Um jornal para chamar de seu, mesmo que seja o meu

Jurupoca_58 — 12 a 18/2/2021 — Ano 2

Uma vista do Belo e do seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Aquilo que não havia, acontecia.

Ler João Guimarães Rosa é como ler a grande mitologia, só que nossa, daqui, nosso linguajar, graça cultural de uma ex-colônia portuguesa: tudo (e)feito mitológico agregado à grande tradição formadora.

Se o povo é o inventalínguas, Rosa é seu reinventor, com uma pontuação e sintaxe só dele, uma música própria e sedutora, capaz muitas vezes de fazer um leitor levantar do chão para cair em si.

A síntese dessa grandeza, por Caetano, nunca será suficientemente avultada, ou distinguida, ao menos até Língua se tornar, como defendo, um hino ritual introdutório das lições do idioma: “Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa”.

A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária.

Em verdade vos digo: o Brasil se prestasse teria seu Dia Grande sertão: veredas, seu Dia Primeiras estórias, seu Dia Sagarana.

Seriam nossos Bloomdays, o 16 de Junho dos irlandeses, adotado em toda parte no culto a James Joyce e seu Ulisses, para ufanarem de autor e obra com propósito e justeza.

O português rosiano ou machadiano ou drummondiano não iam mesmo ganhar o mundo, sendo ramo da última flor do Lácio, tão parcamente falada pelas gentes. Que ganhássemos o Brasil, então.

Sonho: teríamos circuito turístico, caminhada, celebração escolar, festa em bares, em teatro. Veríamos filmes, ouviríamos palestras e leríamos juntos páginas das obras para nos deleitar e sentir como civilização no rumo certo, ainda que prometida, em vez de uma gente culturalmente tonta e perdida, a perder tempo e espaço falando de BBB, que importa lhufas.

Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

Ilustro estas linhas, como quem usa iluminuras ricas e raras, com grifos de meu repasse pelo Primeiras estórias; não importa de onde, de que conto vem cada excerto do livro publicado em 1962: 60 anos ano que vem!

É magnífico: um parágrafo, dois parágrafos, três, e logo a costura inconsútil do inventor, e não há mais como abandonar o barco.

É como penetrar uma floresta virgem, uma natureza intocada, é como penetrar a desnatureza humana, uma Amazônia de arte.

O cume desse livro, e um dos cumes de todas as verdes serras do Rosa é o conto A terceira margem do rio, exemplo acabado da definição de Calvino de clássico: “Um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

Reli duas vezes e treli, a ver e ouvir uma aula de Zé Miguel Wisnik aberta na internet (aqui em fase dominante de professor de literatura de USP, ainda que o músico e compositor intervenha).

ZMW vai ler o conto, destacar frases, passagens, marcos, contextualizar, perspectivar, ensinar e, no final, depois de frisar a impossibilidade de se decifrar, de uma compreensão acabada da história, vai pontuar, para usar o verbo usado por ele, relações que iluminam a leitura do bom leitor.

A literatura, apois, é reescritura e reinvenção desde a primeira linha, a primeira fabulação, o primeiro sopro narrativo que diferenciou de vez (e segue a diferenciar) nossa espécie no tronco símio.

ZMW sugere um texto de Freud, Luto e melancolia, para nos ajudar a pensar o personagem do filho que fica, quando a família deixa seu rincão, que busca e parece não conseguir elaborar a desaparição de “nosso pai” e tocar sua vida.

Melancólico, diz Freud, é quem nunca acaba, para lá das deixas do tempo, a ruminação que o luto representa, quem não elabora a falta no olvido necessário para seguir remando.

Depois, sugere um volteio sobre o mito grego de Caronte, um exame desse barqueiro do Hades, como origem possível da ideia rosiana.  Ele, Caronte, é o encarregado de atravessar as almas pelos rios que dividem o mundo dos vivos do mundo dos mortos, Estige e Aqueronte.

O professor podia ter lembrado também, como me ocorreu, inspirado nele, que no costume grego clássico punha-se uma moeda sobre a testa ou a boca do morto, uma paga a Caronte por seu serviço, ou, se quisermos, ao enlutar/esquecer de quem permanece no mundo de cá.

Pois, como é sabido, “o tempo leva uma sacola nas costas onde carrega óbolos para o oblívio”.

É o filho mais novo quem deixa à margem do rio, em grotas, o alimento pouco (“rapadura, broa de pão, cacho de bananas”), sucedâneo de óbolos (moeda grega de pouco valor) para “nosso pai”.

E o que são nossas velas acesas, nossas flores de Finados, nossas prendas aos santos, regalos aos deuses deixados ao mar?

A terceira margem, este não-lugar, o indeterminado, é matéria essencial, argilosa, do ser.

A terceira margem também pode ser, matuto, o rio que o rio faz (Pessoa), e sua atração sobre quem vive à beira dele e se deixa levar por sua imagem-ação, ou se magnetizar, ou ainda pode ser a margem mais profunda de nós próprios, margem que tão raramente se abre em vau, e que nunca alcançamos de pleno, além, quando muito, em um que outro vislumbre.

Asa da palavra

Volto aos 21 contos do Primeiras estórias depois de ouvir mais uma vez, e mais atentamente, a música de Milton Nascimento e Caetano Veloso também chamada A terceira margem do rio.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Milton fez a música do filme (1994) homônimo de Nelson Pereira dos Santos, e, creio, anos antes dera a composição para Caetano, como se diz, letrar.

Bituca conta no DVD A sede do peixe, digo de memória (o vídeo que se segue não tem créditos), que a música que compusera, ele logo atinou, cabia tão só a Caetano, e a mas ninguém (“… é aquele negócio, quando faço uma música eu já sei para quem vou dar: direto…”, diz Milton em delicioso miltês.)

Grato, Caetano na vez dele dirá que recebera a encomenda como um recado-dádiva de Milton, de Minas e de Rosa, e já meio pronta, insinuada no título posto pelo parceiro.

Com uma bola assim redonda, era só cortar e fazer o tento; com um passe desses, só marcar o golaço.

É que a letra lhe veio como descarrego (“sinceramente, foi sopa viu…”, ele diz se rindo com Milton). A faixa é do Circuladô, comentado na Ju#57.

Um lance para Rosa

No final da live Minas mundo, uma iniciativa acadêmica levada no final do ano passado, quando é entrevistado, toca piano e canta, ZMW lembra pelas tantas que Rosa dissera certa vez que seu conto chegou prontinho, “num dia luminoso em Copacabana”, diz ZMW, como uma bola que lhe houvessem atirado.

Era só pegar essa ideia-bola e deitá-la no papel, como história, como estória.

Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Veja a leitora, o leitor, as jogadas desse mundo literário, como podem significar e esplender.

A TERCEIRA MARGEM DO RIOMilton Nascimento e Caetano Veloso

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Aí me volta aquela conversa gomosa se letra de música é  poesia. Creio que é gênero próprio, e que podemos seguir a chamar simplesmente de letra.

Mas, por certo, há letras e “letras”, como há poesia e “poesia” (o que dizer de tanta chorumela engajada-militante-diversa, cheia de espinhas no rosto, bom coração e autossatisfação a que chamam poesia? sem pejo algum, e a que dão exagerado espaço em eventos e nas folhas ex-culturais?, sem qualquer consideração e entendimento do que é poesia.)

Mas divago, e me escuso.

Caetano logra glosar o conto, dar a Rosa o que é de Rosa em prosa e verso, e logra fazer a letra-poema pertencer à música de Milton, sílabas que pedem para se cantar, e nisso louva a palavra que remete ao fundamento, à brasa, à proa, à asa da palavra, matéria da invenção poética.

Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo.

Travessia

A assinatura sofisticada, caetânica, surge no desfecho do último verso, na letra.

O santo-amarense agora deixa o curso do conto para remar no São Francisco de novo, depois de O ciúme (que é do disco de 1987).

O São Francisco aqui é o rio-esteio do Brasil, no dizer de ZMW na citada lição, o tronco gigante que ao se erguer ajuda pôr o país culturalmente de pé, portanto a existir.

A canção acende essa luz ao citar outro desfecho, o do Riobaldo Tatarana narrador, no parágrafo último da extensa prosa que perfaz a vastidão que é Grande sertão: veredas.

E de onde mais viriam estes: “Fora da palavra/ Quando mais dentro aflora/ Tora da palavra/ Rio, pau enorme, nosso pai”?, senão de: “Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou (…). O Rio de São Francisco — que de tão grande se comparece — parece é um pau grosso, em pé, enorme… (…). Travessia.”

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Um jornal para chamar de seu

Ora, veja o senhor. Jornal vem do latim “diurnalis”, donde diário, desde, é provável (Houaiss), o francês journal. Daí o registro do dia ou da semana, boletim, periódico, revista e magazine. O Jornal do Siúves, anterior à Jurupoca, tinha o sentido de diário blogado. Tentei à época, cruz-credo, criar uma página no Facebook com o nome Jornal do Siúves. Não deixaram, e até negaram meu recurso, sabe-se lá por quê. Mas o que essa nota tem para falar é que a Ju é carta, como referida desde que começou a ser enviada no formado newsletter, há dois anos e tanto, e também jornal, você concorda? A Ju é carta e jornal, semanário dedicado à cultura, às ideias e, claro, alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo. Minha esperança é que, agora, quando, praticamente, não há mais jornal por aí, como conhecíamos as folhas periódicas, impressas, e quase ninguém se recorda da última vez que comprou “seu jornal na banca”, a Jurupoca possa ser um jornal, jornalzinho, como queira, que você, leitor, leitora, possa chamar de seu. Sai toda quinta-feira no final da tarde, quase escurecendo. Sugiro a você que assine a newsletter (plataforma Tinyletter) para ser logo avisado que há uma nova edição no blog, e ter sempre um conteúdo exclusivo lá. Para assiná-la basta clicar aqui. Na página que abrir digite seu e-mail, depois só confirmar, conforme a solicitação enviada à sua caixa postal. Obrigado!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Uma vista do Belo e seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Palavra crua

Por falar em palavra essencial, viva, para uma escuta, audição e leitura complementar ao abre dessa carta (mais propriamente ao poema-letra de Caetano), Uma palavra (faixa B3 do álbum da RCA Victor de 1989) é tiro certo. Com essa canção, Chico Buarque de Holanda mais uma vez nos resgata (e xeque mate!). Ou que tal estes versos: “…palavra dócil/ palavra-d’água para qualquer moldura…”? Quem, dadivado com a herança mais inventiva da língua portuguesa, e ultrajado pela crueldade e violência a que continuamente a submetem, não se sente recobrado? Eu me sinto.

UMA PALAVRA – Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento palavra


Um rubi no novo disco de Gal

Ficou um primor de brilho, precisão e agudez o novo registro de Gal Costa para a canção folk Negro amor, ótima versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti de It’s All Over Now, Baby Blue (a letra de Bob Dylan vai aqui) que ela própria havia gravado no LP Caras & bocas, do longínquo 1977. Gal canta essa faixa do novo álbum (da Biscoito Fino), lançado nesta sexta (12), com Jorge Drexler, artista uruguaio que vive na Espanha, que também se encarrega do violão. Não ouviu ainda? Não acredito! O novo arranjo, com violinos, violas (Felipe Pacheco Ventura, autor dos arranjo de cordas) e cellos (Felipe Pacheco Ventura), dá um colorido novo e forte à canção, uma dramaticidade que corta como faca.

NEGRO AMOR – Bob Dylan, versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol

Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor

A estrada e pra você o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha a maluquice em seu lençol

Sob os seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores, e agora?

Até o tapete sem você, voou
E não tem mais nada, negro amor

As pedras do caminho, deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua

Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor


Allen queria ser Cecilia, e nós também!

Reprodução/TV Globo

Um Woody Allen aos 85 anos, cabeleira branca sem ver pente, sereno, paciente, recolhido em casa há quase um ano, vacinado de primeira dose. É um Allen assim que conversa com Bial. (E pensar que perdemos esse grande jornalista para o BBB por anos a fio). Aqui, Bial tira o melhor de Allen, que se permite falar de tudo com a inteligência habitual, inalcançável por seus perseguidores. Mas humorista e cineasta estão lá. E a eles devemos muito como promotores da vida mais vivível, da vida verdadeira, em clave proustiana. Ou, para falar nos termos de uma de suas primeiras comédias, humorista e cineasta tornaram, para quem viu seus filmes, a condição humana menos desencorajadora. Bial pede que ele se estenda sobre afirmação que faz no livro de memórias sobre Cecilia (Mia Farrow), de A era do rádio, ser a personagem de seus filmes que ele gostaria de ser. O mundo é um lugar triste e brutal, e a existência, sempre uma luta terrível, diz Allen. Que tal se fizéssemos como Cecília, e deixássemos nossa poltrona na plateia para entrar na tela, no filme? Mas não é o que fizemos, tantas vezes? Eu entrava em Manhattan (1979), me declarava a Mariel Hemingway e a livrava do assédio daquele coroa (a personagem tinha 17 anos, eu 18). Bial leva Allen a se repetir sobre sua predileção por Machado de Assis, o que é bom, e contar como descobriu o Memórias póstumas, e a lembrar que poderia ter filmado no Rio, e a rir da infâmia dos tradutores brasileiros que fizeram Annie Hall virar Noivo neurótico, noiva nervosa.


Onde assistir, por favor? (1)

O melhor comprimento de Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, o documentário de Barbara Paz (está fora da disputa do Oscar), é o curta-metragem dela própria Conversa com ele. Ela dirige um depoimento delicado e sincero de Drauzio Varella sobre o paciente e amigo, uma raridade. Vi semanas atrás boa parte, por acaso, no Canal Brasil. Estreou em 2018 na Mostra Internacional de São Paulo. Sumiu do mapa. Não se encontrar em parte alguma. Assim caminha nossa “indústria” do cinema.


Onde assistir, por favor? (2)

Outra: ganha uma turnê por Bollywood, quando passar a pandemia, quem informar ao jurupoco o que se faz para assistir ao documentário Garoto – vivo sonhando, de Rafael Veríssimo, sobre o violonista Garoto, apresentado em setembro último no 12º In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical. Aí vai pelo menos o trailer. Ouvimos Baden Powell, João Gilberto, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Rafael Rabello e cia falarem da importância do músico como criador e influenciador do violão brasileiro. Diz Yamandu Costa: “Garoto é o Brasil mais bonito que pode haver.”


No gargarejo

Um documentário em longa-metragem que estou no gargarejo para ver é Callado, de Emília Silveira, sobre o grande jornalista e romancista Antonio Callado, autor de Bar Dom Juan, Quarup etc. que está pronto desde 2017 mas estreia este mês (24) no streaming. Para um ideia da classe da intelectualidade que o país já produziu, e da verve e elegância do homem, não deixe de ver.


O ciúme na Indochina

Michael Caine é um ator no esplendor da arte de interpretar. É o que me fez ver tantas vezes O americano tranquilo, filme de 2002 dirigido por Phillip Noyce (remake de uma versão esquecida, de 1958, dirigida por Joseph L. Mankiewicz). Agora leio o livro de Graham Greene, lançado em 1955, que não deslustra o filme. Por certo, a literatura raramente é inferior à sua adaptação audiovisual, e não é o caso aqui, ainda que este não seja um Greene em plena força. A leitura aprofunda a prefiguração do Vietnã nos últimos anos de domínio francês na Indochina, e o beco sem saída em que a “América” se meteu. A simpatia de Greene pelos comunistas fica claríssima. Os diálogos quase didáticos entre o correspondente inglês interpretado por Caine e Alden Pyle (Brendan Fraser no filme), o agente secreto norte-americano, são extensos demais e chatos, professorais. Greene interfere muito nessas passagens, quando parece bulir com o narrador. O melhor da história, o mais verossímil, é o ciúme sexual de Fowler (jornalista madurão que abandonara a mulher católica em Londres, a quem nunca foi fiel, e a trai novamente em Saigon) por um Pyle em plena forma, que, nobremente, lhe tira dos olhos, e das mãos, a beleza tenra da ainda quase menina Phuong (Do Thi Hai Yen no filme). As tramas entrecruzadas tornam o livro febril e inesquecível no epílogo, quando Fowler finalmente desce do muro onde seu cinismo o mantinha; ou será que a decisão que ele, aparentemente por indignação e altruísmo, não passa de mera baixeza de um ego ferido?


O livro póstumo do mestre

Harold Bloom deu aulas na Universidade de Yale até uma semana antes de morrer, aos 89 anos, em 2019. Há anos perdera a mobilidade e tinha a companhia permanente de um tubo de oxigênio. Nunca deixou de ensinar. Nos últimos tempos, a reitoria de Yale arranjava um microônibus para levar alunos até sua casa, e ele se iluminava quando chegavam. Era capaz de dizer longuíssimos poemas de memórias e páginas enfiadas de romances; em noites insones, andava pela casa a recitar o Moby Dick. Leio no El País (o New York Times se tornou insuportável em cultura) sobre seu livro póstumo com título em inglês The Bright Book Of Life. Novels to Read and Reread (O brilhante livro da vida. Romances para ler e reler). Bloom começou a ler os livros que comenta e canoniza aos cinco anos de idade e os releu sem parar o resto da vida, alguns títulos várias vezes por ano. Entre seus autores mas diletos, nessa sua única obra dedicada exclusivamente ao romance, estão Cervantes, Tolstói, Proust, Faulkner, Cervantes, Melville, Joyce, Conrad, Virginia Woolf, Sebald…


Dúvida

Me pergunto se um leitor de Paulo Coelho conseguirá reler seus livros, ou se quase 100% do que hoje promovem como música será lembrado, não digo em 60 anos, mas no ano que vem.


Alguém tem que lembrar

O poeta norte-americano de origem sérvia Charles Simic, introduzido no Brasil numa coletânea da Todavia, se diz admirador de Jorge de Lima (O grande circo místico) e Drummond. E que gostaria de ter escrito A mão suja. Que um gringo nos lembre por vias tortas de um poema essencial tem tudo a ver com o destino do Bananão (Ivan Lessa). Mas que bom que tenha lembrado. É um dos primeiros poemas da Antologia poética, com as escolhas do próprio CDA. Começa: “Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ suja há muitos anos.” E lemos na segunda estrofe: “…A mão escondida/ no corpo espalhava/ seu escuro rastro./ E vi que era igual/ usá-la ou guardá-la./ O nojo era um só…”. O poeta se debate com seu ofício, que reputa indigno, vil, por sua mão não estar suja de terra, carvão, com casca de ferida, com o “sujo de quem trabalhou”.


Albert O. Hirschman

Mario Vargas Llosa faz um elogio refinado e a um tempo uma reflexão sobre suas próprias crenças e as do economista e intelectual judeu alemão Albert O. Hirschman (1915-2012), que foi chegado ao Brasil, onde cultivou amigos como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o crítico literário Roberto Schwarz. MVL parte do lançamento na Espanha de uma nova edição do ensaio que em português se intitula A retórica da intransigência, último livro de Hirschman, uma crítica ao reacionarismo de direita e esquerda em relação à política econômica e, sobretudo, à liberdade. MVL diz que Hirschman faz falta para nos ajudar a pensar um mundo em que os limites da ciência foram escancarados pelo coronavírus. “Quando a pandemia passar”, ele escreve, “os sobreviventes deste cataclismo medieval vão despertar num mundo empobrecido, no qual o Estado terá crescido em toda parte, sufocando a liberdade mais do que já sufoca, no qual os novos populismos, impregnados de racismo e nacionalismo irracional, se preparam para acabar com as últimas instituições e tomar o poder.” O tom do artigo traz uma estranha serenidade, mais cética que o habitual, e quem sabe mais compatível com o escritor que vive seus 84 anos. Impressiona como o fio e o brilho de sua inteligência se mostram ainda mais agudos.


Erros “escusáveis” (1)

“Se o presidente souber que estamos conversando, vai me foder”, disse o general da banda da Saúde em encontro com governadores, em outubro, ao anunciar que o governo finalmente assinaria contrato com o Butantan para aquisição de 140 milhões de doses da CoronaVac. Como se sabe, quando viu o acordo anunciado por governadores, Sua Excrescência Jumentíssima subiu nas tamancas. “Bolsonaro explodiu. Sua indignação em altos decibéis pôde ser ouvida nos gabinetes próximos à sala do presidente no Palácio do Planalto”. Bem antes, em fevereiro, o então ministro Mandetta fora a São Paulo anunciar, ao lado de Doria, a antecipação da campanha da vacinação contra a gripe, na preparação para a pandemia que se avizinhava. Ao ver ao vivo a cerimônia, Caveirão tentou desesperadamente falar com o ministro pelo celular para ordenar que ele abandonasse imediatamente o evento. São destaques da reportagem “O sabotador — Como Bolsonaro agiu, nos bastidores e em público, para boicotar a vacina”, na Piauí desde mês, despedida de Malu Gaspar da revista, com grande classe. Até as nuvens de Brasília sabem que Caveirão sempre fez e andou para a pandemia e seus milhares de mortos. Sua obsessão com Doria e 2020 é absoluta. O senador Pacheco, novo presidente do Senado, encontrou uma forma original de matar a mãe para conquistar o poder, ao dizer à Folha que os “erros de Bolsonaro na pandemia eram escusáveis”.


Erros “escusáveis” (2)

Nota 10 para Vinicius Sassine pela reportagem da Folha, semana passada, com detalhas de como o governo torrou milhões e envolveu cinco ministérios, estatais e Forças Armadas no “projeto Cloroquina”. Norte e Nordeste receberam o grosso das remessas da droga. Devem merecer, conforme a ótica de Sua Excrescência. Os mortos, nas duas regiões, abatidos pela gripezinha, ou incentivados a não usar máscaras etc., clamam por si. Sassine atualizou sua matéria nesta quinta (11), revelando que o governo usou a Fiocruz  para produzir 4 milhões de comprimidos de cloroquina, com recursos emergenciais destinados ao combate da Covid.


 Arthur Lira

Como Oscar Wilde, acho que minhas primeiras impressões das pessoas são invariavelmente certas. E tenho as piores do novo presidente da Câmara dos Deputados. A ponto de, topando com ele à noite por aí, bater em disparada.

Chavões para abrir o Brasil

Jurupoca_50. 4 a 10/12/2020. Ano 2

Na última sexta-feira (27/11) me surpreendi com esse efeito de luz , fundo e flor.
Cascatinha do Parque Municipal Renné Gianetti, no Belo.
 
LA VIDA NUEVA – A VIDA NOVA

 MI DIOS ES HAMBRE — MEU DEUS É FOME

 MI DIOS ES NIEVE — MEU DEUS É NEVE

 MI DIOS ES NO — MEU DEUS É NÃO

 MI DIOS ES DESENGAÑO — MEU DEUS É DESENGANO

 MI DIOS ES CARROÑA — MEU DEUS É CARNIÇA

 MI DIOS ES PARAÍSO — MEU DEUS É PARAÍSO

 MI DIOS ES PAMPA — MEU DEUS É PLANÍCIE

 MI DIOS ES CHICANO — MEU DEUS É AFRO    
     
 MI DIOS ES CÁNCER — MEU DEUS É CÂNCER

 MI DIOS ES VACÍO — MEU DEUS É VAZIO

 MI DIOS ES HERIDA – MEU DEUS É FERIDA 
          
 MI DIOS ES GHETTO — MEU DEUS É GUETO

 MI DIOS ES DOLOR — MEU DEUS É DOR

 MI DIOS ES — MEU DEUS É

 MI AMOR DE DIOS — MEU AMOR DE DEUS 

Poema do Chileno Raúl Zurita que teve seus versos formados no rastro de pequenos aviões no céu de Nova York. Extraído do livro Tu vida rompiéndose, Penguin Randon House. Livre tradução de quem vos escreve. Zurita também é autor de poemas escritos (e inscritos) no deserto de Atacama. Um fragmento da performance, ocorrida em 2 de junho de 1982, pode ser visto neste vídeo:

Cascatinha, Parque Municipal Renné Gianetti, BH
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá
Nesse mundo imundo só se escuta a teia da
Teq, teq, tequiri, brode, brode, brode, chá

Frufru manera, Frufru manera, Frufru
Frufru manera, Frufru manera, Frufru

 

Trecho de Manera Frufru, manera (Raimundo Fagner e Ricardo Bezerra), canção-título do álbum de Fagner lançado em 15 de maio de 1973, com produção de Roberto Menescal e arranjo de Luiz Cláudio Ramos.

“Versão gravada em 1972. Sobras de estúdio do álbum Manera Frufru Manera”, conforme o canal do YouTube Mucurype 49.

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

É só catimbó e o Chicó tá no icó tralalá…

Sou reservista. 5ª Categoria, mas honrado reservista (incluído no “excesso de contingente” de 1980, Certificado da 4ª Região Militar do Ministério do Exército Nº 153652).

De 5ª Categoria são os reservistas que tocavam e cantavam Para não dizer que não falei das flores com a patota inebriada de Brahma e bongo (o mesmo que bagulho). Primeira classe tinha quem cantava Sabiá.

Neste instante estou disposto como uma gaivota a servir a pátria. Vosmecê sabe, a gaivota é uma ave marinha típica das Minas dos Matos Gerais.

E aqui — o Itamar Franco se ufanava disso — temos pólvora, chumbo e bala (apud op. cit. Milton Nascimento & Tavinho Moura).

Nós queremos é guerrear Xi Jinping.

Se a guerra contra China for declarada, aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons. Qu’un sang impur abreuve nos sillons!

Brasília vai lançar foguete contra os amarelos e dedetizar o Super Corona Kung Flu que eles criaram. Xi Jinping e Kim Jong-un vão contra-atacar.

E até dizem que dessa vez é pra valer: Cuba lança!

E quero ver Cuba lançar!

Helahoho! helahoho!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

A arte de não abandonar a zona

Confessei, numa furtiva lágrima, numa das primeiras Jurupocas, que o mais gabaritado coaching seria um rematado picareta aqui na redação. Um padre faria um trabalho melhor. Como jornalista inativo, não me reciclei, não me reinventei, não saí da zona, da zona de conforto, não aprendi a fazer biscoito, cookie nem pamonha para fora; criar galinhas poedeiras, então, que utopia! Para não lembrar que quando ouço falar em marketing, mormente “marketing digital”, me segura!, ou pulo do Viaduto das Almas.

O que serei quando crescer

Acho que tenho talento para influenciador analógico! É o que quero ser quando crescer. Como não havia pensado nisso? Precisou de um gênio, Sir Gordon Jô Soares, se definir como tal, influenciador analógico, numa cartinha ao nosso, quer dizer, vosso “ExcelentíSSimo!” (sic) presidente, para que a Ju acordasse e vislumbrasse seu target e seu benchmarking (com o perdão da pornografia) neste mercadão de meu Deus.

Influenciador digital x influenciador analógico

O influenciador digital é quem tudo sabe e tudo ensina sobre cada retalho de uma colcha de retalhos. É capaz de isolar e dividir para “monetizar” um retalhinho assim de nada em pixels, bits e bytes, tudo em inglês, claro. Já a tarefa do influenciador analógico é dura e altruísta. A este profissional cabe referenciar um retalho com outro retalho e outro conjunto de retalhos de uma colcha de retalhos, o antigo contexto. E ninguém entende nada! Perde a paciência. O digital não precisa ter esses cuidados, afinal digitalizou-se também a história. E o tempo (antes, agora, depois) liquefez-se. O digital influencer tem mais é que ir em cima do clic e do stream, e bater bola no Insta, no Face e por aí, tá sabendo; já o analogic… coitado dele.

Uma rara foto do autor da Jurupoca

Jornalista cultural e futuro influenciador analógico, o titular da Ju, um leitor de poesia e ouvinte de música antiga (MPB) agarra-se, para sobreviver, à primeira oportunidade que aparece.  Mas ninguém o tira da zona, de conforto, isso não! Foto: Shamus Culhane/FP_PRESSE 

Poetar é preciso, viver…

“O dia que se deixe de escrever poesia, acabará a Humanidade”, diz o poeta chileno Raúl Zurita, galardoado na Espanha com o prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana. Na mesma entrevista ao El País ele compara o ofício do poeta ao do engenheiro. “Se cai uma ponte pode morrer muita gente, se um poema cai não acontece nada. Mas é muito mais difícil erguer um poema que uma ponte”. Outra do Zurita, agora em conversa com o catalão El Cultural: “A poesia está mais perto do sofrimento real que qualquer outra literatura, por isso é importante escrever poesia agora, ainda que não se leia”, reflete, sugerindo que os poetas devam olhar para as angústias e incertezas da pandemia. Acho que já disse nesta Ju do gosto que tenho por descobrir um grande poeta, seja onde for. Zurita, até onde sei, não é traduzido no Brasil, o que é notável, isto é, notável desinteresse dos editores. O Chile é um país de grandes escritores e tem dois poetas nobelados.

“Irracionalmente relevante”

Andrés Seoane, no El Cultural, lembra no papo com Zurita outro proeminente ficcionista chileno: Alejandro Zambra, para quem o Chile é “um país literário, onde a poesia, curiosamente, é irracionalmente relevante”.

Pornô com “diversidade”

Helahoho! helahoho! Houve um tempo no Brasil em que alguém ainda citava num boteco dois versos de Bandeira, um poemeto de Drummond ou um soneto do Álvares de Azevedo. Agora nem letra de música — gênero vizinho da poesia e que ensinou muita gente o português — mais importa. Toca-se, canta-se e reporta-se qualquer coisa, inclusive o pornô, desde que um pornô com correção política e selo de “diversidade”.

Enquanto isso, no ex-caderno de ex-cultura
mais vanguardeiro da América do Sul…

Os meninos da Barão de Limeira são uns danados, sô. Agora nos revelam, leitores ávidos que somos, a geopolítica da modernidade dos jogos eletrônicos. A Ilustrada, tal ex-caderno, nos próximos capítulos vai nos trazer o que a Hungria de Viktor Orbán e a Bielorrússia de Lukashenko têm de culturalmente mais diverso, embora nesses países, a democracia pene. E a Eslovênia vem aí. A Polônia, berço de literatas como Wisława Szymborska e Olga Tokarczuk, cada qual com seu nobelzinho, foram bem esquecidas. Claro, na música erudita ou no cinema, o país também teria muito a declarar, ontem e hoje, mas isso não tem nada a ver, e onde já se viu um gamer se interessar por outra coisa além games? A Polônia, pobre Polônia, violada por nazistas, soviéticos e autoviolada, agora é potência e vanguarda desse novo gênero de lazer elevado a 9ª ou 11ª arte pela Ilustrada: os jogos eletrônicos, e nada mais vem ao caso. Mas a “democracia pena” por lá. Como pode? Nem uma pista histórica? E a Iara Rennó?, artista genial que “expande os limites da música”. Um Bach, se vivo estivesse, invejaria tal expansão de limites. Disco erótico? Matutamos na redação se o menino ou menina que escreveu a matéria terá ouvido a trilha de Emanuelle, ou o mela-cueca-e-calcinha de primeira que foi Je t’aime moi non plus, com Jane Birkin et Serge Gainsbourg.

Cuba e o negacionismo da esquerda garnisé

A vida do artista inconformado não é fácil lá na Ilha do Fernando Moraes, do Chico Buarque, do Boulos, da Gleisi Helena Hoffmann. Como se sabe, Cuba é um país livre, y cual solamente puede ser libre, e ai de quem não é! A quienes no son solamente libre, os rigores da cana brava e da prensa oficial (digital e analógica). “A primeira coisa que a polícia política faz ao prender um artista é confiscar e desfigurar seu telefone celular”, fofoca o imperalista Rafael Rojas na revista mexicana Letras Libres, num despacho de La Habana. A greve de fome de integrantes do Movimiento San Isidro, coletivo de jovens artistas e intelectuais desse bairro paupérrimo, terminou com a  borracha comendo. A turma protestava contra a sorte do rapper Denis Sólis, que vai curtir oito meses com vista para o sol enquadrada. O coletivo está cheio de “marginais”, “delinquentes”,  “agentes do imperialismo”, como se soube pelas revelações do regime em seus jornais e perfis nas redes sociais. Na Ilha amiga do PSOL e do PT, o regime decide no decreto quem é ou não é artista ou pode ou não pode fazer cinema independente. A reportagem da Ju tentou ouvir o outro lado, a franja cubófila da nossa esquerda garnisé, hoje de muito boas relações com o “mainstream” do jornalismo nacional, mas até o fechamento desta edição, nada.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (1)

Muita saúva, pouca saúde, os males do Brasil são. Mário de Andrade bem que tentou diagnosticar nossa problemática essencial no Macunaíma. Bola fora! Muita saúva, pouco Siúves, os males do Brasil são. A emendava do saudoso colunista Marcelo Rios saiu-se ainda pior. Os índices depravados da má qualidade da educação fundamental e o cocô de metade do país a escorrer por ruas e valas (olha a perpetuação da pobreza aí, gente!), os males do país são. Na, na, ni, na não. A obscenidade da administração pública, o roubo, o sistema de casta do funcionalismo estatal e da Justiça, os planos econômicos delirantes, os males do Brasil são. Ih, tá frio, frio, tá gelado. Nada disso ajuda ninguém mais a pensar direito. Triste Brasil! ó quão dessemelhante. Não sei se ainda se se pode, impunemente, parafrasear o Gregório de Matos sem “direito de fala”. Pode? Cartas para a redação.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (2)

A imprensa virou uma câmara de eco das redes sociais. Ecos são modas, e todo mundo sabe de tudo desde os cueiros, até que venham novas ondas e modas, novos escândalos, novas gravações quentinhas. Obras seminais sobre escravidão, formação da República, analfabetismo, política oligárquica, patrimonialismo etc., que escarafuncham nossa história com ou sem imaginação, caíram do galho. Anuncia-se para qualquer momento a tradução do país segundo o “lugar de fala”. Vêm aí o Gilberto Freire, o Sérgio Buarque de Holanda, o Raimundo (ou Raymundo) Faoro, o Darcy Ribeiro capaz de revisar tudo sem a miopia da branquitude, como se sugeriu no último Foro de Teresina. Espera-se o advento de um diplomado em Harvard capaz de encaixar a “cultura do estupro” e o “racismo estrutural” na equação.  Asseiam por novas chaves gerais, boas para abrir as portas da esperança no Brasil, e para iluminar nossa natureza e nossa miséria.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (3)

Chaves ideológicas dão hashtags e desaguam no mar teorético, quando sabem a chavões. Chaves gerais abrem cabeças, como o serrote daquela revista. Talvez nos façam menos burros, mais humanos, outra gente que, enfim, vai brincar na nova ordem moral o Carnaval da Democracia.

De chaves gerais e chavões: a teorética brasiliana (4)

Chaves gerais abrem os portais do Brasil, da nacionalidade, da “cultura” disso e daquilo, dos vícios e perversões totalizantes. Afinal, mostram que nada pode ser feito contra realidades “estruturais” e estruturantes, até que caiam as estruturas. Gestores públicos e a velha (ou a nova) política tricotada no Parlamento vão dormir em paz, sossegados para cuidar de seus afazeres, lobbies e pecúlios. Até que caiam as estruturas.

Nossos comerciais, por favor!

Peroba que é madeira. Paca/tatu que é caça. Correinha que é primeira. Correinha que é cachaça. Bote mais uma!

Coppola e o Poderoso chefão 3, coda

O elenco de O poderoso chefão — Desfecho…
Francis Ford Coppola fala sobre O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone e explica o sentido do termo “coda” (no título em inglês) emprestado da linguagem musical para rebatizar o filme

«Como Francis Ford Coppola regressou para fazer O poderoso chefão — Desfecho: A morte de Michael Corleone. No New York Times. A nova versão estreia nesta quinta (3) e na terça-feira (8) estará disponível em várias plataformas de streaming: Claro, Sky, Apple TV, Google Play, Vivo, Oi, Xbox Video e PlayStation Store. O longa-metragem foi remasterizado com resolução 4K. O título, em inglês Mario Puzo’s The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone  (O Poderoso Chefão  de Mario Puzzo, coda: A morte de Michael Corleone) valoriza o trabalho de Puzzo (1920-1999), roteirista da saga e autor do romance no qual a trilogia é baseada. A remontagem retoma ideias de Puzzo e Coppola, hoje com 84 anos, recusadas pelo estúdio há 30 anos. O filme, com um novo começo, um novo desfecho e cenas reposicionadas, volta ligeiramente encurtado. »

«A amarga verdade de La dolce vita. No El País.»

«Brasil viveu ‘utopia’ de que internet seria democratizante, diz pesquisador. Entrevista com Francisco Brito Cruz, autor do livro Novo jogo, velhas regras. Na Folha de S.Paulo

«Emmet Cohen Trio feat. Cyrille Aimée: “La Vie en rose”. A live gravada na casa da jazzista francesa está há menos de um mês na youtubaria e já foi vista, quando enlaçada aqui, 234.613 vezes. E quem ainda não viu é mulher do padre!»

«Eu moro dentro da casca do meu violão, com João Bosco. 4º e último episódio. É do balacobaco. Ouçam João em Corsário , canção que parte do Adágio do Concierto de Aranjuez, do espanhol Joaquín Rodrigo, e Amigos novos e antigos, inspirada em uma música do disco Abbey Road dos Beatles, Sun King, em que John Lennon diz a palavra “obrigado”. Ambas são dele e Blanc.»

Ê, Minas, oh Minas

Paulo César Pinheiro é letrista de mão cheia, fabuloso, ninguém pode negar. É autor da épica Matita Perê (com Tom Jobim, do disco homônimo de 1972) e de Desenredo (encomenda de Dori Caymmi), uma canção singela sobre vida, morte e a consolação do amor.

Ambas se inspiram em Minas Gerais e na obra de João Guimarães Rosa, evocadas no imaginário dos artistas em foco neste Intervalo.

Em uma entrevista a Ana Clara Brant para Estado de Minas sobre a história dessa composição, em que lembra seus dias no estaleiro, depois de romper o tendão do calcanhar numa fatídica pelada, Dori se apresenta como “33,3% baiano, 33,3% carioca e 33,3% mineiro”.

Nasceu no Rio, fruto da união do baiano Dorival com dona Stella Maris, mineira de Pequeri, vizinha a Juiz de Fora, onde os Caymmi têm casa e onde Nana cumpre esta quarentena.

Sobre a influência de Rosa, César Pinheiro disse ao jornal:

“De tanta paixão, acabei assimilando aquela maneira de escrever. Rosa me ensinou a amar o sertão mineiro; foi a partir da literatura dele que procurei saber tudo. Conheci Minas em seus livros e só depois fui conhecê-la in loco. Quando me casei com a Clara [a cantora Clara Nunes], ela desbravou muitos lugares comigo”.

Desenredo foi composta e lançada por Nana Caymmi em 1976, no LP Renascer. Ela canta a faixa acompanhada pelo violão do mano e um fundo de cordas. Mas vale a pena dar uma olhadela na estelar ficha técnica desse álbum:

João Donato: Piano
Dori Caymmi: Violão, piano
Nelson Ângelo e Milton Nascimento: Violão
Danilo Caymmi: Violão, flauta
Fernando Leporace e Novelli: Baixo elétrico
Luiz Alves: Baixo acústico
Hélio Delmiro: Guitarra
Robertinho Silva: Bateria
Rubinho: Bateria e percussão
Direção de produção e arranjos: Dori Caymmi

Gosto tiquinho mais da gravação de  Edu Lobo no álbum Tempo presente (1980), com participação de Dori no canto. O arranjo, mais uma vez de Dori, é ensolarado como uma manhã de Cordisburgo. Nas duas gravações, seu violão autoral é a alma do negócio. Eis a ficha técnica:

Café: Chaves e coco
Chico Batera: Sino e triângulo
Edu Lobo: Pau de chuva
Chiquinho do Acordeom (Romeu Seibel): Acordeom
Dori Caymmi: Violões
Luiz Alves: Contrabaixo

DESENREDO – Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro

Por toda terra que passo
Me espanta tudo o que vejo
A morte tece seu fio
De vida feita ao avesso
O olhar que prende anda solto
O olhar que solta anda preso

Mas quando eu chego eu me enredo
Nas tramas/tranças do teu desejo

O mundo todo marcado
A ferro, fogo e desprezo
A vida é o fio do tempo
A morte é o fim do novelo
O olhar que assusta anda solto/morto
O olhar que avisa anda aceso
Mas quando eu chego eu me perco
Nas tramas do teu segredo

Ê, Minas
Ê, Minas
É hora de partir
Eu vou
Vou-me embora pra bem longe

A cera da vela queimando
O homem fazendo o seu preço
A morte que a vida anda armando
A vida que a morte anda tendo 

O olhar mais fraco anda afoito
O olhar mais forte indefeso
Mas quando eu chego eu me perco/enrosco
Nas cordas do teu cabelo

Perdidos no espaço analógico

Jurupoca #46. Desde o Belo, 6 a 12/11/2020. Ano 2

Soneto 178 – Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Era uma vez uma cartinha analógica que explorava galáxias na mandatória nave Júpiter II em busca de um atalho, um “buraco de minhoca”, para alcançar o mundo digital.

O missivista sabia que perseguir tal atalho era pretexto vão de um navegador extraviado, epa, fadado, debalde, o mesmo que embalde, a navegar e navegar sem rumo por aí, isto é, pelas galáxias.

Ainda que chegasse à pretendida dimensão espaço-temporal, lá não haveria ninguém capaz de decifrar a escritura analógica, nascida do ser analógico arredio, o mesmo que dévio, assegura o Houaiss, do missivista.

Os seres daquele mundo, daquele tempo, não tinham tempo nem (acima de tudo) proveito, aqui o mesmo que interesse, no sentido de pecúnia, com quimeras analógicas: analogias, metáforas, ironias.

Dicho sea de paso que a palavra “quimera” se necrosara no corpo do idioma, aliás, também a própria colocação pronominal, além dos vocábulos implícitos: “carta”, “missivista” o “escambau”.

Naquele mundo a palavra desencantada sepultara de vez a moribunda e patética poesia, ao menos o moribundo e patético poema analógico.

É que a lavra poética havia muito fora assumida pela inteligência artificial robótica no mercado digital de cliques.

Aplicativos abertos tornaram acessível, inclusive aos mais patetas, mesmo que parvos, a fatura poética como, acima de todos os propósitos, a inteira gama da criação literária e musical.

Robôs poetas sugeriam os versos dos putativos, no sentido de supostos, poetas compartilhadores (sic), desde a pré-história dadivosa e virtuosa, como também lacrimosa, do Instagram, naquele multitudinário mundo da criação instantânea.

Naquele mundo intenso, a publicidade conseguira de vez recriar-se no ativismo exclusivo dos mais ativos, verdadeira revolução no vender o peixe antediluviano dos criativos.

Era capaz, a publicidade, de fixar na imagem de uma empresa suja como pau de galinheiro a benévola aura duma Santa Dulce dos Pobres, ou de converter o capital supremacista num baluarte da luta antirracista.

Bastava, em suma, deslanchar uma onda de hashtags em inglês engajadas e virtuosas formuladas por criativos tecnicamente multitalentosos.

Mas isso e o resto são detalhes.

Significativo é narrar que, ainda assim, careca de saber de tudo isso e aquilo, nosso pugnaz missivista seguia a alçar tamancas e bater cabeça pelas galáxias, atrás de unzinho “buraco de verme”, assim traduzido do inglês “wormhole”, para contrabandear suas cartinhas para o mundo digital, mundo que punha no chinelo aquele outro, admirável, de um tal de Aldous.

Cuá, dizia o missivista para si próprio, resignando-se num remordimento de intra-imo, como o Dedalus do Joyce, isto é, do Houaiss, e salvando-se com a prima Naná com esse peculiar “cuá” familiar.

Pois, cuá, dizia, que ficassem por lá, transviadas, aquelas cartas analógicas, expressão de um ser analógico perdido no espaço, caso, claro, um dia ou uma noite, tais cartinhas deparassem um “buraco de minhoca” e pulassem a cerca espaço-temporal inteirinhas da Silva.

Cuá, que se acumulassem na posta-restante que não haveria, a espera de civilizações superinteligentes, faladoras de todas as formas do inglês do universo, como aprendeu quem viu muito Jornada na estrelas.

Fantasiava que tais exegetas, no caso comentaristas, lograriam ler, interpretar e, finalmente, despachar suas cartinhas, no sentido de, pelo amor de deus, nos livrar a todos de tais escritos até, inclusive e pelo menos, o fim do mundo.

Moral da história? Tuta e meia, nonada, equivalentes a ninharia.

Ou antes esta: Era uma vez um pinto pedrês, quer que eu te conte outra vez?

O BREVE RETORNO DE UM ALIEN AO FACEBOOK

Jonathan Harris como o
inesquecível Dr. Zachary Smith

Durou uma semana contada nos dedos de uma única mão o regresso do missivista às entranhas da rede social mais popular da Terra, o tóxico Facebook. Que aventura rosicler desfrutou nosso anti-herói! De cara, imbuído de profunda sinceridade desinteressada, disse um alô para colegas de faculdade com quem não parolava há meio século, com quem, é certo, continuou sem parolar. Contatou um familiar e obteve ansiadas notícias da amada madrinha! Solicitou (sic) a outro amizade na rede, que de pronto lha concedeu (eta nós!). Que viagem, hein, meu chapa? Mas não. Como dantes, sentiu-se, transcorrida aquela fase lunar, e era previsível que transcorresse assim, sentiu-se fantasmagórico, enjoado como uma grávida sem feto nos primeiros meses, talvez com um que outro desafeto, isto sim, sentiu-se a flutuar na estratosfera algorítmica do Zuckerberg como um Dr. Zachary Smith na abertura do seriado Perdidos no espaço, de priscas eras analógicas, mas que se pode recordar nesta página, graças a algum caridoso youtubeiro. Sentiu nosso macunaímico anti-herói, caso permanecesse mais dois segundos naquela dimensão social, que perderia o que lhe restava de carnação, sopro e véu da palavra, além da afanada lucidez. 

O samba-choro E o mundo não se acabou é um dos mais populares na obra de Assis Valente. A maestria do autor pipoca nos versos iniciais: “Anunciaram e garantiram/ Que o mundo ia se acabar…”.

Lançado por Carmem Miranda em 1938, a composição fazia “uma perfeita crônica sobre o fim do mundo, devido à possível colisão do cometa Halley com a Terra”, lemos no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

No segundo semestre de 1999, quando o fim do mundo fez uma de suas rentrées, com o Bug do Milênio, o velho sucesso de Valente foi muito lembrado por rádios e programas de TV.

Um ano antes Paula Toller havia incluído sua versão do samba no álbum da WEA com seu nome.

Ouvíamos uma cantora amadurecida e autoconfiante. Como disse à época um crítico de Veja a brincar com um sucesso do Kid Abelha, a artista conseguira transformar seu rascunho em arte final.

O arranjo de Graham Preskett honra o fonograma de Carmem, mas é ao mesmo tempo moderníssimo.

O colorido é obtido pelo amálgama sonoro de violão, guitarra, baixo elétrico, teclados, bateria programada e sampler. Ritmo e melodia soam ainda mais provocativos, uma autêntica transcriação e adaptação aos modos e recursos da época.

Embora muita gente boa tenha gravado este samba-choro, e entre os mais afamados constem Marlene, Isaurinha Garcia, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, a interpretação de Toller é a que me parece mais vital e pulsante, a que mais se sintoniza com a própria Carmem Miranda, erguendo uma ponte de meio século com inventividade e elegância.

A Toller introduziu um grão de pimenta e liberação feminina, com “cacos” teatrais que atualizam a letra aos costumes, além de uma introdução sacaninha sobre a frase instrumental da abertura. Assis Valente, estou certo, se sentiria honrado com a saudável e ousada e loura intérprete de seu hit.

E o mundo não se acabou – Assis Valente, com “cacos” de Paula Toller

Aracaju, maracujá, pega daqui, taca de lá
Maricota, Mariquinha e Mariquita soltam a periquita lá em
Guaratiba e Guarujá
Maracatu, jacarandá, Jeca tatu, Paranaguá
Papacu rasteiro vem correndo bem ligeiro
Vem querendo um bocadin’ de guaraná

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá
No morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei no pau de quem não conhecia
Dancei pelada na televisão
E o tal do mundo não se acabou

Chamei um cara com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão/um milhão
Agora eu soube que esse cara anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

O INSTA REDIMIDO

Depois de vilipendiada por pesquisas que comprovaram, decerto levianamente, que a rede faz mal à saúde, causa ansiedade e o diabo a quatro, o Instagram se viu sem querer redimido pelo, sempre quando quer, acrítico ex-caderno de ex-cultura da Folha. Imperativa, que é o modo mais sábio de induzir pavlovianamente o ato de clicar, a Ilustrada manchetou garrafal o título acima. A descolada repórter ouviu uma publicitária e uma doutora em semiótica, ou algo assim. Claro, também ouviu uma virtuosa ativista exclusivista. O leitor do relato acreditará se quiser que, enquanto o Facebook e o Twitter são puro veneno, é do Insta que virá a revolução social ensejada pelos ultraprogressistas do ex-jornalismo, ou, no vocabulário dos redatores do ex-caderno: “Saiba como o Insta está mudando o mundo para melhor”.

NÚMEROS “ATRASADOS” DA JU NO BLOG

A Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa é o mais recente dos números “atrasados” desta carta trazidos para este Livro de Viagem. Faltam, creio, transpor outras sete edições do acervo da plataforma TinyLetter para que tal trâmite seja dado por findo.

«La gota de rocío, com o cubano Silvio Rodríguez.175

«125 – Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Ney Matogrosso e Webster Santos.»

«Não há cena de seus sete filmes como James Bond, por mais memoráveis que sejam, que me façam recordar Sean Connery como este Robin e Mary, o filme dirigido por Richard Lester e lançado em 1976, estrelado por ele e também encantadoramente por Audrey Hepburn. Só achei no YouTube a cena final completa com legenda em francês.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro.

Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #29

Belo Horizonte, 3 a 9 de julho de 2020 — Carta 29



175.

[…]
“Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos porque se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.”

Fernando Pessoa (1888-1935) pelo heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego. A edição da Companhia das Letras (2016), traz a organização do Livro por Richard Zenith, à pág. 190. O trecho na íntegra pode ser lido nesta página do Arquivo LdoD.


Figura carimbada do realismo norte-americano, Nighthawks (noctívagos) de Edward Hopper (1882–1967), e outras obras do artista ondulam na internet durante a pandemia. “Melancolia, desequilíbrio, desassossego: esse é o estado de ânimo que expressam muitos quadros de Hopper”, diz a escritora e tradutora tcheca residente na Espanha Monika Zgustova. Seu texto enlaça um comentário de Guillermo Solana, diretor do Thyssen-Bornemisza, quando o museu madrileno organizou uma muito bem-sucedida exposição do pintor, em 2012: “Hopper nos fascina porque a maioria do público busca na pintura, como no romance e no cinema, […] um espaço habitável, uma janela através da qual espiarmos outras vidas, a possibilidade de viver imaginariamente essas vidas, e a esperança de que finalmente nossa própria existência, com toda sua insignificância, se converta subitamente em outra coisa”. Zgustova diz que as obras de Hopper se tornam proféticas neste mundo instável, neste mundo líquido descrito por Zygmunt Bauman, o sociólogo polonês morto em 2017, ao expressarem nossa “solidão ansiosa”. Eis meu ponto. A “solidão ansiosa”. A ligação dessas duas palavras é como um retrato que acabou de surgir do banho de revelação, um retrato de como vivemos. A gravidade sútil de Nighthawks — com os fregueses insones no bar, que vemos através do vidro, como num cercado — é obtida por meio de zonas de luz e sombra e do fundo exterior noturno. A composição pode mesmo ter sido inspirada no Café à noite na praça Lamartine (abaixo), de Van Gogh. É como o verso de um poema ao acender uma percepção. As pessoas à frente do balcão não se conhecem ou se falam. Imagino ver nas mãos do homem mais afastado um celular, não fosse o objeto um copo, não fosse Nighthawks uma pintura de 1942. Esses infernais aparelhos andavam longe de existir. E ainda que com eles alguém sonhasse, como poderia idear um mundo povoado de seres aprisionados nesta espécie de exoesqueleto mental? Seres repletos de contatos, aplicativos e conexões instantâneas. Cada qual com sua caixinha luzidia, luciferina, perfeitamente ludibriado na solidão, eternamente diante do espelho, eternamente Narciso. Foto: The Art Institute of Chicago.


O Café à noite na Praça Lamartine (1888). Obra de Vicent Van Gogh. 
Galeria de Arte da Universidade de Yale. Foto: Wikimedia Commons.


— […] O senhor podia dirigir um pouco mais depressa. Creio que não chegamos nem aos trinta quilômetros por hora.

— Essa é a velocidade favorita de Rocinante. É um auto muito velho e não posso forçá-lo, não em sua idade.

— Estamos sendo ultrapassados por todo os carros na estrada.

— Que que tem? O ancestral deste automóvel jamais passou de trinta quilômetros por hora.

Diálogo entre o padre Quixote e seu amigo, o prefeito Enrique Zancas, apodado Sancho. Edição espanhola em e-book de Monseñor Quijote, romance de Graham Greene, Océano Hotel de las Letras, 2016.

Opa! Vamos apear?

Ah-ah, a gente sofre, mas se diverte. Pensava que Nosso homem em Havana era a história mais engraçado de Graham Greene (1904-1991). Monseñor Quijote ganhou a parada.

Enquanto o primeiro livro ri dos serviços secretos nas porfias ideológicas da Guerra Fria, o outro graceja da fé, a um tempo dá fé divina e da fé marxista, quando ambas estão em xeque e balançam na dúvida.

O Quixote de Greene ainda tem mais camadas literárias frente a Nosso homem. Com certa gravidade, junta humor e tragédia, e com maestria baralha realidade e ficção.

Desopilei o fígado, ou seja, a leitura me livrou dos excessos da bile negra, o tal fluido corporal a que os antigos atribuíam a melancolia.  

Greene viajou muito à Espanha, antes e depois da ditadura franquista. Gostava do país e amava Dom Quixote de La Mancha. Cervantes e outro Miguel espanhol, o filósofo Unamuno, considerado apóstolo da dúvida, influenciaram sua literatura.

Religioso e leitor de teologia, Greene se definia como escritor “católico agnóstico”; tinha fortes simpatias pela esquerda; fora espião do MI6, ainda que freelance; era beberrão, mas dedicado a seu ofício, a ponto de escrever 300 palavras toda manhã. De tudo isso subjaz alguma coisa nas páginas de Monsenhor Quixote.

O herói do romance é um padre humilde, sem posses, sem familiares, ressabiado com o mundo e o poder de Roma. De certo modo, é parente do miserável sacerdote de O poder e a glória, a obra prima de Greene. Mas ele afirma ter como ancestral longínquo o cavaleiro da triste figura. No início da narrativa, por obra do acaso, recebe, como gratidão de uma eminência italiana, a quem deu carona e alimentou, o título de monsenhor, honraria que vai desprezar. Prefere ser padre, simplesmente, ainda que descendente de um personagem ficcional, e logo de qual! Um personagem tão ou mais referencial que o Hamlet. Ao tornar seu Quixote consciente dessa contradição, Greene demonstra seu enorme e comovedor dom de fabulação.

Quixote é pároco da pequena comunidade de El Toboso, na região da Mancha. Quando o conhecemos, a Espanha se acostumava à vida depois de Franco, que, enfim, abotoara o paletó, em 1975. Se uma parte do país ainda pranteava o generalíssimo, outra, bem maior, ansiava pela democracia.

O grande amigo do padre é o prefeito comunista Enrique Zancas, que acaba de perder a reeleição em El Toboso, a quem o padre só trata por Sancho. O padre se desavém com seu bispo franquista, que não suporta sua nobreza e pureza espiritual. Ao solicitar um período de férias e retiro, de pronto é atendido pelo dignatário, pra se ver livre de seu pastor rebelde. Mas o prelado se arrependerá da decisão.

A bordo de Rocinante — um velho Seat 850 a quem o pároco dedica grande afeição, como a uma criatura de Deus — Quixote e Sancho Pança saem a passear e prosear por cidades vizinhas, como há séculos fizeram os seus célebres ancestrais. Todos os espaços vazios de Rocinante são preenchidos com caixas do bom vinho da cooperativa de El Toboso.

As aventuras dos dois amigos vão emular as do cavaleiro e seu escudeiro, na Espanha de 1976. Os episódios da narrativa são entremeados pela interminável contenda entre eles sobre os dilemas da fé, e do mundo à luz do marxismo. O estilo seco e direto, quase elétrico de Greene, é delicioso, um vira-páginas.

O prefeito Sancho busca argumentos pra se rir da crença religiosa em deus; o padre Quixote, afundado na dúvida, lembra a Sancho a toda hora a sombra monstruosa de Stálin a pairar sobre os desatinos do comunismo.

Mas o padre Quixote encontra no Marx do Manifesto Comunista, que lera por acaso, um autêntico seguidor de seu antepassado, e aí percebemos uma pequena intromissão de Greene na narrativa. “Marx era um verdadeiro profeta”, diz a Sancho com entusiasmo. “Inclusive previu a existência de Stálin: “Tudo que é sólido desmancha no ar; todo o sagrado é profanado”.

Os colóquios entre Sancho e Quixote são generosamente regados pelo vinho que trazem da Mancha, além de queijo e salame. De copo em copo, o padre acaba, por engano, entrando numa uma sessão de cinema pornô em Saragoça. Enganara-se com o título do filme: La plegaria de una virgen (As súplicas de uma virgem).

Logo definem que a justa medida pra cada tertúlia eram três garrafas, numa hilária representação da Santíssima Trindade. Chegam ao padrão áurico depois de o padre Quixote — já tinham esvaziado a segunda botella — sugerir que deveriam se contentar com apenas mais meia garrafa, volume que ele compara ao Espírito Santo na Trindade.

Essa heresia brincalhona o levará, já sóbrio, a um ato de contrição. Em todo caso, concluem que antes a precisão de três garrafas que a irresolução de duas e meia.

A edição do livro em português está disponível nos bons sebos da praça. Saiu no Brasil em 1982, mesmo ano da publicação original, pela Record, e nunca foi reeditado, ao que parece, num desastre cultural.

Monsenhor Quixote foi incubado durante seguidas viagens de Greene pela Espanha durante a transição democrática. Em vez de um Seat 850, o autor britânico dirigia um Renault 5, e tinha um padre como companheiro. Chamava-se Leopoldo Durán, e se tornou seu amigo pelo resto da vida.

Greene era próximo de comunistas espanhóis, Durán, um vigário conservador. Como na ficção, transportavam generosa carga de vinho no carro, além de uísque, preferido por Greene pelas tardes. É quase certo que nessas voltas Greene tenha feitos relatos pro MI6 sobre bastidores da política espanhola.

A história por trás da história é narrada em Viajes con mi cura. Las andanzas de Graham Greene por España y Portugal, de Carlos Villa Flor, lançado em março deste ano, como informa uma resenha de Jesús Ruiz Mantilla no El País.

Da leitura também me ficou, além do riso e uma admiração ainda maior por Greene, as palavras de uma missa católica celebrado em latim por um sonâmbulo monsenhor Quixote, já mais pro final do romance, em uma frase bonita como esta,

— Agnus Dei. Agnus Dei qui tollis peccata mundi.

A que respondo: Tende piedade de nós!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?



Ataque a Cervantes

Em São Francisco, nos EUA, combatentes antirracistas irmanados pelas redes atacaram impiedosamente uma estátua de Cervantes (1547-1616), no embalo dos protestos pelo assassinato de George Floyd. O autor do Quixote foi acusado, veja você, de ter vendido escravos à América! Logo o pobre do Miguel, ele próprio feito escravo em Argel durante cinco anos. “A infantilização social não pode ser um remédio contra esta invasão do ódio, de irracionalidade e exibição de ignorância”, defendeu Berna González Harbour. Seu artigo trata dos monumentos à intolerância erguidos pelo povo, sim, pelo voto, nomeadamente gigantes reais, nada de moinhos de vento, como Topete Atômico e ¡Caveirão.38! A resposta, conclui mais à frente a jornalista e escritora, deve ser “a construção adulta de uma sociedade por meio da educação, sem que falte bem-estar. Esse deve ser o foco”. Simples, não? Antes fosse.

Moinhos de vento

Só pode ser a DAIM (Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo, síndrome formulada aqui), a levar um bando de meninos justiceiros a vandalizar uma estátua erguida em gratidão ao criador do Quixote. Como Shakespeare, peço licença ao professor Harold Bloom, Cervantes também é um inventor da humanidade. Ainda pintaram a palavra “bastardo”, em tinta vermelha indelével, ao pé do bronze. Duvido que os milicianos de São Francisco, a aplicar corretivos na história, tenham lido meia dúzia de páginas do gênio que incriminaram. Duvidê-ó-dó. São movidos pelo ódio que, ainda que de maneira fantasmal, julgam combater. Isso geralmente chama-se falta de educação.

O erro do Times

O episódio da demissão de James Bennet, editor de Opinião do The New York Times no início deste mês, assunto da última Ju, mereceu esta semana o repúdio de Antonio Caño, ex-diretor do El País e um dos mais respeitados jornalistas espanhóis. Bennet foi defenestrado pela pressão dos próprios colegas de redação e da reação linchadora no Twitter contra o Times, depois de o jornal publicar um artigo do senador Tom Cotton. O republicano defendia o uso das forças amadas contra os protestos antirracistas no país. “É um alarmante indicador do avanço do ativismo sobre o jornalismo, e mais um sinal da degradação das democracias modernas,” — escreve Caño — “que sacrificam sem pudor o direito à discrepância e ao livre pensamento no interesse de um poder identitário que se faz cada dia mais incontível pelas armas do debate e da razão”. Caño ainda cita a colunista Kathleen Parker, do The Washington Post: “Não é preciso muita coragem para somar-se à turba e proibir um artigo ou arruinar uma carreira; o que requer coragem é se ver sozinho frente a uma avalanche de Twitter, por defender o livre intercâmbio de ideias, inclusive se são más ideias.”

George Floyd, um brasileiro

E se George Floyd (1973-2020) fosse brasileiro e favelado? Essa é fácil. Enquanto velava seu corpo, a família de Floyd, em desespero, tentaria provar que ele não era um bandido, mas inocente. Nas redes sociais, catalisadas pelo WhatsApp, choveriam posts acusando Floyd de não ser boa bisca, ter antecedentes criminais, não ser nada disso “que estão dizendo”. Isso, obviamente, segundo cabecinhas cheias de ar e corações enfezados, é justificativa pra que a polícia mate pretos e pobres impunemente. Aconteceu com Marielle Franco; aconteceu com o menino João Pedro. Acontece toda hora.

São Jerônimo no deserto
Bem antes de Unilever, Coca-Cola, Pepsi, Adidas, Honda, Ford… e outras 400 gigantes do mercado global, hehehe, esta Jurupoca boicotava o feis, o insta, e o Twitter de cambulhada. Não anuncia nem mete a pata nas redes multitudinárias. Está com o boicote e não abre. As companhias tentam pressionar Mark Zuckerberg a fazer mais do que emitir palavrórios contra propagação dos discursos de ódio em seu império midiático. Mas isso, a pressão, será passageira. Ninguém vive hoje sem feis e sem insta. Ninguém? Viver, vive, mas é atitude digna de eremitas e acetas de antanho, a exemplo dum São Jerônimo. Não faz de ninguém santo, talvez menos raivoso, menos ansioso, e menos estúpido. Helahoho! helahoho!

O esplêndido São Jerônimo de El Greco, da coleção da Academia Real de Belas Artes de São Fernando, em Madri. Foto: Google Art Project.

A Titica
Na gênese desta Jurupoca havia uma Titica Cotidiana, jornal mural de oposição criado e mantido por um pequeno grupo de estudantes de jornalismo da PUC Minas. Nossa gazeta iconoclasta dava tirambaços em forma de artigos, charges e outras bossas que fixávamos no corredor. Teve boa aceitação. Me assusta pensar nesta Ju como herdeira da Titica, por guardar uns fiapos daquela essência inconformada e, vamos lá, indomesticável. Se o sangue esfriou e o facho baixou, esta carta preserva o apego ao pensamento autônomo. A Ju tenta honrar aquela redação verdolenga, e a seus queridos membros. A honestidade intelectual tem como precondição uma mínima humildade diante da verdade factual. Mudar quando os fatos mudam, na grande lição do historiador Tony Judt, demanda energia e disposição intelectual. Muito mais simples é ceder a fantasias, e perder-se em disputas políticas ocas e encarniçadas. Daquela Titica o autor da Ju conserva a necessidade de escrever e a precisão demencial de se expressar, uma veneta, é verdade, que o ajuda a preservar alguma lucidez. Mas a que preço?


INTERVALO

Com Chico Buarque (Rio de Janeiro, 1944) em Flor da idade. Como a moça do rádio de pilha de que fala a letra, vivo parado no sucesso dessa canção desde 1975, quando a ouvi nascer.

Composta em 1973 pra trilha do filme Vai trabalhar vagabundo, de Hugo Carvana, a encomenda coube na trilha de Gota d’água, peça de Chico e Paulo Pontes. Os dois autores são parceiros em várias músicas desse espetáculo, mas Flor da idade é Chico puro.

Em 1975 saiu o compacto Chico Buarque & Maria Bethânia. A canção era a primeira do lado B, seguida por Vai levando; no lado A vinham Sem açúcar e Gota D’água. E saiu também o LP, sempre pela Phillips, com o registro do show da dupla no Canecão.

No ano seguinte, Flor da idade é faixa do álbum triplo Palco, Corpo e Alma, e, em 1977, do LP Gota D´Água, da RCA Victor, com músicas e falas dos atores na peça.

Caetano Veloso gravou uma bonita versão no Songbook Chico Buarque, Vol. 3, de 1988. Há outras boas interpretações, como esta de Felipe Catto, de 2012. Flor da idade sofreu as dores do parto na censura pra poder vir ao mundo, como lemos no site oficial de Chico:  

“[…] Na parte final de Flor da idade, por exemplo, baseada no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, uma vertiginosa ciranda de amores acaba por acasalar dois homens, Paulo e Juca, para o escândalo das autoridades. Em carta aos advogados, Chico citou o dicionário para argumentar que o verbo ‘amar’ nem sempre tem conteúdo erótico. A música passou.”

Flor da idade é uma “canção de formação’, ousaria chamá-la assim, com uma letra primorosa, dessas que nos ensinam o português e criam amor pela língua.

Não há adolescente que a ouça e não se reconheça em seu universo familiar de classe média ou remediada do país durante os anos do milagre.

Não há quem, com mais de 50 anos, não se amarre nesta espécie de madalena proustiana a desvelar emoções pubescentes.

O verso “a mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha” talvez seja o mais memorável.

Mas, o que dizer deste outro: “despudorada, dada, à danada agrada andar seminua”?

Agora, o que torna a canção eterna é seu refrão, “Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor”, com variações. À letra:

A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
 
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
 A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
 
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

 1973 © Marola Edições Musicais   


Ó pátria, tão bela e tão perdida
A transcendente ária Va’ pensiero, de uma ópera de Verdi, é um hino extraoficial da Itália e uma ode à libertação, ao amor pela pátria usurpada e corrompida, qualquer pátria amada. Fabio Giambiagi, colunista de O Globo, recomenda mais uma vez essa música ao seu leitor, “neste momento em que o país dá novamente sinais de ter se perdido”. O economista lembra um episódio emocionante, mesmo devocional, ocorrido em 2011. Silvio Berlusconi se achava na plateia de uma apresentação do Nabucco, ópera que traz o Va’ pensiero, no Teatro dell’Opera di Roma. Pois, antes da récita, Il Cavaliere foi obrigado a ouvir o discurso do prefeito da cidade, seu correligionário, condenando a aversão do governo à cultura. As palavras do prefeito tocaram o público, que manteve uma tensão inaudita até o fim, o que foi notado pelo maestro Ricardo Muti. Então, apenas pela segunda vez na história musical italiana, um maestro concederia um bis ao Va’ Pensiero. Este vídeo registra o episódio. É preciso chegar ao apoteótico e catártico final. Aplausos e lágrimas e a conjunção entre palco e plateia podem sim, Giambiagi, e, sim, doutor P.J., que me recomendou esta nota, nos trazer um alento, eterno enquanto dure. È vero, dá vontade de cantar junto com o coro: “Ó pátria minha, tão bela e tão perdida”. Mas nosso caso é ainda mais grave, e não temos a força cultural italiana.


Salve Gil!
Teve de boaça a #FestaDoGil, um arretado hino ao forró e à imensa contribuição nordestina à música brasileira. Vida longa ao baiano que chega aos 78 anos. Muitos vivas a um artista que nos redime, como poucos, do ubíquo miserê. Um barato total também o parabéns pro Gil com participação de uma pá de gente no clipe Andar com fé: Chico, Caetano, Jorge Bem, Alcione, Sangalo, Steve Wonder, Nando Reis, Lenine, Zeca Pagodinho, Fernanda Montenegro… Só vendo. Salve Gil!


Paisagens sonhadas
Enredava uns fios de sonho soltos ao me levantar. Eram um acordes derivados da voz delicada de Rosemary Standley, do novo disco da artista franco-americana? Compassos de uma canção de Schubert inacreditavelmente linda, a Ständchen, na voz de Rosemary? Mas não era mais o canto em alemão. No fundo do sonho, com umas montanhas úmidas enevoadas, ressoava a bela versão transposta para o português dessa música por Arthur Nestrovski, que no dia anterior inutilmente eu havia tentado lembrar. Com o nome de Serenata, a versão ganhou as graças do sucesso ao entrar na trilha da novela Velho Chico, interpretada por Chico César. E não é que aqueles fios de sonho soltos me fizeram retomar o Livro do desassossego? bem aqui: “Mas as paisagens sonhadas são apenas fumos de paisagens conhecidas e o tédio de as sonhar também é quase tão grande como tédio de olharmos para o mundo.”


Lições à Saúde
Paraisópolis, aglomerado de cem mil habitantes em Sampa, se organizou e conseguiu reduzir a taxa de mortalidade pelo Corona à metade da média paulistana. Com doações privadas e determinação pra superar a ausência do Estado, a comunidade ensina o inoperante Ministério da Saúde e a seu general da banda o que poderia ter sido feito em todo país — tivéssemos presidente, tivéssemos ministro. Há três ambulâncias com equipes completas à disposição, dia e noite. Os moradores são monitorados quadra a quadra por 650 “presidentes de rua” cadastrados. Esses observadores da vizinhança se reportam à coordenação do esquema. Doentes são isolados em abrigo comunitário, onde recebem assistência de profissionais de saúde, cestas básicas e vales em dinheiro. Essa história é relatada num dos ótimos podcasts do G1, O Assunto, comandado por Renata Lo Prete. O programa põe no chinelo o parcial e preguiçoso Café da Manhã, seu falho competidor da Folha.   Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O sol. A Nasa juntou fotografias do sol acumuladas em uma década neste vídeo de pouco mais de um minuto. |

Jazz de protesto. O “casseta” Reinaldo Figueiredo produz e apresenta um bom programa de jazz na Rádio Batuta, do IMS. Neste episódio ele toca oito músicas, de clássicos a composições atuais. Tudo alude ao “pecado de ter a pele negra” na terra de George Floyd, como diz a letra de Black and blue (Fats Waller, Harry Brooks e Andy Razaf), canção interpretada por Louis Armstrong. Claro, a seleção inclui Strange fruit (Abel Meeropol), na voz de Billie Holiday, poema arrepiante e dilacerante sobre o linchamento de negros no Sul dos EUA.|
Guitarras de proa. O canal do YouTube Jazz3+  estreou esta semana The Great Guitars: Barney Kessel, Charlie Byrd, Tal Farlow – Live at ZDF Jazz Club 1988. O show é da pesada. |

Heróis do rock’n’roll. Sentado na varanda em frente ao mar, em sua casa na ilha de Menorca, no Mediterrâneo espanhol, o bateristas Ian Paice, fundador da banda Deep Purple dá longa e evocativa entrevista à revista espanhola Jot Down. |
Festim de inteligência. Rafael Narbona, na revista catalã El Cultural resenha e louva Medio siglo con Borges, livro de Mario Vargas Llosa que reúne ensaios, entrevista e documentos sobre Jorge Luis Borges, sem lançamento anunciado no Brasil. Narbona promete ao leitor um “um festim da inteligência [unindo] dois comensais extraordinários e quase antagônicos”. A edição ainda traz uma entrevista com Llosa. |
O atraso renovado. “Neo-Backwardness In Bolsonaro’s Brazil” (o neoatraso no Brasil de Bolsonaro” é o título da instrutiva a entrevista do crítico literário Robert Schwarz no último número da revista britânica New Left Review. Schwartz, estrela do que há de mais produtivo e luminoso na esquerda brasileira, aponta o que aproxima e distancia de 1964 da eleição de 2018, interpreta Terra em Transe, de Glauber Rocha, e discute o modernismo da antropofagia e o modernismo em relação a Machado de Assis e o Tropicalismo. |
A esquerda obscura. A revista trimestral socialista novaiorquina Jacobin, que tem uma edição brasileira, é uma fonte involuntária de humor. Seu número mais recente tem como prato principal uma entrevista com Zé Dirceu, isso aí, tingido de vermelho e cor de rosa como herói do socialismo mundial. Sua folha corrida nunca é mencionada. O “the famous 2005 Mensalão Scandal” até que surge, de passagem. Pro entrevistador informar que o cavaleiro petista da esperança foi condenado por suborno sob uma “obscura e largamente contestada cláusula legal”, igualando o Mensalão ao impeachment de Dilma Rousseff. Sobre o enriquecimento do homem, do consultor, e outras condenações e canas posteriores, já na era do Petrolão, nem pio. |

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.