E o lugar da fala dos pipoqueiros?

Jurupoca_48. Belo. 20 a 26/11/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sei lá, meu bem, entende, eu te pedi para não dar ouvidos à maldade alheia, mas creia: sua incompreensão já é demais! Sim, amizade virtual: quantos idiotas vivem só sem ter ninguém nas redes sociais, essa gente tão incapaz de ser feliz. No fim das contas, sua estupidez não lhe deixa ver meus mi piaces, likes, j’aimes, gefält mir, nada de nada.

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Reabilitação provisória

A chuva que cai à noite, a luz no ar limpo da manhã, o grito festivo do porteiro com o colega na troca de turno, a buzinada no sinal aberto, o sabiá que vocaliza, o bem-te-vi que se anuncia, tudo isso, depois do café e do Biotônico Fontoura, dá à alma aaaqueeela reabilitação provisória.

Nossos comerciais, por favor!

Se o Biotônico lhe desarranjar, tome Elixir Paregórico para segurar, se não, pode apostar: Regulador Xavier 1 e 2 é pá-ti-pum! Agora, não desaparecendo os sintomas, consulte o doutor Acir Antão. No ar desde os tempos de Guglielmo Marconi, ele prescreve o fino da farmacopeia natural nas ondas da Rádio Itatiaia. (*Patrocinado: ajude a Ju a conjuminar*.)

O que é isso, companheiro Estadão?

Minas dos Matos Gerais se renova. Está mais verde, próspera e segura contra desastres ambientais. Nunca mais enterros coletivos de vivos. Minas está pronta para encarar os desafios do futuro com uma mineração, mais que sustentável, embelezadora. A mãe natureza gargalha de felicidade. É mais ou menos o que se lê nas entrelinhas da notícia arriba, recortada da primeira página do sesquicentenário diário paulistano, colocada pela melhor assessoria de imprensa.

Minas ressurreta

Para quem não sabia, de não ver os intervalos do JN, além da revolução verde, a retomada renovadora das Gerais vai redimir o estado de seu passado cheio de pecados, a arder nas chamas de satã. Aguarda-se para qualquer momento a revivência de Fernão Dias, Tiradentes, Ângela Diniz, dona Olímpia de Ouro Preto, dona Tiburtina de Montes Claros e da Loira do Bonfim. Uma profecia de Fernando Gabeira, feita há 40 ou 50 anos, logo depois do crepúsculo do macho, está prestes a pipocar.

O lugar da fala

Você conhece um escritor que tenha algo a dizer? Claro que não. Agora todos os entrevistados, todas as fontes, são infectologistas, professores de relações internacionais, cientistas políticos, analistas de mercado, consultores de imóveis, desenvolvedores, designers, influenciadores, youtubers, todos Anitta, Obama & Bial, Caetano & Jones Manoel, Gil and Sons, Caetano and Sons e militantes campeões do Insta e do Face. Nenhum pipoqueiro, poeta, dramaturgo ou arquiteto nem a Carla Camurati têm mais o que dizer na televisão ou nos jornais. Perdemos, os pipoqueiros, o lugar da fala.

Como há 500 anos

Como há 500 anos, quando o trovador Sá de Miranda consigo se desaveio, e posto todo em perigo não podia viver consigo nem de si fugir, a Ju, agora mesmo, tem ponteado para quem meia palavra bas que de si se extraiu, extraviou, e perigosamente pôs-se a perguntar: “Que cabo espero ou que fim/ Deste cuidado que sigo,/ Pois trago a mim comigo/ Tamanho imigo de mim?”.

Dissolvido

O bruxo sem qualidades se dissolveu no próprio ácido. Ah, cuá, ela me disse. Dê descarga, hombre.

Ironia

A ironia per si terá se tornado tóxica, por ininteligível aos menores de 50 anos iletrados?

Nosso “generalíssimo” honorário

A Espanha viveu quase 40 anos sob a bunda beata e nacionalista do “Generalíssimo” Franco. O garrote era aplicado a torto e a direito pela pátria e família em nome de Deus, Nossa Senhora e toda Santa Igreja. A virgem, a de Loreto, aliás, é a eterna padroeira da força aérea espanhola. Ainda não chegamos lá. Não temos um caudilho “generalíssimo”, ai de nós. Mas tá bom, não reclame. Contamos — é pau para toda obra — com um Jumentíssimo, que não é ditador. Elegeu-se pelo povo no Carnaval da Democracia de 2018. Não é um Franco, mas, sim, um virtuose da franqueza. Trata-se de vantagem adaptativa e competitiva que evoluiu num período que vai do Homo neanderthalensis ao Homo facebookensis.

A luta do Jumentíssimo franco contra Zé Gotinha

Jumentíssimo franco juntou cangaceiros hackers da Nova Zelândia, olavistas desmatadores do Pará e milicianos da Zona Oeste armados com AR-15 para acabar com a raça do Zé Gotinha, símbolo de um país de baitolas. As batalhas são transmitidas diariamente pelo Face. Você também pode acompanhar as pelejas pelo Twitter e pelo Insta, além da rádio ITA-TI-AI-A.

 Té’rrupiei, nu

É preciso que os pauteiros descubram o tipo “miserável que achou uma maleta cheia de euros na rua e devolveu ao dono” para amolecer nossos corações e fecalomas. Telejornais, Insta, Face e a Itatiaia, um rio só de lágrimas. Não temos políticos e corruptos e matas esturricadas apenas. Devemos nos ufanar da nossa raça de desvalidos que encontram dinheiro no chão e devolvem tudo, para se salvar com 15 minutos de fama, para nos salvar, para viralizar, para ibopar.

Caveirão e a filosofia analítica

Compadre Quinquim planeja ir ao cercadinho do Planalto encontrar Caveirão Jumentíssimo. Vai de terno bananeiro cortado em Londres, como os do dono da Havan, saldar o presidente, megafone em riste: “Bom dia, presidente salve, salve excelentíssimo Messias”, Quinquim vai falar e depois  vai perguntar ao capitão: “Conhece o Wittgenstein, o Glauber, o Darcy Ribeiro, o Milton Hatoum, o Kierkegaard, a Hannah Arendt, presidente?”. “O que foi que você disse, seu veado?”, ouvirá em resposta. Mas Quinquim não se deixará intimidar. “Escuta aqui, ó, prest’enção presidente: 1) O mundo é tudo que é o caso; 2) O que é o caso, o fato, é a existência de estados de coisas; 3) A figuração lógica dos fatos é o pensamento; 4) O pensamento é a proposição com sentido; 5) A proposição é uma função de verdade das proposições elementares. (A proposição elementar é uma função de verdade de si mesma.); 6) A forma geral da função de verdade é

Isso é a forma geral da proposição; 7) Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.

E isso daí, tá ligado, presidente?”.

O forno pela hora da morte

Tô terminando a prestação do meu buraco,
do meu lugar no cemitério pra não me preocupar
de não mais ter onde morrer.
Ainda bem que no mês que vem posso morrer,
já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

Nem sonhe em ser cremado, o forno está pela hora da morte. Mas que bom que já tenho um gavetão, já tenho um gavetão, já tenho um gavetão.

Robert Frost: Fogo e gelo

De um programa da Cultura FM (RadioMetrópolis), apresentado pelo jornalista Fabio Malavoglia:

“Entre os mais conhecidos versos do poeta americano Robert Frost estão aqueles que compõem o poema Fire and Ice, isto é, Fogo e Gelo. Nesta obra Frost retrata aqueles que têm o hábito de predizer como acontecerá o fim do mundo. O poeta observa e comenta duas posturas opostas na aparência mas semelhantes no fundo pois, de uma forma ou outra, são pessoas que oscilam entre as labaredas da violência e as geleiras da indiferença. Tanto faz: umas e outras são fatais para o mundo, palavra que pode ser entendida como sinônimo para ‘o homem’.”

FIRE AND ICE – Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if I had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO – Tradução de Fabio Malavoglia

Acham alguns, o mundo acaba em fogo,
acham alguns, será no gelo.
Por quanto saboreio nos meus rogos
Apoio os que são a favor do fogo.
Mas se ser morto em dobro for meu selo
Creio do ódio já saber bastante
Para dizer aos que preferem gelo
Que ele também garante
O suficiente flagelo.

Pesquei na rede esta outra versão.

FOGO E GELO – Tradução Guilherme Gontijo Flores

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

Como ambas são meio mancas, arrisco outra, e seja o que deus quiser:

FOGO E GELO

Há quem diga que tudo acaba em fogo,
E há quem fale em gelo.
Do que experimentei do desejo
Apoio quem advogue pelo fogo.
Mas se eu tiver de morrer de novo
Alguma coisa sei sobre o ódio
Para afirmar que o gelo faz sentido:
No fim dá bem para o gasto,
Repetido.

Raimundo Fagner e os herdeiros de Cecília Meireles se desavieram sobre os direitos de Canteiros, poema musicado por Magrinho, como Belchior chamava seu parceiro em Mucuripe (ver entrevista com Marcelo Tas no P.S.).

Canteiros é faixa B2 de Manera Frufru manera (LP de 1973), depois substituída pela gravadora Philips por Cavalo ferro.

Pelo bem geral de todos que não seríamos os mesmos sem a MPB, Fagner e a família de Cecília devem ter feito pazes advocatícias, pois no final da mesma década nosso cantautor de Orós voltou à obra da poeta com Motivo, faixa B2 do LP Quem viver chorará (Eu canto), de 1978, que tem esta dedicatória:

“Ao seu Fares e dona Francisca, com todo amor que tenho, e terei, quem viver chorará, Raimundo Fagner, Rio 29.08.78”.

A melodia do poema é transcriada numa sonoridade que ecoa o canto gitano, o fado, a seresta e o choro. Uma união feliz e duradoura em música e poesia.

Raimundão convidou Amelinha para uns vocalises que encarnam o penetrante colorido das cordas no arranjo: violão Ovation (Fagner), violão 7 cordas (Horondino José da Silva, o Dino 7 Cordas) e cavaquinho (Manassés), mais nada.

A contracapa do LP de 1978
MOTIVO – Cecília Meireles, poema de Viagem, 1939

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

O dicionário atrofiado

Manjou como o português está resumido nos corretores algorítmicos de texto? Podaram na boa uns dois terços do Houaiss. Tudo a ver com o patoá digital e o inglês do marketing, aliás, tudo a ver com o espírito, isto é, o fantasma da época.

«O caso Stálin e o espantalho Arendt no Brasil de Bolsonaro. Por Yara Frateschi, no El País Brasil.»

«Ficou bom pacas este Provoca, na TV Cultura, com Marcelo Tas entrevistando Fagner.»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. É do balacobaco. Somos introduzidos na fantástica coleção de violões do cantautor, que nos explica como e quando usa cada instrumento, seus timbres, madeiras e sonorizações de palcos. No segundo episódio, fala das afinações que utiliza, como chegou a elas e de sua importância nas composições.

João também toca e canta, para nossa sorte.»

«Joyce Morenoao vivo no Blue Note Tokyo (2008). Imperdível. Todo o suingue, charme e categoria desta artista está neste show, refrescando a bossa nova para os japoneses no aniversário do movimento.»

«Muito Prazer, Meu Primeiro Disco – Chico Buarque de Hollanda. O projeto do Sesc Pinheiros é idealizado pelo jornalista e escritor Lucas Nobile, com curadoria dele e de Zuza Homem de Mello. Vem à baila depois da morte de Zuza, no último dia 4, aos 87 anos. O entrevistado do episódio de estreia é Gilberto Gil. Mas essa conversa com Chico sobre seu primeiro LP, de1966, é rara e preciosa, como a própria participação de Zuza. É deliciosa a passagem em que Chico conta como aprendeu a compor com Tom Jobim

«Zuza Homem de Mello, curta-metragem de Jorge Bodanzky lançado em 2015 está na plataforma deste o início do mês. É ótimo. Zuza exibe em casa sua coleção de discos e fala de sua formação como jornalista musical quando estudava nos EUA.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Papo cabeça com Tiradentes

Jurupoca #35 – Carta semanal de cultura e ideias
Desde Belo, 14 a 20 de agosto, 2020 – Ano 2

FERNANDO PESSOA Passos da Cruz
 
III - Adagas cujas joias velhas galas...
 
Adagas cujas joias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...
 
O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até joias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas...


Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge

Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...

 
XI - Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
 
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
 
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
 
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...
 
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...

Este é o quinto de dez números da Ju ou (ah, se você quiser) Juju, com a extração de poemas reunidos por José Lino Grünewald na antologia Grandes sonetos da nossa língua (Nova Fronteira, 1987).
 

Zinco, ar, folhagem, céu, obra contemporânea de artista desconhecido — até dele mesmo (possível explicação nas notas de viagem desta edição). Foto: Siutônio Antuv
Natureza-bem-viva Natureza-pra-lá-de-morta (ver notas de viagem nesta edição). Fotos: Siutônio Antuves

“Tudo um só rio, uma só onda, um só arrastado horror./ Helahoho! helahoho”.

Ode marcial, Fernando pessoa em fase Álvaro de Campos

“Ora, vá à merda!”

Edélsio Tavares, o Tava (cria do Ivan Lessa no Pasquim), ao responder, à maneira, a carta de um leitor (“…sou operário, ganho pouco e…”) — Em Garotos da fuzarca.

“Aqui, na Jurupoca, ainda se critica!”

Vera Leonor do Prado

Opa! Vamos apear?


Então segura a barra, quer dizer, aguenta a equação!

O brasileiro, estendo o Euclides, é antes de tudo um forte. Realiza proezas com imunidades de rebanho, pela própria natureza. Nada no esgoto sem problema e mata piolho e Corona com uma tisana só.

É capaz de beber, vamos lá, Hidróxido de Ciaenectina, se doutor Godofredo Jegão receitar tal garrafada no YouTube do WhatsApp. Remedinho garantido esse daí, e ia-se logo junto com o vírus, já que não está fácil pagar as contas.

Eu dizia, o caboclo sustenta o evangelista e garante, como uma letra de câmbio, uma mão do Senhor. Cura dor de garganta, levanta um ganhame, descola um velocípede, um arado, uma alpercata.

Reza, trabalha e cala, como escreviam nos muros de Granada nos tempos do generalíssimo Franco.

Mais quatro anos de !Caveirão.38!, nosso franco jumentíssimo, com esgoto a céu aberto e muito xexéu do mangue, mas livres dos comunas e do mau olhado dos globalistas pró-China, é disso que precisamos!

TOMA, APRENDEEEE!, grita a entidade, posso ouvir daqui. Antes da pandemia tinha mais índio a comerciar no calçadão de Copacabana que brasileiro na pinda.

Tudo isso vai passar, como o fogo na Amazônia e a seca no Nordeste, é só esperar, como o buarqueano Pedro Pedreiro, ainda a esperar um trem que já vem, que já vem, que já vem, que já vem…

— Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

— Pois é o que eu mesmo penso!


O mártir

O busto do mártir na rua da Câmara (Tiradentes, Minas dos Matos Gerais) é testemunha de minha boca aberta por trás da máscara. Me deu uma piscadela, o mártir, e depois reclamou comigo dos novos implicantes com ele, dos ideólogos patrulheiros de meia-tigela. Depois de terem esquartejado, querem agora desmartirizá-lo como pai da pátria, queixou-se o Quincas. Paciência, meu velho, eu lhe disse, dê-se por satisfeito se a turma não te botar abaixo ou te pichar com tinta vermelha, como fizeram com Cervantes em São Francisco. Mas tudo passa, acresci, e seu bronze há de sobreviver às novas ondas e tontices. Deixei, o mártir, lá, só e desacorçoado. E fui dar meu rolê com os meus, pois merecia. Meio ano sem ver filho e nora. Longe dos 70 decibéis, 24×7, sob os auspícios das Organizações Hermes Pardineiro, nossa vizinha, fiquei tonto com tamanho silêncio. E sugava oxigênio como um pinguço mama a bendita. E olhava às montanhas que cercam a cidade e o verde do mato com a fome e a sede de justiça de um quarentenado. 


Curador e crítico

Como curador do ar e crítico de arte da rua Guaicurus, no Belo, tive poucas e boas surpresas em Tiradentes, no último finde. Você viu aí acima meus registros históricos. Costumo ensinar a meus alunos da Paquequer, outra rua do Belo exerço minha cátedra, que o verdadeiro artista contemporâneo não tem a menor noção do que é ser isso, artista contemporâneo. É como o Caeiro do Pessoa, ele, o artista, não sabe pensar em nada. Pra ele o luar através dos altos ramos — além de ser o luar através dos altos ramos — não é mais que o luar através dos altos ramos. Os artistas contemporâneos que se assumem como tais vivem na coleirinha de um curador-roteirista. Como diz o Granés, agora qualquer coisa entra em museu como ready-made, sem a força do urinol do Duchamp, qualquer coisa! “A antiarte não acabou com a arte; ocupou seu lugar”, finca o colombiano. Por isso, louvo o artista que nem sabia que instalava sua magnífica obra, que nomeei Zinco, ar, folhagem, céu. Mas outra surpresa tomou conta de mim em Tiradentes. Balancei diante dumas peras deprimidas sobre pano azul; fiquei chocado com a tela. Sinistro!, como se diz hoje. Um artista local, presumi, me apresentava, quiçá ao mundo, um novo gênero de pintura, a natureza-funéria! Aquelas peras transcendentes e transmigrantes estavam acima, muito acima de qualquer natureza-morta do Cezanne ou bodegón do Coltán. Fotografei, mas devia ter feito uma selfie e postado por aí, na conta de alguém. Talvez assim fizesse de mim e desta Ju celebridades instantâneas.

Como diz o Granés, agora qualquer coisa entra em museu como ready-made, sem a força do urinol do Duchamp, qualquer coisa! “A antiarte não acabou com a arte; ocupou seu lugar”, finca o colombiano. Por isso, louvo o artista que nem sabia que instalava sua magnífica obra, que nomeei Zinco, ar, folhagem, céu


 
Live lendária

As peras deprimidas me balançaram quase tanto quanto a live do Caetano, que vimos com vinho e lareira crepitante, bem ao vivo. Foi mesmo de poner los pelos de punta. Não perdi nem um ou outro acorde mal colocado. Nada importava depois de ouvir Milagres do povo e Um índio. Caê e sua grei foram um estrondo, um barato. Caetano é inoxidável, como diz um radialista nordestino, apud Foro de Teresina. “Aos 78 anos, o soberano coração de Caetano Emanuel Viana Teles Veloso ainda é capaz de sentir e operar milagres na alma do Brasil ao sintetizar dores e delícias do país em live lendária”, definiu Mauro Ferreira em seu blog.

Em Tiradentes (composição escolar)

Pela estrada a fora íamos contentes, comprar queijo e goiabada pra vovozinha. Uns guardas municipais mascarados batiam o maior papo com paisanos de cara livre, na boa. Turistas descompostos tiravam fotos ao pé do adro da feia Matriz, fechada. Os mortos sepultados lá no fundo iam bem, obrigado. Vimos muitas e engalanadas cagaiteiras, verdadeiras noivas deste agosto. O boteco perto da ponte sobre o rio merdoso estava bem cheio; muito chope, arrotos, perdigotos, aerossóis, eta nós! O Corona, pensei, seguirá bem contente pela estrada a fora, até a vovozinha.

 
Falou e disse (1)

O cancelamento “é, pois, um ativismo inquisitorial, histérico, mimado e ressentido que tem feito inúmeras vítimas”, falou Catarina Rochamonte na Foia, isto é, Folha (às vezes meu mineirês me pega). E disse a doutora em filosofia: “Essa bizarra ‘cultura do cancelamento’ também está em alta no Brasil, tendo atingido dia desses o jornalista Leandro Narloch, demitido da CNN sob acusação de homofobia, e, mais recentemente, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz […]. Os justiceiros sociais cometeram notória injustiça. Mesmo assim, Lilia Schwarcz se desculpou. Ou seja, ela cedeu à patrulha e cancelou a si mesma.” Bão, essa Ju não chega a “intelectual cis branca”, digo, como publicação, mas abre mão do elitismo fácil, fácil, ao menos quando pede pinga com torresmo no Bar Brasil. Aliás, falando sério, esta Ju, ou Juju (ah, se você quiser), há tempos se autocancelou. Você só acha seu escrevente juramentado aqui, semanalmente, nada de feis, tuíte, essas sociabilidades perfunctórias.

O cancelamento “é um ativismo inquisitorial, histérico, mimado e ressentido que tem feito inúmeras vítimas”.

Catarina Rochamonte, na FOLHA DE S.PAULO


Falou e disse (2)

“Agora, a isso se chama ‘guerra de narrativas’, mas não passa de uma batalha de mentiras; uma batalha que, ocioso acrescentar, não se dá só na Espanha: em todo lugar o poder tentar construir um passado à sua medida”, falou o Javier Cercas no El País (ando gostando mais do Cercas que do Marías, pra ficar nos dois Javieres) — e disse: “Existirá alguém então a quem interesse a verdade?”, ele se pergunta, pra ele próprio responder: “Não sei. O que sei é que deveria nos interessar a todos, e muito: primeiro, porque sabemos que desde o Evangelho a verdade faz homens e mulheres livres, enquanto a mentira só faz escravos; e, segundo, porque não pode haver ninguém tão interessado como nós mesmos em controlar o poder, freando um instinto arraigado até o fundo em sua natureza, que é o instinto de acumular mais poder e se perpetuar”. Ô Cercas, que coisa, conta essa pra Ema do Planalto!

“A isso [que] se chama ‘guerra de narrativas’ não passa de uma batalha de mentiras; uma batalha que, ocioso acrescentar, não se dá só na Espanha: em todo lugar o poder tentar construir um passado à sua medida”

Javier Cercas no el país

Zema Zen, um filósofo beira-corgo

Depois de cinco meses de pandemia e mais de 100 mil mortos, com o país sem ministro da saúde, destrambelhado, e sem economizar na cloroquina, o governador das Minas dos Matos Gerais, Zema Zen, acha que é cedo pra opinar sobre o desempenho de !Caveirão.34! na catástrofe. “Como o jogo não acabou, é muito difícil fazer uma avaliação”, obtemperou o doutor Zen à DW Brasil. O caipirão miliardário, suprassumo do novo na política, entende que como “o comportamento do vírus ainda não foi entendido”, é “difícil avaliar quem fez certo e quem fez errado até o momento”. Mas Minas mesmo vai de mal a pior. O doutor chega a elogiar o “liberalismo” do governo, quando o governo mostra o traseiro pro liberalismo e põe na rua os funcionários do Posto Ipiranga. Zema Zen também relativiza as críticas do mundo inteiro ao ministro da Xinga Acesa e, no frigir dos ovos, ajuíza que é “boa” a gestão de !Caveirão.34! Só não se sabe se nosso catatuá Zen já aprendeu a conjugar o verbo ouvir.


A tubaína não resolve, uai

Outra sumidade das Minas dos Matos, o doutor Odelmo Leão, prefeito de Uberlândia pela quinta vez, depois de espalhar cloroquina e Ivermectina feito dipirona nos seus postos de saúde, está numa encrenca, ou vai ver que não está nem aí, o mais provável. O sistema de saúde da cidade beira o colapso, e faltam bloqueadores e anestésicos para entubação nas UTIs, como alertou o Ministério Público Federal. Doutor Odelmo é da estirpe dos Odoricos mas, ao contrário do eterno prefeito de Sucupira, não tem graça nenhuma.  


Gal Costa (Maria da Graça Costa Penna Burgos, Salvador, 1946) canta Antonico, de Ismael Silva (Milton de Oliveira Ismael Silva, Niterói, 1905­­-Rio de Janeiro, 1978). Faixa C6 do vinil duplo Gal a todo vapor, da Philips, de 1971.

Não pode haver versão mais estrita e bonita que essa, com Gal se acompanhando ao violão, e nada mais. A própria gravação de Ismael não é de se jogar fora. Me refiro ao registro em que o grande artista se apresenta (faixa A1) no álbum Se você jurar – Série Documentos (1973), da RCA Victor.

O samba é envelopado num arranjo orquestral que ressalta aquela lição do Samba da bênção? (Baden Powell e Vinicius de Morais), você sabe, que pra fazer um samba com beleza, é preciso um bocado de tristeza…

O canto pede uma viração, i.e., um bico, um biscate, um serviço pro Nestor, que toca cuíca, surdo e tamborim como ninguém na parada, mas anda mal e sofre com a inveja alheia, essa tiririca.  

Em 15 de maio de 2015 postei este Santinho para Alfredo, irmão morto fazia pouco.  

Esta canção de Ismael
Que Alfredo, irmão mais
Velho, cantou no banho.

Fred, ainda no banho,
Cantava esta canção
Do sambista Ismael.

Alfredo, irmão mais velho,
Agora canta no banho
Esta canção de Ismael.

No ano seguinte um nomão da École Normale Supérieure mostrou no Belo que sabia de nossos bambas, e fez questão de demonstrar isso em sua palestra, entre uma referência a Platão e outra a Montaigne.

Batuquei o acontecimento numa anotação, A noite em que o filósofo Francis Wolff cantarolou um samba de Ismael.

Eu próprio mando um Antonico no banho, vez em quando, em dueto com o Fred, bem mais entoado que o caçula de Dona Hilda.

ANTONICO (letra com o declamatório de Ismael)
  
Meu nome é Ismael Silva
Nasci em Jurujuba, em Niterói
E fui para o Rio, essa cidade sempre maravilhosa

Aos três anos de idade
Fundei a primeira escola de samba no bairro do Estácio de Sá
E pelo tempo venho fazendo minha música
Eu espero que vocês gostem

 
Oh Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
 
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim
 
 
Até muamba já fizeram pro rapaz
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser
E agradeço pelo que você fizer

De gelar o sangue

A série norueguesa Kieler Street (rua Kieler) com dez episódios, vai pela metade no canal Film&Arts. E vai além do entretenimento bobalhão que inunda o streaming. Ganha de muito do noir nórdico mais recente, que deu de abusar do já-manjado. Na pequenina e ficcional Slusvik você jamais saberá quem é o cidadão de vida pacata e civilizada com quem está falando. A normalidade em Slusvik é quase tão normal como a de Twin Peaks. E o enredo de fundo policial quer, lá no fundo, escanear os desvãos da moral e dos bons costumes. O quinto episódio revelou um climão perverso que encantaria Nelson Rodrigues. Luciana Coelho notou a dívida do autor da série, aliás explícita, com o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906) e a peça Casa de Bonecas, escrita em 1879. O desempenho dos atores pode ser mais frio que a neve onipresente, mas que refinamento! Perto de uma produção assim, as tentativas brasileiras de se aprofundar no gênero, inclusive as dos canais estrangeiros, como Fox e HBO, não passam de tributo ao novelão.


Bacurau na Jacobin

Bacurau é o filme mais imprescindível desde Parasita, exaltou-se a revista socialista Jacobin. A sofreguidão do comentário é tão excitada que pode levar um leitor avoado a mentar cenas de outros gêneros, ainda mais picantes. A autora convoca os amigos da esquerda a correrem pra ver a fita de Kleber Mendonça, que ela filia ao um Cinema Novo redivivo, ainda que banhando na butique hollywoodiana do filme de ação. O entusiasmo que transborda do artigo é tão grande que até pensei em rever Parasita, e tentar rebaixar um pouco minha impressão do ganhador do Oscar, ou repassar Bacurau, e quem sabe melhorar um pouco meu juízo do longa. Mas a imodéstia de Mendonça (“Quando vi o Parasita, foi como se eu e Bong estivéssemos falando o mesmo idioma. Na verdade, eu acho que Bacurau e Parasita são primos.”) me fez mudar de ideia. Não creio que haja qualquer parentesco, além de uma tentativa muito bem-sucedida e outra redondamente fracassada de expor a miserê no turbocapitalismo tecnológico, se isso não é dizer muita besteira.


A falta que um espelho faz

O colunista Maurício Stycer malha, com carradas de razão, a CNN Brasil por abrigar o lelé da cuca Alexandre Garcia, que tentar ser pro ¡Caveirão.38! o que Amaral Neto fora para os generais da ditadura. A emissora, lê-se, “dá palco a negacionistas da ciência para parecer pluralista”. Apois. Sem a mesma rudeza, a Folha tem feito o mesmo, e parece ter feito escola. Pra “parecer pluralista”, o jornal há muito vem demitindo colunistas e contratando outros a golpes de marketing. Houve uma época em que o jornal selecionava seus críticos por concurso ou pelo critério do notório saber, além, claro, do notório saber escrever pra jornal.


«Conheça Plinio Fernandes, jovem violonista brasileiro que chegou à Royal Academy of Music. Estadão.»

«A emboscada – O súbito silêncio de Bolsonaro, por André Petry, na Piauí.»

«O checklist da cultura do cancelamento. Letras Libres, em espanhol.»

«Navalhas, navalhas. Navalhas. Como os Estados Unidos incentivaram o assassinato em massa para salvar o mundo do comunismo. The Baffler, em inglês.»

«A guerra que nos fez como somos, por Keith Lowe. El País, em espanhol.»

«Charles Bukowski um século depois. Grande poeta, bêbado e iluminado. Corriere della Sera, em italiano.»

«Olga Tokarczuk: “Esta época de pandemia pode ser interessante para indagar sobre a natureza do homem”. El País Brasil.»

«Os livros de Philip Roth voltam para ‘casa’. El País Brasil.

«Como a mídia conduziu o grande despertar racial. Tablet, em inglês.»

«O Guia de Leitura Kamala Harris: o melhor relato sobre a candidata a vice-presidente. ProPublica, em inglês.»

«Maria Marcella Feat Dori Caymmi – Dia de Graça

«Lament for Emmett Till – ALA.NI em live a capella.»


«Stefania Tallini & Franco Piana Duo – Estate


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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.