O diário da sexta

Nestas notas: Michel, o Fraco+40 Anos de “O Gene Egoísta”+
a audiência deste jornal+uma passagem do “Doutor Fausto”+alguma coisa

Diário da sexta1

MICHEL, O FRACO
Em 20 dias de governo, o presidente interino perdeu completamente a pose de sua fatura gótica, na definição do “Financial Times”. Suas aparições públicas são quase tão desastradas quantos as de Dilma-Bumba-meu-Boi. O homem só tem tamanho. Sua expressão corporal é de quem treme nas bases. Como governante, mostrou-se pífio com tantas idas e vindas e seu discurso de aperto fiscal arreganhado pelo pacote de benesses entregue funcionalismo.

O GENE EGOÍSTA
O The Guardian celebra os 40 da publicação de “O Gene Egoísta” , de Richard Dawkins. O jornal diz que é uma pena que o autor seja hoje mais bem conhecido por sua militância contra a religião, que chama de irritante, do que pela obra, um marco da divulgação científica.

Eis um trecho do meu exemplar que tenho sublinhado: “Os genes são imortais, ou melhor, são definidos como entidades genéticas que chegam perto de merecer esse título. Nós, as máquinas de sobrevivência individuais existentes no mundo, podemos esperar viver ainda algumas décadas. Os genes, porém, têm uma expectativa de vida que deve ser medida não em décadas, e sim em milhares ou milhões de anos”. (Companhia das Letras, 2007, pág. 87)

O livro é uma leitura essencial. Mas o leitor tem que segurar a peteca. Não que não seja claro e de fácil compreensão. É que Dawkins não é um escritor talentoso, um estilista como um Oliver Sacks (médico), um Freeman Dyson (físico) ou Stephen Jay Gould (biólogo). Além disso, é um chato. Como ateísta, parece querer falar do púlpito, tipicamente, como pregador e missionário.

SOBRE ESTE JORNAL
A leitura deste jornal aumentou quase cinco vezes em maio, em relação a abril. O número de visitantes únicos cresceu de 275 para 1.242, com 2.601 visualizações e a média de 2,09 páginas por visitante. É uma audiência pequena, talvez ínfima para internet? Provavelmente, sim.

Jornal em maio 1Jornal em maio
Mas é mais promissora do que o autor podia sonhar ou pretender, e o estímulo de que precisa para tocar o barco neste começo de caminho novo.

Certamente é uma audiência de alta qualidade. O jornal não trata de receitas, esporte, novelas, fofocas ou celebridades, ponhamos assim.

DEBATE DE IDEIAS
Antes dedicado à divulgação da poesia do autor, o blog, que há a menos de dois meses passou a se chamar de Jornal do Siúves, vai se transformando em um veículo de expressão política, divulgação cultural e debate de ideias.

Neste estágio embrionário, o jornal antecede —como espero e, para isso, conto com você— o lançamento de uma plataforma mais adequada.

DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS
O jornal assume sua simpatia pelo liberalismo, a defesa da democracia, a liberdade de expressão e a autonomia do individual.

É seu propósito combater a ampla hegemonia cultural da esquerda.

É sua missão enfrentar ideias anacrônicas de inspiração neomarxista de todas as cepas, como toda espécie de populismo.

O jornal abomina o linchamento moral e o ataque a reputações, indivíduos e credos.

O jornal tem e terá, como razão de ser, o caráter apartidário e independente e o intuito de valorizar a cultura e cultivar a beleza.

DOUTOR FAUSTO
Me veio à memória uma cena do “Doutor Fausto”, de Thomas Mann. De cara cheia, depois de comer feito um padre gordo e discursar como Lutero, o professor Kumpf, a quem o narrador e o compositor Adrian Leverkühn visitam, pega de uma viola da parede e manda algumas modas de gosto popular, entre elas, “Wer nicht liebt Wein, Weib und Gesang, der bleibt ein Narr sein Leben Lang”. Quem não ama vinho, mulheres e canções, permanecerá burro toda a vida.

CASA DO PAI
Na casa do Pai há muitas moradas. As melhores dão vista para o mar. E algumas das mais exclusivas ficam na Île de Saint-Louis, em Paris.

ESQUERDISMO
O estrago do esquerdismo na deformação intelectual e, por vezes, moral, é uma história universal que está para ser contada. Tentei ver no Neflix “Requiem for the American Dream”, uma série de entrevistas picadas com Noam Chomsky. Desisti em menos de 15 minutos. O olhar histórico como dum estrábico, o dogmatismo, a ausência de confronto intelectual, a leitura distorcida dos fatos, uma mistificação atrás da outra, todo um desfile dos sintomas de uma velha doença infantil.

 

Esquerdismo, by Francis

FrancisPaulo Francis, morto há 19 anos, foi o mais original e um dos mais cultos jornalistas brasileiros. Sua ausência tornou nossa imprensa mais árida, pretensiosa e mal-humorada. Também foi o mais implacável crítico do esquerdismo no país, em cujo ideário via anacronismo e condenação ao atraso. Não creio que se possa contestá-lo.

A seguir, trechos do seu “Diário da Corte”, página inteira de notas que era distribuída a vários jornais, inclusive O Tempo.

À época, editor do Magazine, o caderno de cultura do jornal, me alegrava sempre às quartas-feiras, ao ler, na véspera da publicação, seus textos incomparáveis. Tenho em minha sala a colagem de Fernando Fiuza que ilustrou sua última coluna. Saudade.

Os grifos são do blogueiro.

Esquerda Brasileira – Viegas acha que o problema das esquerdas é uma religiosidade que impede o raciocínio. É bem observada, mas eu somaria a indisposição brasileira ao conflito cultural, a tendência à corriola onde todo mundo troca certezas. (FSP, 19/10/80)

  • Em 1968, a vida era mais agradável no Brasil do que hoje. Para nós, jornalista que estávamos no fogo da ditadura. Isso porque nos sentíamos mais vivos com as ameaças do s nossos inimigos, nos sentíamos requestados na nossa profissão miserável, éramos gente,nos levavam tão a sério que nos censuravam e nos prendiam. A esquerda sempre foi e é um saco de gatos. Ninguém se entende. Todo esquerdista convicto se considera o legítimo concessionário da verdade e não admite concorrência. Mas naqueles tempos de repressão nossos antagonismos se diluíram em fase do inimigo comum. Nossa vidinha fútil ganhou uma nova dimensão, e vibrante, quando nos perseguiam. Havia, claro, a humilhação de que gente bronca e subletrada (estou usando eufemismo) pudesse dispor de nós como roupa suja. Mas era compensada pela imensa superioridade moral que sentíamos em relação a eles. (FSP, 29/10/88)

Esquerdismo – Adonias Filho, o romancista com quem trabalhei no Serviço Nacional de Teatro, dizia que era inacreditável que eu citasse Shakespeare e Eliot de cabeça, e gostasse, e fosse de esquerda. Ele tinha razão.  (FSP, 28/7/90)

Extraído de “Waaal – O Diário da Corte de Paulo Francis” – Organização: Daniel Piza (Companhia das Letras, 1996).