Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2

Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal   [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando Brandt e Marcio Borges]

E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês   [A palo seco, Belchior]

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo?

MEMÓRIAS QUASE PÓSTUMAS — Não sou defunto autor, como o Brás Cubas, ainda que, óbvio, Machado siga muito mais vivo que eu. Mas estas anotações não deixam de ser memórias mais ou menos póstumas, ou quase póstumas, de um jornalista tecnicamente morto, na afiada expressão de Paulo Francis

MORTE WAGNERIANA — Pode-se dizer que o Francis tecnicamente morto não aguentaria cinco minutos em 2020, e o Corona seria o menor dos problemas. Sua morte precoce, em 1997, teria, quem sabe, sido obra da graça, decerto de algum dos deuses que povoam as óperas de Wagner, que ele tanto amava. Francis já estaria frito, cancelado e sepultado pela censura politicamente correta, pela cafonice e pela imposição final do gosto rebaixado pelas massas.

EFEITOS COLATERAIS — O colapso da cultura letrada, tema caro ao filósofo alemão Peter Sloterdijk em Las epidemias políticas (edição hispânica) foi, por assim dizer, parasitado pelos populismos no mundo digital. Os estragos na política são mais visíveis. O Brexit, Trump e Caveirão são frutos desse contínuo. A epidemias de ignorância, estupidez e arrogância são seus corolários, e vieram para ficar, mas a grande euforia com essa degradação parece renovar suas energias em moto-contínuo.

DESEJO DE INCOMPETÊNCIA — “Ou não é o populismo a nova forma do cinismo, aquela que expressa o ‘desejo generalizado de incompetência no poder’ — pergunta a cientista social argentina Margarita Martínez no Clarim.com — ou seja, agrega a pesquisadora, ao comentar o livro de Sloterdijk, “a possibilidade mental de que qualquer um de nós alcance a possibilidade de decisão coletiva?”

POESIA E NEUROLOGIA — Memórias quase póstumas jamais terão o brilho da verdade que ostentam as memórias de um defunto autor. E nem se pode dizer que toda memória seja póstumas, já que, vivos, refazemos e adaptamos o passado sem parar, e isso não é poesia, é neurologia.

AI QUE PREGUIÇA — Quase tudo que é novo e encanta meninos e meninas de hoje, ou seja, jovens à beira dos 40 anos — hábitos, moral, ideias, ideologia, diversão, tecnologia, gadgets — me mata de preguiça. Sou o Grande Otelo aí. Sou Macunaíma.

UMA TEORIA DA RELATIVIDADE — A vida de quem tem mais de 50 anos e não enfrentou um lifting radical para namorar nos aplicativos, ou faz isso no sentido figurado, é uma vida relativa, mas ao menos não alimenta a fantasia de passar o bico no tempo, o que é viver menos ainda.

SINCERIDADE, SIM, MAS DEVAGAR — “A franqueza é a primeira virtude de um defunto, diz o finado narrador das Memórias Póstumas. Já as memórias quase póstumas de certos escribas não podem, por certo, alcançar plenamente tal virtude, ou ele seria um suicida, apenas a persegue, isto sim.

VELHARIAS — Afinal o que é o colapso da cultura letrada? Costumes como a leitura de grandes livros e a conversação educada entraram, e não de agora, em franca obsolescência. Ou experimente compartilhar a alegria de ler ou reler Grande sertão: veredas com amigos que não descuidam do celular por cinco minutos.

FORA DE ÓRBITA — O que não viraliza está fora do radar da vida coletiva, que é ególatra por excelência, helahoho! helahoho!

IMPÉRIO DO PORNÔ — Buscam-se as sensações, na política e no debate público virtual, como quem se apega à pornografia para se autossatisfazer, sem muito trabalho, instantaneamente.

O TEMPO QUE DILACERA — “Quem não conhece o tédio, encontra-se ainda na infância do mundo,” — reflete Cioran no Breviário da decomposição — “quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio… porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta — ou inventa — a vida…”.

QUE PASSEM OS DIAS… — Cioran fala do “vazio do coração ante o vazio do tempo…”. Prefiro a poesia do Pessoa, aqui em fase Álvaro de Campos, para quem “ser vadio e pedinte” é “ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem.”

“MONSTRO DELICADO” — O spleen dos ingleses, que acreditavam que a melancolia era destilada no baço, o ennui dos poetas franceses — o horror das mentes criativas do século 19, o velho tédio. O tédio fora o “mal do século”, de mãos dadas com a tísica, é certo. “O que é o corvo de Edgar Poe senão outra encarnação do monstro baudelairiano?”, indagava Antonio Callado num texto sobre o suicídio de Kurt Cobain, estrela do Nirvana, aos 27 anos. O “monstro delicado” de Charles Baudelaire é descrito no poema que abre As flores do mal, dedicado ao leitor. Repito um trecho na Jurupoca, um pouco estendido desta vez:

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, 
Em nosso crânio um povo de demônios cresce, 
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, 
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada 
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos, 
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, 
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo! 
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo; 

É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção, 
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Extrato de Ao leitor, abertura de As flores do mal, Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2015.

O MONSTRO POR AÍ — Baudelaire tinha razão, sabemos o que é o tédio, mas fingimos que não sabemos. Callado indagava, em 1994, se o monstro havia sido derrotado. Os franceses não usavam mais “ennui” no antigo sentido baudelairiano, ele diz, e os ingleses há muito haviam deixado de atribuir o spleen a uma secreção visceral. Mas diante da morte Cobain, ponderava o autor de Quarup, era o momento de reconhecer que o monstro havia mudado de nome, trocara a doença que outrora disseminava e as drogas que ministrava, mas continuava vivo e feroz.

SAI HAXIXE ENTRA PROZAC — Em 1994, Callado mal podia intuir o debate sobre o monstro que ocorreria nas décadas seguintes, e o protagonismo da psiquiatria sobre a variegada psicanálise. Já havia certa festa em torno do Prozac, é verdade. O haxixe, o absinto, a cocaína, verdadeiros remédios no século 19, para os criativos, há muito não serviam. Uma revolução estava em curso desde meados do século passado. A nova farmacopeia, ansiolíticos e reguladores do humor, ganhava os rótulos de potências farmacêuticas e passava a ser aviada em formulários médicos de cor azul. Logo o azul?

O MONSTRO SEGUE EM CAMPO — Mas o monstro está por aí. O antideprê salva vidas. Também anestesia vontades e esteriliza a criação. “Há anos que não me emociono com nada”, dizia Cobain na sua carta de despedida.

ABRAÇAÇO NO PLANALTO-CENTRÃO

O procurador Aras e o advogado Kakay, desperdiçado astro de filmes de terror, foram algumas das excelências prestigiadas no rega-bofe do ministro Toffoli em Brasília, no último sábado (02), oferecido para saudar (e soldar) o mais novo indicado ao STF — indicação tramada no breu das tocas pelo advogado Frederick Wassef e o filho senador filho do !Caveirão.105mm!. “O almoço, que em qualquer país civilizado provocaria escândalo, começou às 14 horas e foi até a noite, com futebol e pizza”, anotou Merval Pereira. “A fauna brasiliense presente ia de advogados que atuam no Supremo, políticos de vários matizes, presidente do TCU e, por último, mas não menos importante, o presidente da República em pessoa, que está sendo investigado pelo STF”, comentou o colunista de O Globo. A festa deu as bênçãos (e a solda) de Brasília — esta puta velha niemeyeriana do Planalto-Centrão — ao  desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Kassio Nunes. Entrou para os anais e, agregaria Odorico Paraguaçu, para os menstruais da República o abraço de Dias Toffoli, o jurista que sabia Javanês, em ¡Caveirão.105mm!. Só faltaram se beijar na boca, à moda russa, como Brejnev e Erich Honecker em 1979. No ajantarado sagrou-se a República da Tubaína, que ora se apodera da vetusta rameira supracitada.

Fraternos amigos de infância no Planalto-Centrão. Reprodução CNN/O Globo

UMA SUADEIRA EM ZUCKERBERG
OU ALÉM DO DILEMA DAS REDES

Kara Swisher, editora executiva do Recode Media, do site Vox, dá uma suadeira literal em Mark Zuckerberg, durante uma entrevista. A cena é das mais emulsificantes em The Facebook Dilemma, documentário em duas partes do canal de televisão pública norte-americano PBS, lançado outubro de 2018. Pelas tantas, Zuck pretexta estar resfriado para tirar o casaco empapado. Temos a impressão, e Swisher sugere isso, de que o eterno nerd angelical fora flagrado pela mãe no auge uma travessura. Resultado de um ano de trabalho, a produção tem alcance maior e mais foco que O Dilema das redes, e não precisou recorrer à dramatização para oferecer um quê de emoção extra. A decupagem dos fatos imprime o ritmo da narrativa. As entrevistas com representantes da rede social e ex-mandachuvas das Big Tec são conduzidas por jornalistas pra lá de tarimbados. Genocídio, manipulação eleitoral e campanhas massivas de notícias fraudulentas contra adversários políticos ou inimigos, perpetrados por meio da plataforma, estão bem documentados e analisados. “Conectar o mundo”, o mantra de Zuckerberg, soa mais falacioso e ridículo a cada nova papagaiada, à medida que se expõe a conivência do Facebook com um nefasto legado de crimes. Confrontada por documentos e provas, a rede alega que nada pode fazer além do que já faz, ou seja, um inócuo monitoramento de ilicitudes. O documentário mostra a explosiva divisão social no Egito, na ressaca da “Primavera Árabe”, e as manobras de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra opositores. Detalha a perseguição à minoria islâmica rohingya, em Mianmar, por extremistas da maioria budista. E ainda se detém na fábrica russa de fake news que opera em São Petersburgo, usada por Putin para enfraquecer a resistência ucraniana, e no escândalo da empresa britânica Cambridge Analytica e a interferência russa nas eleições norte-americanas. Não tiveram tempo de incluir no roteiro o Brasil que elegia ¡Caveirão.105 mm!. Tudo isso já é história contemporânea, e quase metade do planeta segue fascinada, conectada ao Face, ajudando a realizar o sonho de Zuckerberg de cedo ou tarde ligar todos os habitantes da Terra à plataforma. Afinal, afora os trilhões, ele se acha um demiurgo, cuja criação está acima de todos os males que venha causar à humanidade.

NO CADERNO DE EX-CULTURA
DE O GLOBO É CHOPRA NO MEL

O Globo extinguiu há tempos o suplemento Prosa & Verso. De quebra, os Marinho sepultaram o jornalismo cultural. O jornal dobrou-se à realidade do caça-clique, e com isso se tornou ainda mais irrelevante, à parte ainda manter competentes editorias de política e opinião. Na seção online chamada, como pode, e como grande boa vontade, de “Cultura”, destila-se o suprassumo do entretenimento rasteiro. Sábado passado (2), dia em que circulava o Prosa & Verso, a página destacava a matéria recortada acima. Com o guru de Lady Gaga, soubemos, estaríamos todos salvos da polarização. Atenção chacretes de Olavo de Carvalho, ditas olavates; acorde, miliciano constrangido (@!#%) do ¡Caveirão.105 mm!; olha aí você, pseudo-neo-estalinista ou quase lá, mire-se no exemplo da papisa do pop,socos, ainda que simbólicos, com o adversário. Chopra é a solução. Contra a polarização, é Chopra no mel.

TRUMP BATENDO UM BOLÃO
(OU QUE VEXAME, CORONA!)

Mr. President Donald Trump, conhecido como Agente Laranja e ou Topete Atômico, pegou o Corona e logo saiu do hospital batendo um bolão. Eta medicina da moléstia! De volta à Casa Branca, arrancou sua máscara como Wild Bill Hickok sacava o Colt em Dakota. “Trump retorna à Casa Branca minimizando o vírus que o hospitalizou”, manchetava o Washington Post na terça-feira. No Twitter, o cowboy de araque dava uma banana simbólica para o vírus, e menoscabava a pobre microcriatura também num post retirado pelo Facebook. O Corona só mata os fracos, os derrotados oprimidos, sugeria, não importam quantos sejam — e já passavam dos 220 mil no país, ou mais de quatro Vietnãs (baixas norte-americanas). “É possível que Trump emerja de sua batalha contra a Covid-19 com um novo respeito pela enfermidade”, especulava o jornalista e escritor León Krauze na mexicana Letras Libres, logo após a notícia da internação. Coitado. No título do artigo, “No final, o vírus riu por último”, outra barrigada opiniática de Krauze. Quem saiu humilhado do embate foi o Corona; 7 x 1 para Topete Atômico. Que vexame. 

ECO SABIA DAS COISAS

Políticos, governadores e legiões de especialistas, desde o Twitter e o Facebook, como se esperava, prescreveram hidroxicloroquina a rodo para salvar Topete Atômico. Nem sonhava essa malta com as mezinhas hi-tech e milagrosas que os doutores do hospital militar de Washington escondiam da plebe. “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade” — ponderou Umberto Eco, ainda em 2005, não custa lembrar — “Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

CORVOS SÃO MAIS INTELIGENTES
QUE ESTE JURUPOCO: “ERRAMOS”

Diferentemente do que sugeriu a nota da Ju passada, redigida por este pascácio, a descoberta sobre a inteligência superior dos corvídeos, cujos cérebros possuem alguma forma de autorrepresentação, não deve nada à ornitologia. A pesquisa publicada na revista Science, esclareceu na Folha a doutora Suzana Herculano-Houzel, é de um neurocientista, seu colega, o alemão Andreas Nieder, da Universidade de Tübingen.

DEUS, ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

“A estranha formulação ‘Deus é fiel’, tão brasileira, invertendo a lógica que pede fidelidade ao crente, introduz o negacionismo no próprio fundamento da fé”, falou e disse Bernardo Carvalho. “Deus deixa de ser representante da vida e da morte, para corresponder, como um animal de estimação, às expectativas do dono.” 

INTERVALO MUSICAL

BEBADOSAMBA com PAULINHO DA VIOLA, do disco de 1996, o último de inéditas do artista. Embora haja a promessa de um álbum com novidades na bica, como ele anunciou no Valor Econômico, pode-se dizer que Bebadosamba — trabalho de criação tão magistral e depurada, e de arte tão elevada — estabeleceu um padrão difícil de transpor, o que explicaria a longa seca. Se bem que Paulinho da Viola não precisa acrescentar um ré à sua discografia, um dos capítulos mais ricos de nossa história musical e cultural.

Premiadíssimo, eleito “disco da década”, nada é demais para dar Bebadosamba o lugar que o disco merece. O CD é todo ele pura excelência. Já a faixa comentada neste intervalo é um poema sobre o samba e também uma espécie de oração — rezada no comovente Chamamento, na segunda parte — aos grandes mestres e criadores da nossa música. Quem tenha um mínimo de juízo, de ouvido e gosto musical, reza junto, e, se não for de sambar, que se ajoelhe.

Bebadosamba ademais é uma aula sobre a história do gênero, na letra, no canto e no arranjo. Paulinho define seu “choro” [de verter lágrimas], na introdução recitada, como “chula” [forma originária do samba de roda surgida no Recôncavo Baiano] “quase raiada” [chula raiada, samba raiado ou partido-alto, um dos primeiros estilos do gênero]” e com essa expressão remete aos primeiros batuques, aos primeiros movimentos do ritmo de matriz africana, desde os terreiros, desde o Recôncavo, desde os saraus de Tia Ciata no Rio de Janeiro, no início do século passado.

A propósito, o referido Boca, com que nosso cantautor dialoga no samba-falado da primeira parte, é um “personagem dos antigos carnavais cariocas, que, no fim do cortejo, encadeava sambas de maneira contínua, ininterrupta, conduzido pelo fluxo da memória”, como explica o professor da USP Zebba Dal Farra neste artigo (PDF). É este Boca-rapsodo que transparece em Bebadosamba, quando nosso vate da Viola alude a “Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo,/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra.”

O arranjo e o cavaco são de Paulinho, e, à parte o piano refinado de Cristóvão Bastos, a instrumentação é a mais essencial ao ritmo, a começar do prato e faca, que apontam para o Recôncavo, onde essa história teve um início, além de ganzá, agogô, pandeiro e tamborim.

Pode-se dizer que Bebadosamba é um “samba essencial”. Repare no lindo violão de César Faria, pai do artista, repare na baixaria que abre o canto, depois da recitação, levada apenas com o fundo de um batuque que ecoa a gênese de todas as umbigadas e batucadas.

BEBADOSAMBA, Paulinho da Viola

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
E eu eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram

Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente por questão de estilo
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado

Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra.

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

Boca negra e rosa
Debochada e torta
Riso de cabrocha
Generosa
Beijo de paixão

Coração partido
Verso de improviso
Beba do martírio
Desta vida
Pelo coração

BEBADACHAMA (chamamento)

Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama,
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama
Ismael, Noel e Sinhô
Chama Pixinguinha, chama,
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô
Chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho
Chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal
Chama, chama, chama
Buci, Raul e Arnô Canegal
Chama por mestre Marçal
Silas, Osório e Aniceto
Chama mano Décio 
Chama meu compadre Mauro Duarte
Jorge Mexeu e Geraldo Babão
Chama Alvaiade, Manacéa
E Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

ACENDO UMA VELA E BRINDO
 À MEMÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELO

Zuza Homem de Mello morreu no domingo (4), em casa, de infarto, durante o sono. Contava 87 anos e acabara de concluir seu próximo livro, uma biografia de João Gilberto. É preciso dizer que a música brasileira e o jazz perderam uma de suas mais altas referências. Era escritor musicólogo, crítico, produtor, divulgador, entra tantas atividades que exerceu na extensa carreira. Sua elegância, generosidade e humor foram bem destacados pelos obituários. A rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, compilou os 157 episódios do Playlist do Zuza, programa só interrompido pela pandemia. Arthur Dapieve e Reinaldo Figueiredo, apresentadores da casa, falam do colega. Se você não sabe quem é o personagem ou quer se aprofundar, assista ao documentário Zuza Homem de Jazz, produzido pelo Canal Curta. É um ótimo retrato. Fui e sou freguês da educação, da arte e do conhecimento de Zuza, e guardarei minha gratidão por sua nobreza com muito carinho. A SescTV publicou o programa Todas as Notas: Zuza Homem de Mello, onde Zuza comenta gravações instrumentais brasileiras.

Em podcast na CBN, João Marcelo Boscoli fala do peso de Zuza na cena musical paulistana.

O amigo Wilton Marsalis, trompetista, compositor e diretor artísticos do Lincoln Center, em Nova York, o homenageou em postagem numa rede social. “Ele foi justificadamente o mais respeitado jornalista e musicólogo brasileiro especializado em Música Brasileira e Jazz. Ele era um homem de espírito e graça incomuns, de alma e de engajamento com as possibilidades humanas através da arte da música. A curiosidade de Zuza transcendeu todas as fronteiras. Ele era a própria excelência”, escreveu Marsalis, na tradução do Estadão.

SÓ ELLA

Quando toco no assunto, e faço isso amiúde na Ju, do papel e importância da grande crítica, e da falta que ela nos faz, depois de sumir, ao menos em substância, dos jornais e revistas brasileiros, falo da capacidade do crítico de nos aproximar do seu objeto, intimamente, de nos ensinar a ler melhor um romance ou aproveitar melhor a audição de um disco, além de orientar nossa seleção artística e cultural. É uma função essencial em qualquer “cultura letrada”, e o que faz Giovanni Russonello, do New York Times, em texto muito bem pinçado e traduzido pelo Estadão, sobre gravações inéditas de Ella Fitzgerald lançadas agora pelo selo Verve: Mack the Knife: Ella in Berlin e Ella: The Lost Berlin Tapes. “Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção”, observa Russonelo. “Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável — você fica desarmado”, acrescenta. Os vídeos, legendados, que ilustram esta nota têm animação criada pela cantora Cécile McLorin Salvant. Agora, se você se interessou pelo assunto, ouça o especial que a Rádio Batuta estreou no centenário da cantora, em 2017, produzido e apresentado por quem?, Zuza Homem de Melo, claro. A seleção musical é de um dos maiores conhecedores do gênero no Brasil, que nos anos 1950, durante o curso de musicologia na escola Julliard, em Nova York, pôde vê-la de perto, no auge artístico, e logo ser seu intérprete no Brasil.


BACK IN BAHIA, OU GIL É TÃO
 MILAGREIRO QUANTO DORIVAL CAYMMI

Gilberto Gil regravou Back in Bahia, em versão para a série Amor e Sorte, da TV Globo. Como tanta coisa na obra de Gil, esta canção, composta nos anos 1970, quando ele voltava de Londres, faz da dor do exílio na memória recente um manifesto de alegria, e tem o dom de levantar deprimidos com um pé na Cova. Gil domina essa arte característica de Dorival Caymmi, nosso Buda Nagô, segundo ele. Hoje eu me sinto/  Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá , diz a letra. Vai aí o videoclipe.

 BOM DIA, VERÔNICA, E TCHAU!

Aturei, em honra do meu leitor, exatos 22 minutos de Bom dia, Verônica (Netflix), série aprovada pela imprensa paulista. Que a crítica acabou é notório, repito. Mas o universo mental dos incumbentes (os vivos, vivinhos, vivaldinos ou não) não ultrapassa os trinta e cinco anos, que agora equivalem aos quarenta e poucos. O roteiro claudica em cada tomada, há interpretações ruins e a direção parece ter entregue seu trabalho a deus. Mas não. Conforme os críticos de Sampa, devemos achar tudo lindo em nossa época regida pela hipocrisia, é quase um imperativo categórico, afinal, Bom dia, Verônica tem uma valiosa pegada feminista contra o macho predador, e a boa intenção é moeda cujo valor não para de subir. Ninguém pode falar mal sem ocupar o lugar da fala. É preciso ser latino para falar da latinidade, negro para criticar qualquer obra que expresse a negritude, LGBTQIA+Ypisilone para falar do que tudo que envolve o acrônimo LGBTQIA+Ypisilone. E, claro, estamos no domínio da ficção. Talvez seja necessário ser um artista profundamente comovido com a arte nacional para comentar verdadeiramente a teledramaturgia brasileira.

«Ao comparar nazismo com bolchevismo, Hannah Arendt pensa a liberdade além das polarizações”, por Eduardo Jardim, na Folha de S.Paulo.»

«Hannah Arendt e o ‘melhor homem na França’: honestidade e liberdade intelectual”, por Adriana Novaes, no Estadão da Arte.»

«“São Lucas e Brás Cubas dão exemplos opostos do embate da ética com a desonestidade”, por Eduardo Giannetti, trecho adiantado do novo livro do autor O anel de Giges, a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras.»

«Esqueça o que os ativistas de gênero dizem a você. É assim que se parece a transição médica”, artigo de Scott Newgente, um homem transgênero de 47 anos fundador do TReVoices, um grupo de transeducadores que se opõem ao ativismo radical de gênero. Na Quillette.»

«Marco Pereira no Dia de Instrumental do Música #EmCasaComSesc»

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção e a permanência da JU.

Para estabelecer uma assinatura mensal de R$ 40,00 — no dia mais conveniente — clique aqui. Ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Muito obrigado!


O AUTOR?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

 

JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
Convide quem você quiser para assinar esta cara por https://tinyletter.com/asiuves.
 

 
No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca está no ar. Assine-a

A newsletter é sucedânea deste jornal, por enquanto.

Na carta quinzenal, compartilho com os leitores, por e-mail, o ofício de um editor de cultura na diáspora das redações, comentando o que leio, ouço e vejo de bom e considero importante.

Ah, tem também alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo.

Assine a carta com um clique aqui — informe seu endereço eletrônico, depois confirme a assinatura em sua caixa postal. É grátis.

Juripoquemos!

Para ler os números já publicados vá por aqui.

Jurupoca #3

 2/agosto/2019


Uma entrada dos magníficos “Diarios” (em espanhol) de Iñaki Uriarte me acode quando tento burlar a bile negra. O autor basco cita o comentário grave e solene do senhor Prudhomme, personagem do dramaturgo, ator e caricaturista francês Henry Monnier (1799-1877), quando vê o mar pela primeira vez:

— Tal cantidad de agua roza el ridículo. (Tal quantidade de água beira o ridículo.)

Do original:

— Une telle quantité d’eau frise le ridicule.

 Ao ouvir astrônomos dissertarem sobre zilhões de zilhões de estrelas, aglomerados de galáxias e buracos negros, distantes zilhões de zilhões de anos-luz da chama breve da vida humana, penso em Prudhomme.  

“O nosso estômago pode congelar”, ela me disse depois que tínhamos andado um ou dois quilômetros. “É muito perigoso”.

“Estômago? Como é que o estômago pode congelar?”

“Podendo. E a gente pode ficar doente pro resto da vida se isso acontecer.”

“O que é que a gente faz pra isso não acontecer?”, perguntei.

“A coisa certa a fazer é cantar”, disse ela (…). Que diabo! Também não vai tirar pedaço. A única música que me veio à cabeça para cantar foi “La cucaracha”. Cantei “La cucaracha” por um ou dois quilômetros e achei que a cantoria tinha me congelado mais do que ajudado.”

Saul Bellow em “As Aventuras de Augie March”, pág. 702, tradução de Sonia Moreira, Companhia das Letras, 2009.  


Opa! Vamos apear?

Na carta passada, disse que encontrei guias insuspeitáveis em obras de arte e ficção, ao escrever “A Arte da Viagem” — a sair este mês em KDP. Depois disso, terminei de ler, pela primeira vez, o clássico “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift. Ao dizer adeus aos leitores, depois de quase 500 páginas, o cirurgião Lemuel Gulliver defende a própria literatura de viagem perante a dos perversos yahoos europeus, e dá seu recado. “Para aqueles de nós que viajamos até Países remotos raramente visitados por Ingleses e outros Europeus, é fácil fazer Descrições de Animais maravilhosos do Mar e da Terra”, ele diz. “Porém, o principal Objetivo de um Viajante deveria ser o de tornar os Homens mais sábios e melhores, e aperfeiçoar suas Mentes pelos bons e maus Exemplos colhidos em Sítios estrangeiros”. Eu diria que isso ainda é válido, mudando-se o necessário, mas voltado ao próprio viajante.

Não tenho, ai de mim, pretensões gulliverianas. Creio, entretanto, quando nunca se viajou tanto, que a viagem governada pelo ritmo de aplicativos e orientada por algoritmos se reduz quase sempre à mera vontade de poder do consumidor. O turista-consumidor logra apenas estar nos lugares, lá fora, e dessa superfície, dessa casca das coisas, o que ele faz?, ele coisa, isto é, selfiza-se e se esparrama. “A mania de se exibir diante de conhecidos postando fotos nas redes cretinas: ‘Veja onde estou’ é uma das mais absurdas que o mundo já conheceu” — diz o escritor espanhol Javier Marías — “porque onde cada um está ou já esteve, amanhã estará meia humanidade. Nada tem nenhum mérito, nada mais pode causar inveja, nada mais é estranho ou insólito. Tudo já foi trilhado.”

Pretendo mostrar no livro que o encurtamento das distâncias e a expansão das classes médias nas últimas décadas, assim como fizeram do turismo uma atividade tóxica para quem vive em certas cidades e balneários superlotados, distanciaram o viajante ainda mais do sentido último do que chamo (me perdoe meu compadre P., que questionou a acuidade lógica da expressão) de a verdadeira viagem, que é, no final e contas, interior, moldado pelo que lemos, vemos e sentimos, por isso, digo no livro que a preparação de uma viagem pede bem mais que reservas, guias e gadgets. No cantar dos últimos versos de “Tea at the Palaz of Hoon”, poema de Wallace Stevens, que ouso traduzir: “E o mundo em que caminhei, e o que vi/ Ou ouvi e senti brotava de mim mesmo;/ E ali me achei mais verdadeiro e mais estranho.”

Achei um barato esta capa — “Power Trip”, Joost Swarate

Os paragrafões acima não chegam, na extensão, a proustianos, mas contrariam todos os manuais de redação da internet, que recomendam períodos de duas linhas e textos curtos. Às favas os manuais. Pesquisas mostram que usuários mais ativos de celulares e das redes sociais tornaram-se incapazes de ler qualquer coisa que dure mais de 30 segundos; danou-se a leitura profunda, que um bom romance ou ensaio exigem. Eu diria que isso vale também para todos os tempos lentos da música e do cinema.E a isso devem sua hegemonia, entre adolescentes de 40 anos ou mais, como é corrente, o baticum tribal, a xaropada religiosa ou pornográfica e a montagem ultrarrápida dos filmes de ação e pancadaria, neta do videoclipe, como as bijuterias da série Marvel.

Esta carta está na contramão da tendência, e sua leitora e seu leitor também, estou certo, ou não chegariam até aqui. A propósito, Jurupoca se propõe como expediente antiviral, sucedâneo contra o espírito do que viraliza e tem valor no negócio de caça-cliques, que torna o jornalismo e tudo mais na rede reféns da Alphabet. Dá dinheiro o que gera milhões de acessos, por mais baixo, fútil e degradante seja o conteúdo. É a realidade de quem se informa pelo WhatsApp e Facebook, paraíso das “fake news”, mas afeta também a existência de grande parte dos jornais na internet, obrigados a “equilibrar” o jornalismo com determinada cota de fofocas, celebridades e escândalos variados. Os fait divers, quem diria, se tornaram mais escabrosos e imperativos.

Ajude Jurupoca a combater a Google-dependência. Convide quem você quiser para assiná-la em https://tinyletter.com/asiuves.  

No mais, keep calm and read on.


ÍCONES DA INFLUÊNCIA

Pela segunda vez, ao voltar de minha caminhada pela manhã no Parque Municipal, subindo a Afonso Pena, entro no Palácio das Artes para bispar a exposição “Narrativas em Processo – Livros de Artistas”, da coleção Itaú Cultural. O estande que me atrai é o primeiro à vista e tem obras de Augusto de Campos e Júlio Plaza. Vemos, um tanto descoloridos pela pátina do papel, “Caixa Preta: poemas e objetospoemas”, de 1975, “Viva Vaia”, “Lixo”, “Linguaviagem” (poema-objeto de 1967 reproduzido, 20 anos depois, na capa do livro homônimo que reúne traduções de Augusto de poetas como Keats, Mallarmé, Yeats e Valéry) e outras figurações de teor concretistas. São ícones sagrados da supremacia de uma faceta da arte brasileira supervalorizada e superexposta pelo poder de São Paulo, a riqueza de seu mecenato moderno e a enorme influência de sua imprensa no resto do país. Os concretistas adotaram, ainda em 1950, a expressão joyceana “verbivocovisual. Por décadas, o estropício se tonaria verdadeira praga para todo poeta aspirante exposto a seu forte magnetismo, cujo ego em flor deixava-se tentar pela majestade de cruzados das vanguardas contra a caipirada em geral que lhes contrapunha algo da tradição. Acho tudo imensamente datado, ainda que sinta certo fascínio em me ver diante desse santuário ateu. Disse num post bem lido do Jornal do Siúves que nossa cultura literária deve muito mais ao Augusto tradutor, divulgador, crítico e ensaísta que ao poeta enorme que ele acredita ser. Mas sinto falta dos arranca-rabos intelectuais que ele manteve com tanta gente, como um El Cid campeador de espada em punho pela causa da “transvanguarda”, e de seu etilo enxuto inconfundível em que o ego superinflado expira o mais puro veneno do “anticrítico”, como ele se define em “Linguaviagem”, onde sai atirando já na receita prescrita na “Breve introdução”: “Crítica via tradução. Crítica de iluminação contra a crítica de maledicência. Exopoesia para combater a egopoesia”.

HOUYHNHNMS E YAHOOS

Não havia lido “As Viagens de Gulliver”, a monumental obra de Jonathan Swift. Na quinta série da Escola Estadual Machado de Assis, em Vespasiano, caiu na prova uma de suas muitas versões ligeiras, com trechos das aventuras do herói. Era uma edição de bolso da Ediouro, creio, mas não era o livro e sim algo mais próximo do desenho animado que passava muito na TV da minha infância. Agora, antes tarde… me pago uma antiga dívida, terminadas as 448 páginas da excelente tradução de Paulo Henriques Britto (Penguin-Companhia das Letras). Não sei se há, nos últimos 300 anos (a primeira edição da obra é 1726), muitos satiristas da envergadura de Swift, mas estou certo de que sua obra segue indispensável, talvez ainda mais agora, como lenitivo contra a vertigem nauseante provocada pela política em toda parte. O clérigo e escritor irlandês, com a perícia de um grande cirurgião esteta, estica no curtume as almas (especialmente as da nobreza, dos altos funcionários de governo, advogados, médicos e administradores da Justiça), desventra sua iniquidade, torpeza, crueldade, ambição, o ódio… e expõe tudo ao sol do meio-dia, com a imensa maestria que apenas ao gênio favorece, tudo com clareza, inventividade e irresistível humor. “Mas, a partir do Relato que me fizeste, e das Respostas que com muito Cuidado arranquei de ti”, diz a Gulliver o rei de Brobdingnag, a terra dos gigantes, “sou obrigado a concluir que o Grosso dos Nativos de tua Terra são a mais perniciosa Raça de Sevandijas [nome comum a todos os parasitas e vermes] abjetas e odiosas que a Natureza permitiu rastejar na Superfície da Terra”. Não é por nada que Gulliver, na quarta e última parte da história, vai se tornar um zelote dos Houyhnhnms, os seres assemelhados a cavalos, dotados de grande racionalidade e sabedoria, e desprezar, exatamente como os Houyhnhnms, a alimária fedorenta e imbecil dos yahoos, nossos irmãos, nossos iguais. Ao voltar para a Inglaterra e a família, a contragosto, quando terminam suas viagens, como o nosso general Figueiredo, mas por motivos nobres, Gulliver preferirá o cheiro de suas cavalgaduras, que ele mantém no bem-bom, ao insuportável odor das pessoas, incluindo o da mulher e dos filhos.

RAIOS DE SOL DE PEPINOS

Agora, há montes de bosta nas viagens do herói, pensei, a me lembrar de Paulo Francis, acho que em 1986, iniciando uma crítica do filme “O Nome da Rosa”. George Orwell tem razão ao enfatizar, no ensaio introdutório, a obsessão escatológica de Swift, que não descuida do xixi e do cocô aonde se aventure. E também ao apontar a implicância do autor com a ciência de sua época. Sobra até, nas sátiras, para a disputa entre Newton e Leibniz sobre invenção do cálculo infinitesimal. A Royal Society, fundada sete anos antes de Swift nascer, em 1667, é mal disfarçada na grã-Academia de Lagado, nos confins de Judas, visitada por Gulliver. Entre as pesquisas que observa na egrégia instituição e descreve oficiosamente há o projeto de “extrair Raios de Sol de Pepinos, os quais seriam guardados em Frascos hermeticamente fechados, e usados para aquecer o Ar nos Verões mais úmidos e inclementes”. O narrador prossegue: “Disse-me ele [o acadêmico que o conduz] julgar que com mais oito anos de Trabalho seria capaz de fornecer Sol aos Jardins do Governador a Preços módicos; porém queixava-se de estar com seu Estoque em baixa, e pediu-me que eu lhe desse algo como Incentivo ao Engenho, especialmente por estarem mui caros os Pepinos naquela Estação. Fiz-lhe uma pequena Doação (…).” Adoro pensar no que Swift escreveria sobre o solucionismo tecnológico do Vale do Silício.

 MALDITOS YAHOOS

Ah, essa raça de yahoos. No “Valor”, o escritor Amir Labaki, diretor-fundador do É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários, diz, ao celebrar o centenário de nascimento de Primo Levi (31/8), referido na Jurupoca # 0, que apenas “Shoah” (1985), o documentário épico de Claude Lanzmann (1925-2018), incorpora no cinema o “magma” de “É Isto um Homem?”, a narrativa que é uma “experiência literária imorredoura e única”, nas palavras de Labaki, com sua “harmonia entre ética e estética; forma e conteúdo; as palavras e o narrado”. Vi “Shoah” no antigo cine Roxy, no Barro Preto, já no final dos anos 1980. Há uns seis ou sete anos tenho a produção em uma caixa de seis DVDs. No “Arte da Viagem”, digo que é inverossímil pensar a Europa desfocada do passado remexido profundamente por Lanzmann. O que isso tem a ver com os yahoos? É que os miseráveis yahoos de hoje são motivados pela baixaria que “viraliza” e, portanto, é digna de atenção da nossa (baixa e lassa) humanidade. Labaki se refere ao documentário “Retorno a Auschwitz” (1982), de Daniel Toaff, que acompanha a volta de Levi a Auschwitz, pela primeira vez desde os episódios narrados em “A Trégua”. Pois esse curta-metragem, disponível no YouTube e legendado em português, desde maio de 2016, quando escrevo esta nota angariava 4.499 visualizações, uma multidão, não é? Antonio Elorza, em “El País”, lembra que Violeta Friedman, sobrevivente de Auschwitz, uma amiga do colunista, lhe contava que os meios de comunicação se interessaram por seu testemunho apenas com o sucesso de “A Lista de Schindler”, o filme açucarado de Spielberg.

MOLINA AOS SÁBADOS

Minhas manhãs de sábado são imperfeitas sem a leitura das colunas de Antonio Muñoz Molina, no caderno Babelia de “El País” — traduzidas irregularmente na edição brasileira do jornal. Tenho comprado seus livros em viagens a Espanha, mas parte de sua ficção saiu em português pela Companhia das Letras, hoje infelizmente relegada aos sebos. Creio que a voz branda e o texto fluido, refletivo e evocativo do escritor, não raro roçando o poético, melhorou meu ouvido para o espanhol e assim meu gosto pelo idioma. A propósito, seu ensaio “Todo lo que era sólido” (Seix Barral, 2013) é um passaporte VIP para quem queira penetrar na Espanha contemporânea e compreender suas glórias e seus descaminhos; o recomendo penhoradamente a quem viajar ao país com genuína curiosidade. Em textos mais recentes ele celebra João GilbertoMachado de Assim, que lê pela primeira vez, ao tratar do “espírito do romance” e da vida literária. Em “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Molina percebe uma “audácia e uma desenvoltura cervantinas na criação de suas histórias”. Ele valoriza “o espírito singular do romance, sua vocação para indagar os atos e as consciências dos seres humanos, sua generosa ambição abarcadora, sua desolação e seu humor”, para concluir que “não nos importaria tanto a literatura se não aprendêssemos com ela coisas que de outro modo não poderíamos saber. É isso que exigimos dela. Tudo mais que existe em volta carece de importância”.

“SERROTE” PERDE O FIO

Antes de a ler de cabo a rabo, saboreio “Serrote” — revista-livro quadrimestral publicada pelo Instituto Moreira Salles — como o belo produto gráfico que é. Folheio cada edição para apreciar fotografias, ensaios visuais e reproduções. Detenho-me na diagramação, nas cores, no cheiro da encadernação, na textura do papel, no excelente acabamento e passo uma vista no conteúdo, tantas vezes prodigioso, para saber o que me espera. Tenho os 31 números publicados até julho deste ano. Não há rival para a revista no Brasil. Mas sinto que ela tem se apequenado nos últimos anos, ao trazer para suas páginas, meio aos trancos, uma série de ensaios supostamente palatáveis à nova esquerda e seu tribalismo identitário. O problema não é a predominância desses temas. Os textos frequentemente são obscuros e, pior, curto nas ideias e no alcance intelectual. Escritos e editados no calor da divisão ideológica do país e na crista da onda reacionária, simplesmente destoam dos padrões que o IMS se impunha desde o seu lançamento, há dez anos. Muñoz Molina me cai bem sobre isso. Em uma coluna (“Ética da prosa”, sobre um ensaio de Colm Tóibín no “London Review of Books”, no qual o escritor irlandês se expõe como paciente de câncer) ele me lembrou da prestação de contas de Graciliano Ramos quando prefeito de Palmeiras dos Índios, ao defender:


“Uma prosa clara é uma exigência ética, uma necessidade civil, da mesma ordem que a transparência e a probidade na administração pública. Graças à claridade das palavras podemos discernir o grau de solvência dos argumentos de um debate e adquirir informações rigorosas sobre os fatos e, dentro do possível, distinguir as fantasias da realidade. Assim como um interventor submete a escrutínio os planos de gasto de um organismo público, um cidadão há de julgar a veracidade das palavras que lhe são apresentadas em uma informação, em uma coluna de jornal ou discurso político.”


MAS, QUANDO SERRA…

Reli por estes dias até altas da madrugada o perfil de Ernest Hemingway por Lilian Ross (Serrote #27, novembro de 2017, tradução de Alexandre Barbosa de Souza). Publicado originalmente na “The New Yorker”, depois como livro independente, o texto me parece moço como nunca, uma joia clássica. Hemingway ressurge eternamente decadente nas obsessões com lutas, caçadas e touradas, na ansiedade autoral competitiva, na insegurança e compulsão alcoólica, mas ainda assim vivíssimo, autêntico em cada passo, frase, resmungo, comentário, o que diz tudo sobre o alcance de Lilian Ross como jornalista e escritora. Para repetir o bordão de “Papa”, como Hemingway era chamado por Marlene Dietrich, que dá título ao ensaio: “Que tal, Senhores?”.

…SERRA BEM

Da Serrote # 31, a mais recente, louvo a inserção de “O Toldo Vermelho de Bolonha” (tradução de Samuel Titan Jr.), livro do romancista, pintor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017), formatado por meio de notas que se referem à memória de um tio do autor, à cidade italiana e seu encantamento com o tom vermelho que a caracteriza, com suas “tende” (toldos) confeccionadas com um linho grosso dessa cor. A prosa deliciosa, aerada poeticamente, é nobre e reconfortante. Já o número anterior disse a que veio em “Branco como Eu” (tradução de Érico Assis), obra primorosa dos historiador Henry Louis Gates Jr. sobre Anatole Broyard, o célebre crítico literário do “The New York Times”, alguém que morreu mentindo para si mesmo e sua família sobre a origem negra, porque “queria ser um escritor, não um escritor negro”. É um dos melhores ensaios já publicados na revista. O ensaio visual dessa edição traz o requinte de beleza que são as monotipias (método de impressão de triagem única) de Luiz Zerbini, criadas a partir de flores, folhas e caules extraídos do jardim do artista. As obras repõem a natureza investigada, repensada e mesmo sonhada em deliciosas formas aleatórios.

MEU BOM MARÍAS

“Meu bom Maria”, ou “Meu Maria”, era o tratamento amoroso que Vinicius de Morais dispensava, nas cartas que lhe endereçava, ao grande amigo, poeta, cronista e compositor pernambucano Antonio Maria, parceiro de Luiz Bonfá na linda “Manhã de Carnaval”. Pois o escritor espanhol Javier Marías é “meu bom Marías” desde já. Leio com muito gosto suas crônicas dominicais em “El País Semanal” e logo chegarei aos romances. Soube que ele reuniu 96 desses textos, escritos entre fevereiro de 2017 e janeiro de 2019, em “Cuando la sociedad es el tirano” (Alfaguara). Fui logo buscar a versão eletrônica (RS 33,18). Marías é um cronista mordaz e refinado, crítico inclemente das besteiras de nossas épocas e do fanatismo de toda cepa. O que diz sobre a dificuldade atual de muita gente entender a ironia — o que torna o mundo mais burro — cala bem com minha vivência: “Isso está acabando. Cada vez menos se entende a ironia, as pessoas cada vez mais leem ao pé da letra, literalmente. O que se diz ironicamente é entendido tal qual. Quanto ao humor, temo que cada dia seja mais perseguido. Não se pode fazer uma piada sobre nada, qualquer piada é ofensiva”. Marías também olha em nossa direção, ao falar do presidente norte-americano: “Há um problema com Trump. Ele é uma figura tão tosca, tão fuleira, que nos impede de levá-lo verdadeiramente a sério. Parece menos perigoso do que provavelmente é. (…) Mas não ocorre somente com Trump. O que está se passando com as pessoas que engolem Salvini, Orban, Duterte nas Filipinas, Bolsonaro no Brasil etc.? Não pretendo ter razão, mas pessoalmente os vejo muito perigosos e daninhos para a democracia”.

INVEJA

Quem me dera escrever assim, ser capaz de resumir a ópera como Ruy Castro (24/07): “A chapa está esquentando. Jair Bolsonaro, o presidente mais boquirroto da história da República, tem se superado ultimamente em sua especialidade de atacar adversários, ofender aliados, ignorar protocolos, diminuir instituições, promover crises, agredir minorias, comprar brigas gratuitas, humilhar seus próprios amigos, mentir com grande convicção, desdizer-se na maior cara dura e, de modo geral, escoicear a liturgia do cargo.” A escolha vocabular (“escoicear”) é perfeita.

DE COICES

“Recalcitrat undique tutus” (“de sua posição de segurança ele escoiceia em todas as direções”). De um poema de Horácio, como nos informa uma nota do livro, que é fonte de certa passagem de “As Viagens de Gulliver”. O narrador imagina os Houyhnhnms reagindo a uma invasão de seu país por corruptos povos europeus.

ENGOLINDO CARURUS


“Calígula venceu”, disse ele, atendendo o telefone. Pensava que fosse outra pessoa, e depois de um instante eu disse: “É o que parece, mas aqui é o Zuckerman. “Hoje é um dia negro, senhor Zuckerman. Passei a manhã inteira engolindo sapo. Eu não conseguia acreditar que isso fosse acontecer. As pessoas votaram nos valores morais? Que valores são esses? Mentir para meter o país numa guerra? Que idiotice! Que idiotice! (…)

“Religião!”, exclamava Kliman. “Por que é que eles não adotam a bola de cristal para saber o que é a verdade? Imagine se descobrem que a evolução não tem nada a ver, que Darwin era mesmo maluco. Será que ele é tão maluco quanto o livro do Gênese, com a história da criação do homem? Essas pessoas não acreditam no conhecimento”. (…)

Trecho de “Fantasma Sai de Cena”, romance de Philip Roth (Companhia das Letras, 2008, tradução de Paulo Henrique Brito). Nathan Zuckerman é o narrador desta e outras histórias de Roth. Aqui, envelhecido, está doidinho por uma jovem casada (apesar da impotência adquirida na ablação da próstata) e envolvido com o legado do contista E. I. Lonoff, seu padrinho intelectual. Zuckerman liga para Richard Kliman, jovem escritor e pé no saco, porque precisava dele naquela manhã de 2004, com Nova York de ressaca pela vitória de George W. Bush sobre John Kerry. Bush filho ganhara o segundo mandato, depois de justificar fajutamente a invasão do Iraque com aquela, diríamos, monumental “fake news” sobre as armas de destruição em massa de Saddan Hussein. Esta passagem de Roth tem brotado como ideia fixa das conexões sinápticas do subscritor. Por que será? Deixo a resposta ao descortino do leitor.

Ju #44

Desde o Belo. 23 a 29/10/2020. Nº 44. Ano 2 Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma cidade invernal, bela, ainda que feia, com jeitin nórdico, ainda que austral, só que em plena primavera, depois de um calor setembrino, seco … Continuar lendo

Ju #43

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa? Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo … Continuar lendo

Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2 ♪ Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal ♪  [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando … Continuar lendo



EPICURISMO

No extraordinário site Aeon, a jornalista freelance Temma Ehrenfeld confronta noções populares sobre epicurismo e estoicismo com o que essas tradições filosóficas defendiam para valer. Epicuro valorizava a amizade, chiava com a política mas presava a democracia, admitia mulheres e escravos em suas aulas — um escândalo para os gregos à época — e via a felicidade como a evitação da dor, por meio da busca de prazeres com escolhas sóbrias e racionais. O epicurismo, diz a autora, em boa medida atende à vida moderna. Traduzo dois parágrafos.


“A racionalidade que ele vinculou à democracia dependia da ciência. Nós agora conhecemos Epicuro sobretudo por meio do poema “Sobre a Natureza da Coisas”, uma exposição de 7.400 versos do filósofo romano Lucrécio, que viveu cerca de 250 anos depois dele. O poema circulava entre um pequeno número de leitores até ser redescoberto no século 15, quando desafiou radicalmente a cristandade.

“Seus princípios são considerados surpreendentemente modernos, até a física. Em seis livros, Lucrécio afirma que tudo é feito de partículas invisíveis, espaço e tempo são infinitos, a natureza é uma experimento sem fim, a sociedade humana começou com uma batalha pela sobrevivência, não há vida após da morte, religiões são delírios cruéis, e o universo não tem um propósito claro. O mundo é material — com uma pitada de livre arbítrio. Como devemos viver? Racionalmente, abandonando as ilusões. Ideias falsas quase sempre nos tornam infelizes. Se minimizamos a dor que elas nos causam, maximizamos nosso prazer.”


RAMILONGA

Desde o originalíssimo “Tambong” (2000), seu segundo disco, não o perco de vista. Vitor Ramil, 57 anos, é um raro “cantautor” a encontrar seu lugar na mpb estropiada a partir dos anos 1980. Além das faixas que entraram para nosso cancioneiro como “Não É Céu”, “Foi no Mês que Vem” (acompanhada por um piano atonal de Egberto Gismonti) e “Grama Verde, o álbum estabelecia Ramil como um descendente da linhagem de Caetano Veloso e Belchior. O disco demarcava suas elevadas referências poéticas (Paulo Leminski, Allen Ginsberg, versões de Dylan e a temática regional sintonizada com o mundo, formulada na “Estética do Frio – Ramilonga”), com uma instrumentação enxuta, colorida e bem arranjada. Deu na “Folha” que ele apresentou novas canções em Porto Alegre, em julho, com poemas de Angélica Freitas, e deve reuni-las em disco. Alvíssaras. Uma referência na reportagem de Paula Sperb a “Délibáb”, CD de 2010 com poemas de Borges e do gaúcho João da Cunha Vargas musicados por ele, me faz clicar logo no Spotify. Ouço várias vezes “Milonga de los Morenos”, versão na medida, esférica, para as redondilhas de Borges, gravada com Caetano. Ramil se impôs na rica tradição popular brasileira de voz e violão, um grande feito. Aprendeu a trabalhar com perfeição uma ótima técnica instrumental com sua bela voz melancólica, cuja emissão parece modular a cada frase, efeito que acentua o páthos das letras.

“Milonga de los Morenos”, poema de Jorge Luis Borges musicado por Vitor Ramil, com participação da Caetano Veloso

JOÃO EM 55 MINUTOS

Do balacobaco o especial João Gilberto do “Playlist do Zuza”, programa semanal com roteiro e apresentação de Zuza Homem de Mello, disponível na rádio de internet do Instituto Moreira Salles, a Rádio Batuta. Músico, escritor, curador, produtor e não sei que mais, Zuza é um guia insuperável sobre música brasileira e jazz. Esse “Playlist”, pelo que toca, conta e analisa, vale por um curso intensivo sobre João e sua música, uma aula de 55 minutos. Perto de completar 86 anos, o autor, entre vários títulos, de “João Gilberto” (Publifolha, 2008), segue dividindo generosamente com leitores e ouvintes a cancha dos sonhos de quem viu de perto Miles Davis, John Coltrane e outros tantos recriadores do gênero, quando estudava música em Nova York. A propósito, é uma beleza o documentário “Zuza Homem de Jazz”, produzido pelo Cine Group, com direção de Janaina Dalri, em cartaz no canal Curta!.

 A APOLO 11 E A POESIA

A newsletter do NiemandLab, da Universidade de Harvard, me conduz a um artigo sobre os 50 anos da chegada da Apolo 11 à Lua, em 21/07/1969, e o desafio que o fato representou para os jornais se porem à altura do feito. Destaca a primeira página do “The New York Times” com um improvável poema. O “Times” soube ler as horas da história e marginar convenções editoriais. Quem ousaria hoje? “Cinquenta anos depois de ‘Voyage to the Moom’, em um país fraturado”, diz Joshua Benton, “parece impossível imaginar o momento de assombro comunal que a Apollo 11 inspirou. Quase tanto quanto um poema na capa do ‘The New York Times’. Mas houve um tempo, não muito longe, quando o jornalismo viu seus limites, os pôs de lado, e deixou o momento cantar”. O poeta convocado pelo “Times” era Archibald MacLeish. “Voyage to the Moom”, seu poema, alude a “andarilhos do céu” e ao “deslumbramento prateado” do luar “em nossas folhas e águas”. Mas impossível mesmo é imaginar algum jornal estampar na primeira página o desalento áspero de “Descida na Lua”, poema de W.H. Auden. Quatro de suas dez estrofes, na primorosa tradução de João Paulo Paes (minha edição da Companhia das Letras é de 1986), dizem assim:

Os heróis de Homero não eram certamente mais audazes
que o nosso Trio, mas tiveram sorte: Heitor
    foi poupado ao vexame de a sua bravura
    ser coberta pelas câmaras de televisão.

Vale a pena ir ver? Eu posso bem acreditar que sim.
Vale a pena ver? Bah! Atravessei um deserto certa vez
     de carro, mas não me encantei; deem-me antes um jardim
    viçoso, bem regado, longe dos que tagarelam

sobre o Novo, os Von Brauns e sua laia, e onde eu possa
nas manhãs de agosto desfrutar as glórias
    matinais, onde morrer tenha um sentido
    e máquina alguma possa alterar a minha perspectiva.

Intacta, graças a Deus, a minha Lua, ainda rainha
dos Céus, minguante ou cheia, uma Presença incrível
    O Velho dela, feito de areia, não de proteína,
    visita ainda as minhas regiões austrais.

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca # 01

Número 01 — JULHO, 5  2019 


“O tempo, meu lorde, carrega uma sacola nas costas onde põe óbolos para o oblívio.”

Citado por Adão, o androide personagem de “Máquinas como Eu – E gente como Você”, novo romance de Ian McEwan, do “Tróilo e Créssida”, de Willian Shakespeare 

“Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte
Porque apesar de muito moço, me sinto são e salvo e forte.
E tenho comigo pensado, Deus é brasileiro e anda do meu lado
E assim já não posso sofrer no ano passado.
Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro.
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro.”


Belchior em “Sujeito de Sorte”

Alastra-se a suposição de que, na sociedade em que circula volume inédito de informação, o jornalismo perdera sua razão de ser. O jornalista, a sua razão de viver. O secular e celebrado ofício de editor, em quadro de carências múltiplas e desassossegos de identidade, aparece rebatizado como “curador de notícias”. Ocorre o contrário: nunca o jornalismo foi tão necessário para selecionar, organizar e hierarquizar informações. Diante do caos resultante e da overdose informativa, o jornalismo contextualiza e dá sentido a fatos e ideias. Verificar o que é fato comprovável e o que é ‘notícia falsa’ — expressão imprópria, pois, se falsa, não configura notícia”.

Mário Magalhães em “J – Jornalista”, na “Serrote!” # 29

Opa.

Bem-vinda e bem-vindo. Eis o mix da feira de Jurupoca #1, notas a tratar dos últimos livros, músicas, filmes e ideias que me envolveram.

Na Jurupoca, quero compartir com você o ofício de um editor de cultura autoexilado das lides blogueiras, das redes sociais (exceto pelos poemetos do Insta, de que falo no pé), sobrevivente na diáspora das redações, a concluir o livro “A Arte da Viagem – Como Transformar Turismo em Cultura”, a ser lançado proximamente em Kindle Direct Publishing (KDP), na Amazon.

Esta Jurupoca é para chegar a você às sextas-feiras, quinzenalmente. Agradeço demais a quem comentou a edição de número zero, seja para saudá-la ou não, e convido novos leitores a jurupocarem.

MEUS PARABÉNS

Um brinde — melhor que seja de uísque, bebida preferida da patota — aos 50 anos de fundação do “Pasquim”, transcorridos em 26 de junho. Ivan Lessa, Millôr, Paulo Francis, Jaguar, Ziraldo, Henfil, Sérgio Augusto e outros tantos bambas desopilaram fígados e almas de leitores intoxicados com a carantonha onipresente da ditadura nos anos 1970. Aquela alta concentração de talento, inteligência e humor fundou uma era na nossa imprensa, referendou ideias, aprendizados, deixou saudade e gratidão, numa frase, salvou a pátria.
 

Fotomontagem de Jaguar sobre a pintura “Independência ou Morte [O Grito do Ipiranga], de Pedro Américo. A charge saiu na edição 71 do “Pasquim”, em 28/10/1970. Como conta o cartunista (link para o PDF da tese de Márcia Neme Buzalaf, “A Censura no Pasquim”, defendida em 2009 na Universidade Estadual Paulista) os militares sentiram o golpe. Onze integrantes da redação amargaram dois meses de cana.


O FUTURO VEM AÍ

Conhecido pelos muitos acertos de suas previsões e pela clareza de livros como “A Vida Digital”, o professor Nicholas Negroponte, fundador e diretor do Media Lab do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), diz em entrevista ao El Pais (em português) que o 5G, a tecnologia de comunicações móveis disputada por Estados Unidos e China, não promoverá a revolução que se apregoa. “É apenas uma mudança incremental sobre o 4G. O marco foi o 3G”, considera. Ele sustenta que nossos filhos e netos viverão 150 anos; humanos serão geneticamente modificados para reparar os erros da natureza; a carne de boi artificial (“um projeto maravilhoso”), produzida por meio da replicação de células do animal, vai alimentar o mundo, livrar o boi do abatedouro, reduzir as emissões de gás carbônico e melhorar o meio ambiente; além disso, em 50 anos teremos energia limpa, barata e segura, com o domínio da fusão nuclear. Aí, sim, haverá uma nova era de avanços tecnológicos na história humana. Negroponte relativiza as críticas ao oligopólio na internet e à perda de privacidade com tecnologias como a vigilância por câmaras de reconhecimento facial, empregada largamente na China, promessa de uma “segurança quase perfeita”. Mas, perguntado se temos de valorizar as ciências humanas e a filosofia em uma sociedade hipertecnológica, responde: “As ciências humanas são a coisa mais importante que você pode estudar.”
 

O FUTURO POR AÍ

“Máquinas como Eu – E gente como Você” (Companhia das Letras), que acaba de sair em português, novo romance do britânico Ian McEwan, dá o que ler e pensar. Algumas das obras recentes de McEwan me pareceram claudicantes, narrativas em que o autor atraía muita atenção para si, para seu conhecimento enciclopédico e sua fixação em certos hábitos da classe média, como certa obsessão com vinhos e comida. Mas, a despeito dessa onisciência autoral, ei-lo de volta e em grande forma com uma reflexão ética e moral acerca da condição humana, quando a ciência mira a fabricação máquinas que, cedo ou tarde, serão capazes de sentir, interagir desembaraçadamente conosco e nos superar em inteligência e criatividade. O livro não explora a ficção científica corriqueira, mas, antes, atualiza a fábula prometeica — em sintonia, por sinal, com o filme “Ex Machina”, dirigido por Alex Garland.

“Boa parte dessa tradição [da ficção científica] não me interessa. Mas tem outra que acho fascinante, que observa a possível reação à tecnologia. Como em ‘1984’, de George Orwell, ou em ‘Blade Runner’, que mostra um planeta destruído, lidando com a mortalidade dos robôs”, disse McEwan em entrevista à “Folha de S.Paulo”.

O leitor não viaja ao futuro, mas é conduzido a um passado alternativo, como no “Complô contra a América”, romance de Philip Roth — em que os Estados Unidos nos anos 1940 é governador pelo antissemita Charlie Lindbergh, ou, entre outras, nas séries “SS-GB” (exibida no Brasil pela NET) e “The Man in the High Castle” (Amazon Prime), que imaginam o Reino Unido e os EUA ocupados por Hitler. No livro de McEwan, ambientado no início dos anos 1980, a Inglaterra da primeira ministra Margaret Thatcher perde tragicamente a guerra das Malvinas; os Beatles se reencontram depois de 12 anos afastados e lançam o álbum “Love and Lemons”; Alan Turing, pai da computação retratado no filme “O Jogo da Imitação”, está vivo e bem-disposto — é um bilionário casado com seu amado, um físico de renome, e celebrado mundialmente pela generosidade de ter aberto a codificação de um novo paradigma da inteligência artificial, o que levou à confecção de humanoides por meio da resolução de um teorema matemático, do avanço da ciência da computação e da engenharia dos materiais. Turing, que também é um personagem destacado da história de McEwan, ainda jovem reiterava que “no momento em que não pudéssemos notar a diferença no comportamento de uma máquina e de uma pessoa, caberia então atribuir humanidade à máquina”.  

“Artigos sensacionalistas na imprensa anunciaram uma nova era de softwares humanizados. Os computadores estavam prestes a pensar como nós, imitando as razões frequentemente mal definidas com que tomamos decisões ou fazemos escolhas”, conta Charlie Friend, o narrador do livro. Aos 33 anos, Charlie torra a herança dos pais em Adão, um dos 25 primeiros androides, ou seres humanos artificiais lançados por uma firma britânica — 12 mulheres e 13 homens, batizados Adões e Evas. “O manual [de instruções do fabricante] me informava que Adão, além de um sistema operacional, possuía uma natureza — isto é, uma natureza humana — e uma personalidade (…)”. Aí está o busílis, diria o detetive Rosalvo, personagem de “Agosto”, o romance de Rubem Fonseca, aí está o fulcro do bordado literário de McEwan.

Ocorre que em “Máquinas como Eu” há outros ingredientes além de avanços na matemática (a solução positiva para P versus NP, o principal problema aberto da computação), do debate proporcionado pela neurociência (o problema entre cérebro e mente) e da especulação filosófico sobre a ética da ciência e suas implicações na política. O que estimula o leitor a atravessar todas essas dimensões e as 328 páginas do livro é a trama de amor, sexo e, como em “A Balada de Adam Henry” e outros livros  de McEwan, o suspense de tribunal e a discussão dos imperativos da lei. Charlie, um especulador com ações e moedas semifracassado, envolve Adão (o androide é chegado em Shakespeare e escreve haicais) na sua vida, nos seus ganhos e na sua apaixonada transa (latu sensu) com a vizinha Miranda, estudante de pós-graduação dez anos mais jovem que ele, atada a um segredo decisivo. Mais do que isso não direi para não incorrer no tal do spoiler e tirar o prazer da leitora e do leitor. O foco do livro, afinal, o que a leitura nos leva a ruminar, ilumina o que o escritor disse à “Folha”:

Estamos tentando ser Deus, mas não somos. Essa é nossa forma de colocar nossa própria consciência em um robô e, assim, podermos viver eternamente. É um tema ancestral. Está na história de Jasão e os Argonautas, no Gênesis”.

O romance criado a partir desse alicerce literário talvez seja a melhor obra de McEwan desde “Reparação” e “Sábado”.

COMO SER FELIZ

“E pela minha lei/ A gente era obrigada a ser feliz”, canta Chico Buarque em “João e Maria”. A lei que o obrigava a ser feliz agora leva o louco a se pergunta, “o que é que a vida vai fazer de mim?”. É insano ser feliz? Melhor cantar sempre, como quem bate na madeira, “ilusão, ilusão, veja as coisas como ela são”? Há cinco décadas, a obra de um artista toca profundamente na banda sonora do afeto de tanta gente, refina a música popular brasileira e açula o gosto pelo idioma e pela poesia. Também por isso, a gente vai levando.


Embora tenha todos os discos autorais de Chico em CD ou vinil, fui buscar no Spotify os títulos que faltavam no aplicativo (falei disso na carta anterior). No pacote estão “Morro Dois Irmãos”, “Valsa Brasileira”, “Carioca”, “Iracema Voou”, ‘Sonhos, Sonhos São”, “A Ostra e o Vento”, “Todo o Sentimento”, “Estação Derradeira”, “Bancarrota Blues” etc., canções já clássicas cuja força poética se manterá por muito tempo.

Só Carolina não viu que a obra buarquiana foi se tornando mais complexa em suas melodias, mais apuradas nas harmonias e mais sofisticadas nas letras — José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovsk demonstraram isso com grande didatismo nas suas aulas-shows. Sinto pelas Carolinas musicófilas que brigaram também com a arte do compositor nos embates virulentos contra os devotos do lulopetismo. Que triste. O que disse Belchior sobre os discos de Bob Dylan lançados nos anos 2.000 — em um entrevista ao “Diário do Nordeste” citada no livro de Jotabê Medeiros (“Apenas um Rapaz Latino-americano”, ver comentário abaixo) — vale para Chico Buarque: “Não foi Dylan quem mudou, foi o público que piorou”. A propósito, as músicas citadas estão no playlist A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções da MBP, que me custou três anos de pesquisa e arranjo, e que não paro de atualizar e refinar. Aviso aos navegantes que meu conceito de MPB é pessoal e superelástico, indo de Catulo da Paixão Cearense, do final do século 19, ao Clube da Esquina e além.

COMO? SER FELIZ

De volta à lei que nos obrigava a ser feliz, ouvir “João e Maria” mais uma vez me lembrou, com uma sombra de ironia, um trecho de “A Trégua”, de Primo Levi (ver referência na Jurupoca #0), que acabara de ler. Está na página 346 de minha edição da Companhia das Letras, de 1997. O autor se refere nessa passagem à sensação dos mil e tantos expatriados italianos em comboio, entre os quais sobreviventes de Auschwitz, como o autor, diante do anúncio feito pelo exército soviético que começaria enfim a ansiada volta para casa, depois de dois meses de acampamento na aldeia russa de Stáryie Doróghi e de outros tantos vagando miseravelmente pelo leste europeu, terminada a 2ª Guerra:

“Acendemos fogo no bosque, e ninguém dormiu: passamos o resto da noite cantando e dançando, contando um para o outro as aventuras passadas, e relembrando os companheiros perdidos, pois não é dado aos homens desfrutar alegrias incontaminadas.”

Primo Levi quinta-essenciou — ou quintessenciou, para usar um verbo que aprendo com Mario de Andrade em “Vida de Cantador” (Jotabê Medeiros, op. cit.) — a narrativa possível da destruição do ser humano e, no subtexto, do que restaria de humano no sobrevivente do terror, da violência, do (até então) impensável.
 

RESPIRE FUNDO

A meditação faz bem a muita gente. O relaxamento obtido com a prática — inspirada no budismo e chancelada pela ciência — proporciona equilíbrio, concentração, superação, bem-estar. Ninguém nega isso. Mas há outra dimensão do fenômeno planetário, que é política e econômica, a de um negócio, de uma valorizada commodity do mercado de autoajuda. A indústria da meditação movimenta a baba de 4 bilhões de dólares por ano em cursos, livros, documentários, filmes e uma ramificação que abrange terapias, dietas, liderança e até criação de pets.

Wall Street, a bolsa de valores dos EUA, o Vale do Silicone — berço da Gafam (acrônimo dos gigantes da rede, Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), agências estatais americanas, inclusive as militares e CEOs habitués do Fórum Econômico de Davos promovem como chefes de torcida os benefícios da meditação e da “atenção plena” (mindfulness), em geral associada ao método MBSR (Mindfulness-Based Stress Reducion), criado por Jon Kabat-Zinn, um professor emérito da Escola Médica da Universidade de Massachusetts. No fundo dessa cultura ecoa a busca da adequação espiritual ao status quo. Os grandes devotos da meditação estão em paz com a realidade, são resilientes e autocontrolados; subjugam as contradições, creem que as causas da inconformidade e da aflição com o mundo residem em si próprios; não se deixarão moer pelo sistema, ao contrário, aproveitarão seus avanços para trabalhar mais e enriquecer na era prodigiosa do capitalismo tecnológico.

SOLTE O AR

Acabei de resumir a linha de ataque da crítica de esquerda à “mindfulness”. O jornal britânico “The Guardian” condensou (em inglês) os argumentos do livro “McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality” (McMindfulness: Como a Atenção Plena Tornou-se a Nova Espiritualidade Capitalista), de Ronald Purser, um professor de administração e negócios em São Francisco, a sair no próximo dia 9. O título sugere uma óbvia correlação entre a cadeia de fast food McDonalds e a “atenção plena”, ancorada no sopro do momento e na consciência sem julgamento. A não inquirição moral sobre as consequências das decisões corporativas e a mentalidade apolítica que a prática favorece — defende o autor — encobrem a desigualdade e o sofrimento das vítimas do capitalismo. Ele cita, por certo, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, para quem a “atenção plena” tornou-se a “ideologia hegemônica do capitalismo global”, com a qual as pessoas se sentem confortáveis para “participar plenamente da dinâmica capitalista, mantendo a aparência de saúde mental”.
Não achei no texto adaptado do livro de Puser nenhuma ocorrência da palavra “alienação”, a velha e boa pedra de toque da crítica marxista à ideologia. Mas vivemos outros tempos e, seja como for, é estimulante acompanhar o confronto de ideais e a liberdade de pensar e de valorizar a inteligência. Os radicais extremistas evangelizados não sabem o que estão perdendo.

ODE AO ÓDIO

Os radicais extremistas evangelizados do Partido do Brexit, liderados pelo feroz Nigel Farage, apresentaram ao mundo seu intocável autorretrato. Na sessão de abertura do Parlamento Europeu, na terça-feira, dia 2, os 29 eurodeputados eleitos pela agremiação viraram as costas durante a execução do trecho final (Ode à Alegria) do hino europeu, a Nona Sinfonia de Beethoven. A turma de Farage conseguiu o que pretendia: deu as costas à humanidade, à esperança de fraternidade que todos os homens de boa vontade deveriam alimentar ou respeitar, compondo, com seu gesto, uma verdadeira ode ao ódio. Os eurocéticos da ultradireita certamente se ofendem com o que podem inspirar a música de Beethoven e o poema de Friedrich Schiller cantado pelo coro no quarto movimento da “Nona”, que diz:

Alegria, mais belo fulgor divino,
Filha de Elíseo, (...)
Todos os homens se irmanam
Onde pairar teu voo suave.
A quem a boa sorte tenha favorecido
De ser amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma doce companheira
Rejubile-se conosco!

A BELCHIOR, O QUE É SEU

Saiu claramente malcuidada a biografia de Belchior por Jotabê Medeiros, um jornalista de cultura e crítico musical que joga na Série A da nossa imprensa. Só agora pude ler “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Todavia, 2017). É mais um livro-promessa, lançado na carona da morte inesperada do “cantautor” cearense, aos 70 anos, depois de uma década de sumiço austral. Há lapsos, falhas de continuidade, pontos descritivos sem nó, bastante especulação. Um editor de classe poderia tê-lo enxugado e exigido mais do autor em pesquisa e entrevistas de campo. Mas, se lido pelo fã como perfil biográfico extenso, tem lá seu valor. É acurado na análise da obra e rico em curiosidades da trajetória do ídolo — educado como frade capuchinho, estudante de medicina, flâneur apaixonado por poesia e pintura, arte na qual quis tanto se apurar.

Jotabê se sai bem ao dimensionar a energia criativa e erudição de Antônio Carlos Belchior, bem como ao retratar a verve “dylanesca”, a elegância e também as fraquezas mundanas do ídolo da MPB que parece ter se embriagado além da conta com o sucesso, com seu dom-juanismo e novorriquismo, lembrado por Caetano Veloso no artigo para o “Estadão” em que fala das aparições nas festas ao lado de André Midani “usando ternos finos, fumando charutos caros e falando na cultura da Rive Gauche”, na esteira do estrondoso sucesso crítico e comercial do LP “Alucinação” (vendeu meio milhão de cópias, faixa onde apenas Roberto Carlos roçava). O mais importante: a agudeza da poética e sua singularidade em nossa herança cultural, a inventividade das canções, que supera suas carências em harmonia, e sua adequação ao canto de timbre inequívoco ficam bem assentadas no livro.

O canto torto de Belchior cortou a carne do seu ouvinte adolescente nos anos 1970 e deixou por cicatriz memórias microvulcânicas de versos desta densidade, que brilham e reluzem como uma esfera de aço: “A minha alucinação é suportar o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais”, da canção-tema de “Alucinação” (1976), que comentei no aniversário de 40 anos desse álbum.

SUA AJUDA É RARA, JURUPOQUE!

Se você não gostou da Jurupoca, suicido-me. Para cancelá-la basta clicar no “Unsubscribe” do rodapé. Se  gostou, obalalá, peço que me ajude a divulgá-la. Ela será fundamental para a continuidade da carta. A assinatura é feita pelo endereço http://tinyletter.com/asiuves

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.