A rádio JS toca uma canção contra o ódio

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Henri Matisse: “Dança” (1909), MoMa, Nova York

É quase sempre divertido fazer este jornal.

O JS é fruto de uma dedicação ao jornalismo, à liberdade crítica e à escritura. Pode chamar isso de amor, meu bem, numa boa.

A liberdade de opinião e o respeito aos fatos é um exercício contra o ódio.

Ênfase retórica não é ódio, é apego à clareza.

Mas, o que dizer de quem se imagina uma ilha cercada de ódio por todos os lados?

  1. Que é um ser em estado permanente de amor à humanidade;
  2. Que deixou se entregar ele próprio à aversão ao adversário ideológico, fonte de sua infelicidade que, no dizer de Freud, quer destruir.

O ódio revela-se, além das vias de fato, sempre que se tenta anular um oponente, com expedientes vários que incluem, basicamente:

— Nunca contestá-lo, mas condená-lo como criminoso ou ao inferno da ilegitimidade — o processo legal que vá para o diabo e basta que uma acusação ou diatribe rode na internet;

— Nunca contestar suas ideias e conceitos com contra-argumentos, antes esgrimir com slogans (“é golpe!”) e xingá-lo; acima de tudo, cultivar slogans e xingamentos como sucedâneo da réplica ou da conversa civilizada.

O debate impõe, como fundamento, o exame e a aceitação dos fatos e a honestidade intelectual.

As redes sociais, como  todo mundo sabe, não se prestam ao debate, mas servem muito bem a todo tipo de vaidade, campanha e proselitismo.

Entre amigos fiéis impera no Feis, por exemplo, uma permanente confraternização. Indignados e ressentidos se dão ávidos ao convescote de afagos e clicadas. A festa muitas vezes descamba em orgia multitudinária.

Para amigos infiéis sobram no Feis a eterna vigilância (muito cuidado com seu clique!), a indiferença fingida e o cordão de isolamento sanitário-ideológico.

É mais fácil ser popular quando sua turma se vê do lado da massa, do bem, do belo e da paz na terra, e nunca duvida de si mesma. Como é mais fácil ser popular com literatura barata e mensagens edulcoradas.

(A extrema direita, isto é, a direita avessa à democracia, opera na mesma linha, sem a graça e o calor do esquerdismo radical, que, ao menos, tem estofo e se ridiculariza sem pudor, sob aplausos, como ao festejar o recurso à ONU do ex-presidente Lula Iº e Único, o Perseguido, e defender até o fim a presidente afastada, Rousseff, a Mais Honesta.)

O jornal é uma diversão; o jornalismo e a escritura, razão de viver.

É quase sempre divertido fazer um jornal sério que se quer livre.

Bobagem tentar prendê-lo. Melhor entrar na dança.


A todos os leitores, especialmente aos que andam cheios de ódio para dar, a rádio JS dedica esta canção de Cole Porter. A gravação é de David Byrne, acompanhado pela inconfundível bateria do Olodum, do álbum Red Hot + Blue, de 1990 – acompanhe a letra indo aqui

 Jornalistas da “Gazeta do Povo” são premiados; este jornal aplaude

A liberdade de imprensa talvez tenha de ser engolida
em um país de tradição patrimonialista,
onde até um cargo público pode ser tomado como propriedade individual

PREMIAÇÃO GAZETA DO POVO

As garantias constitucionais à liberdade de imprensa e as reiteradas manifestações do STF que asseguraram esses princípios não inibiram muitos juízes a desafiá-los, ainda hoje, quase 30 anos depois de promulgada a Constituição Federal.

A perseguição a jornalistas da Gazeta do Povo, por magistrados do Paraná, cuja articulação poderia lembrar a um desavisado uma ação quadrilheira, é mais um episódio corriqueiro das dificuldade de a liberdade de imprensa ser compreendida, assimilada ou, talvez fosse melhor dizer, engolida em um país de tradição patrimonialista, no qual inclusive os cargos públicos são, muitas vezes, tomados como propriedade individual.

Como qualquer cidadão, obviamente um juiz pode se defender quando se sentir vítima de abuso praticado por jornalista ou veículo de imprensa. Não é disso que se trata aqui.

Em todo país, juízes se sentem à vontade para processar jornalistas, impedir a publicação de reportagens e até determinar que apaguem conteúdos de sites na internet, ou seja, se veem respaldados pelo Judiciário para cercear uma atividade fundamental no Estado Democrático de Direito.

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UM ARTIGO OPORTUNO

“O Poder que brilha em tempos de Lava-Jato é o Judiciário. É verdade que a concorrência facilita. Executivo e Legislativo andam metidos em tantas e tamanhas falcatruas que o simples fato de juízes e procuradores não frequentarem tão assiduamente as páginas policiais na condição de investigados já lhes dá larga vantagem”, diz Hélio Schwartsman, na Folha.

E, mais à frente (com trechos destacados pelo JS): “Como a maioria dos brasileiros, vejo com bons olhos a mudança de paradigma representada primeiro pelo mensalão e depois pela Lava-Jato, mas não faço uma avaliação tão benigna do Judiciário.”

“Ao contrário, penso que ele, pelo que não faz, ou seja, pela ineficiência, é um dos responsáveis pela crise que vivemos.

“Se nossa Justiça não permitisse que políticos passassem anos respondendo a processos e inquéritos sem uma definição sobre sua culpabilidade, não teríamos casos como os de Eduardo Cunha, Renan Calheiros e tantos outros que se tornaram uma das principais fontes da instabilidade política que vivemos.

“E não há nenhuma desculpa para a baixa eficiência de nossa Justiça. Ao contrário, em termos comparativos, temos um dos Judiciários mais caros do mundo. Trabalho de Luciano Da Ros, da UFRGS, publicado em julho passado, mostrou que a Justiça brasileira (sem contar Ministérios Públicos e Defensorias) consome 1,3% do PIB, o que representa 6,5 vezes mais do que a França (0,2%) ou 4 vezes mais que a Alemanha (0,32%).”

UM PRÊMIO OPORTUNO

As ações orquestradas contra os jornalistas paranaense causaram rusgas entre as associações de juízes e inspiraram a premiação concedida a eles pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), conforme relata o Estadão.

SÃO PAULO – Alvo de 45 ações judiciais movidas por magistrados e promotores do Paraná em diversas comarcas do Estado, a série de reportagens sobre os vencimentos recebidos por juízes e representantes do Ministério Público neste ano rendeu ao jornal Gazeta do Povo o prêmio ANJ de Liberdade de Imprensa 2016.

 (…)

Concedida pela Associação Nacional de Jornais, a premiação é voltada a iniciativas que tiveram relevante atuação na promoção da liberdade de expressão e de imprensa no País. “Considero esse prêmio concedido ao jornal Gazeta do Povo uma mensagem de solidariedade de todos os jornais brasileiros, representados pela ANJ, unidos pela causa comum da liberdade de imprensa”, disse o presidente da ANJ, Carlos Fernando Lindenberg Neto, do jornal capixaba A Gazeta.

Os vencedores são os repórteres Francisco Marés, Euclides Lucas Garcia e Rogério Waldrigues Galindo, o analista de sistemas Evandro Balmant e o infografista Guilherme Storck, autores das reportagens, publicadas em fevereiro pelo jornal.

Desde abril, o conteúdo do material tem sido questionado na Justiça, com ações ajuizadas em várias cidades paranaenses. Áudio divulgado reforçou a suspeita de uma ação coordenada dos magistrados. Nele, o presidente da Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar), Francisco Mendes Júnior, fala em um “modelo de ação individual” para que “cada um possa ingressar com essa ação individual, caso considere conveniente”. Em maio, a defesa do jornal entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal para que o caso seja julgado em Brasília.

Desde a publicação das reportagens, os autores passaram a ter de dividir o tempo entre o trabalho e as audiências. Entre abril e maio, eles tiveram de comparecer a 17 delas em dez cidades. “Ao passar de dois a quatro dias de cada semana, desde abril, em viagem para audiências, eles estão sendo impedidos de exercer regularmente sua profissão”, disse o diretor de redação da Gazeta do Povo, Leonardo Mendes Júnior.

(…)