Delícias da pindaíba

Num gesto largo, liberal e moscovita do autor da Ju, os diários de viagem de 2019 estão de volta ao blog

Jurupoca_49. Belo. 27/11 a 3/12/2020. Ano 2

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Altruísta como só ele, o autor da Ju reabriu aqui seus diários de viagem de 2019, num gesto largo, liberal e moscovita, para citar o Álvaro de Campos.

Os diários integram o livro divulgado ao pé dá carta, Turismo cultural e literário na Europa. Reaparece também por aqui o Inferno em Florença, outra crônica de viagem, anterior, depois reescrita e incluída no livro. Debalde, esse texto foi oferecido à Piauí, na honesta tentativa de um jornalista desocupado cavar uns caraminguás, alguém que poderia estar por aí, afanando, trucidando, currando etc.

A revista do Moreira Salles por sinal anda embirrada com a The New Yorker, na qual se decalca na origem, e de onde tirava o suprimento de suas melhores páginas, sempre muito bem traduzidas.

Vai ver que é isso. O Alcino Leite Neto e o José Roberto de Toledo, editores executivos da publicação criada e servida por João Moreira Salles, não dão bola para a marginália fora do “Eixo Rio-Sumpa”, logo um mineiro, residente a menos de 600 quilômetros de Poços de Caldas!, onde os Moreira Salles se estabeleceram.

Mas deixemos de prosa. Aos enlaces, a quem interessar possam:

Diário embriagado de Berlim

Diário congelado de Copenhague e Milão

Diário apaixonado de Trieste

Inferno em Florença

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Das delícias da pindaíba

Um alma poética consegue achar uma ou outra vantagem na dureza, acredite. Duro é quem vive de brisa, sem um puto para beliscar uns profiteroles na padaria da esquina. Se você não pode viajar, viaje ao redor de seu quarto. Não pode se dar ao luxo de novas aquisições de livros? Não morra por isso. Um leitor na pinda sempre tem a redescobrir delícias empoeiradas em suas estantes. Quem sabe ele não terá à mão (e nos braços fortes), e nem se lembra disso, as 1274 páginas (fonte Haarlemmer, corpo 9.5, 1,2 kg) de O homem sem qualidades, o romance inacabado! de Robert Musil, genial romancista austríaco do século 20 comparado a Joyce, Kafka e Proust, hoje desconhecido até dos corretores ortográficos. É leitura para mais de mês. Ou o humor fino e diabólico de Evelyn Waugh no breve (154 págs.) O ente querido. A maior graça de Waugh é fazer seu leitor se sentir mais vivo e inteligente do que é e está.

Abanando o rabo no céu

Em O ente querido, Dennis Barlow é um poeta inglês pilantra, desempregado como roteirista de Hollywood. Ele insiste em ficar nos EUA, e para pagar as contas e o uísque com soda no Clube de Críquete, trabalha numa funerária de pets. Aqui, ainda no início da novela, Barlow atende à chamada de uma senhora milionária, devastada pela perda de seu cachorro, Arthurzinho, atropelado por um caminhão de entregas. Barlow dirige a van preta da empresa rumo à mansão da Via Dolorosa, 270, onde é recebido pelo marido da grã-fina, o sr. Heinkel. Logo desfia o rosário de um papa-defunto de escol para empurrar na freguesia o que a Campo de Caça Mais Feliz tem do bom e do melhor, e mais caro, a oferecer. Nesse caso, os cuidados póstumos de Arthurzinho, um membro da família:

— Com disse?

— Enterrar ou queimar?

— Queimar, eu acho.(…)

— E os ritos religiosos? Temos um pastor que está sempre disponível para ajudar.

— Bem, senhor…?

— Barlow.

— .Senhor  Barlow, nenhum de nós é o que o senhor poderia chamar de pessoas muito devotas, mas acho que numa ocasião como esta a senhora Heinkel desejaria todo o conforto que vocês puderem oferecer.

— Nosso serviço classe A inclui vários itens exclusivos. No momento da cremação, uma pomba branca, simbolizando a alma do falecido, é solta acima do crematório.

— Sim, disse o sr. Heinkel —, calculo que a senhora Heinkel gostaria da pomba.

— E todo aniversário é enviado um cartão de cumprimento sem taxas adicionais. O cartão diz: Seu Arthurzinho está pensando em você no céu hoje e abanando o rabo.

— É um pensamento muito bonito, senhor Barlow.

— Então, basta o senhor assinar o pedido…

Bodes não abanam o rabo

Mais à frente em O ente querido, um Barlow assoberbado pelo trato crematório de canários, cães e gatos, vítimas de uma onda de envenenamento no sul da Califórnia, delibera com o sr. Schultz, seu empregador, sobre o caso excepcional de um bode despachado para o além aos cuidados da Campo de Caça Mais Feliz.

— Agora estou indo embora — disse o sr. Schultz. — Você poderia, por favor, esperar até que [as cinzas] estejam frias o bastante para embalar? São todas para entrega domiciliar, menos a gata. Ela vai para o columbário.

— Certo, senhor Schultz. E quanto ao cartão do bode? Não podemos propriamente dizer que ele está abanando o rabo no céu. Bodes não abanam o rabo.

— Eles abanam quando vão ao banheiro.

— Sim, mas isto não ficaria bem no cartão de cumprimentos. Eles não ronronam como gato. Não cantam uma oração como os pássaros.

— Imagino que eles apenas se lembrem.

    Dennis escreveu: Seu Billy está se lembrando de você esta noite no céu.

Entes Queridos e Entes à Espera

O venenoso Waugh compara o Campo de Caça Mais Feliz aos serviços funerários do verdadeiro Éden higiênico e poético das Clareiras Sussurrantes, luxurioso campo santo hollywoodiano onde não se fala absolutamente em defunto ou cadáver, nem se pronuncia o nome do de cujus. São aos “Entes Queridos”, em vez disso, a quem se destinam os serviços classe AAA daquela MGM das necrópoles. Já para os vivos, isto é, “Entes à Espera”,  existe a previdente Reserva Antes da Necessidade.

Negar o negacionismo (1)

Um crime filmado comove e move mundos e fundos compensatórios. Pois é. Os Entes Queridos brasileiros levados pelo Corona que podiam ainda estar por aí, como Entes à Espera, houvesse governo em Brasília, desgraçadamente não puderam ser filmados ao expirar. Sequer podem ser computados entre as mais de 170 mil almas da contagem oficial do consórcio de imprensa. Mas que existem, existem, ou existiam, tais almas. Ocorre que, como o sangue de Cristo, a negação do negacionismo tem poder. No pau de arara, as estatísticas da pandemia vão mostrar que nunca uma praga fez tão poucas vítimas na história deste mundo. E nada como um dia após o outro até o próximo Carnaval da Democracia.

Negar o negacionismo (2)

O negacionismo de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, eleito no Carnaval da Democracia de 2018, é negado impunemente no Planalto-Centrão. Negar à “nação”, como se diz no New York Times, o impeachment é nosso modo institucional de negar o negacionismo. Ou estamos aqui nesta Ju a menoscabar nossas operantes instituições?

A tecnologia da indignação

O mundo do espetáculo vai ao paraíso com os telefones inteligentes. No mundo do espetáculo, a indignação é seletiva e intempestiva. Uma boa tragédia, injustiça ou covardia não existe sem um vídeo quente como uma hemorragia. Espancamentos, assassinatos, operações policiais, atropelamentos, avalanches, enchentes. Eis o menu do jornal da noite; eis o tempero amaro na boca e no semblante indignados de um Reinaldo Azevedo (note suas pausas dramáticas) ou de um comentaristas da “família Globonews”.

Equivalências trágico-midiáticas

Segue válida a “lei de McLurg” , formulada há mais de 50 anos por um eminente jornalista para estabelecer o valor relativo da notícia: um europeu equivalia a 28 chineses, e 2 mineiros galeses a 100 paquistaneses. Considerada a inflação do período, pode-se verificar no câmbio das agências noticiosas que um europeu sai hoje por 180 iraquianos, e 2 americanos por uns 350 afegãos.

McLurg por aí

Na mesma segunda-feira, 2 de novembro, quando se foram 4 almas em Viena, incluindo a de um terrorista, supostos atiradores talibãs fizeram 32 vítimas fatalíssimas na universidade de Cabul, no Afeganistão. Numa homenagem velada a McLurg, essa última notícia não coube no Jornal Nacional e em outros telejornais.

À sombra da indignação

O antirracismo é uma unanimidade no país, ao menos na mídia e sempre que um crime é filmado. A violência policial é coisa nossa, ou talvez o racismo possa mesmo explicar por si só por que se mata tanta gente todo santo ano. Além do racismo policial, haverá o racismo do tráfico, o racismo da milícia e o racismo puro. Uma certeza sucede outra e a indignação de ontem será amanhã uma sombra fugidia.

A viúva de Marielle

Já estamos na eleição da viúva de Marielle no noticiário, e ninguém sabe quem mandou matar a vereadora e seu motorista. Hoje, a morte do menino João Pedro, de 14 anos, uma entre tantas crianças pretas mortas por “bala perdida”, prova que essa forma de morrer incorporou-se à natureza majestosa do Rio; como o raio, o trovão e a roda de samba, não pode ser evitada. O caso de João Freitas segue a toada. Servirá para acordar o Carrefour para os benefícios da renovação publicitário-corporativa. Nas hostes de Sua Excrescência Caveirão Jumentíssimo, o Franco, disfarçaram mal sua excitação com as cenas do estacionamento do macabro supermercado francês; para essa turma, melhor pornô não há, a não ser, claro, as sessões oferecidas pelas milícias que regem a Zona Oeste do Rio.

Um país jovem

O Brasil é um país em permanente renovação. Como um idiota, nunca envelhece.

Dominguinhos & Chico

Chico Buarque é parceiro de Dominguinhos em duas canções: Tantas palavras, 3ª faixa de Chico Buarque (1984) e Xote de navegação, 5ª faixa de As cidades (1998). Ambas estão no núcleo das obras primas do nosso artista maior.

A letra da primeira tem duas versões, uma que é indigna da melodia de Dominguinhos e do próprio Chico, cantada por ele, Chico, na trilha da novela Sabor de mel (Ariola, 1983) e a versão definitiva, gravada no LP autoral do ano seguinte. Aí sim Chico se houve com a própria arte e com a música do grande parceiro.

A segunda letra é a que tem versos como “Trocamos confissões, sons/ No cinema,/ dublando as paixões/ Movendo as bocas/ Com palavras ocas/ Ou fora de si/ Minha boca/ Sem que eu compreendesse Falou c’est fini/ C’est fini”.

Tantas palavras foi arranjada por Cristóvão Bastos, e bastou (me permita, leitora amiga) para o resultado, mais que justo, agregar o acordeom de Dominguinhos aos teclados de Hugo Fattoruso, músico que há décadas acompanha Chico em shows e gravações.

Quinze anos mais tarde — contou Chico em entrevista recomenda na Ju#48 — ele teve a ideia de uma canção, um mote poético, e se lembrou de um dos temas que recebera do amigo e guardava numa fitinha K-7 durante todo esse tempo.

Era o Xote de Navegação, um rubi luminoso incrustado na tiara mais preciosa da canção brasileira.

Na mesma entrevista, Chico lembra que ao ouvir a letra cantada, já no estúdio, Dominguinhos não conseguia parar de chorar. Nos ensaios da gravação, tirava uma introdução atrás da outra na sanfona, cada uma mais bela que a outra, para não se lembrar depois do que havia criado, quando lhe pediam para tocar de novo, agora para valer.

O resultado é desses que revelam ou traduzem o poder da música. O acordeom dá o tom da melodia, arranjada por Dominguinhos e Luiz Claudio Ramos, que faz o violão. Entram Jorge Helder (contrabaixo), Ricardo Amado (violino) e Zé Menezes (José Menezes França), bandolim.

Se Tantas palavras é o romantismo levado à quintessência literária de uma letra de música, esse Xote de navegação é de salvar uma alma sem eira nem beira, ao fazê-la reencontrar o curso franco da existência ao navegar na barcaça onde ‘tudo, tudo passa/ só o tempo não”.

O tempo passa mas agora o vemos, ou flagramos, pois “passam paisagens furta-cor/ Passa e repassa o mesmo cais/ Num mesmo instante eu vejo a flor/ Que desabrocha e se desfaz”. É o tempo da “tua música”, da “tua respiração”.

Dominguinhos (José Domingos de Morais) tinha mesmo que, como se dizia antanho, prorromper em pranto ao ver sua criação ganhar uma nova espécie de vida, por meio da palavra.

TANTAS PALAVRAS – Dominguinhos e Chico Buarque (2ª versão da letra)

Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
Tantas palavras
Que ela gostava
E repetia
Só por gostar

Não tinham tradução
Mas combinavam bem
Toda sessão ela virava uma atriz
"Give me a kiss, darling"
"Play it again"

Trocamos confissões, sons
No cinema, dublando as paixões
Movendo as bocas
Com palavras ocas
Ou fora de si
Minha boca
Sem que eu compreendesse
Falou c'est fini
C'est fini

Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz

Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui

XOTE DE NAVEGAÇÃO – Dominguinhos e Chico Buarque

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo
O afazer
Me pego em sonho
A navegar

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais




Liberadas para adultos

Adultos podem se entreter sem susto e sem surtos de acne com estas novas séries: Speakerine (Film & Arts) ambienta nos estúdios da TV francesa uma trama de crime e luxúria durante o mandarinato do general De Gaulle e a perigosa diplomacia na Guerra Fria. A britânica Gangs of London (Starzplay) reúne um elenco de primeira, tem excelente roteiristas e, para os chegados, a Ju está fora, esbanja violência. Já No man’s Land  (Starzplay) é um thriller sobre a Guerra Civil na Síria, na qual se mete um engenheiro francês, Antoine, em busca da irmã supostamente desaparecida. Esta classificação se baseia em um ou dois capítulos e poderá ser alterada sem aviso prévio, na próxima Ju.

Das delícias da pindaíba

Ver séries à vontade, para uma alma serena, é outro benefício da desocupação, enquanto se pode pagar a TV a cabo e a conta de luz.

Glórias que não dão cliques

Toninho Horta faturou o Grammy Latino de melhor álbum de MPB. Belo Horizonte foi lançado em maio do ano passado. Aqui e ali deram notas sobre o prêmio. Prêmio e glória, por festivos, dão cliques. Você não encontrará muito além disso. Nada de velharias como entrevista, crítica ou reportagem sobre o disco. Um artista da envergadura de Horta, cuja arte é celebrada há mais de 50 anos da Savassi, no Belo, a Asakusa, em Tóquio, com parada certa em Manhattan, já não passa no crivo dos ex-cadernos de ex-cultura de certos ex-jornais brasileiros. Os ex-cadernos favorecem antes games, influencers e, se você me permite, funkers com causa. Escute ao menos Aqui Ó!  Ficou um primor com a participação de João Bosco, ou Pedra da Lua, com Joyce Moreno.

E o que é diverso à diversidade?

Um tardígrado: única espécie sobrevivente ao jornalismo cultural contemporâneo

Atualizo e resumo um post de cinco anos trás, hoje ainda mais válido:

[1] Acossado pelo infantilismo,  patrulhado pelas milícias do pensamento, tangido pelo advento das redes sociais e das recompensas do caça-clique, o jornalismo cultural perdeu o norte, além do caráter. A geleia geral sem osso ou tutano um dia apontada por Décio Pignatari atomizou-se em farofa cibernética — e vende-se como Baconzitos empacotado com design exclusivo para cada tribo consumidora.

[2] Literatura, teatro e outras artes moribundas doravante só têm o que comunicar com seres errantes, como ursos brancos pendentes em blocos de gelos nos mares glaciais.

[3] Pepe Escobar, velho herói do jornalismo cultural brasileiro, tascava o “juvenilíssimo” que, à época, uma faixa entre os anos 1980 e 1990, predominava nas redações de cultura. E pensar que hipsters de academia, fofoqueiros multimídia, fãs de livros para colorir, Mondrians da cozinha e Rosas do vinho tomariam todas as posições.

[4] O próximo passo do jornalismo cultural será operar em modo algoritmo. O usuário terá o serviço completo em apps de entretenimento com menu de engajamento enviesado ao máximo: “gostei”, “não gostei”, “é demais”, “ri”, “rachei os bicos”, “fiz pipi”, “fiz cocô” etc. Vai assistir a vídeos, interagir com o editor, pautar a redação, contratar e demitir jornalistas. Toda a diversidade será contemplada, exceto o que for diverso à diversidade.

[5] A memória na diluição homeopática do espírito pelo jornalismo cultural desenvolveu seu próprio mal de Alzheimer. E ainda persiste o “vamos todos ligar o foda-se”, em massa, como blague, dos que ainda imaginam a possibilidade de ser livres!

[6] O jornalismo cultural logo vai incorporar como subgêneros, além dos games e do colunismo de rede social, a jardinagem e os cuidados com pets. Mas já incorporaram, não?

[7] Embora não sejam lidos, os poetas vivos sobrevivem no Brasil como entertainers ou, pior ainda, influencers. Suas chances crescem à proporção de sua adesão ao e-Tudo, e da capacidade de seus poemas emocionar no Instagram, além da correção política. Há quem literalmente se vista de palhaço. O mais constrangedor são os adolescentes semicalvos à beira das sete décadas a declamar seu batatinha-quando-nasce por aí, isto é, nas redes sociais.

[8] O provincianismo de metrópole só tem feito expor-se ainda mais no jornalismo cultural carioca e paulista, o que seria impensável há 40 anos.

[9] O leitor médio do jornalismo impresso só lia títulos e bigodes. No jornalismo para telefone inteligente, enxerga apenas as listas de mais clicados ؙ— e, satisfeito, se dá por informado.

[10] Está tudo dominado pelo Homo facebookensis.

El pibe de oro

Até a bola se entristece com o destino de Maradona

O fim de Diego Maradona me lembrou a velha frase atribuída a Eurípedes: Os deuses primeiro enlouquecem a quem querem destruir. Podem, os deuses, terem sido uns invejosos, e feito dele “o mais humano dos imortais”, no título lapidar do New York Times. Para quem ama o futebol e o viu em campo, fica o bailarino e coreógrafo e o compositor de trilhas silenciosas que ainda ouvimos quando ele parte com a bola e acende o fogo perpétuo do lance.

«Até dia 30 você pode ver o especial de Monica Salmaso e André Mehmari no Youtube, e quem sabe contribuir pagando um “ingresso consciente”. É o melhor produto cultural de 2020, uma produção impecável em arte e técnica. No piano de Mehmari, a música popular brasileira se faz intemporal, altiva e universal, e Salmaso, vem cá, canta como pouquíssimas estão cantando. A Mônica amou o comentário do primo Franquilim da Silva entre os youtubeiros: “Aplauso, aplauso, aplauso, aplauso, aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso aplauso… de pé… continua…”.

«Leila Pinheiro e GuingaCanibaile (Guinga e Aldir Blanc)»

«Se você ainda não ouviu o pianista islandês Vikingur Ólafsson, pode ser que ainda não tenha ouvido esse instrumento em tão boas mãos.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas.

Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Saiba como:

Para fazer uma transferência direta por meio do PIX, clique aqui para para ir à página da conta Nu Bank do autor do blog, ou copie e cole o seguinte link:

https://nubank.com.br/pagar/1frxky/x7sjM5FSKK

Alternativamente, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Matou a ‘família Globonews’ e foi ao cinema

Jurupoca_47. Desde o Belo. 13 a 19/11/2020. Ano 2

Mark Rothko (s/ título)
Anamnese

 
 Entre um dado e mil dados,
 No correr do sucesso
 De fatos e fotos,
 Enredado em destroços
 Do mundo encapelado
 Pós-tsunami do tédio,
 Já não me cabia
 Entre a dieta e o remédio,
 E me desavinha, náufrago,
 Na estranha paisagem estilhaçada;

 Ousar eu não podia
 Interromper a viagem
 Na jornada estendida
 Que cumprir devia:
 Minha nave errou
 De rota na galáxia?

 Quando a onda entrou,
 A padecer de hipóxia,
 Sei que desde então
 Vago zambo,
 Que quando me canso
 Paro de supetão
 Para um trago,
 Ou num breve remanso
 De farmácia, entre tantas
 Estações que não alcanço;

 Que, penso, não importa,
 Mas a verdade mais lisa,
 É que a vertigem me bate
 No limiar da saída,
 Ao sucumbir à gravidade
 Que antecede a subida.

 [15/"21 Poemas" - Antônio Siúves - 2016] 

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

A Ju, você sabe, é uma influenciadora digital que não influencia ninguém, or as a digital influencer Jurupoca is a big loser, said Mr. Orange Agent in a famous tweet that went viral after retweeted by Mr. Caveirão.

Também não caça-clique por aí, a Ju, como uma influenciadora qualquer.

Pode-se sim dizer que roda a bolsinha entre bits & bytes, mas é vaidosa como poucas.

Não aceita qualquer cliente e diz NÃO terminativo para ministros do STF, partidos políticos e investidores do Silicon Valley.

Agora, era capaz de qualquer sacrifício para salvar a cidade apavorada, surgissem dois mil canhões assim de um Zepelim prateado.

Com quase ano e meio de vida, e relutante como um Quixote dos Pintados, antiga fazenda de Ibirité, Minas dos Matos Gerais, a Ju procura um patrocinador master.

O pedido de colaboração que vai no pé low profile da cartinha é um rematado sucesso. Só no Querosene a Ju tem três leitores abnegados. Todo mês pingam um pingado sem pão quente na chapa.

Deus é pai e é fiel, mas não aceita cartão de ovelha desgarrada.

Já a Crefisa insiste em apoiar exclusivamente o Jornal Nacional. O CEO da emprestadora de grana a juros de pai para filho sequer devolve minhas chamadas.

Seja como for, lá vamos nós, brava gente, longe vá temor servil.

Mas aí, meu bom, vai me a abençoar com o troco do profiteroles?


Com a “família Globonews”

Não chego a extremos, como membros da “família Globonews”, de abandonar mulher e filhos, mas também sou doidinho pela Kamala Harris.

Para entrar no clima

As notas que seguem devem ser lidas ao som de Rhapsody In Blue, do Gershwin, aí não por acaso na trilha de Fantasia 2000, clássico atualíssimo dos estúdios Disney.

Embarrigado pela ignorância

Confesso-me enfeitiçado como numa fantasia de Walt. A redenção hollywoodiana veio depois de quatro anos de tortura infligida ao mundo por um bilionário animador de TV tuiteiro. Ainda na adolescência, menor de idade, se viu embarrigado pela ignorância. Tal criatura alaranjada, pançuda e bronca poderia ter saído do caldeirão das bruxas de Macbeth. Mas não. Brotou dos miolos e úteros da sociedade norte-americana.  

Filiação

Muita gente boa tentou explicar a ascensão da besta quadrada laranja. As melhores repostas não livraram ninguém: a desigualdade crescente, o populismo, as vítimas da exportação de empregos e da desindustrialização, as vítimas da “destruição criativa” exclusivista do Vale do Silício, a vingança branca supremacista contra os governos Obama, a esquerda lacradora há décadas desviada para questões paralelas ao trabalho e ao ganha pão das famílias, o terraplanismo, os republicanos, os democratas, os incas venusianos, eu, você e o Asmodeu. Mas no Bananão (tks, Lessa, sempre) podemos afirmar com segurança: não temos nada a ver com o empreendimento, com a gestação e o parto da criatura em novembro de 2016. Daí certa surpresa, meu senhor, minha senhora.

Conforme fontes terraplanistas no Itamaraty, os incas venusianos teriam provido a vara da qual nasceu a besta quadrada laranja

A Cobertura do Milênio

Nunca houve uma cobertura tão grande feita por tão poucos. Os repórteres da rede de emissoras Globo trabalharam em cadeia global demais e dormiram de menos. Um se viu atrapalhado pelo serviço secreto; outro, olheiras indisfarçáveis pela maquiagem, baralhava a soma de votos em estados que sambavam no telão. A Georgia insistia em fazer fronteira com o Arizona, e o sistema eleitoral aloprado ficava cada vez mais endoidado aos olhos de um brasileiro empoderado pela urna eletrônica.

Kamala ou Raia?

E o Fantástico? Nu. Estava tão show da vida que num piscar de olhos pensei assistir a uma entrevista exclusiva com a Kamala, e já me assanhava. Quem dera. Era a Claudia Raia passando uma série de casamentos e transas a limpo, numa atração exemplar do brazilian new cultural journalism. Nem um pio sobre a arte de interpretar, dançar e sapatear nos palcos e na TV, que ela domina tão bem.

O novo jornalismo cultural

O brazilian new cultural journalism dos ex-cadernos de ex-cultura puseram as sete antigas e belas artes no seu devido lugar. Da arquitetura ao cinema, sai tudo de cena, uma revolução. Já evoluímos para umas 30 ou 40 formas de arte dignas de cobertura via Instagram. A eternamente vanguardista e imperativa Ilustrada incluiu no rol das novíssimas artes, entre várias outras, os games, o colunismo de rede social e o engajamento progressista. Exclusivo: a Folha se prepara para ser o primeiro jornal imprenso a ser inteiramente reabsorvido pelo meio digital.

A mão que balança a coleira

Caveirão.105mm! seguia na moita, caluda, sobre a eleição de Joe Biden. De repente se vira abandonado, e tropicava como trêfego em duas emas. Explicação? É que lá em Washington, num verdejante campo de golfe, tão verdejante que lhe dava vontade de pastar, entre uma tacada e outra, tremeu a mão que segura a coleira, tremeu a balouçar como um doente de São Guido, antes de Biden discursar em Wilmington. Tanto foi assim que, três dias depois, na outras ponta da coleira e a 11 mil km de distância, trincado e tremebundo, Caveirão viria passar uma descompostura na nação, por motivo fútil, como se tivéssemos aclamado Biden e a escultural Kamala: seus maricas!, declarou. E somos um país afeminado pelo Corona e pelo partido Democrata, quem duvida? Na República Federativa e Miliciana do Brasil se resolve é no braço, na peixeira, no AK-47 e na cloroquina. Não tem essa viadagem toda, esse negócio de só uma picadinha, uma gotinha, uma vacininha.

O melhor da NET

Um leitor da Ju, depois de zapear pelos 520 canais a cabo, exausto com a caudalosa e trepidante Cobertura do Milênio pela “família Globonews” (a única no mundo a transmitir na íntegra o pronunciamento de Donald na noite do dia 5), conclui que o Dog TV era o canal mais cult da NET, enquanto o Fish TV, o mais educativo, empatado com E e Pai Eterno.

Picolés de todos os sabores! Olha aí freguesa

A “família Globonews” e outras boas famílias da nossa imprensa repetiam feito louros que Joe Biden não passa de um Alckmin, um “picolé de chuchu”. Era como se o carisma fosse decisivo para a saúde da democracia, além do bem estar dos álacres comentaristas; como se a falta de talento para o espetáculo televisivo, para o show da vida, fosse pecado em nossa civilização, e na verdade pecado até é. Que sabores de picolé seriam Besta Laranja e ¡Caveirão.105mm!?, eu matutava. E você aí já cantou a pedra. Oh, quanta cremosidade lambida gostosamente pela ralé e pelos próceres do olavismo terraplanista.

The Undoing

Nicole Kidman está linda, elegantérrima, cheia de cachos e infernal em The Undoing, aos domingos na HBO. Ela aparece já na abertura, quando vemos, ou ouvimos, ela ter o topete, ou as melenas cacheadas, de cantar a mitológica e quase centenária Dream A Little Dream Of Me (Gus Kahn, André Fabian, Schwandt Wilbur e Gus Kahn). E se sai bem também nisso a danada! Deu certo para a ambientação do suspense, que até aqui nos mantêm vidrados nas reviravoltas enganchadas no final dos episódios. Mal podemos esperar a próxima madrugada de domingo para ver no que a trama dá.

A propósito da bela canção

A quem interessar possa, minha versão favorita de Dream A Little Dream Of Me é esta daí.

O Álbum musical (WEA, 1977;  Biscoito Fino, 2004) de Francis Hime tem faixas sublimes como este samba Anoiteceu, de Hime e Vinicius de Morais, na voz de Milton Nascimento.

A participação de Milton é comentada por Hime no encarte:

Desde que conheci Bituca, ele gostou muito dessa música. E chegamos a cantá-la várias vezes em Três Pontas, num evento em homenagem a Milton, quando se inaugurou a praça Travessia com um grande show. Logo depois eu a gravei no meu disco Passaredo, e Bituca ficou “brabo” comigo (como ele costuma dizer), pois queria que eu o chamasse para tocar violão na gravação. Imaginem, que modéstia! E agora, cerca de 20 anos depois, vejam que coisa mais bonita que ficou o samba cantado por ele. A propósito, aquelas vozes todas da introdução à capela ele inventou na hora”.

“Aquelas vozes todas” são outra pura singularidade de Milton. Ele parece conseguir recriar a relação intrínseca que existe entre música e silêncio. Depois, com perfeição, cai no andamento cadenciado do arranjo de Cristóvão Bastos.

Compare-se com o registro de Passaredo (Som Livre, 1977) — igualmente antológico — com os intervalos de um “sambão” clássico. Não duvido que a escolha do andamento tenha sido orientada pela adequação do samba ao timbre bituquiano.

O piano de Bastos tece uma trama com as percussões de Marco Suzano, pontuada por crucial cuíca, o violão de Marcos Pereira, o baixo de Omar Carvalho, os trombones de Vittor Santos e a bateria de Elcio Cáfaro.

Suponho que não tenha vindo do nada a escolha de Anoiteceu para abrir o disco, uma síntese da sofisticação harmônica e da criatividade melódica do compositor, cantor, pianista, arranjador e maestro Francis Victor Walter Hime, hoje aos 81 anos. O maior dos parceiros de Chico Buarque, por profícuos 12 anos, sabia melhor que qualquer outro ouvinte o que tinha nas mãos.

Anoiteceu foi um de suas primeiras composições com Vinícius, primeiro parceiro. No mesmo ano, 1963, fizeram Sem mais adeus, interpretada por Chico Buarque neste Álbum musical.

ANOITECEU – Francis Hime e Vinicius de Moraes

(A luz morreu, o céu perdeu a cor
Anoiteceu no nosso grande amor)

Ah! Leva a solidão de mim
Tira esse amor dos olhos meus
Tira a tristeza ruim do adeus
Que ficou em mim
Que não sai de mim
Pelo amor de Deus

Vem suavizar a dor
Dessa paixão que anoiteceu
Vem e apaga do corpo meu
Cada beijo seu
Porque foi assim
Que ela me enlouqueceu

Fatal, cruel
Cruel demais

Mas não faz mal
Quem ama não tem paz

Praia dos Ossos

Depois da prescrição do dr. P., vi quase de enfiada os oito episódios de Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, produtora de podcasts parceira da Piauí. Está tudo lá — a saga de Ângela Diniz e o que dela decorre como sinal do patriarcado e do machismo eterno, feroz e letal —  muito bem pesquisado, documentado, roteirizado e narrado. Podiam ter evitado boa parte da fofoca de colunismo social sobre a carnalidade de Ângela, no quinto episódio. Em nome da curiosidade lascívia do público, correram o riso de dar uma força e até apimentar os argumentos do advogado Evandro Lins e Silva sobre os apetites da pantera mineira, apetites que a teriam levado ao suicídio pelas “mãos de outrem”. E podiam ter me poupado, como ao doutor P., da tese estapafúrdia da historiadora Mary Del Priore sobre a tradição da infidelidade no nosso high Society. Os ouvintes mais atentos hão de se perguntar de onde saiu a base empírica daquelas afirmações sobre a “normalidade” das trocas de casais entre amigos. Tais senões não estragam um ótimo e exemplar produto jornalístico.

«Sozinho em Veneza, por Colm Tóibín. No London Review of Books

« Dvořák: por onde começar com sua música. No Guardian

«Um mundo sem trabalho? Por Aaron Benanav, na Dissent

«Bibi Ferreira: Gota D’Água e Basta Um Dia (ao vivo)»

«Ná Ozzetti e Dante Ozzetti em live colaborativa reunindo artistas da Circus Produções: Suzana Salles, Patrícia Bastos, Lívia Nestrovski e Juliana Amaral. Recomenda-se muita atenção no soprano cristalino de Livia, muito próximo do timbre de Ná.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2

Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal   [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando Brandt e Marcio Borges]

E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês   [A palo seco, Belchior]

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo?

MEMÓRIAS QUASE PÓSTUMAS — Não sou defunto autor, como o Brás Cubas, ainda que, óbvio, Machado siga muito mais vivo que eu. Mas estas anotações não deixam de ser memórias mais ou menos póstumas, ou quase póstumas, de um jornalista tecnicamente morto, na afiada expressão de Paulo Francis

MORTE WAGNERIANA — Pode-se dizer que o Francis tecnicamente morto não aguentaria cinco minutos em 2020, e o Corona seria o menor dos problemas. Sua morte precoce, em 1997, teria, quem sabe, sido obra da graça, decerto de algum dos deuses que povoam as óperas de Wagner, que ele tanto amava. Francis já estaria frito, cancelado e sepultado pela censura politicamente correta, pela cafonice e pela imposição final do gosto rebaixado pelas massas.

EFEITOS COLATERAIS — O colapso da cultura letrada, tema caro ao filósofo alemão Peter Sloterdijk em Las epidemias políticas (edição hispânica) foi, por assim dizer, parasitado pelos populismos no mundo digital. Os estragos na política são mais visíveis. O Brexit, Trump e Caveirão são frutos desse contínuo. A epidemias de ignorância, estupidez e arrogância são seus corolários, e vieram para ficar, mas a grande euforia com essa degradação parece renovar suas energias em moto-contínuo.

DESEJO DE INCOMPETÊNCIA — “Ou não é o populismo a nova forma do cinismo, aquela que expressa o ‘desejo generalizado de incompetência no poder’ — pergunta a cientista social argentina Margarita Martínez no Clarim.com — ou seja, agrega a pesquisadora, ao comentar o livro de Sloterdijk, “a possibilidade mental de que qualquer um de nós alcance a possibilidade de decisão coletiva?”

POESIA E NEUROLOGIA — Memórias quase póstumas jamais terão o brilho da verdade que ostentam as memórias de um defunto autor. E nem se pode dizer que toda memória seja póstumas, já que, vivos, refazemos e adaptamos o passado sem parar, e isso não é poesia, é neurologia.

AI QUE PREGUIÇA — Quase tudo que é novo e encanta meninos e meninas de hoje, ou seja, jovens à beira dos 40 anos — hábitos, moral, ideias, ideologia, diversão, tecnologia, gadgets — me mata de preguiça. Sou o Grande Otelo aí. Sou Macunaíma.

UMA TEORIA DA RELATIVIDADE — A vida de quem tem mais de 50 anos e não enfrentou um lifting radical para namorar nos aplicativos, ou faz isso no sentido figurado, é uma vida relativa, mas ao menos não alimenta a fantasia de passar o bico no tempo, o que é viver menos ainda.

SINCERIDADE, SIM, MAS DEVAGAR — “A franqueza é a primeira virtude de um defunto, diz o finado narrador das Memórias Póstumas. Já as memórias quase póstumas de certos escribas não podem, por certo, alcançar plenamente tal virtude, ou ele seria um suicida, apenas a persegue, isto sim.

VELHARIAS — Afinal o que é o colapso da cultura letrada? Costumes como a leitura de grandes livros e a conversação educada entraram, e não de agora, em franca obsolescência. Ou experimente compartilhar a alegria de ler ou reler Grande sertão: veredas com amigos que não descuidam do celular por cinco minutos.

FORA DE ÓRBITA — O que não viraliza está fora do radar da vida coletiva, que é ególatra por excelência, helahoho! helahoho!

IMPÉRIO DO PORNÔ — Buscam-se as sensações, na política e no debate público virtual, como quem se apega à pornografia para se autossatisfazer, sem muito trabalho, instantaneamente.

O TEMPO QUE DILACERA — “Quem não conhece o tédio, encontra-se ainda na infância do mundo,” — reflete Cioran no Breviário da decomposição — “quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio… porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta — ou inventa — a vida…”.

QUE PASSEM OS DIAS… — Cioran fala do “vazio do coração ante o vazio do tempo…”. Prefiro a poesia do Pessoa, aqui em fase Álvaro de Campos, para quem “ser vadio e pedinte” é “ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem.”

“MONSTRO DELICADO” — O spleen dos ingleses, que acreditavam que a melancolia era destilada no baço, o ennui dos poetas franceses — o horror das mentes criativas do século 19, o velho tédio. O tédio fora o “mal do século”, de mãos dadas com a tísica, é certo. “O que é o corvo de Edgar Poe senão outra encarnação do monstro baudelairiano?”, indagava Antonio Callado num texto sobre o suicídio de Kurt Cobain, estrela do Nirvana, aos 27 anos. O “monstro delicado” de Charles Baudelaire é descrito no poema que abre As flores do mal, dedicado ao leitor. Repito um trecho na Jurupoca, um pouco estendido desta vez:

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, 
Em nosso crânio um povo de demônios cresce, 
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, 
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada 
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos, 
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, 
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo! 
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo; 

É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção, 
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Extrato de Ao leitor, abertura de As flores do mal, Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2015.

O MONSTRO POR AÍ — Baudelaire tinha razão, sabemos o que é o tédio, mas fingimos que não sabemos. Callado indagava, em 1994, se o monstro havia sido derrotado. Os franceses não usavam mais “ennui” no antigo sentido baudelairiano, ele diz, e os ingleses há muito haviam deixado de atribuir o spleen a uma secreção visceral. Mas diante da morte Cobain, ponderava o autor de Quarup, era o momento de reconhecer que o monstro havia mudado de nome, trocara a doença que outrora disseminava e as drogas que ministrava, mas continuava vivo e feroz.

SAI HAXIXE ENTRA PROZAC — Em 1994, Callado mal podia intuir o debate sobre o monstro que ocorreria nas décadas seguintes, e o protagonismo da psiquiatria sobre a variegada psicanálise. Já havia certa festa em torno do Prozac, é verdade. O haxixe, o absinto, a cocaína, verdadeiros remédios no século 19, para os criativos, há muito não serviam. Uma revolução estava em curso desde meados do século passado. A nova farmacopeia, ansiolíticos e reguladores do humor, ganhava os rótulos de potências farmacêuticas e passava a ser aviada em formulários médicos de cor azul. Logo o azul?

O MONSTRO SEGUE EM CAMPO — Mas o monstro está por aí. O antideprê salva vidas. Também anestesia vontades e esteriliza a criação. “Há anos que não me emociono com nada”, dizia Cobain na sua carta de despedida.

ABRAÇAÇO NO PLANALTO-CENTRÃO

O procurador Aras e o advogado Kakay, desperdiçado astro de filmes de terror, foram algumas das excelências prestigiadas no rega-bofe do ministro Toffoli em Brasília, no último sábado (02), oferecido para saudar (e soldar) o mais novo indicado ao STF — indicação tramada no breu das tocas pelo advogado Frederick Wassef e o filho senador filho do !Caveirão.105mm!. “O almoço, que em qualquer país civilizado provocaria escândalo, começou às 14 horas e foi até a noite, com futebol e pizza”, anotou Merval Pereira. “A fauna brasiliense presente ia de advogados que atuam no Supremo, políticos de vários matizes, presidente do TCU e, por último, mas não menos importante, o presidente da República em pessoa, que está sendo investigado pelo STF”, comentou o colunista de O Globo. A festa deu as bênçãos (e a solda) de Brasília — esta puta velha niemeyeriana do Planalto-Centrão — ao  desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Kassio Nunes. Entrou para os anais e, agregaria Odorico Paraguaçu, para os menstruais da República o abraço de Dias Toffoli, o jurista que sabia Javanês, em ¡Caveirão.105mm!. Só faltaram se beijar na boca, à moda russa, como Brejnev e Erich Honecker em 1979. No ajantarado sagrou-se a República da Tubaína, que ora se apodera da vetusta rameira supracitada.

Fraternos amigos de infância no Planalto-Centrão. Reprodução CNN/O Globo

UMA SUADEIRA EM ZUCKERBERG
OU ALÉM DO DILEMA DAS REDES

Kara Swisher, editora executiva do Recode Media, do site Vox, dá uma suadeira literal em Mark Zuckerberg, durante uma entrevista. A cena é das mais emulsificantes em The Facebook Dilemma, documentário em duas partes do canal de televisão pública norte-americano PBS, lançado outubro de 2018. Pelas tantas, Zuck pretexta estar resfriado para tirar o casaco empapado. Temos a impressão, e Swisher sugere isso, de que o eterno nerd angelical fora flagrado pela mãe no auge uma travessura. Resultado de um ano de trabalho, a produção tem alcance maior e mais foco que O Dilema das redes, e não precisou recorrer à dramatização para oferecer um quê de emoção extra. A decupagem dos fatos imprime o ritmo da narrativa. As entrevistas com representantes da rede social e ex-mandachuvas das Big Tec são conduzidas por jornalistas pra lá de tarimbados. Genocídio, manipulação eleitoral e campanhas massivas de notícias fraudulentas contra adversários políticos ou inimigos, perpetrados por meio da plataforma, estão bem documentados e analisados. “Conectar o mundo”, o mantra de Zuckerberg, soa mais falacioso e ridículo a cada nova papagaiada, à medida que se expõe a conivência do Facebook com um nefasto legado de crimes. Confrontada por documentos e provas, a rede alega que nada pode fazer além do que já faz, ou seja, um inócuo monitoramento de ilicitudes. O documentário mostra a explosiva divisão social no Egito, na ressaca da “Primavera Árabe”, e as manobras de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra opositores. Detalha a perseguição à minoria islâmica rohingya, em Mianmar, por extremistas da maioria budista. E ainda se detém na fábrica russa de fake news que opera em São Petersburgo, usada por Putin para enfraquecer a resistência ucraniana, e no escândalo da empresa britânica Cambridge Analytica e a interferência russa nas eleições norte-americanas. Não tiveram tempo de incluir no roteiro o Brasil que elegia ¡Caveirão.105 mm!. Tudo isso já é história contemporânea, e quase metade do planeta segue fascinada, conectada ao Face, ajudando a realizar o sonho de Zuckerberg de cedo ou tarde ligar todos os habitantes da Terra à plataforma. Afinal, afora os trilhões, ele se acha um demiurgo, cuja criação está acima de todos os males que venha causar à humanidade.

NO CADERNO DE EX-CULTURA
DE O GLOBO É CHOPRA NO MEL

O Globo extinguiu há tempos o suplemento Prosa & Verso. De quebra, os Marinho sepultaram o jornalismo cultural. O jornal dobrou-se à realidade do caça-clique, e com isso se tornou ainda mais irrelevante, à parte ainda manter competentes editorias de política e opinião. Na seção online chamada, como pode, e como grande boa vontade, de “Cultura”, destila-se o suprassumo do entretenimento rasteiro. Sábado passado (2), dia em que circulava o Prosa & Verso, a página destacava a matéria recortada acima. Com o guru de Lady Gaga, soubemos, estaríamos todos salvos da polarização. Atenção chacretes de Olavo de Carvalho, ditas olavates; acorde, miliciano constrangido (@!#%) do ¡Caveirão.105 mm!; olha aí você, pseudo-neo-estalinista ou quase lá, mire-se no exemplo da papisa do pop,socos, ainda que simbólicos, com o adversário. Chopra é a solução. Contra a polarização, é Chopra no mel.

TRUMP BATENDO UM BOLÃO
(OU QUE VEXAME, CORONA!)

Mr. President Donald Trump, conhecido como Agente Laranja e ou Topete Atômico, pegou o Corona e logo saiu do hospital batendo um bolão. Eta medicina da moléstia! De volta à Casa Branca, arrancou sua máscara como Wild Bill Hickok sacava o Colt em Dakota. “Trump retorna à Casa Branca minimizando o vírus que o hospitalizou”, manchetava o Washington Post na terça-feira. No Twitter, o cowboy de araque dava uma banana simbólica para o vírus, e menoscabava a pobre microcriatura também num post retirado pelo Facebook. O Corona só mata os fracos, os derrotados oprimidos, sugeria, não importam quantos sejam — e já passavam dos 220 mil no país, ou mais de quatro Vietnãs (baixas norte-americanas). “É possível que Trump emerja de sua batalha contra a Covid-19 com um novo respeito pela enfermidade”, especulava o jornalista e escritor León Krauze na mexicana Letras Libres, logo após a notícia da internação. Coitado. No título do artigo, “No final, o vírus riu por último”, outra barrigada opiniática de Krauze. Quem saiu humilhado do embate foi o Corona; 7 x 1 para Topete Atômico. Que vexame. 

ECO SABIA DAS COISAS

Políticos, governadores e legiões de especialistas, desde o Twitter e o Facebook, como se esperava, prescreveram hidroxicloroquina a rodo para salvar Topete Atômico. Nem sonhava essa malta com as mezinhas hi-tech e milagrosas que os doutores do hospital militar de Washington escondiam da plebe. “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade” — ponderou Umberto Eco, ainda em 2005, não custa lembrar — “Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

CORVOS SÃO MAIS INTELIGENTES
QUE ESTE JURUPOCO: “ERRAMOS”

Diferentemente do que sugeriu a nota da Ju passada, redigida por este pascácio, a descoberta sobre a inteligência superior dos corvídeos, cujos cérebros possuem alguma forma de autorrepresentação, não deve nada à ornitologia. A pesquisa publicada na revista Science, esclareceu na Folha a doutora Suzana Herculano-Houzel, é de um neurocientista, seu colega, o alemão Andreas Nieder, da Universidade de Tübingen.

DEUS, ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

“A estranha formulação ‘Deus é fiel’, tão brasileira, invertendo a lógica que pede fidelidade ao crente, introduz o negacionismo no próprio fundamento da fé”, falou e disse Bernardo Carvalho. “Deus deixa de ser representante da vida e da morte, para corresponder, como um animal de estimação, às expectativas do dono.” 

INTERVALO MUSICAL

BEBADOSAMBA com PAULINHO DA VIOLA, do disco de 1996, o último de inéditas do artista. Embora haja a promessa de um álbum com novidades na bica, como ele anunciou no Valor Econômico, pode-se dizer que Bebadosamba — trabalho de criação tão magistral e depurada, e de arte tão elevada — estabeleceu um padrão difícil de transpor, o que explicaria a longa seca. Se bem que Paulinho da Viola não precisa acrescentar um ré à sua discografia, um dos capítulos mais ricos de nossa história musical e cultural.

Premiadíssimo, eleito “disco da década”, nada é demais para dar Bebadosamba o lugar que o disco merece. O CD é todo ele pura excelência. Já a faixa comentada neste intervalo é um poema sobre o samba e também uma espécie de oração — rezada no comovente Chamamento, na segunda parte — aos grandes mestres e criadores da nossa música. Quem tenha um mínimo de juízo, de ouvido e gosto musical, reza junto, e, se não for de sambar, que se ajoelhe.

Bebadosamba ademais é uma aula sobre a história do gênero, na letra, no canto e no arranjo. Paulinho define seu “choro” [de verter lágrimas], na introdução recitada, como “chula” [forma originária do samba de roda surgida no Recôncavo Baiano] “quase raiada” [chula raiada, samba raiado ou partido-alto, um dos primeiros estilos do gênero]” e com essa expressão remete aos primeiros batuques, aos primeiros movimentos do ritmo de matriz africana, desde os terreiros, desde o Recôncavo, desde os saraus de Tia Ciata no Rio de Janeiro, no início do século passado.

A propósito, o referido Boca, com que nosso cantautor dialoga no samba-falado da primeira parte, é um “personagem dos antigos carnavais cariocas, que, no fim do cortejo, encadeava sambas de maneira contínua, ininterrupta, conduzido pelo fluxo da memória”, como explica o professor da USP Zebba Dal Farra neste artigo (PDF). É este Boca-rapsodo que transparece em Bebadosamba, quando nosso vate da Viola alude a “Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo,/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra.”

O arranjo e o cavaco são de Paulinho, e, à parte o piano refinado de Cristóvão Bastos, a instrumentação é a mais essencial ao ritmo, a começar do prato e faca, que apontam para o Recôncavo, onde essa história teve um início, além de ganzá, agogô, pandeiro e tamborim.

Pode-se dizer que Bebadosamba é um “samba essencial”. Repare no lindo violão de César Faria, pai do artista, repare na baixaria que abre o canto, depois da recitação, levada apenas com o fundo de um batuque que ecoa a gênese de todas as umbigadas e batucadas.

BEBADOSAMBA, Paulinho da Viola

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
E eu eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram

Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente por questão de estilo
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado

Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra.

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

Boca negra e rosa
Debochada e torta
Riso de cabrocha
Generosa
Beijo de paixão

Coração partido
Verso de improviso
Beba do martírio
Desta vida
Pelo coração

BEBADACHAMA (chamamento)

Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama,
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama
Ismael, Noel e Sinhô
Chama Pixinguinha, chama,
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô
Chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho
Chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal
Chama, chama, chama
Buci, Raul e Arnô Canegal
Chama por mestre Marçal
Silas, Osório e Aniceto
Chama mano Décio 
Chama meu compadre Mauro Duarte
Jorge Mexeu e Geraldo Babão
Chama Alvaiade, Manacéa
E Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

ACENDO UMA VELA E BRINDO
 À MEMÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELO

Zuza Homem de Mello morreu no domingo (4), em casa, de infarto, durante o sono. Contava 87 anos e acabara de concluir seu próximo livro, uma biografia de João Gilberto. É preciso dizer que a música brasileira e o jazz perderam uma de suas mais altas referências. Era escritor musicólogo, crítico, produtor, divulgador, entra tantas atividades que exerceu na extensa carreira. Sua elegância, generosidade e humor foram bem destacados pelos obituários. A rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, compilou os 157 episódios do Playlist do Zuza, programa só interrompido pela pandemia. Arthur Dapieve e Reinaldo Figueiredo, apresentadores da casa, falam do colega. Se você não sabe quem é o personagem ou quer se aprofundar, assista ao documentário Zuza Homem de Jazz, produzido pelo Canal Curta. É um ótimo retrato. Fui e sou freguês da educação, da arte e do conhecimento de Zuza, e guardarei minha gratidão por sua nobreza com muito carinho. A SescTV publicou o programa Todas as Notas: Zuza Homem de Mello, onde Zuza comenta gravações instrumentais brasileiras.

Em podcast na CBN, João Marcelo Boscoli fala do peso de Zuza na cena musical paulistana.

O amigo Wilton Marsalis, trompetista, compositor e diretor artísticos do Lincoln Center, em Nova York, o homenageou em postagem numa rede social. “Ele foi justificadamente o mais respeitado jornalista e musicólogo brasileiro especializado em Música Brasileira e Jazz. Ele era um homem de espírito e graça incomuns, de alma e de engajamento com as possibilidades humanas através da arte da música. A curiosidade de Zuza transcendeu todas as fronteiras. Ele era a própria excelência”, escreveu Marsalis, na tradução do Estadão.

SÓ ELLA

Quando toco no assunto, e faço isso amiúde na Ju, do papel e importância da grande crítica, e da falta que ela nos faz, depois de sumir, ao menos em substância, dos jornais e revistas brasileiros, falo da capacidade do crítico de nos aproximar do seu objeto, intimamente, de nos ensinar a ler melhor um romance ou aproveitar melhor a audição de um disco, além de orientar nossa seleção artística e cultural. É uma função essencial em qualquer “cultura letrada”, e o que faz Giovanni Russonello, do New York Times, em texto muito bem pinçado e traduzido pelo Estadão, sobre gravações inéditas de Ella Fitzgerald lançadas agora pelo selo Verve: Mack the Knife: Ella in Berlin e Ella: The Lost Berlin Tapes. “Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção”, observa Russonelo. “Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável — você fica desarmado”, acrescenta. Os vídeos, legendados, que ilustram esta nota têm animação criada pela cantora Cécile McLorin Salvant. Agora, se você se interessou pelo assunto, ouça o especial que a Rádio Batuta estreou no centenário da cantora, em 2017, produzido e apresentado por quem?, Zuza Homem de Melo, claro. A seleção musical é de um dos maiores conhecedores do gênero no Brasil, que nos anos 1950, durante o curso de musicologia na escola Julliard, em Nova York, pôde vê-la de perto, no auge artístico, e logo ser seu intérprete no Brasil.


BACK IN BAHIA, OU GIL É TÃO
 MILAGREIRO QUANTO DORIVAL CAYMMI

Gilberto Gil regravou Back in Bahia, em versão para a série Amor e Sorte, da TV Globo. Como tanta coisa na obra de Gil, esta canção, composta nos anos 1970, quando ele voltava de Londres, faz da dor do exílio na memória recente um manifesto de alegria, e tem o dom de levantar deprimidos com um pé na Cova. Gil domina essa arte característica de Dorival Caymmi, nosso Buda Nagô, segundo ele. Hoje eu me sinto/  Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá , diz a letra. Vai aí o videoclipe.

 BOM DIA, VERÔNICA, E TCHAU!

Aturei, em honra do meu leitor, exatos 22 minutos de Bom dia, Verônica (Netflix), série aprovada pela imprensa paulista. Que a crítica acabou é notório, repito. Mas o universo mental dos incumbentes (os vivos, vivinhos, vivaldinos ou não) não ultrapassa os trinta e cinco anos, que agora equivalem aos quarenta e poucos. O roteiro claudica em cada tomada, há interpretações ruins e a direção parece ter entregue seu trabalho a deus. Mas não. Conforme os críticos de Sampa, devemos achar tudo lindo em nossa época regida pela hipocrisia, é quase um imperativo categórico, afinal, Bom dia, Verônica tem uma valiosa pegada feminista contra o macho predador, e a boa intenção é moeda cujo valor não para de subir. Ninguém pode falar mal sem ocupar o lugar da fala. É preciso ser latino para falar da latinidade, negro para criticar qualquer obra que expresse a negritude, LGBTQIA+Ypisilone para falar do que tudo que envolve o acrônimo LGBTQIA+Ypisilone. E, claro, estamos no domínio da ficção. Talvez seja necessário ser um artista profundamente comovido com a arte nacional para comentar verdadeiramente a teledramaturgia brasileira.

«Ao comparar nazismo com bolchevismo, Hannah Arendt pensa a liberdade além das polarizações”, por Eduardo Jardim, na Folha de S.Paulo.»

«Hannah Arendt e o ‘melhor homem na França’: honestidade e liberdade intelectual”, por Adriana Novaes, no Estadão da Arte.»

«“São Lucas e Brás Cubas dão exemplos opostos do embate da ética com a desonestidade”, por Eduardo Giannetti, trecho adiantado do novo livro do autor O anel de Giges, a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras.»

«Esqueça o que os ativistas de gênero dizem a você. É assim que se parece a transição médica”, artigo de Scott Newgente, um homem transgênero de 47 anos fundador do TReVoices, um grupo de transeducadores que se opõem ao ativismo radical de gênero. Na Quillette.»

«Marco Pereira no Dia de Instrumental do Música #EmCasaComSesc»

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção e a permanência da JU.

Para estabelecer uma assinatura mensal de R$ 40,00 — no dia mais conveniente — clique aqui. Ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Muito obrigado!


O AUTOR?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

 

JURUPOCA #4

NÚMERO 4 — AGOSTO, 16   2019
 

A honestidade intelectual e ética e seu grande instrumento, a dúvida constante, preservam a razão de seus delírios. Nestes tempos obscuros, mais do que nunca necessitamos das luzes trazidas pela razão.”

Jorge Coli, professor de história da arte na Unicamp, na “Folha”.  


“A viagem, além de tornar o ser humano mais silencioso, depura o olhar.”
De um personagem do conto “A Natureza Ri da Cultura”, dedicado ao filósofo
Benedito Nunes, da coletânea “A Cidade Ilhada”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, 2009.


“Tio Chicó era oficialmente um doido manso. Ninguém ignora as nuanças de linguagem, as diferenças de léxico relativas à loucura e seus subúrbios. Há o doido, o doido varrido, o esquizofrênico, o desequilibrado, o pisca, o zureta, o tantã, o tonto, o demente, o alienado, o psicopata, o alterado das faculdades mentais, o nervoso etc. Em todo o caso, se o doente é pobre, trata-se de um doido, varrido ou por varrer, conforme; se rico, apenas um nervoso.”
Trecho de “A Idade do Serrote”, de Murilo Mendes, Companhia das Letras, 2018.



Opa. Vamos apear?

De Nooteboom para Hatoum para esta carta, que recebe o passe e cruza para o cabeceio da leitora e do leitor na meta da literatura — da viagem  — da literatura de viagem — e da viagem literária.

Conto em “A Arte da Viagem” que o York House de Lisboa, onde em outras eras se hospedaram Graham Greene e John Le Carré, é o cenário de uma passagem da novela “A Seguinte História:” (Nova Fronteira, 1995), de Cees Nooteboom. Acontece que o hotel da rua das Janelas Verdes é meu preferido na cidade. Notei a cena e suas coincidências — segundo Einstein, a maneira que Deus achou para seguir no anonimato — ao reler o livro de Nooteboom 15 anos depois de o ter resenhado para o jornal mineiro “Hoje em Dia”, em 1995. O autor holandês apenas mudou o nome do condado inglês, de York para Essex, Essex House, mas descreve o mesmíssimo hotel da Lapa lisboeta, situado quase em frente ao Museu de Arte Antiga, quartos, jardins e até as glicínias que embelezam seus muros.

Herman Mussert, o narrador de “A Seguinte História:”, cujo alter ego, Dr. Strabo, é autor de guias de viagem, como, aliás, o próprio Nooteboom, se hospeda sozinho no quarto nº 6, onde havia estado com a amante, a professora de biologia Maria Zeinstra, fazia 20 anos. Mussert segue depois numa excursão marítima para o Amazonas. Já nas últimas páginas, na tradução de Ivanir Calado, lemos:

“Em Manaus, atravessamos a linha que dividia o Amazonas e o Rio Negro, a água preta correndo lado a lado com a marrom, no meio da corrente, dois tons desafiando a interação, a água negra da morte polida como ônix, a marrom bronzeada e forte, falando de distância, de selva. Eu não sabia quando seria a minha vez [de contar uma história, no jogo estabelecido entre passageiros do navio]; por enquanto estava contente em ouvir os outros e em olhar, em ler as passagens de suas vidas como se tivessem sido inventadas especialmente para mim”.

 
Hoje, perto de publicar meu livro sobre as várias dimensões da viagem, embarco no transatlântico de Mussert e entro na sua história, então já contada, para regressar à literatura brasileira e a Manaus, ou por Manaus, onde jamais estive. Volto à floresta, ao rio e à cidade traduzida, transliterada nas páginas de Milton Hatoum — outro autor com lugar em meu humilde cânone dos guias de viagem insuspeitáveis. Em obras como “Dois Irmãos” e “Cinzas do Norte”, ou nos contos de “A Cidade Ilhada”, saio de casa, cruzo alguma servidão, aceno no caminho para alguns personagens conhecidos, como um certo pintor Arana, e ando até o porto dos Educandos; tomo alguma catraia e peço ao catraieiro que navegue comigo por igarapés e paranás; entro em becos, visito casebres, palafitas; provo peixe com farinha e banana, e em tabuleiros de ambulantes ou no Mercado do porto, alguma fruta; sinto nessa travessia, decerto, o mau cheiro das águas nas margens da urbe. A cidade, como tantas no país, é vítima da escrofulose do crescimento caótico e malsão. Essa doença aparece na narrativa com tintas de realismo, às vezes de ironia, lenitivo de quem tenta se livrar por um instante de uma realidade ofuscante:


 Não fomos ao cinema, ele preferiu caminhar. O sol forte dissolvia o contorno da paisagem. No fim da ponte, uma fila crescia na entrada do Éden: o edifício branco, agora acinzentado, acabara de abrir as portas. Atrás do Palácio do Governo uma mancha escura se movia lentamente nas margens do rio. Urubus, dezenas, bicavam dejetos deixados pela vazante. Um cacho de asas abriu um clarão, e no meio apareceram homens e crianças maltrapilhos. Mundo falou: “Nossa cidade…”. 

(…)“Um pedaço dessa história eu mesmo vou escrever”,disse ele, descontrolado. Escancarou a janela, assobiou e deu uma gargalhada: “Que paisagem magnífica, hein, rapaz? Esse igarapé cheio de crianças sadias, essas palafitas lindas, um cheiro de essências raras no crepúsculo. E quanta animação! Dominó, cachaça, sinuca… Como o povo se diverte no sétimo dia!”.

Trechos de “Cinzas do Norte”, de Milton Hatoum, Companhia das Letras, Companhia das Letras, 2005.  

Mas Hatoum não é um guia de viagem insuspeito só de Manaus e do Amazonas, mas de mezzo mondo, com circuitos por Londres, Paris, Barcelona, Berkeley, São Paulo e, reveladoramente, Brasília, na abertura desta trilogia “O Lugar Mais Sombrio”. Se Niemayer e Lúcio Costa planejaram seu desenho e o traçado urbano, os militares impuseram um garrote à capital infante e, ao plano piloto, sua própria arquitetura moral, sufocante, anti-iluminista e assombrada.

A narrativa se passa nessa cidade corrompida, aguarrás de ideias, artes e paixões, que é vista também do exílio parisiense por Martim, um dos jovens estudantes da UNB.

Ele e sua turma vêm o sonho de Brasília metamorfosear-se em quimera, ou barata kafkiana, entre o final dos anos 1960 e o começo da nova década — durante o “plantio do amor” no Brasil, essa monocultura de patriotas fundamentalistas. Por aludir a Gregor Samsa, na obra do autor tcheco (penso logo em “Carta ao Pai”) me parece gravitar o principal leitmotiv da ficção de Hatoum, a desagregação da família, o abandono e a crueldade paternais.

Em “A Noite da Espera”, título desse primeiro volume, esse motivo se expande num romance de formação sobre um país cujo ideal de mundo civilizado — para repisar a imagem tão cara ao imaginário dos “anos dourados”, com a música de Tom Jobim e a Bossa Nova de fundo — é dinamitado. Pensar que ainda tropeçamos nos detritos daquela implosão, favorece ainda mais essa leitura.

Mas cadê o segundo volume, Hatoum?


—   
 
A coprofilia parece ser le mot juste, o traço da psique e do caráter mais íntimo, essencial e revelador do presidente Bolsoargh. A cidadania está na fossa.  
 

 
Convide quem você quiser para assinar esta cara por https://tinyletter.com/asiuves.
 

 
No mais, Anauê! Pão, pinga e liberdade!  




EU ME ACUSO

Me inculpam certa preguiça com nossa literatura e o atraso na leitura da ficção corrente. Espero que não me atirem no círculo do inferno reservado aos leitores colonizados impatrióticos. Pois vivo a me perguntar: como andará o cultivo do idioma numa era de tantas supersafras agrícolas, do “agro é pop, agro é tudo”? Se os poetas padecem, ao longo dos séculos, da angústia da influência, segundo o professor Bloom, haverá a angústia da impaciência de quem vive a ler e reler principalmente o que gosta? Não me crucifiquem antes da hora. Até que me esforço.
 

FERNANDA E GEOVANI

 
Por exemplo, no ano passado, anotei: “A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres, é interessante, e esse é o melhor elogio que se pode fazer ao livro. A história desvela os dilemas da gente de teatro que depende da TV, de uma elíptica Globo, para obter fama e dinheiro, por meio das desventuras de Mario. O ator começa na arte engajada e termina presidiário engajado, à frente de uma montagem de “Macbeth”. A narrativa esperta não esconde certa indigência da prosa. Mas há passagens brilhantes, como as do capítulo sobre a tentativa de um grupo teatral carioca de levar a revolução a miseráveis analfabetos do sertão nordestino. Também li o — muito bem promovido — “Sol na Cabeça”, de Geovani Martins. Notei o frescor de um apelo novo, a humanização literária de meninos (referências a moças e ao sexo são tangenciais) que tentam viver nas favelas do Rio. Fazem a cabeça com erva, LSD, “balinha” e no submundo são devorados por traficantes, milicianos e policiais. Dois dos 13 contos, “Rolézim” e “Estação Padre Miguel” se desenvolvem melhor.
 

NOBREZA AQUI

 
Confesso que não morri de vontade de ler os romances de Chico Buarque depois de “Budapeste”. Ainda sinto falta de mais angulação, sinuosidade, sei lá, nos seus personagens. “Estorvo” me é o mais memorável. Mas sei que é difícil largar qualquer coisa que Chico escreva; como nas letras das canções, a prosa está sempre no auge da florada, flui sedutoramente e infunde a mais alta nobreza do idioma.
 

NOBREZA ACOLÁ

 
Nobilíssima é a prosa lírica de Murilo Mendes neste “A Idade do Serrote” (2018), autobiografia reeditada pela Companhia das Letras, de ler em voz alta e lamber os beiços:


 “Cheira a domingo, é a flauta de Isidoro da flauta que se aproxima, uma pequena festa levantada no eco, jasmins-do-cabo orvalhando, o vácuo expulso, a evaporação da mágoa, um sub-céu incorporado à curva do meu ouvido; segundo Rimbaud, um vento de diamantes.”

NOS PLATÔS DE HATOUM 

Haveria, pois, de ler um monte de livro de tanta gente premiada nos últimos 20 ou 30 anos, ficção brasileira contemporânea, o trabalho de escritores heroicos num país mal-educado. Não faria outra coisa, é livro pra chuchu. Então, devagar. Não tenho a vida ganha nem mais tanto tempo assim.

Procuro pisar em chão firme e fugir da areia movediça da pura metalinguagem e das correntes mais radicais e estéreis do pós-modernismo. Volto, portanto, a Milton Hatoum, ao planalto onde se avista facilmente “Dois Irmãos” (2002) na paisagem aberta dessa literatura há duas gerações. Repasso “Cinzas do Norte” (2005), atravesso os contos — em geral, leves e ensolarados — reunidos em “A Cidade Ilhada” (2009) e, como digo acima, chego “Ao Lugar mais Sombrio” (2017), saltando desta vez “Órfãos do Eldorado” (2008), tudo nas últimas duas semanas.

Não faltam luz e brandura à prosa de Hatoum, à voz de seus narradores, na busca perseverante da narrativa através de paisagens escuras, pantanosas, tantas vezes sinistras entre a razão e o desvario. Essa essência de uma escrita que não despreza o diálogo com a tradição para mim ainda vai bem melhor que a infinita derivação linguística a se exibir no interior de sua bolha.


 
O SUICÍDIO CONTIDO

Releio “Uma Leitura Dissidente de Shakespeare”, ensaio de George Steiner incluído no livro “Nenhuma paixão Desperdiçada (Record, 2001)”. “Ich mag es nicht” (não gosto), Steiner cita Wittgenstein sobre “Rei Lear” e outras obras do Bardo, a quem, como quer o professor Harold Bloom, devemos atribuir nossa própria humanidade literária. Tolstói era outro célebre não chegado à saga das irmãs Cordelia, Goneril e Regan e seu pai debilitado.

Sobre o alcance superior da música em relação à literatura na elaboração mental do filósofo austríaco, autor do “Tractatus”, Steiner comenta que ele “confidenciou a Norman Malcolm — também filósofo, aluno e notório amigo — que o movimento lento do “Terceiro Quarteto de Brahms” havia, por duas vezes, evitado que ele se suicidasse”. Como se sabe, três de seus sete irmãos — Karl (afogamento), Rudolf (cianureto) e Kurt (tiro) — não tiveram a mesma iluminação.


A LITERATURA DO DESEJO

Em um ensaio luzidio, com o título da nota, que leio em espanhol, Ian McEwan diz que, depois de séculos e séculos em que o desejo, o sexo, o amor e o casamento foram o assunto dominante da poesia e da prosa, pela centralidade evolutiva do prazer na vida humana, e a paixão entre o mesmo sexo era encoberta e amaldiçoada, deve ser inevitável que o romance comece a retratar a nova e interminável demarcação dos gêneros, mas que essa missão demandará uma alta carga de talento.



JOÃOGILBERTIANAS

Recomendei aqui a aula informal de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto em seu programa da Rádio Batuta. Logo depois o site da “Piauí” botou no ar uma verdadeira “master class” de Arthur Nestrovski. Em quatro vídeos curtos, o diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta a revolução joãogilbertiana na ordem do samba e do samba-canção, na maneira de cantar e tocar violão, o resgate inventivo que ele faz de compositores esquecidos e seu legado de um país da delicadeza. “João Gilberto é um daqueles”, diz Nestrovski, “em que primeira sílaba, o primeiro compasso abrem um mundo. Basta ele dizer uma palavra e a gente já está tragado para aquele mundo de João Gilberto. Isso tem a ver com uma capacidade única de infundir, não só de sentido, mas de afeto tudo que ele canta.” E a “Folha” estreou a série de vídeos “Ao Pé do Ouvido” muito bem, com o programa “João Gilberto: entenda a escola de samba do seu violão”, com ótimas ilustrações animadas sobre a divisão do canto quase falado em que a melodia negaceia genialmente com a harmonia.

 
TUDO A VER

Nestrovski, professor, músico e compositor, violonista clássico requintado, com várias gravações que incluem os belos álbuns “Jobim Violão” (2008) e “Chico Violão” (2010), acaba de lançar “Tudo Tem a Ver” (Todavia), coletânea de seus ensaios que relacionam música e literatura. Devo comentar o livro na próxima Jurupoca. 



BARULHO E REDENÇÃO

Minha autoconsciência é um crânio oco e rabugento. É o que dá muito ler, escrever e mentar. É o que dá a música bolsonarista de furadeiras nas paredes do meu condomínio eternamente em obras. O nível de ruído em qualquer cidade brasileira é absurdo, no trânsito, no falar gritado, no volume calamitoso da música — mais uma vez e inevitavelmente também bolsonarista — nas festas, com potência é suficiente para cobrir todo um distrito.

Saio escangalhado de casa na hora do almoço, na algaravia de escolares na troca de turnos. Procuro ruas menos barulhentas para chegar ao parque. Não consigo ouvir música, como faço sempre ao andar, nem pensar em nada.

Na primeira volta no parque olho o céu através das copas de mulungus, cutieiras, tamarindos, mognos, paus-reis, assacus, gameleiras, e nessas sombras abençoadas tento ouvir os passarinhos. É batata.

Logo retomo alguma capacidade mental, então volto a querer escutar música. Que seja algo propício à hora, alguma pedagogia mais difícil sobre o som e o silêncio. Consulto os álbuns salvos no Spotify e toco as obras para piano de Schoenberg com Florent Boffard. Se não é redenção, é consolação, o que me lembra o melhor programa de TV já feito, a série holandesa “O Belo e a Consolação”, ainda insuperado.
 



NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (1/2)

Conferindo assinaturas no YouTube me entretenho com Fred Hersch e Anat Cohen, com um álbum em duo editado ano passado. Tocam a linda “Child’s Song”, de Hersch, e que tal? aqui, “Doce de Coco”, de Jacob do Bandolim. Quase morto pela Aids nos anos 1990 e recuperado, o pianista começou a compor uma música numinosa, que parece acessar as esferas mais altas da harmonia.

Por falar nisso, a melhor expressão musical de gratidão que conheço, literalmente dedicada a “uma graça alcançada” é o “molto adagio” do “Quarteto nº 15 op. 132” de Beethoven — se isso não é milagre, não quero saber o que é, mas creio que também possa evitar que um coração movido pela dimensão estética da vida cometa suicídio. 

NOTAS PARA PIANO E CLARINETA (2/2)

Ainda outro dia, quando não havia streaming e sofríamos para importar discos — uma compra era retida nos Correios e pagava-se o dobro do preço para retirá-la — consegui a duras penas a caixa com 3 CDs “Song Without Words” (2001), que ouço sempre, e mais tarde o “Fred Hersh Plays Jobim” (2009). Vê-lo no palco, sereno e contido, aparentemente até meio distraído ao piano, com uma clarinetista tão expressiva, expansiva e afeita à música brasileira como Anat Cohen, que toca com uma alegria de fábula, é um deleite, um luxo só. Eu a vi em BH, há dois anos, apresentando com o sete cordas Marcello Gonçalves o estupendo álbum “Coisa” (2016), com transcrições da obra de Moacir Santos feitas por Marcello. Anat, israelense baseada em Nova York, de uma família de músicos, trabalha feito maluca, roda o mundo sem parar e parece se divertir incrivelmente com a música.


“Refugiados 4” (2015), de Liu Xiaodong, pintura que retrata refugiados sírios na Ilha de Lesbos,  Grécia.Crédito: Liu Xiaodong e Massimo De Carlo/Reprodução do “The New York Times”

REFUGIADOS (1/2)

 Jason Farago, no “The New York Times”, escreve sobre a mostra “The Warmth of Other Suns” (“O calor de outros sóis”), em cartaz na Phillips Collection, em Washington. Obras de 75 artistas retratam a emigração ou ecoam de alguma forma o deslocamento de pessoas no mundo, em um século de história. Farago começa por citar o ensaio de 1943 “Nós, os Refugiados”, de Hannah Arendt: “O inferno não é mais uma fantasia ou crença religiosa, mas alguma coisa real como as casas, as pedras e as árvores”, ela escreve. “Aparentemente ninguém está interessado em saber que a história contemporânea criou um novo tipo de seres humanos — o tipo dos que são postos em campos de concentração pelos seus inimigos e nos campos de internamento pelos seus amigos.” O que mudou? A ONU estima em 25,9 milhões o número de pessoas refugiadas, hoje, no planeta, a maior população registrada desde a Segunda Guerra Mundial. Crianças são mais da metade. O número chega a 70 milhões, se incluídos os deslocados dentro das próprias fronteiras. Mas o ponto central de Farago é que não há arte e cultura modernas sem exílio e emigração. Entre os artistas expostos em Washington — a proposta da exposição, inequivocamente política no governo Trump, o que dificultou sua organização — estão Anna Boghiguian, um armênio nascido no Egito de vida Nômade, o chinês Liu Xiadong, que montou um estúdio na ilha de Lesbos, na Grécia, onde desembarcaram milhares de refugiados, o diretor de cinema belga Chantal Akerman,o fotojornalista mexicano Guilherme Arias, e por sinal também Mark Rothko (nascido Rothkowicz), cuja família escapou de pogroms na Rússia imperial.
 

REFUGIADOS (2/2)

 Farago diz que, se assim desejassem, os curadores poderiam promover outra grande mostra apenas com obras primas de artistas obrigados a fugir de seus países. Lembra nomes como Marc Chagall, Piet Mondrian, Oskar Kokoschka, Max Ernst, Max Beckmann, Robert Capa, Lucien Freud, Eva Hesse, Dinh Q. Le, Ibrahim el-Salahi e Ai Weiwei. Refere-se ao que disse Edward Said, o filósofo e ensaísta palestino refugiado e radicado nos EUA, “em larga medida, a moderna cultura ocidental é a herança de emigrantes e refugiados”. O cinema americano não seria o que é sem Billy Wilder (austríaco), Fritz Lang (austríaco), Marlene Dietrich (alemã) e Milos Forman (tcheco), nem o desenho sem a influência da Bauhaus, incluindo Walter Gropius. A longa lista de escritores vai de Thomas Mann (alemão) e Vladimir Nabokov (russo) a Milan Kundera (tcheco). “Os refugiados fogem de país para país representado as vanguardas dos seus povos — se mantiverem a sua identidade”, escreveu Hannah Arendt no texto de 1943, com a frase citada parcialmente por Farago. O crítico do “Times”, a certa altura, abre o foco da questão numa eloquente panorâmica:
 

Entretanto, grande parte da arte, do cinema e da literatura sobre a crise atual representam erroneamente o refugiado como um estranho no Ocidente. Mas as história de guerra e deslocamento forçado moldaram, de fato, a civilização ocidental, desde a “Eneida”, de Virgílio. A história da origem de Roma é uma história da migração mediterrânea, que parte da costa da Anatólia, ponto de partida de muitos dos refugiados sírios de hoje, e pressagia outras sociedades fundadas por emigrantes, evacuados, refugiados e estrangeiros. Moisés, Jesus e Maomé eram refugiados. A festa de Ação de Graças é uma celebração dos refugiados, que fugiram da Inglaterra para os Países Baixos e depois a Plymouth Rock.




ESCOLHAS DO AEON

Separei dois textos do site Aeon, entre os que li de uma Jurupoca a outra. Martin Rees, professor emérito de cosmologia e astrofísica de Cambridge, pondo o pescoço para fora, como diz, explica tintim por tintim por que ciência dificilmente chegará a formular uma teoria de tudo, de toda a ordem do universo, e o reducionismo começa a gaguejar. Em “Black holes are simpler than forests and science has its limits” (“Buracos negros são mais simples que as florestas e a ciência têm seus limites”, ele escreve: “Podemos esperar grandes avanços em três fronteiras, o muito pequeno, o muito grande e o muito complexo. Entretanto (…), meu palpite é que há um limite para o que podemos compreender. Esforços para entender sistemas muito complexos, como nossos cérebros, podem bem ser os primeiros a atingir esse limite”. Para dar um passo além, especula, a ciência precisará recorrer a máquinas mais inteligentes. O outro artigo, mais divertido, “Being and drunkenness: how to party like an existentialist” (Ser e embriaguez: como festejar como um existencialista”), Skye C Cleary refaz as peripécias etílicas (respectivamente, uísque e vodca), dançantes e sexuais de Sartre, Simone de Beauvoir e sua turma, confronta seu hedonismo com a doutrina existencialista e, claro, o preço que tiveram de pagar por seus hábitos, incluindo ressacas, combatidas com anfetaminas, e cirrose, no caso de Beauvoir. Cleary conclui que nossos heróis festeiros da Rive Gauche não deixaram de ser existencialistas. Sempre se mostraram lúcidos sobre as consequências de fazer o que bem entendessem.


NOVELA DAS SETE

 Álvaro Costa e Silva, colunista da “Folha” no Rio, tem a leveza na escrita dos melhores cronistas. “Zeca Pagodinho, de forma sincopada e caprichando na divisão, e Teresa Cristina, sempre elegante, cantando em dueto o samba de Cartola e Elton Medeiros: ‘Finda a tempestade/ O sol nascerá’. Há muito tempo um tema musical de abertura de novela não exibe tanta qualidade e, de lambuja, lança uma ponta de esperança de que o pesadelo de estupidez em que o Brasil mergulhou um dia vai passar”, escreve o jornalista, autor do “Dicionário Amoroso do Rio de Janeiro”. O texto me chamou atenção justamente porque eu também havia achado um refresco o tema de “Bom Sucesso”. Ele prossegue:

“Bom Sucesso”, de Rosane Svartman e Paulo Halm, é uma atração estranha e extemporânea em sua delicadeza. Outro dia, no meio de um diálogo banal, surgiu uma citação de… Cecília Meireles! Os dois protagonistas estão ligados, ora vejam, pelo amor aos livros. Antonio Fagundes faz um editor da velha guarda, que se recusa a publicar porcaria e, claro, está à beira da falência. A costureira Grazi Massafera cuida, sozinha, dos três filhos — e ainda encontra tempo para dedicar-se aos clássicos da literatura.”

 
O texto me encorajou a olhar um capítulo de novela, o que não fazia desde “O Bem-Amado” ou “Roque Santeiro”. Tem dó. Louvo o amor aos livros que a novela embebe, oxalá o transmita a milhares de telefãs. Mas na era dos seriados de altíssimas qualidade é duro de engolir o “naturalismo” preguiçoso na escala industrial das novelas.

O tal editor “interpretado” por Fagundes, que tem os dias contados, lembra… Antonio Fagundes em uma entrevista a Marília Gabriela, ou num comercial qualquer. A cena a que assisti, em que ele recomenda à sua acompanhante a leitura de “A Letra Escarlate”, de Nathaniel Hawthorne, parecia uma aula do “Telecurso 2º Grau”. Cadê um Pedro que fazia dupla com Bino em “Carga Pesada”? Já a linda Massafera é uma atriz fraquinha. 



O LIXO EMBURRECE

O NiemanLab, de Harvard, levantou uma série de estudos que parecem comprovar o que a intuição sugeria não é de hoje. Assistir habitualmente ao lixo televisivo ofertado pela TV por assinatura ou aberta, com atrações concebidas para entreter chimpanzés, torna as pessoas literalmente mais burras e propensas a votar em candidatos populistas. Um dos estudos citados, produzido com rigor por especialistas noruegueses, estimou que pessoas expostas por dez anos à TV a cabo com atrações “lowbrow”, desde que o serviço foi introduzido em uma localidade do país, foram rebaixadas 1,8 ponto nos testes de QI. 
 
 

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca está no ar. Assine-a

A newsletter é sucedânea deste jornal, por enquanto.

Na carta quinzenal, compartilho com os leitores, por e-mail, o ofício de um editor de cultura na diáspora das redações, comentando o que leio, ouço e vejo de bom e considero importante.

Ah, tem também alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo.

Assine a carta com um clique aqui — informe seu endereço eletrônico, depois confirme a assinatura em sua caixa postal. É grátis.

Juripoquemos!

Para ler os números já publicados vá por aqui.