Zuckerman Safadão & Roth Safadinho

[Ensaio publicado na Inclusive.com número 8, setembro_2017]

Philip Roth

Philip Roth, o artista quando mais ou menos jovem, num momento Nathan Zuckerman

I

O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman.

Nathan “torna-se” Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro. Imagino o escritor lendo este texto com a cara se abrindo em seu típico meio sorriso sarcástico. Ele podia exclamar, diante da diversidade de seus críticos: pois é, ganhei, papudos!

O leitor fervoroso de Roth, como o idealizo, é alguém educado na arte da ficção. Alguém que não deixa se abater pelo desamor à graça e à beleza do pós-modernismo e desdenha as atribuladas discussões sobre coincidências entre a ficção de um autor e sua biografia. Desdenha ainda mais o histerismo das cobranças identitárias que, à sua maneira, queimam livros e ideias. Mas, cá entre nós, leitor, Roth e Zuckerman não nos dão paz, e vamos virando página após página, e depois relendo as histórias, obstinadamente.

Zuckerman, a quem Roth significativamente não matou (matar, até que matou, provisoriamente), antes de, em outubro de 2012, anunciar sua aposentadoria como romancista, é narrador ou protagonista da parte mais substantiva da obra do autor.

O jogo de esconde-esconde autobiográfico Zuckerman/Roth, ou o jogo de luz e sombras entre criador e criatura — matéria-prima literária essencial de sua ficção — é mitológico e decisivo, com o perdão do trocadilho (talvez com algum eco significante) com o ensaio clássico de Albert Camus[1].

O Avesso da Vida (1986)[2] me parece o ponto alto desse espelhamento entre ficção e realidade. Esse romance polissêmico pode ser lido em duas vertentes principais: como crítica imaginosa à tentativa do público menos dócil e menos afeito à ficção de gabaritar uma na outra, e a um tempo como a autoanálise de um escritor judeu sobre os limites que esta condição deve ou não impor à liberdade artística.

O livro, que me parece subestimado no conjunto da obra, revela uma grande violência verbal, à la Roth, por óbvio. O autor-narrador nos dá a sensação de lutar obsessivamente contra a própria sombra e de ajustar contas de vida ou morte com a ficção e o judaísmo — de fato, depois desse romance, Zuckerman reaparecerá apaziguado como narrador em Pastoral Americana (1997)[3], e só o reconheceremos como “persona” atormentada, e por outras razões, é verdade, vinte anos mais tarde, do que falo à frente. O Avesso da Vida é, enfim, uma obra densa, febril e aflitiva. Como diz o próprio Roth em um de seus relatos autobiográficos, o livro expõe, no sentido de “entregar” ao leitor, a ossatura do romance que ele está a ler.

Pelas tantas da narrativa, seguimos o pensamento de Nathan:

“Enquanto ele [Henry, irmão de Zuckerman, que, como o próprio, morre num capítulo para reviver no seguinte] falava, eu ia pensando, as histórias em que as pessoas transformam a vida, as vidas em que as pessoas transformam as histórias”.

Ocorreu-me, então, esta paráfrase tonta de Pessoa: Roth ficcionista é um fingidor que chega a fingir que é ficção a ficção que deveras cria. Isso será arte?

Pois não é que reencontrei a mesma frase grifada ao abrir Os Fatos – A Autobiografia de um Romancista (1988)[4], obra só lançada no Brasil no ano passado e que é complementar ao romance. E, nada menos, como a epígrafe do relato, que, ora pois, começa e termina com a correspondência meio azeda entre Roth e Zuckerman.

O que mais gosto em O Avesso da Vida é da passagem na qual, depois do enterro de Nathan, com Roth assumindo o volante da narrativa, agora em terceira pessoa, um Henry indignado suborna a zeladora do edifício para entrar no apartamento do irmão, antes dos responsáveis por seu espólio, e surrupiar as anotações e “minutas” que lhe dizem respeito e converteriam sua vida na típica ficção falocêntrica: a ficção que já conhecemos. Aí está uma arrojada e precisa cambalhota narrativa, Mr. Roth, pensei com meus botões.

II

No início deste inverno, depois de mantê-lo à cabeceira a se empoeirar por quase dois anos, pus fim ao descanso imerecido de Zuckerman Acorrentado [5], o grosso volume com os relatos iniciais do personagem de Roth (escritos entre os anos 1970 e o começo da década seguinte).

Em O Escritor Fantasma, a primeira das quatro histórias reunidas, Nathan é um ficcionista que engatinha, ainda no final dos anos cinquenta. Para júbilo seu, é recebido pelo mestre com quem sonha como pai intelectual adotivo e por quem almeja ser ungido e abençoado.

Zuckerman chega à propriedade rural de Emanuel Isidore Lenoff, nos montes Berkshires, Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A visita será retomada mais tarde em “Fantasma Sai de Cena” (2007)[6]. Nathan então será um sexagenário à beira de um colapso mental, incontinente e impotente — sequelas da extração da próstata — e ainda assim vítima da tormentosa sedução de uma moça linda, culta, inteligente… e casada.

O leitor de Roth idealizado dá boas risadas com o Zuckerman escritor saindo das fraldas. Algumas frases guardam o melhor do humor corrosivo do personagem:

“Lenoff pronunciou ‘ficção’ como se tratasse de um cereal matinal”. 

Ou sobre a primeira visão de Nathan diante da linda Amy Bellette, personagem que ressurgirá quase 30 anos mais tarde:

“Com aquele rosto, cujos ossos fortes me pareciam ter sido alinhados por um escultor menos inocente que a natureza — com aquele rosto, ela devia ter mais que doze anos. Se bem que, se não tivesse, eu podia esperar”.

Há em O Escritor Fantasma — a par da centralidade do sexo e da crítica habitual à intelectualidade norte-americana, à academia, à crítica literária, à imprensa etc. — achados como este, a lembrar (por fora) as “tríades conradianas” mencionadas na prosa sexy entre Zuckerman e Jamie Logan em Fantasma Sai de Cena:

“A batedeira zumbia, a lenha estalava, o vento soprava e as árvores gemiam enquanto eu, aos vinte e três anos de idade, tentava pensar num modo de aplacar a melancolia daquele homem”.

Em Zuckerman Libertado e O Professor de Anatomia, que completam com A Orgia de Praga (chamado “um epílogo”) a edição compilada, nosso anti-herói, paranoico e enroscado com seu “harém” e suas dores excruciantes nas costas, paga o pato por ter lançado o muito bem-sucedido “Carnovsky”. A amoralidade, a salacidade e a liberalidade do livro com o judaísmo fazem de Zuckerman persona non grata entre nacionalistas israelenses e guardiães da Torá e do Talmude.

“Carnovsky”, por óbvio, é o simétrico irônico-cômico do padecimento que o próprio Roth sofreu com a publicação de O Complexo de Portnoy (1969), saga de um rapaz judeu campeão no que já se chamou nos manuais cristãos de “vício solitário” ou “autoviolação” — obra que ainda impõe um desafio ao leitor para controlar o riso.

Por essas e outras, trato intimamente o autor de “Carnovsky” de Zuckerman Safadão, fruto da verve de um Philip Roth que, por tê-lo imaginado, o homem e suas circunstâncias — por certo modeladas em experiências reais exageradas e distorcidas — merece formar com seu rebento uma dupla nada caipira. Agora com vocês, Zuckerman Safadão & Roth Safadinho.

III

Sigo lendo e relendo Roth, como deixei antever até aqui. Minha principal motivação foi ter assistido umas seis vezes ao ótimo documentário Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra, de Adrien Soland e François Busnel, lançado na França em 2015 e exibido este ano no canal Curta!.

O filme reúne trechos de entrevistas gravadas em ocasiões diversas, incluindo o período posterior à aposentadoria do autor. O roteiro apõe falas de Roth à leitura de passagens da obra e imagens de ruas e esquinas de Nova York nela retratadas e fixadas no mapa literário da cidade, bem como no GPS amoroso de seus leitores.

Retenho a última sequência, gravada na casa rural do escritor no estado norte-americano de Connecticut. A câmara se alterna entre o entrevistado, no seu jardim e na sala de estar, onde ouve um vinil clássico, e a fachada grafite da casa, que avistamos no contracampo desde os limites da área verde e de árvores seculares que há muito preservavam a paz do autor octogenário. Ao anoitecer, as luzes dessa fachada se apagam, uma após outra, uma persiana de tecido é abaixada; então o fade-out e os créditos finais.

O assunto da entrevista nessa parte são as duas derradeiras obras de ficção e a expectativa da morte que ronda quem dependurou as chuteiras. O escritor, aos 82 anos à época, refere-se à “perda da magia” de muitos artistas depois dos 65 anos, tema de A Humilhação (2009) — a história de um ator abandonado pelo talento — e da sombra da Indesejada das gentes[7] que ressurge em Nêmesis (2010) — o relato da juventude feliz de um atleta sugada pela poliomielite. Resignado, o escritor diz, num meio sorriso, ao abordar sua retirada de cena: “a Nêmesis está mesmo ali na esquina. Então me aposentei e comecei a curtir a vida”.

Ouvimos na sequência alguns compassos das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss, obra que merece um suspiro de Roth. Ele pergunta ao entrevistador se conhece as obras e exclama, risonho: “São uma maravilha”.

O leitor idealizado de Roth[8] vai se lembrar da referência de Zuckerman à música em um trecho de Fantasma Sai de Cena, onde Nathan justifica dessa forma a escolha desses lieder como trilha do diálogo teatral que ele tenta esboçar em seu tormentoso regresso a Nova York, depois de um longo autoexílio no campo:

“Pela profundidade obtida não através da complexidade, e sim da clareza e simplicidade. Pela pureza do sentimento sobre a morte, o adeus, a perda. Pela longa linha melódica que se estende e a voz feminina que ascende mais e mais. Pelo equilíbrio e tranquilidade, a graça, a beleza e a intensa ascensão. Pela maneira como o ouvinte é atraído para dentro do tremendo arco de dor. O compositor tira todas as máscaras e, aos oitenta e dois anos de idade, se expõe ao ouvinte nu. E o ouvinte se dissolve.”

Os documentaristas não quiseram tirar o prazer do espectador e leitor atento de Roth, ao evitarem frisar o paralelismo do desfecho. Não enfatizaram no roteiro a força simbólica de vermos o escritor — retirado da cena literária, com a obra muito bem-sucedida — a ouvir, arrebatado, o último e iluminado trabalho do velho Strauss.

O ciclo da vida e a plácida aceitação do seu fim ressoam melancolicamente nas quatro canções, compostas sobre poemas de Herman Hesse e Joseph von Eichendorff.  Transcrevo o verso final de In Abendrot (crepúsculo), a última delas:

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot.
Wie sind wir wandermüde —
Ist dies etwa der Tod?

(Na tradução da Wikipédia:)

Ó paz imensa e tranquila
tão profunda no crepúsculo!
Como nós estamos cansados dessa jornada —
Seria talvez isso já a morte?

O escritor I. E. Lenoff, cuja memória é recuperada em Fantasma Sai de Cena, é citado no reencontro entre Nathan e Amy Bellette, quando o mentor de Zuckerman é lembrado em suas palavras finais: “O fim é imenso, é sua própria poesia. Quase não pede retórica. É só enunciá-lo tal como ele é.”

O que atrai o idealizado leitor de Philip Roth, em boa medida, é o que molda o leitor ideal per se.

No fim de um capítulo de Fantasma Sai de Cena, Zuckerman se pergunta se, para uns poucos, o sofrimento real, por maior que seja, não dispensa “uma amplificação ficcional que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida. Ao que responde:

“Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

Mas o que é isso senão uma manifestação do espírito proustiano, como o sentimos encarnado já no final do longo curso de Em Busca do Tempo Perdido[9]:

“A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura”.

No ensaio Alfabetização Humanista[10], George Steiner se refere à mesma substância da intersecção entre vida e arte, ao formular, de modo inesquecível:

“Quando é mais que devaneio de um apetite indiferente nascido do tédio, a leitura é uma forma de atuação. Atraímos a presença, a voz do livro. Permitimos que entre, ainda que não sem reservas, em nosso íntimo. Um poema magnífico, um romance clássico, entram à força em nosso interior; tomam de assalto e ocupam as praças fortes de nossa consciência. Exercem sobre nossa imaginação e desejos, sobre nossas ambições e sonhos mais secretos, um domínio estranho e contundente. Quem queima livros sabe o que está fazendo. O artista é a força incontrolável: depois de Van Gogh, nenhum olhar ocidental pode contemplar um cipreste sem notar nele o princípio de uma chama”.

IV

Fiz uma árdua releitura de Pastoral Americana. Árdua, talvez porque a vida do Sueco — uma pequena estrela no céu onírico americano à mercê da atração gravitacional do buraco negro da Guerra do Vietnã — tenha se tornado tão familiar como um episódio que muitas vezes recobramos, ou tentamos recobrar, e cuja memória não traz qualquer escape de redenção. Mas é o que costuma ocorrer com grandes romances.

Três passagens de que não me lembrava valeram especialmente o esforço. O devaneio do Sueco ao revelar seu ideal mais profundo: ter sido um Johnny Semente de Maçã (Johnny Appleseed), o herói do folclore norte-americano, e podido vagar pelos campos do mundo a espalhar árvores frutíferas e bondade. É uma imagem que nos fere como um verso de Lorca, pois se choca contra o infortúnio do personagem como uma onda gigante a engolir um bote à deriva.

Reli e senti ainda mais intensamente a força tremenda contida na narração do reencontro do Sueco com sua filha Merry, então um trapo humano convertido ao jainismo, em um quarto sórdido de um beco miserável de sua cidade natal. Que leitor dedicado consegue mergulhar nessa longa passagem e emergir, ao atravessá-la, sendo o mesmo leitor de antes?

Nathan Zuckerman, o narrador, em outro episódio memorável, leva o Sueco — depois de ele ter saboreado todos os círculos do inferno abertos pelo Vietnã e pelos conflitos familiares entre judeus e góis — a considerar que o Dia de Ação de Graças é a “pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”. Porque nesse feriado, quando “um peru colossal alimenta todo mundo”, vigora uma “moratória” das barreiras raciais e religiosas, “uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória da nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos”.

Não esperava, mas afinal obtive mais prazer — não recordava quase nada do livro — ao ter relido, antes, Casei com um Comunista (1998)[11], romance que termina com a frase “as estrelas são indispensáveis”, num raro laivo lírico na obra do Roth.

Ao retomarmos os anos do Macarthismo e sua mancha na civilização norte-americana, nosso interesse recai no misto de graça e tragédia na representação da doença do fanatismo e seus efeitos perversos em Ira Ringold, ou Iron Rinn, o personagem central que tentou ser uma espécie de pai substituto para o adolescente Nathan Zuckerman.

Casei com um Comunista retrata de maneira implacável e, por assim dizer, demasiadamente humana, o socialista pró-soviético Ringold, como também toda a adesão a posições extremas, seja na literatura, na estética ou na política.

A narrativa disseca a gênese da cooptação de um espírito frágil e desamparado pela ideologia, a dizer muito sobre nosso próprio mundo[12]:

“O léxico pseudocientífico do marxismo, o jargão utópico que o acompanhava — despeje essa conversa em cima de alguém tão sem instrução e sem cultura como Ira, doutrine com o glamour intelectual das Grandes Ideias Radicais um adulto que não é lá muito desembaraçado no que diz respeito a usar a cabeça, catequize um homem de inteligência limitada, um tipo suscetível que seja tão inflamado quanto Ira… Mas esse um assunto bem distinto, o nexo da exasperação e não pensar”.

O livro inteiro é rico em sínteses como essa, que trazem a beleza da verdade revelada. Quando Zuckerman e seu querido professor Murray, o irmão de Ira, estão ouvindo a canção soviética Dubinuchka, cujo refrão diz “Eia! Avante”, de um LP regalado a Nathan pelo grande homem (Ira lembrava Abraham Lincoln fisicamente e o representou como ator amador), ele, Nathan, reflete:

“‘Eia! Avante!’ vinha de um local remoto no tempo e no espaço, um resíduo espectral daqueles arrebatadores tempos revolucionários quando todo mundo que almejava mudanças, de forma programática, ingênua — louca e imperdoável — subestimou a capacidade humana para mutilar suas ideias mais elevadas e convertê-las numa farsa trágica. Eia! Avante! Como se a malícia, a fraqueza, a burrice a corrupção humanas não tivessem a mínima chance ao enfrentar o coletivo, a força do povo que, unido, empurrava para a frente, a fim de transformar suas vidas e abolir a injustiça”.

Vou ao YouTube buscar Dubinuchka, música executada no romance em um disco do Coro e Banda do Exército Soviético. Vale a pena o leitor ouvi-la para ampliar a sintonia com o teor emocional suscitado pelo trecho transcrito.

É uma canção de melodia tocante, cheia de pathos. Na tradução do livro, diz a letra:

“Vamos, levante e lute,
Eia! Avante!
Força, todo mundo junto,
Eia! Avante!”

 

Minhas leituras de Philip Roth têm proporcionado, como inesperado desdobramento, outras descobertas musicais. Além desse LP de 78 rotações da Rússia stalinista — e das citadas Quatro Últimas Canções de Strauss, há nessa história o repertório de um recital privado na mansão de Ira e Eve Frame (ex-celebridade do cinema mudo com quem o homem de ferro se casa e enseja sua desgraça) com o trio formado pela filha de Eve, a harpista Sylphid (“com seu tronco quadrado, pernas troncudas e aquele esquisito excesso de carne que a estufava, um pouco com um bisonte, na parte de cima das costas…”) e duas amigas instrumentistas: duos para harpa e flauta de Fauré (Berceuse) e Franz Doppler (Fantasie de Casilda) e o Interlúdio da Sonata para Flauta, Viola e Harpa, de Debussy.

O leitor idealizado de Roth, por certo, também procurará escutar o repertório do recital, levado pela graça da descrição e do enlevo do seu narrador, o velho conhecido Nathan. A audição será recompensada se você, como o autor dessas notas, é alguém que alimentava preconceitos contra a sonoridade da harpa.

Convidado para a festa de gala, Zuckerman se manda de ônibus de Newark para Manhattan, cheio da tensão da expectativa que um adolescente pode ter diante da ventura de frequentar outro mundo social, pleno de políticos, intelectuais e mulheres sedutoras. O relato do narrador é saboroso desde o início:

“E, num sábado à noite bem cedo, joguei uma balinha aromática na boca e, com o coração batendo como se eu fosse cruzar a fronteira do estado para cometer um assassinato, fui até a avenida Chancellor e peguei um ônibus para Nova York”.

 

Quero, de passagem, como que entre parênteses, fazer um registro nesses apontamentos, sabendo que talvez me exceda como leitor obcecado do criador de Alexander Portnoy a adentrar no terreno espinhoso da crítica literária stricto senso. Paciência. Mas vejo Roth como um “ironista trágico”, a categoria na qual Harold Bloom[13] inscreve Flaubert, Eça, Calvino, Borges e Machado de Assis.

Talvez ainda — conforme o estado de arte da crítica literária — um tanto longe da grandeza perene de todos esses grandes, o que apenas a posteridade, creio, poderá avaliar, Roth é o contemporâneo que conheço cuja obra destila a ironia mais elevada, aguda e excitante à inteligência.

 

Mas, e agora José, para onde? O que reler — indago à minha estante, já que o homem já se retirou da ficção e, ao se aproximar da nona década de vida, não deve mesmo voltar atrás — vale dizer, teremos nós próprios de imaginar um final de vida para Nathan Zuckerman?

Olho então para a subseção Roth entre a literatura norte-americana e, em resposta, como dentro do foco de um tambor de luz, reencontro lombadas que nos últimos vinte anos se tornam íntimas a ponto de dispensarem todo tipo de formalidade. O Teatro de Sabbath? A Mancha Humana? Operação Shylock? Homem Comum…? Uni, duni, tê…


 

[1] Refiro-me ao ensaio de Alberto Camus Mito de Sísifo (Editora Guanabara, 1989). A pronúncia do título original em francês (Le Mythe de Sisyphe), remete ao mito grego, mas também a “o mito decisivo” (le mythe décisif). É dessa obra a célebre afirmação de Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”.

[2] O Avesso da Vida, como os outros livros citados de Philip Roth, são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Tradução de Beth Vieira, neste caso.

[3] Traduzido por Rubens Figueiredo.

[4] Traduzido por Jorio Dauster.

[5] Traduzido por Alexandre Hubner.

[6] Traduzido por Paulo Henrique Britto.

[7] De Consoada, poema de Manoel Bandeira: “…quanto ela chegar (…) talvez sorria, ou diga:/ — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer…”.

[8] Sugiro como informação complementar, que pode ou não revelar algo mais sobre um leitor particular de Philip Roth, a leitura de Inferno em Florença, no blog do autor https://goo.gl/oQA751

[9] Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, tradução de Fernando Py, Ediouro, 2001.

[10] Linguagem e Silêncio, Companhia das Letras, 1988, tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally.

[11] Tradução de Rubens Figueiredo.

[12] Nestes dois textos, disponíveis no blog do autor, discute-se a singela e prosaica constituição de um espírito radical no ambiente das faculdades de humanas no Brasil, em “Lobotomias” (https://goo.gl/pZ6jkq) e “Chaui não é mais pícara que outros luminares do lulopetismo” (https://goo.gl/CqK9LN).

[13] A classificação dos “ironistas trágicos” está em Yesod (“fundação”) no livro Gênio, de Harold Bloom, Objetiva, 2003, tradução de José Roberto O’Shea.

Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

bacon the sea

Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

O diário da sexta

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Estranha flor – caminhada no Parque Municipal (Belo Horizonte). Foto: Antônio Siúves

 

PSICANÁLISE

Na Folha de S.Paulo, a verdadeira inteligência está sempre a disputar a atenção do leitor com a impostura intelectual de grife. Com o pretexto da pluralidade ideológica, o jornal realiza seu bem-sucedido marketing, e seja o que deus quiser.  Tomemos a edição desta sexta-feira. No artigo De Marx a Marxilena, Reinaldo Azevedo desmonta com clareza e elegância as ilusões da esquerda de que pode se servir da história como lhe convém — ilusões que não deixam de ser influentes e de fazer estragos. Vladimir Safatle, a pretexto de defender a psicanálise das críticas do neurocientista Ivan Izquierdo, de uma modo tipicamente tortuoso consegue apenas nos mostrar porque a ciência prosperou e a psicanálise, especialmente a pós-freudiana, para qual advoga, naufragou em autoritarismo obscurantista, ditado por bruxos franceses. O que dizer de um período como este?:

“Poucas foram as teses que influenciaram tanto a maneira como nós definimos a nós mesmos quanto a de que somos sujeitos atravessados por algo que nos causa e que não se submete à estrutura representacional de nossa consciência, algo que coloca continuamente questões sobre nossa identidade, a autonomia de nossas ações e a unidade de nossa personalidade”.

Vá tocar piano, Safatle. Influenciaram quem mesmo? Prefiro George Steiner. Psicanálise é para quem quer e pode. Transcrevo mais uma vez o trecho a respeito de sua entrevista ao El País recomenda pelo JS:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”.

BABENCO

O argentino Hector Babenco foi o grande diretor de cinema que o Brasil não teve nas últimas décadas. Fotogramas de Ironweed, Brincando nos Campos do Senhor, Lúcio Flávio e Pixote passam no nosso imaginário com a fixidez que apenas os verdadeiros artistas são capazes de causar.

O TERROR DO JORNALISMO

A indecente justificativa da exclusão social e do preconceito ocidental contra emigrantes para a ação terrorista nunca é contestada quando aparece, o que é comum, no jornalismo de terceira classe, como o da GloboNews. A explicação ginasiana passa longe da realidade e colabora com o sucesso de novos atentados. Devemos pegar com Alá para entender o que dá em alguém como o motorista do caminhão de Nice. Com a psicologia, a sociologia e a filosofia, até aqui, tem sido inútil.

 HITCHCOCK & TRUFFAUT

Vejo no Philos TV, refúgio ao lixo que grassa nos canais pagos, o filme de Kent Jones que faz um bom resumo da série histórica de entrevista de François Truffaut com Alfred Hitchcock, fonte de um livro clássico, referencial para cineasta e cinéfilos em todo o mundo. Os depoimentos de David Fincher, Martin Scorsese e Wes Anderson no filme explicam por quê. O cinema deve a Truffaut ter, por assim dizer, patenteado a genialidade de Hitchcock. Antes, a crítica torcia o nariz para o inventor de Um Corpo que Cai (Vertigo). A revista Serrote #20 traz as entrevistas de Truffaut feita pela jornalista Lillian Ross, em encontros que vão de 1960 a 1976. É um complemento perfeito ao filme, além obviamente do próprio livro, disponível nas livrarias.

ELLA

Também no Philos assisto de enfiada a três a concertos de Ella Fitzgerald, entre 1969 e 1969, cortejada por bambas como o pianista Tommy Flanagan, o baixista Keter Betts e, no show do clube londrino Ronnie Scott, o guitarrista Joe Pass. Nos três momentos, ainda que àquela altura a artista já tivesse perdido algo da potência do incomparável gogó, Ella ainda era capaz de dobrar e redobrar o tempo como nenhuma outra diva do jazz, de jogar com o silêncio, de exibir uma extensão vocal que leva o ouvinte por uma montanha-russa, sem fôlego e com arrepios.

GATOS NO PARQUE E UMA ESTRANHA FLOR

A cultura da paixão por gatos e cachorros é uma característica de nosso tempo, outro dado, como a existência de 65 milhões de refugiados no mundo, que tentam sobreviver a guerras e à miséria. Recomendo aos chegados que frequentem o Parque Municipal de Belo Horizonte, onde há centenas, talvez milhares de bichanos à solta, em estado selvagem. Boas almas comparecem diariamente para alimentá-los com fartura; há restos de ração por todo lado.

Em um passeio no parque, desviando dos gatos e de sua caca, fotografei a estranha flor ou estranho cacho da foto acima, de um verde que, à luz da manhã, parecia querer saltar da natureza para se tornar artifício.

GLOBALIZAÇÃO É ISSO

Descubro, depois da cidade inteira, que o antigo Pelicano, no Edifício Maletta, deu lugar ao Duke’n’Duke, um pub que se quer autêntico. O chope é delicioso. Pena que não tenham Guinness na chopeira.

OS SONS DA SEXTA

 

 

 

 

 

 

Uma entrevista (e um roteiro) imperdíveis

SteinerEm uma entrevista imperdível no Babelia do El País, traduzida pela versão brasileira do jornal, George Steiner comenta o roteiro essencial das ideias para a compreensão do mundo neste momento.

O filósofo e ensaísta literário, combalido ao 88 anos, mas perfeitamente lúcido, foi visitado em sua casa em Cambridge, na Inglaterra, por Borja Hermoso.

Os temas da conversa tratam de questões que importam a quem queira se localizar sobre o chamado espírito da época.

O declínio da educação e a perda da memória; o dinheiro como um valor absoluto (“O cheiro do dinheiro nos sufoca, e isso não tem nada a ver com o capitalismo ou o marxismo”); a psicanálise em baixa conta:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”);

A centralidade da ciência:

“(…) Com certeza haverá duas ou três grandes novas descobertas científicas no campo da genética que introduzirão problemas de ordem moral terrivelmente complexos. Por exemplo: permitiremos que se manipulem as células de um feto?”;

A crise da política, visível com o fenômeno Donald Trump, o Brexit etc., e um alerta sobre as consequências de renunciarmos a ela:

(…) existe uma gigantesca abdicação da política. A política tem perdido terreno no mundo todo, as pessoas já não acreditam nela, e isso é muito perigoso. É Aristóteles quem diz: “Se você não quer entrar na política, na ágora pública, e prefere ficar em sua vida privada, então não venha se queixar depois de que são os bandidos que governam”;

A queda da tradição humanista da literatura e das artes:

(…) Se você e eu fôssemos cientistas, o tom da nossa conversa seria outro, seria muito mais otimista, pois hoje, toda semana a ciência descobre alguma coisa nova que não conhecíamos na semana passada. Em contrapartida –e isso que lhe digo é totalmente irracional, e espero estar enganado–, o instinto me diz que não teremos amanhã nenhum novo Shakespeare, um novo Mozart ou Beethoven, nem um Michelangelo, um Dante ou um Cervantes. Mas eu sei que teremos um novo Newton, um novo Einstein, um novo Darwin… Sem dúvida alguma. Isso me assusta, porque uma cultura desprovida de grandes obras estéticas é uma cultura pobre. Estamos muito distantes dos gigantes do passado. Espero estar enganado e que o próximo Proust ou Joyce esteja nascendo na casa aqui na frente! (…).

A vocação intelectual de Steiner “se compara à dos construtores de catedrais que reuniam, com perícia, e razão a técnica e a beleza e as punham a serviço de uma experiência mística”, diz Enrique Lynch em um comentário sobre o filósofo entrevistado no Babelia e não traduzido pelo El País Brasil.

Quem já teve o prazer de ler um ensaio de Steiner entende, como diz Lynch, a maneira única como ele consegue nos levar pela mão através do espaço da cultura europeia, tanto a clássica como a moderna, e nos fazer participar de uma espécie de rito iniciático.

Em outro comentário, Jordi Llovet define Steiner como “um humanista crepuscular” e “polímata renascentista”.

Um outro trecho da entrevista é ilustrativo sobre a diferença que faz a inteligência de um mestre, interessada em compreender o mundo antes de enunciar grandes verdades.

Pergunta – O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?
Resposta – Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, a multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Mohammed Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Mohammed Ali.

Li esta entrevista no sábado. No domingo fui tomar um pouco de sol nas ruas de Belo Horizonte. Me assustei com o parque fantasma que virou a praça da Savassi. Não havia um café ou uma banca de jornal abertos às onze horas da manhã.

Há muito arrancaram daquele coração da cidade seus dois cinemas e restam duas ou três livrarias de tantas que existiram.

BH é um fenômeno único de pobreza cultural, de fragilidade e incapacidade de resistir ao filistinismo tecnológico em voga.


P.s.: Recomendo aqui mais uma vez , senão toda a série de vídeos de o melhor programa de TV já feito, ao menos a de George Steiner.