Perdidos no espaço analógico

Jurupoca #46. Desde o Belo, 6 a 12/11/2020. Ano 2

Soneto 178 – Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Assim lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: “Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!”

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Era uma vez uma cartinha analógica que explorava galáxias na mandatória nave Júpiter II em busca de um atalho, um “buraco de minhoca”, para alcançar o mundo digital.

O missivista sabia que perseguir tal atalho era pretexto vão de um navegador extraviado, epa, fadado, debalde, o mesmo que embalde, a navegar e navegar sem rumo por aí, isto é, pelas galáxias.

Ainda que chegasse à pretendida dimensão espaço-temporal, lá não haveria ninguém capaz de decifrar a escritura analógica, nascida do ser analógico arredio, o mesmo que dévio, assegura o Houaiss, do missivista.

Os seres daquele mundo, daquele tempo, não tinham tempo nem (acima de tudo) proveito, aqui o mesmo que interesse, no sentido de pecúnia, com quimeras analógicas: analogias, metáforas, ironias.

Dicho sea de paso que a palavra “quimera” se necrosara no corpo do idioma, aliás, também a própria colocação pronominal, além dos vocábulos implícitos: “carta”, “missivista” o “escambau”.

Naquele mundo a palavra desencantada sepultara de vez a moribunda e patética poesia, ao menos o moribundo e patético poema analógico.

É que a lavra poética havia muito fora assumida pela inteligência artificial robótica no mercado digital de cliques.

Aplicativos abertos tornaram acessível, inclusive aos mais patetas, mesmo que parvos, a fatura poética como, acima de todos os propósitos, a inteira gama da criação literária e musical.

Robôs poetas sugeriam os versos dos putativos, no sentido de supostos, poetas compartilhadores (sic), desde a pré-história dadivosa e virtuosa, como também lacrimosa, do Instagram, naquele multitudinário mundo da criação instantânea.

Naquele mundo intenso, a publicidade conseguira de vez recriar-se no ativismo exclusivo dos mais ativos, verdadeira revolução no vender o peixe antediluviano dos criativos.

Era capaz, a publicidade, de fixar na imagem de uma empresa suja como pau de galinheiro a benévola aura duma Santa Dulce dos Pobres, ou de converter o capital supremacista num baluarte da luta antirracista.

Bastava, em suma, deslanchar uma onda de hashtags em inglês engajadas e virtuosas formuladas por criativos tecnicamente multitalentosos.

Mas isso e o resto são detalhes.

Significativo é narrar que, ainda assim, careca de saber de tudo isso e aquilo, nosso pugnaz missivista seguia a alçar tamancas e bater cabeça pelas galáxias, atrás de unzinho “buraco de verme”, assim traduzido do inglês “wormhole”, para contrabandear suas cartinhas para o mundo digital, mundo que punha no chinelo aquele outro, admirável, de um tal de Aldous.

Cuá, dizia o missivista para si próprio, resignando-se num remordimento de intra-imo, como o Dedalus do Joyce, isto é, do Houaiss, e salvando-se com a prima Naná com esse peculiar “cuá” familiar.

Pois, cuá, dizia, que ficassem por lá, transviadas, aquelas cartas analógicas, expressão de um ser analógico perdido no espaço, caso, claro, um dia ou uma noite, tais cartinhas deparassem um “buraco de minhoca” e pulassem a cerca espaço-temporal inteirinhas da Silva.

Cuá, que se acumulassem na posta-restante que não haveria, a espera de civilizações superinteligentes, faladoras de todas as formas do inglês do universo, como aprendeu quem viu muito Jornada na estrelas.

Fantasiava que tais exegetas, no caso comentaristas, lograriam ler, interpretar e, finalmente, despachar suas cartinhas, no sentido de, pelo amor de deus, nos livrar a todos de tais escritos até, inclusive e pelo menos, o fim do mundo.

Moral da história? Tuta e meia, nonada, equivalentes a ninharia.

Ou antes esta: Era uma vez um pinto pedrês, quer que eu te conte outra vez?

O BREVE RETORNO DE UM ALIEN AO FACEBOOK

Jonathan Harris como o
inesquecível Dr. Zachary Smith

Durou uma semana contada nos dedos de uma única mão o regresso do missivista às entranhas da rede social mais popular da Terra, o tóxico Facebook. Que aventura rosicler desfrutou nosso anti-herói! De cara, imbuído de profunda sinceridade desinteressada, disse um alô para colegas de faculdade com quem não parolava há meio século, com quem, é certo, continuou sem parolar. Contatou um familiar e obteve ansiadas notícias da amada madrinha! Solicitou (sic) a outro amizade na rede, que de pronto lha concedeu (eta nós!). Que viagem, hein, meu chapa? Mas não. Como dantes, sentiu-se, transcorrida aquela fase lunar, e era previsível que transcorresse assim, sentiu-se fantasmagórico, enjoado como uma grávida sem feto nos primeiros meses, talvez com um que outro desafeto, isto sim, sentiu-se a flutuar na estratosfera algorítmica do Zuckerberg como um Dr. Zachary Smith na abertura do seriado Perdidos no espaço, de priscas eras analógicas, mas que se pode recordar nesta página, graças a algum caridoso youtubeiro. Sentiu nosso macunaímico anti-herói, caso permanecesse mais dois segundos naquela dimensão social, que perderia o que lhe restava de carnação, sopro e véu da palavra, além da afanada lucidez. 

O samba-choro E o mundo não se acabou é um dos mais populares na obra de Assis Valente. A maestria do autor pipoca nos versos iniciais: “Anunciaram e garantiram/ Que o mundo ia se acabar…”.

Lançado por Carmem Miranda em 1938, a composição fazia “uma perfeita crônica sobre o fim do mundo, devido à possível colisão do cometa Halley com a Terra”, lemos no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

No segundo semestre de 1999, quando o fim do mundo fez uma de suas rentrées, com o Bug do Milênio, o velho sucesso de Valente foi muito lembrado por rádios e programas de TV.

Um ano antes Paula Toller havia incluído sua versão do samba no álbum da WEA com seu nome.

Ouvíamos uma cantora amadurecida e autoconfiante. Como disse à época um crítico de Veja a brincar com um sucesso do Kid Abelha, a artista conseguira transformar seu rascunho em arte final.

O arranjo de Graham Preskett honra o fonograma de Carmem, mas é ao mesmo tempo moderníssimo.

O colorido é obtido pelo amálgama sonoro de violão, guitarra, baixo elétrico, teclados, bateria programada e sampler. Ritmo e melodia soam ainda mais provocativos, uma autêntica transcriação e adaptação aos modos e recursos da época.

Embora muita gente boa tenha gravado este samba-choro, e entre os mais afamados constem Marlene, Isaurinha Garcia, Ná Ozzetti, Adriana Calcanhotto e Ney Matogrosso, a interpretação de Toller é a que me parece mais vital e pulsante, a que mais se sintoniza com a própria Carmem Miranda, erguendo uma ponte de meio século com inventividade e elegância.

A Toller introduziu um grão de pimenta e liberação feminina, com “cacos” teatrais que atualizam a letra aos costumes, além de uma introdução sacaninha sobre a frase instrumental da abertura. Assis Valente, estou certo, se sentiria honrado com a saudável e ousada e loura intérprete de seu hit.

E o mundo não se acabou – Assis Valente, com “cacos” de Paula Toller

Aracaju, maracujá, pega daqui, taca de lá
Maricota, Mariquinha e Mariquita soltam a periquita lá em
Guaratiba e Guarujá
Maracatu, jacarandá, Jeca tatu, Paranaguá
Papacu rasteiro vem correndo bem ligeiro
Vem querendo um bocadin’ de guaraná

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente
Lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer
Antes da madrugada
Por causa disso nessa noite lá
No morro não se fez batucada

Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar

Beijei na boca de quem não devia
Peguei no pau de quem não conhecia
Dancei pelada na televisão
E o tal do mundo não se acabou

Chamei um cara com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão/um milhão
Agora eu soube que esse cara anda
Dizendo coisa que não se passou
Vai ter barulho vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou

O INSTA REDIMIDO

Depois de vilipendiada por pesquisas que comprovaram, decerto levianamente, que a rede faz mal à saúde, causa ansiedade e o diabo a quatro, o Instagram se viu sem querer redimido pelo, sempre quando quer, acrítico ex-caderno de ex-cultura da Folha. Imperativa, que é o modo mais sábio de induzir pavlovianamente o ato de clicar, a Ilustrada manchetou garrafal o título acima. A descolada repórter ouviu uma publicitária e uma doutora em semiótica, ou algo assim. Claro, também ouviu uma virtuosa ativista exclusivista. O leitor do relato acreditará se quiser que, enquanto o Facebook e o Twitter são puro veneno, é do Insta que virá a revolução social ensejada pelos ultraprogressistas do ex-jornalismo, ou, no vocabulário dos redatores do ex-caderno: “Saiba como o Insta está mudando o mundo para melhor”.

NÚMEROS “ATRASADOS” DA JU NO BLOG

A Jurupoca #32, a Ju e a Tigresa é o mais recente dos números “atrasados” desta carta trazidos para este Livro de Viagem. Faltam, creio, transpor outras sete edições do acervo da plataforma TinyLetter para que tal trâmite seja dado por findo.

«La gota de rocío, com o cubano Silvio Rodríguez.175

«125 – Ô DE CASAS – Mônica Salmaso, Ney Matogrosso e Webster Santos.»

«Não há cena de seus sete filmes como James Bond, por mais memoráveis que sejam, que me façam recordar Sean Connery como este Robin e Mary, o filme dirigido por Richard Lester e lançado em 1976, estrelado por ele e também encantadoramente por Audrey Hepburn. Só achei no YouTube a cena final completa com legenda em francês.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

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Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #29

Belo Horizonte, 3 a 9 de julho de 2020 — Carta 29



175.

[…]
“Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos porque se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de pensar, a amoralidade, e a hiperexcitação.”

Fernando Pessoa (1888-1935) pelo heterônimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego. A edição da Companhia das Letras (2016), traz a organização do Livro por Richard Zenith, à pág. 190. O trecho na íntegra pode ser lido nesta página do Arquivo LdoD.


Figura carimbada do realismo norte-americano, Nighthawks (noctívagos) de Edward Hopper (1882–1967), e outras obras do artista ondulam na internet durante a pandemia. “Melancolia, desequilíbrio, desassossego: esse é o estado de ânimo que expressam muitos quadros de Hopper”, diz a escritora e tradutora tcheca residente na Espanha Monika Zgustova. Seu texto enlaça um comentário de Guillermo Solana, diretor do Thyssen-Bornemisza, quando o museu madrileno organizou uma muito bem-sucedida exposição do pintor, em 2012: “Hopper nos fascina porque a maioria do público busca na pintura, como no romance e no cinema, […] um espaço habitável, uma janela através da qual espiarmos outras vidas, a possibilidade de viver imaginariamente essas vidas, e a esperança de que finalmente nossa própria existência, com toda sua insignificância, se converta subitamente em outra coisa”. Zgustova diz que as obras de Hopper se tornam proféticas neste mundo instável, neste mundo líquido descrito por Zygmunt Bauman, o sociólogo polonês morto em 2017, ao expressarem nossa “solidão ansiosa”. Eis meu ponto. A “solidão ansiosa”. A ligação dessas duas palavras é como um retrato que acabou de surgir do banho de revelação, um retrato de como vivemos. A gravidade sútil de Nighthawks — com os fregueses insones no bar, que vemos através do vidro, como num cercado — é obtida por meio de zonas de luz e sombra e do fundo exterior noturno. A composição pode mesmo ter sido inspirada no Café à noite na praça Lamartine (abaixo), de Van Gogh. É como o verso de um poema ao acender uma percepção. As pessoas à frente do balcão não se conhecem ou se falam. Imagino ver nas mãos do homem mais afastado um celular, não fosse o objeto um copo, não fosse Nighthawks uma pintura de 1942. Esses infernais aparelhos andavam longe de existir. E ainda que com eles alguém sonhasse, como poderia idear um mundo povoado de seres aprisionados nesta espécie de exoesqueleto mental? Seres repletos de contatos, aplicativos e conexões instantâneas. Cada qual com sua caixinha luzidia, luciferina, perfeitamente ludibriado na solidão, eternamente diante do espelho, eternamente Narciso. Foto: The Art Institute of Chicago.


O Café à noite na Praça Lamartine (1888). Obra de Vicent Van Gogh. 
Galeria de Arte da Universidade de Yale. Foto: Wikimedia Commons.


— […] O senhor podia dirigir um pouco mais depressa. Creio que não chegamos nem aos trinta quilômetros por hora.

— Essa é a velocidade favorita de Rocinante. É um auto muito velho e não posso forçá-lo, não em sua idade.

— Estamos sendo ultrapassados por todo os carros na estrada.

— Que que tem? O ancestral deste automóvel jamais passou de trinta quilômetros por hora.

Diálogo entre o padre Quixote e seu amigo, o prefeito Enrique Zancas, apodado Sancho. Edição espanhola em e-book de Monseñor Quijote, romance de Graham Greene, Océano Hotel de las Letras, 2016.

Opa! Vamos apear?

Ah-ah, a gente sofre, mas se diverte. Pensava que Nosso homem em Havana era a história mais engraçado de Graham Greene (1904-1991). Monseñor Quijote ganhou a parada.

Enquanto o primeiro livro ri dos serviços secretos nas porfias ideológicas da Guerra Fria, o outro graceja da fé, a um tempo dá fé divina e da fé marxista, quando ambas estão em xeque e balançam na dúvida.

O Quixote de Greene ainda tem mais camadas literárias frente a Nosso homem. Com certa gravidade, junta humor e tragédia, e com maestria baralha realidade e ficção.

Desopilei o fígado, ou seja, a leitura me livrou dos excessos da bile negra, o tal fluido corporal a que os antigos atribuíam a melancolia.  

Greene viajou muito à Espanha, antes e depois da ditadura franquista. Gostava do país e amava Dom Quixote de La Mancha. Cervantes e outro Miguel espanhol, o filósofo Unamuno, considerado apóstolo da dúvida, influenciaram sua literatura.

Religioso e leitor de teologia, Greene se definia como escritor “católico agnóstico”; tinha fortes simpatias pela esquerda; fora espião do MI6, ainda que freelance; era beberrão, mas dedicado a seu ofício, a ponto de escrever 300 palavras toda manhã. De tudo isso subjaz alguma coisa nas páginas de Monsenhor Quixote.

O herói do romance é um padre humilde, sem posses, sem familiares, ressabiado com o mundo e o poder de Roma. De certo modo, é parente do miserável sacerdote de O poder e a glória, a obra prima de Greene. Mas ele afirma ter como ancestral longínquo o cavaleiro da triste figura. No início da narrativa, por obra do acaso, recebe, como gratidão de uma eminência italiana, a quem deu carona e alimentou, o título de monsenhor, honraria que vai desprezar. Prefere ser padre, simplesmente, ainda que descendente de um personagem ficcional, e logo de qual! Um personagem tão ou mais referencial que o Hamlet. Ao tornar seu Quixote consciente dessa contradição, Greene demonstra seu enorme e comovedor dom de fabulação.

Quixote é pároco da pequena comunidade de El Toboso, na região da Mancha. Quando o conhecemos, a Espanha se acostumava à vida depois de Franco, que, enfim, abotoara o paletó, em 1975. Se uma parte do país ainda pranteava o generalíssimo, outra, bem maior, ansiava pela democracia.

O grande amigo do padre é o prefeito comunista Enrique Zancas, que acaba de perder a reeleição em El Toboso, a quem o padre só trata por Sancho. O padre se desavém com seu bispo franquista, que não suporta sua nobreza e pureza espiritual. Ao solicitar um período de férias e retiro, de pronto é atendido pelo dignatário, pra se ver livre de seu pastor rebelde. Mas o prelado se arrependerá da decisão.

A bordo de Rocinante — um velho Seat 850 a quem o pároco dedica grande afeição, como a uma criatura de Deus — Quixote e Sancho Pança saem a passear e prosear por cidades vizinhas, como há séculos fizeram os seus célebres ancestrais. Todos os espaços vazios de Rocinante são preenchidos com caixas do bom vinho da cooperativa de El Toboso.

As aventuras dos dois amigos vão emular as do cavaleiro e seu escudeiro, na Espanha de 1976. Os episódios da narrativa são entremeados pela interminável contenda entre eles sobre os dilemas da fé, e do mundo à luz do marxismo. O estilo seco e direto, quase elétrico de Greene, é delicioso, um vira-páginas.

O prefeito Sancho busca argumentos pra se rir da crença religiosa em deus; o padre Quixote, afundado na dúvida, lembra a Sancho a toda hora a sombra monstruosa de Stálin a pairar sobre os desatinos do comunismo.

Mas o padre Quixote encontra no Marx do Manifesto Comunista, que lera por acaso, um autêntico seguidor de seu antepassado, e aí percebemos uma pequena intromissão de Greene na narrativa. “Marx era um verdadeiro profeta”, diz a Sancho com entusiasmo. “Inclusive previu a existência de Stálin: “Tudo que é sólido desmancha no ar; todo o sagrado é profanado”.

Os colóquios entre Sancho e Quixote são generosamente regados pelo vinho que trazem da Mancha, além de queijo e salame. De copo em copo, o padre acaba, por engano, entrando numa uma sessão de cinema pornô em Saragoça. Enganara-se com o título do filme: La plegaria de una virgen (As súplicas de uma virgem).

Logo definem que a justa medida pra cada tertúlia eram três garrafas, numa hilária representação da Santíssima Trindade. Chegam ao padrão áurico depois de o padre Quixote — já tinham esvaziado a segunda botella — sugerir que deveriam se contentar com apenas mais meia garrafa, volume que ele compara ao Espírito Santo na Trindade.

Essa heresia brincalhona o levará, já sóbrio, a um ato de contrição. Em todo caso, concluem que antes a precisão de três garrafas que a irresolução de duas e meia.

A edição do livro em português está disponível nos bons sebos da praça. Saiu no Brasil em 1982, mesmo ano da publicação original, pela Record, e nunca foi reeditado, ao que parece, num desastre cultural.

Monsenhor Quixote foi incubado durante seguidas viagens de Greene pela Espanha durante a transição democrática. Em vez de um Seat 850, o autor britânico dirigia um Renault 5, e tinha um padre como companheiro. Chamava-se Leopoldo Durán, e se tornou seu amigo pelo resto da vida.

Greene era próximo de comunistas espanhóis, Durán, um vigário conservador. Como na ficção, transportavam generosa carga de vinho no carro, além de uísque, preferido por Greene pelas tardes. É quase certo que nessas voltas Greene tenha feitos relatos pro MI6 sobre bastidores da política espanhola.

A história por trás da história é narrada em Viajes con mi cura. Las andanzas de Graham Greene por España y Portugal, de Carlos Villa Flor, lançado em março deste ano, como informa uma resenha de Jesús Ruiz Mantilla no El País.

Da leitura também me ficou, além do riso e uma admiração ainda maior por Greene, as palavras de uma missa católica celebrado em latim por um sonâmbulo monsenhor Quixote, já mais pro final do romance, em uma frase bonita como esta,

— Agnus Dei. Agnus Dei qui tollis peccata mundi.

A que respondo: Tende piedade de nós!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?



Ataque a Cervantes

Em São Francisco, nos EUA, combatentes antirracistas irmanados pelas redes atacaram impiedosamente uma estátua de Cervantes (1547-1616), no embalo dos protestos pelo assassinato de George Floyd. O autor do Quixote foi acusado, veja você, de ter vendido escravos à América! Logo o pobre do Miguel, ele próprio feito escravo em Argel durante cinco anos. “A infantilização social não pode ser um remédio contra esta invasão do ódio, de irracionalidade e exibição de ignorância”, defendeu Berna González Harbour. Seu artigo trata dos monumentos à intolerância erguidos pelo povo, sim, pelo voto, nomeadamente gigantes reais, nada de moinhos de vento, como Topete Atômico e ¡Caveirão.38! A resposta, conclui mais à frente a jornalista e escritora, deve ser “a construção adulta de uma sociedade por meio da educação, sem que falte bem-estar. Esse deve ser o foco”. Simples, não? Antes fosse.

Moinhos de vento

Só pode ser a DAIM (Déficit de Atenção pela Infantilização do Mundo, síndrome formulada aqui), a levar um bando de meninos justiceiros a vandalizar uma estátua erguida em gratidão ao criador do Quixote. Como Shakespeare, peço licença ao professor Harold Bloom, Cervantes também é um inventor da humanidade. Ainda pintaram a palavra “bastardo”, em tinta vermelha indelével, ao pé do bronze. Duvido que os milicianos de São Francisco, a aplicar corretivos na história, tenham lido meia dúzia de páginas do gênio que incriminaram. Duvidê-ó-dó. São movidos pelo ódio que, ainda que de maneira fantasmal, julgam combater. Isso geralmente chama-se falta de educação.

O erro do Times

O episódio da demissão de James Bennet, editor de Opinião do The New York Times no início deste mês, assunto da última Ju, mereceu esta semana o repúdio de Antonio Caño, ex-diretor do El País e um dos mais respeitados jornalistas espanhóis. Bennet foi defenestrado pela pressão dos próprios colegas de redação e da reação linchadora no Twitter contra o Times, depois de o jornal publicar um artigo do senador Tom Cotton. O republicano defendia o uso das forças amadas contra os protestos antirracistas no país. “É um alarmante indicador do avanço do ativismo sobre o jornalismo, e mais um sinal da degradação das democracias modernas,” — escreve Caño — “que sacrificam sem pudor o direito à discrepância e ao livre pensamento no interesse de um poder identitário que se faz cada dia mais incontível pelas armas do debate e da razão”. Caño ainda cita a colunista Kathleen Parker, do The Washington Post: “Não é preciso muita coragem para somar-se à turba e proibir um artigo ou arruinar uma carreira; o que requer coragem é se ver sozinho frente a uma avalanche de Twitter, por defender o livre intercâmbio de ideias, inclusive se são más ideias.”

George Floyd, um brasileiro

E se George Floyd (1973-2020) fosse brasileiro e favelado? Essa é fácil. Enquanto velava seu corpo, a família de Floyd, em desespero, tentaria provar que ele não era um bandido, mas inocente. Nas redes sociais, catalisadas pelo WhatsApp, choveriam posts acusando Floyd de não ser boa bisca, ter antecedentes criminais, não ser nada disso “que estão dizendo”. Isso, obviamente, segundo cabecinhas cheias de ar e corações enfezados, é justificativa pra que a polícia mate pretos e pobres impunemente. Aconteceu com Marielle Franco; aconteceu com o menino João Pedro. Acontece toda hora.

São Jerônimo no deserto
Bem antes de Unilever, Coca-Cola, Pepsi, Adidas, Honda, Ford… e outras 400 gigantes do mercado global, hehehe, esta Jurupoca boicotava o feis, o insta, e o Twitter de cambulhada. Não anuncia nem mete a pata nas redes multitudinárias. Está com o boicote e não abre. As companhias tentam pressionar Mark Zuckerberg a fazer mais do que emitir palavrórios contra propagação dos discursos de ódio em seu império midiático. Mas isso, a pressão, será passageira. Ninguém vive hoje sem feis e sem insta. Ninguém? Viver, vive, mas é atitude digna de eremitas e acetas de antanho, a exemplo dum São Jerônimo. Não faz de ninguém santo, talvez menos raivoso, menos ansioso, e menos estúpido. Helahoho! helahoho!

O esplêndido São Jerônimo de El Greco, da coleção da Academia Real de Belas Artes de São Fernando, em Madri. Foto: Google Art Project.

A Titica
Na gênese desta Jurupoca havia uma Titica Cotidiana, jornal mural de oposição criado e mantido por um pequeno grupo de estudantes de jornalismo da PUC Minas. Nossa gazeta iconoclasta dava tirambaços em forma de artigos, charges e outras bossas que fixávamos no corredor. Teve boa aceitação. Me assusta pensar nesta Ju como herdeira da Titica, por guardar uns fiapos daquela essência inconformada e, vamos lá, indomesticável. Se o sangue esfriou e o facho baixou, esta carta preserva o apego ao pensamento autônomo. A Ju tenta honrar aquela redação verdolenga, e a seus queridos membros. A honestidade intelectual tem como precondição uma mínima humildade diante da verdade factual. Mudar quando os fatos mudam, na grande lição do historiador Tony Judt, demanda energia e disposição intelectual. Muito mais simples é ceder a fantasias, e perder-se em disputas políticas ocas e encarniçadas. Daquela Titica o autor da Ju conserva a necessidade de escrever e a precisão demencial de se expressar, uma veneta, é verdade, que o ajuda a preservar alguma lucidez. Mas a que preço?


INTERVALO

Com Chico Buarque (Rio de Janeiro, 1944) em Flor da idade. Como a moça do rádio de pilha de que fala a letra, vivo parado no sucesso dessa canção desde 1975, quando a ouvi nascer.

Composta em 1973 pra trilha do filme Vai trabalhar vagabundo, de Hugo Carvana, a encomenda coube na trilha de Gota d’água, peça de Chico e Paulo Pontes. Os dois autores são parceiros em várias músicas desse espetáculo, mas Flor da idade é Chico puro.

Em 1975 saiu o compacto Chico Buarque & Maria Bethânia. A canção era a primeira do lado B, seguida por Vai levando; no lado A vinham Sem açúcar e Gota D’água. E saiu também o LP, sempre pela Phillips, com o registro do show da dupla no Canecão.

No ano seguinte, Flor da idade é faixa do álbum triplo Palco, Corpo e Alma, e, em 1977, do LP Gota D´Água, da RCA Victor, com músicas e falas dos atores na peça.

Caetano Veloso gravou uma bonita versão no Songbook Chico Buarque, Vol. 3, de 1988. Há outras boas interpretações, como esta de Felipe Catto, de 2012. Flor da idade sofreu as dores do parto na censura pra poder vir ao mundo, como lemos no site oficial de Chico:  

“[…] Na parte final de Flor da idade, por exemplo, baseada no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, uma vertiginosa ciranda de amores acaba por acasalar dois homens, Paulo e Juca, para o escândalo das autoridades. Em carta aos advogados, Chico citou o dicionário para argumentar que o verbo ‘amar’ nem sempre tem conteúdo erótico. A música passou.”

Flor da idade é uma “canção de formação’, ousaria chamá-la assim, com uma letra primorosa, dessas que nos ensinam o português e criam amor pela língua.

Não há adolescente que a ouça e não se reconheça em seu universo familiar de classe média ou remediada do país durante os anos do milagre.

Não há quem, com mais de 50 anos, não se amarre nesta espécie de madalena proustiana a desvelar emoções pubescentes.

O verso “a mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha” talvez seja o mais memorável.

Mas, o que dizer deste outro: “despudorada, dada, à danada agrada andar seminua”?

Agora, o que torna a canção eterna é seu refrão, “Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor”, com variações. À letra:

A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
 
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
 A gente faz hora, faz fila na vila do meio-dia
Pra ver Maria
A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia
A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
 
Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha
A mesa posta de peixe, deixa um cheirinho da sua filha
Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua
A roupa suja da cuja se lava no meio da rua
Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

 1973 © Marola Edições Musicais   


Ó pátria, tão bela e tão perdida
A transcendente ária Va’ pensiero, de uma ópera de Verdi, é um hino extraoficial da Itália e uma ode à libertação, ao amor pela pátria usurpada e corrompida, qualquer pátria amada. Fabio Giambiagi, colunista de O Globo, recomenda mais uma vez essa música ao seu leitor, “neste momento em que o país dá novamente sinais de ter se perdido”. O economista lembra um episódio emocionante, mesmo devocional, ocorrido em 2011. Silvio Berlusconi se achava na plateia de uma apresentação do Nabucco, ópera que traz o Va’ pensiero, no Teatro dell’Opera di Roma. Pois, antes da récita, Il Cavaliere foi obrigado a ouvir o discurso do prefeito da cidade, seu correligionário, condenando a aversão do governo à cultura. As palavras do prefeito tocaram o público, que manteve uma tensão inaudita até o fim, o que foi notado pelo maestro Ricardo Muti. Então, apenas pela segunda vez na história musical italiana, um maestro concederia um bis ao Va’ Pensiero. Este vídeo registra o episódio. É preciso chegar ao apoteótico e catártico final. Aplausos e lágrimas e a conjunção entre palco e plateia podem sim, Giambiagi, e, sim, doutor P.J., que me recomendou esta nota, nos trazer um alento, eterno enquanto dure. È vero, dá vontade de cantar junto com o coro: “Ó pátria minha, tão bela e tão perdida”. Mas nosso caso é ainda mais grave, e não temos a força cultural italiana.


Salve Gil!
Teve de boaça a #FestaDoGil, um arretado hino ao forró e à imensa contribuição nordestina à música brasileira. Vida longa ao baiano que chega aos 78 anos. Muitos vivas a um artista que nos redime, como poucos, do ubíquo miserê. Um barato total também o parabéns pro Gil com participação de uma pá de gente no clipe Andar com fé: Chico, Caetano, Jorge Bem, Alcione, Sangalo, Steve Wonder, Nando Reis, Lenine, Zeca Pagodinho, Fernanda Montenegro… Só vendo. Salve Gil!


Paisagens sonhadas
Enredava uns fios de sonho soltos ao me levantar. Eram um acordes derivados da voz delicada de Rosemary Standley, do novo disco da artista franco-americana? Compassos de uma canção de Schubert inacreditavelmente linda, a Ständchen, na voz de Rosemary? Mas não era mais o canto em alemão. No fundo do sonho, com umas montanhas úmidas enevoadas, ressoava a bela versão transposta para o português dessa música por Arthur Nestrovski, que no dia anterior inutilmente eu havia tentado lembrar. Com o nome de Serenata, a versão ganhou as graças do sucesso ao entrar na trilha da novela Velho Chico, interpretada por Chico César. E não é que aqueles fios de sonho soltos me fizeram retomar o Livro do desassossego? bem aqui: “Mas as paisagens sonhadas são apenas fumos de paisagens conhecidas e o tédio de as sonhar também é quase tão grande como tédio de olharmos para o mundo.”


Lições à Saúde
Paraisópolis, aglomerado de cem mil habitantes em Sampa, se organizou e conseguiu reduzir a taxa de mortalidade pelo Corona à metade da média paulistana. Com doações privadas e determinação pra superar a ausência do Estado, a comunidade ensina o inoperante Ministério da Saúde e a seu general da banda o que poderia ter sido feito em todo país — tivéssemos presidente, tivéssemos ministro. Há três ambulâncias com equipes completas à disposição, dia e noite. Os moradores são monitorados quadra a quadra por 650 “presidentes de rua” cadastrados. Esses observadores da vizinhança se reportam à coordenação do esquema. Doentes são isolados em abrigo comunitário, onde recebem assistência de profissionais de saúde, cestas básicas e vales em dinheiro. Essa história é relatada num dos ótimos podcasts do G1, O Assunto, comandado por Renata Lo Prete. O programa põe no chinelo o parcial e preguiçoso Café da Manhã, seu falho competidor da Folha.   Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?


O sol. A Nasa juntou fotografias do sol acumuladas em uma década neste vídeo de pouco mais de um minuto. |

Jazz de protesto. O “casseta” Reinaldo Figueiredo produz e apresenta um bom programa de jazz na Rádio Batuta, do IMS. Neste episódio ele toca oito músicas, de clássicos a composições atuais. Tudo alude ao “pecado de ter a pele negra” na terra de George Floyd, como diz a letra de Black and blue (Fats Waller, Harry Brooks e Andy Razaf), canção interpretada por Louis Armstrong. Claro, a seleção inclui Strange fruit (Abel Meeropol), na voz de Billie Holiday, poema arrepiante e dilacerante sobre o linchamento de negros no Sul dos EUA.|
Guitarras de proa. O canal do YouTube Jazz3+  estreou esta semana The Great Guitars: Barney Kessel, Charlie Byrd, Tal Farlow – Live at ZDF Jazz Club 1988. O show é da pesada. |

Heróis do rock’n’roll. Sentado na varanda em frente ao mar, em sua casa na ilha de Menorca, no Mediterrâneo espanhol, o bateristas Ian Paice, fundador da banda Deep Purple dá longa e evocativa entrevista à revista espanhola Jot Down. |
Festim de inteligência. Rafael Narbona, na revista catalã El Cultural resenha e louva Medio siglo con Borges, livro de Mario Vargas Llosa que reúne ensaios, entrevista e documentos sobre Jorge Luis Borges, sem lançamento anunciado no Brasil. Narbona promete ao leitor um “um festim da inteligência [unindo] dois comensais extraordinários e quase antagônicos”. A edição ainda traz uma entrevista com Llosa. |
O atraso renovado. “Neo-Backwardness In Bolsonaro’s Brazil” (o neoatraso no Brasil de Bolsonaro” é o título da instrutiva a entrevista do crítico literário Robert Schwarz no último número da revista britânica New Left Review. Schwartz, estrela do que há de mais produtivo e luminoso na esquerda brasileira, aponta o que aproxima e distancia de 1964 da eleição de 2018, interpreta Terra em Transe, de Glauber Rocha, e discute o modernismo da antropofagia e o modernismo em relação a Machado de Assis e o Tropicalismo. |
A esquerda obscura. A revista trimestral socialista novaiorquina Jacobin, que tem uma edição brasileira, é uma fonte involuntária de humor. Seu número mais recente tem como prato principal uma entrevista com Zé Dirceu, isso aí, tingido de vermelho e cor de rosa como herói do socialismo mundial. Sua folha corrida nunca é mencionada. O “the famous 2005 Mensalão Scandal” até que surge, de passagem. Pro entrevistador informar que o cavaleiro petista da esperança foi condenado por suborno sob uma “obscura e largamente contestada cláusula legal”, igualando o Mensalão ao impeachment de Dilma Rousseff. Sobre o enriquecimento do homem, do consultor, e outras condenações e canas posteriores, já na era do Petrolão, nem pio. |

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