Jurupoca #10

nÚMERO 10 — Novembro, 8, 2019


Opa. Vamos apear?

Acordo cedo e tomo o rumo do parque. Ao cruzar Alfredo Balena e Carandaí, nuvem que passa, sol oscila. As mangueiras me param. Pleno verdor, promessa em cachos. Tenho a renovação do seu ciclo na conta de acontecimento supremo da vida no Belo.

Então elas se carregaram novamente, e na hora?

O próprio tempo oscila.

O que guardarão essas aleias centenárias preservadas de corte, remanescentes, sobreviventes, a zelar pela avenida?

Dr. Pedro Nava, primeira turma de Medicina da UFMG, 1927, desfrutou do seu esplendor. Ave. Meu afilhado, quase doutor I., ainda desfruta do elegante sombreado.

Meu primeiro encontro/encanto com o mangueiral deu-se numa tarde chuvosa de domingo. Começo dos 1970. Viemos para uma sessão do Circo Moscou, com o mano J. e quem mais?

O circo fora instalado onde existira o Estádio Alameda. Depois subiram ali o Jumbo, hoje Extra, aquela feiura toda de quadra.

Mas o mangueiral nos redime. As mangas eram então amarelo-alaranjadas, mosqueadas.

Com a ventania, rebentavam no asfalto e no calçadão, como farão novamente, em dois, três meses.

Logo o tempo retomou seu curso mais ou menos ilusório. Ando no parque. Cruzo com os dois rapazes de aparência oriental. Vão pelos vinte e tantos. Habitués também.

Caminham relaxados, risonhos, enamorados, quem sabe? Conversam bastante, cada qual fixado na própria telinha como pela extensão dum neurônio, como pela corda do coração.

Caçarão pokémons? Haverá tal fartura desses seres no parque? Serão eles próprios, rapazes, pokémons?

Já me distrai a frase dum trompista que vem do Palácio das Artes. Abertura de alguma sinfonia. Qual? A frase tenta se apurar, evasiva como o canto de um sabiá ao redor.

Os suecos têm uma palavra (intraduzível, diz a Deutsche Welle) que expressa o gosto de acordar cedo para ouvir os pássaros: Gökotta, de “gök”, cuco, e “otta”, matutino.

Gökotta sim senhor. Benesse de quem anda no parque, além do arvoredo, dos lagos, das carpas, das garças, dos burricos, dos brinquedos simples que divertem crianças pobres que se contentam com as matulas maternas, biscoitos, picolés, balões, algodão doce tingido de rosa.

O parque não é nada gourmet.

Nesses dias dei de ouvir Arvo Pärt, sua Tabula rasa, na caminhada. Em O resto é ruído – escutando o século XX, Alex Ross fala do sucesso inesperado dessa música, lançada pelo selo alemão ECM nos anos 1980. Milhões de cópias vendidas.


O crítico da The New Yorker atribui a Pärt e a outros compositores, como Henryk Górecki e John Tavener, uma oportuna ponte do erudito contemporâneo com os ouvintes de pop/rock.

“Conseguiram apelar ao grande público durante os surtos de crescimento global dos anos 80 e 90: eles ofereciam o repouso de um oásis numa cultura tecnologicamente saturada”, ele diz.

“Uma cultura tecnologicamente saturada”. Anos 1980, 1990? Tenha a santa paciência. E hoje? O que é isso, gente?

A saturação se adensou no milênio a ponto de colapsar, estrela finada/buraco negro a nos sugar a todos?

Relaxamos e gozamos amalgamados, tudo fettuccine, cada qual-partícula, cada fóton qual, depois de penetrar os grandes lábios do tal “horizonte de eventos”?

“Uma cultura tecnologicamente saturada”. Eu é que sei.

Minha pergunta à vera é, pois, ninguém mais sente falta de uma pastoral, descanso verdadeiro, relaxamento, desconexão, ninguém mais se sente oprimido pelas cidades ruidosas e o planeta pelando assim-assado, enquanto mata o tempo (que nos mata) consultando celulares e teclando sem parar?

É possível ser sem smartphone?

Daí a DAIM.

O Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo.

Opa. Descobri a síndrome que explica a catástrofe cultural em voga. O novo flagelo da humanidade.

Dependência tecnológica, incapacidade de ler, de ouvir o outro, desinteresse por cinema — além do parque de diversão da Marvel — indiferença perante a história (acompanhada de arrogância em relação a tudo que havia no mundo antes de 2001).

Martin Scorsese, coitado, teve que se explicar, e o fez muito bem, por ter dito que os filmes da série Marvel não são cinema. Na batata. Claro, caíram-lhe em cima.

Venho matutando o tema, meditando. Talvez me deem no futuro um prêmio pela formulação do diagnóstico DAIM. Modestamente, digo que merecê-lo-ia.

Olha só:

Na Jurupoca #02 citei o Amos Oz: “Talvez o pior aspecto da globalização seja a infantilização da humanidade: ‘o jardim de infância global’, cheio de brinquedos e gadgets, balas e pirulitos”;

Na Ju #06 comentei que em Serotonina Michel Houellebecq brilhantemente aponta a infantilização reinante no mundo ao mostrar a patética decepção do narrador, Florent, com Proust e Thomas Mann em favor de Conan Doyle;

Na Ju #08 tasquei que era sintomático, de quê?, da infantilização pandêmica, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a fofa Greta Thunberg.

 
Outros sintomas (secundários) da DAIM que estudei com diligência: o gosto pela fofoca; a suscetibilidade ao nacional-populismo e ao fanatismo em geral (esquerdofrenia ou psicose bolsonarista, e.g.); o empobrecimento do gosto musical com o domínio do transbrega sertanejo, do transbrega evangélico, do transbrega católico e de todo o chorume que escorre para dentro da cachola como as gotas de veneno no ouvido do pai do Hamlet; a obsessão com saúde; o sumiço dos cadernos culturais: no Brasil não sobre um decente.Todos cadernos de ex-cultura/puericultura. Me dão azia. Tá bom assim?

…. a idade também, repito a minha idade… 1961!… estou remoendo?… estou caducando?… tenho direito!… todo mundo que é do século passado tem direito a se repetir!… e santo Deus! a se lamentar!… a achar tudo chinfrim e idiota!

O parágrafo acima é emprestado. Mudei de século. Saiu 1894, entrou 1961.

1961! Foi quando saí do interior de minha mãe, dona H. (e ela de D., há cem anos neste 10 de novembro. À maneira do Nava, digo só: Saudade.)

O parágrafo emprestado está em De Castelo em Castelo (Companhia das Letras, 2004), página 17.

Ao subscrever um período de Louis-Ferdinand Céline, preciso tomar cuidados. Toc toc toc.

George Steiner prefere falar do gato do escrito, Bébert, que da pessoa, do homem, o doutor Destouches (Céline era o nome da avó materna e madrinha) e seu “antissemitismo homicida”, autor dos panfletos Bagatelles pour un massacre e L’école des cadavres.

Subscrevo também o parecer de Steiner, e acrescento outro qualificativo: asqueroso.

O homem Destouches não tem perdão, morreu, foi enterrado. Sua literatura é que perdura. E é das maiores.

“As grandes obras de ‘ficção real’ permanecem. Seu canto selvagem revive e renova a linguagem”. A resenha de uma biografia de Céline na The New Yorker, da coletânea mencionada na Jurupoca passada, acrescenta, ao se referir a Viagem ao fim da noite:

“A batida do rock, o martelar do heavy metal, do som como droga, detonam primeiro na linguagem da Viagem. Seu eco asfixiante não cessou”. Isso foi escrito em 1992. Em 2019, continua.

Para Steiner, vale a pena conjecturar que, como em Jonathan Swift, “o manancial da imaginação e da eloquência desencadeada é o ódio”.

E mais adiante: “O estilo privado e a obra literária de Céline estão imersos em um riso negro de proporções rabelesianas.” 

Rosa Freire d’Aguiar, grandíssima tradutora, diz no prefácio de Viagem ao fim da noite que o grande achado do autor foi “ser um Proust da plebe”.

Quando sai a Viagem, 1932, fazia só cinco anos da publicação de Em busca do tempo perdido. Proust se firmava como gigante literário.

“Ora, tudo o que em Proust era delicadeza, fineza, meios tons, harmonia”, escreve d’Aguiar, “em Céline era grosseria, crueza, violência, deformação”.

Céline, creio, sempre foi muito mais “fácil” de ler que Proust, e isso é mais verdadeiro agora, quando só os muito determinados, quase insanos, marginais do tempo, encaram À la recherche.

E de dizer isso morro de vontade de recomeçar os sete volumes, quase 3.000 páginas.

Penso que De castelo em castelo ou Viagem (falta ler Norte, entre suas obras que me interessam) podem despertar em refratários (olhada a DAIM aí, gente) e reacender em leitores preguiçosos o prazer inigualável da leitura.

É uma prosa revolta/revoltada que jamais inspira tédio, a de Céline. Vai muito bem em português, por sinal, graças a Rosa Freire.

E o nosso idioma anda num rame-rame danado, você não acha? É mister revivê-lo.

O texto de colunistas, romancistas, publicitários… para não falar da triste elocução na TV, anda frouxa, pasteurizada, medrosa, padronizada por corretores ortográficos, vai se saber.

…. a idade também, repito a minha idade… 1961!…

O leitor de Céline é provocado a cada página.

Ri-se muito com o destampatório de Ferdinand Bardamu em Viagem e do próprio Céline, ele mesmo o narrador em De castelo em castelo, sua crueza, seu nem-estar-aí.

Faz pensar num escritor acometido pela Síndrome de Tourette, tal a ocorrência de cus, rabos, grelos, fodas e toda uma xingatória que muito enriquece um vocabulário.

Mas é uma risada continuamente contraposta pela baixeza e a miséria humanas. Seus personagens estão sempre no fim da linha do realismo e com a navalha no pescoço da liberdade e da razão de viver.

Em De Castelo, o narrador desce aos infernos, ou a uma sucursal instalada por Caronte num cais do Sena, periferia de Paris.

Na primeira parte, antes que ele se detenha na escatologia de Sigmaringen, para onde fogem mil e poucos colaboracionistas da turmona de Vichy e adjacências, les collabos para os íntimos, ele visita os mortos e se assombra com seu desfile em pares e trios, todos andrajosos, falantes, carnicentos.

Descem dum antigo bateau-mouche dos passeios da infância do narrador, o La Publique, infância marcada pela rotina de tabefes, como cabia à melhor educação.

Quando volta da estação no inferno, cai de cama com a sezão. Prelúdio de Sigmaringen. Toda a passagem não deve nada a Proust. 



Falta pouco para as 7h, fim de outubro de 2019. Pärt me soa como música sacra nessa peça.  Ross conta que era mais ou menos assim há 30 anos:

“Para alguns, a estranha pureza espiritual de Pärt era um bálsamo contra o desespero: uma enfermaria de um hospital de Nova York tocava Tábula rasa para jovens com Aids em estado terminal, que em seus últimos dias pediam para ouvir várias vezes a música”.

E, depois de toda essa digressão (1961!), como fica meu mangueiral em frutos verdes da Alfredo Balena? Apois.

Aquela fração de segundo em que notei as árvores renovadas é que me salva, como agora a música de Pärt.

Tábula rasa. Estado que caracteriza a mente vazia, anterior a qualquer experiência (Houaiss). Intermitências do coração.

Naquela fração de tempo retive, graças às minhas árvores, o circo, J., dona H., meus idos que seguem aqui dentro.

Volto ao parque na manhã seguinte. Cadê as mangueiras?

Estão lá, belas, como sói, podadas com esmero, mas não como ontem. A luz não oscila ao nosso desejo, mas ao acaso. Pudera.

Se você me permite mais uma digressãozinha só, nasci quando o muro de Berlim foi construído; tinha 28 anos quando ele foi derrubado (festejei, brindei); e 30 a mais nas costas quando a Queda é pautada no mundo inteiro.

Um dos mil artigos que leio detalha o forte crescimento dos neonazistoides do partido AfD (Alternativa para a Alemanha) nos estados das antiga Alemanha oriental.

No leste europeu, mormente na Hungria de Vitor Orban, ídolo dos Bolsonaros, regimes autoritários roubam bilhões da União Europeia na cota de subsídios agrícolas e patrocinam sua forma particular de feudalismo corrupto.

Há coisa muito pior.

Quando me reaproximo do mangueiral me assombra a lembrança do esfaqueamento e morte de uma criança de cinco anos por um demente, em Betim, Minas Gerais.

Diacho, alguém pode pensar. A aleatoriedade rege pequenas e grandes tragédias. Rege nosso entra-e-sai no mundo. Rege tudo.

E como um lance de dados jamais abolirá o acaso, como ensina o Mallarmé, nos resta ouvir os passarinhos: Gökotta.

Bom fim de semana.



JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #09

Número 9 — Outubro, 25, 2019

 No velho aparelho tocava o CD Chico Buarque (1989) na faixa Uma palavra, neste ponto:


“Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Opa. Vamos apear?


“Sabe, é bem curioso rever as matérias impressas daquele tempo. Claro que da maioria das coisas eu nem me lembrava mais (a gente vai deletando o HD da cachola quando se trabalha com informação demais). Constatei, feliz, que fizemos um ótimo trabalho e, incrivelmente, até senti uma pontada de orgulho de ser jornalista.”

(Bilhete via e-mail de Pablo Pires, jornalista contemporâneo de uma antiga encarnação nas redações.)  


Belo Horizonte arde. Vou à janela. O aglomerado da Serra, que se desborda nos contrafortes da Serra Curral, está mais uma vez coberto de fumaça.

A fuligem da tarde me chega ao nariz. Me sento para escrever e o horizonte opaco reflete um beco sem saída, emparedado nos limites da montanha de ferro.

Me vejo como o “inseto que cava/ cava sem alarme/ perfurando a terra/ sem achar escape […], em país bloqueado/ enlace de noite/ raiz e minério”, como descreve o Áporo drummondiano.

Mas eis que algo se desata, ainda que não a “orquídea antieuclidiana” do poema. Ou será algo da mesma ordem?

Apois.

Anotei: a Jurupoca está no ar. Olho para o que Pablo me escreveu, olho para o que logrei ao me afastar das mídias sociais e da angústia que aquilo trazia — e vamos para três anos de proveito —, olho para a questão geral do nosso feitio no mundo, olho para tudo isso e sinto que talvez, talvez, de peleja em peleja, como nos cabe, se aviste uma possível ria, estuário, foz.

Ai de mim.

Melhor ir devagar. O de Hollanda aí de cima, a me lembrar, como um responso: “Ilusão/ ilusão/ veja as coisas como elas são”.

Quem sabe, então, uma foz embrionária, em formação? E, por certo, ainda, ao sabor do acaso, geológico, talvez cardiológico, mas precipuamente celular: enquanto dure.

Pois tudo é provisório nesta “desconhecida/ E ansiosa e breve coisa que é a vida” (Borges).

E toda arte é inútil (Oscar Wilde), como sabemos.

Pode ser que cada página lida ou escrita, cada filme, disco, tal e coisa tenham alimentado o arroio que deu no rio que deu na pretendida foz, curso para o qual tantos afluentes debitaram sua contribuiçãozinha.

Cada riacho carregou um resíduo de terra, areiazinha e seixo para formar o delta temporário de cada qual — “Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo” (Wittgenstein).

O que se espera nessa altura não é bem pacificação, senão uma trégua prolongada, menos redemoinhos/sumidouros com seus vértices de dissipação, produtividade e apatia (não se pode esquecer o Beckett: Fail better).

As leituras no ônibus para o Belo foram distintas, e as da volta para casa, em Pedro Leopoldo, quando não dormia de babar, também.

Podia ser um jornal comprado na livraria do Tonico [ “— Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego?”, reouço mamãe, depois de tomar mais 50 centavos, além da passagem e do lanche que ela se apertava para prover].

Podiam ser livros, alguns de leitura obrigatória por cair no vestibular, O Guarani, Triste fim de Policarpo Quaresma… e mais tarde livros emprestados das excelentes bibliotecas da Escola Técnica, depois Cefet (Química), e da Católica, depois PUC, e podia ser um texto xerocado ou panfleto.

A Jurupoca está no ar. Para quê? Para quem? Por quê?

Representar algo de um modo de viver provavelmente em extinção (“não está nada claro que continuemos a ler” – ver G. Steiner, nesta edição) e que isso possa ser sugestivo ou, no melhor dos mundos, inspirador para alguém.

O jornalismo cultural que eu e Pablo exercemos se prestava a isso, e teve seus frutos, como não!

A Jurupoca é um sucedâneo torto daqueles cadernos bem nutridos que, não sem boa vontade, digo que viraram suplementos anêmicos de ex-cultura, melhor dizer, puericultura.

Um sucedâneo que vai contra a norma de não se escrever uma linha sem pecúnia.

Sim, uma esperança. Mas, vá lá, a esperança “não é mais do que um charlatão que nos engana sem parar” (Nicolas de Chamfort).

Mas, o que é isso?, rapaz, canícula à parte, ainda não estamos no inferno, onde, como relata Dante, somos advertidos já no pórtico a renunciar completamente aos seus encantos, da esperança. Ou já estaremos?

Nusga, nu, né possível.

Já teria avistado Caronte, o barqueiro eterno, para quem devemos levar sempre uma moeda no bolso, a paga pela travessia do Estige e suas água turbulentas.

Assim talvez o grão-tinhoso, o fito, o cafuçu, o cramulhão poupe o desinfeliz da remada na testa:

“Caron dimonio, con occhi di bragia / loro accennando, tutte le raccoglie; batte col remmo qualunque s’adagia.”

(“Demônio Caronte/ com olhos em brasa/ acenando-lhes, recolhe todas;/ bate com o remo em quem se atarda”,
Inferno, canto III, tradução de Rosa Freire d’Aguiar.)

Caronte por Gustave Doré para a Divina comédia ilustrada

Um hebiatra literário

— Se mói glé?

— Será que se mói glé?

As falas de uma criança na praia, jogando com o nome do personagem Seymour Glass, com quem se encontrará dali a pouco, se enrolaram num ramo de meus neurônios como um velho par de tênis num fio elétrico.

Fiquei meio tonto com a vertigem da imaginação e a surpresa da mimese. Isso depois de ler uma vez, reler à noite e de novo, na manhã seguinte, Um dia perfeito para peixes-banana, o primeiro dos Nove contos (Todavia) de J.D. Salinger, na sublime nova tradução de Caetano W. Galindo.

Me parece improvável que, adolescente ou não, alguém fique indiferente à leitura de O Apanhador no campo de centeio ou desses contos.

.Salinger, morto em 2010, publicou sua obra conhecida até os anos 1960, então sumiu no mapa. Afastou-se da metrópole, dos jornalistas e dos leitores, literalmente se meteu no meio do mato.

Seu legado, aos cuidados do filho, Matt, é um enigma. Há uma baita expectativa sobre a publicação dos inéditos.

Talvez para atiçá-la, está em cartaz até 19 de janeiro de 2020, na Biblioteca Pública de Nova York, a exposição que reúne manuscritos, correspondência, inclusive com Hemingway, objetos e a velha e pesada máquina de escrever do autor.

Sabe-se que vida e obra de Jerome David formam um ácido intrincado de raiva, desânimo, mau jeito com mulheres e filhos e, pairando acima disso, o peso corrosivo do front na Segunda Guerra.

Minudências surgem na dissecação que Thomas Powers realiza no artigo At the End of a Dirt Road (No fim da estrada de terra), numa edição recente do London Review of Book.

O laudo de um crítico anatomista não me interessa tanto. Mas, por certo, ter à mão os livros de Salinger e, sem ser especialistas em nada, apenas comentador, desfrutar a leitura de um dos maiores escritores norte-americanos, falando de cronistas, da estatura de Hemingway ou John Cheever.

Para Esmé — com amor e sordidez é outra história extraordinária e célebre do extraordinário livro que é Nove contos. A narrativa do Sargento X. evolui em dois planos opostos, a noite do homem que sai da guerra mais ou menos vivo e a claridade da lembrança, cautelosamente cercada de doçura, de um breve contato com uma adolescente que passaria a lhe escrever.

Penso em Salinger como um hebiatra literário, um especialista no ser adolescendo. Seus textos revelam uma escuta incomum para a mitomania, a egolatria e também para o dom de fantasiar do espírito ansioso por viver que conhecemos apenas nessa fase da vida.

Sargento X., em treinamento em algum lugar da Inglaterra onde a inteligência militar prepara o Dia D, sai do quartel para espairecer, e algo o faz entrar numa casa de chá.

Sua desolação é quebrada pela presença jovial e alegre de Esmé, o irmãozinho da moça, Charles, e uma criada, que se sentam em mesa próxima.

Inteligente e precoce como outros personagens de Salinger, Esmé puxa com ele uma conversa reveladora e cativante. Toda a maestria da ambientação e a arte do mimetismo, como vejo esta cena, têm um foco que esplende na atuação de Charles, que, depois da irmã, se achega à mesa do Sargento X:

Naquele momento, senti um cutucão importuno, quase um soco, no meu antebraço, procedente da região de Charles. Eu me virei para o menino. Ele agora estava sentado numa posição bem normal na cadeira, a não ser pelo fato de que tinha a perna dobrada sob o corpo. “O que foi que a tijola disse para o tijolo?”, ele perguntou com voz aguda. “É uma charada!”.

“Revirei os olhos reflexivamente para o teto e repeti a pergunta em voz alta. Então olhei para Charles com uma expressão de perplexidade e disse que desistia.

“Não seja cimento!”, veio a piada, no volume mais alto.


Harold Bloom, RIP

“Em 27 de setembro de 2003, o caderno Magazine do jornal O Tempo publicou uma entrevista que tive a honra de fazer […] com o mestre Harold Bloom. Lembro-me de ele repetir as palavras ‘dear’, ‘oh, my dear’ com frequência, um lord”, rememorou Pablo Pires num post em sua página no Facebook.

Colaborei com Pablo nessa longa entrevista, que saiu num sábado, em três páginas standard, para nosso júbilo, por termos cumprido bem aquela missão autoimposta. E qual era?

Talvez, pôr o jornalismo cultural acima da manada, torná-lo menos provinciano no Belo.

Mr. Bloom, então aos 73 anos, já se achava adoentado, convalescendo de uma cirurgia no coração. “Eu acordo às 4h30, tenho que fazer ginástica para pôr meu corpo de volta à forma”, ele respondeu, ao ser inquirido sobre como levava sua rotina.

“Eu escrevo pela manhã, às vezes bem cedo, também à tarde. Eu escrevo todos os dias. Mas quando não estou escrevendo, estou lendo. Eu tenho que dizer: eu não consigo parar de ler, leio do momento em que acordo ao momento em que vou para cama. Tenho mais paixão por ler do que por escrever ou dar aulas. Mas, na verdade, eu não faço distinção entre as três atividades.”

Possivelmente o crítico mais importante e influente do nosso tempo”, no enunciado de um jornal, Harold Bloom morreu aos 89 anos, na segunda-feira,14, em um hospital perto da Universidade de Yale, onde detinha a Cátedra Sterling de Humanidades, menos de uma semana depois de dar a última aula.

Fernando Castanedo, estudioso de sua volumosa obra e que com ele privou de vários encontros, também se lembra da amabilidade e do trato carinhoso “(dear Fernando, my dear friend)” num tocante obituário no El País.

Quiçá com Mr. Bloom morra a erudição totalizante, capaz de abarcar o mundo literário desde sempre, ou pelo menos desde a herança cabalística (ele teve origem simples numa família judia de pai operário, e até os seis anos de idade não falava inglês, só hebraico e iídiche).

Na era do patrulhamento global, creio que também morra com ele certa coragem de contestar, de enfrentar ainda que quixotescamente a “expansão da ignorância instruída” (Saul Bellow no prefácio do livro do professor Allan Bloom, O declínio da cultura ocidental), movida pela paixão literária.

“Harold Bloom era um mestre que fez da literatura a religião dos desencantados”, enunciou o belo título do comentário de Antonio Gonçalves Filho .

Castanedo menciona a memória fotográfica do menino Bloom, que se gabava com os colegas de conseguir ler uma página inteira do New York Times apenas uma vez e, em seguida, reproduzi-la de cor, dom que atribuía a “algum antepassado cabalista” e que o elevaria como professor, para a felicidade de um grande alunato.

No seu obituário para a Folha, Arthur Nestrovski rememora igualmente as “lendárias aulas” em Yale e, por algum tempo, na Universidade de Nova York. “Bloom era uma força da natureza, conjugando memória verbal sobre-humana com enorme senso de humor e iguais doses de afronta”, retratou. Destaquei esta passagem do texto:

Um conto famoso do escritor argentino Jorge Luis Borges imagina um homem, ‘Funes, el Memorioso’, capaz de lembrar de absolutamente tudo o que vive, e os terrores dessa memória total.
 
Para os que o conheceram, Bloom, como leitor, parecia um Funes. Seus críticos, que não eram poucos, acusavam a teoria de só fazer sentido para um leitor assim, capaz de ouvir ecos e acentos de toda a literatura a cada novo texto.
 
Parece menos uma crítica do que involuntária expressão de apreço, numa ironia tipicamente ‘bloomiana’. Mas falta aí o reconhecimento da dimensão literária e humana da sua escrita. Raros autores foram capazes de escrever com semelhante verve sobre tantas obras e tantos assuntos, e com tamanho gosto.”
 
A prosa de Bloom é um influxo de vida. Só pode ser comparada a seu talento de orador, capaz de falar de improviso por mais de uma hora como se estivesse lendo um texto, citando longos poemas, sem consultar uma única página.

Capa do Magazine, caderno cultural de O Tempo, 23/09/2003


Palavra e vida

De um grande crítico literário para outro, este felizmente ainda vivo aos 90 anos, retirado em sua tranquila residência em Cambridge.

Como exercício para testar a saúde da memória, toda manhã ele traduz algum trecho de grego antigo para um dos idiomas nos quais sempre falou, leu, escreveu e ensinou, vindos do berço o francês, o inglês e o alemão.

Sou um apegado da escrita e da inteligência do filósofo e ensaísta George Steiner.

Judeu cuja família por pouco não escapa da França invadida por Hitler, ele podia ter entrado para a Escola Normal Superior de Paris, como desejava, mas a sorte o levou para o mundo anglo-saxão e, portanto, para outra visão de mundo, em universidades dos EUA e do Reino Unido.

Seu texto revela, além de erudição, o dom da honestidade intelectual. Entendo isso como a fluência clara de um estilo que é didático “naturalmente”, sem o pretender.

Pois, como ele mesmo diz, devemos ter como referência moral a “relação entre a palavra e a vida”.

Steiner foi o primeiro jovem humanista admitido no Instituto de Estudos Avançados de Princeton, pelas mãos de ninguém menos que Oppenheimer.

Lá conviveu com Niels Bohr, de quem foi amigo. Nessa época deixou um posto bem remunerado e promissor na The Economist, em Londres.

Como ele diz, no “século da grande ciência, também do ponto de vista estético e filosófico, estar rodeado pelos ‘príncipes do universo’” e compartir um ambiente “de calma total” e o “ideal de investigação absoluta” fizeram dele o que é, um escritor avesso ao obscurantismo e à esterilidade que reinaria nas letras francesas na segunda metade do século 20.

“Desde então, e mais tarde em Cambridge, tenho a impressão de que nas humanidades vivemos no século do blefe, até limites insuspeitados. Não se pode blefar nas matemáticas ou na grande ciência: ou funciona ou não. Não se pode trapacear”, ele diz, com o que Harold Bloom talvez concordasse.

Acabo de ler a edição espanhola de Un largo sábado (Um longo sábado), livro curto e delicioso publicado originalmente em francês, com as entrevistas de Steiner concedidas a Laura Adler entre 2002 e 2014, e, até onde sei, não lançado no Brasil, e George Steiner en The New Yorker (Siruela) — a edição eletrônica brasileira com o título Um Tigre no Espelho (Biblioteca Azul) estava indisponível.

O último é uma coletânea de suas contribuições para a célebre revista norte-americana, onde sucedeu a Edmund Wilson, outro titã da crítica literária.

Os ensaios desse período sobre Borges, Cioran, Solzhenitsyn, Céline ou a amizade intelectual entre Walter Benjamin e Gershom Scholem me parecem leituras fundamentais.

A jornalista e filóloga Laura Adler, ao formular uma das perguntas desse “inebriante” livro que é Um longo sábado, propõe que a convivência com a comunidade de Princeton, nos anos 1950,  impôs “a precisão e o rigor analítico” com os quais Steiner iria depois espanar das “humanidades” o pó do hermetismo obscurantista.

“Na história europeia o senhor foi o primeiro a introduzir conceitos de um rigor quase matemático no seio da literatura, da mitologia e da história literária”, ela diz.

“Oxalá você tivesse razão”, ele diz, ao introduzir a resposta em que fala no “blefe”, com a modéstia natural de homem realmente cultivado.

Aqui, como em qualquer outra de suas obras, Steiner exerce o papel de um poderoso guia literário, recomendando leituras e releituras e iluminando outras tantas, a começar dos textos bíblicos.

Ele é um entusiasta do português António Lobo Antunes e se refere obliquamente à “boa literatura” brasileira.

Nestas Conversasiones con Laura Adler, subtítulo da edição El Ojo del Tiempo – Siruela, Steiner sustenta seu antinacionalismo arraigado, que o faz uma persona non grata em Israel, mas transmite grande vivacidade e entusiasmo ao abordar a história do judaísmo na diáspora e, sobretudo, seu entendimento sobre as razões da grande inventividade, produtividade em todos dos campos da elite científica e cultural, e resiliência de seu povo.

Além da fundação da literatura moderna, ele comenta temas sortidos como erotismo, música, seu outro grande prazer, enxadrismo (na juventude, estudante em Chicago, pensou em se tornar um mestre do jogo; há um ensaio sobre o tema na compilação da The New Yorker) e a ordem e a desordem do mundo.

Detém-se pelas tantas em uma das ideias recorrentes em seus ensaios, o “empobrecimento moral” de nossa espécie nos século da Shoah, do Gulag, da revolução cultural chinesa, de Pol Pot…

O que leva a esta questão terrível: a ilustração, contraintuitivamente, pode ter autorizado as maiores monstruosidades cometidas na história humana?

Como alguém que, à noite, ouve ou toca Schubert e lê um soneto de Shakespeare, ao acordar põem-se a torturar e exterminar seus semelhantes como se fossem insetos?

Steiner abomina o entretenimento rasteiro mas não é um “elitista” no sentido corrente, nada tem contra a televisão ou a música popular. Mas é realista. Sabe que o hábito de ler pode estar moribundo.

“Em termos históricos a escrita é recente; a escrita literária remonta ao Gilgamesh — o grande poema épico da antiga Babilônia — e chega mais ou menos até a atualidade”, ele diz.

“Não está nada claro que com a eletrônica moderna, com os meios técnicos de informação, com os arquivos eletrônicos cujas memórias superam milhões de vezes as memórias literárias humanas ou as gramáticas, não está nada claro que continuemos a ler”.

Me pergunto se Steiner se preocupou em espiar como operam as redes sociais.

Hatoum e Chico aqui, Llosa por aí 

Saem em novembro os novos romances de Milton Hatoum, o segundo volume da trilogia O lugar mais sombrio, com o título Pontos de fuga, pela Companhia das Letras, e, pela mesma editora, Essa gente, de Chico Buarque. Ambos já estão em pré-venda na Amazon.

Em castelhano já podemos ler Tempos recios (Tempos difíceis), novo romance de Mario Vargas Llosa, lançado na Espanha pela editora Manancial.

A narrativa desvela uma conspiração articulada pela CIA e a multinacional “bananeira” United Fruit para derrubar um governo eleito pelo voto popular e que pretendia instalar uma democracia moderna na Guatemala, há uns 70 anos.

Pesquei desta entrevista (em português) o trecho em que Llosa medita sobre a paranoia contra o imigrante na Europa e nos EUA (os negritos são da Jurupoca).

P. Mas [o terrorismo] têm um efeito nefasto na vida política.
R. Sim, estão empurrando muitos setores democráticos para o autoritarismo. Em nome da autodefesa se destroem grandes valores da democracia. Claro, é um dos perigos. Porém mais grave que o terrorismo islâmico é o ressurgimento do nacionalismo, isso que acreditávamos extinto na Europa, sobretudo depois das catástrofes das guerras mundiais. É o chamado da tribo, a ideia de que no passado existiu uma sociedade homogênea onde todos se entendiam, que é uma falácia, isso jamais existiu. A paranoia que existe hoje em dia contra o imigrante é uma manifestação de racismo. E isso que antes era malvisto agora deixou de ser. Os políticos inclusive podem falar contra a imigração dessa maneira racista e preconceituosa. É um problema muito sério da democracia.


No coco e no coração,
Mr. do Pandeiro e Dona Quelé

Lenine canta “pro rei da levada”, segundo a “lei da embolada”, na “língua da percussão”. E vai na “dança mugango dengo” com a “ginga do mamulengo”.

Claro que você sabe “quem fez o samba embolar, o coco sambar e a ema gemer na boa”.

O centenário do paraibano José Gomes Filho foi lembrado, discretamente, em 31 de agosto último. Jackson do Pandeiro é tão importante quanto Luiz Gonzaga, não tenho dúvida.

Quem se educa musicalmente no Brasil tem a percussão no corpo e no quengo, e compositores como Mr. do Pandeiro são nossos gurus, se não diretamente, por meio de discípulos influentes como Alceu Valença, talvez seu melhor intérprete, quei canta com o mestre o coco Papagaio do futuro, ou Zé Ramalho (também) da Paraíba, que o embolou com Bob Dylan.


Já Macedo Pimentel Oswaldo Lenine pode entrar para a academia com o Magnum opus que é Jack Soul Brasileiro, donde extraio as aspas iniciais dessa nota.

Letra e música jorram invenção, a história que universaliza nossos ritmos com suas divisões de entortar toda genealogia da escola vienense.

Sentimos a suingada das batidas e o canto se incorpora como uma entidade do candomblé, a um tempo no intelecto e no plexo solar (na acepção que o Michaelis informa: “Ocult.: chacra considerado o centro da vitalidade, da circulação nervosa, da inteligência e da distribuição de energia, situado na cavidade abdominal, abaixo do diafragma.”)

Não sei qual das duas é a melhor, se a versão original de Lenine (1999) ou a com ele e Fernanda Abreu (1997), tendente para esta, pela caprichada e feliz elaboração do arranjo.


Por falar no candomblé, esse crença desgraçadamente perseguida por pouco não me reconverteria.

Se dependesse dela, de Quelé, a quem tomei a bênção, eu, pobre agnóstico, ex-católico, frequentaria os terreiros mais afinados deste país.

Musicalmente sou um convertido, à Bahia, por certo, e a Clementina de Jesus, há muito. Boca de sapo, sobre o infortúnio de um marido que pula a cerca, é outro momento dourado da MPB clássica, da lavra de João Bosco e Aldir Blanc, dois de seus patronos ainda em função, dei gratia.

Em 1985 ela gravou pela EMI Music o LP Clementina e convidados, que traz essa faixa, outra lição de samba, cultura e arte popular. Começa em mi maior:

“Costurou / na boca do sapo / um resto de angu / — a sobra do prato que o pato deixou” Dá uma volta ao acorde inicial e manda o mote/refrão:

“Depois deu de rir / feito Exu Caveira: / marido infiel vai levar rasteira.”


“A sobra do prato que o pato deixou” é um tamborim fonético quase tão perfeito quanto o que Chico Buarque cobriu nos versos “Quem que te mandou toma conhaque / com o tíquete que te dei pro leite” (Biscate, do álbum Paratodos, de 1993).

Não me escapa, claro, a falta de correção ecológica da letra, mas, vos peço de joelhos: não me crucificais com anacronismos. Amém.

Só lamento pelos moços, pobres moços que não puderam conhecer e se formar na riqueza de nossa música popular mais imaginativa, tributária da melhor criação musical e da riqueza do idioma, ou não se interessam por ela, e agora ficam aí, coitados, a mercê de K-pop, sertanejo de butique, funqui isso, funqui aquilo e não sei mais quê.



Refugiados afinados

A Orquestra Mundana Refugi, como o nome sugere, é composta por artistas refugiados de várias nacionalidades (palestinos, sírios, congoleses…) que vivem em São Paulo.

O grupo, que já tinha apresentado no YouTube uma esplêndida versão de Caravelas, do último álbum de Chico, lança o ótimo Caravana Refugi, que traz aquela gravação e, também, entre as 11 faixas, um belo pot-pourri de Milton Nascimento e parceiros.

Entre os instrumentos usados nos arranjo da orquestra entram o kanum árabe (de cordas), a cítara chinesa e o bouzouki (da família do alaúde e muito popular na Grécia).



Pra início de conversa

 “Comigo me desavim
Sou posto todo em perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim”.
 
“Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?”.

Essas trovas muitíssimo sabidas de Sá de Miranda (1481-1558) podem, fica a dica, ser fixadas na parede dos psis do mundo de fala portuguesa. 

[Cena única]

Ao ver o cliente acomodado, caixinha de Kleenex e copo d´água à mão, o moderno alienista aponta o quadro com sua caneta-laser antes de dizer (e prescrever algum elixir d’alma):

— É isso, não é meu filho? E o que mais te incomoda?

— 

(“Imigo” é forma sincopada de “inimigo”).

Novo salto para a humanidade 2.0

A edição genômica parece estar entrando em seus dias de glória. Acelera-se a mais promissora e temerária revolução na ciência.

Depois do Crispr-Cas9 (crísper-cás-nove), a revista Nature anunciou (21/10) a descoberta de uma nova técnica de edição genômica, batizada modestamente de prime editing (“edição de qualidade” ou “de primeira”, se quisermos).

Seu inventor, o químico californiano da Universidade de Harvard, David Liu, também é conhecido por ter sido proibido de entrar em vários casinos depois de quebrar bancas de 21 (blackjack) com cálculos probabilísticos.

A minissérie em quatro episódios da Netflix Seleção Artificial, ainda que levada pelo ritmo chato e sensacionalista do documentário atual, mostra bem onde estamos. E a BBC Brasil mastiga bem o assunto nesta matéria.


Triste figuraça

Em uma entrevista recente, Ian McEwan havia analisado a figura ímpar do primeiro-ministro inglês. “Fico assombrado, porque é um homem educado e inteligente, com muito encanto pessoal. E virou um imbecil populista da pior índole”, ele disse.

“Comparo-o a um personagem de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare. Acho que em algum momento o pó mágico cairá sobre seus olhos e a cabeça de burro desaparecerá. E de novo será Boris Johnson. Apesar de ser um homem culto, e como tal com um senso do que é a História, mostrou uma profunda ignorância sobre o funcionamento da democracia parlamentar. E nesse sentido foi uma grande decepção”.

Esta semana foi a vez de John Le Carré, que aos 88 anos lança mais um romance de espionagem, Agent Running in the Field (“Agente correndo no campo”), inédito no Brasil, uma história que tem o Brexit de fundo.

Aqui, ele chama Johnson de “Mickey Mouse” e solta os cachorros:

Pergunta. O senhor disse certa vez que viu o Muro de Berlim ser construído quando tinha 30 anos, e derrubado quando tinha 60. Imaginou alguma vez a Europa em que vivemos agora e a crise provocada pelo Brexit?
Resposta. Parece-me algo impensável. É sem dúvida alguma a maior idiotice e a maior catástrofe que o Reino Unido já perpetrou desde a invasão de Suez [1956]. Para mim é um desastre autoinfligido, pelo qual não podemos culpar ninguém, nem os irlandeses, nem os europeus… Somos uma nação que sempre esteve integrada no coração da Europa. Podemos ter tido conflitos, mas somos europeus. A ideia de que podemos substituir o acesso ao maior tratado comercial do mundo pelo acesso ao mercado norte-americano é aterradora. A instabilidade que Donald Trump provoca como presidente, suas decisões de egomaníaco… Realmente vamos nos colocar à mercê disso em vez de continuar como membros ativos da UE? É uma loucura, é terrível e é perigoso. Eu não gosto politicamente, nem acredito nisso economicamente, e não entendo. Não entendo como chegamos a essa situação em que temos um Governo do Mickey Mouse de gente de segunda categoria. O secretário [ministro] de Relações Exteriores é alguém a quem realmente desprezo, nunca conheci essa gente, mas só produziu relatórios de segunda categoria, e é um homem muito estúpido e um péssimo negociador. Isso é que o penso sobre essa situação.


Sem comentários

Ruy Castro, em coluna na Folha, me chamou atenção para uma excelente entrevista de Fernando Eichenberg com o embaixador francês aposentado Gérard Araud em O Globo.

Foi quem deu um chega pra lá em sua excelência Bolsonargh, estadista cujo jaez o levou a concluir, em um vídeo nas redes sociais, que era “simplesmente insuportável viver em certos lugares da França”, aludindo à imigração, para, em seguida, levar esta pregada num tuíte de Araud:

“63.880 homicídios no Brasil em 2017, 825 na França. Sem comentários”.

(Me pergunto se S. Ex.ª Bolsonargh leu na vida ao menos o Almanaque Capivarol ou o do Jeca Tatu, do Biotônico Fontoura)

O melhor trecho da entrevista:

O senhor diz que seu paradoxo é acreditar, ao mesmo tempo, na razão e na loucura dos homens…
A História é uma grande coleção de atrocidades. Vivemos um período de loucura e de paixões. Veja os militantes antivacinas ou os terraplanistas. A palavra do especialista não existe mais. E há as mídias sociais. Antes, havia quatro bêbados em uma bar que falavam uma bobagem, mas aquilo ficava entre eles. Hoje, falam nas redes sociais e se tornam quatro mil imbecis. Há a difusão de falsas informações. Trump legitima os sentimentos de ódio e de desprezo que antes não se ousavam formular. O rebaixamento do discurso político é também o rebaixamento do discurso geral.



Merdunchos

Álvaro Costa e Silva lembrou o escritor João Antonio, “que andava na rua com o ouvido espichado para a fala do povo”. Entre o melhor dessa colheita [“…o povo é o iventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso…”, a lembrar as Galáxias (H. de Campos) e sua extração por Caetano em Circuladô de fulô] de Malagueta, Perus e Bacanaço — , o cronista elege a expressão “merdunchos”, os deserdados “que vivem naquela água e se viram justamente para conseguir algum dinheiro”, e comenta:

“Eles nunca foram tantos como no Brasil atual. A desigualdade no país, que já é um dos mais desiguais do mundo, só faz crescer. Pesquisa recente divulgada pelo IBGE mostra que, por qualquer medida, no último ano os mais ricos ganharam e os mais pobres perderam renda. O efeito da crise econômica no mercado de trabalho conseguiu até que os desempregados mudassem de nome — agora são chamados de empreendedores.”


Últimas notícias meio desconexas

—  “Diferença de rendimentos entre pobres e ricos é recorde, aponta IBGE — Pesquisa mostra que aumento da desigualdade coincidiu com queda no atendimento do Bolsa Família.” (FSP-16/10) —

— “Famílias em Belém vivem sobre o lixo à espera de obra iniciada em 2006 — Vila da Barca é uma das cerca de 450 obras do PAC para urbanização de assentamentos precários que estão paralisadas no país” (FSP-22/10) —

— “TJ do Rio prevê gasto extra de R$ 100 milhões com folha de pagamento em três anos — Em meio à discussões sobre Regime de Recuperação Fiscal, projeto foi encaminhado à Alerj, que prevê primeira votação para hoje” (O Globo-22/10) —

— “Em meio à crise no estado, TJMG é autorizado a gastar mais dinheiro com pessoal — Após alerta do TCE para gastos com pessoal em MG, Tribunal de Justiça questionou metodologia usada e conseguiu a liberação para aumentar despesa com servidores.” (G1-18/10) —

“Aqui não tem banheiro, não tem fossa, não tem nada’ — Em país onde ao menos 1,5 milhão de moradias não têm banheiro, falta de ação perpetua desequilíbrio sanitário”: Ananindeua (PA) – Na casa de Antonete de Castro Monteiro, 50, falta água potável, torneira, pia e um dos cômodos mais básicos: o banheiro. “Aqui não tem banheiro, aqui não tem fossa, aqui não tem nada”, resume ela, que vive há oito anos em uma casa de madeira construída por ela mesma na periferia de Ananindeua, no Pará, uma das piores em saneamento no país. (FSP-09/10) —

—  “Em cinco anos, doenças por falta de saneamento custam R$ 1 bi ao SUS — Para pesquisadores, gasto com ocorrências ligadas ao contato com água contaminada é subestimado” (FSP-17/10)


QUADRADO AO PÉ DA CARTA


JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
Convide quem você quiser para assinar esta cara por https://tinyletter.com/asiuves.
 

 
No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
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Zuckerman Safadão & Roth Safadinho

[Ensaio publicado na Inclusive.com número 8, setembro_2017]

Philip Roth

Philip Roth, o artista quando mais ou menos jovem, num momento Nathan Zuckerman

I

O leitor da obra de Philip Roth só pode ser um obsessivo. O fato de sistematicamente lhe negarem o Nobel é um mote de obsessão. Outro, não tem jeito, chama-se Nathan Zuckerman.

Nathan “torna-se” Philip Roth e vice-versa; um mostra-se tão vivo e verdadeiro — na realidade ficcional — quanto o outro. Imagino o escritor lendo este texto com a cara se abrindo em seu típico meio sorriso sarcástico. Ele podia exclamar, diante da diversidade de seus críticos: pois é, ganhei, papudos!

O leitor fervoroso de Roth, como o idealizo, é alguém educado na arte da ficção. Alguém que não deixa se abater pelo desamor à graça e à beleza do pós-modernismo e desdenha as atribuladas discussões sobre coincidências entre a ficção de um autor e sua biografia. Desdenha ainda mais o histerismo das cobranças identitárias que, à sua maneira, queimam livros e ideias. Mas, cá entre nós, leitor, Roth e Zuckerman não nos dão paz, e vamos virando página após página, e depois relendo as histórias, obstinadamente.

Zuckerman, a quem Roth significativamente não matou (matar, até que matou, provisoriamente), antes de, em outubro de 2012, anunciar sua aposentadoria como romancista, é narrador ou protagonista da parte mais substantiva da obra do autor.

O jogo de esconde-esconde autobiográfico Zuckerman/Roth, ou o jogo de luz e sombras entre criador e criatura — matéria-prima literária essencial de sua ficção — é mitológico e decisivo, com o perdão do trocadilho (talvez com algum eco significante) com o ensaio clássico de Albert Camus[1].

O Avesso da Vida (1986)[2] me parece o ponto alto desse espelhamento entre ficção e realidade. Esse romance polissêmico pode ser lido em duas vertentes principais: como crítica imaginosa à tentativa do público menos dócil e menos afeito à ficção de gabaritar uma na outra, e a um tempo como a autoanálise de um escritor judeu sobre os limites que esta condição deve ou não impor à liberdade artística.

O livro, que me parece subestimado no conjunto da obra, revela uma grande violência verbal, à la Roth, por óbvio. O autor-narrador nos dá a sensação de lutar obsessivamente contra a própria sombra e de ajustar contas de vida ou morte com a ficção e o judaísmo — de fato, depois desse romance, Zuckerman reaparecerá apaziguado como narrador em Pastoral Americana (1997)[3], e só o reconheceremos como “persona” atormentada, e por outras razões, é verdade, vinte anos mais tarde, do que falo à frente. O Avesso da Vida é, enfim, uma obra densa, febril e aflitiva. Como diz o próprio Roth em um de seus relatos autobiográficos, o livro expõe, no sentido de “entregar” ao leitor, a ossatura do romance que ele está a ler.

Pelas tantas da narrativa, seguimos o pensamento de Nathan:

“Enquanto ele [Henry, irmão de Zuckerman, que, como o próprio, morre num capítulo para reviver no seguinte] falava, eu ia pensando, as histórias em que as pessoas transformam a vida, as vidas em que as pessoas transformam as histórias”.

Ocorreu-me, então, esta paráfrase tonta de Pessoa: Roth ficcionista é um fingidor que chega a fingir que é ficção a ficção que deveras cria. Isso será arte?

Pois não é que reencontrei a mesma frase grifada ao abrir Os Fatos – A Autobiografia de um Romancista (1988)[4], obra só lançada no Brasil no ano passado e que é complementar ao romance. E, nada menos, como a epígrafe do relato, que, ora pois, começa e termina com a correspondência meio azeda entre Roth e Zuckerman.

O que mais gosto em O Avesso da Vida é da passagem na qual, depois do enterro de Nathan, com Roth assumindo o volante da narrativa, agora em terceira pessoa, um Henry indignado suborna a zeladora do edifício para entrar no apartamento do irmão, antes dos responsáveis por seu espólio, e surrupiar as anotações e “minutas” que lhe dizem respeito e converteriam sua vida na típica ficção falocêntrica: a ficção que já conhecemos. Aí está uma arrojada e precisa cambalhota narrativa, Mr. Roth, pensei com meus botões.

II

No início deste inverno, depois de mantê-lo à cabeceira a se empoeirar por quase dois anos, pus fim ao descanso imerecido de Zuckerman Acorrentado [5], o grosso volume com os relatos iniciais do personagem de Roth (escritos entre os anos 1970 e o começo da década seguinte).

Em O Escritor Fantasma, a primeira das quatro histórias reunidas, Nathan é um ficcionista que engatinha, ainda no final dos anos cinquenta. Para júbilo seu, é recebido pelo mestre com quem sonha como pai intelectual adotivo e por quem almeja ser ungido e abençoado.

Zuckerman chega à propriedade rural de Emanuel Isidore Lenoff, nos montes Berkshires, Nova Inglaterra, nos Estados Unidos. A visita será retomada mais tarde em “Fantasma Sai de Cena” (2007)[6]. Nathan então será um sexagenário à beira de um colapso mental, incontinente e impotente — sequelas da extração da próstata — e ainda assim vítima da tormentosa sedução de uma moça linda, culta, inteligente… e casada.

O leitor de Roth idealizado dá boas risadas com o Zuckerman escritor saindo das fraldas. Algumas frases guardam o melhor do humor corrosivo do personagem:

“Lenoff pronunciou ‘ficção’ como se tratasse de um cereal matinal”. 

Ou sobre a primeira visão de Nathan diante da linda Amy Bellette, personagem que ressurgirá quase 30 anos mais tarde:

“Com aquele rosto, cujos ossos fortes me pareciam ter sido alinhados por um escultor menos inocente que a natureza — com aquele rosto, ela devia ter mais que doze anos. Se bem que, se não tivesse, eu podia esperar”.

Há em O Escritor Fantasma — a par da centralidade do sexo e da crítica habitual à intelectualidade norte-americana, à academia, à crítica literária, à imprensa etc. — achados como este, a lembrar (por fora) as “tríades conradianas” mencionadas na prosa sexy entre Zuckerman e Jamie Logan em Fantasma Sai de Cena:

“A batedeira zumbia, a lenha estalava, o vento soprava e as árvores gemiam enquanto eu, aos vinte e três anos de idade, tentava pensar num modo de aplacar a melancolia daquele homem”.

Em Zuckerman Libertado e O Professor de Anatomia, que completam com A Orgia de Praga (chamado “um epílogo”) a edição compilada, nosso anti-herói, paranoico e enroscado com seu “harém” e suas dores excruciantes nas costas, paga o pato por ter lançado o muito bem-sucedido “Carnovsky”. A amoralidade, a salacidade e a liberalidade do livro com o judaísmo fazem de Zuckerman persona non grata entre nacionalistas israelenses e guardiães da Torá e do Talmude.

“Carnovsky”, por óbvio, é o simétrico irônico-cômico do padecimento que o próprio Roth sofreu com a publicação de O Complexo de Portnoy (1969), saga de um rapaz judeu campeão no que já se chamou nos manuais cristãos de “vício solitário” ou “autoviolação” — obra que ainda impõe um desafio ao leitor para controlar o riso.

Por essas e outras, trato intimamente o autor de “Carnovsky” de Zuckerman Safadão, fruto da verve de um Philip Roth que, por tê-lo imaginado, o homem e suas circunstâncias — por certo modeladas em experiências reais exageradas e distorcidas — merece formar com seu rebento uma dupla nada caipira. Agora com vocês, Zuckerman Safadão & Roth Safadinho.

III

Sigo lendo e relendo Roth, como deixei antever até aqui. Minha principal motivação foi ter assistido umas seis vezes ao ótimo documentário Encontro com Philip Roth – A Biografia de uma Obra, de Adrien Soland e François Busnel, lançado na França em 2015 e exibido este ano no canal Curta!.

O filme reúne trechos de entrevistas gravadas em ocasiões diversas, incluindo o período posterior à aposentadoria do autor. O roteiro apõe falas de Roth à leitura de passagens da obra e imagens de ruas e esquinas de Nova York nela retratadas e fixadas no mapa literário da cidade, bem como no GPS amoroso de seus leitores.

Retenho a última sequência, gravada na casa rural do escritor no estado norte-americano de Connecticut. A câmara se alterna entre o entrevistado, no seu jardim e na sala de estar, onde ouve um vinil clássico, e a fachada grafite da casa, que avistamos no contracampo desde os limites da área verde e de árvores seculares que há muito preservavam a paz do autor octogenário. Ao anoitecer, as luzes dessa fachada se apagam, uma após outra, uma persiana de tecido é abaixada; então o fade-out e os créditos finais.

O assunto da entrevista nessa parte são as duas derradeiras obras de ficção e a expectativa da morte que ronda quem dependurou as chuteiras. O escritor, aos 82 anos à época, refere-se à “perda da magia” de muitos artistas depois dos 65 anos, tema de A Humilhação (2009) — a história de um ator abandonado pelo talento — e da sombra da Indesejada das gentes[7] que ressurge em Nêmesis (2010) — o relato da juventude feliz de um atleta sugada pela poliomielite. Resignado, o escritor diz, num meio sorriso, ao abordar sua retirada de cena: “a Nêmesis está mesmo ali na esquina. Então me aposentei e comecei a curtir a vida”.

Ouvimos na sequência alguns compassos das Quatro Últimas Canções de Richard Strauss, obra que merece um suspiro de Roth. Ele pergunta ao entrevistador se conhece as obras e exclama, risonho: “São uma maravilha”.

O leitor idealizado de Roth[8] vai se lembrar da referência de Zuckerman à música em um trecho de Fantasma Sai de Cena, onde Nathan justifica dessa forma a escolha desses lieder como trilha do diálogo teatral que ele tenta esboçar em seu tormentoso regresso a Nova York, depois de um longo autoexílio no campo:

“Pela profundidade obtida não através da complexidade, e sim da clareza e simplicidade. Pela pureza do sentimento sobre a morte, o adeus, a perda. Pela longa linha melódica que se estende e a voz feminina que ascende mais e mais. Pelo equilíbrio e tranquilidade, a graça, a beleza e a intensa ascensão. Pela maneira como o ouvinte é atraído para dentro do tremendo arco de dor. O compositor tira todas as máscaras e, aos oitenta e dois anos de idade, se expõe ao ouvinte nu. E o ouvinte se dissolve.”

Os documentaristas não quiseram tirar o prazer do espectador e leitor atento de Roth, ao evitarem frisar o paralelismo do desfecho. Não enfatizaram no roteiro a força simbólica de vermos o escritor — retirado da cena literária, com a obra muito bem-sucedida — a ouvir, arrebatado, o último e iluminado trabalho do velho Strauss.

O ciclo da vida e a plácida aceitação do seu fim ressoam melancolicamente nas quatro canções, compostas sobre poemas de Herman Hesse e Joseph von Eichendorff.  Transcrevo o verso final de In Abendrot (crepúsculo), a última delas:

O weiter, stiller Friede!
So tief im Abendrot.
Wie sind wir wandermüde —
Ist dies etwa der Tod?

(Na tradução da Wikipédia:)

Ó paz imensa e tranquila
tão profunda no crepúsculo!
Como nós estamos cansados dessa jornada —
Seria talvez isso já a morte?

O escritor I. E. Lenoff, cuja memória é recuperada em Fantasma Sai de Cena, é citado no reencontro entre Nathan e Amy Bellette, quando o mentor de Zuckerman é lembrado em suas palavras finais: “O fim é imenso, é sua própria poesia. Quase não pede retórica. É só enunciá-lo tal como ele é.”

O que atrai o idealizado leitor de Philip Roth, em boa medida, é o que molda o leitor ideal per se.

No fim de um capítulo de Fantasma Sai de Cena, Zuckerman se pergunta se, para uns poucos, o sofrimento real, por maior que seja, não dispensa “uma amplificação ficcional que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida. Ao que responde:

“Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante”.

Mas o que é isso senão uma manifestação do espírito proustiano, como o sentimos encarnado já no final do longo curso de Em Busca do Tempo Perdido[9]:

“A vida verdadeira, a vida afinal descoberta e tornada clara, por conseguinte a única vida plenamente vivida, é a literatura”.

No ensaio Alfabetização Humanista[10], George Steiner se refere à mesma substância da intersecção entre vida e arte, ao formular, de modo inesquecível:

“Quando é mais que devaneio de um apetite indiferente nascido do tédio, a leitura é uma forma de atuação. Atraímos a presença, a voz do livro. Permitimos que entre, ainda que não sem reservas, em nosso íntimo. Um poema magnífico, um romance clássico, entram à força em nosso interior; tomam de assalto e ocupam as praças fortes de nossa consciência. Exercem sobre nossa imaginação e desejos, sobre nossas ambições e sonhos mais secretos, um domínio estranho e contundente. Quem queima livros sabe o que está fazendo. O artista é a força incontrolável: depois de Van Gogh, nenhum olhar ocidental pode contemplar um cipreste sem notar nele o princípio de uma chama”.

IV

Fiz uma árdua releitura de Pastoral Americana. Árdua, talvez porque a vida do Sueco — uma pequena estrela no céu onírico americano à mercê da atração gravitacional do buraco negro da Guerra do Vietnã — tenha se tornado tão familiar como um episódio que muitas vezes recobramos, ou tentamos recobrar, e cuja memória não traz qualquer escape de redenção. Mas é o que costuma ocorrer com grandes romances.

Três passagens de que não me lembrava valeram especialmente o esforço. O devaneio do Sueco ao revelar seu ideal mais profundo: ter sido um Johnny Semente de Maçã (Johnny Appleseed), o herói do folclore norte-americano, e podido vagar pelos campos do mundo a espalhar árvores frutíferas e bondade. É uma imagem que nos fere como um verso de Lorca, pois se choca contra o infortúnio do personagem como uma onda gigante a engolir um bote à deriva.

Reli e senti ainda mais intensamente a força tremenda contida na narração do reencontro do Sueco com sua filha Merry, então um trapo humano convertido ao jainismo, em um quarto sórdido de um beco miserável de sua cidade natal. Que leitor dedicado consegue mergulhar nessa longa passagem e emergir, ao atravessá-la, sendo o mesmo leitor de antes?

Nathan Zuckerman, o narrador, em outro episódio memorável, leva o Sueco — depois de ele ter saboreado todos os círculos do inferno abertos pelo Vietnã e pelos conflitos familiares entre judeus e góis — a considerar que o Dia de Ação de Graças é a “pastoral americana por excelência, e dura vinte e quatro horas”. Porque nesse feriado, quando “um peru colossal alimenta todo mundo”, vigora uma “moratória” das barreiras raciais e religiosas, “uma moratória de comidas esquisitas, comportamentos esquisitos e exclusividade religiosa, uma moratória da nostalgia de três mil anos dos judeus, uma moratória de Cristo, da cruz e da crucificação para os cristãos”.

Não esperava, mas afinal obtive mais prazer — não recordava quase nada do livro — ao ter relido, antes, Casei com um Comunista (1998)[11], romance que termina com a frase “as estrelas são indispensáveis”, num raro laivo lírico na obra do Roth.

Ao retomarmos os anos do Macarthismo e sua mancha na civilização norte-americana, nosso interesse recai no misto de graça e tragédia na representação da doença do fanatismo e seus efeitos perversos em Ira Ringold, ou Iron Rinn, o personagem central que tentou ser uma espécie de pai substituto para o adolescente Nathan Zuckerman.

Casei com um Comunista retrata de maneira implacável e, por assim dizer, demasiadamente humana, o socialista pró-soviético Ringold, como também toda a adesão a posições extremas, seja na literatura, na estética ou na política.

A narrativa disseca a gênese da cooptação de um espírito frágil e desamparado pela ideologia, a dizer muito sobre nosso próprio mundo[12]:

“O léxico pseudocientífico do marxismo, o jargão utópico que o acompanhava — despeje essa conversa em cima de alguém tão sem instrução e sem cultura como Ira, doutrine com o glamour intelectual das Grandes Ideias Radicais um adulto que não é lá muito desembaraçado no que diz respeito a usar a cabeça, catequize um homem de inteligência limitada, um tipo suscetível que seja tão inflamado quanto Ira… Mas esse um assunto bem distinto, o nexo da exasperação e não pensar”.

O livro inteiro é rico em sínteses como essa, que trazem a beleza da verdade revelada. Quando Zuckerman e seu querido professor Murray, o irmão de Ira, estão ouvindo a canção soviética Dubinuchka, cujo refrão diz “Eia! Avante”, de um LP regalado a Nathan pelo grande homem (Ira lembrava Abraham Lincoln fisicamente e o representou como ator amador), ele, Nathan, reflete:

“‘Eia! Avante!’ vinha de um local remoto no tempo e no espaço, um resíduo espectral daqueles arrebatadores tempos revolucionários quando todo mundo que almejava mudanças, de forma programática, ingênua — louca e imperdoável — subestimou a capacidade humana para mutilar suas ideias mais elevadas e convertê-las numa farsa trágica. Eia! Avante! Como se a malícia, a fraqueza, a burrice a corrupção humanas não tivessem a mínima chance ao enfrentar o coletivo, a força do povo que, unido, empurrava para a frente, a fim de transformar suas vidas e abolir a injustiça”.

Vou ao YouTube buscar Dubinuchka, música executada no romance em um disco do Coro e Banda do Exército Soviético. Vale a pena o leitor ouvi-la para ampliar a sintonia com o teor emocional suscitado pelo trecho transcrito.

É uma canção de melodia tocante, cheia de pathos. Na tradução do livro, diz a letra:

“Vamos, levante e lute,
Eia! Avante!
Força, todo mundo junto,
Eia! Avante!”

 

Minhas leituras de Philip Roth têm proporcionado, como inesperado desdobramento, outras descobertas musicais. Além desse LP de 78 rotações da Rússia stalinista — e das citadas Quatro Últimas Canções de Strauss, há nessa história o repertório de um recital privado na mansão de Ira e Eve Frame (ex-celebridade do cinema mudo com quem o homem de ferro se casa e enseja sua desgraça) com o trio formado pela filha de Eve, a harpista Sylphid (“com seu tronco quadrado, pernas troncudas e aquele esquisito excesso de carne que a estufava, um pouco com um bisonte, na parte de cima das costas…”) e duas amigas instrumentistas: duos para harpa e flauta de Fauré (Berceuse) e Franz Doppler (Fantasie de Casilda) e o Interlúdio da Sonata para Flauta, Viola e Harpa, de Debussy.

O leitor idealizado de Roth, por certo, também procurará escutar o repertório do recital, levado pela graça da descrição e do enlevo do seu narrador, o velho conhecido Nathan. A audição será recompensada se você, como o autor dessas notas, é alguém que alimentava preconceitos contra a sonoridade da harpa.

Convidado para a festa de gala, Zuckerman se manda de ônibus de Newark para Manhattan, cheio da tensão da expectativa que um adolescente pode ter diante da ventura de frequentar outro mundo social, pleno de políticos, intelectuais e mulheres sedutoras. O relato do narrador é saboroso desde o início:

“E, num sábado à noite bem cedo, joguei uma balinha aromática na boca e, com o coração batendo como se eu fosse cruzar a fronteira do estado para cometer um assassinato, fui até a avenida Chancellor e peguei um ônibus para Nova York”.

 

Quero, de passagem, como que entre parênteses, fazer um registro nesses apontamentos, sabendo que talvez me exceda como leitor obcecado do criador de Alexander Portnoy a adentrar no terreno espinhoso da crítica literária stricto senso. Paciência. Mas vejo Roth como um “ironista trágico”, a categoria na qual Harold Bloom[13] inscreve Flaubert, Eça, Calvino, Borges e Machado de Assis.

Talvez ainda — conforme o estado de arte da crítica literária — um tanto longe da grandeza perene de todos esses grandes, o que apenas a posteridade, creio, poderá avaliar, Roth é o contemporâneo que conheço cuja obra destila a ironia mais elevada, aguda e excitante à inteligência.

 

Mas, e agora José, para onde? O que reler — indago à minha estante, já que o homem já se retirou da ficção e, ao se aproximar da nona década de vida, não deve mesmo voltar atrás — vale dizer, teremos nós próprios de imaginar um final de vida para Nathan Zuckerman?

Olho então para a subseção Roth entre a literatura norte-americana e, em resposta, como dentro do foco de um tambor de luz, reencontro lombadas que nos últimos vinte anos se tornam íntimas a ponto de dispensarem todo tipo de formalidade. O Teatro de Sabbath? A Mancha Humana? Operação Shylock? Homem Comum…? Uni, duni, tê…


 

[1] Refiro-me ao ensaio de Alberto Camus Mito de Sísifo (Editora Guanabara, 1989). A pronúncia do título original em francês (Le Mythe de Sisyphe), remete ao mito grego, mas também a “o mito decisivo” (le mythe décisif). É dessa obra a célebre afirmação de Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”.

[2] O Avesso da Vida, como os outros livros citados de Philip Roth, são publicados no Brasil pela editora Companhia das Letras. Tradução de Beth Vieira, neste caso.

[3] Traduzido por Rubens Figueiredo.

[4] Traduzido por Jorio Dauster.

[5] Traduzido por Alexandre Hubner.

[6] Traduzido por Paulo Henrique Britto.

[7] De Consoada, poema de Manoel Bandeira: “…quanto ela chegar (…) talvez sorria, ou diga:/ — Alô, iniludível! / O meu dia foi bom, pode a noite descer…”.

[8] Sugiro como informação complementar, que pode ou não revelar algo mais sobre um leitor particular de Philip Roth, a leitura de Inferno em Florença, no blog do autor https://goo.gl/oQA751

[9] Em Busca do Tempo Perdido: O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust, tradução de Fernando Py, Ediouro, 2001.

[10] Linguagem e Silêncio, Companhia das Letras, 1988, tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally.

[11] Tradução de Rubens Figueiredo.

[12] Nestes dois textos, disponíveis no blog do autor, discute-se a singela e prosaica constituição de um espírito radical no ambiente das faculdades de humanas no Brasil, em “Lobotomias” (https://goo.gl/pZ6jkq) e “Chaui não é mais pícara que outros luminares do lulopetismo” (https://goo.gl/CqK9LN).

[13] A classificação dos “ironistas trágicos” está em Yesod (“fundação”) no livro Gênio, de Harold Bloom, Objetiva, 2003, tradução de José Roberto O’Shea.

Silêncio, por favor

[Coluna da Inclusive.com número 6, julho_2017.]

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco.

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Francis Bacon, Untitled (Sea), 1953.

O título é verso de um samba de Paulinho da Viola (Para Ver as Meninas), com o qual abro e vou fechar esta coluna.

Pois “hoje eu quero apenas / uma pausa de mil compassos”.

Há muito barulho por todo lado. Um falatório diabólico obscurece o que é vital. A cacofonia de um coaxar transoceânico marca a política, a cidadania e as relações pessoais.

Palavras e metáforas desaparecem na algaravia como dejetos, de link em link, de nó em nó na teia virtual.

No começo era o Verbo e a linguagem. O fim parece ter fotos, vídeos, emoticons e kkks comungados com automatismo a roçar o simiesco. Ao menos numa parte considerável da existência, a leitura e a palavra foram corrompidas.

A telinha colorida do celular praticamente aboliu o céu e o movimento das ruas como inspiradores do pensamento.

Quem estudava os efeitos dos mass media no século passado não podia sonhar com a nova ordenação do mundo. Algoritmos (linguagem não verbal) e Big Data são minas de ouro do século 21. Por meio de aplicativos e inteligência artificial, tangem multidões de usuários — consumidores, não cidadãos — cuja participação precisa ser renovada num ciclo infinito de clicks e egotismo para que se sintam vivas no ciberespaço.

A palavra — o sopro, a luz que iluminava as consciências — se apaga. O idioma se torna impotente. Os sentimentos e as sensações se esvaziam. Os músculos da face se hipertrofiam com o exercício permanente do riso autônomo. O pensamento se encolhe.

No Brasil e no mundo, as referências vocabulares das ideias foram evisceradas. “Direita” e “esquerda” irmanam-se na idiotia.

Como demonstra George Orwell em O que É Fascismo (Cia das Letras), o xingo “fascista” é pau para toda obra; atende a todo o arco-íris ideológico.

Também as categorias da beleza perderam seu território com a invasão bárbara do relativismo e do discurso “politicamente correto”.

O desgaste da linguagem é fenômeno universal que acompanha as mudanças sociais e tecnológicas.

O esgotamento da palavra e das narrativas foi detectado ainda na segunda metade do século 19, com a reação dos pintores, poetas e romancistas do Modernismo que reinventaram sua arte.

Mais tarde é a “expulsão da literatura como influência séria sobre a percepção da vida”, no dizer de um personagem de Philip Roth, processo que termina em nossos dias, era de ouro dos millennials.

Mas agora não há qualquer sinal de reação criativa, além de prazerosa resignação.

Uma tagarelice sem fim distingue nosso tempo. A preferência assombrosa pela frivolidade ulula em todas as plataformas.

Ai, se Eu te Pego e Despacito são a trilha ideal do espírito da época.

“Talvez nossa cultura tenha se tornado esbanjadora de palavras. Talvez tenha vulgarizado ou gasto o que de garantia de percepção e valor luminoso um dia contiveram”, ponderava o filósofo e crítico literário George Steiner num ensaio dos anos 1960, uns 50 anos antes que o WhatsApp e do Facebook começassem a reger a imaginação.

Steiner se refere no mesmo livro ao “atormentado escrúpulo” de Kafka ao retornar várias vezes (nas Cartas a Milena) “à impossibilidade da manifestação adequada, ao esforço infrutífero da tarefa do escritor que é encontrar a linguagem ainda não enxovalhada, desgastada até tornar-se lugar-comum, esvaziada pelo desperdício irresponsável”. Kafka, puxa vida. Então sou o Gregor Samsa.

Cada hora de rola-páginas nas redes sociais incrementa a hiperinflação de palavras que fragiliza a linguagem. Se uma carroça de bolívares venezuelanos não compra um rolo de papel higiênico, um Amazonas diário de palavras no Facebook não produz uma ideia original.

Nem apelos à pornografia e à violência surtem mais efeito, que o diga a publicidade de rapina (“Para você curtir gigante.”)

Pois hoje eu quero apenas o bem precioso do silêncio. Mil compassos de pausa. Contra o veneno do ruído infernal, o antídoto do silêncio, anterior ao verbo. “Deve-se calar sobre aquilo de que não se pode falar”, diz a célebre frase do filósofo.

E por silêncio clama Paulinho da viola em seu lindo samba: “Quem sabe de tudo não fale / quem não sabe nada se cale / se for preciso eu repito / porque hoje eu vou fazer / ao meu jeito eu vou fazer / um samba sobre o infinito”. Que o silêncio nos resgate.

O diário da sexta

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Estranha flor – caminhada no Parque Municipal (Belo Horizonte). Foto: Antônio Siúves

 

PSICANÁLISE

Na Folha de S.Paulo, a verdadeira inteligência está sempre a disputar a atenção do leitor com a impostura intelectual de grife. Com o pretexto da pluralidade ideológica, o jornal realiza seu bem-sucedido marketing, e seja o que deus quiser.  Tomemos a edição desta sexta-feira. No artigo De Marx a Marxilena, Reinaldo Azevedo desmonta com clareza e elegância as ilusões da esquerda de que pode se servir da história como lhe convém — ilusões que não deixam de ser influentes e de fazer estragos. Vladimir Safatle, a pretexto de defender a psicanálise das críticas do neurocientista Ivan Izquierdo, de uma modo tipicamente tortuoso consegue apenas nos mostrar porque a ciência prosperou e a psicanálise, especialmente a pós-freudiana, para qual advoga, naufragou em autoritarismo obscurantista, ditado por bruxos franceses. O que dizer de um período como este?:

“Poucas foram as teses que influenciaram tanto a maneira como nós definimos a nós mesmos quanto a de que somos sujeitos atravessados por algo que nos causa e que não se submete à estrutura representacional de nossa consciência, algo que coloca continuamente questões sobre nossa identidade, a autonomia de nossas ações e a unidade de nossa personalidade”.

Vá tocar piano, Safatle. Influenciaram quem mesmo? Prefiro George Steiner. Psicanálise é para quem quer e pode. Transcrevo mais uma vez o trecho a respeito de sua entrevista ao El País recomenda pelo JS:

A psicanálise é um luxo da burguesia. Para mim, a dignidade humana consiste em ter segredos, e a ideia de pagar alguém para ouvir seus segredos e intimidades me enoja. É como a confissão, mas com um cheque. É o segredo que nos torna fortes, por isso todos meus trabalhos sobre Antígona, que diz: “Posso estar errada, mas continuo sendo eu”. De qualquer forma, a psicanálise está em plena crise. Lembre-se das palavras magníficas de Karl Kraus, o satirista vienense: “A psicanálise é a única cura que inventou sua doença”.

BABENCO

O argentino Hector Babenco foi o grande diretor de cinema que o Brasil não teve nas últimas décadas. Fotogramas de Ironweed, Brincando nos Campos do Senhor, Lúcio Flávio e Pixote passam no nosso imaginário com a fixidez que apenas os verdadeiros artistas são capazes de causar.

O TERROR DO JORNALISMO

A indecente justificativa da exclusão social e do preconceito ocidental contra emigrantes para a ação terrorista nunca é contestada quando aparece, o que é comum, no jornalismo de terceira classe, como o da GloboNews. A explicação ginasiana passa longe da realidade e colabora com o sucesso de novos atentados. Devemos pegar com Alá para entender o que dá em alguém como o motorista do caminhão de Nice. Com a psicologia, a sociologia e a filosofia, até aqui, tem sido inútil.

 HITCHCOCK & TRUFFAUT

Vejo no Philos TV, refúgio ao lixo que grassa nos canais pagos, o filme de Kent Jones que faz um bom resumo da série histórica de entrevista de François Truffaut com Alfred Hitchcock, fonte de um livro clássico, referencial para cineasta e cinéfilos em todo o mundo. Os depoimentos de David Fincher, Martin Scorsese e Wes Anderson no filme explicam por quê. O cinema deve a Truffaut ter, por assim dizer, patenteado a genialidade de Hitchcock. Antes, a crítica torcia o nariz para o inventor de Um Corpo que Cai (Vertigo). A revista Serrote #20 traz as entrevistas de Truffaut feita pela jornalista Lillian Ross, em encontros que vão de 1960 a 1976. É um complemento perfeito ao filme, além obviamente do próprio livro, disponível nas livrarias.

ELLA

Também no Philos assisto de enfiada a três a concertos de Ella Fitzgerald, entre 1969 e 1969, cortejada por bambas como o pianista Tommy Flanagan, o baixista Keter Betts e, no show do clube londrino Ronnie Scott, o guitarrista Joe Pass. Nos três momentos, ainda que àquela altura a artista já tivesse perdido algo da potência do incomparável gogó, Ella ainda era capaz de dobrar e redobrar o tempo como nenhuma outra diva do jazz, de jogar com o silêncio, de exibir uma extensão vocal que leva o ouvinte por uma montanha-russa, sem fôlego e com arrepios.

GATOS NO PARQUE E UMA ESTRANHA FLOR

A cultura da paixão por gatos e cachorros é uma característica de nosso tempo, outro dado, como a existência de 65 milhões de refugiados no mundo, que tentam sobreviver a guerras e à miséria. Recomendo aos chegados que frequentem o Parque Municipal de Belo Horizonte, onde há centenas, talvez milhares de bichanos à solta, em estado selvagem. Boas almas comparecem diariamente para alimentá-los com fartura; há restos de ração por todo lado.

Em um passeio no parque, desviando dos gatos e de sua caca, fotografei a estranha flor ou estranho cacho da foto acima, de um verde que, à luz da manhã, parecia querer saltar da natureza para se tornar artifício.

GLOBALIZAÇÃO É ISSO

Descubro, depois da cidade inteira, que o antigo Pelicano, no Edifício Maletta, deu lugar ao Duke’n’Duke, um pub que se quer autêntico. O chope é delicioso. Pena que não tenham Guinness na chopeira.

OS SONS DA SEXTA