Um jornal para chamar de seu, mesmo que seja o meu

Jurupoca_58 — 12 a 18/2/2021 — Ano 2

Uma vista do Belo e do seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Opa! Vamos apear? Ora, vamos!

Aquilo que não havia, acontecia.

Ler João Guimarães Rosa é como ler a grande mitologia, só que nossa, daqui, nosso linguajar, graça cultural de uma ex-colônia portuguesa: tudo (e)feito mitológico agregado à grande tradição formadora.

Se o povo é o inventalínguas, Rosa é seu reinventor, com uma pontuação e sintaxe só dele, uma música própria e sedutora, capaz muitas vezes de fazer um leitor levantar do chão para cair em si.

A síntese dessa grandeza, por Caetano, nunca será suficientemente avultada, ou distinguida, ao menos até Língua se tornar, como defendo, um hino ritual introdutório das lições do idioma: “Gosto do Pessoa na pessoa/ Da rosa no Rosa”.

A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária.

Em verdade vos digo: o Brasil se prestasse teria seu Dia Grande sertão: veredas, seu Dia Primeiras estórias, seu Dia Sagarana.

Seriam nossos Bloomdays, o 16 de Junho dos irlandeses, adotado em toda parte no culto a James Joyce e seu Ulisses, para ufanarem de autor e obra com propósito e justeza.

O português rosiano ou machadiano ou drummondiano não iam mesmo ganhar o mundo, sendo ramo da última flor do Lácio, tão parcamente falada pelas gentes. Que ganhássemos o Brasil, então.

Sonho: teríamos circuito turístico, caminhada, celebração escolar, festa em bares, em teatro. Veríamos filmes, ouviríamos palestras e leríamos juntos páginas das obras para nos deleitar e sentir como civilização no rumo certo, ainda que prometida, em vez de uma gente culturalmente tonta e perdida, a perder tempo e espaço falando de BBB, que importa lhufas.

Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava. E, pá:

Ilustro estas linhas, como quem usa iluminuras ricas e raras, com grifos de meu repasse pelo Primeiras estórias; não importa de onde, de que conto vem cada excerto do livro publicado em 1962: 60 anos ano que vem!

É magnífico: um parágrafo, dois parágrafos, três, e logo a costura inconsútil do inventor, e não há mais como abandonar o barco.

É como penetrar uma floresta virgem, uma natureza intocada, é como penetrar a desnatureza humana, uma Amazônia de arte.

O cume desse livro, e um dos cumes de todas as verdes serras do Rosa é o conto A terceira margem do rio, exemplo acabado da definição de Calvino de clássico: “Um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

Reli duas vezes e treli, a ver e ouvir uma aula de Zé Miguel Wisnik aberta na internet (aqui em fase dominante de professor de literatura de USP, ainda que o músico e compositor intervenha).

ZMW vai ler o conto, destacar frases, passagens, marcos, contextualizar, perspectivar, ensinar e, no final, depois de frisar a impossibilidade de se decifrar, de uma compreensão acabada da história, vai pontuar, para usar o verbo usado por ele, relações que iluminam a leitura do bom leitor.

A literatura, apois, é reescritura e reinvenção desde a primeira linha, a primeira fabulação, o primeiro sopro narrativo que diferenciou de vez (e segue a diferenciar) nossa espécie no tronco símio.

ZMW sugere um texto de Freud, Luto e melancolia, para nos ajudar a pensar o personagem do filho que fica, quando a família deixa seu rincão, que busca e parece não conseguir elaborar a desaparição de “nosso pai” e tocar sua vida.

Melancólico, diz Freud, é quem nunca acaba, para lá das deixas do tempo, a ruminação que o luto representa, quem não elabora a falta no olvido necessário para seguir remando.

Depois, sugere um volteio sobre o mito grego de Caronte, um exame desse barqueiro do Hades, como origem possível da ideia rosiana.  Ele, Caronte, é o encarregado de atravessar as almas pelos rios que dividem o mundo dos vivos do mundo dos mortos, Estige e Aqueronte.

O professor podia ter lembrado também, como me ocorreu, inspirado nele, que no costume grego clássico punha-se uma moeda sobre a testa ou a boca do morto, uma paga a Caronte por seu serviço, ou, se quisermos, ao enlutar/esquecer de quem permanece no mundo de cá.

Pois, como é sabido, “o tempo leva uma sacola nas costas onde carrega óbolos para o oblívio”.

É o filho mais novo quem deixa à margem do rio, em grotas, o alimento pouco (“rapadura, broa de pão, cacho de bananas”), sucedâneo de óbolos (moeda grega de pouco valor) para “nosso pai”.

E o que são nossas velas acesas, nossas flores de Finados, nossas prendas aos santos, regalos aos deuses deixados ao mar?

A terceira margem, este não-lugar, o indeterminado, é matéria essencial, argilosa, do ser.

A terceira margem também pode ser, matuto, o rio que o rio faz (Pessoa), e sua atração sobre quem vive à beira dele e se deixa levar por sua imagem-ação, ou se magnetizar, ou ainda pode ser a margem mais profunda de nós próprios, margem que tão raramente se abre em vau, e que nunca alcançamos de pleno, além, quando muito, em um que outro vislumbre.

Asa da palavra

Volto aos 21 contos do Primeiras estórias depois de ouvir mais uma vez, e mais atentamente, a música de Milton Nascimento e Caetano Veloso também chamada A terceira margem do rio.

Agora, mesmo, a gente só escutava era o acorçoo do canto, das duas, aquela chirimia, que avocava: que era um constado de enormes diversidades desta vida, que podiam doer na gente, sem jurisprudência de motivo nem lugar, nenhum, mas pelo antes, pelo depois.

Milton fez a música do filme (1994) homônimo de Nelson Pereira dos Santos, e, creio, anos antes dera a composição para Caetano, como se diz, letrar.

Bituca conta no DVD A sede do peixe, digo de memória (o vídeo que se segue não tem créditos), que a música que compusera, ele logo atinou, cabia tão só a Caetano, e a mas ninguém (“… é aquele negócio, quando faço uma música eu já sei para quem vou dar: direto…”, diz Milton em delicioso miltês.)

Grato, Caetano na vez dele dirá que recebera a encomenda como um recado-dádiva de Milton, de Minas e de Rosa, e já meio pronta, insinuada no título posto pelo parceiro.

Com uma bola assim redonda, era só cortar e fazer o tento; com um passe desses, só marcar o golaço.

É que a letra lhe veio como descarrego (“sinceramente, foi sopa viu…”, ele diz se rindo com Milton). A faixa é do Circuladô, comentado na Ju#57.

Um lance para Rosa

No final da live Minas mundo, uma iniciativa acadêmica levada no final do ano passado, quando é entrevistado, toca piano e canta, ZMW lembra pelas tantas que Rosa dissera certa vez que seu conto chegou prontinho, “num dia luminoso em Copacabana”, diz ZMW, como uma bola que lhe houvessem atirado.

Era só pegar essa ideia-bola e deitá-la no papel, como história, como estória.

Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio.

Veja a leitora, o leitor, as jogadas desse mundo literário, como podem significar e esplender.

A TERCEIRA MARGEM DO RIOMilton Nascimento e Caetano Veloso

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Aí me volta aquela conversa gomosa se letra de música é  poesia. Creio que é gênero próprio, e que podemos seguir a chamar simplesmente de letra.

Mas, por certo, há letras e “letras”, como há poesia e “poesia” (o que dizer de tanta chorumela engajada-militante-diversa, cheia de espinhas no rosto, bom coração e autossatisfação a que chamam poesia? sem pejo algum, e a que dão exagerado espaço em eventos e nas folhas ex-culturais?, sem qualquer consideração e entendimento do que é poesia.)

Mas divago, e me escuso.

Caetano logra glosar o conto, dar a Rosa o que é de Rosa em prosa e verso, e logra fazer a letra-poema pertencer à música de Milton, sílabas que pedem para se cantar, e nisso louva a palavra que remete ao fundamento, à brasa, à proa, à asa da palavra, matéria da invenção poética.

Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo.

Travessia

A assinatura sofisticada, caetânica, surge no desfecho do último verso, na letra.

O santo-amarense agora deixa o curso do conto para remar no São Francisco de novo, depois de O ciúme (que é do disco de 1987).

O São Francisco aqui é o rio-esteio do Brasil, no dizer de ZMW na citada lição, o tronco gigante que ao se erguer ajuda pôr o país culturalmente de pé, portanto a existir.

A canção acende essa luz ao citar outro desfecho, o do Riobaldo Tatarana narrador, no parágrafo último da extensa prosa que perfaz a vastidão que é Grande sertão: veredas.

E de onde mais viriam estes: “Fora da palavra/ Quando mais dentro aflora/ Tora da palavra/ Rio, pau enorme, nosso pai”?, senão de: “Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou (…). O Rio de São Francisco — que de tão grande se comparece — parece é um pau grosso, em pé, enorme… (…). Travessia.”

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Um jornal para chamar de seu

Ora, veja o senhor. Jornal vem do latim “diurnalis”, donde diário, desde, é provável (Houaiss), o francês journal. Daí o registro do dia ou da semana, boletim, periódico, revista e magazine. O Jornal do Siúves, anterior à Jurupoca, tinha o sentido de diário blogado. Tentei à época, cruz-credo, criar uma página no Facebook com o nome Jornal do Siúves. Não deixaram, e até negaram meu recurso, sabe-se lá por quê. Mas o que essa nota tem para falar é que a Ju é carta, como referida desde que começou a ser enviada no formado newsletter, há dois anos e tanto, e também jornal, você concorda? A Ju é carta e jornal, semanário dedicado à cultura, às ideias e, claro, alguma lenga-lenga sobre a desordem do mundo. Minha esperança é que, agora, quando, praticamente, não há mais jornal por aí, como conhecíamos as folhas periódicas, impressas, e quase ninguém se recorda da última vez que comprou “seu jornal na banca”, a Jurupoca possa ser um jornal, jornalzinho, como queira, que você, leitor, leitora, possa chamar de seu. Sai toda quinta-feira no final da tarde, quase escurecendo. Sugiro a você que assine a newsletter (plataforma Tinyletter) para ser logo avisado que há uma nova edição no blog, e ter sempre um conteúdo exclusivo lá. Para assiná-la basta clicar aqui. Na página que abrir digite seu e-mail, depois só confirmar, conforme a solicitação enviada à sua caixa postal. Obrigado!

Helahoho! helahoho!
Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …?

Uma vista do Belo e seu céu desde a janela da redação da Ju, na tarde de terça-feira (9)

Palavra crua

Por falar em palavra essencial, viva, para uma escuta, audição e leitura complementar ao abre dessa carta (mais propriamente ao poema-letra de Caetano), Uma palavra (faixa B3 do álbum da RCA Victor de 1989) é tiro certo. Com essa canção, Chico Buarque de Holanda mais uma vez nos resgata (e xeque mate!). Ou que tal estes versos: “…palavra dócil/ palavra-d’água para qualquer moldura…”? Quem, dadivado com a herança mais inventiva da língua portuguesa, e ultrajado pela crueldade e violência a que continuamente a submetem, não se sente recobrado? Eu me sinto.

UMA PALAVRA – Chico Buarque

Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d’agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento palavra


Um rubi no novo disco de Gal

Ficou um primor de brilho, precisão e agudez o novo registro de Gal Costa para a canção folk Negro amor, ótima versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti de It’s All Over Now, Baby Blue (a letra de Bob Dylan vai aqui) que ela própria havia gravado no LP Caras & bocas, do longínquo 1977. Gal canta essa faixa do novo álbum (da Biscoito Fino), lançado nesta sexta (12), com Jorge Drexler, artista uruguaio que vive na Espanha, que também se encarrega do violão. Não ouviu ainda? Não acredito! O novo arranjo, com violinos, violas (Felipe Pacheco Ventura, autor dos arranjo de cordas) e cellos (Felipe Pacheco Ventura), dá um colorido novo e forte à canção, uma dramaticidade que corta como faca.

NEGRO AMOR – Bob Dylan, versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol

Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor

A estrada e pra você o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha a maluquice em seu lençol

Sob os seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando o fora
Levando os cobertores, e agora?

Até o tapete sem você, voou
E não tem mais nada, negro amor

As pedras do caminho, deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua

Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor


Allen queria ser Cecilia, e nós também!

Reprodução/TV Globo

Um Woody Allen aos 85 anos, cabeleira branca sem ver pente, sereno, paciente, recolhido em casa há quase um ano, vacinado de primeira dose. É um Allen assim que conversa com Bial. (E pensar que perdemos esse grande jornalista para o BBB por anos a fio). Aqui, Bial tira o melhor de Allen, que se permite falar de tudo com a inteligência habitual, inalcançável por seus perseguidores. Mas humorista e cineasta estão lá. E a eles devemos muito como promotores da vida mais vivível, da vida verdadeira, em clave proustiana. Ou, para falar nos termos de uma de suas primeiras comédias, humorista e cineasta tornaram, para quem viu seus filmes, a condição humana menos desencorajadora. Bial pede que ele se estenda sobre afirmação que faz no livro de memórias sobre Cecilia (Mia Farrow), de A era do rádio, ser a personagem de seus filmes que ele gostaria de ser. O mundo é um lugar triste e brutal, e a existência, sempre uma luta terrível, diz Allen. Que tal se fizéssemos como Cecília, e deixássemos nossa poltrona na plateia para entrar na tela, no filme? Mas não é o que fizemos, tantas vezes? Eu entrava em Manhattan (1979), me declarava a Mariel Hemingway e a livrava do assédio daquele coroa (a personagem tinha 17 anos, eu 18). Bial leva Allen a se repetir sobre sua predileção por Machado de Assis, o que é bom, e contar como descobriu o Memórias póstumas, e a lembrar que poderia ter filmado no Rio, e a rir da infâmia dos tradutores brasileiros que fizeram Annie Hall virar Noivo neurótico, noiva nervosa.


Onde assistir, por favor? (1)

O melhor comprimento de Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou, o documentário de Barbara Paz (está fora da disputa do Oscar), é o curta-metragem dela própria Conversa com ele. Ela dirige um depoimento delicado e sincero de Drauzio Varella sobre o paciente e amigo, uma raridade. Vi semanas atrás boa parte, por acaso, no Canal Brasil. Estreou em 2018 na Mostra Internacional de São Paulo. Sumiu do mapa. Não se encontrar em parte alguma. Assim caminha nossa “indústria” do cinema.


Onde assistir, por favor? (2)

Outra: ganha uma turnê por Bollywood, quando passar a pandemia, quem informar ao jurupoco o que se faz para assistir ao documentário Garoto – vivo sonhando, de Rafael Veríssimo, sobre o violonista Garoto, apresentado em setembro último no 12º In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical. Aí vai pelo menos o trailer. Ouvimos Baden Powell, João Gilberto, Paulinho da Viola, Tom Jobim, Rafael Rabello e cia falarem da importância do músico como criador e influenciador do violão brasileiro. Diz Yamandu Costa: “Garoto é o Brasil mais bonito que pode haver.”


No gargarejo

Um documentário em longa-metragem que estou no gargarejo para ver é Callado, de Emília Silveira, sobre o grande jornalista e romancista Antonio Callado, autor de Bar Dom Juan, Quarup etc. que está pronto desde 2017 mas estreia este mês (24) no streaming. Para um ideia da classe da intelectualidade que o país já produziu, e da verve e elegância do homem, não deixe de ver.


O ciúme na Indochina

Michael Caine é um ator no esplendor da arte de interpretar. É o que me fez ver tantas vezes O americano tranquilo, filme de 2002 dirigido por Phillip Noyce (remake de uma versão esquecida, de 1958, dirigida por Joseph L. Mankiewicz). Agora leio o livro de Graham Greene, lançado em 1955, que não deslustra o filme. Por certo, a literatura raramente é inferior à sua adaptação audiovisual, e não é o caso aqui, ainda que este não seja um Greene em plena força. A leitura aprofunda a prefiguração do Vietnã nos últimos anos de domínio francês na Indochina, e o beco sem saída em que a “América” se meteu. A simpatia de Greene pelos comunistas fica claríssima. Os diálogos quase didáticos entre o correspondente inglês interpretado por Caine e Alden Pyle (Brendan Fraser no filme), o agente secreto norte-americano, são extensos demais e chatos, professorais. Greene interfere muito nessas passagens, quando parece bulir com o narrador. O melhor da história, o mais verossímil, é o ciúme sexual de Fowler (jornalista madurão que abandonara a mulher católica em Londres, a quem nunca foi fiel, e a trai novamente em Saigon) por um Pyle em plena forma, que, nobremente, lhe tira dos olhos, e das mãos, a beleza tenra da ainda quase menina Phuong (Do Thi Hai Yen no filme). As tramas entrecruzadas tornam o livro febril e inesquecível no epílogo, quando Fowler finalmente desce do muro onde seu cinismo o mantinha; ou será que a decisão que ele, aparentemente por indignação e altruísmo, não passa de mera baixeza de um ego ferido?


O livro póstumo do mestre

Harold Bloom deu aulas na Universidade de Yale até uma semana antes de morrer, aos 89 anos, em 2019. Há anos perdera a mobilidade e tinha a companhia permanente de um tubo de oxigênio. Nunca deixou de ensinar. Nos últimos tempos, a reitoria de Yale arranjava um microônibus para levar alunos até sua casa, e ele se iluminava quando chegavam. Era capaz de dizer longuíssimos poemas de memórias e páginas enfiadas de romances; em noites insones, andava pela casa a recitar o Moby Dick. Leio no El País (o New York Times se tornou insuportável em cultura) sobre seu livro póstumo com título em inglês The Bright Book Of Life. Novels to Read and Reread (O brilhante livro da vida. Romances para ler e reler). Bloom começou a ler os livros que comenta e canoniza aos cinco anos de idade e os releu sem parar o resto da vida, alguns títulos várias vezes por ano. Entre seus autores mas diletos, nessa sua única obra dedicada exclusivamente ao romance, estão Cervantes, Tolstói, Proust, Faulkner, Cervantes, Melville, Joyce, Conrad, Virginia Woolf, Sebald…


Dúvida

Me pergunto se um leitor de Paulo Coelho conseguirá reler seus livros, ou se quase 100% do que hoje promovem como música será lembrado, não digo em 60 anos, mas no ano que vem.


Alguém tem que lembrar

O poeta norte-americano de origem sérvia Charles Simic, introduzido no Brasil numa coletânea da Todavia, se diz admirador de Jorge de Lima (O grande circo místico) e Drummond. E que gostaria de ter escrito A mão suja. Que um gringo nos lembre por vias tortas de um poema essencial tem tudo a ver com o destino do Bananão (Ivan Lessa). Mas que bom que tenha lembrado. É um dos primeiros poemas da Antologia poética, com as escolhas do próprio CDA. Começa: “Minha mão está suja./ Preciso cortá-la./ Não adianta lavar./ A água está podre./ Nem ensaboar./ O sabão é ruim./ A mão está suja,/ suja há muitos anos.” E lemos na segunda estrofe: “…A mão escondida/ no corpo espalhava/ seu escuro rastro./ E vi que era igual/ usá-la ou guardá-la./ O nojo era um só…”. O poeta se debate com seu ofício, que reputa indigno, vil, por sua mão não estar suja de terra, carvão, com casca de ferida, com o “sujo de quem trabalhou”.


Albert O. Hirschman

Mario Vargas Llosa faz um elogio refinado e a um tempo uma reflexão sobre suas próprias crenças e as do economista e intelectual judeu alemão Albert O. Hirschman (1915-2012), que foi chegado ao Brasil, onde cultivou amigos como ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o crítico literário Roberto Schwarz. MVL parte do lançamento na Espanha de uma nova edição do ensaio que em português se intitula A retórica da intransigência, último livro de Hirschman, uma crítica ao reacionarismo de direita e esquerda em relação à política econômica e, sobretudo, à liberdade. MVL diz que Hirschman faz falta para nos ajudar a pensar um mundo em que os limites da ciência foram escancarados pelo coronavírus. “Quando a pandemia passar”, ele escreve, “os sobreviventes deste cataclismo medieval vão despertar num mundo empobrecido, no qual o Estado terá crescido em toda parte, sufocando a liberdade mais do que já sufoca, no qual os novos populismos, impregnados de racismo e nacionalismo irracional, se preparam para acabar com as últimas instituições e tomar o poder.” O tom do artigo traz uma estranha serenidade, mais cética que o habitual, e quem sabe mais compatível com o escritor que vive seus 84 anos. Impressiona como o fio e o brilho de sua inteligência se mostram ainda mais agudos.


Erros “escusáveis” (1)

“Se o presidente souber que estamos conversando, vai me foder”, disse o general da banda da Saúde em encontro com governadores, em outubro, ao anunciar que o governo finalmente assinaria contrato com o Butantan para aquisição de 140 milhões de doses da CoronaVac. Como se sabe, quando viu o acordo anunciado por governadores, Sua Excrescência Jumentíssima subiu nas tamancas. “Bolsonaro explodiu. Sua indignação em altos decibéis pôde ser ouvida nos gabinetes próximos à sala do presidente no Palácio do Planalto”. Bem antes, em fevereiro, o então ministro Mandetta fora a São Paulo anunciar, ao lado de Doria, a antecipação da campanha da vacinação contra a gripe, na preparação para a pandemia que se avizinhava. Ao ver ao vivo a cerimônia, Caveirão tentou desesperadamente falar com o ministro pelo celular para ordenar que ele abandonasse imediatamente o evento. São destaques da reportagem “O sabotador — Como Bolsonaro agiu, nos bastidores e em público, para boicotar a vacina”, na Piauí desde mês, despedida de Malu Gaspar da revista, com grande classe. Até as nuvens de Brasília sabem que Caveirão sempre fez e andou para a pandemia e seus milhares de mortos. Sua obsessão com Doria e 2020 é absoluta. O senador Pacheco, novo presidente do Senado, encontrou uma forma original de matar a mãe para conquistar o poder, ao dizer à Folha que os “erros de Bolsonaro na pandemia eram escusáveis”.


Erros “escusáveis” (2)

Nota 10 para Vinicius Sassine pela reportagem da Folha, semana passada, com detalhas de como o governo torrou milhões e envolveu cinco ministérios, estatais e Forças Armadas no “projeto Cloroquina”. Norte e Nordeste receberam o grosso das remessas da droga. Devem merecer, conforme a ótica de Sua Excrescência. Os mortos, nas duas regiões, abatidos pela gripezinha, ou incentivados a não usar máscaras etc., clamam por si. Sassine atualizou sua matéria nesta quinta (11), revelando que o governo usou a Fiocruz  para produzir 4 milhões de comprimidos de cloroquina, com recursos emergenciais destinados ao combate da Covid.


 Arthur Lira

Como Oscar Wilde, acho que minhas primeiras impressões das pessoas são invariavelmente certas. E tenho as piores do novo presidente da Câmara dos Deputados. A ponto de, topando com ele à noite por aí, bater em disparada.

Jurupoca #20

 Belo Horizonte, 3 de Abril, 2020 — Carta nº 20

Na imagem do telescópio de luz infravermelho Spitzer, da NASA, a galáxia espiral denominada NGC 1097, a uma distância de 50 milhões de anos-luz da terra, na constelação Fornax (fornalha), do hemisfério celestial sul. O olho magnífico ao centro é um buraco negro, tal cemitério do absurdo. 


E para ti, ó Morte

E para ti, ó Morte, vá a nossa alma e a nossa crença, a nossa esperança e a nossa saudação!
 
Senhora das Últimas Coisas, Nome Carnal do Mistério e do Abismo — alenta e consola quem te busca, sem te ousar procurar!
 
Senhora da Consolação, Lago ao luar dormindo entre rochedos, longe da lama e da poluição da Vida!
 
Virgem-Mãe do Mundo absurdo, forma do Caos incompreendido, alastra e estende o teu reino sobre todas as coisas — sobre as flores que pressentem que murcham, sobre as feras que estremecem de velhas, sobre as almas que nasceram para te amar entre o erro e a ilusão da vida!
 
A vida, espiral do Nada, infinitamente ansiosa por o que não pode haver.

Do Livro do Desassossego, de Bernardo Soares (heterônimo de Fernando Pessoa).  


Ao buscar por algo de Mark Rothko no Google Art & Culture, onde a saudade de viajar e ver pinturas tem me levado amiúde estes dias, visitei este Tableau Vert, de Ellsworth Kelly (1952, Instituto de Arte de Chicago). Os verdes pulsam na tela e embaralham nossas sensações nestes campos de cor, a cujo cultivo também se dedicaram Rothko e Barnett Newman, por sinal. 



Esta é a série mais séria e o melhor entretenimento que alcancei recentemente. É propriamente uma minissérie em quatro capítulos, lançada pela Netflix no final de março. A diretora alemã Maria Schrader adaptou a autobiografia de Deborah Feldman, Unorthodox: The Scandalous Rejection of My Hasidic Roots [Não ortodoxa: a rejeição escandalosa de minhas raízes hassídicas, de 2012]. Nada ortodoxa, título no Brasil, é ruim à beça. Traduz mal a personagem e sua história. Uma moça de 19 anos, Esther “Esty” Shapiro (a extraordinária Shira Haas, na foto), casada e grávida, foge de uma família de judeus ultra-ortodoxos e de sua bolha comunitária de Williamsburg, um distrito de Nova York. Se manda pra Berlim com o dinheirinho que obtém suas joias. Os adeptos dessa corrente hassídica procuram viver como se houvessem se materializado  de uma página da bíblia hebraica ou do Talmude, o corpo das tradições e leis rabínicas. O valor da mulher é o da reprodutora, e a autonomia masculina não ultrapassa a letra da Torá.  A viagem de Esty é menos espacial que temporal. Da idade média ou ainda antes, da época de Moisés, para o mundo cosmopolita da Berlim atual, onde ela aprende a viver no século 21 e reencontra a paixão pela música. Um drama identitário instrutivo, chocante e divertido, dirigido com a mão madura, sensível e contida da Schrader.


 


Charge do jornal alemão Stuttgarter Zeitung reproduzida pela coluna Toda Mídia, da Folha (30/03).  “É tudo histeria e conspiração!!!”, diz a frase. Coronavírus e Morte aplaudem o presidente brasileiro. 


Opa! Vamos apear?

Este missivista é uma besta. Abordar a discussão moral e ética sobre a pandemia é algo mais ambíguo do que minhas mal batucadas linhas sugeriram na última Ju Extra.

Um dileto leitor desta carta, ademais alguém que contribui com sua manutenção, me chamou às falas. Barateaste John Stuart Mill (1806-1873), ele apontou.

[Além da ética, o filósofo britânico JSM se dedicou à economia, com textos clássicos ainda referenciais, e defendeu ardentemente a autonomia individual em Sobre a liberdade (On Liberty).]

É verdade que Mills  — ensina o professor Michael Sandel em seu curso Justice, de que falei aqui — refinou o utilitarismo, herdado do pai, James Mill, e de Jeremy Bentham.

Essa doutrina tem a ver com o custo e benefício de possíveis ações que possam gerar prazer ou dor, alegria ou tristeza — individual ou coletivamente.

 “A necessidade de muitos supera as necessidades de poucos ou de um”, afirma o Sr. Spock em Jornada nas EstrelasA iria de Khan, antes de capotar. No filme, o oficial de ciências da Enterprise morre para salvar o capitão James T. Kirk e a tripulação da nave.

A fala de Spock é o utilitarismo em poucas palavras, propõe na Newsweek o escritor Charlie Kirk (nenhum parentesco, hehehe).

As extremas decisões de um governo com a covid19 não podem se pautar num tudo ou nada — destruir a economia e salvar vidas ou salvar a economia e ponderar a perda de vidas que essa escolha acarretará.

“[…] Eu me pergunto”, escreve Kirk, “se Mills aceitaria essa premissa de saída [tudo ou nada]. Provavelmente ele nos diria que o cálculo ético é um pouco mais complexo do que isso.” 

Penso que minha leitora e meu leitor quererão se aprofundar no tema, e me sinto obrigado a deixar uma sugestão de leitura mais profunda.

Um debate essencial de filosofia moral não pode ser travado no campinho de peladas do isso versus aquilo.

Sugiro um consulta a este número da Pratical Ethics, publicação online da Universidade de Oxford.

É um bom começo de conversa. Ali se discute com clareza justamente uma visão plural, não apenas do utilitarismo, sobre o alcance de possíveis justificações para a privação da liberdade nas quarentenas.

A leitura pede algum esforço, mas é agradável e mais que oportuna. Me ajudou a pensar melhor. A cogitar que as decisões de governo sobre nossa vida e liberdade precisam ser avaliadas quanto à legalidade e ter a aplicação vigiada.

Por que vigiada? Do alto dos seus 94 anos, com invejável lucidez, o sociólogo Alain Touraine teme que o choque econômico decorrente da crise sanitária gere reações fascistas.

Governos mais ou menos autocráticos ou iliberais, com poderes ampliados na emergência, tomam decisões que extrapolam a epidemia, sem muitas garantias que mais tarde possam recuar.

Veja-se este Victor Orbán, já assenhoreado ditador húngaro, com poderes para mandar prender quem desrespeitar a quarentena ou divulgar informações contrárias ao governo. O tiranete é o caso mais notório neste momento, a desafiar a União Europeia.

O boletim de Oxford, eu dizia, também sugere que devemos considerar a proporcionalidade das decisões e perguntas como “qual medida alcança o equilíbrio ideal entre a restrição [da liberdade] e a eficácia”.

Digo a você, para não ficar apenas numa abstração, que o dilema enfrentado por Jonathan Pugh, o professor de ética aplicada de Oxford, autor desse página, leva a conclusões favoráveis às recomendações da OMS.

However…

O Pugh não economiza o uso desse advérbio inglês. Graças a deus!

Mas, porém, no entanto, contudo, não obstante, todavia fazem um bem danado à nossa saúde mental nesses tempos sombreados pela fanatismo.

Perceber as implicações de um argumento próprio ou alheio, e escutar com atenção quem nos contradiga é um exercício essencial à civilidade. Fácil não é, de jeito maneira. Eu é que sei. Derrapo amiúde no princípio que advogo.

Como leitor, não obstante, aprendi, não é de hoje, a tirar bom proveito de autores e teorias divergentes em política, economia, sociologia, crítica de arte ou ciência.

Mas quem de nós pode serenamente indagar, como fez (e faz em sua obra) o grande historiador britânico Tony Judt (1948-2010):

“Quando os fatos mudam, eu mudo — e o senhor, o que faz?”
 

Viver não é nada fácil; nunca foi. “Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação”, diz uma passagem do Livro do Desassossego.

Sem empatia e compaixão é o inferno. A psicanalista Miriam Chnaiderman lembra nesta entrevista que uma situação como a que enfrentamos mostra o melhor e o pior de cada um de nós.

Ela cita Max Scheller (1874-1928). Para esse filósofo alemão, a 

 “empatia é um ato mediante o qual se realizam a percepção e a compreensão do estado de alma de um outro. Por essa razão, condiciona todas as formas de compaixão. Para se ter compaixão de alguém, é necessário conhecer antes o sofrimento do outro”.

Isso leva a Chnaiderman, nessa entrevista à Cláudia Colluci, a distinguir um traço essencial no comportamento de quem? ¡¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!!!, ora bolas.

Perguntada se falta empatia ao presidente, ela diz: 

“Falta total. É uma coisa absolutamente autorreferente, que quer o poder a todo custo, que pensa só na reeleição. […] Tem muita gente falando numa ruptura no jeito de governar, de conduzir a vida. Se você não tem o que a gente chama de empatia, se não é tocado por um mundo que não é o seu, é terrível.
 
É a não compaixão. Quem elogia a tortura, quem admira torturador, não se coloca no lugar do outro. As pessoas morrem de medo de se colocar no lugar do outro porque se sentem frágeis, se sentem […] degringolar, […] sem nada.”
 

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …


A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, a quem muito admiro (não perco suas colunas na Folha) admitiu que estava errada por ter comparado a covid19 à gripe.

Ela se explicou, calculou, analisou nosso sistema de saúde e o tamanho do problema no país, para dizer,

“Num mundo em que é mais comum chefes de estado enviarem suas preces do que tomarem ações bem informadas, minha alma de cientista se sentiu vingada […] pelo subtítulo de uma coluna no New York Times sobre o coronavírus e o que acontece quando se ignora a ciência: “Cientistas são tudo o que nos restou. Rezem por eles”, dizia a linha-fina acima da imagem mandatória de um cientista de jaleco, pipeta e tubos coloridos em mãos. “Oremos agora pela ciência, pelo empiricismo, por vacinas, por estudos revisados por pares, estudos duplo-cego (…), razão, rigor e expertise”, escreveu o autor, o colunista Farhad Manjoo. 

Helahoho! helahoho!

Temos ainda mais pra ler e ver nestes dias. Além de livros, leio não sei quantos jornais diariamente pela internet, por dever de ofício, e pra assinalar aqui a ti o que me parece mais relevante.

Entre os jornais do país, a Folha anda passos à frente dos concorrentes. Tem maior diversidade e uma redação mais apta a realizar o esforço que a cobertura da pandemia requer. Isso não quer dizer que beire à perfeição.

Na TV, me alegra ver o bom trabalho do Jornal Nacional reconhecido por fontes insuspeitas. Até na Folha, um jornal que em regra esnoba a Rede Globo, a jogar charme para seu leitorado de esquerda.  

 O Stycer, bom colunista de TV do jornal, escreveu, ainda que num pé de texto e cercado de cuidados, mas vá lá, escreveu que 

“Não queria deixar sem registro que nesta semana o jornalismo de TV mostrou, mais uma vez, a importância que pode ter, quando quer, no combate à desinformação. Merece elogios a longa (80 minutos) edição de quarta-feira do Jornal Nacional, da Globo, demonstrando, com fatos, os erros em quase todas as frases do pronunciamento feito pelo presidente Jair Bolsonaro um dia antes.” 

O Mathias Alencastro, analista internacional, fez algo parecido, e, veja você, também o Juca Kfouri, comentarista esportivo que joga nas 11 na política, sempre com a camisa 10, como um guarda-metas da esquerda, se você me entende.

Dias antes dessas publicações, e logo depois de ter assistido ao JN no dia seguinte ao primeiro pronunciamento de Sua Excrescência em cadeia de rádio e TV, enviei este WhatsApp a certos amigos: 

Senhores: caso tenham dúvidas sobre a pandemia da covid19 e se confundam com o que recebem via WhatsApp e redes sociais, aqui vai uma sugestão de um jornalista com 34 anos de experiência: Assistam ao Jornal Nacional. Basta isso. Vão se atualizar com total confiabilidade. E muita calma nessa hora! Abraços.

 Escrevi, já se vão quatro anos, que o principal telejornal do país admitira erros históricos e tentava se refazer.

O texto saiu no blogue em dias que malhar o JN ainda era um esporte quase exclusivo da esquerda.

Hoje, quem diria, Lula e ¡¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!!! frequentam o mesmo clube. O jornalismo profissional e crítico sempre foi e será uma espinha na goela de ambos, como de todos os populistas e autocratas, vejam Cháves e seu pupilo. 

Pois, dizia eu, era maio de 2016, “a Globo é o padrão de antijornalismo ou golpismo favorito da militância de esquerda. A plim-plim ainda é a nêmesis mitológica das causas sociais progressistas”.

Helahoho! helahoho!

E a coisa se repete, de sinal trocado, com ¡¡¡¡¡¡Bolsonargh!!!!!!. Como lembra o próprio Juca Kfouri no artigo citado: 

“Porque em outubro de 2019 [antes da Folha] foi a Rede Globo que entrou em sua mira, ao acusá-la em pronunciamento feito na Arábia Saudita, com a educação que o caracteriza: “Vocês, TV Globo, o tempo inteiro infernizam a minha vida, porra!” 

“Mas a mamata não havia acabado? A Globo não é um zoológico dos tais “animais em extinção”? Como sobrevive, como incomoda tanto?”

Boa. O infeliz presidente também se elegeu por ter encontrado nas redes sociais uma espécie de faroeste, terra sem lei onde ele podia sacar mais rápido que seus rivais. Cada tiro no Facebook matava impunemente dez bandidos de uma vez, além de vários comunistas, todo o Foro de Sampa etc. 

Se animou tanto, seguindo cada passo de Donald Trump, que de fato apostou na extinção da mídia independente. Falou em nos colocar a todos, jornalistas, aos cuidados do Ibama.

E agora, quando Twitter, Facebook e Instagram começaram a apagar suas publicações, por entenderem que causam desinformação e danos a pessoas, como é que fica?

Ora, vá reclamar com o Zuckerberg!

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — … 

“April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.”
 
“Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases na terra morta, misturando
Memória e desejo, avivando
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava da vida.”

Os afamados versos de abertura de A terra desolada, o longo e célebre e erudito e árduo poema de T.S. Eliot, em tradução de Ivan Junqueira (ARX, 2004).

Impossível não o lembrar todo santo abril.

Houve uma época, quando a literatura e a arte de fato importavam, que essa obra de Eliot era muito citada.

Neste abril de 2020 minha lembrança tem um apelo novo.

Os tempos lentos e a gravidade tornaram-se insuportáveis no turbilhão da revolução tecnológica. As timelines e o entretenimento rebaixado passaram a ditar os novos modos de ser e viver e, claro, também as novas neuras da humanidade.  

A esperança, mais que nunca, se reduziu ao consumo adiado, ao que acumulamos para desfrutar e compartir no gozo virtual.

Mas eis que vivemos uma pausa forçada de silêncio e solidão. Com tudo mais quieto, pode ser que, por necessidade, alguém volte a pensar a vida em outros termos, e vá buscar seus livros e discos no porão.

E quem sabe a arte volte a refletir o mundo, em vez de apenas os egos dos artistas e suas obsessões.

Será?

Yat-lô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô… Ghi — …

Além disso, tuta e meia. Nonada. 


VOCABULÁRIO DA COVID. Sérgio Rodrigues fez um bom glossário da pandemia.

A PROPÓSITO DE NADA. Parece que o JP Coutinho amou o livro de Wood Allen.

VERGONHA. As patrulhas virtuais submetem suas vítimas a “online shaming”, aprendo.

ALMODÓVAR EM CASA. O diretor espanhol narra sua rotina de confinado em Madri. O texto (em espanhol) é fluído e cheio de referências cinematográficas. [Grazie pelo link ao meu querido sobrinho H.]

O FINO DE NOEL. O batuta João Máximo selecionou 25 faixas dos 14 CDs produzido por Omar Jubran.

BELLO DE CARVALHO, 85. Pedro Paulo Malta, do site Discografia Brasileira, conversa com o produtor e compositor no aniversário dele e lhe faz uma homenagem.

APESAR DE VOCÊ, 50. O samba de Chico Buarque aniversaria e volta a ser cantado entre um panelaço e outro. Luiz Fernando Viana conta essa história.

LISTAS DO TRUEBA. O produtor e diretor de cinema espanhol Fernando Trueba tem feitos sugestões preciosas em suas playlists no El País. A série Música para estos días reúne o fino do jazz, da MPB e do pop-rock mundial. A lista desta sexta (3) traz Leonard Cohen. 


DYLAN. O velho menestrel mostra sua força na nova Murder Most Foul [título emprestado de Shakespeare, do Hamlet; “assassinato infame”, na tradução da peça por Millôr Fernandes]. É menos uma canção que um poema musicado de 17 minutos e 1376 palavras. Fala da morte de JFK, da cultura dos anos 1960 e da música que precisamos ouvir.


CHAO POR AÍ. Há tempos ele vive longe de gravadoras e da mídia, como um artista mambembe, a se apresentar em bares e circos, às vezes disfarçado. Agora em quarentena em Barcelona, Manu Chao apresenta novas músicas nas redes sociais com o nome de “Coronarictus Smily Killer Sessions”. [Gracias ao Fontán pelo enlace.]

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.