O que os guias de viagem não revelam

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Como escolher um guia de viagem e tirar o melhor proveito das melhores publicações do gênero, assim como de outras fontes indispensáveis ao turista interessado em cultura — livros, jornais, internet e o que estiver à mão.  É do que trata o texto abaixo, parte do inédito Livro de Viagem — Estratégias, dicas e vivências de um turista literário e cultural


O QUE OS GUIAS DE VIAGEM DO DR. STRABO NÃO REVELAM

Os guias de viagem do Dr. Strabo vendem como pão quente na Holanda. O Guia da América do Norte e o Guia do Oeste e do Norte da Espanha contam entre dezenas de títulos publicados em centenas de edições e tiragem espetacular. Dr. Strabo é o alter ego e meio de vida do professor de “línguas mortas” Herman Mussert, tradutor dedicado dos poetas latinos Virgílio e Horácio . Do ponto de vista intelectual, Mussert e Strabo são como Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Se você é apaixonado por Lisboa, como o autor destas linhas, há de ver interesse nesta luta de egos. Acompanhe uma confissão de Mussert:

“Toda a cidade é um adeus. A borda da Europa, a última costa do primeiro mundo, é lá que o continente corroído afunda no mar, se dissolve na bruma infinita que o oceano faz lembrar, hoje. Esta cidade não pertence ao presente; aqui é mais cedo porque é mais tarde. O agora banal ainda não chegou; Lisboa é relutante. Esta deve ser a palavra. Esta cidade protela o momento da partida; é aqui que a Europa diz adeus a si mesma. Canções letárgicas, suave decadência, grande beleza. Memória, adiamento da metamorfose. Nenhuma dessas coisas entraria no Guia de viagem do Dr. Strabo. Eu mando os tolos para as tavernas de fado, para sua dose de saudade processada. Slauerhoff e Pessoa eu guardo para mim, ainda que não os mencione; guio os pobres coitados ao Mouraria e ao Brasileira, para uma xícara de café, e para o resto eu preferiria manter a boca fechada. Não direi uma palavra sobre as mudanças de alma do poeta alcoólico, para a persona líquida, multiforme que ainda percorre as ruas de Lisboa em todo o seu brilho sombrio, que se insinuou invisivelmente em tabacarias, embarcadouros, muros, cafés escuros onde Slauerhoff e ele facilmente poderiam estar juntos, sem saber.”

Jan Jacob Slauerhoff (1898-1936) é poeta e romancista holandês desconhecido no Brasil. Fernando Pessoa, o enorme poeta dos heterônimos, a quem se voltará neste livro. A passagem acima foi extraída de A Seguinte História:, novela do escritor holandês Cees Nooteboom publicada em 1993 e vencedora do Prêmio Literário Europeu. Além de buscar a “alma” de Lisboa, o texto ilustra de modo original o limite dos guias de viagem. É preciso notar que Nooteboom, que também é poeta e viajante contumaz, escreveu, ele mesmo, diversos relatos de viagem pelo mundo, inclusive um sobre a Bahia, em 1968. Seu nome está sempre entre os favoritos ao Nobel.

Antes de melhor situar o alcance dos guias — como o turista não vive sem este bom serviço —, falemos um pouco deles e de seus complementos.

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Nos fundos da Casa Visconde de Chanceleiros (Sabrosa, Portugal). Foto de Antônio Siúves

Há guias muitos bons. Obrigado à feroz concorrência no mercado de viagens. Os melhores, entre Michelin, Lonely Planet, Time Out, Baedeker, Rough Guide, Frommer’s, Geoguia, Fodor’s e tutti quanti serão os mais atualizados. Neles, você achará, por óbvio, a informação que melhor quadre com seus planos, orçamento, sua curiosidade, suas preferências e seu humor.

A viagem cultural é cultivada pela aristocracia europeia há séculos. Do chamado Grand Tour da nobreza surgiu o embrião dos guias atuais, aí para o final dos 1600. Eram narrativas com observações sobre arte, arquitetura e antiguidades, geralmente dedicadas à Itália. Os guias como os conhecemos, com informação e avaliações estreladas, são da primeira metade dos 1800. (Goethe viaja à Itália apoiado no guia de viagem do historiador e crítico de arte Johann Jacob Volkmann, editado em Leipzig, em 1770).

Um dos mais velhuscos é o alemão Baedeker, que me deu o prazer apenas em 2013, em uma edição em inglês, quando me preparava para viajar à Andaluzia. Karl Baedeker publicou o primeiro livro para excursionistas com seu nome em 1830. O poeta norte-americano e Nobel de Literatura T.S. Eliot “homenageou” o guia no poema Burbank com um Baedeker: Bleistein com um charuto, escrito em Londres, no ano de 1919. Embora se refiram a um judeu, os versos parecem ironizar o gosto burguês pela viagem. É típico do antissemita e nariz- empinado Eliot. Eis duas das estrofes, na tradução de Ivan Junqueira:

Burbank cruzou uma pequena ponte
 E escolheu um hotel de custo baixo;
Volupina, a princesa, ali chegando,
 Uniu-se a ele, e Burbank veio abaixo.

(…)

De um modo ou de outro, assim era Bleistein:
 Cotovelos e joelhos com um vago
Arco alquebrado, as mãos espalmadas,
 Um vienense semita de Chicago.

Guardo dezenas de guias, que ainda vão me servir por muito tempo no que trazem de permanente e vai se repetindo a cada reedição. No Brasil, os estoques das livrarias em geral são limitados. Quanto antes você os encomendar, ou baixar em seu Kindle, melhor, já que alguns títulos terão de vir importados.

Ao planejar meu roteiro, gosto de cruzar avaliações e impressões distintas de três ou quatro guias. Embora a maior parte desses volumes seja escrita por equipes, há sempre um colaborador principal. Ele conhece mais intimamente a cidade ou uma parte da cidade retratada. Percorreu cada bairro, ruela e beco atrás de novidades para agradar você e o patrão.

O Lonely Planet, publicado no país pela Editora Globo, tem excelentes roteiros de Paris. Meus preferidos são os das galerias, mercados e a Volta literária no Quartier Latin. Em um par de horas, avistam-se os apartamentos onde James Joyce, Ernest Hemingway, Paul Verlaine, George Orwell e outros grandes autores do século 20 viveram e produziram suas obras.

O Time Out e o Rough Guide (editado pelo Publifolha) de Lisboa são enxutos e valiosos, como o Frommer’s de Buenos Aires. Da robusta e pesada edição Lonely Planet sobre a Itália, vou aos poucos e sem piedade extraindo os cadernos regionais, conforme minha excursão pela Bota.

Comparando as avaliações do Baedeker e o português Geoguia, ambos importados, pude fazer ótimas escolhas de hotéis na Andaluzia. Uma delas foi a Casa de los Azulejos, em Córdoba, com boas instalações, simpatia, um lindo pátio com jardins e fonte, a preço módico. Avaliações seguem critérios técnicos, mas sempre há um grau de subjetividade quando se conferem pontos, ou uma, duas ou três estrelas. Os juízos do guia alemão e do português são complementares na apreciação que cada leitor possa fazer deles.

Também gosto de mapas. Guardo-os aos montes em caixas e espalhados pela casa. Vão desde mapas da Europa inteira aos pequenos planos de cidades que nos dão nos escritórios de turismo. Como disse no capítulo anterior, prefiro conjugar aplicativos no celular com tecnologias tão boas quanto a roda, como é o livro. Não rejeito tablets e um dia quem sabe até venha “vestir” uns óculos da Google e o que mais se inventar. Mas não me furto ao prazer de usar a caneta colorida para demarcar caminhadas do hotel e endereços dos guias, ou traçar roteiros em um pedaço de mapa aberto na rua ou num café.

Não vejo muita graça no Google Street View. Muito raramente abro essa ferramenta para rever um lugar saudoso, exceto quando indispensável. A visão geral que um mapa nos oferece nos diz muito mais de onde estivemos e iremos. Às vezes lembram os filmes que assistimos e em alguma cena reencontramos uma praia, um bar ou esquina familiar.

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Enquanto folho e refolho os guias, faço incursões na internet. Em geral, confiro, como fazem milhares de leitores, as indicações das reportagens 36 Hours, do The New York Times, que saem nos fins de semana. Tirei dessa abençoada série ótimas dicas sobre o que ver, onde comer e me hospedar. Divirjo de seus avaliadores por vezes, mas os bendigo com mais frequência. Com sorte, à véspera de seu embarque para Hanói ou Chicago, o jornal soltará uma matéria fresquinha sobre uma dessas cidades, ajuizando o que há de mais novo e excitante por lá. Atualizar as indicações dos guias é a melhor serventia de seções como essa.

O jornalão norte-americano mantém uma editoria de viagem (Travel) provavelmente maior que as congêneres dos grandes jornais brasileiros somadas. Além de 36 Hours, publicam-se com regularidade despachos de seus críticos de artes, comida e vinhos.  A leitura do wine writer Isaac Asimov me guiou com grande proveito na Rioja e no Triângulo de Ouro do Jerez; uma reportagem assinada por Gisela Williams, de novembro de 2007, me chamou atenção para a entrada da região do Douro no mapa mundi dos grandes vinhos. (Para fazer justiça: entre minhas fontes sobre terroir, fermentação malolática e otras cositas más figura sempre o crítico brasileiro Jorge Lucki e sua página semanal no Valor Econômico.)

Graças a outro experto do NYT, o colunista Frank Bruni —escritor e jornalista polivalente, antes mandachuva da crítica de restaurantes do jornal — consegui recompensar uma noite a mais em Lisboa, em 2012, depois de problemas com um voo para Roma [leia mais sobre o episódio nos Diários].

Também navego no El País e The Guardian. Estão entre meus jornais favoritos e praticam com grande originalidade o jornalismo cultural voltado à viagem. Um correspondente do jornal britânico me deixou à vontade nas ruas de Logronho, no norte da Espanha, com raríssimos turistas à volta, a conferir o circuito de pintxos (tapas na língua basca, ou euskera) e a concorrência entre os bares das calles Laurel e San Agustín. Valorizo, com cuidado, as indicações do blog El Viajero, do El País. Certa vez, sugeri ao jornalista responsável a correção de alguns erros em um post sobre gastronomia mineira — e fui completamente ignorado: dois anos depois, os erros continuavam na página.

Buscas no Google e nos sites dos jornais pedem método e calma. Se o primeiro nos leva antes ao interesse de seus anunciantes ou ao que — supõem seus algoritmos metidos — sejam os nossos, os últimos empacam com frequência. Procuro associar precisamente meu objeto, por exemplo: NYT+vinhos+Douro+Portugal.

Entro devagar em sites e blogs de viagem. Há muito jabá na área (jabá é jargão entre jornalistas para agrados e propinas regulares oferecidos por empresas e governos). Tal praga, que infelizmente ainda acomete o jornalismo de viagem praticado no Brasil, contamina muito da informação que se põe na rede. [No final do livro há uma relação de endereços confiáveis e outras referências.]

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O Guia de Lisboa do Dr. Strabo, como vimos, não é o livro aberto da alma de Herman Mussert.  Ao comprar um guia, pagamos por informação objetiva e útil. O turista se vale dele para sondar o terreno, fazer escolhas, se planejar. O que faz cada um de nós perceber e experimentar a viagem deste ou daquele jeito — a despeito da beleza dos lugares — está além dele. O viajante conta com o repertório que tem para filtrar ideias e sensações. Cultura e arte são referências significantes, guias internos por assim dizer.

O leitor de Marcel Proust que for a Veneza será tentado a chegar até Pádua, distante apenas 15 minutos de trem da estação Mestre. Nem que seja para dar um pulo à Cappella degli Scrovegni, também chamada Arena, e paquerar os afrescos de Giotto. Além de repassar suas lições de historiada arte, há de se recordar do narrador de Em Busca do Tempo Perdido, nesta passagem do final de A Fugitiva —penúltimo dos sete livros que compõem o romance (a tradução é de Carlos Drummond de Andrade):

“(…) Na véspera de nossa partida, quisemos chegar até Pádua, onde se acham aqueles “vícios” e aquelas “virtudes” cujas reproduções me dera Swann; depois de atravessar, com o sol a pino, o jardim da Arena, entrei na capela dos Giotto, em que a abóbada inteira e os fundos da pintura a fresco são tão azuis que é como se também o dia radioso houvesse transposto o umbral em companhia do visitante, indo por um momento colocar na frescura da sombra o seu céu límpido, apenas um pouco mais escuro porque se desembaraçou dos raios dourados da luz, como nessas pausas breves que interrompem os dias mais claros, quando, sem que se visse qualquer nuvem, e tendo o sol virado sua pálpebra por um instante para mais longe, o azul, mas doce ainda, se obscurece. (…).”

O livrão de Proust pode não ser o melhor exemplo de literatura de viagem, embora a viagem seja um tema caro ao autor. Já os livros de Nooteboom e Sebald misturam memória, relato de viagem e história. Sebald, a propósito, também visita a capela Scrovegni. Está na página 69 de Vertigem outro tipo de perspectiva das pinturas que o turista que for a Pádua pode conferir. Em vez do encantamento que os afrescos do pintor florentino inspiram a Marcel (ou a um grande pintor do século passado: “Encontrei três reproduções de Giotto em Pádua, que envio a você. Giotto é para mim o ápice dos meus desejos” — de uma carta de Henri Matisse, já perto da morte, ao amigo Pierre Bonnard), o que admira o autor alemão, incomodado pelo calor dos infernos, é “o lamento silencioso erguido havia quase sete séculos pelos anjos que pairam sobre a infinita desventura”. Ele ainda observa que “em sua dor, os próprios anjos haviam franzido de tal modo as sobrancelhas que se poderia supô-los de olhos vendados”.

O narrador de A Seguinte História: viaja de Amsterdã a Lisboa e segue então de navio até o Rio Amazonas. Quem refizer o itinerário há de ter Mussert também como uma espécie de guia, apesar dele mesmo. Poderá então casar o gozo da viagem com o da leitura:

 “Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva.”

Em Austerlitz, Sebald deixa o leitor terrificado com a descrição da Centraal Station de Antuérpia e da arquitetura da Salle des pas perdus; espantado com as observações sobre a construção da nova Biblioteca Nacional de Paris; admirado com a descrição das paisagens do País de Gales; contemplativo, ao refazer um trajeto de trem na periferia de Londres ao chegar à Liverpool Station:

“Eu mirava a paisagem plana, quase sem árvores, os enormes campos marrons (…), as hortas, os arbustos desfolhados recobertos de clematites secas que crescem nos taludes (…) a feia visão dos fundos dos prédios enfileirados junto aos quais corre a ferrovia nos subúrbios da metrópole.”

Eu pensei nesta página ao chegar a Londres, quando o Eurostar começava a perder velocidade. A memória do texto me fez sentir, de certa maneira, mais ambientado ao desembarcar em St. Pancras num início de tarde chuvoso.

Bons livros de história começam onde a visão do guia de viagem já não enxerga. Danúbio, do germanista italiano Claudio Magris, acompanha o trajeto do rio europeu da nascente, na Alemanha, à foz, entre a Romênia e a Ucrânia. Em cada tópico ou parada, ele repassa as marcas da história e da cultura que vicejaram nas cidades às margens do rio de muitos nomes: Donau, Dunaj, Duna, Dunav, Dunărea, Dunay.

Com erudição, Magris reflete no diário de viagem sobre as marcas deixadas pelas obras de Kafka, Wittgenstein, Freud, Haydn, mas também pelos atos e omissões do carrasco nazista Adolf Eichmann e do Comandante em Auschwitz Rudolf Höss. Lemos o livro como roteiros para esquetes do “teatro do século” daquela civilização intricada. Em Linz, na Áustria, ao retratar o escritor Adalbert Stifter, ele, talvez sem se dar conta, vê a si próprio:

“De 1848 a 1868, ou seja, até sua morte, Stifter olhava das suas janelas para o Danúbio, a amada paisagem austríaca que lhe parecia conter séculos de história que se tornaram natureza, impérios e tradições absorvidos pela terra como folhas e árvores pulverizadas. (…).”

O gênero também está bem representado por A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal. O escritor descreve suas viagens por Londres, Paris, Viena e Tóquio para reconstituir os passos de sua família judia. O pretexto e contar a história dos proprietários de uma coleção de miniaturas japonesas. O turista que viajar a uma das três capitais encontrará grande valor na leitura dessa obra. [Leia mais sobre o livro em Peregrinações culturais.]

Arte e cinema ampliam do mesmo jeito o horizonte do turismo cultural. O observador atento de algumas paisagens de Renoir, Monet ou Pissarro terá uma visão dupla de certos recantos do Sena, ao se distrair em Paris. “É evidente que os olhos se formem em consonância com os objetos que divisaram desde a infância”, diz Goethe, ao refletir sobre a obra de Veronese e concluir que o artista “há de ver com maior clareza e limpidez do que outros homens”.

Ainda em Paris, ao se deixar levar pelas ruas do Marais e, à porta de uma velha escola, deparar a placa alusiva ao envio de seus ex-alunos aos campos nazistas, o cinéfilo talvez tente se apoiar em uma cena de Adeus, Meninos, de Louis Malle. Quando flanar por Roma, em cada esquina vai se ver assediado — e também reconfortado — pela memória de quilômetros de fotogramas rodados naquelas ruas e praças.

Perde-se muito ao zanzar por cidades europeias sem um domínio básico de arquitetura e história da arte. É dar mole à síndrome do viajante infeliz. Para o turista pronto haverá interesses dentro e fora dos museus. Saber identificar e apreciar os artifícios das construções — de ruínas etruscas ou grego-romanas ao arrojo dos prédios de Frank Gehry ou Norman Foster, com o gótico, o renascentista, o barroco e outros estilos a permear os séculos — ajuda a se pensar a ocupação do espaço urbano. Também é uma forma de abordar o ideário dos homens em cada época e compará-lo ao nosso.

O ciclo da viagem é mais rico para o turista que se deixa conduzi pela cultura. Para quem já rodou por livros, quadros e filmes, a vista do Grande Canal de Veneza será ainda mais excitante. Do camarote VIP franqueado por Shakespeares, Canalettos e Viscontis assistirá por um instante ao desfile dos sucessos que eternizaram a Serenissima Repubblica di Venezia. Ondas desbordantes de comércio, guerra,  tragédia, arte, e invenção vão inundar seus olhos.

O interesse cultural pode sim tornar um passeio por ruas de Paris ou Roma uma experiência estética em si. Presente e passado formam uma rede inextricável de vivos e mortos que se estende como por camadas geológicas.

Como diz o escritor espanhol Antonio Muñoz Molina, escrevendo sobre o Prêmio Nobel de Literatura de 2014, “a Paris de [Patrick] Modiano, como a Dublin de Joyce é uma cidade literal e a metáfora de um estado de espírito”.  O viajante que tenha lido estes e outros autores não se prenderá às aparências. “Os aparecidos e desaparecidos povoam a literatura, e a cidade por onde se movem está igualmente feita de lugares reais e visíveis e outros que já na o existem”, diz Muñoz Molina no mesmo artigo.

Visto dos desfiladeiros das villas de Ravello, no sul da Itália, o mar Tirreno ressoa viagens de Ulisses cantadas por Homero. Estar em Paris, Berlim, Viena, Zurique ou São Petersburgo é um convite e uma oportunidade a considerar a saga marxista narrada por Edmund Wilson em Rumo à Estação Finlândia.  Cenas de filmes de Fellini, Rossellini e Scola nos assombram em Roma tanto quanto a presença desconcertante do passado imperial em cada esquina.

A memória abre portas para o turista cultural. Os mapas do Google que nos guiam tornam-se rotas mais intrigantes se as sobrepomos às cartas de portulano que carregamos em nós.

O viajante que se deixa puxar pela memória vai entender melhor o mundo em que se mete — para o bem e para o mal. Pode ser pela glória e pela honra. Pode ser pela culpa ou nódoa que se enraízam na história de um país. A Paris ou a Berlim de hoje — para dizer isso de outra forma — não serão bem conhecidas se não forem ajuizadas na relação que ambas tiveram e têm com o flagelo do Nazismo. Quem percorrer a Espanha sem uma noção das diferenças culturais entre suas regiões autônomas ou a Itália — e não levar a em conta a indisposição entre sulistas e nortenhos — também estará exposto à síndrome do viajante infeliz.

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Leia também: apresentação do livro e fragmentos dos Diários e partes dos Souvenirs: Poemas de Viagem e O Averno no Arno ou meu inferno em Florença.

Um papo “transante” com Caetano Veloso, ou como não entrevistar um ídolo

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Caetano Veloso é um doce de entrevistado, eu pude ver nas vezes que conversei com ele como repórter dos jornais Hoje em Dia e O Tempo. É capaz de abordar qualquer assunto e adora uma provocação. Todo mundo sabe disso.

Todo mundo também sabe que a Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, na última década ou mais anda como a mendigar o prestígio que tivera, a erguer o chapéu para os cliques da onda homogênea das redes sociais, mas só faz afundar, dia após dia, na areia movediça da falta de caráter editorial.

O JS deteve-se em alguns pontos culminantes dessa trajetória engolfante, como a capa dedicada a fritar Noel Rosa, Caymmi e Valesca Popozuda na mesma frigideira da “cultura do estupro”. The horror.

Agora, publica com o igual estrondo uma entrevista de Caetano a Anna Virginia Balloussier, que lhe levanta a bola em todas as perguntas, como fã incapaz de propor uma perguntinha que seja que tenha cheiro de autêntico e irrevelado. Caetano corta como sabe e pode e a moça quer, inclusive no título idiota já colocado na pergunta: “Avesso à polarização simplificadora, Caetano elogia a direita transante”.

A menina Ballousier poderia ter ser esforçado para ler a coluna de Demétrio Magnoli com uma crítica precisa como bisturi de neurocirurgião às ideias de seu ídolo, e dali tirar uma questão decente com teor para capa de jornal de grande circulação. O próprio Caetano se refere ao texto de Magnoli no papo de aranha “transante” com a entrevistadora, assim como quem sorve uma água de coco na praia. Anna Virginia, com tantas letras dobradas no nome, claro, não entende nada!, e come a mosca com gosto de bombom.

 

 

A noite em que o filósofo Francis Wolff cantarolou um samba de Ismael

Amizade

O ciclo de palestras de Adauto Novaes, este ano batizado Entre Dois Mundos – 30 Anos de Experiência do Pensamento, foi aberto em Belo Horizonte na última quinta-feira (1/9), no auditório do BDMG, pelo filósofo francês Francis Wolff. Lá estava, como havia anunciado neste JS.

Wolff, grande, de nariz adunco, hirsuta cabeleira prateada, deu uma aula rica e integral sobre a amizade, epigrafada, por assim dizer, por sua própria e longeva relação amical com Novaes, celebrada mais uma vez na noite belo-horizontina. O mestre não podia encobrir de todo o cansaço com a maratona de participações neste ciclo, no Rio, em São Paulo e Salvador, desde que desembarcara de Paris três dias antes.

Adauto é um homem de trato de mineiro cultivado, por excelência. Hoje anda com cabelos cinza, longos e rareados a cobrir-lhe a calva cobreada. Sérgio Augusto honra-lhe no Estadão deste sábado.

A palestra estabeleceu o terreno do problema moral e ético para erguer o edifício conceitual da amizade, fundado por Aristóteles, e distingui-la favoravelmente da paixão e do amor.

O que mais me tocou na conferência, pronunciada no português quase perfeito do professor, habituado ao Brasil há mais de 30 anos, foi sua citação de Ismael Silva, ao dizer a letra e até cantarolar uma passagem de Antonico.

O intelectual francês, professor emérito da distinta École Normale Supérieure me tocou duplamente. Antes, pela assonância cultural, ao homenagear um dos nossos grandes compositores, ao enfeitar uma ponte intelectual entre uma citação da Ética a Nicômaco e uma alusão à grande amizade entre Montaigne e Étienne de la Boétie, por sinal referida por Chico Buarque em Porque Era Ela, Porque Era Eu. Depois, pela melodia familiar, por recordar-me o irmão, tal como fizera aqui, há não tanto tempo assim.


Correção: o texto informava erroneamente, em sua primeira versão, a canção de Chico Buarque que alude à amizade entre Michel de Montaigne e Étienne de la Boétie. Ouça aí abaixo o Ismael. 

 

Sigourney, Siggy ou, para um íntimo, Sigo, estrela guia de um flâneur sideral 

Cortesia Festival de San Sebastián

Foto: Cortesia Festival de San Sebastián

 

Nasceu Susan Alexandra Weaver. Na escola a tratavam por Suzy. Detestava. Cedo quis trocar o nome de pia e achou o novo numa passagem de O Grande Gatsby, o belo romance de Francis Scott Fitzgerald. Da altura de seus 11 anos, rebatizou-se Sigourney. Mas, que fazer?, a gente próxima logo o encurtaria para Siggy. Siggy? De jeito maneira.

A um único íntimo ela tem permitido e apreciado atender pelo breve e firme Sigo, seja na Terra, seja nos céus. É uma graça com quem, entrado em anos, não a perdeu de vista desde o primeiro filme em que viveu um papel principal, aliás, desde a última sequência dessa fita.

Era agosto de 1979. Ele, o íntimo, tinha 17 anos e a boca a salivar mais que a do Oitavo Passageiro da história de Ridley Scott, quando seus olhos cobriram a esguia subtenente Ripley, 1,82 m, apenas de calcinha e miniblusa, no round final da peleja contra a horrenda criatura que a esperava, solerte, na pequena nave descolada da Nostromo, depois que programara a autodestruição do cargueiro. Pobre Ripley, seus pesadelos na estreia da série Alien durariam outros três longas-metragens. E 2017 lhe reserva uma nova sessão no inferno.

Durante esses anos todos, Sigo foi promovida a capitã e almirante de suas espaçonaves. Aventuraram-se em missões intergalácticas que prosseguiram amenas como a memória de um idílio adolescente, sem a sombra bisonha da criatura de várias bocas e desconforto dos cargueiros siderais.

Em outro universo, na clausura do meu gabinete, não me dou a essas liberdades com Sigourney Weaver.  Aliás, temos em comum apenas nossos casamentos duradouros; o dela vai pelos 31 ano; o meu por quase isso.

Mas também tenho sido seu fã, fiel a ponto de prestigiar seus filmes medianos como Caça-Fantasmas (1984), A Montanha dos Gorilas (1988) ou Avatar (2009), sem desprezar, retrospectivamente, sua curtíssima aparição em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), de Woody Allen, e lamentar a descontinuidade da série Political Animals.

Há duas ou três semanas, Sigo almoçava em Barcelona com um jornalista do  El País. Aguardava a estreia próxima do seu novo filme, Un Monstruo Viene a Verme (Um monstro vem me ver), do diretor espanhol Antonio Bayona.  A produção será apresentada agora em setembro no Festival de Cinema de San Sebastián, onde receberá o Premio Donostia como reconhecimento pela carreira.

A Sigourney que chega aos 67 é a estrela cuja luz apaga legiões inteiras de adolescentes (hoje, de todas as idades) com quem divida um cenário. Beleza, talento, vitalidade e inteligência se harmonizam na expressão de seu rosto e do sorriso sedutor.

“É inteligente, culta, irônica e possuí uma capacidade de confrontar os argumentos de forma completamente aberta diante do discurso de seu interlocutor. É difícil encontrar algum rastro do superego de estrela e, sem o pretender, ela faz com que você volte para casa acreditando que ela se manteve preocupada com uma questão intrínseca de sua vida”, diz a matéria do El País.

Sigo, estrela guia de um flâneur sideral, ou Sigourney Weaver, flâmula de um miserável cinéfilo cinquentão, é uma só delícia e um só prazer inalienáveis, que nenhum alienígena pode empatar, ainda que poucos terráqueos possam entender isso.

Sigo

 

 

 

 

 

Há um pokémon no comentário da “Folha” à seleção de música brasileira do “NYT”

FotorCreated

O JS não vai debater os critérios do The New York Times na eleição do “essencial da música brasileira para os jogos olímpicos” — podem-se ouvi-las abaixo. Discutir listas de músicas e filmes é diversão infantil de aprisionados mentais ao universo do pop.

Este jornal descobriu um pokémon na peculiar apresentação da Folha de S.Paulo à iniciativa de quatro críticos do mais importante jornal do mundo, entre eles os ótimos veteranos Jon Pareles e Ben  Ratliff, estudiosos interessados e dedicados à nossa música há décadas.

É de intrigar este comentário do redator da Folha:

“A seleção não foge do óbvio ao contemplar obras de músicos como como João Gilberto, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim, mas se atualiza ao ladeá-las com canções de Ava Rocha, Sepultura e MC Bin Laden.”

Capturei o pokémon na expressão “não fugir” anteposta ao adjetivo “óbvio” seguido pela conjunção adversativa redentora “mas”, que equivale a uma celebração da imprescindível “atualização” do rol de músicas brasileiras essenciais. Ousasse escapar da obviedade, a seleção do NYT mereceria — quem sabe? — a capa da Ilustrada (seção de cultura da Folha).

O mesmo jornal que apedreja o leitor ao investigar a “cultura do estupro” na história da MPB, considera-se perfeitamente atualizado com a “evolução” incorporada ao novíssimo jornalismo cultural e, por óbvio, também em sintonia com a “evolução” dos gêneros atuais derivados do “espírito da época”, a exemplo do repi e do funqui . O resto é reação.


Espécie em extinção, leio ‘O Globo’ no Kahlúa, com ‘Fora Temer’ e tudo

Kahlua

JORNAL E CAFÉ

Leio vários jornais online, mas nos últimos tempos me deu na telha de ir a uma banca, comprar O Globo e me sentar em um café com a calma devida à leitura. Há muito não tinha esse gosto quando não viajava.

Tenho consciência do significado histórico e afetivo que o gesto tem. Sou um dos últimos terráqueos a desfrutar do prazer de combinar café e jornal impresso. Estamos em inexorável extinção, bem sei.

Basta dizer que encontrar certos jornais em bancas de revista de Belo Horizonte tornou-se tarefa para bandeirantes.

Mas, por que O Globo, me indaguei esta manhã? A resposta veio pronta e clara. Ora, o diário dos Marinhos foi o primeiro jornal nacional a que tive acesso. Era o único que chegava a Pedro Leopoldo no final dos anos 1970.

Comprava meu exemplar na banca do Tonico, indo para a rodoviária, e o lia no ônibus da empresa Zezé, durante a hora do trajeto até BH, primeiro para aulas do cursinho, depois para as da Escola Técnica, convertida mais tarde no atual Cefet.

Aquele meu luxo, que solapava o apertado orçamento familiar gerido por minha mãe, ficou associado à negociação diária que nós dois mantínhamos. Quando pedia à Dona Hilda a prata do jornal, além do contadinho para passagem e lanche, antes de conceder o mimo ela não deixava de me cutucar: — Por que não lê o de ontem mesmo, meu nego? — e ria-se.

Da época, o que trago de mais memorável das paginas de O Globo são as colunas de Artur da Távola (1936-2008).

Não tenho dúvida que devo ao jornalista algo do meu gosto pela escrita. Retenho a imagem do segundo caderno dobrado na última página com o texto da coluna, o corpo da letra, a sensação táctil de segurá-la e até o cheiro do papel-jornal, que mal havia começado a ser impresso em offset.

Por meio da prosa a um tempo dúctil, polida e afiada de Artur da Távola, li pela primeira vez algo sobre tomismo, por exemplo. Lembro-me de ele dissertar sobre o início da vida para valer, quando a juventude começa a surgir no retrovisor, e de seus perfis carinhosos e nunca vulgares de atores e atrizes. A crítica de telenovelas jamais foi a mesma depois dele e reduziu-se à fofoca e à banalidade.

CAFÉ E JORNAL

Caminho com meu jornal até o Kahlúa, um dos raros cafés de BH onde você pede um expresso e se sente à vontade para usar seu notebook, ler um livro, jornal ou tomar uma anotação.

O dono do lugar conta, creio, entre casos extremos de capitalistas que militam politicamente com a própria clientela. Há meses, que eu saiba, o freguês do Kahlúa recebe comandas amarelinhas carimbadas com o slogan “FORA TEMER”.

Free country, dizem na corte, e assino embaixo na colônia. Mas me parece claro que o bem-sucedido empresário entende bastante bem de política nacional e sabe calcular seus riscos com a freguesia. Não é homem de renegar o dinheiro, como pode parecer. Vejamos.

O que aconteceria caso ele operasse com sinal trocado e manifestasse sua consciência política, como a maioria dos brasileiros, contra roubalheira e os estragos ao país perpetrados pelo PT com seus aliados?

Aposto um bilhete para Caracas que a distribuição de comandas com uma chancela como VIVA MORO ou ADEUS, QUERIDA desfalcaria a casa para sempre da pecúnia daquela rapaziada exclusivista, pobre e humilde de coração, que só troca afagos e clicadas com seus iguais, com quem comunga a hóstia consagrada pelo corpo e sangue daquele outro judeu, quase tão célebre quanto o nazareno.

Continuo deixando no Kahlúa meus caraminguás e até acho graça dos protestos do seu dono. Dia desses, por chiste, perguntei a ele, sempre simpático e atencioso, como só os melhores negociantes sabem ser, se eu podia pendurar a despesa na conta da afastada. Ele apenas riu, enquanto me devolvia o troco.