estatal, os demais se valem dos bons serviços do paralelo, antes conhecido como “negrol”. Nada disso impede que o país seja decantado mundialmente como caso de sucesso, por sangrar um terço do faturamento do narcotráfico. “Eu uso a indica quando quero relaxar, e a sativa quando quero ser mais criativo, escrever ou desenhar”, explica, como quem prescreve, o jovem Nahun Martínez, de 19 aninhos, à reportagem especial da Folha. O rapaz é funcionário de uma padaria, e ainda há de se revelar ao mundo das artes. Tomara. A Disney da Erva milongueira não é uma Christiania, o parque temático hippie de Copenhague, mas tem museu, circuitos, completas lojas de acessórios e cursos para chefs da alta cozinha canábica. Um estudante brasileiro de nível avançado preparou para os repórteres da Folha um banquete de pratos como o Chicken Sauce Smoke. “Trata-se de um frango com batatas que leva azeite de maconha”, descrevem, para o leitor já na larica. A propósito do nosso vizinho, neste 14 de setembro celebra-se por lá o centenário de nascimento de Mario Benedetti.


GONZAGUINHA (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, Rio de Janeiro, 1945 — Renascença, Paraná, 1991) canta COM A PERNA NO MUNDO, composição dele, faixa A2 do LP Gonzaguinha da vida (EMI-Odeon, 1979), com a participação de Djavan no backing vocal.

O delicioso e bem marcado samba autobiográfico, carregado de páthos e alento, melancolia e joie de vivre, tem o dom de me revolver sinapses e aumentar num instante a taxa de serotonina (já que vamos devagar com o romantismo).

Gonzaguinha é daquelas almas que não caberiam neste mundo assombrado pela inteligência artificial, em que a “ética da autenticidade” vira mercadoria barata no Instagram.

Era um homem magérrimo, politizado e lírico a um tempo, de fala pausada, malandra, compassada nas cordas do coração.

COM A PERNA NO MUNDO - Gonzaguinha 
 
Acreditava na vida
Na alegria de ser
Nas coisas do coração
Nas mãos um muito fazer
 
Sentava bem lá no alto
Pivete olhando a cidade
Sentindo o cheiro do asfalto
Desceu por necessidade
 
Oh Dina
Teu menino desceu o São Carlos
Pegou um sonho e partiu
Pensava que era um guerreiro
Com terras e gente a conquistar
Havia um fogo em seus olhos
Um fogo de não se apagar
 
Diz lá pra Dina que eu volto
Que seu guri não fugiu
Só quis saber como é
Qual é
Perna no mundo sumiu
 
E hoje
Depois de tantas batalhas
A lama dos sapatos
É a medalha
Que ele tem pra mostrar
 
Passado
É um pé no chão e um sabiá
Presente
É a porta aberta
E futuro é o que virá, mas, e daí?
 
Ô ô ô ê ê á
O moleque acabou de chegar
Ô ô ô ê ê á
Nessa cama é que eu quero sonhar
Ô ô ô ê ê á
Amanhã bato a perna no mundo
Ô ô ô ê ê á
É que o mundo é que é meu lugar


O banho da Lo Prete

Renata Lo Prete, quem sabe a jornalista brasileira mais completa em plena na labuta, comemora um ano do podcast O Assunto banhada na merecidíssima glória. Seu programa conquistou ampla audiência, inclusive a jovem, e é recomendado por professores a estudantes que se preparam para o Enem. Bateu na estratosfera dos 33 milhões de download. Aos 56 anos, a Lo Prete divide inacreditavelmente seu labor com a edição e apresentação do Jornal da Globo e do semanal Painel, da GloboNews. Enquanto isso, a Folha agrega um terceiro apresentador, jornalista mais tarimbado, pra ver se engrossa o caldo do seu falso Young friendly Café da Manhã.



PEREGRINAÇÃO – Manuel Bandeira

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.


Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.


Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...

Este é o oitavo de dez números da Ju com extratos dos poetas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).    


Mark Rothko Nº. 11 (Sem título, 1957).
Óleo sobre tela (201.9 x 177.2 cm). Coleção particular. Via WikiArt.  
Pelo final de 2015 comecei a publicar, apenas no blog Livro de Viagem, a coletânea 21 poemas, dois anos depois do Moral das horas. Ilustrei as páginas desse poemário com obras de Mark Rothko (1903-1970), artista nascido onde hoje é Dunaburgo, Letônia, e naturalizado norte-americano.
Meu xodó por Rothko é um negócio do outro mundo; como costuma ser, à primeira vista, nascido, creio, desde que vi seus quadros na Tate Modern, muito tempo atrás.
Suas cores profundas, sobrepostas, graduadas e geometrizadas podem eviscerar a alma de um observador atento e paciente.
Bom, este Nº. 11 me pareceu perfeito para ilustrar o poema [20/21] que me escapuliu da leitura de Tolstói.
GUERRA E PAZ
 
Madrugada
No campo de Borodinó:
Sobre a palha da aveia,
Um silvo rasga a névoa;
A carne acalenta o instante
Pôr do sol.


«Magistocrata não sai de férias, vende. Conrado Hübner Mendes, na Folha.»

«Sem sintomas, brasileira ficou cinco meses infectada pelo coronavírus, caso mais longo já documentado no mundo. O Globo.»

«Hospitais em Nova Orleans mandam pacientes infectados pelo coronavírus para instalações de cuidado paliativos ou para morrer em casa. No ProPublica, em inglês.»

«Marcelo Viana: Limites da mente humana. Na Folha de S. Paulo.»

«Escrever é como girar a faca na ferida, uma rara entrevista com Elena Ferrante. No Estadão

«Eleição nos EUA: E se o Facebook for uma ‘maioria silenciosa’ de fato? New York Times, via Estadão

«Uma entrevista com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Na Letras Libres, em espanhol.»

«Uma entrevista com fotógrafo britânico David Hurn. No Jot Down, em espanhol.»

«A plataforma mais violenta. O problema do extremismo no Facebook. The Baffler, em inglês.»

«Charles Taylor: “É necessário o fortalecimento da identidade comum dentro das sociedades”. Estadão da Arte.»

«A reabertura da museu Casa de Fernando Pessoa. El País, em espanhol.»

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.