A vacina obrigatória do impeachment

Foto da exposição Fernando Pessoa no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

 Jurupoca_55. 22 a 28/1/2021. Ano 2.

XX – O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia, 

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que veem em tudo o que lá não está,
A memória das naus. 

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia. 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia. 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

7-3-1914

Arquivo Pessoa: O guardador de rebanhos. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

O rio da minha aldeia, música de Tom Jobim sobre poema de Fernando Pessoa em fase Alberto Caeiro — faixa A1 do LP da Som Livre A música em  Pessoa (1985), e CD da  Biscoito Fino (2002). O arranjo orquestral é de Paulo Jobim, com Tom ao piano.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Ah, que bom seria haver vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista, o antivacinista, o freguês da conspiração Q (“pedófilos satanistas tramam o domínio total do mundo”).

Talvez uma nova proeza da bioengenharia com o RNA mensageiro ajudasse.

Escancarar fatos, documentos, expor a realidade diante dessa turma é perda de tempo.

Essa franja da humanidade, conspirativa, sempre existiu, e existirá, suponho, até o advento do pós-humano, e aí será tarde demais para a ação do imunizante.

A 55ª Ju (a publicação segue no vermelho, a pedir a contribuição do leitor) põe a bailar umas notinhas sobre o tema, misturadas a goiabais e abacaxizais mas, você vai ver, também traz uma singela sugestão para que comunguemos o pão e o vinho duma canção de Zé Ramalho: Beira-mar, derivada de Apocalypse, folheto de cordel de sua autoria publicado em 1977.

Antes o caldeirão costumeiro, Janeiro trouxe esta semana ao Belo, não mais que de repente, alguma brisa e um céu azul do qual as nuvens pareciam ter sido banidas.

“O meu olhar azul como o céu/ É calmo como a água ao sol./ É assim, azul e calmo,/ Porque não interroga nem se espanta…”

Ah, que bom seria incorporar a serenidade (fingida) por Pessoa na pele do Caeiro, sentir que o rio da minha aldeia não faz pensar em nada, ou que, por pertencer a menos gente, é mais livre.

Minha aldeia é uma metrópole infectada por um vírus solerte, cujo “rio”, o Arrudas, tem emanações que permitem apenas a urubus estar ao pé dele.

Minha aldeia, minha pátria, é o mundo (“… Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa…”), ora transido e em transição.

Mas é preciso salvar (saudar com tiros de salva) e saldar a inauguration, como dizem lá, a posse de Joseph R. Biden.

(Vi a posse. Que alívio notar o decoro, a decência, a educação e a elegância restaurados no discurso público e no convívio humano. Sem esse básico alento, viver é um inferno. A propósito, me encantei com a menina poeta Amanda Gorman.)

Poetizo uma aldeia global com uma vacina segura e eficaz para sarar o cloroquinista, o terraplanista… Tolice.

Melhor tentar em mim mesmo o Emplasto Brás Cubas, criado pelo personagem de Machado para “aliviar nossa melancólica humanidade”.

Sei que é preciso forcejar, cada um como pode, neste distrito da aldeia global chamado Brasil, pela aplicação da vacina do impeachment!

Abaixo o deletério xamã das grotas milicianas!

Pela desjumentização do Brasil!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


A vacina do impeachment (1)

A democracia precisa ser imunizada contra um governo que coleciona crimes de responsabilidade. “Impeachment é para quem dá as costas para a Constituição”, ensina o ex-ministro Aires Brito.  Em entrevista à Folha ele recitou o artigo 78 da carta: “O presidente assume o compromisso de observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro…”.  Lembrou que a saúde é dever do Estado e direito de todos. “Salta aos olhos: ele promove aglomerações, não tem usado máscara, não faz distanciamento social. Respostas como “e daí?” ou “não sou coveiro” não sinalizam um caminhar na contramão da Constituição?”, indaga Aires Brito, que chancela o impeachment pelo “conjunto da obra”. A resposta é cristalina.

Projeção em prédio no centro de São Paulo. Captura/recorte de foto de Amanda Perobelli – 15.jan.21/Reuters

A vacina do impeachment (2)

Nossa sanidade precisa ser imunizada contra a loucura, a incúria, o negacionismo e a náusea permanente da razão. O governo de Sua Excrescência Jumentíssima, Caveirão.105mm, teve e tem ministros que deveriam estar recolhidos à Casa Verde (que me perdoem os humanistas da luta antimanicomial). Mas não. Os lelés estão soltinhos da Silva, como este das Relações Exteriores. Como o deixaram entrar no Instituto Rio Branco? Eu lhe receitaria, à maneira do Caveirão e seu general da Saúde, doses maciças de Haldol.  

A vacina do impeachment (3)

Ignorar a ciência, zombar da medicina e receitar, receitar, leitora amiga (como um estúpido macho decante orgulhoso de própria estupidez—como militar refugado convertido em deletério xamã das grotas milicianas), tratamentos precoces” não bastam para o impeachment? O lenga-lenga de Rodrigo Maia e da oposição é um menosprezo face a sordidez de uma realidade de desgoverno e desvario.

Sennett na fossa

Abatido com as cenas do putsch contra o Capitólio (ele se desculpa mais de uma vez com o entrevistador pelo desânimo), levando a pandemia com a mulher em Londres, Richard Sennett não se perde em bizantinices. O sociólogo diz ao Clarín que é preciso desnazificar (se refere a uma “versão mais suave do nazismo”) e destrumpificar os Estados Unidos. Sennett foi seguidamente, em longa campanha, chamado de “impatriota” por um senador republicano, apontado como prócer da conspiração da “elite cosmopolita” que teria vendido o país às corporações.

Desjumentizar o Bananão

E se vamos destrumpificar os EUA, é mister desjumentizar o Bananão (tks, Lessa).

Elas e eles góstiam

Como Dona Santinha Pureza (Nádia Carvalho), a personagem da Escolinha do Professor Raimundo abusada pelo marido que, diante da indignação do mestre, diz o bordão “eu góstio!”, os adeptos do QAnon também góstiam, conclui o perfil de uma soldada dessa seita no New York Times. Valerie Gilbert é uma nova-iorquina endinheirada educada em Harvard. Várias vezes por dia ela entra no Facebook para atualizar seu voluntariado contra a cabala mundial de pedófilos adoradores de Satanás que governa o mundo e da qual fazem parte Joe Biden, Lady Gaga e possivelmente até o leitor desta Ju. É difícil trazer essa gente para a realidade, reconhece a matéria. Mike Rothschild, um pesquisador do fenômeno, diz ao jornal que essa gente, que também pulula por aqui (como imitadores), não baba nem é vítima de gurus promotores de lavagem cerebral. A resposta é mais simples. Quem acredita em Q gosta de acreditar e de compartilhar sua crença, não vive sem isso, como um adicto não vive sem seu pico. Esfregar fatos e realidade na cara do crente é perda de tempo. Uma conspiração puxa outra num novelo eterno, por mais que, para quem insista no contrário, o Sol nasça toda manhã com o giro terrestre.

Hatoum e a dor no peito de Manaus

No artigo para O Globo  ‘É na confluência de incompetência, descaso e crueldade que reside a tragédia em Manaus‘, Milton Hatoum vê (e comenta) as cenas que apertaram o peito da humanidade civilizada com tutano e coração. Manauara, autor de uma rica ficção ambientada no Amazonas, o também professor e cronista Hatoum se atém aos problemas do Estado, castigado, não é de hoje, pela pororoca da corrupção. Lembra que mais da metade dos domicílios de Manaus não tem acesso ao saneamento básico. Não tem saneamento, mas ostenta a joia da Arena da Amazônia, dádiva do lulismo na Copa do Mundo. “Há décadas o povo amazonense é vítima de descaso, humilhação, enganação, crueldade”, registra o escritor, para encerrar: “Morrer por falta de oxigênio é ápice desse exercício de crueldade. Não deixa de ser uma tortura, que sempre soube (e sabe) usar sua lógica e sua logística.”

Contra a tirania das big techs (1)

O professor da Universidade do Texas em Austin Michael Lind ironiza o banimento de Trump do Spotify. Coitado, “não pode mais compartilhar suas listas de música!”, lamenta em Tablet. As grandes corporações da tecnologia se tornaram uma tirania fora de controle, acusa o escritor, sem compromisso com a lei e a ordem. O Google se transformou na versão século 21 das páginas amarelas; a Amazon não é submetida à mesma regulação imposta aos varejistas, como o Uber não é taxado como as companhias de táxis.  “Em teoria”, ele segue, “é fácil tirar o ‘e’ protetor das empresas de tecnologia e redefini-las como empresas de transporte e prestadoras de serviços públicos. Os velhos conceitos do direito costumeiro são flexíveis e serviriam de base a uma nova legislação, com uma exceção”.

Contra a tirania das big techs (2)

A exceção, claro, são as redes sociais. Seu modelo de negócio é protegido das regulações contra difamação e obscenidade, a que editores de livros e revistas são submetidos, no caso norte-americano. FB e Twitter estão isentos de responsabilidade editorial. Se essa proteção for retirada, muito provavelmente essas mídias se dissolveriam. Mas e daí? Justiça seria feita! Um jornal sério, aqui ou nos EUA, não publica artigos sob pseudônimo sem saber quem é o autor, mas qualquer tarado extremista se sente à vontade para “postar” o que bem entender a hora que desejar, como a fazer uso da própria latrina. Se uma minoria é massacrada depois de um chamamento de carrascos via Face, como os rohingya em Mianmar, ou se a democracia é minada a tuitadas, essas corporações dizem que o problema não é delas, ou fazem o que pode, ou, para manter as aparências, promovem uma limpeza pontual aqui e ali.

Contra a tirania das big tech (2)

Demétrio Magnoli, na Folha, alerta sobre os festejos (esta Ju também celebrou!) dos “progressistas” contra o cancelamento de Trump na internet, inclusive, como vimos, pelo Spotify. Nos EUA, os magnatas das big techs são quase todos alinhados com os democratas, ou a esquerda “liberal”. Pois deveriam, diz Michael Lind, se adaptar às mesmas regras que seguem publicações de esquerda ou centro esquerda, como as revistas Salon ou Jacobin. Que direita e esquerda tenham seus próprios meios de comunicação regulados, defende Lind. Magnoli vira outra página: “Que ninguém se engane”, anota, “no caso das plataformas globais de mídias sociais, os banimentos seletivos não derivam de padrões éticos mas de cálculos de negócio”, diz, referindo-se aos processos de monopólio que enfrentam nos EUA. O colunista parece ter lido o artigo de Lind, ao concluir sobre a necessidade de o poder público determinar a qualidade da “curadoria” da informação nas redes sociais”: “É hora de derrubar a muralha do privilégio, submetendo-os [os “plutocratas” Jack Dorsey, do Twitter, e Mark Zuckerberg, do Facebook, que Magnoli denomina “Editores Supremos”] ao mesmo universo de regras de responsabilidade que regula a imprensa. Ah, isso implodiria o modelo de negócio dos gigolôs da xenofobia e do extremismo? Que pena…”.

Contracapa, a série

Assisto a Contracapa, série paranaense, ou curitibana?, em cartaz na fajuta plataforma Looke, no fajuto Now da NET/Claro. A série mistura suspense policial com um drama sobre a vida na redação de jornal em crise, em transição terminal do imprenso para o online. Assistimos a esse filme desde o início do século. Mas ninguém antes o havia rodado no Brasil. Em meio a mais um passaralho, o jornalismo dá lugar ao entretenimento fútil caça-clique. Cada recorde de visitação online exibido em telões é aplaudido. Quando mais baixo e vulgar um conteúdo, mais clique; quando mais obscenidade e extremismo, mais clique. A ficcional Gazeta Brasileira, como toda a imprensa regional, depende de verbas públicas para sobreviver, jamais terá o “rabo preso com o leitor”, o que degrada toda redação e o ofício. Para cortar despesas só faltam regrar o consumo de água filtrada. A história é realista e se vê que quem propõe o enredo é do metiê. E quem viveu a realidade de um jornal em crise crônica se reconhece facilmente nos personagens do bom elenco, ainda que haja muito amadorismo em toda a produção. A série se perde ao tentar “humanizar” os jornalistas da Gazeta, revelando os dramas pessoais e familiares. Isso torna 70% dos episódios puro culebrone televisivo, como os hispânicos chamam o novelão. A história seria melhor contada em 5 ou 6 episódio, em vez dos 13 com 52 minutos de duração! Entre outras precariedades, a trama escancara a miséria da roteirização no Brasil. Há uma meia dúzia de escritores creditados em Contracapa. Para que tanta gente?, a gente se pergunta. O resultado são cenas arrastadas e diálogos inacreditáveis, além de atuações precárias. Estranhamente, o seriado exclui sequer insinuações de sexo ou namoro da vida dos jornalistas.

O corpo e o sangue da arte
de Zé Ramalho em Beira-mar

Superprodução (dirigida pelo cineasta Ivan Cardoso) bancada pelo cantautor: Xuxa Lopes, Zé do Caixão, Zé Ramalho, Monica Schmidt, Satã e Hélio Oiticica de parangolé em foto do LP A peleja do diabo com o dono do céu

Pinço uma faixa de um LP, um clássico popular, um ícone do fantástico na MPB, um prodígio de criação artística.

Beira-mar é uma das menos esotéricas (ou lisérgicas) canções de Zé Ramalho (Brejo da Cruz, Paraíba, 1949), fruto de um prévio livreto do autor. E uma de suas letras mais bem trabalhadas na oficina poética.

Beira-mar é um dos rubis de seu segundo disco pela CBS, A peleja do diabo contra o dono do céu, gravado em junho e lançado em setembro de 1979, apenas três anos depois de o artista baixar no Rio com uma mão na frente e outra atrás (Garoto de aluguel – Taxi boy, outra faixa do disco, tem tintas autobiográficas), e tornar-se uma exótica paixão nacional.

A gravadora botou muita grana na obra de sua estrela em ascensão, como ainda era praxe naquele finzinho de uma era de ouro.

Deu-lhe liberdade autoral para definir o repertório e compor os arranjos de base. O produtor Carlos Alberto Sion dividiu a direção de estúdio com Zé, e convocou o regente Paulo Machado para escrever os arranjos de cordas e metais.

Agora, veja você, a CBS foi amarrar na produção da capa idealizada por Zé. Mas ele não quis saber de mesquinharias. Tirou do bolso o que precisava —não era uma merreca — para embalar o álbum com o luxo que sua arte demandava e merecia. O pesquisador Marcelo Froes conta que Zé já cuidava da produção gráfica de seus LPs, inspirando-se nas cultuadas capas do Pink Floyd.  

O cineasta Ivan Cardoso dirigiu a produção que juntou, além do próprio cantautor, Zé do Caixão (José Mojica Martins) e Satã, produtor e guarda-costas do cineasta mestre do nosso Terrir, a atriz Xuxa Lopes, a cantora  Mônica Schmidt e o artista plástico Hélio Oiticica, envergando um de seus parangolés, em sessões de fotos na feira de São Cristóvão, conforme Froes, e num casarão abandonado de Santa Tereza, no Rio, segundo verbete da Enciclopédia Itaú cultural.

Beira-mar cristaliza o espírito de A peleja do diabo contra do dono do céu. O repertório alude à obra de Aldous Huxley, ao cinema de Glauber Rocha, ao folk de Bob Dylan.

Mas o que pulsa pra valer é o sangue da rítmica nordestina, e a inspiração da literatura de cordel. O verbete da Itaú aponta influências do repentista Otacílio Batista (1923) e do cantador surrealista Zé Limeira (1886-1954).

Numa das fotos da capa, o artista é tentado por uma vampira (Xuxa Lopes) e o diabólico Zé do Caixão (José Mojica Martins)

A canção é extraída do cordel Apocalypse, escrito por Zé, que seria retomado em dois discos futuros.

A estrutura da letra deriva do martelo-agalopado, modalidade de repente com versos decassílabos e acentuação na segunda, quinta, oitava e 11ª sílabas.

O resultado do arranjo é o pão que corporifica o corpo e o sangue da fusão de gêneros com o colorido instrumental. Quem o toma, ao ouvir a canção, percebe o milagre da transfiguração da música em júbilo e consolação.

Trompas e cordas emolduram violões de 12 cordas (Geraldo Azevedo) e nylon (Zé), o baixo-condutor de Novelli e a percussão com bongôs (Chacal), ganzá (Borel) e triângulo (Cátia de França).

BEIRA-MAR – Zé Ramalho

I

Eu entendo a noite como um oceano
Que banha de sombras o mundo de sol
Aurora que luta por um arrebol
De cores vibrantes e ar soberano
Um olho que mira nunca o engano
Durante o instante que vou contemplar
Além, muito além onde quero chegar
Caindo a noite me lanço no mundo
Além do limite do vale profundo
Que sempre começa na beira do mar

II
Por dentro das águas há quadros e sonhos
E coisas que sonham o mundo dos vivos
Há peixes milagrosos, insetos nocivos
Paisagens abertas, desertos medonhos
Léguas cansativas, caminhos tristonhos
Que fazem o homem se desenganar
Há peixes que lutam para se salvar
Daqueles que caçam em mar revoltoso
E outros que devoram com gênio assombroso
As vidas que caem na beira do mar

III

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço
Além do cabelo que desembaraço
Invoco as águas a vir inundando
Pessoas e coisas que vão arrastando
Do meu pensamento já podem lavar
No peixe de asas eu quero voar
Sair do oceano de tez poluída
Cantar um galope fechando a ferida
Que só cicatriza na beira do mar


Luxuosamente, Bituca

Mônica Salmaso e André Mehmari interpretam o repertório de Milton. Coisa finíssima. Mais uma vez juntos durante o reinado do Corona num show com “ingresso consciente”, fazem um espetáculo marcante, íntegro, rigoroso e galvanizante. A seleção do repertório de Milton e parceiros é diferenciada e impecável. Mais uma vez Mehmari (piano e marimba de vidro) nos encanta a cada compasso com variações harmônicas que jogam com melodias e o pathos das cações. E a Salmaso? Ora bolas, neste momento ela é nossa maior cantora. Teco Cardoso (flauta baixo e sax soprano) é convidado deste concerto luxuoso.

Pérolas aos pouquíssimos

A Blue Note, na série Lives pela arte com “ingresso consciente”, apresenta Ná Ozzetti e Dante Ozzetti. Os irmãos atiram, em uma live pandêmica, suas pérolas aos poucos, ou pouquíssimos. Não deixe de se incluir neste happy few, afinal você é leitora ou leitor desta Ju. O repertório base de Ná me remete à sofisticação do cabaré alemão dos anos 1920, ou da atual Ópera Cômica de Berlim.


Dá licença, ô do #MeToo,
mas vou falar de Woody Allen

Woody Allen: The Origins Podcast (em inglês). A apresentação do programa revela como os EUA estão cultural e politicamente encalacrados; sim, te ouço comentar: qual a novidade?, por aqui sempre estivemos. Pois é. O apresentador tem de justificar a mera escolha de Allen como entrevistado. Será preciso lembrar, sempre, que o cineasta foi desgraçado pela moralidade macarthista de esquerda do país, presente grandemente no #MeToo e outros movimentos lacradores. Mr. Allan Stewart Konigsberg foi inocentado pela Justiça da acusação, levantada pela ex-mulher, de ter abusado da própria filha, num processo limpo e cabal. Mas isso vale um peido para os caçadores de reputação que o destroçaram vivo, e tentaram se alimentar de seu gênio e da sua arte. Que sofram uma épica indigestão!  

Melodia sentimental para um amigo na pior

Jurupoca_54. 15 a 21/1/2021. Ano 2.

Lua: “Tão linda que só espalha sofrimento/ Tão cheia de pudor que anda nua”. Fotos (créditos, acima e no alto da página): Domínio público/Pxhere/Creative Commons

SONETO DO CORIFEU – Vinicius de Moraes

São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem unir-se uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
e que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Soneto do Corifeu, Vinicius de Moraes, Nova antologia poética. Org. por Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Sim, sou um sentimental, caranguejeiro, mas sou.

Buscava qualquer espécie de boia, lenitivo, depois de falar com um grande amigo entristecido, na pior.

Se dois bicudos não se beijam, dois deprimidos, ainda que ocasionais, são um risco geológico.

Isolados e distantes, nem tomar um porre juntos mais podemos, para mandar tudo às favas, ainda que haja uma espécie de tristeza refratária ao álcool.

Meu velho amigo anda de farol baixo há vários meses, o que faz dele (alguém naturalmente expansivo, até onde alguém do interior de Minas pode ser, e dado à risada e à amizade), um ser encabulado.

Nunca me falou isso, mas é desses que acham que depressão é para os fracos.

É certo que sempre foi uma rocha. Sofreu perdas horríveis e enfrenta uma condição complicada com bravura. Mas ninguém é uma rocha. Nem areia, rocha degradada, somos. Ou pergunte ao pó.

O vírus, por certo, não ajuda.

Mas e a boia de salvação? Não há.

Como sempre, quem procura pode achar alguma consolação transcendente, já que amizade é luxo contingente.

E não há outra fonte de consolação mais fiel que a música.

Logo reencontrei a Melodia sentimental de Heitor Villa-Lobos, peça da cantata A Floresta do Amazonas, letrada pela poeta e embaixatriz Dora Vasconcellos.

Villa-Lobos trabalhou na suíte depois de ver que sua música para o filme Green Mansions, de 1950 (dirigido por Mel Ferrer e estrelado por Audrey Hepburn), fora malbaratada pelo polonês Bronislaw Kaper.

Ele deu a volta por cima. A Floresta está entre as últimas obras primas que escreveu.

Melodia sentimental tem dezenas de lindas versões: orquestrais, instrumentais, líricas, populares.

A MPB coleciona registros esplêndidos de Elizeth Cardoso, em disco de 1967, Maria Bethânia, Mônica Salmaso, Zizi Possi, Paula Morelenbaum, Ney Matogrosso, Olivia Byington etc. Há 43 fonogramas registrados no site do IMMub.

Aqui, como em tantas outras peças, Villa é o mago das melodias que salvam ou por instantes reparam nossa humanidade cindida.

À música aglutinou-se a poesia de Dora Vasconcellos numa peça esférica, de lancinante profundidade melódica.

A gravação na potente voz de Elizeth — com acompanhamento sinfônico e todos os vibratos a que tínhamos direito — a de Djavan, que ouvimos na belíssima cena final de Deus é brasileiro, o bom filme de Cacá Diegues — e a de João Bosco — faixa do álbum Da licença meu senhor (1995), com um arranjo soberano de sua autoria, apenas com seu violão e os de Marco Pereira, incluindo um de oito cordas — são as minhas favoritas, entre aquelas que pude ouvir.

Mas agrego nessa eleição o álbum A floresta do Amazonas (Kuarup, 1987, remasterizado em 2020), de Jaques Morelenbaum, Wagner Tiso, João Carlos Assis Brasil, Jurim Moreira e Ney Matogrosso (a Melodia está na Suíte I faixa 11).

Aí vão, com a letra de Dora, dedicadas ao meu amigo entristecido e à nossa amizade à beira de completar meio século.

Aliás, meu velho, essa Ju é pra você. Aguente firme.

E vamos juntos!

MELODIA SENTIMENTAL

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que fulge tão bela e branca
Derramando doçura

Clara chama silente
Ardendo meu sonhar

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera

Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir seu amor é sonhar

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Lua e luar. Foto (crédito): Domínio Público/Pxhere/Creative Commons

Aberração na sala

A Presidência ocupada por Sua Excrescência Jumentíssima é uma aberração. Enquanto seu amado molde cor de burro fugido toma o segundo processo de impeachment nos EUA, nosso Congresso segue a normalizar sua cópia fajuta — e ainda mais danosa que o original. O país tem uma aberração dentro da sala, mas o pragmatismo parlamentário não a vê. Pois veremos até onde e quando.

A mensagem do meio

Pós-verdade é pré-fascismo, diz o historiador Timothy Snyder no melhor artigo que li sobre o Putsch de Washington (O abismo americano, em inglês no New York Times). Snyder lembra que não pode existir sociedade civil sem concordância sobre fatos básicos, e que a verdade se defende realmente mal sob artilharia pesada. Trump e governantes como Putin surfam numa era de decadência do jornalismo. “As redes sociais não substituem” o jornalismo, diz o acadêmico. As redes “sobrecarregam os hábitos mentais por meio dos quais buscamos estímulo e conforto emocional, o que significa perder a distinção entre o que se sente como verdadeiro e o que é realmente verdadeiro”. Como diria aquele policial de Agosto, o romance de Rubem Fonseca, aí está o busílis. Mesmo numa democracia como a norte-americana, tida e havida como a mais sólida e funcional da Terra, alguém da laia de Donald Trump consegue quase 80 milhões de votos sustentado por ficções grosseiras e pensamento mágico.

Piscadela de Barthes

A linguagem de Trump (e a de Caveirão.105mm é ainda pior) é brutal, inculta e incompreensível fora do botequim. Como seu aplicado discípulo dos trópicos,  é impiedoso ao espancar o idioma e dependente das redes sociais para falar à plebe. O professor da USP Elias Thomé Saliba comentou no Estadão A língua de Trump, livro da linguista e tradutora francesa Bérengère Viennot, uma análise minuciosa de centenas de discursos e tuítes do Espantalho Laranja. Seu vocabulário primário e raso e uma sintaxe truncada, recheada de repetições vomitórias, emojis e expletivos como “wow”, “sad”, “great” são o horror dos tradutores. As falas brucutus soam incompletas ou sem sentido para quem se educou no idioma culto. Como Caveirão.105mm, Trump rebaixou ao lupanar todos os padrões da linguagem pública, tal como, diz Saliba, o universo moral da comunicação política. Saliba imagina Roland Barthes — que comparou o discurso que abole o referente, ou contexto, ao discurso esquizofrênico, num ensaio muito anterior à internet —a nos lançar uma piscadela do túmulo.

Banido do eldorado

 “O Twitter é algo maravilhoso para mim, porque consigo transmitir a mensagem… talvez eu não estivesse aqui conversando com você como presidente se eu não tivesse uma maneira honesta de comunicar a minha mensagem”, disse Trump, em março de 2017, num raro arroubo de sinceridade. Caveirão.105mm poderia assinar embaixo, incluindo as outras redes. Trump deve ter sentido o golpe ao ser banido do Twitter. Bem, veio tarde, como o banimento do Caveirão virá tarde. As redes sociais não são a nova esfera pública da democracia, são oligopólios trilionários a viver de expansão e lucro. Enquanto não forem quebradas ou enquadradas pelo estado, muita patacoada se dirá sobre liberdade de expressão e os desatinos do debate público na democracia.

Elites e ralé

Hannah Arendt, em As origens do totalitarismo, descreve a aliança entre elite e a ralé (o refugo da burguesia), a escória social. Lembra o que vemos hoje, quando o populismo de direita deita e rola na tecnologia para galgar o poder, e a esquerda ultraprogressista atua como árbitra do galinheiro. Arendt é fabulosa. Por sinal, seu livro é obrigatório, hoje, para entendermos o que está em jogo. “O que as massas [o conjunto dos indivíduos atomizados] se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita”, ela escreve (à página 458). “Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso.” A realidade paralela do negacionismo e da pós-verdade se dá no mesmo plano. O demagogo sabe perfeitamente com quem fala.

A produtividade de “Nosso Kassio”

O mais novo ministro do STF, Kassio Nunes Marques, para sempre “Nosso Kassio”, impressiona a ralé por seu saber jurídico e relativa independência. Relativa pois, pois. A autonomia do magistrado excetua toda e qualquer interesse bolsonarista. Decoroso, escrupuloso, confiável, irrepreensível, fiel, “Nosso Kassio” tem recebido seguidas congratulações de quem o indicou e realizou seu desejo mais profundo. E mais uma vez, sua excrescência jumentíssima parabenizou seu garantista de algibeira ao ver concedida liminar liberando a pesca predatória no Rio Grande do Sul, como mostrou reportagem da Piauí.  

Fran e Marty

Fran Lebowitz é incrivelmente inteligente e engraçada. E sua nova parceria com Martin Scorsese, a série documental Faz de conta que NY é uma cidade, o que de melhor surgiu no Netflix nos últimos tempos. A arte e amizade de Scorsese servem de escada para o brilho da escritora, comediante e atriz eventual, hoje aos 70 anos. Judia, homossexual, autodidata expulsa do colégio, ex-motorista de táxi, que figura é Lebowitz! Seu tipo de humor e atitudes só podem existir numa cultura livresca como a nova-iorquina, ao menos no legado de sua era gloriosa. Os sete episódios curtos de Faz de conta… lembram muito a íntima relação com a cidade que vemos nos filmes de Woody Allen, de quem, aliás, ninguém dá mais notícia. O melhor são os comentários de Fran sobre livros, arte, cultura. Ela foi chegada de Charles Mingus, e narra passagens deliciosas sobre seu círculo jazzístico. Mingus era de uma arrogância fabulosa, ela diz, e apenas se curvava e se calava diante de Duke Ellington. Fina ironista, Lebowitz caçoa das fantasias atuais sobre bem-estar, leveza, saúde, dinheiro e vida eterna dos rapazes do Vale do Silício. Boa atriz, representa a si mesma, uma senhora elegante a andar anonimamente por ruas de Nova York, com seus movimentos captados num excepcional trabalho de câmara. Sua expressão diante de umas moças em malha puxando grandes pneus no meio do burburinho da cidade, como condenadas de um Gulag, é indescritível.

Construção cinquentona

Deus lhe pague e Construção, com arranjos sinfônicos de Rogério Duprat, são a alma do álbum lançado em novembro de 1971, mas que já se começa a celebrar. Essas duas faixas, potentes respiradouros num país então sob as botas dos generais, não roubam completamente a cena. Construção (lançado pela Philips, dirigida no Brasil por André Midani, responsável pela contratação de Chico Buarque, com Roberto Menescal na direção artística) é um disco de sólida integridade em sua pouco mais de meia hora que parece guardar muito mais tempo, um prodígio do formato LP, quando era bem explorado. Magro, o músico do MPB-4, apelido artístico de Antônio José Waghabi Filho, morto em 2012, zelou pela direção artística e arranjou algumas faixas. Ouvimos Jobim ao piano abrir energicamente Olha, Maria, ele autor da melodia letrada por Chico. Cotidiano, a segunda faixa do lado A, tornou-se algo como um épico urbano antes de Belchior. Valsinha (Chico e Vinícius de Moraes) traz uma pitada sensual às faixas propriamente líricas, com Cordão, Desalento e Acalanto, que cantei muito para ninar meu milho. Samba de Orly (com Vinicius e Toquinho) e Minha história, versão em português feita por Chico do italiano Gesù bambino, canção de Lucio Dalla e Paola Pallottino agregam outros registro ao variado clima emocional de Construção, marco temporal luminoso na história da MPB.

Bangue-bangue

O prazer de reencontrar o western. Nem é preciso rever um clássico como Matar ou morrer ou O homem que matou o facínora. Um faroeste classe c como O vale da vingança (1951), que encontro no péssimo Looke, dirigido por Richard Thorpe, com Burt Lancaster como herói, já nos dá um gosto da grandiosa dimensão desse gênero mitológico. Quem tem menos de 50 anos dificilmente entenderá a força do imaginário de um bangue-bangue. Em essência, são narrativas de excelência que resgatam a conquista destrutiva do oeste e o rastro sanguinário no caminho da civilização. A maravilha inóspita da natureza é o palco de dramas shakespearianos inesquecíveis. E o caráter masculino à prova nesse elemento selvagem, a matéria prima dos conflitos. Sua riqueza criativa é impressionante. De John Ford a Sérgio Leone, passando por Fred Zinnemann ou Sam Peckinpah, quanto deleite para um cinéfilo! O prazer de reencontrar o western é o prazer do grande cinema.

Enquanto isso, no ex-caderno…

O jornalista mais experiente da ilustrada terá 23 anos completos? Para essa geração, o que não é sucesso nas redes sociais não existe. O pensamento social é o que celebridades postam e a obediência cega à correção política e à bula da “diversidade”. A criação artística não tem espaço entre a atualização de aplicativos e horas dedicadas ao corpo e gadgets. Que na Barão de Limeira ainda acreditem que esteja aí o futuro da empresa e do jornalismo na internet, para mim, e para quem lê os melhores jornais do mundo, é um baita mistério.