Um papo “transante” com Caetano Veloso, ou como não entrevistar um ídolo

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Caetano Veloso é um doce de entrevistado, eu pude ver nas vezes que conversei com ele como repórter dos jornais Hoje em Dia e O Tempo. É capaz de abordar qualquer assunto e adora uma provocação. Todo mundo sabe disso.

Todo mundo também sabe que a Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, na última década ou mais anda como a mendigar o prestígio que tivera, a erguer o chapéu para os cliques da onda homogênea das redes sociais, mas só faz afundar, dia após dia, na areia movediça da falta de caráter editorial.

O JS deteve-se em alguns pontos culminantes dessa trajetória engolfante, como a capa dedicada a fritar Noel Rosa, Caymmi e Valesca Popozuda na mesma frigideira da “cultura do estupro”. The horror.

Agora, publica com o igual estrondo uma entrevista de Caetano a Anna Virginia Balloussier, que lhe levanta a bola em todas as perguntas, como fã incapaz de propor uma perguntinha que seja que tenha cheiro de autêntico e irrevelado. Caetano corta como sabe e pode e a moça quer, inclusive no título idiota já colocado na pergunta: “Avesso à polarização simplificadora, Caetano elogia a direita transante”.

A menina Ballousier poderia ter ser esforçado para ler a coluna de Demétrio Magnoli com uma crítica precisa como bisturi de neurocirurgião às ideias de seu ídolo, e dali tirar uma questão decente com teor para capa de jornal de grande circulação. O próprio Caetano se refere ao texto de Magnoli no papo de aranha “transante” com a entrevistadora, assim como quem sorve uma água de coco na praia. Anna Virginia, com tantas letras dobradas no nome, claro, não entende nada!, e come a mosca com gosto de bombom.

 

 

A noite em que o filósofo Francis Wolff cantarolou um samba de Ismael

Amizade

O ciclo de palestras de Adauto Novaes, este ano batizado Entre Dois Mundos – 30 Anos de Experiência do Pensamento, foi aberto em Belo Horizonte na última quinta-feira (1/9), no auditório do BDMG, pelo filósofo francês Francis Wolff. Lá estava, como havia anunciado neste JS.

Wolff, grande, de nariz adunco, hirsuta cabeleira prateada, deu uma aula rica e integral sobre a amizade, epigrafada, por assim dizer, por sua própria e longeva relação amical com Novaes, celebrada mais uma vez na noite belo-horizontina. O mestre não podia encobrir de todo o cansaço com a maratona de participações neste ciclo, no Rio, em São Paulo e Salvador, desde que desembarcara de Paris três dias antes.

Adauto é um homem de trato de mineiro cultivado, por excelência. Hoje anda com cabelos cinza, longos e rareados a cobrir-lhe a calva cobreada. Sérgio Augusto honra-lhe no Estadão deste sábado.

A palestra estabeleceu o terreno do problema moral e ético para erguer o edifício conceitual da amizade, fundado por Aristóteles, e distingui-la favoravelmente da paixão e do amor.

O que mais me tocou na conferência, pronunciada no português quase perfeito do professor, habituado ao Brasil há mais de 30 anos, foi sua citação de Ismael Silva, ao dizer a letra e até cantarolar uma passagem de Antonico.

O intelectual francês, professor emérito da distinta École Normale Supérieure me tocou duplamente. Antes, pela assonância cultural, ao homenagear um dos nossos grandes compositores, ao enfeitar uma ponte intelectual entre uma citação da Ética a Nicômaco e uma alusão à grande amizade entre Montaigne e Étienne de la Boétie, por sinal referida por Chico Buarque em Porque Era Ela, Porque Era Eu. Depois, pela melodia familiar, por recordar-me o irmão, tal como fizera aqui, há não tanto tempo assim.


Correção: o texto informava erroneamente, em sua primeira versão, a canção de Chico Buarque que alude à amizade entre Michel de Montaigne e Étienne de la Boétie. Ouça aí abaixo o Ismael. 

 

Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Há um pokémon no comentário da “Folha” à seleção de música brasileira do “NYT”

FotorCreated

O JS não vai debater os critérios do The New York Times na eleição do “essencial da música brasileira para os jogos olímpicos” — podem-se ouvi-las abaixo. Discutir listas de músicas e filmes é diversão infantil de aprisionados mentais ao universo do pop.

Este jornal descobriu um pokémon na peculiar apresentação da Folha de S.Paulo à iniciativa de quatro críticos do mais importante jornal do mundo, entre eles os ótimos veteranos Jon Pareles e Ben  Ratliff, estudiosos interessados e dedicados à nossa música há décadas.

É de intrigar este comentário do redator da Folha:

“A seleção não foge do óbvio ao contemplar obras de músicos como como João Gilberto, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim, mas se atualiza ao ladeá-las com canções de Ava Rocha, Sepultura e MC Bin Laden.”

Capturei o pokémon na expressão “não fugir” anteposta ao adjetivo “óbvio” seguido pela conjunção adversativa redentora “mas”, que equivale a uma celebração da imprescindível “atualização” do rol de músicas brasileiras essenciais. Ousasse escapar da obviedade, a seleção do NYT mereceria — quem sabe? — a capa da Ilustrada (seção de cultura da Folha).

O mesmo jornal que apedreja o leitor ao investigar a “cultura do estupro” na história da MPB, considera-se perfeitamente atualizado com a “evolução” incorporada ao novíssimo jornalismo cultural e, por óbvio, também em sintonia com a “evolução” dos gêneros atuais derivados do “espírito da época”, a exemplo do repi e do funqui . O resto é reação.


Espécie em extinção, leio ‘O Globo’ no Kahlúa, com ‘Fora Temer’ e tudo

Kahlua

JORNAL E CAFÉ

Leio vários jornais online, mas nos últimos tempos me deu na telha de ir a uma banca, comprar O Globo e me sentar em um café com a calma devida à leitura. Há muito não tinha esse gosto quando não viajava.

Tenho consciência do significado histórico e afetivo que o gesto tem. Sou um dos últimos terráqueos a desfrutar do prazer de combinar café e jornal impresso. Estamos em inexorável extinção, bem sei.

Basta dizer que encontrar certos jornais em bancas de revista de Belo Horizonte tornou-se tarefa para bandeirantes.

Mas, por que O Globo, me indaguei esta manhã? A resposta veio pronta e clara. Ora, o diário dos Marinhos foi o primeiro jornal nacional a que tive acesso. Era o único que chegava a Pedro Leopoldo no final dos anos 1970.

Comprava meu exemplar na banca do Tonico, indo para a rodoviária, e o lia no ônibus da empresa Zezé, durante a hora do trajeto até BH, primeiro para aulas do cursinho, depois para as da Escola Técnica, convertida mais tarde no atual Cefet.

Aquele meu luxo, que solapava o apertado orçamento familiar gerido por minha mãe, ficou associado à negociação diária que nós dois mantínhamos. Quando pedia à Dona Hilda a prata do jornal, além do contadinho para passagem e lanche, antes de conceder o mimo ela não deixava de me cutucar: — Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego? — e ria-se.

Da época, o que trago de mais memorável das paginas de O Globo são as colunas de Artur da Távola (1936-2008).

Não tenho dúvida que devo ao jornalista algo do meu gosto pela escrita. Retenho a imagem do segundo caderno dobrado na última página com o texto da coluna, o corpo da letra, a sensação táctil de segurá-la e até o cheiro do papel-jornal, que mal havia começado a ser impresso em offset.

Por meio da prosa a um tempo dúctil, polida e afiada de Artur da Távola, li pela primeira vez algo sobre tomismo, por exemplo. Lembro-me de ele dissertar sobre o início da vida para valer, quando a juventude começa a surgir no retrovisor, e de seus perfis carinhosos e nunca vulgares de atores e atrizes. A crítica de telenovelas jamais foi a mesma depois dele e reduziu-se à fofoca e à banalidade.

CAFÉ E JORNAL

Caminho com meu jornal até o Kahlúa, um dos raros cafés de BH onde você pede um expresso e se sente à vontade para usar seu notebook, ler um livro, jornal ou tomar uma anotação.

O dono do lugar conta, creio, entre casos extremos de capitalistas que militam politicamente com a própria clientela. Há meses, que eu saiba, o freguês do Kahlúa recebe comandas amarelinhas carimbadas com o slogan “FORA TEMER”.

Free country, dizem na corte, e assino embaixo na colônia. Mas me parece claro que o bem-sucedido empresário entende bastante bem de política nacional e sabe calcular seus riscos com a freguesia. Não é homem de renegar o dinheiro, como pode parecer. Vejamos.

O que aconteceria caso ele operasse com sinal trocado e manifestasse sua consciência política, como a maioria dos brasileiros, contra roubalheira e os estragos ao país perpetrados pelo PT com seus aliados?

Aposto um bilhete para Caracas que a distribuição de comandas com uma chancela como VIVA MORO ou ADEUS, QUERIDA desfalcaria a casa para sempre da pecúnia daquela rapaziada exclusivista, pobre e humilde de coração, que só troca afagos e clicadas com seus iguais, com quem comunga a hóstia consagrada pelo corpo e sangue daquele outro judeu, quase tão célebre quanto o nazareno.

Continuo deixando no Kahlúa meus caraminguás e até acho graça dos protestos do seu dono. Dia desses, por chiste, perguntei a ele, sempre simpático e atencioso, como só os melhores negociantes sabem ser, se eu podia pendurar a despesa na conta da afastada. Ele apenas riu, enquanto me devolvia o troco.

Sobre o futebol, aqui vai uma bola fora, caro Tostão

Futebol

[Texto atualizado em 28/07, com alterações e correções. Na versão anterior, a expressão “idiotia da subjetividade”, em referência a Nelson Rodrigues, estava, idiota e obviamente, invertida.]

Para estufar este filó/ Como eu sonhei/ Só/ Se eu fosse o Rei/ Para tirar efeito igual/ Ao jogador/ Qual/ Compositor (…) — Chico Buarque – O Futebol

Não entendo patavina, mas gosto muito de futebol.

Vejo jogos, copas e campeonatos, acompanho fatos e comentários. Até cair de porre.

Então me afasto para curar a ressaca. Preciso de longa abstinência para regressar aos gramados e aos fantasmas de ontem e hoje que me assediam.

A Seleção de 1970 e a de Telê; Kafunga e Fernando Sasso no Canal 4 estão, por exemplo, em minha fantasmagoria propriamente dita; na de hoje, bola para frente.

O mal vem do mesmo, da repetição em um campo, sociologicamente falando (ver Pierre Bourdieu), incapaz de sair do raso, do decorado, do contratado, do déjà-vu, de um campo (midiático) incapaz de se reinventar.

Há ilhas de refrigério, como o texto de Tostão, inspiração deste post do JS, e a quem volto já, já, antes de chutar esta bola fora do gol ou vê-la bater na trave, o que não dá no mesmo.

Os que botam banca nas bancadas de TV são quase sempre aqueles que também escrevem nos jornais.

Sei que há diversidade, dois milhões de blogs e tal. Mas ninguém é de ferro para ver tudo isso, só o fanático.

Em geral, nossos bambambãs, da ESPN, SporTV e por aí, são superespecialistas em seu domínio, com muita pós-graduação a balizar com recursos técnicos sua opinião e análise de desempenho, e nos oferecer montes de informação inútil.

Com toda a multiplicidade desse ecossistema, neste mundo ordenado por infantes, não há mais lugar para a visão trágica ou lírica do esporte, para um Nelson Rodrigues ou para um Armando Nogueira. Não há vagas para poetas.

Hoje, os dois são folclore. Mas o que Nelson diria do bom Paulo Vinícius Coelho, o PVC (tenho pejo em chamá-lo de epítome da idiotia da objetividade, mas não resisto à tentação; respeito seu esforço incomum como jornalista) ou Armando, da saga de Lionel Messi na Copa América ou daquela funesta tarde de uma terça-feira de 2014 no Mineirão?

Diante de fatos extraordinários, não ouço ou leio, entre nossos superprofissionais, quem revele talento, ousadia, inteligência ou coragem para driblar o lugar comum.

Os astros da crônica se tornaram primas-donas e donos de seus feudos. Acompanhava com agrado muitos deles, até dizer chega!

Além dos que não são meros repetidores ou vão se aposentar tomando coragem para alcançar alguma originalidade, chega dum José Trajano, cuja empatia deixa-se borrar pela esquerdofrenia do militante; dum Juca Kfouri, cuja simpatia se esboroa no bom-mocismo equilibrista sobre o bem e o mal; da crueldade dum Mauro Cezar Pereira, que deu de perseguir o grande sujeito, craque e trabalhador da bola que é Marcelo de Oliveira.

Antes ouvia muito a Itatiaia, desde os tempos de Osvaldo “coragem para dizer a verdade” Faria (1930-2000), até expulsar da minha audiência uma rádio que levou às últimas consequências sua condição de “emissora comercial”.

Digo chega! —na reserva duma nova ressaca— toda temporada, ao infernal moto-contínuo, à logorreia, às frases e gestos e entonação indignada reiterados sobre esquema tático, compra e vendas de craque, desempenho de time e jogador, arbitragem e cartolagem.

Quase que só vejo jogo transmitido por Milton Leite, que tem a graça de não levar o futebol a ferro e a fogo e de dispensar a demagogia. Com Milton, segue o jogo e a autenticidade.

Entre os comentaristas, sou assíduo apenas de Tostão, que, no novo ofício, depois dos gramados e da medicina, se manteve como o melhor ponta de lança entre seus pares da crônica.

Tostão me parece ser o único comentarista adulto, lido e capaz de dizer que o futebol é mais que o jogo. Lê-lo é um alívio para quem não se deixa resumir à condição de torcedor.

Tostão me soa como um  raro comentarista capaz de se expressar sem se parecer um condenado ao presente. É alguém com o dom da memória e que domina o fundamento da memória para qualquer reflexão.

Filho e irmão de grandes cruzeirenses (o clube era uma razão de viver para Alfredo, irmão mais velho), guardo Tostão como a mais rica das taças.

Ao cruzar por ele em um cinema ou rua de Belo Horizonte, sem nunca importuná-lo, algo se revela, algo como aquela “fração do tempo em estado puro” (ou algo assim, cito de memória), de que fala Marcel Proust já no final de sua obra. O homem adulto revive e se revê claramente no passado que, aparentemente, havia perdido, mas que se mantinha encoberto pela percepção, nalgum recesso da alma.