Tag: Fernando Fiuza

A Belchior o que é dele nos 40 anos de “Alucinação”

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética
e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período

alucinação 1

Só há pouco tempo Belchior deixou de ser tratado como figura pitoresca e decadente.

O caso do seu desaparecimento, ainda mal explicado, é outra história, que deixo para os “Fantásticos” da vida.

Mas os 40 anos do LP “Alucinação” — lançado a 10 de maio de 1976 — ainda não receberam o memorial e a análise crítica que mereciam.

O “Estadão”, decadente como toda a imprensa cultural brasileira, deu ontem duas páginas sobre o disco e a vida do cantor.

Páginas de uma mediocridade lancinante, perto do que o jornal já fez e foi.

No texto principal, assinado por Renato Vieira, não se diz nada do valor artístico da obra.

“Alucinação” se tornou um “clássico instantâneo que atravessou gerações”, lemos na matéria, entre outras leguminosas.

Executivos da gravadora Phonogram recearam que “o público poderia não entender aquele som misturando Bob Dylan e elementos regionais” — o que não diz nada sobre o disco.

Belchior tem pelo menos 20 canções em sua obra cuja força poética e vitalidade superam muito do que seus contemporâneos fizeram no mesmo período.

alucinação 2Sinto mais frescor em “Alucinação” — apenas para situar o que digo no primeiro time da MPB — do que em “Meus Caros Amigos”, de Chico Buarque, ou no álbum duplo “Doces Bárbaros”, também lançados em 1976.

Poucos artistas tinham o preparo intelectual e o talento de Belchior — estudante de filosofia e humanidades e de quatro anos de medicina, em Fortaleza — para dar forma de canção popular ao fundo cultural da época e, ainda, emitir luz própria na era constelar da MPB.

Em “Velha Roupa Colorida” — para pegar apenas a segunda faixa de “Alucinação”, depois da linda obra-prima que é “Apenas um Rapaz Latino-Americano” —, Belchior tece com delicadeza citações dos Beatles, de Bob Dylan e do “Corvo” (“The Raven”) de Edgar Allan Poe na letra grave sobre o envelhecimento precoce da geração hippie.

Havia uma carga incomum de sinceridade e verdade em suas músicas que captavam os desejos do jovem classe média das metrópoles — da perspectiva de quem vivia no interior do país e na periferia de Rio e São Paulo — ou a desilusão com ideais da contracultura.

Renato Vieira diz que se Belchior estivesse hoje na praça poderia entrar na onda de Patti Smith e Titãs, nos exemplos dele, e regravar “Alucinação” 40 anos depois, com novos arranjos.

Seria excelente ideia. O LP de 1976 foi feito às pressas, sem empenho da gravadora. Alguns arranjos são indignos das canções.

A melhor maneira que conheço de voltar sempre à música Belchior é tocar um disco fabuloso, que até hoje me parece subestimado e desconhecido.

“Um Concerto a Palo Seco”, CD de Belchior acompanhado por Gilvan de Oliveira, de 1999, lançado pela Camerati — e relançado em 2006 como “Acústico”, com duas faixas extras — nem sequer consta da discografia do artista no “Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira“.

Na capa, revejo com prazer o retrato do compositor a carvão feito por Fernando Fiúza.

Gilvan, violonista refinado, de toque clássico, imprimiu a mesma linhagem harmônica às 12 canções do CD, gravado no estúdio Bemol, em Belo Horizonte.

O resultado é um som cristalino e potente, ao mesmo tempo de uma cadência sensual e melancólica. Equiparo seu páthos a um lied de Schumann.

Em louvor a Fernando Fiúza de Filgueiras

[Atualizado em 03/03/2015, com nota no pé sobre a mostra de Fernando Fiúza no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte e link para o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. O poema a seguir integra o livro Moral das horas, publicado pelo autor do blog no final de 2013, pela Manduruvá Edições Especiais.]

 http://www.chillida-eduardo.com/
Eduardo Chillida, Dibujo tinta (1983)

“O papel das artes é explorar o espaço interior do homem; descobrir quanto e com qual intensidade ele pode vibrar por meio do que ouve!” — Karlheinz Stockhausen, citado por João Marcos Coelho, no Estadão, em 22/2/2009.

— Minas não tem mar. Em BH falta ar! — exclamou Franquilim da Silva.

1

Para Malluh Praxedes

1

Neste luar amarelo de ipês
revoa um pássaro púrpura
sobre a Paisagem abstrata,
como recriada pelo artista
Fernando Fiúza de Filgueiras.

2

O artista navega em seu barco avernal
pela cascata da colina lânguida coberta
de negros, prateados e o ciano matinal.

O quadro no alto então se desvanece
e toda a trama tropical encontra corada
o céu azul, a cingir o mundo que renasce.

3

A urbe expõe estrias onde não se semeou,
onde se abriram sulcos há terra crestada,
bulbo morto, varicose. O artista se mudou
da vizinhança, que ainda fulge, esbatida.

Cadê seu feitiço contra profetas agnósticos
que enchem nossos dias com esta didática
da tal pregação pela vida longa e higiênica
concebida pelos tecnopoetas matemáticos?

 4

A casa de esquina no 153 da Pouso Alto,
hoje espantada, cerrou seu teatro trágico.
Desceram os cenários refeitos a cada ato,
na ronda da arte, teu fundamento litúrgico

De amor ao desenho, filmes, livros de museu
comprados por ti, que não podias tomar avião
mas que à roda de teu quarto, rente ao chão,
sabias do mundo mais do que sonha o filisteu.

5

— Na sessão aberta, o público saudado por Tarsila e Van Gogh encontra os fantasmas Pablo Pablo Picasso, Federico Felini e Otto Dix, deitados no chão.

Tua casa transpirava o suor da casa vívida,
suor próprio da secreção de mesa, xícaras,
espátula, pincel, tubos de tinta, aquarela, lápis,
folhas, jornais, paletas, mancha no chão, goteira,
forno, cartolina, chá, cimento, cavalete, chinelo,
ampola de oxigênio, meia elástica, fotografia,
criaturas de cerâmica de Luciana, tudo debaixo
do verniz chiaroscuro da passagem das horas.

6

O Homem roxo a proclamar azul|
seu Nunca Mais em meio à festa
como este rapaz magro magenta
com braços quase linhas violeta
a biclicletar pela Pedro Leopoldo
redescoberta do Meu Boi Morreu,

Ou as mil e uma colagens de eus
e desenho a bico de pena ou lápis
que ilustravam na Babita a galeria,
e um que lhe fez pendant, o Francis
dos Diários, como o que tenho meu
ali nesta parede verde, à luz do dia.

7

O gosto largo pela vigília alegre,
tua nobreza, tua mão comprida
saliente (Rodin se encantaria)
sempre estendida à amizade
(Vinícius a Antônio), Nando,
lhe deram a provar mel e fel
na cidade rendida onde reina
a paz dos estios, onde impera,
entre sombra e vazio, a legião
habitual dos camaradas órficos,
poetas, filósofos, toda a gente
natural e singelamente infiel.

8

— Quem foste? O viajante de tantas eras, o embrião rebelde, o menino rebelde, o moço eterno rebelde de coração?

Que tu, Nando,
tenhas lutado
para ganhar a vida
até sobrevir o estertor,
ora fotógrafo, ora pintor,
enquanto driblava
a Indesejada
qual louva-a-deus, oblíquo,
tal valentia não doura
a cidade de alma ácida
que o esquece,
a que há séculos
assa covardia
no fervor de ser sincera.

9

Poucos levaram melhor
o tal mote existencialista
de viver até o último sopro,
até o último logro, artista,
até o vergão derradeiro
tua condenação à liberdade,
tua dedicação ao ofício
de tocar a corda do tempo
e encher a tela com teu ser.

10

Não há vez que depare a Pouso Alto,
indo ao Mart Plus, em nossa adjacência,
que não cruze com tua imensa ausência,
que não retenha tua felicidade e tua dor,

Que não capte tua doçura de olhar, o riso,
e que não reouça o piano de Nelson Freire
bater a frase inicial dos Préludes – Livre I,
do Debussy, que ouvimos ambos, só a sós.

 

Sobre a mostra em cartaz no CCBB de BH

(Adaptado do Guia UOL de Belo Horizonte ) As galerias do andar térreo do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de BH recebem 60 obras do artista plástico Fernando Fiúza. A exposição Mulheres – o traço poético de Fernando Fiúza pode ser visitada das 9h às 21h, com exceção de terça-feira, até 13 de abril de 2015, no espaço cultural da Praça da Liberdade. A curadoria de Luciana Radicchi, viúva do artista, buscou sobretudo desenhos de mulheres, inspiração recorrente na produção do mineiro. Os trabalhos se dividem em pinturas e desenhos em aquarela, carvão, guache, grafite e pastel seco.

No dia 11 de março, às 19h, a sala de cinema (Teatro 2) do CCBB  exibe o documentário O homem roxo, de Carlos Canela e Duke. A partir de entrevistas e trilha original, o filme investiga, com humor e admiração, a trajetória de Fiúza. O vídeo pode ser visto por aqui.