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Vargas Llosa volta à Cisjordânia e ao jornalismo

Llosa

O escritor Mario Vargas Llosa, 80 anos, retomou recentemente sua veia jornalística, ao viajar à Cisjordânia para escrever sobre o problema dos territórios ocupados por Israel em 1967, há quase, portanto, 50 anos.

No próximo dia 30, o El País começa a publicar uma série com seus relatos.

Na coluna quinzenal que envia ao jornal espanhol, deste domingo, Vargas Llosa dá uma espécie de pontapé inicial nessa cobertura.

Segue o primeiro parágrafo do texto em português.

Os justos de Israel

Yehuda Shaul tem 33 anos, mas parece ter 50. Viveu e vive com tanta intensidade que devora os anos, como os maratonistas os quilômetros. Nasceu em Jerusalém, numa família muito religiosa, e é um de 10 irmãos. Quando o conheci, há 11 anos, ainda usava quipá. Era um jovem patriota, que deve ter se destacado no Exército enquanto cumpria o serviço militar, pois, ao terminar os três anos obrigatórios, o Tsahal lhe propôs fazer um curso de comando e ficou mais um ano nas fileiras, como sargento. Ao retornar à vida civil, da mesma forma que muitos jovens israelenses, viajou à Índia, para clarear as ideias. Lá refletiu e pensou que seus compatriotas ignoravam todo o mal feito pelo Exército nos territórios ocupados, e que sua obrigação moral era torná-lo público.

Continue a ler no El País Brasil.

“Quando os fatos mudam, eu mudo — e o senhor, o que faz?”

Última coletânea de ensaios de Tony Judt lançada no Brasil
mostra que o historiador representou perfeitamente o espírito da liberdade

Judt“Jamais encontrei alguém que demonstrasse um compromisso maior com os fatos do que Tony”, escreve Jennifer Homans, viúva do historiador Tony Judt (1948-2010) e autora do prefácio da coletânea de ensaios lançada recentemente no Brasil pela Editora Objetiva.

Homans, ela própria historiadora, diz que esta frase teve a função de um verdadeiro “mantra” na vida e no trabalho do marido: “Quando os fatos mudam, eu mudo — e o senhor, o que faz”.

Para o leitor acostumado a acompanhar, nos textos de Judt, o curso paciente da argumentação, e se admira com a clareza, a coerência e a honestidade intelectual que norteiam esses escritos, o “mantra” parece inteiramente realizado, se o entendermos com um valor, um fundamento para a existência.

Quando os fatos mudam reúne ensaios e alguns textos curtos, incluindo uns poucos obituários, publicados de 1995 ao ano da morte do autor, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

Estes ensaios retomam alguns de seus temas recorrentes: a necessidade de Judt3levarmos o passado em conta e, por outro lado, o perigo de esquecê-lo; a defesa da liberdade e da social-democracia europeia; a demolição dos mitos do marxismo; sua admiração por Eric Hobsbawm (reservada), Albert Camus, Raymond Aron e Leszek Kołakowski (sem reservas, nos três casos); a condenação da política israelense em relação aos assentamentos nos territórios ocupados desde 1967 e a refutação dos “apologistas pusilânimes que compõem a claque americana de Israel”; além do seu grande amor às ferrovias e estações (“catedrais da vida moderna”).

Integra esta coletânea a última palestra de Judt, apresentada apenas alguns meses antes de sua morte. Como se pode ver no vídeo da conferência, Judt não se deixou paralisar pela proximidade da morte; continuou a ler, pensar e escrever até que a doença o impedisse completamente. A ELA o pegou , ao que aparece, poucos anos depois de ele ter enfrentado um câncer.

Este livro é mais uma parte do seu legado precioso e indispensável. Nascido e educado na Capa_O peso da responsabilidade.aiInglaterra, ele se enraizou no meio acadêmico dos EUA, mas estudou e ensinou na França e no Leste Europeu. Familiarizou-se com os idiomas desses países, deixou uma grande obra ensaística e sua obra magna, “Pós-guerra: uma História da Europa desde 1945”, já recomenda pelo JS.

Penso que Judt, como historiador e intelectual, representou com grande brilho a alta tradição de educação e cosmopolitismo dos judeus europeus.

Judt1 - CopiaMas foi, também, essencialmente, um espírito da liberdade, aplicando a ele o que seu colega britânico Timothy Garton Ash diz sobre o jornalista Chistopher Hitchens e o filósofo Isiah Berlin em um ensaio recente, em que procura demostrar que os dois escritores incorporaram, cada um a seu modo, os “dois espíritos da liberdade”: bravura e tolerância.

Ash disserta sobre a gênese de uma e outra corrente na historia das ideias, que filia a Martinho Lutero e Erasmo de Roterdã. Creio que Judt se enquadrou em ambas. Foi alguém que exerceu plenamente a definição, citada por Ash, de “espírito da liberdade” feita pelo juiz e filósofo norte-americano Learned Hand, em Capa O mal ronda a terra.indddiscurso pronunciado em 1944, no qual defendia o envolvimento dos EUA na II Guerra Mundial, definição que, diga-se de passagem, jamais seria compreendida pela esquerda dogmática:

“Qual é então o espírito de liberdade? Eu não posso defini-lo; eu só posso lhes dizer de minha própria fé. O espírito da liberdade é o espírito que não é tão convicto de que está certo; o espírito da liberdade é o espírito que procura compreender as mentes de outros homens e mulheres; o espírito da liberdade é o espírito que pesa a si próprio considerando seus interesses e preconceitos”.