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Ora (direis) ouvir estrelas!

O físico Marcelo Gleiser comemorou no Facebook o fato de que grande parte das fotografias mais bem votadas no concurso “imagem do ano”, promovido pelo Wikimedia Commons, era de imagens da ciência.

As fotos finalistas são deveras estonteantes. Vejam!

Quanto às imagens do espaço, sempre me entonteceram. Um dos poemas do meu Moral das Horas é inspirado na Nebulosa bolha de sabão e tem esse nome.

Tempos atrás publiquei em algum lugar uma série de imagens obtidas por telescópios e sondas espaciais da NASA, sob o título Será arte?, numa remissão ao poema de Ferreira Gullar que virou uma bonita canção (Traduzir-se) com música de Fagner.

As imagens do universo como as que se seguem nos provocam, fascinam, desafiam, indagam, decerto.

A mim, o espaço ajudou a criança que fui a se fazer adolescente, e este, contribuiu para o poeta bissexto.

Hoje, o espaço antes de tudo incomoda o adulto para quem o campo iluminado é antes luz de estrela extinta que Sol de amanhãs.

Quando olhamos para o céu somos micróbios ridículos, como tentei formular neste JS, com a ajuda de Cioran.

Mas, se os berçários estelares e buracos negros captados pelas lentes da NASA por um lado reafirmam esta sensação, por outro põem a gente a cismar.

Uns imaginam por meio da alta matemática, como os astrofísicos, a outros, resta o encanto da inocência, a religião, a arte.

Mas que arte haverá? E se arte há, quem a fez, faz ou fará?

A FRONTEIRA FINAL

Aurora boreal de Saturno
Imagem da aurora boreal de Saturno feita pela sonda Cassini, da NASA

Espaço, a fronteira final, ouvimos na abertura do seriado e filmes Star Trek. Fronteira final do desconhecido tão desconhecido quanto o país do qual nenhum viajante jamais voltou, no dizer do Hamlet.

Ainda que pouco importe a quem viva agora qual será o destino do universo em trilhões de anos (a hipótese mais aceita diz que tudo acabará em gelo eterno), a busca de uma compreensão final da natureza e da vida mudou e continuará mudando a maneira como a humanidade vê a si própria.

Basta pensar no que as teorias de Einstein e a sinuca em que a mecânica quântica meteu a ciência ainda impõem de enigma, não só à física, mas, obviamente, à arte, à nova arte da qual talvez sequer suspeitemos, mas também a arte atual, que é menor quando não leva a ciência em conta.

As grandezas cósmicas nos humilham não só pela diferença de escala e forças, mas também pelo espetáculo dos grandes aglomerados de poeira elementar, dos cemitérios e berços estelares que as tais fotografias nos revelam.

Este poeirão de deuses, esta enormidade de teatro a cujo espetáculo assistimos com atraso inalcançável —tantas vezes post-mortem (a luz que nos chega é de astros que já se apagaram)—, essa epopeia cósmica de certa forma esmaga o etéreo precipitado de espanto, mistério, pesar e encanto que, assim, se amalgamam na matéria viva e dela, então, algo se espraia. — Vamos chamar isso de quê?

CEMITÉRIO DO ABSURDO

NASA's Spitzer Space Telescope has imaged a wild creature of the dark -- a coiled galaxy with an eye-like object at its center.

Na imagem do telescópio de luz infravermelho Spitzer, da NASA, esta galáxia espiral denominada NGC 1097, a 50 milhões de anos-luz distante de nós, na constelação de Fornax.

O olho magnífico é um buraco negro, este cemitério do absurdo.

Tem coisa de 100 milhões de vezes a massa do Sol e está cingido por formação gasosa, um belíssimo anel estelar, berçários de estrelas e galáxias.

“A ciência às vezes se parece mais prontamente ficção científica”, escreveu no The New York Times o jornalista Dennis Overbye, que é autor de uma ótima biografia de Albert Einstein.

Ou se parece a uma estranha arte.

DESTROÇOS DE LUZ

Será arte1

Dispositivos que registram emissões em infravermelho e raios-X mostram a explosão desta estrela, com quatro séculos de atraso.

GALÁXIA CATAVENTO

Galácia catavento
Imagem NASA/CXC/JHU/K.Kuntz

A galáxia Messier 101 tem 170 mil anos-luz de diâmetro, quase duas vezes a nossa Via Láctea.

Também a chamam Girândola, ou Catavento, dada sua estrutura espiralada.

A imagem resultou do que então havia sido a mais longa exposição de raios-x já captada pelo observatório Chandra, da NASA.

Os pontos mais brilhantes indicam a existências de estrelas maciças, buracos negros e explosões de supernovas, tudo envolvido em quentíssimo meio gasoso.

Para tudo acabar num pau de vassoura

Arate conceitual

A arte contemporânea reduziu nossa chance de viver uma experiência estética a um cabo de vassoura colorido exposto num museu.

Não importa que você não leve a sério, nas gôndolas da arte contemporânea, no selo “conceitual”, um cabo de vassoura pintado. Tal obra ora se dá à contemplação no novo prédio da Tate Modern, em Londres.

Não importa muito o que você pensa ou sente. A banda da história que lutou para permitir que um cabo de vassoura se pusesse pau a pau com a fina flor da arte ganhou a parada.

Os reticentes são perdedores, reacionários, românticos, mortos-vivos, o que seja. O cabo de vassoura conquistou corações e mentes, vale dizer, o universo.

O prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, o poeta Ferreira Gullar e o antropólogo e ensaísta colombiano Carlos Granés estão entre os que não se dão inteiramente por vencidos. O JS nem tanto.

Gullar, um crítico de arte que consegue escrever em ótimo português e alcançar a compressão de não iniciados no esoterismo estilístico típico do metiê, vive dizendo isso.

Granés, no livro referencial infelizmente não traduzido no Brasil El Puño Invisible (Taurus, 2011), narra em profundidade, tim-tim por tim-tim, como a trama toda se deu.

A premiação sistemática da estupidez e a instituição do logro permitiram que chegássemos até aqui, ao dia em que um cabo de vassoura pintado não é mais nem menos genial que um Modigliani, um Giacometti ou um Rothko.

Vargas Llosa visitou a bela extensão da Tate. Ele nos conta que se deteve diante do tal cabo de vassoura por longos minutos e acompanhou com interesse os esforços de uma professora inglesa para ensinar a seus pequerruchos como deveriam entender aquele pau de vassoura colorido, conceitualmente. Não deixem de ler a coluna de Mario no El País, é instrutiva e ilustra muito bem a que veio seu altamente recomendável livro A Civilização do Espetáculo.

Os tubarões no formal, a caveira cravejada de diamantes e o borboletário do bilionário Damien Hirst, os urubus que Nuno Ramos fez empoleirar e obrar à vontade na Bienal de São Paulo ou, antes deles, a Merde d’Artista de Piero Manzoni são célebres antecedentes do cabo de vassoura pintado nas cores do arco-íris, conforme a lição de arte de uma criança na Tate, no relato de Vargas Llosa. Outro serelepe, incentivado pela Miss, traduziu a obra com mais propriedade: o artista havia se inspirado no meio de transporte preferido pelo bruxo Harry Potter.

Marcel Duchamp tinha seus motivos para provocar a burguesa e os criadores do seu tempo ao expor o famoso urinol (Fountain). A peça tornou-se uma curiosidade, um ícone dos manuais de história da arte.

Dificilmente o artista poderia antever que o engodo e a velhacaria iriam compor uma trama vitoriosa, perfeitamente burguesa, e gerar a rica indústria atual que artistas, especialistas, curadores, galeristas e turistas aos milhões movimentam no mundo inteiro.

Dizer que tudo é relativo, inclusive a arte, é menosprezar a Relatividade de Einstein, a história da arte e o próprio ser humano. Mas a sabedoria em voga é a sabedoria do establishment, e controla os talões de cheque.

O politicamente correto e o obscurantismo dos “estudos culturais” nos trouxeram até aqui.

A literatura e a verdadeira arte, a própria cultura perderam a centralidade que tinham na educação e em nossas vidas.

Seu lugar foi ocupado pelos dispositivos tecnológicos, pelas redes sociais, pelo Pokémon Go, pelo pau de vassoura da Tate.