Ju #44

Desde o Belo. 23 a 29/10/2020. Nº 44. Ano 2

Opa! Vamos apear?

Apraz-lhe, leitor amigo, uma cidade invernal, bela, ainda que feia, com jeitin nórdico, ainda que austral, só que em plena primavera, depois de um calor setembrino, seco e feroz, caçar nossos escalpos?

Assim está o Belo, dei gratia, enquanto batuco este número da Ju, mais um texto a acenar para a “abundância superficial” da internet…

Pres’tenção, moça, é tomado pelo altruísmo que tenho me dedicado ao serviço de trazer pra cá, para o blog, todo o acervo da Jurupoca.

Até esta quinta-feira (22), foram postadas as edições de 0 a 12, nas respectivas datas de envio da newsletter. Os links vão ao pé desta carta.

Oportunamente, todo o acervo estará neste Livro de Viagem, ainda que, graças ao Corona, nos últimos tempos, a viagem, a viagem mesmo, realmente, mas realmente, só ao redor do meu quarto, como o Maistre.


A MILÍCIA É A GLÓRIA
DO BRASIL DO CAVEIRÃO

A HORA DO ATRASO — A milícia avança, a civilização recua. A milícia prospera e a democracia empaca. A moralidade que pariu o esquadrão da morte e cresceu nos aparatos de tortura e assassinato da ditadura subsiste no incontestável sucesso das organizações milicianas, ora com desinibida torcida no Congresso Nacional.

A PREMIAÇÃO — A recompensa da extorsão e outros crimes é conhecida. Se materializa nos carrões zero quilômetro, nas lanchas, nas moradias nos condomínios fechados (o céu fica na Barra da Tijuca, essa nossa Miami com esgoto a céu aberto), nos relógios de grife e nas pesadas joias de ouro. A ascensão na vida — riqueza, sucesso, status e “respeitabilidade” mantida pelo medo — é celebrada em churrascadas com bebidas caras e prostitutas, ao som do funk no último furo. Revólveres e fuzis à mancheia asseguram a virilidade de tais cabras, que, por certo, honram suas mulheres e filhos, além do Brasil que venceu as eleições de 2018.

A HORA DO CAPITÃO — “Bolsonaro e sua família são representantes ideológicos de uma cultura miliciana que se fortaleceu no Rio e chegou à presidência do Brasil”, resume Bruno Paes Manso, já para o fim de A República das milícias (Todavia).

A GRANDE ALIANÇA — Mancomunados com bicheiros, paramilitares se aliam, por fim, a traficantes contra uma facção rival de ambos. Chegam a alugar ao tráfico os caveirões — veículos blindados usados pela polícia para entrar nos morros — comprados com dinheiro público, como seus próprios serviços, além de se servir de informações privilegiadas da inteligência militar.

A SANTA ALIANÇA — Paramilitares podem se converter em narcomilícias e bancar excrescências como o bando “traficantes de cristo”. O “Bonde de Jesus”, nomeado assim na imprensa carioca, mata, tortura e persegue praticantes do candomblé e da umbanda.

Ô DE CASA — O sindicato de assassinos, vulgo “Escritório do Crime”, bueiro de onde emergiram os matadores de Marielle e Anderson, é íntimo do comando de batalhões nas zonas de domínio miliciano. E seus próceres mijam de porta aberta nas secretarias de segurança e gabinetes de deputados e vereadores, agora também no Congresso Nacional. Os crimes dessa gente vão para uma conta corporativa, onde é dando, e encobrindo, que se recebe, sempre em cash. Como diz Paes Manso, esqueça os filmes americanos, a investigação criminal, no Rio e por aí afora, não é muito diferente da que era feita nos dias de Lampião.

ESPÍRITO DA ÉPOCA — Este é o mundo favorecido pela facilitação da venda de armas e pela redução do controle da matança policial, modalidade em que somos campeões em tudo.

QUEBRA DE TABU — Na Globo, inimiga número 1 do “capitão da República das Milícias” (Paes Manso), criminoso ou suspeitoso é “bandido”, não importa quantas vítimas de “balas perdidas” rendam comoção no Jornal Nacional. Aliás, livros como o de Bruno Paes Manso ensinam algo sobre a qualidade da nossa imprensa. Foi Bruno, em 2007, enviado pelo Estadão, que quebrou o tabu que proíbe jornalista de entrar em favela. Ele foi o único repórter a subir o Morro do Alemão, depois da cinematográfica operação militar realizada no complexo de favelas, cuja cobertura, por sinal, rendeu um prêmio Emmy à Globo. Subiu o morro e mostrou desmandos de policiais. Ouviu moradores e anotou denúncias de roubo, invasões arbitrárias a moradias e brutalidade incontida da tropa liberada.  

NOVO PARADIGMA — “O entusiasmo que tinha vindo com a Nova República, com a adoção de políticas educacionais, a formação de cidadãos nas favelas e de uma polícia legalista, perdeu espaço para outro paradigma, o da guerra ao crime”, comenta Paes Manso.

PLACAS DE ALERTA — Todas as entradas que dão acesso ao Rio e à Baixada Fluminense deveriam ter placas florescentes para prevenir os mais crédulos, como o Inferno de Dante Alighieri: Deixai toda esperança, vós que entrai.

CAETANOS E CHICOS
NÃO CANTAM NA ZONA OESTE

Inferno à parte, a elite carioca descolada vive bem nos frescor de seus triplex. Caetanos, em eterna crise de identidade-ideológico-existencial entre

o liberalismo e a esquerda que não tem vergonha, nesta altura do campeonato da barbárie, de catar feijões bizantinos entre Hitler e Stalin, e chicos, sempre fiéis a seu castrismo, lançam brados, entoam canções e escrevem romances que espantam, maravilham, chocam, indignam, e, merecidamente, vendem bem. As Caravelas retrata, em versos magistrais, uma guerra de brancos ricos da Zona Sul (vai aí um trechinho da letra) contra jovens pretos que descem das comunidades para ir à praia, os mesmos que, na prisão, remetem aos “crioulos empilhados no porão/ de Caravelas no alto mar”. Já o leitmotiv das milícias e da ordem brutal que governa o cotidiano de um em cada três habitantes da cidade, esse não parece muito inspirador, pois sequer é compreensível, ou midiático. Novo é que não é, já que prospera desde o ano 2000. Até pensei um dia que não existia a tirania do Comando Vermelho e das facções aliadas dos milicianos — Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA). A culpa deve ser do sol.

[...]
A caravana do Arará, do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o comboio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá
É o bicho, é o buchicho, é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
É, diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré
Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão
E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar

O MELHOR HUMOR
 DO PAÍS AINDA RI!

Cronistas, artistas, celebridades, boa parte deles ao menos, conservam a relaxação e o humor incomparável, o melhor do país. O humor que evola da brisa marinha e do suor, dos bares, das rodas de samba e do Carnaval. O humor que se espelha na leveza dos cronistas, os melhores do país. Alguns, como o grande Ruy Castro, ainda podem ostentar seu orgulho desinibido para relativizar a desgraça, com toda graça. Não troca o Rio por nada. A reca de governadores, parlamentares e conselheiros do Tribunal de Contas na carceragem de Bangu, sem falar no criatório insalubre onde prosperou !Caveirão.105mm! pode ser um detalhe, conforme se favorece este ou aquele ponto de vista com ou sem janela para o mar, ou até uma vantagem comparativa, como sugere Ruy, sobre Minas e São Paulo, quando ele cobra, com absoluta, profunda e rotunda razão, tratamento equânime da Justiça para políticos bem relacionados na nossa insuspeita mais alta corte.

A PINDAÍBA UNIVERSAL
DO ARTISTA NA ERA
DA AMAZON E DO SPOTIFY

Como disse Karl Kraus, o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito. Pode que o mundo esteja acabando. O artista morre, ou se arrasta, tecnicamente morto, perdido na “abundância supérflua” da internet. A ironia, a complexidade e a sutileza perderam o jogo para o que é breve, brilhante, barulhento e fácil de entender. Leio no Los Angeles Review of Books uma crítica de Robert Diab ao livro de  William Deresiewicz: The Death of the Artist: How Creators Are Struggling to Survive in the Age of Billionaires and Big Tech (A morte do artista: como os criadores estão lutando para sobreviver na era dos bilionários e das Big Tech). Spotify, Amazon etc. prometeram um lugar ao sol para todo mundo. Pura propaganda enganosa, acusa Deresiewicz. Músicos e escritores estão à míngua e sem proteção institucional num mercado pulverizado e espumoso. A imensa maioria não consegue viver decentemente do que escreve ou compõe, conclui o autor, depois de entrevistar uma centena de artistas. Há 6 milhões de livros na plataforma Kindle, da Amazon, nos EUA, quase só autopublicação; 68% das obras não vendem mais de duas cópias por mês. Apenas 2 mil autores da loja Kindle conseguem ganhar mais de 25 mil dólares por ano, uma merreca nos EUA. No Spotify, menos de 4% dos 2 milhões de artistas inscritos na plataforma levam 95% do bolo arrecadado com “streams” (cada música tocada por mais de 30 segundos). “A torta foi pulverizada em um milhão de pequenas migalhas. Podemos agora ter acesso universal ao público, mas ao preço do empobrecimento universal”, anota Diab, citando Deresiewicz.  

SE TRUMP VENCE,
SUBIMOS PARA MARTE, TÁ OK?

Novembro, 3, vamos todos votar em Joe Biden, falou? Já enviei meu voto translato pelos correios. O escritor David Eggers, que escreve com o martelete, tem o que falar. Seu artigo é o mais destacado da edição “monográfica” do Babelia, caderno cultural do El País, sobre as eleições americanas. Conta que muita gente de seu círculo californiano tem a mochila feita para cair fora, numa reeleição de Trump. Canadá, Austrália, Nova Zelândia são destinos mais prováveis. Ele próprio pensa em voltar para um refúgio na Canárias onde passou três meses com a família no ano passado, num folga da insana América. E quanto ao resto dos terráqueos, o que fazer? Subir para Marte? Já podíamos ter subido. “Os Estados Unidos são uma mistura aterrorizante de reality show televisivo, república bananeira e estado fracassado”, define Eggers no artigo cujo título é À beira do abismo. Compara o quadriênio Trump a uma acidente de carro do qual ninguém conseguiu desviar o olhar todo esse tempo. Constata que desapareceu entre os partidos o consenso sobre honra e decência. “Os republicanos foram espectadores silenciosos enquanto Trump convertia nosso país numa piada cleptocrática”, martela.

O QUE É UM “AMERICANO
 NUMA HORA ABISMAL?

O que é ser americano pra mim?, esta terra dos bravos e livres, indaga melancolicamente Madeleine Peyroux no novo single American, bem no estilo no qual se definiu entre o jazz e pop. O país se meteu numa sinuca com o Agente Laranja. Quem pensa e sente vai pelo fundo do poço, como nós também. O vídeo com a letra está aí.

CORAGEM PARA ELOGIAR
WOODY ALLEN?
SÓ SE FOR NA ESPANHA

Com a propriedade de sempre prosa certeira, Javier Cercas tece loas à autobiografia de Woody Allen, A propósito de nada, que deve sair em português ainda este ano, não se sabe se com esse título, uma tradução direta de Apropos of Nothing. Doravante, ele anuncia que indicará o livro a escritores iniciantes — sempre que responder a pergunta que tanto lhe fazem, como professor e escritor bem-sucedido que é — além da Correspondência de Flaubert. Depois de matizar o fracasso da “fase bergmaniana” de Allen, de filmes como Setembro, o espanhol anota: “[…] um escritor (ou um cineasta que não tem a coragem de se arriscar a fracassar não é um escritor (ou um cineasta): é um escrivão; quer dizer: um mascate”. Cercas termina seu texto, em uma referência ao #MeToo, organização feminista que transformou o diretor, nos EUA, em menos que um zumbi, a ponderar: “E quanto ao filme de terror que ainda vive Allen, me resignarei ao óbvio: a este homem está crucificando um movimento necessário, que, ao crucificá-lo, perde a razão. Além de uma injustiça monstruosa, é um erro monumental”.

FAGNER VOLTA À SERESTA
E ACHA UM BRASIL PERDIDO

Raimundo Fagner Cândido Lopes seresteiro? É. Entre o chamado “pessoal do Nordeste” (Belchior, Ednardo, Alceu Valença, Zé Ramalho e companhia) nosso cantautor, hoje aos 71 anos, é o que mais influências traz nas veias. Filho de um libanês cantor de rádio, carrega ressonâncias árabes e ibéricas que se misturam ao onipresente legado do Rei do Baião. Traduzir-se, icônico LP de 1981 gravado na Espanha, deixa isso bem assentado. “A voz de um árabe tem modos e intervalos de semitons que o baião criado por Seu Luiz, Luiz Gonzaga, tem também”, observa Julio Maria no Estadão. Fagner guardava a seresta da meninice, da vizinhança em Orós do menestrel compositor Evaldo Gouveia e do irmão seresteiro, Fares Cândido Lopes. Serenata, álbum a sair pela Biscoito Fino em novembro, é um acerto de contas com a memória afetiva, comenta Mauro Ferreira em seu blog. O single Lábios que beijei, linda valsa de J. Cascata e Leonel Azevedo,  lançada em 1937 por Orlando Silva, é uma aperitivo fino. Revela um sofisticado trabalho de resgate, renovação e fidelidade ao gênero. O arranjo incorpora a delicadeza do piano de Cristóvão Bastos, o violão de João Lyra e as deliciosas “baixarias” — uma marca do seresteiro — de João Camarero, no sete cordas. Fagner se contém no canto e abre mão dos agônicos vibratos, valorizando a beleza da letra e o tecido instrumental. As 11 faixas do disco, no apontamento de Ferreira, incluem “Rosa (Pixinguinha com letra posterior de Otávio de Souza, 1917 / 1937), Malandrinha (Freire Júnior, 1927), Maringá (Joubert de Carvalho, 1931), Noite cheia de estrelas (Cândido das Neves, 1932), Serenata (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1935), Chão de estrelas (Silvio Caldas e Orestes Barbosa, 1937), Deusa da minha rua (Newton Teixeira e Jorge Faraj, 1939), Serenata do adeus (Vinicius de Moraes, 1958), Valsinha(Chico Buarque e Vinicius de Moraes, 1970) e As rosas não falam (Cartola, 1976)”, além de Mucuripe, do próprio Fagner em parceria com Belchior, 1972.

EM OS 7 DE CHICAGO
A ARTE DO ROTEIRO

“O final de Os 7 de Chicago é Hollywood puro”, diz Bruno Tomé, citando Tom Nicholson, da revista Esquire, em artigo sobre o que é fato e ficção na fita. Fiel ou mais ou menos fiel à história, o filme na Netflix é entretenimento qualificado. Seu tema são os protestos em Chicago contra o sumidouro do Vietnã, em 1968, que desbordaram em violência policial e levaram aos tribunais sete líderes líderes do movimento pacifista, entre eles os célebres ativista Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong). O roteiro de Aaron Sorkin (Oscar pelo roteiro adaptado por A rede social), que também dirige Os 7 de Chicago, aqui, mais uma vez, é a grande atração. Seus diálogos são vibrantes e rápidos — muitas vezes excessivamente, como na série The Newsroom. A ambientação é pontuada de lances que colorem a narrativa, imitando a vida. Um filme não acontece se, ao nos pôr dentro de nós, não nos põe também dentro dele próprio, filme, e não nos faz esquecer de nós e do tempo, por algum tempo. E tal efeito não acontece sem um bom roteiro.

PÁTRIA, AFINAL,
GRANDE MINISSÉRIE

Esqueça a lenga-lenga desta Ju sobre o primeiro episódio de Pátria, minissérie da HBO baseada romance de Fernando Aramburu, que eu havia comentado e recomendado desde Ju #08, muito antes da transposição para a telinha ser cogitada por aqui. Desdigo-me, pois. A série é estupenda. A adaptação de Aitor Gabilondo, direção, elenco, fotografia são dignos do livro, minha melhor leitura em 2019. A história se consolida no terceiro episódio, quanto a trama se encarna e o drama se enquadra. Se você tem algum interesse ou curiosidade pela existência do ETA e pelo País Basco, é pedida obrigatória. No El País, Luis R. Aizpeolea aponta o fosso em que recaíram ataques à série da parte de dirigentes do Bildu, agremiação da esquerda nacionalista. Na raiz da insânia terrorista, com seus ecos, seria possível equiparar e o terror e a sangueira “patriótica”, de inspiração marxista, a seu combate pelo estado espanhol. Os ataques politizam a minissérie, acusa Aizpeolea, sob o risco de deter a saudável revisão autocrítica do passado, que vem se dando aos trancos e barrancos.

INTERVALO

O sentido último da lírica, em seu intrincado e elusivo tema, ou temas, é impenetrável. Mas se trata de uma obra prima, e das maiores. Qual?

A canção três em uma é O que será, em suas variações, Abertura, À flor da pele e À flor da terra, de Chico Buarque de Hollanda.

Foi composta para Dona Flor e seus dois maridos, filme de Bruno Barreto lançado em novembro de 1976 e recordista de público no país por mais de 30 anos, só quebrado em 2010, por Tropa de Elite 2. No cinema, ouvimos a música na penetrante voz de Simone.

Este Intervalo propõe as gravações de Chico e Milton Nascimento dos LPs Meus caros amigos (Phonogram / Philips), de Chico, em ritmo mais alentado, e Geraes (EMI-Odeon), de Milton, em andamento lento. Ambas as bolachas saíram em 1976, com arranjos de Francis Hime, divididos com Bituca no Geraes.

Wagner Homem narra em História de canções – Chico Buarque (Leya, 2009) que o compositor viu diversas vezes o copião de Dona Flor, mas acabou se inspirando para escrever numas fotografias de Cuba que o jornalista Fernando Moraes lhe havia mostrado. Daí Chico ter batizado a música de “cubaião”, baião cubano, mix de ritmos afro-cubanos com o nordestino. Homem continua:

“Entretanto, as três letras nada têm a ver com Cuba, ele garante. Quando, em 1992, Chico teve acesso à sua ficha no Dops, deu de cara com a interpretação que os censores fizeram da letra e achou graça, já que nem ele mesmo sabe ‘o que será’, e se soubesse não haveria sentido em explicar, uma vez que a letra em si é uma pergunta. O dueto com Milton Nascimento surgiu de maneira absolutamente casual. Francis Hime tocava a canção ao piano na gravadora quando Milton, que estava no estúdio ao lado, ouviu, encantou-se com a música e sugeriu que fosse cantada em dueto pela dupla. Chico e Francis gostaram da ideia determinaram os arranjos já considerando a voz do cantor mineiro.”  

Um paper do mestre de comunicação Emerson Ike Coan recorre a José Miguel Wisnik ao abordar essa canção. Para Wisnik, a MPB durante a ditadura exerceu o papel de “uma rede de recados”. E não faltam recados aqui.

O bordão das adivinhas, “o que será, que será”, empregado por Chico nas variantes que retratam o amor carnal desmedido e o clamor libertário, abre uma série de ambivalências onde oscilam pulsões reprimidas a ponto de eclodir, que desacatam a gente, que salta aos olhos, que não tem mais jeito de dissimular… 

História cultural e exegese à parte, não me parece que se possa subestimar a força e beleza da melodia e a maravilha dos duetos Chico & Milton, nos quais, por certo, sobressai a potência e o verdadeiro milagre da voz de Bituca em seu esplendor. Sua introdução ao canto, em vocalize no Geraes é toda uma primeira missa, todo um lamento anterior ao Big Bang, ou uma mensagem aos anjos e ao Redentor em nome da humanidade ferida que, a um tempo, se redime no próprio canto. A voz e Milton é um luxo absurdo!

O QUE SERÁ – Chico Buarque. Três versões

Abertura

O que será que lhe dá
O que será meu nego, será que lhe dá
Que não lhe dá sossego, será que lhe dá
Será que o meu chamego quer me judiar
Será que isso são horas de ele vadiar
Será que passa fora o resto do dia
Será que foi-se embora em má companhia
Será que essa criança quer me agoniar
Será que não se cansa de desafiar
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda Bahia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo…

À flor da terra

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza

Está na natureza, será que será
O que não tem certeza, nem nunca terá
O que não tem conserto, nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência, nem nunca terá
O que não tem censura, nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem juízo

À flor da pele

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os unguentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo.

E DAÍ? (¿QUÉ MÁS DA?)

“E daí?”, diz o escritor espanhol Manuel Vicent, “que exista um ou mil universo, com um número de galáxias e estrelas além da imaginação, se no fundo não passam de pedras incandescentes ou mortas que dão voltas e voltas cegamente, sem sentido algum”. Ele segue nessa batida, “qué más dá” (expressão que pode ser traduzida como “que diferença faz?” ou “que importa?”) e já próximo do final, reflete: “E daí? que digam os cientistas que a vida não passa de um conjunto de carbono, hidrogênio e nitrogênio, com uma pitada de enxofre combinados ao acaso, se, depois de tudo, esses elementos químicos te conduzem ao sorriso da Gioconda, aos versos de Walt Whitman ou à luz de Matisse”. Vicent fecha a crônica, como chamaríamos esse gênero de texto no Brasil, com maestria: “E se ao final aqueles sonhos que você teve na juventude se reduzem a jogar uma partida de tute na casa de um aposentado e a confundir a felicidade com o bom resultado do exame de urina, e daí?

 

«Em 26 de setembro fez 20 anos da morte de Baden Powell (1937-2000). A Jurupoca celebra, em tempo, a grande arte e a memória do violinista, compositor. Reinaldo Figueiredo, na Rádio Batuta, dedica-lhe um programa especial. O Instituto Moreira Salles guarda o acervo do artista, que é cheio de raridades.»

«Nem bossa nova, nem afro-samba: Vinicius de Moraes estreou em ritmo de fox. Por Pedro Paulo Malta no site Discografia Brasileira, do IMS.»

«The Day the Music Died ou as celebrações aos 50 anos de American Pie, além de um entrevista com seu autor, Don McLean. No The Guardian.»

«Keith Jarrett encara o futuro sem piano. No New York Times.»

«Pedro Almodóvar: “O algoritmo me apavora e horroriza”. Por Elsa Fernández-Santos, no El País Brasil.»

«Estados Unidos: à beira do abismo: Guia cultural para entender uma sociedade partida. Os livros sobre Trump, o feminismo, as armas, os opiáceios ou o Vale do Silício dominaram os quatro anos de mandato do presidente. Edição especial do Babelia, no El País, em espanhol, ou no El País Brasil

«Corrupção, Raiva, Caos, Incompetência, Mentiras, Decadência. O Caso contra Donald Trump, pelo conselho editorial do The New York Times.»

«Duelo à distância — Sabatinas conferiram a Trump derrota no quesito pelo qual é obcecado: a audiência. Por Dorrit Harazin, no Globo.»

«Backer faz festa e relança cerveja dez meses após casos de intoxicação. Por Izabela Ferreira Alves, em O Tempo.»

NÚMEROS ‘ATRASADOS’ DA JU:
«São estes os números anteriores da Ju, enviados exclusivamente por e-mail para os assinantes da Tinyletter, já disponíveis no blog: #0#01#02#03#04#05#06#07#08#09#10#11#12»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem nossas vidas. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e no dia em que puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #43

Desde o Belo. 16 a 22/10/2020. Nº 43. Ano 2

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo? Não? Faz muito calor? Que tal uma tubaína geladinha? Nem pensar? Quem sabe então uma limonada cor de rosa?

Para entrar no clima, toco a abertura de Twin Peaks, logo me explico. Troco todos os métodos de meditação profunda pela música de Angelo Badalamenti.

As modulações de acordes ferem a alma (ou as células cinzentas do sistema límbico, se a leitora insiste) feito o esmeril que afia os dentes da serra na sequência de imagens.

O cenário é o interior de uma serraria industrial à margem de um rio, núcleo de tramas e tragédias de Twin Peaks. As locações da cidade ficcional foram tomadas no belo Snoqualmie Valley, estado de Washington, no úmido noroeste dos EUA.

A névoa da cascata refresca a imaginação. As águas densas e escuras do rio trazem embrulhado em plástico transparente o corpo seviciado da jovem e linda e loura Laura Palmer. Mas isso já é história das telesséries que deixam saudade.

David Lynch é uma cineasta com Kafka, Buñuel e Hitchcock no genoma, além de uns alelos de Groucho Marx. Suas narrativas perseguem o mistério em uma busca sensual e poética da beleza, e exploram a fronteira eternamente conflagrada entre o inferno e o paraíso, entre a lágrima e o riso.

Suspensão do ordinário — Um dos segredos de Twin Peaks é o contraste entre velocidade e máxima desaceleração, escrevi num artigo sobre a terceira temporada da série, lançada em 2017. Reproduzo um trecho:

O diretor acelera ou retarda o tempo em cenas que nos põem em defasagem com o real. Aqui e ali, quando não causa espanto ou gargalhada, com seu senso de humor para lá de ímpar, logra um desconcertante efeito poético.

Como escreve Enric Ros no site espanhol Jot Dow, nesses momentos vivemos “uma experiência quase orgânica, um prazer imersivo que suspende por um instante o sentido do mundo ordinário”. O escritor e professor da Escola de Cinema de Barcelona cita o filósofo esloveno Slavoj Žižek, sobre o instante em que entramos no “buraco negro” da narrativa e nos “desgarramos sem medo do tecido da realidade”.

Eu e a brisa — Recorri a Lynch e Twin Peaks para desgarrar esta Jurupoca, que nem sempre desliza como a brisa. Nem sempre alui bem, com diria um saudoso primo. Esta, enfim, saiu mais curta, para gáudio do leitor entediado.

A crítica cultural, razão de ser desta carta, como praticada aqui, não raramente tange limites que convidam ao silêncio. Dessa paralisia não se muda de fase, como na catatonia, mas, simplesmente, com a frágil esperança de se poder voltar a carregar a mesma pedra morro acima, do mesmo jeito, mais uma vez, e então vencer, uma vez mais, a sedução do silêncio.


O “PACTO DIABÓLICO”
ENTRE EMBUSTEIROS E ENGANADOS

Ilusões facilitam a vida. A religião, a política, a ética estão entre os campos mais férteis onde os ídolos nascem, se alimentam e prosperam. Esse é o sentido essencial da ideologia. E essa demanda por “ilusões edificantes” não escapa à atenção dos embusteiros.

Em Las epidemias políticas (Ediciones Godot), livro citado na semana passada, Peter Sloterdijk chama de diabólico o pacto “meio consciente, meio inconsciente entre os mentirosos e os enganados”.

As “ilusões edificantes” imperam onde a “vontade de acreditar” (Sloterdijk citando William James) se encontra com a “propaganda”. O doutrinamento, as campanhas de ódio, o negacionismo conhecem bem o endereço de seus fiéis.

Falando do crescimento do antissemitismo na Europa depois de 1914, em As origens do totalitarismo, Hannah Arendt aponta a oportunidade histórica que se abria para os “charlatães e loucos naquela estranha mistura de meias verdades e fantástica superstições que emergiu” no continente. O antissemitismo tornou-se, então, diz Arendt, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos”.

Em nossa quadra, neste século, depois da destruição provocada na economia pelo “capitalismo de vigilância”, ou a progressiva uberização de tudo, a “ideologia de todos os elementos frustrados e ressentidos” transparece na gritaria, nas mentiras por atacado acatadas nas pantanosas “guerras de narrativas” que movem as pessoas sedentas por impor suas crenças e anular, ou cancelar, seus oponentes.

Mas agora são muitas as vertentes, ou oportunidades para celebração do pacto diabólico de que fala Sloterdijk. Os “novos aiatolás” (ver artigo de José Luis Pardo, no P.S.) se disseminaram no caldo cultural e ideológico. Em um mundo pulverizado pelo artifício digital, são muitas as moradoras dos falsificadores.

Entre uma tuitada e outra, um requerimento e outro com centenas ou milhares de assinaturas despachados no meio acadêmico, entre uma instituição democrática corrompida aqui e ali, eles tentam impor suas novas ordens à democracia, à ciência, às questões de gênero e raça e ao próprio ser humano.

Chega a parecer que o humanismo deu tudo que podia dar. Daqui pra frente, só com a reengenharia genética e a inteligência artificial.

ENQUANTO “NOSSO KASSIO”
 NÃO SAI DA MOITA, ANDRÉ DO RAP
 SAI DE CANA E ENTRA EM CENA

Enquanto “Nosso Kassio”, com seu currículo numinoso, não pega a toga nem sai da moita, o país resenha a soltura do chefe do PCC André de Oliveira Macedo, o André do Rap, por nosso ministro maneirista, Marco Aurélio de Mello, a quem apraz assumir ares de seu xará imperador. Como foi dito e redito pelos comentaristas, o habeas corpus de Mello, baseado na nova regulação da prisão preventiva, não sai para qualquer mequetrefe. Não atinge, aos milhares, quem vive espremido em cárceres cujo conforto lembra a hotelaria dos navios negreiros.  

A IDEOLOGIA MILICIANA
ENCONTRA O PLANALTO-CENTRÃO

Segundo a taxonomia de Conrado Hübner Mendes, “na biologia do Planalto, centrão é um animal invertebrado que parasita o interesse público e o desfigura”. Já o Planalto-Centrão se estende muito além do Planalto Central e da Sede, aquela Velha Rameira Niemeyriana, excelentíssima senhora. O Planalto-Centrão é o país da acomodação, do mudar o que for preciso para deixar tudo como está. Orgulhosamente abarca o Rio de Janeiro retratado em A república das milícias – do esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso, que leio para comentar semana que vem. Mas posso adiantar, pelo que já li, que a história da formação das milícias e seu sucesso é um capítulo muito esclarecedor sobre a chegada de !Caveirão.105mm! ao poder, além do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

INTERVALO MUSICAL


Com Dori Caymmi em Coisa do mundo, minha nega, de Paulinho da Viola, no CD Contemporâneos (HoriPro, 2002). Esse samba apareceu na última faixa-lado A do LP da Odeon Paulinho da Viola, de 1968. Entre suas boas versões estão as de Nara Leão e Alaíde Costa.

Chamam o Vate da Viola de príncipe do samba. Para mim, ele é, antes, nosso maior filósofo do samba. Várias de suas letras revelam um olhar sereno e inquiridor respeito a vida, numa busca conduzida pela linguagem da música e do samba, cuja arte domina como mestre.

Já na obra de Dori, que é grande e esplêndida, Contemporâneos é meu álbum mais estelar. Sua audição inspira uma hora de júbilo e sossego, escrevi alhures. Devo rodá-lo ao menos uma vez por mês, lá se vão quase duas décadas. Os arranjos das 12 faixas são de Dori e destacam seu violão autoral. Em timbres e harmonias se reconhece toda uma progênie da fina flor da MPB, como numa fita de DNA. Caetano, Chico, os irmãos Danilo e Nana, Edu Lobo e Renato Braz são convidados. Coisa do mundo, minha nega, a faixa inicial, impõe a ideia geral do disco no nível do sublime. É minha versão favorita do samba, que valoriza, enaltece e honra a composição. Segue-se, em Contemporâneos, uma seleção incrivelmente bela que traz Chico (“Januária”), Caetano (“Sampa”), Milton e Brant (“Ponta de Areia”) e Chico e Edu Lobo (“Choro Bandido”).

Quando perdi minha primeira cópia, enviada pela gravadora para o caderno de cultura no qual lidava, varejei como se podia na época a internet até encontrar uma última unidade disponível em uma loja de Seattle.

Sobre essa faixa, Dori fala, modestamente, no encarte: “Cantar não é meu forte, muito menos samba, mas eu nasci no Andaraí e passei minha infância em São Cristóvão e Madureira. A música de Paulinho tem o sabor divino do subúrbio”. Gravado no Rio de Janeiro e em North Hollywood, Califórnia, em Coisa do mundo, minha nega estão Michael Shapiro na bateria e Jerry Watts no baixo; Dori faz violão e guitarra e Paulinho da Costa, percussão.

A letra narra uma odisseia no subúrbio carioca. O poeta, como um Orfeu tangido pela musa, conta para a amada, como um cronistas, suas aventuras; de violão em punho,  ele se deixou levar no fluxo da tarde, no compasso da vida, vendo as “coisas que estão no mundo”, coisas que ele, poeta, “precisa aprender”, e nós também.

COISAS DO MUNDO,MINHA NEGA
Paulinho da Viola

Hoje eu vim, minha nega,
Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso

Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola
Onde gravei o teu nome

Venho do samba há tempo, nega,
Vim parando por aí
Primeiro achei Zé Fuleiro
Que me falou de doença
Que a sorte nunca lhe chega
Está sem amor e sem dinheiro
Perguntou se eu não dispunha
De algum que pudesse dar
Puxei então da viola
Cantei um samba pra ele
Foi um samba sincopado
Que zombou do seu azar

Hoje eu vim, minha nega,
Andar contigo no espaço
Tentar fazer em teus braços
Um samba puro de amor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor
Sem melodia ou palavra
Pra não perder o valor

Depois encontrei Seu Bento, nega,
Que bebeu a noite inteira
Estirou-se na calçada
Sem ter vontade qualquer
Esqueceu do compromisso
Que assumiu com a mulher
Não chegar de madrugada
E não beber mais cachaça
Ela fez até promessa
Pagou e se arrependeu
Cantei um samba pra ele
Que sorriu e adormeceu

Hoje eu vim, minha nega,
Querendo aquele sorriso
Que tu entregas pro céu
Quando eu te aperto em meus braços
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço
Guarda bem minha viola, meu amor e meu cansaço

Por fim eu achei um corpo, nega,
Iluminado ao redor
Disseram que foi bobagem
Um queria ser melhor
Não foi amor nem dinheiro
A causa da discussão
Foi apenas um pandeiro que depois ficou no chão
Não tirei minha viola
Parei, olhei, vim m’embora
Ninguém compreenderia
Um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega,
Sem saber nada da vida
Querendo aprender contigo
A forma de se viver
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender
As coisas estão no mundo
Só que eu preciso aprender

ABIN DESBARATA
“CONSPIRAÇÃO DA HEMORROIDA”
EM MADRI

Capítulo 1: Na reunião ministerial de 22 de Abril, logo depois das majestosas celebrações do Dia do Índio!, na sua  peculiar etiqueta militar e de maneira cifrada, !Caveirão.105mm! aludira a graves ameaças que rondavam a Hemorroida (sic) Presidencial. Ele acusava diretamente o ex-ministro Moro por fazer corpo mole com aquela vozinha de moça (ou de pato, como se queira) e não lhe relatar informações estratégicas sobre a proctológica trama diagnosticada.

Capítulo 2: A “Conspiração da Hemorroida”, como ficou conhecida entre cientistas políticos, viajou do terreno fisiológico para a estratosfera climático-ambiental. É sintomático, por exemplo, que qualquer referência à Amazônia como “patrimônio da humanidade” provoque dores lancinantes nos fundilhos de Sua Excrescência e do generalato que o assessora patrioticamente, ao mesmo tempo.

Capítulo 3: Foi noticiado na imprensa patriota do Itamaraty, neste ínterim, que cientistas comunistas globalistas mentiam e mentem sobre o fim do mundo e, ao mesmo tempo, que ecologistas comunistas se camuflam na densa vegetação amazônica, onde tramam para abiscoitar nossas riquezas, tais como nióbio, petróleo e ouro, muito ouro!

Capítulo 4: Esta semana, como para provar de vez por todas que há método na loucura, o Estadão revelou que o governo enviou quatro espiões da Abin à Conferência do Clima das Nações Unidas, realizada em Madri dezembro passado. As despesas e a boa vida que essas missões facilitam, diga-se de passagem, correram por conta do contribuinte.

Capítulo 5: Mas, o que isso? Não seja leviano, redator, tenha bondade! Os arapongas da Abin, afinal, trabalharam diligentemente na capital espanhola. Nem puderam se divertir nas boates, nos bares de tapas, ou fazer um visitinha ao Prado e admirar seu esplêndido acervo de arte comunista. Obraram bem! Por meio da coleta clandestina de áudios e acesso a documentos secretos e cabeludos, reuniram uma pá de informações estratégicas. A nação e o mundo tomaram ciência de tais informações privilegiadas no recente pronunciamento do Caveirão na Assembleia virtual da ONU. Foi revelado ingentemente ao povo, por exemplo, que são os índios e os caboclos que desmatam e tocam foto na floresta. Grileiros, garimpeiros, agricultores, toda essa gente fina, não tem nada a ver com a jurupoca, ou melhor, com o pirarucu.  

Capítulo final, epílogo ou Zé-fi-ni: Por fim, a nação aflita podia, assim, respirar em paz, ao conhecer, de forma cristalina e cabal, de onde partiam aquelas ameaças contra as veias varicosas do ânus presidencial.

“DESMATADOR DE ALUGUEL”?
 ESSA NÃO MINISTRO!

Ricardinho Salles, o seu ministro preferido da Terra Arrasada, caro leitor, é delirante, inepto e pau mandado, na lapidar adjetivação de Míriam Leitão. Pau mandato vai por minha conta, como paráfrase. “Ele tem parte da responsabilidade na devastação das florestas”, falou e disse a colunista, entre as jornalistas mais admiráveis do país. “Salles é o desmatador de aluguel, o mandante é o presidente Jair Bolsonaro.”

ROSA DOS VENTOS

♪ […] “E na gente deu o hábito/ De caminhar pelas trevas/ De murmurar entre as pregas/ De tirar leite das pedras/ De ver o tempo correr” […]♪

«Carta a um colega de Edimburgo. O escritor espanhol José Luis Pardo, em grande estilo, ataca os “novos aitolás” da universidade escocesa que retiraram uma honraria do filósofo David Hume. Num julgamento anacrônico, típico de uma época de derrubadores de estátuas, Hume foi acusado de ter feito “comentários racistas”, há quase 250 anos!»

«Com médicos e helicóptero de plantão, é fácil Trump posar de John Wayne. Por Drauzio Varella, na Folha

«Quem vai salvar o jornalismo? Flavia Lima, Onbudsman da Folha, comenta o acordo de um bilhão de dólares da Google com os jornais.»

«Bashevis Singer: “Nenhum avanço tecnológico é capaz de mitigar a desilusão do homem moderno”. O El País rememora o discurso do escritor de Singer ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, por ocasião da publicação, em espanhol, de um conto inédito do autor, El huésped (Nórdica Libros), sobre sobreviventes do Holocausto que emigraram e fundaram o bairro nova-iorquino de Williamsburg.»

«Live pela arte — Roberto Menescal — Para Meus Músicos. Na terça-feira (13) de manhã, quatro dias após a exibição ao vivo, havia menos de 2.000 visualizações dessa live no YouTube. Roberto Menescal, um pilar da MPB, seja como violonista e compositor — e suas convidadas, entre elas artistas da dimensão de Joyce Moreno ou Leila Pinheiro — não tem muito engajamento nas redes sociais, sem o que o artista não existe atualmente. Mas Menesca, como é chamado pelos chegados, um octogenário, não precisa mais disso.»

JURUPOCA, O AUTOR
E COMO CONTRIBUIR

Jurupoca é uma publicação semanal dedicada às ideias, à crítica cultural e à seleção de conteúdos relevantes numa época de quase extinção do jornalismo cultural, ao menos o que se entendia por esse subgênero, antes de as redes sociais remodelarem a vida. Considere contribuir com a publicação, por meio de uma doação regular — de quanto e quando puder. Para isso, clique aqui, ou copie e cole a URL https://pag.ae/7VCz1usG6. Você será direcionado a uma conta UOL/PagSeguro. Antônio Siúves, seu autor, é jornalista há 34 anos. Escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.


Ju #42

Belo. 9 a 15/10/2020. Nº 42. Ano 2

Feira moderna, o convite sensual/ Oh! telefonista, a palavra já morreu/ Meu coração é novo/ Meu coração é novo/ E eu nem li o jornal   [Feira moderna, Beto Guedes, Fernando Brandt e Marcio Borges]

E eu quero é que esse canto torto/ Feito faca corte a carne de vocês   [A palo seco, Belchior]

Opa! Vamos apear? Apraz-lhe, leitor amigo, uma pinga com torresmo?

MEMÓRIAS QUASE PÓSTUMAS — Não sou defunto autor, como o Brás Cubas, ainda que, óbvio, Machado siga muito mais vivo que eu. Mas estas anotações não deixam de ser memórias mais ou menos póstumas, ou quase póstumas, de um jornalista tecnicamente morto, na afiada expressão de Paulo Francis

MORTE WAGNERIANA — Pode-se dizer que o Francis tecnicamente morto não aguentaria cinco minutos em 2020, e o Corona seria o menor dos problemas. Sua morte precoce, em 1997, teria, quem sabe, sido obra da graça, decerto de algum dos deuses que povoam as óperas de Wagner, que ele tanto amava. Francis já estaria frito, cancelado e sepultado pela censura politicamente correta, pela cafonice e pela imposição final do gosto rebaixado pelas massas.

EFEITOS COLATERAIS — O colapso da cultura letrada, tema caro ao filósofo alemão Peter Sloterdijk em Las epidemias políticas (edição hispânica) foi, por assim dizer, parasitado pelos populismos no mundo digital. Os estragos na política são mais visíveis. O Brexit, Trump e Caveirão são frutos desse contínuo. A epidemias de ignorância, estupidez e arrogância são seus corolários, e vieram para ficar, mas a grande euforia com essa degradação parece renovar suas energias em moto-contínuo.

DESEJO DE INCOMPETÊNCIA — “Ou não é o populismo a nova forma do cinismo, aquela que expressa o ‘desejo generalizado de incompetência no poder’ — pergunta a cientista social argentina Margarita Martínez no Clarim.com — ou seja, agrega a pesquisadora, ao comentar o livro de Sloterdijk, “a possibilidade mental de que qualquer um de nós alcance a possibilidade de decisão coletiva?”

POESIA E NEUROLOGIA — Memórias quase póstumas jamais terão o brilho da verdade que ostentam as memórias de um defunto autor. E nem se pode dizer que toda memória seja póstumas, já que, vivos, refazemos e adaptamos o passado sem parar, e isso não é poesia, é neurologia.

AI QUE PREGUIÇA — Quase tudo que é novo e encanta meninos e meninas de hoje, ou seja, jovens à beira dos 40 anos — hábitos, moral, ideias, ideologia, diversão, tecnologia, gadgets — me mata de preguiça. Sou o Grande Otelo aí. Sou Macunaíma.

UMA TEORIA DA RELATIVIDADE — A vida de quem tem mais de 50 anos e não enfrentou um lifting radical para namorar nos aplicativos, ou faz isso no sentido figurado, é uma vida relativa, mas ao menos não alimenta a fantasia de passar o bico no tempo, o que é viver menos ainda.

SINCERIDADE, SIM, MAS DEVAGAR — “A franqueza é a primeira virtude de um defunto, diz o finado narrador das Memórias Póstumas. Já as memórias quase póstumas de certos escribas não podem, por certo, alcançar plenamente tal virtude, ou ele seria um suicida, apenas a persegue, isto sim.

VELHARIAS — Afinal o que é o colapso da cultura letrada? Costumes como a leitura de grandes livros e a conversação educada entraram, e não de agora, em franca obsolescência. Ou experimente compartilhar a alegria de ler ou reler Grande sertão: veredas com amigos que não descuidam do celular por cinco minutos.

FORA DE ÓRBITA — O que não viraliza está fora do radar da vida coletiva, que é ególatra por excelência, helahoho! helahoho!

IMPÉRIO DO PORNÔ — Buscam-se as sensações, na política e no debate público virtual, como quem se apega à pornografia para se autossatisfazer, sem muito trabalho, instantaneamente.

O TEMPO QUE DILACERA — “Quem não conhece o tédio, encontra-se ainda na infância do mundo,” — reflete Cioran no Breviário da decomposição — “quando as idades esperavam para nascer; permanece fechado para este tempo fatigado que se sobrevive, que ri de suas dimensões e sucumbe no limiar de seu próprio… porvir, arrastando com ele a matéria, subitamente elevada a um lirismo de negação. O tédio é o eco em nós do tempo que se dilacera…, a revelação do vazio, o esgotamento desse delírio que sustenta — ou inventa — a vida…”.

QUE PASSEM OS DIAS… — Cioran fala do “vazio do coração ante o vazio do tempo…”. Prefiro a poesia do Pessoa, aqui em fase Álvaro de Campos, para quem “ser vadio e pedinte” é “ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem.”

“MONSTRO DELICADO” — O spleen dos ingleses, que acreditavam que a melancolia era destilada no baço, o ennui dos poetas franceses — o horror das mentes criativas do século 19, o velho tédio. O tédio fora o “mal do século”, de mãos dadas com a tísica, é certo. “O que é o corvo de Edgar Poe senão outra encarnação do monstro baudelairiano?”, indagava Antonio Callado num texto sobre o suicídio de Kurt Cobain, estrela do Nirvana, aos 27 anos. O “monstro delicado” de Charles Baudelaire é descrito no poema que abre As flores do mal, dedicado ao leitor. Repito um trecho na Jurupoca, um pouco estendido desta vez:

Espesso, a fervilhar, qual um milhão de helmintos, 
Em nosso crânio um povo de demônios cresce, 
E, ao respirarmos, aos pulmões a morte desce, 
Rio invisível, com lamentos indistintos.

Se o veneno, a paixão, o estupro, a punhalada 
Não bordaram ainda com desenhos finos
A trama vã de nossos míseros destinos, 
É que nossa alma arriscou pouco ou quase nada.

Em meio às hienas, às serpentes, aos chacais, 
Aos símios, escorpiões, abutres e panteras,
Aos monstros ululantes e às viscosas feras,
No lodaçal de nossos vícios imortais,

Um há mais feio, mais iníquo, mais imundo! 
Sem grandes gestos ou sequer lançar um grito,
Da Terra, por prazer, faria um só detrito
E num bocejo imenso engoliria o mundo; 

É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção, 
Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado.
Tu conheces, leitor, o monstro delicado
— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!

Extrato de Ao leitor, abertura de As flores do mal, Charles Baudelaire, tradução Ivan Junqueira, Nova Fronteira, 2015.

O MONSTRO POR AÍ — Baudelaire tinha razão, sabemos o que é o tédio, mas fingimos que não sabemos. Callado indagava, em 1994, se o monstro havia sido derrotado. Os franceses não usavam mais “ennui” no antigo sentido baudelairiano, ele diz, e os ingleses há muito haviam deixado de atribuir o spleen a uma secreção visceral. Mas diante da morte Cobain, ponderava o autor de Quarup, era o momento de reconhecer que o monstro havia mudado de nome, trocara a doença que outrora disseminava e as drogas que ministrava, mas continuava vivo e feroz.

SAI HAXIXE ENTRA PROZAC — Em 1994, Callado mal podia intuir o debate sobre o monstro que ocorreria nas décadas seguintes, e o protagonismo da psiquiatria sobre a variegada psicanálise. Já havia certa festa em torno do Prozac, é verdade. O haxixe, o absinto, a cocaína, verdadeiros remédios no século 19, para os criativos, há muito não serviam. Uma revolução estava em curso desde meados do século passado. A nova farmacopeia, ansiolíticos e reguladores do humor, ganhava os rótulos de potências farmacêuticas e passava a ser aviada em formulários médicos de cor azul. Logo o azul?

O MONSTRO SEGUE EM CAMPO — Mas o monstro está por aí. O antideprê salva vidas. Também anestesia vontades e esteriliza a criação. “Há anos que não me emociono com nada”, dizia Cobain na sua carta de despedida.

ABRAÇAÇO NO PLANALTO-CENTRÃO

O procurador Aras e o advogado Kakay, desperdiçado astro de filmes de terror, foram algumas das excelências prestigiadas no rega-bofe do ministro Toffoli em Brasília, no último sábado (02), oferecido para saudar (e soldar) o mais novo indicado ao STF — indicação tramada no breu das tocas pelo advogado Frederick Wassef e o filho senador filho do !Caveirão.105mm!. “O almoço, que em qualquer país civilizado provocaria escândalo, começou às 14 horas e foi até a noite, com futebol e pizza”, anotou Merval Pereira. “A fauna brasiliense presente ia de advogados que atuam no Supremo, políticos de vários matizes, presidente do TCU e, por último, mas não menos importante, o presidente da República em pessoa, que está sendo investigado pelo STF”, comentou o colunista de O Globo. A festa deu as bênçãos (e a solda) de Brasília — esta puta velha niemeyeriana do Planalto-Centrão — ao  desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), Kassio Nunes. Entrou para os anais e, agregaria Odorico Paraguaçu, para os menstruais da República o abraço de Dias Toffoli, o jurista que sabia Javanês, em ¡Caveirão.105mm!. Só faltaram se beijar na boca, à moda russa, como Brejnev e Erich Honecker em 1979. No ajantarado sagrou-se a República da Tubaína, que ora se apodera da vetusta rameira supracitada.

Fraternos amigos de infância no Planalto-Centrão. Reprodução CNN/O Globo

UMA SUADEIRA EM ZUCKERBERG
OU ALÉM DO DILEMA DAS REDES

Kara Swisher, editora executiva do Recode Media, do site Vox, dá uma suadeira literal em Mark Zuckerberg, durante uma entrevista. A cena é das mais emulsificantes em The Facebook Dilemma, documentário em duas partes do canal de televisão pública norte-americano PBS, lançado outubro de 2018. Pelas tantas, Zuck pretexta estar resfriado para tirar o casaco empapado. Temos a impressão, e Swisher sugere isso, de que o eterno nerd angelical fora flagrado pela mãe no auge uma travessura. Resultado de um ano de trabalho, a produção tem alcance maior e mais foco que O Dilema das redes, e não precisou recorrer à dramatização para oferecer um quê de emoção extra. A decupagem dos fatos imprime o ritmo da narrativa. As entrevistas com representantes da rede social e ex-mandachuvas das Big Tec são conduzidas por jornalistas pra lá de tarimbados. Genocídio, manipulação eleitoral e campanhas massivas de notícias fraudulentas contra adversários políticos ou inimigos, perpetrados por meio da plataforma, estão bem documentados e analisados. “Conectar o mundo”, o mantra de Zuckerberg, soa mais falacioso e ridículo a cada nova papagaiada, à medida que se expõe a conivência do Facebook com um nefasto legado de crimes. Confrontada por documentos e provas, a rede alega que nada pode fazer além do que já faz, ou seja, um inócuo monitoramento de ilicitudes. O documentário mostra a explosiva divisão social no Egito, na ressaca da “Primavera Árabe”, e as manobras de Rodrigo Duterte, nas Filipinas, contra opositores. Detalha a perseguição à minoria islâmica rohingya, em Mianmar, por extremistas da maioria budista. E ainda se detém na fábrica russa de fake news que opera em São Petersburgo, usada por Putin para enfraquecer a resistência ucraniana, e no escândalo da empresa britânica Cambridge Analytica e a interferência russa nas eleições norte-americanas. Não tiveram tempo de incluir no roteiro o Brasil que elegia ¡Caveirão.105 mm!. Tudo isso já é história contemporânea, e quase metade do planeta segue fascinada, conectada ao Face, ajudando a realizar o sonho de Zuckerberg de cedo ou tarde ligar todos os habitantes da Terra à plataforma. Afinal, afora os trilhões, ele se acha um demiurgo, cuja criação está acima de todos os males que venha causar à humanidade.

NO CADERNO DE EX-CULTURA
DE O GLOBO É CHOPRA NO MEL

O Globo extinguiu há tempos o suplemento Prosa & Verso. De quebra, os Marinho sepultaram o jornalismo cultural. O jornal dobrou-se à realidade do caça-clique, e com isso se tornou ainda mais irrelevante, à parte ainda manter competentes editorias de política e opinião. Na seção online chamada, como pode, e como grande boa vontade, de “Cultura”, destila-se o suprassumo do entretenimento rasteiro. Sábado passado (2), dia em que circulava o Prosa & Verso, a página destacava a matéria recortada acima. Com o guru de Lady Gaga, soubemos, estaríamos todos salvos da polarização. Atenção chacretes de Olavo de Carvalho, ditas olavates; acorde, miliciano constrangido (@!#%) do ¡Caveirão.105 mm!; olha aí você, pseudo-neo-estalinista ou quase lá, mire-se no exemplo da papisa do pop,socos, ainda que simbólicos, com o adversário. Chopra é a solução. Contra a polarização, é Chopra no mel.

TRUMP BATENDO UM BOLÃO
(OU QUE VEXAME, CORONA!)

Mr. President Donald Trump, conhecido como Agente Laranja e ou Topete Atômico, pegou o Corona e logo saiu do hospital batendo um bolão. Eta medicina da moléstia! De volta à Casa Branca, arrancou sua máscara como Wild Bill Hickok sacava o Colt em Dakota. “Trump retorna à Casa Branca minimizando o vírus que o hospitalizou”, manchetava o Washington Post na terça-feira. No Twitter, o cowboy de araque dava uma banana simbólica para o vírus, e menoscabava a pobre microcriatura também num post retirado pelo Facebook. O Corona só mata os fracos, os derrotados oprimidos, sugeria, não importam quantos sejam — e já passavam dos 220 mil no país, ou mais de quatro Vietnãs (baixas norte-americanas). “É possível que Trump emerja de sua batalha contra a Covid-19 com um novo respeito pela enfermidade”, especulava o jornalista e escritor León Krauze na mexicana Letras Libres, logo após a notícia da internação. Coitado. No título do artigo, “No final, o vírus riu por último”, outra barrigada opiniática de Krauze. Quem saiu humilhado do embate foi o Corona; 7 x 1 para Topete Atômico. Que vexame. 

ECO SABIA DAS COISAS

Políticos, governadores e legiões de especialistas, desde o Twitter e o Facebook, como se esperava, prescreveram hidroxicloroquina a rodo para salvar Topete Atômico. Nem sonhava essa malta com as mezinhas hi-tech e milagrosas que os doutores do hospital militar de Washington escondiam da plebe. “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade” — ponderou Umberto Eco, ainda em 2005, não custa lembrar — “Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”.

CORVOS SÃO MAIS INTELIGENTES
QUE ESTE JURUPOCO: “ERRAMOS”

Diferentemente do que sugeriu a nota da Ju passada, redigida por este pascácio, a descoberta sobre a inteligência superior dos corvídeos, cujos cérebros possuem alguma forma de autorrepresentação, não deve nada à ornitologia. A pesquisa publicada na revista Science, esclareceu na Folha a doutora Suzana Herculano-Houzel, é de um neurocientista, seu colega, o alemão Andreas Nieder, da Universidade de Tübingen.

DEUS, ANIMAL DE ESTIMAÇÃO

“A estranha formulação ‘Deus é fiel’, tão brasileira, invertendo a lógica que pede fidelidade ao crente, introduz o negacionismo no próprio fundamento da fé”, falou e disse Bernardo Carvalho. “Deus deixa de ser representante da vida e da morte, para corresponder, como um animal de estimação, às expectativas do dono.” 

INTERVALO MUSICAL

BEBADOSAMBA com PAULINHO DA VIOLA, do disco de 1996, o último de inéditas do artista. Embora haja a promessa de um álbum com novidades na bica, como ele anunciou no Valor Econômico, pode-se dizer que Bebadosamba — trabalho de criação tão magistral e depurada, e de arte tão elevada — estabeleceu um padrão difícil de transpor, o que explicaria a longa seca. Se bem que Paulinho da Viola não precisa acrescentar um ré à sua discografia, um dos capítulos mais ricos de nossa história musical e cultural.

Premiadíssimo, eleito “disco da década”, nada é demais para dar Bebadosamba o lugar que o disco merece. O CD é todo ele pura excelência. Já a faixa comentada neste intervalo é um poema sobre o samba e também uma espécie de oração — rezada no comovente Chamamento, na segunda parte — aos grandes mestres e criadores da nossa música. Quem tenha um mínimo de juízo, de ouvido e gosto musical, reza junto, e, se não for de sambar, que se ajoelhe.

Bebadosamba ademais é uma aula sobre a história do gênero, na letra, no canto e no arranjo. Paulinho define seu “choro” [de verter lágrimas], na introdução recitada, como “chula” [forma originária do samba de roda surgida no Recôncavo Baiano] “quase raiada” [chula raiada, samba raiado ou partido-alto, um dos primeiros estilos do gênero]” e com essa expressão remete aos primeiros batuques, aos primeiros movimentos do ritmo de matriz africana, desde os terreiros, desde o Recôncavo, desde os saraus de Tia Ciata no Rio de Janeiro, no início do século passado.

A propósito, o referido Boca, com que nosso cantautor dialoga no samba-falado da primeira parte, é um “personagem dos antigos carnavais cariocas, que, no fim do cortejo, encadeava sambas de maneira contínua, ininterrupta, conduzido pelo fluxo da memória”, como explica o professor da USP Zebba Dal Farra neste artigo (PDF). É este Boca-rapsodo que transparece em Bebadosamba, quando nosso vate da Viola alude a “Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo,/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra.”

O arranjo e o cavaco são de Paulinho, e, à parte o piano refinado de Cristóvão Bastos, a instrumentação é a mais essencial ao ritmo, a começar do prato e faca, que apontam para o Recôncavo, onde essa história teve um início, além de ganzá, agogô, pandeiro e tamborim.

Pode-se dizer que Bebadosamba é um “samba essencial”. Repare no lindo violão de César Faria, pai do artista, repare na baixaria que abre o canto, depois da recitação, levada apenas com o fundo de um batuque que ecoa a gênese de todas as umbigadas e batucadas.

BEBADOSAMBA, Paulinho da Viola

Um mestre do verso, de olhar destemido,
disse uma vez, com certa ironia:
“Se lágrima fosse de pedra
eu choraria”
E eu eu, Boca, como sempre perdido
Bêbado de sambas e tantos sonhos
Choro a lágrima comum,
Que todos choram

Embora não tenha, nessas horas,
Saudade do passado, remorso
Ou mágoas menores
Meu choro, Boca,
Dolente por questão de estilo
É chula quase raiada
Solo espontâneo e rude
De um samba nunca terminado

Um rio de murmúrios da memória
De meus olhos, e quando aflora
Serve, antes de tudo,
Para aliviar o peso das palavras
Que ninguém é de pedra.

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

Boca negra e rosa
Debochada e torta
Riso de cabrocha
Generosa
Beijo de paixão

Coração partido
Verso de improviso
Beba do martírio
Desta vida
Pelo coração

BEBADACHAMA (chamamento)

Chama que o samba semeia
A luz de sua chama
A paixão vertendo ondas
Velhos mantras de aruanda
Chama por Cartola, chama
Por Candeia
Chama Paulo da Portela, chama,
Ventura, João da Gente e Claudionor
Chama por mano Heitor, chama
Ismael, Noel e Sinhô
Chama Pixinguinha, chama,
Donga e João da Baiana
Chama por Nonô
Chama Cyro Monteiro
Wilson e Geraldo Pereira
Monsueto, Zé com fome e Padeirinho
Chama Nelson Cavaquinho
Chama Ataulfo
Chama por Bide e Marçal
Chama, chama, chama
Buci, Raul e Arnô Canegal
Chama por mestre Marçal
Silas, Osório e Aniceto
Chama mano Décio 
Chama meu compadre Mauro Duarte
Jorge Mexeu e Geraldo Babão
Chama Alvaiade, Manacéa
E Chico Santana
E outros irmãos de samba
Chama, chama, chama

Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Meu bem
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadosamba
Bebadosamba, bebadachama
Também

ACENDO UMA VELA E BRINDO
 À MEMÓRIA DE ZUZA HOMEM DE MELO

Zuza Homem de Mello morreu no domingo (4), em casa, de infarto, durante o sono. Contava 87 anos e acabara de concluir seu próximo livro, uma biografia de João Gilberto. É preciso dizer que a música brasileira e o jazz perderam uma de suas mais altas referências. Era escritor musicólogo, crítico, produtor, divulgador, entra tantas atividades que exerceu na extensa carreira. Sua elegância, generosidade e humor foram bem destacados pelos obituários. A rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, compilou os 157 episódios do Playlist do Zuza, programa só interrompido pela pandemia. Arthur Dapieve e Reinaldo Figueiredo, apresentadores da casa, falam do colega. Se você não sabe quem é o personagem ou quer se aprofundar, assista ao documentário Zuza Homem de Jazz, produzido pelo Canal Curta. É um ótimo retrato. Fui e sou freguês da educação, da arte e do conhecimento de Zuza, e guardarei minha gratidão por sua nobreza com muito carinho. A SescTV publicou o programa Todas as Notas: Zuza Homem de Mello, onde Zuza comenta gravações instrumentais brasileiras.

Em podcast na CBN, João Marcelo Boscoli fala do peso de Zuza na cena musical paulistana.

O amigo Wilton Marsalis, trompetista, compositor e diretor artísticos do Lincoln Center, em Nova York, o homenageou em postagem numa rede social. “Ele foi justificadamente o mais respeitado jornalista e musicólogo brasileiro especializado em Música Brasileira e Jazz. Ele era um homem de espírito e graça incomuns, de alma e de engajamento com as possibilidades humanas através da arte da música. A curiosidade de Zuza transcendeu todas as fronteiras. Ele era a própria excelência”, escreveu Marsalis, na tradução do Estadão.

SÓ ELLA

Quando toco no assunto, e faço isso amiúde na Ju, do papel e importância da grande crítica, e da falta que ela nos faz, depois de sumir, ao menos em substância, dos jornais e revistas brasileiros, falo da capacidade do crítico de nos aproximar do seu objeto, intimamente, de nos ensinar a ler melhor um romance ou aproveitar melhor a audição de um disco, além de orientar nossa seleção artística e cultural. É uma função essencial em qualquer “cultura letrada”, e o que faz Giovanni Russonello, do New York Times, em texto muito bem pinçado e traduzido pelo Estadão, sobre gravações inéditas de Ella Fitzgerald lançadas agora pelo selo Verve: Mack the Knife: Ella in Berlin e Ella: The Lost Berlin Tapes. “Você poderia dizer que Ella estava para cantar como Yo-Yo Ma está para o violoncelo: perfeição absoluta, personificada. Ella pensa na nota, ela acerta a nota. Ela aprende a canção, ela se torna a canção”, observa Russonelo. “Ainda assim, há uma troca sagrada acontecendo. Ao invés de trazer você para a canção, Ella traz a canção para você. E o efeito é inegável — você fica desarmado”, acrescenta. Os vídeos, legendados, que ilustram esta nota têm animação criada pela cantora Cécile McLorin Salvant. Agora, se você se interessou pelo assunto, ouça o especial que a Rádio Batuta estreou no centenário da cantora, em 2017, produzido e apresentado por quem?, Zuza Homem de Melo, claro. A seleção musical é de um dos maiores conhecedores do gênero no Brasil, que nos anos 1950, durante o curso de musicologia na escola Julliard, em Nova York, pôde vê-la de perto, no auge artístico, e logo ser seu intérprete no Brasil.


BACK IN BAHIA, OU GIL É TÃO
 MILAGREIRO QUANTO DORIVAL CAYMMI

Gilberto Gil regravou Back in Bahia, em versão para a série Amor e Sorte, da TV Globo. Como tanta coisa na obra de Gil, esta canção, composta nos anos 1970, quando ele voltava de Londres, faz da dor do exílio na memória recente um manifesto de alegria, e tem o dom de levantar deprimidos com um pé na Cova. Gil domina essa arte característica de Dorival Caymmi, nosso Buda Nagô, segundo ele. Hoje eu me sinto/  Como se ter ido fosse necessário para voltar/ Tanto mais vivo/ De vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá , diz a letra. Vai aí o videoclipe.

 BOM DIA, VERÔNICA, E TCHAU!

Aturei, em honra do meu leitor, exatos 22 minutos de Bom dia, Verônica (Netflix), série aprovada pela imprensa paulista. Que a crítica acabou é notório, repito. Mas o universo mental dos incumbentes (os vivos, vivinhos, vivaldinos ou não) não ultrapassa os trinta e cinco anos, que agora equivalem aos quarenta e poucos. O roteiro claudica em cada tomada, há interpretações ruins e a direção parece ter entregue seu trabalho a deus. Mas não. Conforme os críticos de Sampa, devemos achar tudo lindo em nossa época regida pela hipocrisia, é quase um imperativo categórico, afinal, Bom dia, Verônica tem uma valiosa pegada feminista contra o macho predador, e a boa intenção é moeda cujo valor não para de subir. Ninguém pode falar mal sem ocupar o lugar da fala. É preciso ser latino para falar da latinidade, negro para criticar qualquer obra que expresse a negritude, LGBTQIA+Ypisilone para falar do que tudo que envolve o acrônimo LGBTQIA+Ypisilone. E, claro, estamos no domínio da ficção. Talvez seja necessário ser um artista profundamente comovido com a arte nacional para comentar verdadeiramente a teledramaturgia brasileira.

«Ao comparar nazismo com bolchevismo, Hannah Arendt pensa a liberdade além das polarizações”, por Eduardo Jardim, na Folha de S.Paulo.»

«Hannah Arendt e o ‘melhor homem na França’: honestidade e liberdade intelectual”, por Adriana Novaes, no Estadão da Arte.»

«“São Lucas e Brás Cubas dão exemplos opostos do embate da ética com a desonestidade”, por Eduardo Giannetti, trecho adiantado do novo livro do autor O anel de Giges, a ser lançado em novembro pela Companhia das Letras.»

«Esqueça o que os ativistas de gênero dizem a você. É assim que se parece a transição médica”, artigo de Scott Newgente, um homem transgênero de 47 anos fundador do TReVoices, um grupo de transeducadores que se opõem ao ativismo radical de gênero. Na Quillette.»

«Marco Pereira no Dia de Instrumental do Música #EmCasaComSesc»

JURUPOCA?

Com afinco e aprumo e afeto, Jurupoca dedica-se, como pode, ao jornalismo cultural e às ideias, a selecionar e comentar conteúdos possivelmente relevantes pra você. É mais ou menos o que se entende hoje, veja você, por “curadoria”.

A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

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O AUTOR?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

 

Ju #41

Belo. 2 a 8/10/2020. Nº 41. Ano 2

Quando ao meio-dia se está um pouco cansado, isso faz parte do curso natural e feliz do dia. “Para estes senhores, aqui é sempre meio-dia”, disse K. para si mesmo.

Essa balbúrdia de vozes nos quartos tinha algo de extremamente alegre. Soava ora como os gritos de júbilo de crianças que se preparam para uma excursão, ora como o alvorecer num galinheiro, como a euforia de estar em plena harmonia com o dia que raiava, em alguma parte um senhor até imitou o canto de um galo.
Franz Kafka, trechos de O castelo, tradução Modesto Carone, Companhia das Letras.

“Alguns livros funcionam como uma chave para as salas desconhecidas do nosso próprio castelo”.
Anotação de Kafka citada no posfácio de Modesto Carone.

Opa! Vamos apear?  

A leitura de Kafka é intrigante de cabo a rabo. Obscuras  dobras do mundo que mal intuímos parecem receber um pouco da luz solar, ainda que as cenas noturnas de seus romances, (mal) iluminadas por velas, lampiões a querosene e débeis luzes elétricas, sejam, tantas vezes, as mais reveladoras, ou mais aparentemente reveladoras. Não é por nada ele é chamado de “o poeta de Praga” por seu tradutor.

Que personagem fascinante é este escritor, morto a um mês de completar 41 anos. Como sua obra é universal. E quantos ensaios, contos, relatos biográficos e comentários de toda sorte esse fascínio produziu?, para não falar dos diagnósticos psiquiátricos e das tentativas filosóficas e psicanalíticas de decifrar seu universo. Modesto Carone aponta a fortuna crítica do ficcionista no longínquo 1980, quando ultrapassava os dez mil títulos, “entre livros e artigos de porte”. O que permanece irredutível é a relação entre o leitor e a obra.

Tenho me valido dela, da obra kafkiana, nesses dias, para me remediar, ou melhor, refugiar da babel, da permanente orgia da frivolidade (sei das implicações e do rechaço que esta minha expressão pode sofrer, e não me sinto nada desconfortável por saber disso) e da destruição da dignidade do pensamento, no dizer de Hannah Arendt, apesar de a primavera ter entrado em inumano modo micro-ondas, o que pode derreter o gelo e a neve dos píncaros kafkianos, além de nossos miolos.

A ficção de Kafka pode nos ajudar a compreender e aceitar a realidade, mas ela nada tem de anestésica. Não nos livra do choque contra a estupidez, a indiferença ou o poder degenerado. Faz bem o contrário disso.

Vivemos a ilusão de que entendemos tudo, e de que tudo está ao alcance do nosso saber, nada mais temos a aprender, inclusive e sobretudo para educar os sentidos e, sim, valorar a beleza.

Atomizados ou tribalizados, deixamos nos encobrir pela névoa do presente e pela capa da superficialidade. O autor de A metamorfose, também por isso, nos vale por uma pedagogia literária e humanística.

Sinto que a maré do Corona, com seu, muito por baixo, um milhão de mortos empilhados, e todo o repertório da distopia em pauta, da emergência climática à derrota da razão, nada disso vai quebrar o verdadeiro isolamento social em que nos metemos.

Contra todas as evidência e apesar dos pesares, nunca fomos tão confiantes, sob as bênçãos da ciência e da “destruição criativa” — expressão do economista Joseph Schumpeter derivada daquele “tudo que é sólido desmancha no ar”, quase-slogan do Manifesto comunista) — do Vale do Silício, que é verdadeiramente destrutiva e criativa apenas segundo suas próprias finalidades.

Mas vai que tenha sido sempre assim, que sejamos os mesmos conforme alguma essência, apenas a história muda, como mudam as condições de sobrevivência. Como indivíduos, de um jeito ou de outro, sempre vai nos assombrar algum processo, a despeito de nossa pretensa inocência, a ambição de acessar algum castelo impenetrável (outro mundo, outra vida, melhor que a que temos?), e algum medo de acordar, depois de sonhos intranquilos, metamorfoseados em terríveis insetos.

Franz Kafka, 1906. Foto: domínio público

Encobrir os engasgos
É preciso “rebuçar [esconder] as rebordosas com um pouco de pândega”, escreveu Manoel Lobato. A frase salta de uma página do livro que reabro, seu Cartas na mesa – memórias (Imprensa Oficial, 2002), com autógrafo gentilíssimo e galhofeiro do autor, em linda caligrafia. Lobato se foi em julho, aos 94 anos, pelas graças do pândego Corona. Mas a frase lobatina me recorda Os Lusíadas, via Pedro Nava, sobre os navegantes exangues, alquebrados, que enfim podiam refocilar [revigorar, restaurar as forças] a lassa [exaurida, esgotada] humanidade nos portos. Os prostíbulos (fuck clubs em português corrente) estavam lá para acolher e oferecer aos nossos descobridores esse antigo e indispensável serviço humanitário.

O autógrafo galhofeiro do Manoel Lobato

Nunca mais
O corrosivo Zachariah Webb, editor da revista norte-americana The Baffler, semanalmente traz deliciosas novidades, que despacha da “linha de frente da aborrecida distopia”. Sobre a revelação que os corvos possuem alta inteligência e até algo assemelhado a uma autoconsciência, ele comenta: “Bem-vindo, corvídeos, ao inferno”. Mas, claro, Edgar Allan Poe precede, e muito, a ornitologia: “Atônito fiquei por um momento/ Ao compreender que o Corvo compreendia […] Se sois humanos, ó triste solitário!/ Dizei-me em vosso atroz vocabulário, / A verdade de tudo que grasnais!//  Mas Ele, altivo e sacudindo as plumas,/ Olha das noite as relegadas brumas/ E responde impassível: nunca mais.” [Tradução de Benedito Lopes em O corvo e suas traduções, organização Ivo Barroso, Lacerda Editores, 1988.]

A ecologia musical
CDs, que são feitos de policarbonatos (polímeros termoplásticos) fazem menos mal ao planeta que os discos de vinil (hidrocarbonetos). Mas ambos levam um banho em toxicidade do streaming e do download, que a muitos podem parecer uma tecnologia moderna e sustentável. ♪ Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são… ♪ Em 2016, a nova indústria da música produziu 194 mil toneladas de gases de efeito estufa, cerca de 40 milhões a mais que todas as emissões somadas dos meios de difusão existentes em 2000. Os dados estão no livro Decomposed: The Political Ecology of Music (decomposto: a ecologia política da música), de Kyle Devine, resenhado por Alex Ross na revista The New York. E a emissão de gases é apenas o começo da história. A produção de componentes para smartphones e a mineração do cobalto, usado em baterias, são associadas à exploração de trabalho escravo, infantil e à opressão de minorias étnicas. Investidores seguem a injetar dinheiro no Spotify, apesar dos contínuos prejuízos da gigante, interessados no potencial dos dados gerados por seus usuários, que são monitorados a cada toque. A música, hoje, é outra plataforma da chamada por vozes dissonantes de “vigilância em massa”, mais um tentáculo do Big Data.

Dígitos da música digital
A grande cantora brasileira Luciana Souza, que vive nos EUA, revelou recentemente ao jornalista e crítico Carlos Calado que pela média mensal de 50 mil “streams” (ou a audição de uma música por mais de 30 segundos), obtida pelos seus discos no Spotify, ela faturava 38 dólares, ou uma garrafa de vinho. Alex Ross cita Daniel Ed, CEO do Spotify, para quem o músico de hoje, para ganhar a vida, precisa do contínuo e crescente engajamento dos fãs. A atividade criativa no violão ou no piano se mistura à labuta publicitária no Instagram. Qualquer novo Tom Jobim não será nada sem os talentos acessórios de Anittas e Ludmillas para a autopromoção. Não por acaso, os hits da música pop já são bolados por inteligência artificial. Vejo grandes músicos, de longas e respeitadas carreiras, com míseras e constrangedoras audiência no YouTube e Spotify. Como jurupoco autoexilado das redes — Helahoho! helahoho! — sou plenamente solidário com essa turma. Minha expedita lista A rádio Siutônio apresenta: 1.000 canções brasileiras, que por sinal anda por 1.024 músicas e já me toma uns cinco anos de labuta e aprimoramento, tem 16 seguidores! Fiz as contas e conclui que em mais uns 350 anos atingirei o benchmark de um assinante por canção, ou estarei perto disso. Aí, sim, mamãe, farei um bruto sucesso em Quixeramobim.

A estreia de Pátria
O primeiro capítulo de Pátria, seriado em oito episódios lançado no último domingo pela HBO, me fez pensar nos limites da fidelidade de um roteiro adaptado. Comentei o ótimo e extenso romance de Fernando Aramburu na Jurupoca #8, transposto por Aitor Gabilondo para o teledrama. Me senti em casa, demasiadamente em casa, creio. As personagens das mães protagonistas, Bittori (Elena Irureta) e Miren (Ane Gabarain) são bem fidedignas. Fidedigna também é a alternância temporal entre o presente — quando o ETA anunciava um adeus às armas — e os recorrentes recortes do passado, janelas abertas para as sequelas da violência e da desagregação sofridas por duas famílias amigas separadas e marcadas pelo terror, quando se veem em lados opostos. A chuva constante também está lá, como os dias cinzentos, como o pequeno mundo fechado da província vizinha a San Sebastián. E lá está o sangue de Txato, derramado no asfalto por seu assassino e lavado na enxurrada. Mas toda essa fidelidade esbarra no mais difícil, primeiro no ritmo — ao acelerar para encurtar, o que tira profundidade, perspectiva; depois em atuações muito contidas, o que tira brilho e emoção — e tem a ver com uma direção tímida ou pouco ousada; e, para o leitor do livro, por isso mais exigente, esbarra ainda na luz, que não é, sinto muito, suficientemente filtrada nas gradação do cinza-escuro, o que fere a imaginação do espectador, e devemos cobrar isso ao fotógrafo.


Com Chico Buarque em Nina, minha canção favorita de seu álbum de 2011 pela Biscoito Fino, embora Sinhá, em parceria com João Bosco, não me encante menos nesse CD. Nina é uma valsa de lírica essencialmente buarquiana, na delicadeza e na imaginação da figura feminina. Aqui, ele decanta melancolicamente uma jovem de Moscou cuja casa pode bem ser vista em detalhes na tela (pelo Google Street View?).

A letra, que pode não ser poesia, mas é quase-poesia, certamente literatura, quem sabe outro gênero, com sugeriram poetas e letristas espanhóis reunidos pelo Babelia do El País. Só os muito empedernidos fazem questão de não notar que Chico jamais foi abandonado pelas musas, como compositor, o que fica claro, claríssimo, diante de seu verso sempre rigoroso, como em “Nina diz que fez meu mapa/ E no céu o meu destino rapta/ O seu” (vejam que astrologia e alusões mitológicas se misturam aí) ou “Nina anseia por me conhecer em breve/ Me levar para a noite de Moscou/ Sempre que esta valsa toca/ Fecho os olhos, bebo alguma vodca/ E vou”.

O arranjo de Luiz Claudio Ramos é enxuto e exato, na medida para conferir a atmosfera em tom menor que a canção demanda, e que a realiza plenamente. Ramos e o próprio Buarque fazem os violões, Jorge Helder está no baixo, João Rebouças no piano e Hugo Pilger no violoncelo; o acordeão é de Marcos Nimrichter.

Nina — Chico Buarque
 
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou
Que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
 
Nina adora viajar, mas não se atreve
Num país distante como o meu
Nina diz que fez meu mapa
E no céu o meu destino rapta
O seu
 
Nina diz que se quiser eu posso ver na tela
A cidade, o bairro, a chaminé da casa dela
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
 
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de Moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou

O vírus alegre, cartoon da The Spectator

Rir pra não chorar
Fascinante, diria mister Spock. Pensar que cerca de meio Brasil e meio EUA orgulhosamente se deixam embromar pela fabricação mentirosa do discurso político dos presidentes ¡Caveirão.105 mm! [105 mm, caro leitor, é o calibre de uma bala de canhão, ao qual Caveirão — por sinal também aquele carro brindado da polícia com licença para matar nas favelas — acaba de ser promovido pela Ju] e Agente Laranja (apud Spike Lee). Enquanto o primeiro falsifica a ciência e toda a realidade, o segundo se concentra, no momento, em atacar o principal fundamento da democracia, o voto. Rimos, claro, do terraplanismo e das mirabolantes teorias da conspiração, fazer o quê?, chorar é que não vamos, pois nunca choramos pelo mundo, choramos por nós. Tudo isso é mais um ingrediente da distopia que as horas nos reservaram, mas que é dose é. A longo prazo, os historiadores vão escavar as causações e o curso subterrâneo dos acontecimentos, e a longo prazo estaremos todos mortos.

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Neva na Rioja, março de 2015. Foto: Antônio Siúves
Grogotó

Daqui a pouco virão o sol, as uvas e o vinho.
Nem é preciso crer nisso.
Nem é preciso crer na sede e na alegria.
Não é preciso crer.
Exceto se a dúvida te divide.
Aí grogotó: pobre de ti,
Quando precisas crer,
Quando queres crer,
Já não podes,
Não podes descrer.
Poema de Antônio Siúves

JURUPOCA?

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A Ju tem por imperativo a defesa da liberdade de expressão e do jornalismo profissional — contra as notícias fraudulentas, a dependência viciosa das redes sociais e o cárcere do extremismo ideológico.

Cada número da carta se alimenta da leitura de livros, jornais e publicações diversas em três idiomas, movida por um interesse permanente em literatura, artes, história e ciência. A carta é apartidária e repudia o autoritarismo, o obscurantismo e o atraso mental.

Considere contribuir com o trabalho de pesquisa e produção e a permanência da JU.

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Muito obrigado!


O autor?

Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Ju #40

Belo. 25 a 30/09/2020. Nº 40, Ano 2


Opa! Vamos apear?

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.

Minha Ju foi tomar um banho de mar. Submersa ela respira melhor. Não deu para mandar a carta de lá, de Itaúnas, Dunas de Itaúnas. E assim a escapada virou uma semana sabática, para se repensar, e aliás nada concluir além da inelutável modalidade do visível.

Um filhote de baleia e um tatu deram na praia de areia dourada contra as dunas brancas, acossados por lindos urubus. Buliam com as bainhas jobinianas de meus neurônios. Sim, viajei ao Urubu, fabuloso LP de 1976, e a O boto, a canção que abre esse álbum, “um baião praieiro com referências a pássaros, como papagaio, jandaia, inhambu, além do urubu e do jereba que, porque importante”, dizia Tom, “ganhou muitos nomes: peba, urubutinga, urubu-ministro, urubu-de-cabeça-vermelha, urubu-gameleira”. O tatu deu na praia por desorientação, bebeu água salgada e morreu, coitado, nos explicou Pedrolina, dona do mais longevo e melhor restaurante de Dunas. Eu cantarolava na baixa-mar:

“O corpo de um bicho deu na praia
E a alma perdida quer voltar
Caranguejo conversa com arraia
Marcando a viagem pelo ar

Ainda ontem vim de lá do Pilar
Ainda ontem vim de lá do Pilar
Já tô com vontade de ir por aí”

Para quem não sabe, Ainda ontem vim de lá do Pillar, estribilho de O boto, é uma citação de Jararaca, que fez dupla sertaneja com Ratinho, a quem Jobim deu parceria.

Vertigens, vertigens, vertigens… O brilho de cacos dos ontens, os meninos, filhos, a se queimar na vida plena aos nossos olhos cantantes, lá atrás. Mas tal quimera da memória logo se esfuma, como a brancura da espuma que desmancha na areia… (Cantarolo Risque, o samba-canção de Ary Barroso). Brilhavam cacos de livros, que também dão na praia, durante a caminhada até o Riacho Doce, à Bahia logo ali, quase outro mundo.

Multitudinous seas incarnadine o oceano oco e regougo a proa abrindo um sulco a popa um sulco como uma lavra de lazúli…. Redizia, com um horizonte quase azul-marinho, e os pés cheio de doídas bolhas, a prosa poética de Haroldo de Campos num episódio das Galáxias, uma celebração do mar-livro, ele diz, o Haroldo, sobre a menção a Shakespeare (Macbeth, II, cena II), referência ao mar multitudinoso, que de verde se transmuda em vermelho-sangue [Making the green one red], segue o poeta Campos, em sua eleição desse verso, depois de Ezra Pound e Borges. Minha página intergaláctica favorita termina com a palavra grega polüphloisbos, polissonoro, extraída de de Homero (Ilíada, I, 34), ao bater das ondas na praia.

O marsoando também me traz de volta o Stephen Dedalus a meditar na praia, no episódio inicial do Ulisses (J. Joyce).

Rezo em voz alta, com a privacidade assegurada pelo vento, algo daquele trecho (tradução Caetano W. Galindo)… Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano.

Se bem que retenho na reza mais da tradução do Houaiss, por ter vindo antes, pela primazia daquela capa verde-escura do pesado tomo (Victor Civita Editor, licenciado pela Civilização Brasileira) erguido por bíceps magros aos vinte e poucos anos, refestelados na cama de um quarto pobre do Arcangelo Maletta, cá no Belo: Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissémen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verde-muco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano.

Em Dunas, o enorme tronco seco um pequi-vinagreiro exposto na praça é o dúbio monumento da vila. É cercado por uma corda grossa, como um fóssil, diante da igrejinha de São Sebastião, cujas missas ao ar livre (cada fiel com sua cadeira) na pandemia ouvimos de um bar.

Pois o pequi-vinagreiro, ou pequiá, grita contra a devastação da Mata Atlântica, contra o cerco sem-fim dos eucaliptos, contra a demanda inesgotável por polpa de celulose; haja papelão, haja papel higiênico, haja…

Entre um peixe na Dona Pedrolina e outro no Cizinho, passeia-se deliciosamente pela vila de Itaúnas e redondezas. Ouvem-se os sabiás, o vento, ouvem-se as cores, os cajueiros-anões retorcidos na restinga nos fundos da casa fantasmal do Tamandaré, na variante da Trilha do Tamandaré. Seu Tamandaré foi um sitiante da antiga vila, há décadas sepultada pelas gloriosas dunas. Quase nada resta da construção, além das cascas encardidas.

Vozes da vila. Cacos-rebrilhos, matéria e memória do plácido rio quase negro, da pobreza, da gente endinheirada, e não posso me esquecer do delicioso Bar Rio, onde décadas atrás podíamos tomar um nightcap e escutar boa música.

Hoje, a gente bandeirante e a escumalha política forcejam por asfaltar, podar, cimentar, gentrificar. Que tal uma vila boutique? Que tal a gourmetização de Dunas com pousadas assépticas, barracas de praia assépticas de metal, padronizadas, só o sempiterno esgoto a lembrar quem somos? Só o esgoto a correr sob a nacionalidade onde estejamos no Bananão (apud Ivan Lessa).


Depois de se repensar e repensar sua relação com o leitor nas águas sabáticas do mar de Dunas, a Jurupoca embrenha-se em nova picada, a partir deste número. As cartas passam a ser publicadas aqui, no antonio.siuves.com, no blog Livro de Viagem.

A TinyLetter seguirá, por enquanto, como uma newsletter propriamente, um resumo da Ju


Viagem ao redor do meu quarto — Senhor, tende piedade dos que não se dão ao prazer da leitura, dos grandes livros, tende piedade dos meninos novos e velhos cuja atenção foi irremediavelmente perdida para o império das redes sociais… Como pode um livro lançado em 1795 ainda cintilar aos olhos de um leitor, agorinha, à sombra de uma palmeira alvoroçada, e rebrotar uma satisfação quase adolescente com o mundo que só se alcança pelo ato de ler? Como pode um texto de quase 250 anos conservar o “o frescor e a agilidade” (no dizer de Enrique Vila-Matas no posfácio), e muito mais, eu digo, conservar o humor, a ironia, a inteligência e a alegria (e reflexões sobre o problema) de viver? A resposta está disponível no “livrinho” (80 páginas) de Xavier de Maistre, Viagem ao redor do meu quarto, na esplêndida nova tradução da editora 34.

BH-Dunas de Itaúnas — Viajar de carro ao litoral do Espírito Santo é um travelling por nossas misérias, uma espécie de versão adaptada de Bye Bye Brasil. Encostas desmatadas, fumaça, matas esturricadas, cidades decadentes, estradas porcaria, as mineiras principalmente, decadência por toda parte, até nas paradas antes limpas e funcionais do café e do pão com linguiça. E isso não é nada. O viandante, ainda por cima, é obrigado a atravessar Manhuaçu! A incultura, o mau gosto, o atraso, a corrupção, a mais completa ausência do mais rudimentar urbanismo e a suprema desigualdade juntaram forças para erguer esta catástrofe, este manifesto terrificante da feiura. Que o leitor orgulhoso de lá viver ou ter nascido não me deseje mal pela sinceridade, tende piedade de um jurupoco. O campo santo, notei desta vez, é a construção mais razoável do burgo. Lá, onde paira alguma harmonia, olhos certamente esgotados e calejados pela paisagem, pela “skyline”, pela barranqueira, pelo indecifrável aglomerado de prédios de tijolos nus pendurados nos taludes, quem sabe, uns olhos assim estropiados possam descansar em paz, quando entregues aos vermes. Mas duvido.

O edital da Vale — Quando o minério esgotar, a mina S11D, a maior do mundo, na Floresta Nacional de Carajás, PA, deixará um buraco de 9,5 km de extensão por 1,5 km de largura e 300m de profundidade. Minas e Pará orgulhosamente se desfiguram pelas commodities. Minas e Pará que são, como se sabe, a prova viva — no sentido terraplanista de !Caveirão.45! — que a mineração traz avanços sociais, o progresso, a maravilha… “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”, diz Drummond no primeiro Verso de Itabira (Alguma poesia). Era o marco da ruína. Bento Rodrigues, em Mariana, e Brumadinho atualizaram a desgraça em cores épicas — todos os tons da lama tóxica. Sob a influência desses ecos, de paisagens e cidades dilapidadas e esqueletos, a companhia lança um edital milionário destinado a ser “um instrumento de transformação social através da democratização da cultura e da arte”, além de uma nova campanha publicitária da Fundação Renova, em horário nobre, que anuncia uma Shangri-La onde havia Bento Rodrigues e Brumadinho. Quase todos os milhões oferecidos virão da renúncia fiscal da União, via Lei Rouanet. A má consciência da empresa, por tal via, decerto será purgada nas centenas de obras patrocinadas, todas elas inclusivas, todas elas em estrita correção política, todas elas emocionantes brados e alertas e sobre a catástrofe climática e a desmemória em relação ao um “patrimônio” fantasmagórico. Ninguém perde por esperar.

Conquista e privilégio — Num país há séculos tão desigual, o privilégio de classe, de acesso à boa educação e saúde, por óbvio distingue as oportunidades já ao nascer. E, entre os miseráveis e pobres, apenas a sorte e o heroísmo farão a diferença, em improváveis chances lotéricas. Isso é uma coisa. Outra coisa é o sentido importado que converte qualquer conquista em sinal de “privilégio”.  Em seu texto mais recente no El País, Javier Marías enfrentar o populismo “oportunista e rasteiro” de nossa época, o das cruzadas contra o “privilégio”, e pior, o sabujismo de quem se reconhece privilegiado e se autoflagela como intelectual e escritor. “Entre os que escrevem — escrevemos — na imprensa, cada vez são menos os que resistem às correntes de moda” — nota Marías, e isso vale para o Brasil — “o que equivale dizer à gritaria, anônima com enorme frequência, das redes sociais. Pessoas a que se pagam para pensar por si mesmas — se supõe — renunciam a isso a toda velocidade para se arrojar a cada nova maré”.

O dilema da rede — O documentário O dilema das redes_ (Netflix) é chocante por dar voz a alguns dos responsáveis pelo desenho e inigualável prosperidade das redes sociais e do Google, todas as Big Tech. Os depoimentos e análises que ouvimos, com riqueza de imagens e metáforas claras para leigos sobre algoritmos e Big Data, são todos de executivos do primeiro time, corroborados por pesquisadores renomados como Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Universidade Stanford. O leitor desta carta — isso me daria grande alegria — haverá de lembrar que o tema é preferencial nesta Ju. Mas até um gato escaldado dará saltos apavorados na hora e meia de duração de The social dilemma_.  Patrícia Campos Mello fez uma boa crítica na Folha, texto mal titulado, como praxe, por sinal. Mais profunda é a análise de Eugenio Bucci no Estadão. O professor de Comunicação da USP prefere chamar o trabalho do diretor norte-americano Jeff Orlowsk de “semidocumentário”. Desaprova a dramatização catastrofista, a que atribui  uma tentativa de atrair adolescentes, “que não suportam 30 segundos de abstração”. Fora isso, Bucci só falta dizer que é obrigatório, e é, para pais e filhos e para os meninos e meninas que hoje adolescem até os 45. “Quem ainda tinha dúvidas sai da sessão convencido de que temos um problema: uma rede de silício aprisiona aquilo que um dia pensamos em chamar de civilização”, comenta Bucci. “São ex-CEOs, ex-vice-presidentes, ex-diretores de monetização e ex-designers abrindo o jogo. Não se trata de resmungos de quem não ganhou dinheiro. São insiders, e são vários.” Eis o ponto. Bucci também observa que o documentário de Orlowsk escancara outro dilema, além da produção em série de zumbis manipulados pela inteligência artificial. A democracia, por mais que os mais otimistas tentem dourar a pílula, está sendo desafiada em toda parte. A guerra entre a razão e o populismo, para o qual os fatos não importam, apenas “narrativas” pautadas por “parâmetros de algoritmos” (expressão de Bucci), parece estar sendo vencida pelo segundo.

As cordas da introdução e do final, guiadas pelo incansável spalla Giancarlo Pareshi, são como o fundo translúcido do palco onde a sessão vai começar. Bijuterias (João Bosco e Aldir Blanc), faixa B4 do LP Tiro de misericórdia, da RCA Victor, de 1977, e tema de abertura da novela O astro, de Janete Clair, exibida naquele ano, é outro fruto da semeadura Bosco & Blanc. Semeadura porque suas canções brotaram no imaginário e rodam em memórias singulares num país onde a MPB era — desgraçadamente não é mais, mas ainda faz falta — essencial para uma cultura deseducada.

Bijuterias baixou tão bem no espírito da trama, com Francisco Cuoco como o astro picareta Herculano Quintanilha, que certamente contribuiu para o sucesso da novela. A música seduzia e prendia a audiência, criando o clima para a teledramaturgia.

As tretas de Quintanilha são como prenunciadas na letra de Bijuterias, a lembrar os horóscopo que eram leitura garantida nos jornais, no caso o enquadramento celestial de um virginiano. Astrólogos, como o mineiro Professor Sagitário, com quem lidei no Diário de Minas, eram capazes de prever nossa necessidade limpar o fogão, cortar as unhas dos pés e, mais ainda, “ir urgente ao dentista”.

… as manias/ transparentes/ como bijuterias/ na Sloper da alma… Que achado! Sloper é metonímia de loja, via o magazine frequentado nos anos 1950 pela sociedade carioca, com sua sede art déco na rua Uruguaiana. Bijuterias, joias falsas que são, enganam por seu brilho nas vitrines, como se vendem certos trejeitos d’alma que afloram com a idade. E o que dizer de se revelar a quem amamos “um sopro e uma ilusão” no coração?

Arranjada por Darcy de Paula, a música tem entre seus instrumentistas Toninho Horta na guitarra e Pascoal Meirelles na bateria. A contribuição de ambos é facilmente percebida numa escuta mais atenta.

Bijuterias - João Bosco & Aldir Blanc

Em setembro,
se Vênus ajudar,
virá alguém.
Eu sou de Virgem
e só de imaginar
me dá vertigem...

Minha pedra é a ametista,
minha cor, o amarelo,
mas sou sincero:
necessito ir urgente ao dentista.

Tenho alma de artista
e tremores nas mãos.
Ao meu bem mostrarei
no coração
um sopro e uma ilusão.Eu sei:

na idade em que estou
aparecem os tiques, as manias,
transparentes, transparentes feito bijuterias
pelas vitrines
da Sloper da alma

Samba doce — Quem observa Jorge Helder no palco, ou ouve seu baixo emprestado a gravações, às centenas, de estrelas da MPB, ou o vê chorar no DVD-documentário Desconstrução, que acompanha o CD Carioca (Biscoito Fino, 2006), de Chico Buarque, depois de saber que acabara de se tornar parceiro de Chico, em Bolero blues, nem precisa conhecê-lo de perto. Sabe logo que é uma ótima pessoa, a par de grande músico. Chico o trata de são Jorge, Caetano Veloso de doce Jorge. Bom, tudo isso é intuição. Mas eis que ouço o primeiro álbum autoral do baixista, Samba doce (Sesc Digital), e me rendo de vez à simpática figura. Parte instrumental, parte vocal, é mais um grande disco a sair neste pandêmico 2020. “Tom Jobim dizia que usava muito mais a borracha do que o lápis para fazer música”, diz Helder ao Estadão. “Quis juntar meus amigos, mas com o cuidado de escolher quem se encaixava melhor em cada canção, qual formação contribuía melhor para o resultado. Isso que deu a energia, a alegria”. Percebe-se esse cuidado, e o apuro nos convites, já na primeira faixa, que nomeia o álbum. Dori Caymmi, Rosa Passos, Chico Buarque (em outra versão, mais arredondada, de Bolero blues, com um show de João Rebouças no piano) e Renato Braz dão as caras, isto é, as vozes, nas composições letradas, e o time de músico é daqueles que dá vontade de ouvir no estúdio, sentado à mesa de edição. “De toda a cultura musical que se desenvolveu no pós-Beco-das-Garrafas, o samba-jazz virtuoso e inventivo, Jorge Helder é a expressão mais fiel”, escreve Caetano no texto de apresentação — “e, ao mesmo tempo, a mais pessoal e menos redutível ao padrão. Começa que Jorge é uma das melhores pessoas que conheci entre os músicos que há, sendo também um dos melhores músicos que há entre as pessoas”. Veloso também diz sobre o disco: “Encontram-se a doçura e a mordacidade harmônica: aquela nunca é sufocada por esta”. Para entender a imagem caetânica, ouça Bolero blues ou Rubato, outra parceria com Chico.

A conspiração dos imbecis¡Caveirão.45! nos fez passar vergonha na ONU, mais uma vez, com sua algaravia em que a teoria da conspiração não se distingue da cretinice mais fajuta. Uma coisa é certa. Sem as redes sociais, as ideias tortas e o negacionismo terraplanista não teriam o relevo letal que adquiriram em nosso mundo. No El Cultural, o escritor J.J. Armas, citando John Kennedy Toole, se refere à “conspiração dos imbecis, a quem as redes sociais (e esta parece ser uma atribuição concedida a Umberto Eco) deram a oportunidade de ‘valorar’ suas vozes vazias”. Um país e boa parte do mundo se põem à mercê de “legiões medíocres”, capazes de dedicar seu tempo e suas vidas a estupidificar a realidade.


JURUPOCA?

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80"><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/sobre/&quot; target="_blank"><strong>Antônio Siúves</strong> </a>(maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu <a rel="noreferrer noopener" href="https://www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-siuves/moral-das-horas/570242892?q=moral+das+horas&quot; target="_blank"><strong><em>Moral das horas</em></strong></a><strong><em>, </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://antoniosiuves.com/21-poemas/&quot; target="_blank"><strong><em>21 poemas</em></strong></a><strong><em> e </em></strong><a rel="noreferrer noopener" href="https://www.amazon.com.br/TURISMO-CULTURAL-LITER%C3%81RIO-EUROPA-Propostas-ebook/dp/B082RBGXDB/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&keywords=turismo+cultural+e+liter%C3%A1rio+na+europa&qid=1586348439&sr=8-1&quot; target="_blank"><strong><em>Turismo cultural e literário na Europa.</em></strong></a>Antônio Siúves (maternidade Odete Valadares, 1961) é de virgem, coitado, e só de imaginar lhe dá vertigem. Vive no Belo e gosta de andar a pé; jornalista há 34 anos, escreveu Moral das horas, 21 poemas e Turismo cultural e literário na Europa.

Jurupoca #08


Número 8 — outubro, 11, 2019


Rio cinza 1 – 2017. Foto: A. Siúves


Opa. Vamos apear?

Espero que esteja tudo bem com você, caro amigo. Me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita, mas como agora apareceu um portador, mando notícias nesta carta. Eis o que me pus a cismar no último quindênio, meus “rendimentos de intra-imo” (Joyce via Houaiss) mais intrínsecos só para você.


Apois. Descobri que tenho algo em comum com Allan Stewart Königsberg: o gosto pelos dias nublados.

Woody Allen esteve em San Sebastián, no País Basco, a rodar mais um filme, com o título provisório de Rifkin’s Festival, e falou disso.

Eis o homem que é uma “controvérsia andante”, na expressão do El País. A produtora Amazon vetou a distribuição da comédia romântica Dias de chuva em Nova York nos EUA, pressionada pelo movimento #MeToo.

Mas o filme estreia nesta sexta-feira (11) na Europa. Aos 84 anos, o diretor é um pária, um morto-vivo em seu país. Sua obra monumental também foi parar no fundo da lata do lixo do ostracismo.

Não vou render o assunto. Acredito que uma obra que nos define, pois define a cultura cinematográfica há mais de meio século, não pode ser apagada da história, à la mano estalinista.  

Pois na ótima conversa com o editor de cultura Borja Hermoso, Allen diz algo sobre luz e sombras que delimita nosso “estar no mundo” [a tradução do El País Brasil tem uns lapsos]:

“Por qué adora los días de lluvia? ¿Por qué mejor los cielos plomizos que el sol?

Porque la luz es más bonita. Y porque creo que en esos días las personas piensan más desde su interior, desde su alma. La mía es un poco triste… y si abro la ventana por la mañana y hace sol, me resulta desagradable. En cambio, encuentro que las ciudades son hermosas bajo la lluvia. París, Londres, Nueva York, San Sebastián son muy bonitas…, pero si llueve son mágicas. En San Sebastián, por ejemplo, el clima es una bendición, el verano parece primavera. Y llueve. En mis películas lo importante sucede casi siempre cuando llueve. Pero quienes invierten en ellas se quejan de que es caro rodar con lluvia. Sobre todo porque, cuando quiero rodar con lluvia, casi nunca llueve y tenemos que fabricarla y usar cisternas. Yo a veces llamo a Dios para que haga algo, pero nada, ni una nube.”

Meus dias favoritos também são cinzentos, friorentos e chuvosos, ainda que dispense as invernadas e o vento feroz, típicos de Copenhague ou Cambará do Sul, digamos.

Mas é bom poder andar pelas ruas molhadas, a pé ou de carro, e curtir o reflexo das luzes de mercúrio nas paralelas inscritas pelos pneus, como canta o Belchior.

Que tal ouvir Paralelas na versão bonita versão dessa música, do disco com Gilvan de Oliveira, de 1999?

O Belo se transforma em outra cidade em dias assim, um burgo mais suportável. As tintas de chumbo do céu aplacam a luz ríspida do período quente, comumente de setembro a maio, iludindo a feiura das vias e construções.

Num dia desses me veio este A chuva é cult, aí no Quadrado ao pé da carta, que passa a constar como seção desta Jurupoca.

ambém gosto do Rio mais do que nunca nos meses de maio, junho e julho, quando a cidade costuma estar encoberta e a temperatura civiliza-se, como nos dias em que tomei, desde o Forte de Copacabana, duas das fotos que ilustram esta edição.

Walter Salles captou isso encantadoramente já na abertura da coprodução francesa Chico Ou o País da delicadeza perdida, de 1989, como um delicioso poema visual.

Bom, Allen falou e disse. Traduzindo: “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. […] e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva.”

What do you mean? – Oviedo, Espanha, 2015 – Foto: Rachel Botelho

Dias cinzentos são comuns no País Basco, onde Allen filmou, depois de rodar Vicky Cristina Barcelona na Catalunha e em Oviedo, a capital das Astúrias que lhe rendeu, em gratidão, a estátua acima.

O aguaceiro é uma característica da vida de Bilbao ou San Sebastián. Me sinto muito bem naquelas bandas. Em um passeio por povoados ao norte de Bilbao, há poucos anos, procurei casar essa sensação de bem-estar com meu apreço às aves marinhas mais comuns em quase todo o planeta.

Este fragmento é de uma das crônicas de viagem à Espanha, capítulo do livro que venho prometendo nesta Jurupoca — e que logo há de sair:

“De Bakio tocamos para Bermeo, a uns cinco quilômetros à frente. Ao descer do carro me dão boas-vindas adoráveis gaivotas, a fazer sua ronda no porto. Tenho vontade de propor um brinde de Txakoli a essas aves ousadas e referentes, que parecem filhas, senão frutos do mar. Penso que um dia frio e chuvoso de outono como este lhes é tão alegre e agradável quanto benéfico ao autor deste mal-batucado relato de viagem.”

Consta que Ary Barroso compôs Aquarela do Brasil, samba que emplacou 80 anos em agosto, em uma noite de toró no Rio. Impedido de sair de casa, o compositor foi sentar-se ao piano para saudar um país ensolarado, lindo e trigueiro.

Nos últimos dias fiz o oposto de Ary. Me tranquei em casa para fugir do sol e do calor e me refugiei no País Basco, por meio das 512 páginas de Pátria, o magnífico romance de Fernando Aramburu que a Intrínseca acaba de lançar no Brasil. A obra vendeu mais de um milhão de cópias e é adaptada pela HBO.

Chuva nunca falta na retratada vila euskaldun — onde se fala apenas a língua basca, o euskera — não nomeada mas manjada, nos aforas de San Sebastián (Donostia).

A intempérie é comum na rotina das duas famílias, bons vizinhos de compadrio e tudo mais até a cisão causada pela perseguição e violência do ETA (Euskadi Ta Askatasuna — basco para Pátria Basca e Liberdade).

Chove na vila quando é cometido o crime de sangue, episódio que proporciona medianas às triangulações tecidas na narrativa.

Pelas artes da memória, inspiradas também nas reminiscências do autor, revisitamos os tempos sombrios em Euskal Herria, e a luz que eles roubaram de país, mães, filhos e amigos.

Um percurso longo que vai dos dias mais tempestuosos a um período recente [houve, em 2018, o adeus às armas da organização, depois de 50 anos de terror. Os fatos são narrados no ótimo documentário El fin de ETA, disponível na Netflix, e neste vídeo.]

Todos se conhecem e se dão a qualquer hora na vila. Na lida entre a horta, o açougue, a padaria, o bar e a igreja, um empresário extorquido que se recusa a contribuir mais uma vez com o bando tem a marca da peste pichada nos muros, e vai achar porcarias na caixa de correio.

O que era amigo-irmão ainda ontem, parceiro de tragos e partidas de mus na taberna e voltas de bicicleta aos domingos, beneficiário da gratidão por tantos favores, hoje é um traidor, de quem o medo e a covardia exigem distância: 

“Saiu de casa bem cedo com seu traje de ciclista e a bicicleta, e não pôde acreditar nos próprios olhos. Txato isso, Txato aquilo. Herriak ez du barkatuko. Nesse nível. E, quando chegou à praça e se incorporou ao grupo de cicloturistas, notou, o quê?, notou alguma coisa, certa aspereza nos cumprimentos. E olhares que evitavam os seus. E sentiu falta das gozações das outras vezes, mas também ele poderia estar mais suscetível e fosse vítima das próprias fantasias e receios.”

O ódio cristalizado no dogma (que sempre “lacrou”) entusiasma adolescentes que só podem contar com a própria força e seus superávits hormonais.

As vias da educação e do amor não estão disponíveis no momento, e há sucedâneos gloriosos para o sexo. O racismo é patente no ambiente abertzale, do esquerdismo partidário da “pátria” independente.

Chefões embuçados sob o signo do machado e da serpente (força e inteligência política, bietan jarrai em basco) atiçam a energia e as carências de seus potenciais soldados, gudaris.

Seduzem pretensos heróis, que depois são treinados na cartilha que autoriza a matar e, claro, eventualmente morrer pela causa. Gora ETA.

Em gangues rivais, esses jovens buscam aceitação e reconhecimento dos comandantes, e para isso disputam seu campeonato particular de quem faz mais estrago:

“Vem logo, Koldo, Koldito, correndo se for o caso, mas não me falhe. Por que tanta pressa? Porque não queriam que os jarraitxus de Rentería passassem na frente deles. Já tinham sido mais espertos uma vez e ficaram com a glória. Como? Botaram fogo em uma van novinha de mais de vinte milhões de pesetas, uma Mercedes, e isso sim afeta os cofres municipais. Enquanto eles tiveram que se contentar com um Pegaso velho e ferrado, que ainda por cima queima muito pior e não custa nem a metade. Até livraram a prefeitura dos gastos que teria com um ferro-velho.”

Aramburu é um ‎donostiarra, natural de San Sebastián, que vive na Alemanha, onde trabalha como professor de espanhol, desde 1985.

Seu distanciamento me parece ser um ponto essencial dessa obra. Se não deixou minas terrestres em sua guerra contra o “Estado” (seus membros evitam a denominação Espanha), o ETA intoxicou o País Basco e a própria Espanha com profunda degradação moral.

Nada mais apropriado que a literatura para penetrar em campo tão aviltado. 

Há, já mais para o final do livro, uma reunião pública organizada pelo Coletivo das Vítimas do Terror, a que o médico Xabier, que teve o pai assassinado e se tonara um alcoólatra, atende depois de muito relutar.

Com a coragem de dois copos de conhaque, ele finalmente entra no auditório, onde palestra um escritor que não é identificado, o que não é necessário. O disfarce não chega a ser ardiloso, como diz o narrador de um conto de Salinger.

O homem está falando: “— Também escrevi contra o crime cometido com alguma desculpa política, em nome de uma pátria onde um punhado de gente armada, com o vergonhoso apoio de um setor da sociedade, decide quem pertence a essa pátria e quem deve abandoná-la ou desaparecer”, discorre.

“Escrevi sem ódio contra a linguagem do ódio e contra a desmemória e o esquecimento tramado pelos que tentam forjar uma história a serviço do seu projeto e suas convicções totalitárias”. 

Escrever sem ódio contra a linguagem do ódio é justamente a principal chave do romance.

O discurso indireto livre, técnica idealmente necessária aqui, me parece, é empregado com grande habilidade, não sem algum “esteticismo”, o estilismo que ocorre, na definição de James Wood, quando o autor se intromete na narrativa.

“Graças ao estilo indireto livre, vemos coisas através dos olhos e da linguagem do personagem, mas também através dos olhos e da linguagem do autor”, explica Wood em Como funciona a ficção (Sesi-SP editora, 2017).

“Habitamos, simultaneamente, a onisciência e a parcialidade. Abre-se uma lacuna entre autor e personagem e a ponte entre eles — que é o próprio estilo indireto livre — fecha essa lacuna, ao mesmo tempo que chama atenção para a distância”, agrega.

Em uma passagem de Pátria especialmente feliz, já em um tempo adiantado, dois irmãos, vítimas do ETA, caminham no Paseo Nuevo de San Sebastián.

Atrás deles está a escultura de Jorge Oteiza Construcción vacía [em aço corten, premiada na Bienal de São Paulo de 1957 e que nos remete a Amílcar de Castro]. O que essa obra tem a “dizer” é o mais significativo no encontro entre os dois:

“O sol, já se retirando, desenhava uma faixa de cintilações que se moviam na superfície marinha. Barcos? Nenhum. Uma lancha voltando, próxima à entrada da baía, e mais nada. Xabier e Nerea se debruçaram no parapeito. Ele cobria a incipiente calvície com um gorro escocês; ela, que até alguns anos antes usava boinas de lã, estava com o cabelo descoberto. Atrás de onde estavam se enferrujava, entediada, esperando a próxima tempestade, a escultura de Oteiza. A poucos passos dos dois irmãos, um pescador olhava fixamente o vaivém de boia nas águas ondulantes.”

O nacionalismo revolucionário, eivado de marxismo-leninismo, avalizou o assassinato de 867 pessoas, conforme o número da defensoria pública basca de atenção às vítimas.

Registre-se que militantes do ETA sofreram a brutalidade da polícia, em graves desvios do Estado democrático de direito.

A violência e a desrazão até hoje desagregam, separam amigos, amantes, definem histórias de vida e impõem zonas cinzentas aqui e ali.

Tudo enredado no absurdo. Cada página de Aramburu revive essas circunstâncias com a necessária sutileza e mesmo com delicadeza. Se assim não fosse, como um ficcionista poderia tentar repor a crença na humanidade?

É apenas por ocasião da publicação do romance na Espanha, em 2016, que o céu começa a desanuviar-se.

O perdão (barkatu – em basco ao mesmo tempo perdoar, perdoa, perdoe) e a reconciliação, com o fim das mortes e o julgamento dos assassinos, podem trazer de volta, para quem sobreviveu, a velha ordem de um dia após o outro, ainda que, para alguns, o sol volte a brilhar tarde demais.

A ficção amalgama o horror e a amargura que perduraram por décadas de  ódio, fúria e desgraça, tudo, no final das contas, como é corrente na história, para nada. 


Rio cinza 02 – 2017 – Foto: Antônio Siúves


“Our Boys”

Nas áreas fronteiriças entre Israel e Palestina, divergências inimaginavelmente antigas andam bem longe da paz.

Não há esperança de conciliação depois que o fel do nacionalismo e do ódio racial e religioso conseguiu amargar até as pedras do deserto.

O seriado Our Boys, em cartaz na HBO, traz uma noção clara e multifacetada dessa realidade.

Bibi Netanyahu, o primeiro-ministro, tachou de “antissemita” a produção da rede Kashet, escrita por três roteiristas israelenses, dois judeus e um árabe — a opiniãoquivale a uma espécie de atestado de idoneidade antipopulista e antinacionalista.

Embora parta da comoção causada no país pela morte bárbara de três jovens judeus, Naftali Frankel, Gilad Sha’er e Eyal Yifrach, por membros do Hamas, em julho de 2014, a série, não se ousadia, se detém no ato de vingança atribuído a esse episódio.

Duas semanas depois daqueles eventos, o menino Abu Khdeir, de 16 anos, é sequestrado perto de casa, em Jerusalém Oriental, e logo cruelmente assassinado.

Our Boys acompanha o trabalho de investigação da Shabak, a agência israelense de segurança interna, e o indiciamento e julgamento dos três acusados pelo crime, dois deles menores de idade.

As ações policiais permitem que o roteiro, por um lado, focalize a via-crúcis dos pais de Khdeir, emparedados entre a dor e a pressão de líderes do Hamas que o requerem como mártir da facção.

Por outro, nos aproximamos da pregação religiosa e da doutrinação dos jovens nas Yeshivás, instituições judias dedicadas ao estudo do Talmud e da Torá.

Nesse universo, onde vivem as famílias das vítimas do atentado do Hamas e dos assassinos de Khdeir, alimenta-se o velho estranhamento entre judeus asquenazes, de ascendência urbana e cosmopolita, e colonos sefarditas ultraortodoxos.

O diálogo entre os algozes, na noite em que saem de carro para caçar sua vítima, expõe as raízes do mal de maneira a um tempo sutil e explosiva.

Vemos que a Bíblia judaica é pau para toda obra. Tanto ensina que a lei proíbe matar o inocente quanto pode sugerir uma interpretação oposta, a justificar a vingança.

Os efeitos da retórica de milhares de horas de doutrinação decoreba sobre a pureza da fé em um deus contra a animalidade da crença alheia são devastadores nas cabeças mais vulneráveis.

Ao ver andar na rua uma grávida árabe-israelense, um dos rapazes, ao defender que ela serviria ao propósito do grupo, comenta: “Olha, vai assando um terroristazinho”.

O comparsa cita com autoridade certa sabedoria rabínica: “Mate-o enquanto é tempo!” A sequência é de uma brutalidade vomitória. As explosões e cenas de tortura de matriz hollywoodiana não passam de terror infantil perto disso.

“A série é incomumente corajosa ao deixar persistir a incomodidade moral, e consegue comover sem oferecer falsas esperanças, uma raridade inclusive em dramas mais bem feitos, escreveu Emily Nussbaum na The New Yorker.

Depois de assistir a uma porção de séries medíocres, a exemplo de Fauda, na Netflix, Our boys realmente é uma boa surpresa na teledramaturgia israelense.

“Reconheço que a série tem profunda verossimilhança, desde as cozinhas estreitas de Jerusalém até os quintais dos assentamentos e as ruas iluminadas pelas luzes do Ramadã por onde caminham as famílias  muçulmanas”, diz Nussbaum.

O enfoque distanciado da narrativa, conduzido com serenidade, e que procura adentrar o submundo do fanatismo, extrapola o que há de mais específico no enredo para, quem sabe, sugerir alguma disciplina racional em um mundo ameaçado pela polarização, inclusive a nosso triste mundinho brasileiro.


O irlandês vem aí

Al Pacino, Joe Pasci e Robert De Niro estrelam o novo Scorsese IrishmanO Irlandês, com três horas e meia de duração.

Passou no New York Film Festival, antes de entrar no circuito americano, para chegar à Netflix, salve, salve, já em novembro — a operadora busca o mesmo sucesso de Roma.


 Lida tradutória

O leitor brasileiro tem uma baita dívida de gratidão com Paulo César de Souza, grande e fino escritor que emprestou suas artes à lida tradutória. Nos últimos tempos ele se concentrou nas obras completas de Freud e Nietzsche, editadas pela Companhia das Letras, projetos que agora está por concluir.

A Folha lhe dedicou um bom perfil, ainda que um pouco preguiçoso na recolha de depoimentos sobre o personagem, inclusive aqueles que poderiam apor restrições ao trabalho de Paulo César, mas isso é o usual no jornalismo brasileiro.  



Drummond inédito

O livro Correspondência: Carlos Drummond de Andrade e Ribeiro Couto, lançado este mês pela Unesp e organizado por Marcelo Bortoloti, traz 68 cartas trocadas entre os dois escritores desde os anos 1920, e, como especial achado, três poemas inéditos de Drummond. Eis um deles, divulgado pela Folha:


Religião

Bichinho quer ir s’embora da sala
pra dormir no sol do dia bonito.
Mas a porta da sala está fechada
e ele não pode abrir a porta.
Bichinho planta-se de cócoras muito solene
diante da porta e põe-se a adorá-la.
Põe-se a adorá-la para que ela se compadeça.  

Oh, Greta

É sintomático, creio, que a líder pela salvação do mundo seja uma menina de 16 anos, a sueca Greta Thunberg.

Leio que que ela levou os pais a deixar a carne, depois os converteu à dieta vegana e, ainda aos 13 anos, os fez abolir as viagens aéreas, o que limitou a carreira internacional de sua mãe, a famosa mezzo-soprano Malena Ernman.

Diga-se que a Suécia é ponta de lança do movimento mundial que incentiva as pessoas a trocarem o avião por meios de transporte de baixa emissão de gases-estufa.

A expressão “flygskam”, algo como “vergonha de voar”, define tal anseio. (Na Europa, vou de trem sempre que possa).

“Me sinto muito bem em ser ouvida”, disse Greta ao New York Times. Seus pais foram na maré da celebridade e lançaram este ano um livro sobre suas decisões sob a influência da petiz.

“O movimento ambientalista escolheu dirigir-se ao mundo pela voz de Greta, numa tática que busca circundar um debate complexo entre adultos. ‘Como vocês ousam?’, exclamou a jovem na ONU, quando a pergunta certa é: ‘Quem ousará contestar as palavras emanadas de uma adolescente pura que clama apenas pelo belo e pelo justo?’”, escreveu Demétrio Magnoli. “A fuga da política, contudo, convida a política a ressurgir, pela porta do populismo”, opinou.

A pequena Greta, que fez careta para Trump na ONU, faz muito bem a parte dela, ao tornar-se a heroica escultura viva de um mundo juvenilizado.

Merece a admiração que desfruta, e me simpatizo com ela. Mas é raro encontrar em colunas e editorais uma perspectiva mais larga, filtrada pela leitura extensiva, à luz da histórica.

É como se a pequenez do alcance mental e moral da política contaminasse tudo. Predomina o imediatismo da fofoca e a opinião estéril, a informação suspeita obtidas das “fontes” de cada um.

Greta condena os “traidores dos seus sonhos” e emociona multidões que se informam e formam certezas pelas redes sociais, como parece ser o caso exemplar de certo presidente da República.

As redes, para quem nelas vive imerso, são uma espécie de túnel sem fim, onde em cada página rola o presente eterno dos desconectados da história.

Parece que a mensagem jamais poderá mesmo se impor ao meio, para a glória de McLuhan, amém.

A mocinha exige um veganismo geral e irrestrito, e emissões zero de carbono, já!. Isso distrai a má consciência do ambientalismo de moda.

Quem dera fosse uma questão de banhar o planeta com o pó de pirlimpimpim da Greta-Emília.

“A tendência de aquecimento global inscreve-se tanto no ciclo natural do interglacial em curso, iniciado 15 mil anos atrás, quanto na emergência da economia industrial, em meados do século 19”, contextualiza Magnoli.

“O consenso científico diz que a contribuição humana é decisiva. As mesmas tecnologias e modos de produzir que alçaram a maior parte da humanidade acima do patamar da fome crônica provocaram a elevação das emissões de gases de estufa.” O colunista acrescenta:


 A ECO-92, o Protocolo de Kyoto e o Acordo de Paris são mais que “palavras vazias”. O discurso de Greta flutua acima da história, ignorando os intercâmbios econômicos envolvidos na equação do desenvolvimento sustentável, e paira além da política, colocando no saco genérico de “traidores” os governos engajados em custosos programas de transição energética e os líderes que, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, se escondem nas profundezas do obscurantismo. […]  


Ao acaso, lendo Paulo Roberto Pires na Quatro cinco um, sobre Simone Weil, me ocorreu que a filósofa francesa também foi uma menina prodígio, e meio tiranazinha.

Era obcecada com a fome no mundo e não dava tréguas a quem visse pela frente com seu trololó. Ainda inspiradora, sua obra se tornou um marco do humanismo no século 20.

Alguém poderia sugerir sua leitura a Greta, como passatempo em suas viagens, nunca de avião, entre uma e outra aparição pública.    


Atenção, patetas, é fantasia! 

Houve uma época em que obras com a dimensão das de Fellini, Bergman, Visconti, Woody Allen, Glauber, sei lá, galvanizavam a reflexão, a crítica, as ideias sobre a beleza e o sentido de viver.

Hoje são os heróis da Marvel que falam à imaginação das gentes, entre uma e outra maratonada na Netflix.

Ou um filme como o novo Coringa (Joker), da DC_Comics, cujos produtores se viram obrigados a alertar o público, supostamente de crianças e adolescentes mimadas e cabeças-de-vento, que não se enganem, ao que acabaram de assistir é mesmo ficção, ouviram?

É o corrente. Há muitos anos notei a tendência, ao ver o longa-metragem de 2012 Os Três Patetas, em Portugal Os Três Estarolas, com um aviso no final para que não se repetisse em casa as marteladas na cabeça, dedos nos olhos etc., e os créditos revelavam o segredo daqueles truques.

Moe, Larry & Curly divertiram minha geração a ponto de fazer doer nossos peritônios. Não me recordo de nenhum incidente com aquelas gags, na vida real. Mas não.

O tempora, o mores!  (oh, tempos, oh, costumes), bradava Cícero nas Catilinárias. O jornalista e escritor espanhol Manuel Jabois fez um ótimo comentário a respeito.



Amélia, a IA de verdade

Fale com a Bia (acrônimo de Bradesco Inteligência Artificial). Parece que o futuro vem aí com as assistentes virtuais.

Tem a Joice da Oi, a Aura da Vivo, a Lu do Magazine Luiza e, vejam só, a Amélia da Shell. “Esses nomes femininos viraram a forma de ‘humanizar’ a interface automatizada de marcas”, diz esta reportagem de Lílian Cunha.

Humildemente, tenho cá a Marina, do supermercado da esquina, que me escreve e-mails diários com ofertas imperdíveis.

E uma voz feminina me liga na antevéspera para confirmar minha consultas num hospital do Belo; confirmo, e no dia seguinte recebo um SMS automático para testar minha convicção.

Dois dias depois, um robô solicita minha opinião sobre a qualidade do serviço prestado. Noto que os assistentes são sempre fêmeos. Não haveria sexismo em reproduzir no mundo da IA certos estereótipos?

Ou, quem sabe, pelo contrário, o espalhamento de assistentes e secretárias nos algoritmos agora seja o sal da terra, uma libertação de tarefas consideradas subalternas?

Nesse caso, os jornalistas estariam solidários com essas e outras tantas categorias profissionais.

O advento da IA é saudado como mais um passo do imparável progresso humano. As empresas começam a usar e vender aos seus clientes a novidade como mais uma vantagem tecnológica, benefício de valor agregado perante a concorrência.

O fato de estarem cortando postos de trabalhos aos borbotões, inclusive de jornalistas, pois os robôs já reportam nos esportes, na economia e na previsão do tempo, não diz muita coisa à opinião pública.

Quando os bons serviços da Bia são proclamados nos intervalos comerciais do Jornal Nacional, os criativos da publicidade parecem convictos de agradar no atacado com suas, como gostam de dizer, epifanias, ao concederam tais miçangas e espelhinhos hi-tecs à bugrada. Como já disse aqui, acho burra a inteligência artificial.

A propósito, deu no Valor:


 Mais da metade dos empregos formais e informais no Brasil (58,1%) pode ser substituída por máquinas nos próximos dez a 20 anos, o equivalente a 52,1 milhões de postos de trabalho. É o que mostra um estudo da consultoria IDados, obtido pelo Valor, que cruza a base de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua do IBGE com um estudo da Universidade de Oxford que separa as ocupações em faixas de risco de automação.

Um exemplo bem-acabado dessas profissões ameaçadas é a condução de automóveis, táxis e caminhonetes (98% de probabilidade de automação), tarefa que tende a ser substituída por carros autônomos, como os famosos veículos da Waymo, a divisão de automóveis sem motorista do Google. Também estão na lista os cobradores, entrevistadores de pesquisa de mercado, balconistas de serviços de alimentação e garçons, por exemplo.


  É isso aí. Bom fim de semana e até a próxima.


QUADRADO AO PÉ DA CARTA

JURUPOCA, O AUTOR
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