Um papo “transante” com Caetano Veloso, ou como não entrevistar um ídolo

caetanofaia

Caetano Veloso é um doce de entrevistado, eu pude ver nas vezes que conversei com ele como repórter dos jornais Hoje em Dia e O Tempo. É capaz de abordar qualquer assunto e adora uma provocação. Todo mundo sabe disso.

Todo mundo também sabe que a Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, na última década ou mais anda como a mendigar o prestígio que tivera, a erguer o chapéu para os cliques da onda homogênea das redes sociais, mas só faz afundar, dia após dia, na areia movediça da falta de caráter editorial.

O JS deteve-se em alguns pontos culminantes dessa trajetória engolfante, como a capa dedicada a fritar Noel Rosa, Caymmi e Valesca Popozuda na mesma frigideira da “cultura do estupro”. The horror.

Agora, publica com o igual estrondo uma entrevista de Caetano a Anna Virginia Balloussier, que lhe levanta a bola em todas as perguntas, como fã incapaz de propor uma perguntinha que seja que tenha cheiro de autêntico e irrevelado. Caetano corta como sabe e pode e a moça quer, inclusive no título idiota já colocado na pergunta: “Avesso à polarização simplificadora, Caetano elogia a direita transante”.

A menina Ballousier poderia ter ser esforçado para ler a coluna de Demétrio Magnoli com uma crítica precisa como bisturi de neurocirurgião às ideias de seu ídolo, e dali tirar uma questão decente com teor para capa de jornal de grande circulação. O próprio Caetano se refere ao texto de Magnoli no papo de aranha “transante” com a entrevistadora, assim como quem sorve uma água de coco na praia. Anna Virginia, com tantas letras dobradas no nome, claro, não entende nada!, e come a mosca com gosto de bombom.

 

 

Dois poetas que somam 170 anos se mantêm unidos por uma querela

Rusga entre Augusto de Campos e Ferreira Gullar, ambos com 85 anos,
em torno de Oswald de Andrade e de um almoço ocorrido
ou não no Rio de Janeiro, há 61 anos,
tem novo e delicioso round, para espanar nossa pasmaceira cultural

Gular augusto

Fotos: Fernando Frazão e Valter Campanato/Agência Brasil

 

Os dois poetas até se deram durante alguns anos, antes de as estéticas concretista e neoconcretista separá-los, ainda nos anos 1960, um no front carioca, outro no paulista.

Mas outra querela tem unido os ex-amigos e poetas Ferreira Gullar e Augusto de Campos.

A rusga remete a um suposto almoço dos dois na Spaghettilândia, no Rio de Janeiro, no longínquo 1955.

No encontro, negado por Augusto, Gullar teria convencido seu então camarada da real grandeza de Oswald de Andrade, à época em desgraça no meio intelectual, visto como um irresponsável e mau-caráter.

A contenda começou na própria Folha de S.Paulo, cinco anos atrás, com réplica, tréplica e inclemente pancadaria, sobretudo da parte de Augusto, que sempre teve o gosto por se digladiar com seus desafetos na praça pública da imprensa, entre eles o também poeta Bruno Tolentino (1940-2007).

Em 2011, Ruy Castro se divertiu com o arranca-rabo entre os dois vates, e, por coincidência, há um mês o grande biógrafo de Garrincha, Nelson Rodrigues e da Bossa Nova recordou a pendenga e até se propôs a  intermediar a paz entre eles.

A última frase do seu texto era premonitória: “Eu sei, as diferenças são muitas, mas seria fascinante vê-los fazer as pazes. Nem que fosse para logo voltarem a brigar”.

Pois voltaram, Ruy, para espanar a pasmaceira cultural vigente.

A disputa foi retomada no último domingo, no mesmo jornal, por uma nova menção de Gullar, em sua coluna, ao célebre almoço no restaurante ainda aberto na Cinelândia, no Centro do Rio, seguida de dura réplica de Augusto, publicada hoje.

Digo de passagem que fazia tempos que a Ilustrada, caderno cultural da Folha de S.Paulo, não lembrava o que foi um dia.  Diluída, guiada pelo farol da esquerda e da correção política, meio perdida entre o Punqui e o Funqui, hoje raramente consegue açular uma boa troca de sopapos retóricos entre pesos pesados da cultura, o que em suas páginas já foi quase um subgênero do jornalismo cultural.

Pois o busílis da escaramuça Campos/Gullar paira em torno de quem redescobriu e revalorizou primeiro a grande obra de Oswald de Andrade; em torno do que Augusto pensa que falou e o que Gullar teria dito e vice-versa.

A crônica de Gullar, que sempre acerta quanto foge à política, seara na qual soa óbvio e monótono, trata poeticamente de seu único encontro com Oswald.

Ele acabara de publicar, à própria custa, nos conta, o livro A Luta Corporal. No dia do seu aniversário de 1954 estava em casa de uma namorada e aparece para abraçá-lo ninguém menos que o autor de Serafim Ponte Grande, que não apenas rasga elogios a A Luta Corporal, como promete que promoveria a obra em um curso que daria em Genebra, na Suíça, ainda naquele ano. Oswald morreria em São Paulo, no mês seguinte.

Depois de narrar a bela passagem é que Gullar menciona o dito cujo, o tal almoço na Spaghettilândia e a recomendação que teria feito a Augusto para que este relevasse suas restrições a Oswald.

Campos não passa recibo, como se sabe. Novamente, tratou de rebater duramente a versão de quem um dia abraçara e atribuir tão somente a si e aos concretistas de São Paulo, mais uma vez, a redenção do autor de O Rei da Vela.

“ONDE CHUCHA SEU CHAZINHO”

Campos atribui a reminiscência de Gullar à “senilidades politicoides” do  velho desafeto e, mais à frente, a seu “memorioso formigueiro mental”; no final, condena-lhe por ter cedido às glórias terrenas da Academia Brasileira de Letras, “onde chucha seu chazinho bem remunerado com Sarney, FHC, Marco Maciel e até um golpista da TV Globo, entre outros espantalhos imortais da nossa literatura”.

O “golpista da TV Globo”, como todo mundo sabe, é o jornalista Merval Pereira.

Augusto, como todo mundo também sabe, é petista de coração. No ano passado, esteve com Dilma no Palácio do Planalto, agraciado com a Ordem do Mérito Cultural, revelando ali a que ponto pode chegar um antigo cavaleiro das vanguardas artísticas planetárias —alguém que ainda jovem se autoaplicara na tradição dos criadores inventores, do “make it new” (fazer o novo) de Mallarmé/Joyce/Pound/Cummings, como ele próprio os enfileira no artigo de hoje— especialista na arte de recusar o que é fácil, popular e estabelecido pela Inteligência cultural.

DE UM LADO DA BRIGA

Como se vê, este comentarista tem um lado nesta briga.

Sim, a reação de Augusto —um imperioso, dado a invectivas cheias de neologismos exibicionistas— sempre me pareceu desproporcional, excessivamente dura contra o sempre polido Gullar, alguém incapaz de “insultar” quem quer que seja em seus textos.

“Em suma, por que [Gullar] sempre insultou os poetas paulistas?”, Augusto se pergunta em sua nova réplica, para, em seguida, se permitir rebaixar o oponente: “Que seu ‘neo’ [referência ao neoconcretismo], cercado de uma pequena corte de subpoetas, hoje esquecidos, foi incapaz (…).”

Augusto tem o hábito de referir-se a si próprio, ao irmão Haroldo (1929-2003) e a Décio Pignatari (1927-2012), como uma espécie de Trindade. A despeito da viva afinidade que houve entre os três, isso é mitificar a história e se valer de testemunhas que não estão mais neste mundo.

Décio era o mais simpático dos três, um criador erudito, alegre e profuso, a quem devo a ótima expressão “esquerdofrenia” , entre muito mais, alguém que jamais se curvaria diante de sicários do estado democrático.

De Haroldo diga-se que sua melhor poesia, de Galáxias, nada tinha de concretismo, e que era um tradutor mais erudito, aplicado e consistente que o irmão mais jovem.

Quanto ao próprio Augusto, é melhor tradutor que o poeta enorme que acredita ser — e a literatura e a cultura brasileiras devem-lhe muito por isso.

Também não faz sentido Augusto acusar Gullar de só abrir a “pós-boca”, como diz, “para autolouvar-se”. Augusto nunca faz outra coisa na vida, penso que desde os cueiros.

Seu autoelogio no ensaio introdutório de Quase Borges – 20 Transpoemas e uma Entrevista, me assusta sempre que volto a esta passagem:

“(…) as edições bilíngues têm a vantagem de iluminar a percepção e a vivência das redescobertas dos ‘achados’ que o tradutor-poeta obtém na difícil viagem transcriativa, quando se trata de traduções artísticas, que podem senão impregná-lo de qualidade equivalente, chegar em raríssimos momentos até mesmo a superar o texto original”.

É isso mesmo que lemos. De cara, antes de o leitor chegar ao primeiro dos poemas vertidos para o português, ele insinua que suas traduções aqui e ali chegam além do próprio Borges! Com tradutores com tal modéstia poderíamos esquecer os textos originais.

Mas a tais arroubos seus leitores estão acostumados. E, seja como for, o JS se alegra e saúda esta nova rodada da diatribe entre os dois bons velhinhos, com todo respeito, torcendo para que Gullar mande brasa em sua tréplica, a sair domingo que vem.


 

Gullar fez a esperada tréplica, publicada em 26/06/2016, mais ou menos no tom que se esperava dele.

Campos rebateu a tréplica, com habilidade e fartos elogios a si próprio.

[Atualizado em 06/07/2016]

 

 

 

O diário da sexta

A carta-compromisso de Dilma, caipirismo artístico,
marketing esportivo, Joyce e Knausgård, Regina Machado, Nana Caymmi e João.


VENEZUELÃO
Dilma prepara uma carta-compromisso para restaurar seu governo, dirigida a “movimentos sociais”, com a promessa de entregar tudo que a esquerda quer. Esses crentes não se darão por satisfeitos enquanto não cumprirem o ideal de transformar o Brasil num imenso Bananal, isto é, num Venezuelão.

HOMENS E MARCAS
No Valor, um longo texto sobre o negócio da conversão de atletas de alto nível em marcas publicitárias e o dinheiro que isso dá. Pode haver leitura mais chata? O reino de Muhammad Ali não era desse mundo. Aliás, estes “homens-marcas” em geral envelhecem sendo adolescentes, incultos e mimados. São incapazes de dizer algo relevante. O esporte tornou-se insuportável. Hoje sinto falta de Sharapova, que bebeu algo que não devia, pobre dela.

CAIPIRISMO ARTÍSTICO
Kleber Mendonça Filho, Sônia Braga —que não é mesma desde a cena do telhado em Gabriela, lá se vão 40 anos— e outros lançaram moda em Cannes. Segundo a Folha de S.Paulo, protestos contra Temer espelham-se pelo país e os quatro cantos do mundo. Citam três ou quatro nomes, dos quais nunca ouvi falar, todos provavelmente pendurados nas tetas da Lei Rouanet.

Entre os exemplos levantados pela Ilustrada, onde você procura e acha a mais autêntica “cultura do PT”, diariamente, estão dois coreógrafos e seus balés, que se manifestam contra Temer na Alemanha. A bobice sem tamanho vale por algo como, ó, vejam como somos engajados e conscientes, da esquerda bacana, enquanto o país é tomado por bárbaros de direita, depois de expulsarem o povo do poder.

GALILEU PROVA
O Brasil está morto culturalmente, e no entanto ele se move, como provam o Galileu e a guerra pelo MinC. Ninguém sabe direito o que faz ou para que faz, além de assegurar suas prebendas e patrocínios por meio do dinheiro público.

Babelia

RETRATO DE JOYCE POR KNAUSGÅRD
Estamos perto de mais um Bloomsday  e o Babelia do El País, único suplemento cultural que leio por gosto, celebra amanhã o centenário de Retrato do Artista Quando Jovem, com um artigo do escritor norueguês Karl Ove Knausgård, de quem a Companhia das Letras lança este mês Uma Temporada no Escuro – Minha Luta 4. Há um trecho do livro na Piauí.

TRUQUES DE SOBREVIVÊNCIA
Um dos meus truques para olhar para cima e não deixar a peteca cair é ouvir Regina Machado cantar Ich Will Meine Seele Tauchen, este pequeno lied  de Robert Schumman e Henrich Heine.

Outro truque que não falha é rodar Nana Caymmi em Segue o Teu Destino, a ode de Ricardo musicada por Sueli Costa, do álbum A Música em Pessoa.

JOÃO, 85
Fiz estas notas ouvindo o programa da Radio Batuta sobre João Gilberto, 85 anos hoje. Uma bela seleção de Luiz Fernando Vianna com o repertório de João emparelhado a versões anteriores de outros intérpretes.

TRUQUE REGINA MACHADO

 

TRUQUE NANA CAYMMI

 

“Folha” dá tijolada na testa do leitor

Dupla do UOL consegue engastar Noel Rosa
e Dorival Caymmi no funk e no sertanejo
e filiá-los à “cultura do estupro” na música brasileira

tijolada

 

A reportagem, digamos assim, da Folha de S.Paulo desta sexta-feira —“Há 80 anos, mulher já levava tijolo na testa na música brasileira” — está para o jornalismo cultural digno do nome como Valesca Popozuda —citada no texto com a referência, sem aspas, de “pensadora contemporânea”— está para Sarah Vaughan.

O título da matéria, provável fruto da verve dum editor cheio de acne, é, além de besta, apelativo.

Como Pilatos no credo, Dorival Caymmi e Noel Rosa são metidos no meio duma conversa mole sobre o machismo no funk e no sertanejo.

As repórteres do UOL Carol Prado e Maria Clara Moreira ouviram vários MCs, homens e mulheres, sobre o problema do machismo no funk no interior da “cultura do estupro”, e é disso que a pauta trata.

Não se propôs abordar o machismo na tradição lírica da canção popular, o que poderia, claro, ser feito, com o cuidados de não se cometer o pecado mortal do anacronismo. Bola pra frente.

Eva Blay, socióloga uspiana e feminista aposentada, diz que certo tipo de música “exprime e ratifica” a mulher-objeto em nossa “cultura do estupro”.

Uma deputada petista baiana, Moema Gramacho, somos informados, é autora de um projeto de lei que quer impedir que o funk apologético ao estupro e músicas que “pregam” (sic) homofobia e racismo sejam beneficiados por incentivos públicos à cultura.

O leitor também passa a saber que o deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) é autor de uma lei que “reconhece o funk como movimento cultural” e que o deputado federal Chico Alencar, do mesmo partido, quer impor a lei a todo o país.

Um gênero que dependa de lei, pensei, e ainda por cima de uma lei de autoria de Freixo, para ser reconhecido por seu valor cultural, não deve valer lá grande coisa.

E Caymmi e Noel, onde se entram na narrativa?

Entram para justificar o magnífico achado (e o título) da reportagem: a mulher é maltratada na música popular desde os tempos de Kafunga e mesmo antes.

Se trabalhassem direito, as moças descobririam uma verdadeira linhagem de letras e músicas que associam de alguma maneira em seus versos os vocábulos “mulher” e “pancada” ou “mulher” e “porrada”, e talvez conseguissem escrever reportagem original.

Mas alguém deve ter lhes soprado aos ouvidos os nomes de Caymmi e Noel, se não se safaram só com “dad” Google.

“Longe dos bailes”, diz o texto, logo depois de citar um verso do MC João (sobre alguém que vai voltar “com a xoxota ardendo”), “o que ferve é a discussão sobre o papel da arte em disseminar o machismo, debate que explodiu nas redes sociais após o estupro de uma adolescente de 16 anos por mais de 30 homens”.

A referência sobre o “papel da arte”, arte sem aspas, serve como gancho para sentar seus MCs, Rosa e Caymmi no mesmo sofá furado e anacrônico.

Bordejam uma estrofe de Noel, do samba “Mulher Indigesta”, de 1932, e com uma pirueta mortal caem nos pés da arte de Fernando e Sorocaba.

Os versos de Noel são estes: “Mas que mulher indigesta/ Merece um tijolo na testa”; já os da dupla sertaneja dizem: “As mina pira, pira / Toma tequila / Sobe na mesa / (…) Entra no clima / Tá fácil de pegar / Pra cima!”.

Segue-se uma canção das mais desconhecidas de Caymmi, em parceria com Antônio de Almeida, que elas desenterram e que está longe de representar a obra mestra criador das “Canções Praieiras”.

À Djamila Ribeiro, feminista e subsecretária de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo, coube iluminar a discussão: “O fato de o funk ser explícito choca as pessoas, mas há músicas machistas consideradas bonitas por terem letras poetizadas. Depende muito de quem canta”.

É verdade, refleti, as paradas de sucesso atuais de fato não distinguem Wesley Safadão e MC Carol das bonitezas das canções de Rosa e Noel.

Noel e Caymmi foram, portanto, encastoados em meio do funk e do sertanejo —estrelando Valesca Popozuda (com a obra, no sentido escatológico da palavra, citada no texto: Vê se para de gracinha / Eu dou para quem quiser / Que a porra da boceta é minha”)— e filiados à “cultura do estupro” na música popular brasileira.

A Ilustrada da Folha poucas vezes foi capaz de uma proeza narrativa dessa envergadura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Emojis são mesmo uma “evolução da linguagem”?

Como o pensamento crítico, o exercício inteligente da autoironia, a percepção da linguagem poética e a aptidão para alguém entender e elaborar um raciocínio que desborde o trivial, como tudo isso pode ser compatível com a “evolução” que os emojis representariam?

emojis

Aprendo que “emojis” significam duas palavras articuladas em japonês: imagem e personagem.

Nossas vidas estão cercadas por essas figurinhas impostas pela tecnologia e incorporadas ao cotidiano como uma das maravilhas da era dos dispositivos eletrônicos.

Os emojis apareceram nos telefones celulares nos anos 1990 para facilitar a comunicação humana.

Suponho que, em um miniteclado, utilizar um menu de ícones é infinitamente mais simples que elaborar um frase inteira que faça sentido.

Se assim era no início, na pré-história de 25 anos atrás, os bichinhos ganharam vida e invadiram nossas mentes.

Numa bela amostra da celebração acrítica, acovardada e basbaque em que se converteu o jornalismo cultural no país, Sylvia Colombo, na “Folha”, tenta impor o assunto como um processo de “evolução da linguagem” — ainda que os emojis não sejam considerados “um idioma”, mas “um importante elemento de para-linguagem”.

O longo texto para os padrões atuais vai assim até os dois parágrafos finais,a encobrir o desserviço jornalístico de uma reportagem de cultura incapaz de contrapor ideias e estimular a inteligência e a vontade de saber do leitor:

“Entre intelectuais, porém, também há [e o leitor da “Ilustrada” não é apresentando a nenhum desses reaças] os que se recusam a discutir os emojis a sério, vendo nas mensagens de texto um empobrecimento da linguagem”.

“‘Só posso dizer a esses que têm preconceito com emojis que eles não estão entendendo bem como a comunicação está evoluindo’, resume Evans [o professor de linguística britânico da Universidade de Bangor, Vyvyan Evans].”

Antes disso, a matéria expõe longamente a importância das figurinhas para o mundo contemporâneo, a luta para incorporar a causa multicultural e feminista aos cardápios de bonequinhos — existem hoje mais de 800 mil tipos nas novas versões de smartphones — e algumas contendas judiciais travadas nos EUA, onde teria havido ameaças homicidas e terroristas por meio de emojis.

Sabemos, também, que “os emojis já são usados por adultos em e-mails para falar de negócios, em textos de ‘chats’ sexuais, nas artes visuais e até mesmo na literatura. Uma versão de ‘Moby Dick’, o clássico de Herman Melville, foi ‘traduzida’ para a linguagem emoji e pode ser comprada online.” (Grifo do jornal).

Que beleza! — ouço exclamar o filólogo contemporâneo Milton Leite.

Eu me pergunto o que a “evolução da linguagem” — para os idiotas de todos os tempos que creem que a história segue uma linha reta rumo ao paraíso — ou a “evolução da comunicação” com os emojis representam para as pessoas, de forma substantiva e essencial.

Em uma época de “youtubers”, em que os jovens parecem ter perdido de vez a noção de ironia, de crise da literatura adulta e do hábito de ler livros sérios, em que as personalidades se constroem sem estagiar pelas estepes, desfiladeiros e planuras do espírito que constituem os romances, será que é mesmo evolutivo um recurso com frequência limitado a si mesmo, ou seja, ao campo semântico de figurinhas móveis?

Como o pensamento crítico, o exercício inteligente da autoironia, a percepção da linguagem poética e a aptidão para alguém entender e elaborar um raciocínio que desborde o trivial, como tudo isso pode ser compatível com a “evolução” que os emojis representariam?

Uma comunicação universal fundada na para-linguagem dos emojis não estaria justamente na direção contrária, ou seja, não seria antes um embuste, uma limitação, um abastardamento da inteligência que a tecnologia impõe à cultura humana?